quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Ainda sobre a Palavra deste XXIV Domingo:

Pedro rápido, imediato na resposta,
certeiro, preciso:
"Tu és o Cristo!"
O Messias de Deus,
prometido,
anunciado,
esperado,
apontado,
agora, chegado!
Tu és o Salvador do mundo,
o Redentor da humanidade,
o Revelador do Pai,
o abraço de Deus,
o Amém,
o Sim,
o Cumprimento que supera toda promessa.
"Tu és o Cristo!" Mas, Pedro sabia o que isto significava?
Tantos dizem que Ele é o Cristo,
mas não sabem o conteúdo disto!
Por isso, silêncio!
Calados!
"Então proibiu-os severamente
severamente!
severamente!
severamente!
de falar a alguém a Seu respeito!"
Nada de falar Dele,
se não sabe o que Ele é,
Quem Ele é,
que tipo de Messias Ele é!
Silêncio!
Nada de améns, aleluias,
glorias a Deus!
Silêncio!
Nada de promessas vãs:
sucesso,
bens materiais,
empregos,
problemas resolvidos,
curas por atacado!
Silêncio!
Severamente!
Não sabeis o que é Messias!
Não sabeis o que dizeis!
Silêncio! Severamente!
Severamente!
Severamente!
Mente...
Messias!
Que Messias?
Qual Messias?
Que tipo de Messias?
Silêncio,
se não sabeis a resposta1
Silêncio!
Silêncio!
Cuidado com os falsos messias!
Messiânicos...


Sobre a Palavra santa deste XXIV Domingo

Depois da pergunta,
A Pergunta,
fundamental, inapelável, decisiva:
"E vós, quem dizeis que Eu sou?"
é pergunta para mim,
para você,
para cada discípulo,
para todo discípulo.
E não tem como calar,
como não responder.
Não responder é dar a pior resposta,
a pior de todas:
dos covardes, que pensam poder sair de fininho...
E a resposta compromete,
porque só pode ser dada com a vida:
não é teórica, não é abstrata:
com a vida, com o modo de proceder
em relação ao Senhor e em relação aos próximos.
São Tiago falou disto na leitura de hoje:
fé sem obras,
amor sem vértebras:
inútil, à toa, inexistente.
Então:
"E vós, quem dizeis
e tu, quem dizes
que Eu sou?"
Cuidado com a resposta!
"Eu sou!"


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Sobre hoje, na Liturgia da Palavra - XXIV Domingo

Jesus no caminho:
Ele, na frente, adiante,
sempre;
os discípulos, atrás, seguindo-O.

No caminho,
uma pergunta:
"Quem dizem os homens que Eu sou?"

Quais as opiniões,
as apostas,
os titubeios,
as apalpadelas?

Judeus,
muçulmanos, hinduístas, budistas,
historiadores,
psicanalistas,
sociólogos,
filósofos da religião,
filósofos de quaisquer coisas,
de quaisquer escolas...

O que dizem Dele?

Aí vêm, aos montes, as opiniões:
unilaterais,
incompletas,
insuficientes,
erradas,
contraditórias...

No caminho...

Alguém é capaz de dar a resposta correta,
completa,
cabal?
Levante a mão e diga!

Quem Eu sou?
EU SOU!


sábado, 15 de setembro de 2018

Homilia para o XXIV Domingo Comum - ano B

Is 50,5-9a
Sl 114
Tg 2,14-18
Mc 8,27-35


O Evangelho que acabamos de ouvir apresenta-nos, caríssimos, alguns dos aspectos mais essenciais da nossa fé cristã, aspectos que jamais poderemos esquecer se quisermos ser realmente fieis a Nosso Senhor. Vejamo-los um a um:

Primeiro. A pergunta de Jesus: “Quem dizem os homens que Eu sou?”
Notem que as respostas são muitas: umas erradas, outras imprecisas, nenhuma satisfatória. Estejamos atentos a este fato: somente a razão humana, entregue às suas próprias forças, jamais alcançará verdadeiramente o mistério de Cristo. A verdade sobre o Senhor, Sua realidade mais profunda, Sua obra salvífica, o mistério de Sua Pessoa e de Sua missão, Sua absoluta necessidade para que o mundo encontre salvação, vida e paz somente podem ser compreendidos à luz da fé, isto é, daquela humilde atitude de abertura para o Senhor que nos vem ao encontro e nos fala. O homem fechado em si mesmo, preso no estreito orgulho da sua razão, jamais poderá de verdade penetrar no mistério de Cristo e experimentar a doçura da Sua salvação.
Quanto já se disse de Jesus; quanto se diz hoje ainda: já tentaram descrevê-Lo como um simples sábio, como um homem bom e justo, como uma espécie de pacifista, como um pregador de uma moral humanista, como um revolucionário, o primeiro comunista, como um hippie, etc.
Nós, cristãos, não devemos nos iludir nem nos deixar levar por tais visões do nosso Divino Salvador. Jesus é e será sempre aquilo que a Igreja sempre experimentou, testemunhou e ensinou sobre Ele: o Filho eterno do Pai, Deus com o Pai e como o Pai, o Messias, o único Salvador da humanidade, através de Quem e para Quem tudo foi criado no céu e na terra. Qualquer afirmação sobre Jesus que seja menos que isso, não é cristã e deve ser rejeitada claramente pelos cristãos!

Segundo. Ante as opiniões do mundo, o Senhor dirige a pergunta a nós, Seus discípulos: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”Pergunta tremenda!
Em cada geração, todos nós e cada um de nós devemos responder quem é Jesus. Não se trata de uma resposta somente teórica, teológica, digamos assim. Trata-se de uma resposta que deve ter sérias repercussões na nossa vida.
Então: quem é Jesus para mim? Que papel desempenha na minha vida? Como me relaciono com Ele? Amo-O? Procuro-O na oração, procuro de todo o meu coração viver na Sua palavra? Estou disposto a construir minha existência de acordo com a Sua verdade? Deixo-me julgar por Ele ou eu mesmo, discretamente, procuro julgá-Lo? São perguntas muito atuais, caríssimos, sobretudo hoje, quando nossa sociedade ocidental vira as costas para o Cristo, julgando-O anacrônico e ultrapassado. Agora que a nossa cultura já não considera mais Jesus como Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida, mas julga que a própria razão humana, com seus humores e pretensões, é que é a Verdade e a Luz, é, mais que nunca, essencial que nós proclamemos com a vida, com a palavra e com os costumes que Jesus é realmente o nosso Senhor, o nosso critério, a nossa única Verdade!

Terceiro. Pedro respondeu quem é Jesus: “Tu és o Messias!”, isto é, “Tu és o Cristo, o Esperado de Israel, Aquele que Deus prometera aos nossos Pais!”
Recordai, meus caros, que na mesma passagem, em São Mateus, Jesus declara claramente: “Não foi carne nem sangue que te revelaram isto, mas o Meu Pai que está nos Céus” (Mt 16,15). Insisto: somente o Pai, na potência do Santo Espírito que habita em nós e na Igreja como um todo, é que pode revelar-nos quem é Jesus. A fé não é uma experiência acadêmica, não é fruto de estudos, não se resume a uma especulação teológica. Para um cristão, crer é entrar na experiência que há dois mil anos a Igreja vem fazendo na Palavra, nos sacramentos, na vida de cada dia: a experiência do Cristo Senhor, que foi morto pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa Vida e justificação. Quem se coloca fora dessa fé, da fé da Igreja, já não é realmente cristão! Aqui é muito importante compreender que a nossa fé é pessoal, mas nunca individual: cremos na fé da Igreja, cremos no Cristo da Igreja, cremos como Igreja e com a Igreja, a de hoje e dos séculos passados. Uma outra fé, um outro Cristo seriam triste ilusão!

Quarto. O Evangelho nos surpreende com uma afirmação: “Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a Seu respeito”. Por quê? Porque havia o perigo de pensar nele como um messias glorioso, um messias como os sonhos dos judeus haviam fabricado: o messias do sucesso, das curas, dos shows da fé, dos palanques políticos, etc. Jesus somente afirmará de modo público que é o Messias quando estiver preso, amarrado, diante do Sumo Sacerdote. Aí já não haverá ocasião para engano. Mas, aqui a pergunta? Também nós, muitas vezes, não temos a tentação de querer um Cristo do nosso modo, sob a nossa medida, para nosso consumo? Amamos o Cristo como Ele é ou O renegamos quando não faz como gostaríamos? Estamos realmente dispostos a ir com Ele até o fim, crendo Nele e Nele nos abandonando?

Quinto. Exatamente para deixar claro que tipo de Messias Ele é, Jesus começa a dizer “que o Filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado; devia ser morto e ressuscitar depois de três dias. Ele dizia isso abertamente”. Eis, caríssimos, o tipo de Messias, o tipo de Salvador, o tipo de Deus que Jesus é! Será que nos interessa? Estamos nós dispostos a seguir um Mestre assim? Ele não é o cara legal, Ele não nos propõe um caminho popular, desses que os meios de comunicação e as redes sociais irão aplaudir... O caminho que o Messias enviado pelo Pai nos apresenta não é óbvio, não é assimilável pela nossa razão num nível simplesmente humano. Exige conversão!

Sexto. Não será a nossa a mesma atitude de Pedro, que repreende Jesus, que desejaria um mestre mais racional, mais palatável, menos radical, mais dentro da nossa lógica, mais compreensível ao mundo? Não é essa a maior tentação nossa: um Cristo sem cruz, um cristianismo sem renúncia, uma vida cristã que não nos custe nada, um seguimento de Cristo sem conversão?

Sétimo. A resposta de Jesus é clara, curta e dirigida perenemente a todos nós: “Se alguém Me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e Me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem quiser perder a sua vida por causa de Mim e do Evangelho, vai salvá-la!” O caminho é este, sem máscara, sem acordos, sem jeitinhos! Nosso Senhor nunca nos enganou; sempre disse claramente quais as condições para segui-Lo... E não há como negociar esta tremenda realidade!

Caríssimos, saiamos hoje daqui com estas palavras que nos incomodam, nos provocam e nos desafiam. Que Ele nos conceda a graça de reconhecê-Lo como nosso único Salvador, de segui-Lo como nossa única Verdade e de Nele viver como nossa única Vida, Ele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.


quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Absurdos sem limites numa sociedade que se tornou absurda

Escrevi há algum tempo... Escreveria de novo, cada palavra:

Aonde vamos? Até onde chegará a vulgaridade da nossa sociedade de consumo, que tudo consome e extingue de moral, de respeitabilidade, de senso de vergonha, de pudor, de limite que constrói e amadurece, de tudo quanto aprendemos dos nossos antepassados que era justo, reto, belo, louvável, digno?

Eis a sociedade ocidental: perdeu sua matriz geradora, a fé cristã. Foi o cristianismo a principal seiva a alimentar a consciência do Ocidente, foi a fé cristã a raiz que sustentou nossa civilização e deu-lhe em grande medida os parâmetros morais que a fez valorizar a dignidade da pessoa, o sentido da liberdade, a compaixão e a responsabilidade em favor dos mais fracos, a dignidade da mulher, o valor do corpo, etc. É esta moral que vai desaparecendo na sociedade ocidental pós-cristã, agora moribunda e irremediavelmente condenada à morte em seus valores.
Assim, tudo se pode esperar de deriva, de confusão moral, de leviandade, de inversão de valores! Pode alguém não concordar, mas afirmo: não se mantém a longo a moralidade de um povo se se elimina sua matriz religiosa. Ocidente ateu, Ocidente em franca decadência moral!

Por que escrevo isto? Pelo leilão de virgindade! Isto mesmo – e imagino que você, meu Leitor, já tenho visto a internet: um jovem russo de 23 anos e uma jovem brasileira de 20 anos estão leiloando sua virgindade. Ela quer construir casas para os pobres(!) com o dinheiro arrecadado; ele, tímido(!), heterossexual, pede que respeitem(!) sua sexualidade e os homossexuais não façam lance como candidatos a parceiros do moço virgem – até agora os maiores lances são de homens!

Que pensar de tudo isto? É condenável do ponto de vista humano, do ponto de vista cristão e de todos os pontos de vista que partam de algum critério de decência!
O nome disso? Prostituição vulgar e grosseira falta de pudor e de vergonha, falta de senso de limite e de ridículo!

Nada justifica que pessoas brinquem assim com sua sexualidade e, pior ainda, num tremendo mau exemplo, difunda sua imoralidade como algo louvável. E mais um detalhe: os familiares apoiam ou, no mínimo, respeitam! Eis aonde chegamos! Nem Roma no seu período de degradação moral pagã chegou a estes requintes!

Um outro exemplo: nesta semana, uma menina norte-americana de apenas 15 anos, foi candidamente à escola vestindo uma camisa com sugestiva inscrição: “Eu gosto de vagina”. A menina é homossexual e faz questão de propagar sua situação. A escola pediu que ela não mais vestisse aquela camisa no ambiente escolar. A reação foi decidida: a garota considerou-se tolhida no seu livre direito de expressão e acusou a escola de hipocrisia! Sua mãe, inacreditavelmente, concordou com a filha!

Basta! Não me alongarei mais! Não merece! Somente chamo atenção para a triste situação moral em que nos encontramos e da qual coisas desse tipo são sintomas. Mas, se olharmos bem, em maior ou menor escala, a mentalidade pagã e imoral (e não somente no aspecto sexual) está por toda parte, aplaudida, endossada, defendida e difundida.
Não é de se estranhar: tire Deus como absoluto; onde ancorar, como alicerçar qualquer moralidade? Se não há o Bem, a Verdade, então tudo pode ser bem – o meu bem –, tudo pode ser verdade – a minha verdade!

Como pode um cristão aplaudir um mundo assim? Pense nisto, porque tal mundo o cerca, o instiga a posicionar-se nas suas decisões, bate à porta da sua vida e não permite, na prática que você seja neutro. Não é possível ser neutro! Como você se coloca, meu Leitor amigo?
Certamente, um discípulo de Cristo não deve se amargurar, não deve ser soberbo, não deve se julgar melhor que ninguém, não deve condenar em bloco o mundo, não se arvora em juiz mesquinho, feito beata de novela, não demoniza tudo e todos. Mas, sabe distinguir o bem do mal – e seu critério é Cristo, o Filho de Deus, que a todos julgará.
O cristão não deve ter medo de dizer claramente que o mal é mal e que o bem é bem! Deve respeitar e dialogar com todos, mas deve também, serena e fortemente, lutar, combater para que a sociedade, se não consegue mais ver a Deus como inspirador de sua valoração moral, ao menos se inspire e se fundamente no que de mais nobre, sóbrio e belo a consciência humana retamente formada pode produzir.
Uma coisa é carta: uma moral e uma ideia de liberdade que tenham como centro a realização da pessoa sem limite algum, como um absoluto desvinculado de qualquer referência e compromisso com o bem, a sensibilidade e a consciência dos outros, são moral e liberdade doentias: moral imoral e liberdade escrava do próprio eu, num solipsismo insuportável, imaturo e destrutivo.
Estejamos atentos para não cair nessas loucuras nem deixar que nossa sociedade enverede ainda mais por este mau caminho em que, infelizmente, já anda metida...


sábado, 8 de setembro de 2018

Homilia para o XXIII Domingo Comum - ano B

Is 35,4-7a
Sl 145
Tg 2,1-5
Mc 7,31-37

O Evangelho deste Domingo apresenta-nos um homem surdo e gago que é colocado diante de Jesus para que Ele o cure.

Quem é o surdo-gago?
É a humanidade, enquanto fechada para o dom de Deus que Jesus nos traz.
Surda, porque incapaz de ouvir a Palavra, ouvi-la compreendendo-a, acolhendo-a no coração, deixando-a verdadeiramente impregnar toda a existência: “tem ouvido para ouvir, mas não ouve” (Jr 5,21; cf. Mt 13,14-15).
Esta é a tendência do coração humano, que a Escritura sempre denunciou: o fechamento para não acolher a proposta que Deus nos faz, de um caminho com Ele, a tendência de nos fechar em nós e viver a vida como se fosse nossa de modo absoluto: “Escutai, prestai ouvidos, não sejais orgulhosos, porque o Senhor falou!” (Jr 13,15); “Ah! Se meu povo Me escutasse, se Israel andasse em Meus caminhos... Mas Meu povo não ouviu a Minha voz, Israel não quis saber de obedecer-Me; então os entreguei ao seu coração endurecido: que sigam seus próprios caminhos!” (Sl 81/80,14.13). Assim, no fundo, é o fechamento para Deus, para um Deus verdadeiro, a resistência em realmente levar a sério o primeiro mandamento: “Ouve, ó Israel!” (Dt 6,4).

Nossa civilização ocidental, do alto da sua ilusória autossuficiência, tem sido particularmente fechada à Palavra do Senhor: construímos a sociedade e construímos nossa vida privada, nossos valores morais, nossas escolhas, do nosso modo, sem realmente ouvir a proposta e o caminho que o Senhor nos indica. Reunimos e escutamos os especialistas: economistas, antropólogos, sociólogos, sexólogos, psicólogos, cientistas da religião... mas, para nós, o Senhor não tem mais nada a dizer! Os gurus são os economistas e psicólogos, é o intelectual de moda, o sabichão de plantão, são os livros de autoajuda... Somos uma geração de surdos!

Ora, se somos surdos, também não podemos falar com clareza: nossas ideias são embotadas, nossos debates, nossas palavras, não chegam ao essencial da vida, do sentido da existência, não podemos proclamar de verdade a alegria da salvação, da plenitude de quem sabe de onde vem e para onde vai. A comunicação se torna oca, alienada e alienante; a palavra, ao invés de comunicar, serve à mentira, ao engano, à divisão, à violência. Basta observar o que os meios de comunicação veiculam, o que as redes sociais comunicam e as mentiras dos programas eleitorais! Por isso, Jesus cura primeiro a surdez e, depois, a gagueira do homem. Quando ele puder ouvir o Senhor, tornando-se discípulo pela fé, também poderá falar, proclamar a ação de Deus em Jesus: do Deus que salva e nos mostra o sentido da vida, abrindo-nos a esperança eterna!

Sigamos agora os detalhes da narração de Marcos:

(1) Trouxeram o homem surdo-gago para que Jesus o curasse. “Jesus afastou-Se com o homem para fora da multidão” – bem ao contrário dos curadores de televisão, que exploram seus “milagres” e “curas” como shows, Jesus procura evitar todo sensacionalismo: Ele quer Se encontrar realmente com aquele homem, pessoa a pessoa, coração a coração, quer que aquele homem O descubra como sua salvação;

(2) “Em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele” – o homem, sendo surdo, somente poderia compreender a linguagem dos símbolos, dos sinais; é a que Jesus empregou: toca os dedos que, para os antigos, transmitiam poder (cf. Ex 8,15) e, depois, toca sua língua com a saliva, significando o dom do Espírito que cura e liberta. Para os antigos, a saliva era o Espírito em estado líquido (a ideia é estranha, mas é preciso que nos transportemos para o modo de pensar semítico)!

(3) “Olhando para o céu, suspirou e disse: ‘Ephatà’”. Assim, Jesus indica que a salvação que Ele traz procede do Pai, que O enviou, é sinal do Reino do Pai, trazido pelo divino Filho na potência, na energia, na vitalidade do Espírito. Mais ainda: ao suspirar, ao gemer, Ele exprime Sua compaixão, Sua dor pela situação humana;

(4) “Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade”. Somente Jesus, com o poder do Seu Espírito, pode curar o homem de seu fechamento para escutar e para proclamar. Sim, porque também nossa geração cristã é, muitíssimas vezes, além de lenta para escutar, covarde para proclamar, para professar sem medo e respeito humano nossa fé. O cristão ou é testemunha ou não é cristão: “Não podemos, nós, deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos. Nós somos testemunhas destas coisas, nós e o Espírito Santo” (At 4,20; 5,32).

Este caminho do surdo-gago é urgente para o cristão: reaprender a escutar de verdade Jesus (crer Nele de verdade) e falar Dele ao mundo no testemunho corajoso, pois, somente assim, a humanidade atual encontrará a paz que tanto almeja.
Somente em Cristo aquilo que a primeira leitura vislumbra e anuncia de modo tão belo, pode realizar-se: “Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo! Vede! É o nosso Deus que vem; é Ele que vem para salvar!’ Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos, assim como brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo. A terá árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes d’água” – Que imagens impressionantes, belas, evocativas! Quando Deus vem, quando Ele está presente, tudo é vida, tudo é plenitude, tudo canta de alegria! Não é disso que nosso mundo atual tanto precisa? Mas, o homem fechado na sua soberba – nós, fechados na nossa autossuficiência e no nosso comodismo! – jamais vai experimentar isso!

Para acolher na alegria e simplicidade, é necessário reconhecer-se necessitado, como o surdo-gago, que procurou Jesus, para que lhe impusesse as mãos: somente quem é pobre diante de Deus, quem se reconhece pequeno diante do Altíssimo, pode abrir-se para a salvação e recebê-la do Senhor! Daí a lembrete de São Tiago: “Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que O amam?” São palavras que nos incomodam e até escandalizam: Deus prefere os pobres, porque os pobres são abertos para Deus. Eles conseguem experimentar dolorosamente na carne aquilo que nós tentamos esquecer ou temos dificuldades para compreender: que somos todos pobres, necessitados, pequenos diante de Senhor Deus, único Bem e fonte de todo bem, única Riqueza e fonte de toda riqueza verdadeira! Com nossas posses, nossa ciência, nossa tecnologia e nossas seguranças, apoiamo-nos em nós mesmos, tornando-nos surdos e mudos para o Senhor!
O pobre é profético sempre, porque recorda o que nós somos e, quando descobrimos isso, podemos ser curados de nossa autossuficiência surda e libertados de nossa preguiça muda. O salmo da Missa de hoje canta exatamente esta experiência: Deus salva o pobre, o pequeno, o desvalido!

Se o pobre é sempre profeta, sempre uma palavra de Deus ao nosso lado e, mais ainda, é presença do próprio Cristo, que sendo rico Se fez pobre (cf. 2Cor 8,9) - “O que fizestes ao menor dos Meus irmãos, a Mim o fizestes” (Mt 25,40) -, então, o nosso modo de tratar o pobre, de ver o pobre, de nos aproximar do pobre – seja pessoal, seja comunitariamente – diz muito daquilo que nós e nossa Comunidade somos em relação a Deus; diz muito dos nossos critérios: se são segundo Deus ou segundo nosso coração mundano!

Que o Senhor nos cure da surdez e da gagueira; faça-nos atentos à sua Palavra e ao Seu testemunho; dê-nos olhos para reconhecê-Lo nos irmãos, sobretudo nos pobres, seja de que pobreza for!


Hoje é o Natal da Mãe de Deus

Hoje, 8 de setembro, é Festa da Natividade da Virgem Maria. Hoje, do fruto da velha Ana, nasceu aquela que é a aurora da nossa salvação, aquela que em si trouxe o Redentor do mundo, Cristo nosso Deus.
Para você, caro Leitor, as palavras do Pe. Antônio Vieira para este dia:

Quereis saber quão feliz, quão alto é e quão digno de ser festejado o Nascimento de Maria? Vede o para que nasceu. Nasceu para que dela nascesse Deus.

Perguntai aos enfermos para que nasce esta celestial Menina, dir-vos-ão que nasce para Senhora da Saúde;
perguntai aos pobres, dirão que nasce para Senhora dos Remédios;
perguntai aos desamparados, dirão que nasce para Senhora do Amparo;
perguntai aos desconsolados, dirão que nasce para Senhora da Consolação;
perguntai aos tristes, dirão que nasce para Senhora dos Prazeres;
perguntai aos desesperados, dirão que nasce para Senhora da Esperança.

Os cegos dirão que nasce para Senhora da Luz;
os discordes, para Senhora da Paz;
os desencaminhados, para Senhora da Guia;
os cativos, para Senhora do Livramento;
os cercados, para Senhora da Vitória.

Dirão os pleiteantes que nasce para Senhora do Bom Despacho;
os navegantes, para Senhora da Boa Viagem;
os temerosos da sua fortuna, para Senhora do Bom Sucesso;
os desconfiados da vida, para Senhora da Boa Morte;
os pecadores todos, para Senhora da Graça;
e todos os seus devotos, para Senhora da Glória.

E se todas estas vozes se unirem em uma só voz, dirão que nasce para ser Maria e Mãe de Jesus.