domingo, 30 de março de 2014

Retiro Quaresmal - Na Piscina do Enviado, a Luz!

XXVI dia da Quaresma - XXII dia de penitência


Meu caro Leitor, depois de ter meditado o belíssimo evangelho da Samaritana, desejo agora meditar com você o profundo texto quaresmal do cego de nascença. Lembre-se: estes são textos que a Igreja usou no tempo da Quaresma desde a antiguidade para preparar os catecúmenos para o Batismo. Nosso texto é Jo 9,1-41. É bom ter em mente que este texto será completado no IV Domingo da Páscoa, com o Evangelho do Bom Pastor, que é a sequência do debate de Jesus com os fariseus, após a cura do cego neste IV Domingo da Quaresma!

1Ao passar, Jesus viu um homem, cego de nascença. 2Seus discípulos Lhe perguntaram: “Rabi, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?” 3Jesus respondeu: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus”.

Comentando:

Jesus encontra-se em Jerusalém para a Festa das Tendas. Desde o capítulo VII João conta os embates do nosso Senhor com os judeus durante esta Festa. Foi durante esta ocasião que o Salvador revelou-Se de modo patente como o Enviado do Pai e os judeus optaram decididamente por rejeitá-Lo e não reconhecer Nele o Messias prometido por Deus e esperado por Israel. Não haverá nunca como negar esta dramática realidade: Jesus fora enviado primeiramente a Israel e Israel – o de ontem e o de hoje – O rejeitou: “Veio para o que era Seu e os seus não O receberam” (Jo 1,11). Mas, atenção: também nós, cristãos, corremos sempre o risco de rejeitá-Lo na prática. Aliás, o Ocidente, que já fora cristão, não O rejeitou nos dias de hoje? Não está se tornando cada vez mais pagã, ateia mesmo, a nossa cultura, as nossas leis, o nosso Brasil? Brasil, Brasil, olha para o teu Governo, para os representantes que teu povo escolheu: promovem leis iníquas, que destroem tudo quanto é realmente humano, digno, decente, cristão... Gente eleita pela tua gente... Lembras-te ainda, Brasil, de que um dia foste cristão, de que um dia nasceste como Terra de Santa Cruz? Recordas-te, Brasil, de que um dia foste batizado?

Jesus passou e viu um cego de nascença... Desde já é importante compreender que este cego é todo aquele que ainda não crê em Jesus, que ainda não viu Nele o Filho de Deus. Jesus passa e vê a humanidade imersa na cegueira do pecado; Jesus passa e nos vê: vê a mim, vê a você... Vê-nos cegos pela cegueira do pecado... Nascidos todos no pecado, somos todos cegos e mendigos até que não sejamos curados pela luz Daquele que é a Luz do mundo! Não esqueçamos: ninguém nasce filho de Deus; nascemos todos filhos da ira (cf. Rm 1,18); concebidos todos como pecadores (cf. Sl 51/50,7), porque “todos pecaram e todos estão privados [da luz] da Glória de Deus - e são justificados gratuitamente, por Sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus!” (Rm 3,23s)

Atenção ainda: para João, crer é ver Jesus, vê-Lo com fé, contemplá-Lo, enxergar Nele o Filho. O Enviado do Pai! Isto é importantíssimo, é fundamental nas Escrituras santas:o  Deus que no Antigo Testamento podia apenas ser ouvido (e por isso não se podia fazer imagem alguma Dele), agora, em Jesus, “Imagem do Deus invisível” (Cl 1,15), pode ser visto, tocado, ouvido, apalpado (cf. 1Jo 1,1ss). Do Antigo para o Novo Testamento a ênfase passa do “ouvir” para o “ver” porque o Verbo-Palavra invisível Se fez carne visível e nós vimos a Sua glória (cf. Jo 1,14).

Os discípulos veem o cego e interpretam sua triste situação de cego mendigo com as explicações falsas da época. Pensam, como os reencarnacionistas e os adeptos de outras doutrinas igualmente pagãs, que ele está cego para pagar por seus pecados ou, segundo uma antiga crença do povo [que os profetas Jeremias e Ezequiel condenaram e o povo teimava em continuar crendo], que o cego está pagando pelos pecados de seus antepassados.
Atenção: os judeus não pensavam que o cego estaria pagando por pecados de uma vida passada, mas por pecados que poderia ter cometido no ventre materno! Efetivamente, vários rabinos ensinavam que já no ventre se poderia pecar... Por isso os apóstolos pensam que talvez por um pecado assim aquele lá havia nascido sem enxergar. Quanto à crença de que os filhos pagariam pelos pecados dos pais, veja o que dizem contra ela os profetas Jeremias (cf. 31,29-30) e Ezequiel (cf. 18,1-32). E, no entanto, o povo e os apóstolos continuavam com essas crenças! Jesus os corrige, deixando claro que não existe uma relação assim automática de causa e efeito para o sofrimento e a dor humanas... A existência é um mistério: não compreendemos tudo, não sabemos tudo! Pelo contrário: quase nada é o que compreendemos da vida com suas vicissitudes e misteriosos acontecimentos, por vezes tão escandalosamente dolorosos. Mas, Jesus nos previne para um fato muito importante: de tudo pode-se tirar um bem e mesmo nas situações mais obscuras e tristes a glória de Deus pode se manifestar. É o que acontecerá com este cego e o que ocorrerá na casa de Marta, Maria e Lázaro (cf. Jo 11,4). Nunca se esqueça, meu Leitor: as coisas reveladas pertencem aos homens, aquelas obscuras pertencem ao Senhor! Haverá sempre tanto da realidade nossa e do mundo que nunca compreenderemos! É na fé, com os olhos no amor de Deus que se manifestou de modo pleno e absoluto na dor trágica da Cruz e na gloriosa Ressurreição do Senhor, que podemos compreender sem entender bem como, que Deus está sempre silenciosamente presente na nossa vida, com Seu amor misericordioso. Assim é na alegria, assim na tristeza; assim na brisa suave e na tremenda força de um tsunami; assim num melancólico por de sol ou num tremendo terremoto. É sempre Ele, que misteriosamente nos visita e nos revela o quanto somos pequenos, o quanto nossos pensamentos são incertos e nossa lógica, capenga... Mas sempre Seu amor e Sua glória resplandecerão e poderão ser vistos por aqueles que creem e o não tentam. “Bendito sejas Tu, Adonai nosso Deus, que guardas os segredos!”

- Senhor Jesus, piedade que somos todos cegos!
Dá-nos tua luz, ó Tu que és a Luz!
Senhor Jesus, piedade que vivemos nas tremendas incertezas da vida!
Dá-nos confiar sempre em Ti, que nos amas e nos vês sempre!
Senhor Jesus, piedade quando as escuridões da vida abalam a nossa fé tão débil!
Dá-nos força para Ti bendizer, pois sabes tudo e em tudo nos amas!
Senhor Jesus, piedade de nós na hora da dor e da ameaça dos absurdos!
Dá-nos dizer: “Bendito sejas Tu, Senhor nosso Deus, que guardas os segredos!”
Senhor Jesus, eu creio! Mas aumenta a minha pouca fé!

Sustenta minha fé na noite da vida, ó Tu, Luz sem ocaso, Luz do mundo!


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