domingo, 23 de março de 2014

Retiro quaresmal – A Água que somente o Senhor pode dar

XIX Dia da Quaresma – XVI de penitência

O texto da Escritura Santa que a Igreja hoje nos faz ouvir como primeira leitura (Ex 17,1-7) é tremendo, trágico mesmo!
Comecemos com o versículo primeiro desse capítulo 17 do Êxodo: Israel, recém-saído do Egito, parte para Rafidim, “segundo a ordem do Senhor”. É o Senhor Quem orienta Israel, Quem dita o tempo do caminho e o traçado da estrada... Mas, ali, aonde o Senhor levara “não havia água para o povo beber!” Como o agir do Senhor nos desconcerta, caro Irmão! Como é possível que o Altíssimo leve Seu rebanho para um lugar ermo e seco, onde não há o que é mais essencial à vida: a água?! – Senhor santíssimo, por que ages assim? Por que Teus caminhos nos são tão misteriosos? Por que Teu proceder escapa sempre à nossa lógica, colocando-nos em crise?

Que desastre: milhares de pessoas num deserto áspero, sem ter o que beber! Seria o fim, seria, inexoravelmente, a morte! Coloque-se no lugar de Israel, Irmão! Quantas vezes na vida encontramo-nos em situações extremas, sem saída alguma à vista!... Como é duro!

“O povo discutiu, pois com Moisés, e disse: ‘Dá-nos água para beber!’” Observe bem: o povo discute com Moisés, mas sabe que é o Senhor Quem dirige Israel, é o Senhor Quem guia o caminho. Na verdade, a crítica dos israelitas não é a Moisés, mas a Deus, a desconfiança de Israel é contra Deus! Não adianta discutir com Moisés, acusá-lo; Israel murmura, reclama, sussurra contra Deus!

Tem razão Israel? Humanamente, sim! A situação em que o povo se encontra é contra todo cálculo lógico, contra toda sensatez... Mas, Israel vira o que o Senhor fez no Egito: as pragas, os primogênitos mortos, o Mar aberto... Israel deveria ter guardado o no coração tudo isto; Israel não deveria ter esquecido: “Apenas fica atento a ti mesmo! Presta muita atenção em tua vida, para não esqueceres das coisas que teus olhos viram, e para que elas nunca se apartem do teu coração, em nenhum dia da tua vida!” (Dt 4,9) Esquecer o Senhor e Sua maravilhas, Sua ações em nosso favor – eis o princípio de todo pecado! É verdade que Israel se encontrava em uma situação calamitosa! Mas, não havia sido assim nos quatrocentos anos no Egito? Não havia sido assim às margens do Mar Vermelho? Quando, ó Israel, aprenderás a confiar no Santo, no Altíssimo, na tua Rocha, no Senhor teu Deus?

Irmão, Israel sou eu; Israel é você! Quantas situações na vida são tristes, apertadas, dolorosas, desesperadoras... Mas, o Senhor, quanto já nos deus – a mim e a você – de prova da Sua fidelidade? Israel, não te esqueças! Conserva no teu coração! Não murmures, não alimentes reclamações, dúvidas, queixas, amarguras no teu coração! O Senhor é Santo, o Senhor é Fiel, o Senhor é o Potente, o Senhor é Deus – só o Senhor é Deus no Céu e na terra!

O povo discute com Moisés, murmura, reclama... Como nós fazemos tantas vezes, contra um, contra outro, contra tal situação... “Dá-nos água para beber!” – diz o povo...
Na Escritura Santa, a água simboliza a vida, a bênção de Deus. Não adianta pedir a Moisés o que somente o Santo – bendito seja o Seu Nome! – pode dar! O homem não vive somente de pão, o homem não vive somente da água deste mundo! Só o Senhor dá a Vida, só o Senhor faz jorrar a água vivificante! Quando eu me convencerei disto? Quando você, Irmão, se convencerá disso? “Ah, todos vós que tendes sede, vinda à água! Por que gastais dinheiro com aquilo que não é pão e o produto do vosso trabalho com aquilo que não pode satisfazer? Escutai-Me e vinde a Mim, ouvi-Me e vivereis!” (Is 55,1-3)

Moisés desmascara o povo: é contra Senhor que murmuram, é do Senhor que reclamam, é no Senhor que não creem: “Por que pondes o Senhor à prova?” Moisés vai à raiz, desmascara o falta de fé de Israel! Olhe bem, Irmão: murmurar é por o Senhor à prova! A triste verdade é que muitas vezes não conseguimos enxergar a presença e os apelos de Deus nas situações da nossa existência! Ah, como somos superficiais: vemos a casca, vemos a superfície; não compreendemos com o olhar de fé que existe um Trono no Céu e sobre o Trono Alguém sentado (cf. Ap 4,2), Aquele que tudo tem em Sua mãos benditas, Aquele que leva em Suas mãos a nossa pobre vida e tudo quanto nos acontece!

Irmão, não tentemos o Senhor; não queiramos metê-Lo à prova! Ele não cabe na nossa lógica, Ele não Se submete aos nossos escrutínios: “Não tentarás o Senhor teu Deus!” (Dt 6,16). Ele é o Santo, Ele é Fidelidade, Ele é Amor! O que mais poderíamos querer e esperar Dele?

O povo sedento, desesperado, sem humana perspectiva, ao menos da pura lógica dos filhos de Adão, murmura: “Ali Israel teve sede e o povo murmurou contra Moisés, dizendo: ‘Por que nos fizeste subir do Egito, para nos matar de sede a nós, a nossos filhos e a nossos animais?’” Ah, Israel! Ah, amigo! Não foi Moisés quem tirou o povo do Egito; não foram os teus pais quem fizeram de ti cristão: foi o Senhor! Foi o Senhor – e eu tremo em dizê-lo! – Quem colocou Israel no pavor do deserto; foi o Senhor Quem te fez cristão, com tudo de trabalho e de graça que isto significa! Mal-agradecido, infiel, cego, lento para compreender! Confia no Senhor, ao Senhor, o Santo, o Amoroso, o Previdente, entrega o teu destino! “Confia em Deus e com certeza Ele agirá!” (Sl 37/36,5) Mas, do modo Dele, no tempo Dele, segundo os critérios e propósitos Dele! Ele é teu Deus! Tu te converterás a Ele, não Ele a ti!

Eis uma lição: a murmuração nos faz perder o sentido da fé, a visão de fé! Murmurar contra isto, contra aquilo, contra aquele... Murmuração: o grande pecado de Israel no deserto, nossa tentação: cochichar, reclamar, criticar... Baixinho criticamos, um a um, vamos espalhando nos ouvidos dos outros nossa crítica, nossa amargura, nossa insatisfação... A visão de fé, a perspectiva de quem vê com o olhar de Deus vai desaparecendo... Fica só a visão, a razão, a avaliação carnal, humana, como se Deus não existisse ou estivesse ausente! A murmuração nasce da falta de fé a à falta de fé conduz!

- Misericórdia de mim, Senhor! Piedade de mim, Senhor! Que eu possa ver em tudo e em todas as situações a Tua misteriosa presença! Que eu creia sempre que Tu tudo conduzes nas Tua mãos benditas! Converte-me, ó Salvador, e eu serei convertido!

Vê, Amigo meu: o povo fingi não ver o Senhor; ou, pior ainda, faz como se Deus não existisse: na sua crise, vê somente Moisés e esquece do Santo – bendito seja o Seu Nome! Por isso se amargura, por isso se rebela, por isso se revolta e peca! Moisés mantem-se sereno, consegue ver o Senhor! Que faz ele? “Então, Moisés clamou ao Senhor...” Eis, como é simples: o sem fé murmura; o que tem fé clama ao Senhor, abre-se a Ele, Dele espera a luz, a orientação, a salvação! O povo se fecha na sua lógica, nas suas possibilidades, nos seus cálculos; Moisés se abre ao Eterno, pede-Lhe socorro, espera Sua resposta, procura Sua vontade! Você é assim, Israel, membro da Igreja, novo Povo santo de Deus?

O Senhor manda Moisés ferir a Rocha: “Ferirás a Rocha!” - Oh, que bela imagem, que santa profecia, que emocionante e comovente imagem: “Essa Rocha era Cristo!” (1Cor 10,4); foi Ele traspassado por nós: “Um dos soldados traspassou-Lhe o lado com a lança e imediatamente saiu sangue e água!” (Jo 19,34)! Ajoelha-te, cristão! Contempla, admira-te, adora! Emociono-me ao pensar nisto! Como o Santo é grande, como o Senhor é Imenso! Quanto mistério, quanta sabedoria, quanta presciência! Aquela rocha é tipo, imagem profética do amado e doce Redentor: Ele, ferido na cruz, rasgado como a rocha; Ele, a Rocha, fez brotar do Seu seio ferido, transpassado, a Água da Vida, que é o Seu Santo Espírito: “Do Seu seio correrão rios de água viva!”((Jo 7,37) Ele, o nosso Jesus, o doce Jesus, o amado Jesus, é a Rocha perene que sacia e saciará sempre a sede do Israel da Antiga Aliança e da Nova Aliança: Israel segundo a carne (os judeus) e Israel segundo o Espírito Santo das água do Batismo (a Igreja)!

 Da água da rocha Israel bebeu quarenta anos, pois segundo os rabinos do tempo de Jesus, a rocha acompanhou o Povo durante os quarenta anos do deserto! Cristão lento para compreender! Durante a travessia desta vida – que é um deserto tremendo de incerteza e insegurança – o Senhor Jesus, o Santo, o Altíssimo, o Deus nascido de Deus e Luz gerada da Luz, te acompanha, fazendo sempre jorrar do Seu seio a água do Batismo que te dá o Espírito como Vida nova, e o Sangue da Eucaristia, que te concede o Espírito Eterno no Qual o Filho ofereceu-Se ao Pai em oblação por nós e pelo mundo inteiro (cf. Hb 9,14). Como não se emocionar, como não admirar ao pensar nestas coisas?!

A água correu da rocha, como correu do lado do Salvador, Ele, a Rocha eterna! No Céu, Ele Se encontra de pé, ressuscitado, mas ainda imolado, ferido de lado, de Coração, do qual borbulham a água do Espírito no Batimo e o sangue da Eucaristia! E esta água, que é o Santo Espírito do Senhor, dado pelo Imolado e Ressuscitado, continua correndo, como rio de água viva que continuamente rega a Igreja, Cidade de Deus (cf. Sl 46/45,5). Ah, que o Santo sempre nos vence com Sua bondade, com Sua misericórdia, com sua fidelidade eterna!

Mas, o nome daquele local ficaria para sempre, ficará para todas as gerações, no coração de Israel e da Igreja: Massa e Meriba: provação e contestação, pois ali Israel fez uma pergunta sacrílega, ingrata, infiel: “O Senhor está no meio de nós ou não?”  Que dor para o Coração de Deus: Israel duvidou da presença do Senhor! Israel pensou que o Senhor o abandonaria, que o Senhor não veria sua situação de penúria! Israel pensou que o Senhor poderia esquecê-lo! “Por acaso uma mulher se esquecerá de sua criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho do seu ventre? Ainda que as mulheres se esquecessem, Eu não Me esqueceria de ti. Eu que te gravei nas palmas da mão!” (Is 49,15-16a)

Pensando nesta passagem tremenda do antigo Povo, a Igreja, diariamente, na Liturgia das Horas, exorta os seus filhos, a mim, a você: “Hoje, se ouvirdes a Sua voz, não endureçais o vosso coração, como em Massa e em Meriba, quando vossos pais Me provocaram, apesar de verem as Minhas obras!” (Sal 95/94)
Provação – as mil provações da vida, do caminho! Contestação – ai que dor! A nossa triste e covarde e descrente e velhaca atitude diante do Santo, do Fiel, que entregou por nós o Seu Filho, o Seu Amado!

Convertamo-nos! Piedade, Senhor, porque pecamos contra Ti! Somos duro de coração, desconfiados, prepotentes! Vê, Eterno! Pensamos que podemos saber melhor que Tu o que nos convêm! Tem piedade de nós, loucos, incrédulos, prepotentes! A Ti a justiça, a Ti a glória, a Ti o louvor, a Ti a adoração, a Ti todos os dias e situações da nossa vida, pelo Teu Santo, Bendito, Eterno, Divino e Imaculado Filho, Jesus Cristo, Senhor nosso, que com o Santo Espírito, Água que jorra para a Vida eterna, pelos séculos dos séculos. Amém!



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