quarta-feira, 22 de maio de 2019

A propósito de Jo 14,27-31a

O Senhor Jesus dá aos Seus discípulos o shalom de Deus: a paz da reconciliação com o Senhor Deus, o Eterno. Esta paz, a humanidade perdera com o pecado; somente na Cruz pascal do Senhor ela poderia ser recuperada: "O castigo que nos dá o shalom caiu sobre Ele; pelas Suas chagas fomos curados" (Is 53,5b). 

A paz que o Senhor dá aos Seus discípulos é fruto direto da ação do Seu Espírito: “Shalom, paz a vós! Recebei o Espírito Santo!” (Jo 20,19.22), disse o Senhor e continua a dizer continuamente à Sua Igreja, sobretudo na Eucaristia, quando comungamos com o Seu Corpo imolado e ressuscitado, no qual foi realizada a nossa paz, fruto da reconciliação com Deus (cf. Ef 2,13s.16)!

A paz que Cristo nos concede nada tem a ver com a paz do mundo: “Não vo-la dou como o mundo a dá!”
A paz de Cristo brota do nosso interior; é fruto único e exclusivo da ação profunda do Santo Espírito de Cristo em nós e brota da nossa união com o Cristo Salvador. Assim, mesmo na dor, na perseguição, nas provações exteriores e interiores, o cristão experimentará a paz!
Quanto à paz do mundo, depende das situações externas, é efêmera e jamais atinge as raízes do nosso ser: paz provisória, superficial, parcial, insuficiente, inconsistente...

A paz do cristão brota da experiência profunda e contínua da presença do Senhor entre nós, no âmago da vida da Sua Igreja: “Eu vou, mas voltarei a vós” na potência do Santo Espírito, no dom dos sacramentos cheios de Espírito Santo!
Este Espírito de paz brota do Pai que é fonte de tudo na Trindade Santa – por isso o Senhor diz que o Pai é maior que Ele, no sentido de que o Pai é Sua Fonte bendita, absoluta e primordial: “Se me amásseis, ficaríeis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é Minha fonte” – é este o sentido correto e profundo desta afirmação!
Brotando do Pai, o Espírito é eterna e totalmente derramado no Filho, que é gerado pelo Pai; do Filho, o Espírito transborda para fora da Trindade, numa explosão de Amor que tudo cria, sustenta e santifica!
É este Espírito de Amor, derramado eternamente sobre o Filho que, no tempo do nosso mundo, foi derramado de modo pleno sobre a humanidade de Jesus, ressuscitando-O dentre os mortos. Este Espírito de Amor, Espírito de Paz, Espírito-Amor, Espírito-Paz, o Senhor derrama sobre os Seus discípulos. Dizer “deixo-vos a Minha Paz” e dizer “deixo-vos o Meu Espírito” são a mesma coisa!

É este Espírito Quem convencerá o mundo, e sobretudo os cristãos, da veracidade do senhorio de Cristo Jesus! É Neste Espírito que o Senhor desmascarará o mundo e o seu Príncipe, que nada poderá contra o Senhor totalmente entregue ao Pai na Cruz e totalmente elevado em Glória na Ressurreição (cf. Jo 16,7-11)! Para o IV Evangelho, a Cruz e a Ressurreição são momentos da mesma Glória de Cristo: entregando-Se totalmente à morte em sacrifício, Ele revelou ao mundo o Seu amor pelo Pai e, ressuscitado, o Pai manifestou no Filho toda a Sua Glória (cf. Jo 12,28; 17,1), fonte de reconciliação e paz para toda a criação! E tudo isto se torna presente realmente no Altar da Eucaristia: no Seu Corpo imolado e ressuscitado está a nossa paz, a paz da Igreja, a paz da humanidade, a paz de toda a criação (cf. Ef 2,13-18)! Efetivamente, “grande é o Mistério da piedade!” (1Tm 3,16)


terça-feira, 21 de maio de 2019

A propósito de Jo 14,21-26

A Liturgia destas últimas semanas da Páscoa coloca-nos à Mesa da Última Ceia com o Senhor Jesus Cristo, o Ressuscitado que foi e continua imolado por nós. É a Eucaristia, bendito banquete sacrifical, o lugar absolutamente privilegiado para escutar o Senhor e com Ele nos encontrarmos (cf. 1Cor 11,26).

Na perícope desta segunda-feira da V semana pascal, o Senhor afirma que se alguém tem os Seus mandamentos, isto é, se os guarda, é porque O ama, é impelido pelo Espírito Santo; afinal, “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado” (Rm 5,5).
É o Espírito de Amor do Cristo que, em nós, faz-nos amá-Lo e, amorosamente, guardar os Seus mandamentos, que, no Amor, não são pesados (cf. 1Jo 5,3)! Esse Espírito de Amor não somente estabelece a comunhão profunda de Vida entre o crente e Jesus nosso Senhor, como também a comunhão com o Pai. Assim, como o Pai ama o Filho e a Ele Se dá no Espírito, assim também, o Filho, dando-nos o Seu Espírito, coloca-nos em comunhão com Ele e, através Dele, nesse mesmo Espírito, em comunhão com o Pai.

Como o amor é fonte de intimidade e de conhecimento, todo discípulo que realmente se deixa inundar e conduzir pelo Espírito do Amor de Cristo, não somente guarda os Seus mandamentos como também, mais e mais, vai conhecendo o Senhor, com um amor de comunhão, de revelação, de intimidade. Por isso mesmo, o mundo jamais poderá conhecer verdadeiramente o Cristo Jesus (cf. Jo 1,10; 17,25)! É ilusão de muitos cristãos, infelizmente, procurar e esperar do mundo compreensão, aplauso, aprovação! Nada disto! Nada disto (cf. 1Cor 1,15-25)!
O mundo em si mesmo não conhece nem reconhece a Palavra do Senhor, o mundo não O ama, o mundo é fechado para o Espírito do Ressuscitado (cf. 1Cor 2,12-16; 1Jo 5,19)!

Meus Irmãos, nunca esqueçamos: o Evangelho brotado do Coração de Cristo não é óbvio, não é de fácil acolhimento: ele gera rupturas, coloca em crise, exige conversão, demanda perseverança e combates espiritual, renúncia e capacidade de sofrer por amor! Ouvir o Senhor Jesus Cristo dá trabalho, tira-nos de nossa paz cômoda e feita sob medida (cf. Mc 1,14s; Lc 13,3ss.22-30; At 14,22)! 
Somente guiados pelo Espírito de Amor é que podemos dizer verdadeiramente, com o amor e com a obediência da fé, que “Jesus é o Senhor” da nossa vida. Sem o Espírito, somente poderemos dizer “anátema seja Jesus”, (cf. 1Cor 12,1-3) pois é impossível, para nós, sozinhos, guardar o Seus mandamentos e neles viver!

Rezemos! Imploremos ao Senhor o dom contínuo do Seu Espírito que nos é dado de modo perene nos sacramentos da Igreja, sobretudo na Eucaristia (cf. 1Jo 5,5-9a; Jo 6,51-63). Que este rio de água viva de graça, sempre o mesmo e sempre novo, nos renove (cf. Jo 4,13-14), nos converta, abra-nos os olhos, dê-nos sabedoria e docilidade de coração, a cada um de nós e à inteira Igreja, Esposa do Cordeiro e nossa Mãe católica!



sábado, 18 de maio de 2019

Homilia para o V Domingo da Páscoa - ano c

At 14,21b-27
Sl 144
Ap 21,1-5a
Jo 13,31-33a.34s

Durante todo o Tempo pascal a Igreja nos faz contemplar o Ressuscitado e o fruto da Sua obra: o dom do Espírito, a nossa santificação, os sacramentos que nascem do Seu lado aberto, a Igreja, Sua Esposa, desposada por Ele no leito nupcial da Cruz...
Hoje, precisamente, é para a Igreja, comunidade nascida da Morte e Ressurreição de Cristo, que a Palavra de Deus orienta o nosso olhar.

Primeiramente, é necessário que se diga sem arrodeios: Cristo sonhou com a Igreja, a amou e fundou-a. A Igreja, portanto, é obra do Cristo, foi por Ele fundada e a Ele pertence! Ela não se pertence a si mesma, não se pode fundar a si própria, não pode estabelecer ela própria a sua verdade. Tudo nela deve referir-se a Cristo, de Cristo depender, em Cristo viver e a Ele deve conduzir! Mas, há mais: não é muito preciso, não é muito exato dizer que Cristo “fundou” a Igreja. Não! Isto seria ainda pouco, muito pouco! A fundação da Igreja não terminou ainda: Cristo continua fundando, Cristo funda-a ainda hoje, ainda agora, nesta Eucaristia sagrada! Continuamente, o Cordeiro de pé como que imolado (cf. Ap 5,6), Cabeça da Igreja que é o Seu Corpo (cf. Cl 1,18), funda, renova, sustenta, santifica, Sua dileta Esposa pela Palavra e pelos sacramentos: “Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, a fim de purificá-la com o banho da água e santificá-la pela Palavra, para apresentá-la a Si mesmo a Igreja, gloriosa, sem mancha nem ruga, ou coisa semelhante, mas santa e irrepreensível!” (Ef 5,25-27). São afirmações impressionantes, belas, profundas:

(1) Cristo amou a Sua Igreja e, por ela, morreu e ressuscitou;

(2) pela Sua Morte e Ressurreição, de amor infinito, Ele purifica continuamente a Sua Igreja, santifica-a totalmente, sem desfalecer. Por isso a Igreja é santa, será sempre santa e não poderá jamais perder tal santidade, apesar das infidelidades de seus membros!

(3) Este processo de contínua fundação e santificação da Igreja em Cristo dá-se pelo “banho da água”– símbolo do Batismo e dos sacramentos em geral – e pela “Palavra”– símbolo da pregação do Evangelho. Então, Cristo continua fundando, sustentando, renovando, edificando a Sua Igreja neste mundo pela Palavra e pelos sacramentos, sobretudo o Batismo e a Eucaristia.

A Igreja não se pertence: ela é de Cristo! E, como esposa de Cristo, é nossa Mãe: ela nos gerou para Cristo no Batismo, para Cristo ela nos alimenta na Eucaristia e de Cristo ela nos fala na sua pregação! Ela é a nossa Mãe católica, desposada pelo Cordeiro imolado na Sua Páscoa, como diz o Apocalipse: “estão para realizar-se as núpcias do Cordeiro e Sua Esposa já está pronta: concederam-lhe vestir-se com linho puro, resplandecente!” (19,7s).

Pois bem, esta Igreja, tão amada por Cristo, tão nossa Mãe, deve caminhar neste mundo nas dores de parto. Temos um exemplo disso na primeira leitura da Missa de hoje. Paulo e Barnabé vão animando as comunidades, “encorajando os discípulos a permaneceram firmes na fé”, pois “é preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus”. Assim caminha o Povo de Deus, Comunidade fundada por Cristo e vivificada pelo Seu Espírito: entre as tribulações do mundo e as consolações de Deus.
Muitas vezes, a Igreja enfrentará dificuldades por parte de seus inimigos externos – aqueles que a perseguem direta ou veladamente, aqueles que desejam o seu fim e, vendo-a com antipatia, trabalham para difamá-la. Mas, também, muitas vezes, a provação vem de dentro da própria Igreja: das fraquezas de seus membros, das infidelidades à doutrina católica e apostólica “uma vez por todas confiada aos santos” (Jd 3), dos escândalos provocados pela humana fraqueza daqueles que deveriam dar exemplo de uma vida nova em Cristo Jesus. Se é verdade que isto não fere a santidade da Igreja - porque essa santidade vem de Cristo e não de nós -, por outro lado, é verdade também que nossos escândalos e maus exemplos, nossas ambiguidades e falta de obediência à norma da fé, atrapalham e muito a credibilidade do nosso anúncio do Evangelho e a credibilidade do próprio Evangelho como força que renova a humanidade!

Infelizmente, enquanto o mundo for mundo, enquanto a Igreja estiver a caminho, experimentará em si a debilidade de seus membros. Assim, foi no grupo dos Doze, assim, nas Igrejas diocesanas do Novo Testamento, assim no tempo que se chama hoje. É interessante que o Evangelho hodierno começa com Judas, o nosso irmão, que traiu o Senhor, saindo do Cenáculo, saindo do grupo dos Doze, saindo da Comunidade dos discípulos:“Depois que Judas saiu do cenáculo”...– são as primeiras palavras do Evangelho... E, no entanto, apesar da fraqueza de Judas e dos Doze, apesar da nossa fraqueza, Jesus continua nos amando e crendo em nós: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como Eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros”. Não tenhamos medo, não desanimemos, não nos escandalizemos: o Senhor está conosco, ama-nos, porque somos o Seu rebanho, as Suas ovelhas, a Sua Igreja. Ama-nos e derramou sobre nós o Seu amor e Sua força que é o Espírito Santo!

Se agora vivemos entre tribulações e desafios externos e internos, nossa esperança é firmemente alicerçada em Cristo. Nele, venceremos, Nele, a Mãe católica, um dia, triunfará, totalmente glorificada e tendo em seu regaço materno toda a humanidade. Ouçamos – é comovente:

“Vi um novo céu e uma nova terra... O primeiro céu e a primeira terra passaram e o mar já não existe” – o Senhor nos promete um mundo renovado, sem a marca do pecado, simbolizado pelo mar.
“Vi a Cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, vestida qual esposa enfeitada para o seu marido”. - É a Igreja, totalmente renovada pela graça de Cristo, totalmente Esposa, numa eterna aliança de amor, realizada na Páscoa e consumada no fim dos tempos!
“Esta é a morada de Deus entre os homens. Deus vai morar no meio deles. Eles serão Seu povo, e o próprio Deus estará com eles”. - A Igreja é o “lugar”, o “espaço” onde o Reino acontece visivelmente: Deus, em Cristo, habita no nosso meio e será sempre “Deus-com-eles”, Deus-conosco, Emanuel!
“Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem choro, nem dor, nem morte, porque passou o que havia antes. Aquele que está sentado no trono disse: ‘Eis que Eu faço novas todas as coisas’”.

Caríssimos, olhai para mim, olhai-vos uns para os outros! Somos o rosto da Igreja, o cheiro da Igreja, a fisionomia da Igreja, a fraqueza e a força, a fidelidade e a infidelidade, a glória e a vergonha da Igreja! Tão pobre, tão frágil, tão deste mundo, mas também tão destinada à glória, tão divina, tão santa, tão católica, tão de Cristo! Coragem! Vivamos profundamente nossa vida de Igreja; é o único modo de ser cristão como Cristo sonhou! Soframos Glória! Como diz o Apocalipse, “estas palavras são dignas de fé e verdadeiras”. Amém.


A propósito de Jo 14,7-14

Somente Jesus nosso Senhor é o acesso para um mais profundo conhecimento de Deus. Ele veio do Pai, Ele é o Filho amado, que vive eternamente no seio do Pai e, no Amor, que é o Santo Espírito, é um só com o Pai, na perfeito e inenarrável unidade!  Pois bem, reconhecer Jesus nosso Senhor como o Filho eterno do Pai, que estava com Ele e Nele antes que o mundo existisse, desde toda a Eternidade, é conhecer também o verdadeiro Deus. Israel sabia que Deus é Um, que Deus é o Eterno, o Santo. Mas, Israel nunca imaginou que Deus é, essencialmente, Pai: o Eterno Pai do Eterno Filho na Eterna comunhão fecunda do Espírito de Amor! Somente reconhecendo Jesus Cristo como o Amado do Pai, Aquele que o Pai consagrou e enviou ao mundo, pode-se saber e experimentar e contemplar que o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó é essencialmente o Pai Eterno, um só com o Eterno Filho na comunhão do Eterno e Santo e Vivificante Espírito! “Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o Meu Pai”,saberíeis que o vosso Deus é o Meu Pai!

Por isso, “quem Me viu, viu o Pai: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim!” Eis por que somos cristãos, eis por que adoramos o Cristo Jesus, eis por que a Ele e por Ele damos a vida: Ele é o Deus verdadeiro vindo do Deus verdadeiro! Somente Nele o mundo e tudo quanto nele existe – e nós mesmos – tem existência e consistência!

E todo aquele que crê no Cristo de Deus e Nele é batizado, recebe o Seu Espírito. Este Espírito divino e divinizante, habitando em nós permanentemente, dá-nos a graça de continuar a obra de Cristo, Nele e por Ele fazendo mil coisas, mais abrangentes, criativas do que aquelas que Ele mesmo fez nos dias em que esteve entre nós! Não porque sejamos maiores que Ele, mas porque é Ele mesmo, ressuscitado, glorificado, Senhor de tudo, que, no Seu Espírito, age em nós e em nós glorifica o Seu Nome e o nome do Pai! Isto mesmo: no Espírito que o Filho glorificado recebeu do Pai e derrama continuamente sobre a Igreja pelos sacramentos, o Cristo Jesus continua agindo e realizando a Sua missão de Enviado do Pai, até que este mundo chegue ao seu termo, a história entre na Glória, o tempo desemboque na Eternidade e Deus o Pai, através do Filho Senhor, na potência do Espírito Vivo e Vivificante, seja tudo em todos. Então, o Reino estará consumado, e nós, plenos, e o mundo totalmente plenificado! Maranathá! Passe este mundo e venha a Tua graça! Bem, Senhor Jesus!


sexta-feira, 17 de maio de 2019

A propósito de Jo 14,1-6

No mundo, em meio às incertezas e vicissitudes próprias da existência, o cristão não deveria se deixar tomar pela perturbação em seu coração: o nosso Senhor está conosco e vai guiando a Sua Igreja e cada um de nós para o destino que nos preparou: o Coração do Pai, pronto para dar guarida a todos.

Sim, nosso destino, o destino de toda a humanidade e de toda a criação é o Pai. Ele é o Destino absoluto! Não chegar a Deus é frustrar-se, é fracassar radicalmente na existência, tornando a vida uma grande mentira, um insuportável absurdo. 

Mas, qual o caminho para se chegar a Deus, saudade do nosso coração, anelo da nossa alma?
O Caminho único, exclusivo, suficiente, reto, é Jesus nosso Senhor! Quaisquer propostas, quaisquer vielas, quaisquer desvios ou atalhos que afastem desse Caminho, nos colocarão a perder, destruirão a nossa existência! Nunca esqueçamos: o Caminho é Jesus nosso Senhor! Só Ele!

Ele é o Caminho porque somente Ele é a nossa Verdade. Viver Nele é viver naquilo para que fomos criados, é viver autenticamente, é viver verdadeiramente. Afastar-se dessa Verdade é viver uma ilusão, uma mentira, é fazer da vida uma realidade inautêntica, sem verdadeira consistência, privada de sentido mais profundo.

Ele é também a Vida, a nossa Vida, Vida plena, Vida divina, Vida eterna! Somente Jesus nosso Senhor pode nos dar aquela Vida de que nosso coração tem fome e sede; Vida que nada nem ninguém pode nos obter, porque não provém deste mundo, mas do próprio Deus Vivo e Vivificante!

Não tenhamos medo: Ele, o nosso Senhor, é fiel, Ele está no Pai, Ele nos conduz ao Pai, Ele nos fará participantes em plenitude da Glória do Pai! Nele, nossa vida tem sentido, nosso caminhar neste mundo tem direção!
Vamos, levantemo-nos, mantenhamos os olhos fixos em Cristo, o Autor e Consumador da nossa fé (cf. Hb 12,2). A Ele a glória para sempre!


Em Cristo, a possibilidade de uma vida realmente nova

Tome, Irmão, a Palavra das Escrituras: Cl 2,12-14. Aí, São Paulo faz três afirmações de profunda penetração teológica:

1. “Com Cristo fostes sepultados no Batismo; com Ele também fostes ressuscitados por meio da fé no Poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos”.

Nunca será demais repetir e incutir no coração do Povo de Deus que os sacramentos não são simples cerimônias. Sacramento não é mágica, não são cerimônias privadas, festas sentimentais de família, celebrações íntimas e emotivas!

Ele são os sagrados mistérios, que realizam em cada cristão e na Igreja toda o mistério do próprio Cristo Jesus: celebrando-os, recebemos de modo próprio a cada um deles, o Espírito do Cristo imolado e ressuscitado, que nos dá a Sua Vida e nos configura a Ele, nosso Salvador e modelo.
É o caso do Batismo, de que fala o Apóstolo aqui: realmente por obra do “Poder de Deus” (que é o Espírito Santo), fomos realmente sepultados com Cristo e com Ele, ressuscitados.
Primeiro cremos (“por meio da fé”, diz São Paulo). Crendo, pedimos o Batismo, que nos dá o Santo Espírito, simbolizado e transmitido pela água batismal.
O que esse Espírito faz em nós? Faz-nos participantes primeiramente da Morte de Cristo, mergulha-nos na Sua Morte:

a. O homem velho começa a morrer em nós, pois a presença do Espírito abre-nos para Deus, corrigindo o fechamento próprio da nossa natureza pecadora.

b. As mortes (contradições e negatividades) da vida, vamos, então, vivenciando-as em união com Cristo, vamos morrendo com Ele, fazendo de tudo isso uma participação na Sua Morte redentora e sacerdotal.

c. Mas também, com Ele, tudo isso vai se tornando vida nova, modo de viver que já nos prepara para a Vida eterna. É um mistério estupendo: já neste mundo, desde o Batismo, a Páscoa de Cristo vai acontecendo em nós, fazendo seu caminho na nossa vida – e isto é uma realidade enorme na nossa pobre existência: nosso viver se torna viver com Cristo, viver por Cristo, viver em Cristo, realmente!

2. “Ora, vós estáveis mortos por causa dos vossos pecados, e vossos corpos não tinham recebido a circuncisão, até que Deus vos trouxe para a Vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados”.

É a confirmação do que afirmei logo acima: estávamos numa vida de morte, pois o pecado, a vida sem Deus nos mata ao tirar o verdadeiro sentido da existência: sem Deus, o homem não tem consistência e a vida padece de falta de um sentido mais profundo, que lhe dê um sentido global. Viver longe de Deus é viver na ilusão, na superficialidade, na morte.
Quando São Paulo diz que nossos corpos não tinham recebido a circuncisão, ele recorda que os efésios, como também nós, não sendo judeus, não tínhamos a graça de ser Povo da Aliança. Ora, com Cristo, o importante não é mais ser judeu ou grego, escravo ou livre: o que importa é, pela fé, aderir a Cristo e Nele ser batizados, sendo Nele mortos e ressuscitados!

3. “Existia contra nós uma conta a ser paga, mas Ele a cancelou, apesar das obrigações legais, e a eliminou, pregando-a na Cruz”.

O Apóstolo recorda a gravidade da situação humana: havia contra nós uma sentença de morte; “éramos, por natureza, filhos da ira” (Ef 2,3) e de Deus, éramos “inimigos, pelo pensamento e pelas obras más” (Cl 1,21) e a “ira de Deus”permanecia sobre nós (cf. Jo 3,36). Cristo rasgou esta sentença de morte na Sua bendita e salvífica Cruz!

Hoje, por infelicidade, há uma grande tendência a esquecer isso. A ideologia do relativismo, do politicamente correto e do multiculturalismo tende a enganar, insinuando que a humanidade é boazinha e tudo que ela produz é bom; cego e pervertido seria quem não vê a bondade da nossa cultura, tão livre, espontânea e cheia de boas intenções... Ora, isso é falso e contrário à concepção cristã! A humanidade, criada boa e essencialmente boa, é, no entanto, ferida, pervertida e, sozinha, não se encontra nem encontra o caminho; a humanidade é um poço de contradições (cf. Rm 7,14-25)... Somente em Cristo o homem encontra o perdão dos pecados e a paz com Deus, somente em Cristo o homem recebe a Vida eterna (cf. Jo 17,3; Ef 1,7)! Não há salvação possível fora de Cristo e Cristo é o único Salvador que Deus deu à humanidade: crer Nele e a Ele aderir é o caminho que Deus sonhou e deseja para todo homem que vem a este mundo (cf. Jo 1,9; 17,3; At 4,12)!

Medite sobre estas palavras do santo Apóstolo. Que cresça sempre mais nossa fé, nosso amor, nossa adesão total e incondicional ao Cristo, nosso Deus Salvador!


quinta-feira, 16 de maio de 2019

A propósito de Jo 13,16-20

Jesus Cristo é o único Senhor; Jesus Cristo é o único Mestre. Na Igreja não há outros senhores ou mestres. Qualquer um que seja líder, pastor do rebanho ou mestre do Evangelho, deve, fielmente, transmitir o que recebeu do Senhor pela Tradição escrita ou oral, presente na vida da Igreja por ação do Santo Espírito de Cristo. Na Igreja, o verdadeiro mestre em Cristo, o verdadeiro pastor no Cristo Bom Pastor, deve sempre poder exclamar: “Lembro-vos, irmãos, o Evangelho que vos anunciei, que recebestes, no qual permaneceis firmes e pelo qual sois salvos, se o guardais como vo-lo anunciei; doutro modo teríeis acreditado em vão. Transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo recebi!” (1Cor 15,1-3a).

Nenhum cristão está acima de Cristo; nenhum cristão está no mesmo nível de Cristo! Interessante que o nosso Salvador, naquela última Ceia, tenha dito estas coisas e, no mesmo instante, tenha também feito referência ao discípulo que, mesmo sendo chamado e, sentando-se à Sua Mesa, comendo com Ele, O traíra, levantando contra o seu Mestre o calcanhar da ingratidão...

Sim, é bem possível dizer-se cristão e trair o Senhor; é possível ser pastor da Igreja e se esquecer que o discípulo não é maior que o Mestre nem o enviado, maior que Aquele que o enviara... E tudo isto fere, gera escândalos, traz sofrimentos, denigre a vida da Igreja...
Uma coisa é certa: aquele que se coloca fora do seguimento do Mestre, alienando-se do caminho que Ele traçou, não pode ser recebido como um Seu enviado! Somente é verdadeiramente enviado aquele discípulo que se comporta segundo o Mestre e fala o que Dele ouviu e aprendeu, bebendo na perene Tradição de fé e de vida da santa Igreja, Corpo de Cristo e Templo do Santo Espírito, Tradição esta presente nas Escrituras e na existência mesma da Igreja, geração após geração...

Mas, não devemos nunca nos assustar: “Desde agora vos digo isto, antes de acontecer, a fim de que, quando acontecer, creiais que Eu Sou”.