quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Fermentos...

“Prestai atenção e tomai cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes”... (Mc 8,15)

Fermento é força vital, é dinamismo... Fermento são os valores e opções fundamentais que orientam a existência...

O fermento do cristão é o Cristo crucificado e ressuscitado, o Cristo que entrega a vida na total obediência amorosa ao Pai e na total entrega aos irmãos. O fermento do cristão é aquele de deixar-se tomar por Deus, como o Filho, de modo que o Seu Reino bendito apareça em toda a sua vida...

E o fermento dos fariseus? É o apego aos meios, esquecendo a finalidade, tornando a relação com o Senhor numa realidade fria, contábil, burocrática, fria, legalista. Isto os fazia cegos e pode nos fazer cegos, presos de modo míope aos nossos próprios esquemas, fechando-nos para ver, para crer, para compreender na perspectiva do Cristo de Deus. O fermento dos fariseus faz de Deus um tirano, da religião um peso, da disciplina amorosa um formalismo escravizante, da santidade uma autossuficiência soberba... O fermento dos fariseus esconde, inutiliza o anúncio do Reino dos Céus.

E o fermento de Herodes? Aquele lá, o rei devasso, fraco, apegado ao poder e à boa vida, matou João Batista e queria matar Jesus... Seu fermento é o do poder pelo poder, o poder como usufruto de todos os prazeres e facilidades. É o fermento dos que buscam o poder pelo poder, como um prazer, o fermento dos que bajulam, jogam, mascaram intenções, distorcem palavras, omitem-se, fazem coreografias de mil modos para estarem por cima, para darem-se bem, para salvarem a pele e a vida. É o fermente com cheiro de morte da alma, dos que ganham o mundo e perdem a vida...

Somente olhando o Cristo continuamente, somente cravando Nele os olhos do coração, somente amando-O simplesmente por Ele, porque Ele é Belo, Bom, Uno de Coração unificado no Pai, Ele é livre totalmente, somente assim, aprenderemos Dele, teremos os Seus sentimentos, seremos semelhantes a Ele e seremos fermento do Reino dos Céus.

Cuidado com o fermento dos fariseus, cuidado com o fermento de Herodes: esfriam o coração, matam a alma, jogam no inferno!


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Pensando no carnaval...

Para pensar... E cada um responda a si próprio e ao Senhor...

O carnaval:
blocos, escolas de samba, trios elétricos...
O carnaval:
o que se tornou na enorme maioria dos casos?
O carnaval,
tal qual é apresentado, formatado pelos meios de comunicação...
O carnaval,
com seus excessos, sua nudez, sua libertinagem...

É uma festa inocente?
É uma festa neutra?
É um lugar para um cristão realmente comprometido?

Se o é,
que carnaval?
Que tipo?
Com quais limites?
Em quais circunstâncias?

Que testemunho um cristão dá no carnaval?
Testemunho? Contratestemunho? Escândalo?
Vale o argumento de ser sal, de ser luz?...

Que não venham citar o texto de um tempo muito, muito passado de Dom Hélder: "Carnaval, a festa do povo"...
Aquilo lá não tem mais nada a ver com nada:
mudou a sociedade, mudou a mentalidade, mudou o carnaval, mudaram os padrões de moralidade...
Chegou o neopaganismo, o pós-cristianismo de uma sociedade desorientada, perdida de Cristo...

O que aqui coloco é para que tu penses, cristão;
e penses com seriedade!
Vivemos num tempo de tantos católicos com argumentos superficiais...
Aqui não quero disputar;
somente procura pensar, pois responderás por teus atos e escolhas diante do Senhor...


Como vigia esperando pela aurora

“Felizes os empregados que o senhor encontrar acordados quando chegar... E caso chegue à meia-noite ou às três da madrugada, felizes serão, se assim os encontrar” (Lc 12,37s).

No Evangelho, o Senhor nos convida à vigilância. Ele virá. Virá na hora bendita da nossa morte, virá no fim dos tempos para manifestar plenamente a Sua glória e o Seu juízo sobre toda a história humana...

O cristão é um caminheiro, um peregrino, que avança entre as tentações do mundo e as consolações de Deus.

Às vezes nos cansamos. Parece que o Senhor está tão ausente, parece que demora tanto, parece nem ver a bagunça do mundo e da nossa vida. O mal prospera, a Igreja é perseguida e humilhada, as divisões e incertezas são semeadas pelo Maligno, nossas fraquezas nos acossam.
Onde está o Senhor? Por que demora? Por que não manifesta logo o poder do Seu braço? Por que parece tão longe?

A resposta do Senhor é clara: “Vigiai! Eu virei em breve!”
Quando? “Vigiai!”
Sua Vinda pode dar-se pelo início da noite deste mundo, ou à meia-noite ou na madrugada... Não sabemos; não há como calcular! “Vigiai!” Feliz o servo que o Senhor encontrar acordado, atento, fiel, vigilante... - Por Ele espera: Seu Dia vem! Tem coragem, o Senhor Jesus já vem; vem vindo sempre, tão discretamente... E virá, no Dia final!


domingo, 16 de fevereiro de 2020

Metidos numa sapiente loucura...

Não somos muitos, entre os muitos do mundo atual.
Não somos ricos; em nossa grande maioria somos gente pobre, simples. Entre nós, não há muitos grandes doutores nas ciências e artes humanas.
Hoje em dia, os grandes da ciência e da tecnologia, os bem-pensantes da onda, andam bem longe de nós...

Somos poucos, somos um pequeno rebanho que conta cada vez menos aos olhos do mundo. E quanto mais o mundo se afasta de Deus e nega-Lhe a existência, tanto menos contamos, tanto menos somos compreendidos...

Somos o sinal da loucura de Deus, num mundo tão sábio de humana sabedoria e tão prudente de humana prudência... Somos a prova incontestável da fraqueza de Deus, num mundo opulento, cativado e fascinado pela força...

Não pomos nossa esperança no mundo ou nos homens, mas unicamente em Deus e no Seu Cristo;
Não nos entusiasmamos com promessas mundanas ou ideologias de modas, porque fundamos o sentido da existência Naquele que não passa, no Eterno, no Vencedor da Morte!

Quem somos nós? Somos os cristãos, somos a Igreja de Cristo, aqueles que teimam em levar a sério a loucura da Cruz e a pôr a esperança na fraqueza do Cristo Jesus. Somos as testemunhas do Deus de Jesus Cristo, que não salvou a Si mesmo e realiza a salvação da humanidade.

Somos a prova mais cabal de que Deus existe e Sua lógica subverte a nossa, porque é luz que se revela na escuridão do Calvário, é sabedoria que se manifesta na loucura do amor crucificado, é força revelada na impotência de um Deus que Se deixa morrer para não nos matar...

Somos cristãos! Nossa esperança repousa somente Naquele que por nós morreu e ressuscitou. Somente a Ele a glória pelos séculos sem fim. Amém.


sábado, 15 de fevereiro de 2020

Homilia para o VI Domingo Comum - ano a

Eclo 15,16-21
Sl 118
1Cor 2,6-10
Mt 5,17-37


Caros Irmãos, hoje a Palavra santa nos fala sobre a Lei de Deus. Logo de saída, impressiona a afirmação peremptória de Jesus, nosso Senhor: “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento. Em verdade, Eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra!”
Sejamos sinceros: um cristão deveria ficar inquieto com tais palavras, afinal nós não mais observamos a Lei de Moisés: não nos deixamos circuncidar, não guardamos o sábado, não somos contrários às imagens sagradas, não fazemos restrições alimentares, distinguindo entre alimento puro e impuro... E agora: como nos haveremos com a palavra tão clara de Jesus, nosso Senhor?

Mas, o que o Cristo deseja mesmo dizer? Ele afirma que não ter vindo abolir a Lei, veio cumpri-la. Atenção: cumprir aqui não significa obedecer à Lei, mas realizá-la, dar cumprimento ao que ela anunciou e prometeu! Assim, cumprindo a Lei, Jesus nossos Senhor a supera, como um botão que se cumpre na flor. Pensai, irmãos: o botão prepara a flor e sem botão não há flor. Mas, o botão existe para tornar-se flor e, quando se torna, cumpre-se, passa, deixando lugar à flor. É assim que o Senhor cumpre a Lei: realiza o que ela anunciou e a supera. Diante do Cristo Salvador, como o Velho Simeão, a Lei bem que poderia dizer: “Agora, Senhor, podes deixar Tua serva ir em paz. Meus olhos viram a Tua salvação que prometeste!” (Lc 2,29s). O Senhor Jesus não abole a Lei, não a despreza; cumpre-a plenamente e, cumprindo-a em todos os seus aspectos, até a última vírgula, supera-a definitivamente! Com a chegada do nosso Salvador, com Sua santa Morte e Ressurreição, nem uma letra, nem uma vírgula da Lei ficou em vão: tudo se cumpriu Nele, que é a plenitude da Lei e dos profetas. Por isso mesmo, no Tabor, Moisés e Elias, a Lei e os profetas, apareceram envoltos na Glória de Jesus (cf. Lc 9,29-32). É Ele, o Santo Messias, Nosso Senhor, Quem leva a Lei e os profetas à plenitude do cumprimento! É Ele – e só Ele – que, realizando tudo quanto a Antiga Aliança legislou e profetizou, a tudo deu cumprimento e a tudo superou num sentido pleno, perfeito e glorioso.

Talvez algum de vós pergunte: Então não há mais lei alguma no cristianismo? Os cristãos são livres para fazerem como bem desejarem, para viverem como bem imaginarem, tudo em nome da bondade e da misericórdia de Deus revelada em Jesus? Hoje, há muitos que pensam assim... Não, queridos irmãos! Este pensamento seria totalmente falso! “Não vos iludais: De Deus não se zomba: O que o homem semear, isso colherá: quem semear na sua carne, da carne colherá corrupção; quem semear no espírito, do Espírito colherá a Vida eterna!” (Gl 6,7s) O próprio São Paulo nos previne ainda contra esta ideia torta: “Iremos pecar porque não estamos sob a Lei, mas sob a graça? De modo algum!” (Rm 6,15) – ele mesmo responde! A Lei de Moisés foi superada, mas o cristão vive sob uma nova Lei, muito mais santa, profunda e exigente, dada no Espírito Santo de Amor, Espírito de Cristo Jesus, Espírito de Amor! Por isso mesmo, o Espírito foi derramado sobre a Igreja no dia de Pentecostes, festa judaica que celebrava o dom da Lei. Para os discípulos de Cristo, a Lei é o Espírito de Amor que, no Batismo foi derramado nos nossos corações (cf. Rm 5,5); o cristão vive agora debaixo da Lei do Espírito de Cristo! Por isso o Apóstolo diz: “Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, se realmente o Espírito de Deus habita em vós!” E previne: “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo!” (Rm 8,9) Portanto, é Ele, esse Santo Espírito, Quem nos dá a Vida de Cristo, os sentimentos de Cristo, a sabedoria de Cristo, tão diferente daquela do mundo, para vivermos segundo Cristo. É o que diz o santo Apóstolo na Epístola de hoje: quem pode compreender os preceitos do Senhor? Somente os que são sábios segundo Deus! Mas, essa sabedoria de Deus é escondida aos olhos do mundo, à lógica da nossa sociedade; é uma sabedoria que desde a eternidade Deus destinou para nossa glória! Nenhum dos poderosos deste mundo conheceu tal sabedoria! E São Paulo adverte: “Se a tivessem conhecido não teriam crucificado o Senhor da Glória”. A sabedoria do mundo, fechada para o Espírito de Cristo, mata o Senhor da Glória no nosso coração! A verdadeira sabedoria, da verdadeira Lei, somente pode ser revelada através do Espírito, que “esquadrinha as profundezas de Deus!”

Compreendei, Irmãos: é o Espírito que Cristo nos deu no Batismo e nos dá sempre de novo nos sacramentos da Igreja, é Ele, esse Espírito de Amor, Quem imprime em nós a nova Lei, a Lei do Amor! Para os cristãos, a Lei, os mandamentos, resumem-se nisto: amar ao Senhor Deus e amar os irmãos como Cristo Jesus amou! E amou até entregar-Se na Cruz! Eis a Lei de Cristo, eis a medida, eis o desafio, eis nosso consolo (porque ela é tão bela!), eis a nossa desolação (porque, por nós mesmos, é impossível amar assim, na medida de Cristo!)... Pensando na Lei do Senhor Jesus, sigamos o conselho do Eclesiástico: guardemos o preceito de amor do Senhor e viveremos Nele, graças a presença do Seu Espírito de Amor em nós! Deixemos conduzir pelo Espírito, obedeçamos a voz do Espírito em nós, pois “o Senhor não mandou ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença de pecar”, muito menos pecar contra o Espírito Santo de Amor, que nos impele a amar como Jesus amou! Mas, irmãos meus, coragem: o que é impossível ao homem não é impossível ao Senhor! Por isso Ele nos deu o Seu próprio Espírito: para que impulsionados por Ele, nós tenhamos em nós os Seus sentimentos, as Suas atitudes, cumprindo o preceito do Apóstolo: “Tende em vós os mesmos sentimentos do Cristo Jesus” (Fl 2,5).

Agora sim, podemos compreender a palavra do Senhor Jesus: “Eu vos digo: se a vossa justiça não for maior que a justiça dos escribas e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus!” Vede bem: a justiça, isto é a religiosidade, o cumprimento da Lei por parte dos escribas e fariseus, resumia-se na Lei de Moisés, tinha a Lei de Moisés como critério. Ainda hoje, isto serve para os judeus, não para nós! Para o cristão, a Lei é o Espírito de Cristo, Espírito de Amor, que nos imprime no coração os sentimentos de Cristo Jesus! A justiça do cristão, sua prática religiosa, deve ultrapassar a dos escribas e fariseus, pois é impulsionada pelo Espírito de Jesus imolado e ressuscitado! Por isso mesmo, no Evangelho de hoje, o Senhor dá três exemplos da Lei de Moisés e os radicaliza, indo direto ao espírito mais profundo contido neles. São apenas exemplos, que nos mostram que o Espírito de Amor em nós, Espírito Santo de Cristo, leva-nos a amar na medida de Cristo, Ele que nos amou sem medida! Que coisa, que mistério, que desafio: diante do amor de Cristo, jamais poderemos estar em dia, tranquilos, achando que merecemos um prêmio de cumprimento da Lei! Diante Dele, por nós entregue, morto e ressuscitado, seremos sempre tão pequenos, tão devedores, tão deficitários!

Pensemos nestas coisas, amados no Senhor, e deixemo-nos guiar pelo Espírito de Cristo! Que Ele mesmo venha amar em nós e nos fazer sentir como Jesus, pensar como Jesus, falar como Jesus, agir como Jesus, viver como Jesus – esta é a Lei e os profetas! A Cristo nosso Senhor, plenitude e cumprimento da Lei do Espírito, que nos libertou da Lei de Moisés, a glória pelos séculos eternos. Amém.


Um coração para conhecer-Te

“Que é necessário fazer para ser salvo?” – perguntou um monge.
E o ancião respondeu: “Tem um coração e serás salvo!” 

O coração é o homem em suas raízes mais profundas, é aquele núcleo da personalidade, a sede dos pensamentos, da consciência, dos afetos mais profundos, ali, onde se pode dizer “eu” e “sim”, porém também dizer “tu”.
O coração é aquele lugar onde o homem desarticulado e dividido pode, por fim, habitar consigo mesmo, reconhecer-se, reconhecer o Senhor, os irmãos e orar de verdade: “Volta ao teu coração; observa o que sentes, e verás que és imagem de Deus”, dizia Santo Agostinho.

O primeiro passo para caminhar para Deus é conhecer-se, reconhecendo que temos um coração doente: dúbio, dividido, múltiplo, petrificado, necessitado de ser unificado na paz e na lembrança do Senhor, que o encherá de ternura e quebrá-lo-á com o arrependimento até que se converta num coração de carne, trabalhado pela Palavra de Deus, regado e semeado pelo Seus Espírito dado continuamente nos sacramentos da Igreja.

É necessário rezar como o Salmista: “Ensina-me Teus caminhos, Senhor, e caminharei segundo a Tua verdade; unifica meu coração para temer o Teu Nome. Eu Te agradeço de todo o coração, Senhor meu Deus, vou dar glória ao Teu Nome para sempre” (Sl 85,11s). Só um coração unificado no caminho do Senhor pode temê-Lo, isto é, amá-Lo de verdade, com delicadeza, humildade, reverência, fazendo da vida um louvor de glória para o Senhor.
Então, sim, de um coração assim, brotarão também a paz e o bom odor de Cristo (cf.2Cor 2,15), que o homem redimido pelo Cristo, transfigurado pelo Seu Espírito e renovado à Sua imagem bendita, levará aos seus irmãos!


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A Igreja, nas mãos do Senhor

A Igreja não é uma empresa e a obra de evangelização não é a oferta eficiente de um produto à venda... O que sustenta a Igreja santa de Cristo não somos nós com nossas peripécias e piruetas pastorais, com nossas novidades pouco fieis ao Senhor, com nossa genialidade religiosa e inventiva. Nada disso!

É a graça de Deus, é a potência do Espírito do Ressuscitado que nos guia, que sustenta os discípulos do Senhor, que conduz pelos caminhos da história a Esposa do Cordeiro.

Muitas vezes, diante das dificuldades pastorais, diante da descristianização de nossa sociedade, diante da secularização ateia que vemos alastrar-se, preocupamo-nos tanto e esquecemos que há Alguém sentado no Trono dos Céus, que o Cordeiro venceu e tem nas mãos o livro da história, que o Espírito do Ressuscitado está presente no coração do mundo...

Não somos nós, os cristãos, os senhores da história; não somos nós os que dão um rumo à Igreja... É o Senhor, somente o Senhor!

Certamente, que devemos anunciar o Evangelho, certamente que devemos nos empenhar de modo inteligente e dedicado para que o mais possível de pessoas conheçam o Cristo que o Pai nos enviou e Nele encontrem a Vida em abundância, a Vida eterna... Mas, tudo isto sem estresse, sem a angústia de pensar que somos nós quem salvaremos o mundo...

Sempre me impressiona e inspira a visão dos antigos Padres da Igreja, aqueles santos doutores que viveram nas primeiras gerações do cristianismo. Eles não pensavam que um dia o mundo todo seria cristão ou que toda a humanidade haveria de crer em Jesus, o Cristo de Deus. O que eles queriam era anunciar o Senhor, fazer com que o Seu Nome ecoasse por toda a terra e que em todos os lugares houvesse uma pequena comunidade de cristãos - a Santa Igreja - que anunciassem a Palavra, dela vivessem, celebrassem os santos sacramentos por eles mesmos e pelo mundo inteiro e fossem, onde estivessem, sal e luz. Somente isto!

Várias vezes tenho insistido nesta ideia e cada vez sou mais convicto disto! Quando penso no esforço enorme para enchermos nossas igrejas a qualquer custo, quando vejo certas inculturações e certos diálogos com o mundo que não passam de traição à fé disfarçada de boa vontade, quando testemunho padres fazendo absurdos e dizendo que essas coisas são válidas porque enchem as igrejas, quando observo a secularização em nosso clero e nos nossos religiosos com o pretexto de estarmos mais próximos do povo, quando constato os tantos projetos e escritos e o tão pouco de abandono humilde, orante e silencioso nas mãos do Senhor, penso o quanto estamos fora do foco...

É quando silenciamos diante do Senhor, quando olhamos, com o coração na mão, a Sua Cruz, quando celebramos os Seus mistérios na sagrada liturgia, que, então, com suave alegria, compreendemos que entendemos pouco, que podemos quase nada e que não passamos de amados e simples instrumentos nas mãos do Senhor. Não sabemos por onde o nosso bendito e santo Salvador vai guiar a Sua Igreja, não sabemos quantos serão os filhos da Igreja daqui a cem anos... O que sabemos é que Ele estará lá, conosco, guiando-nos, fidelíssimo, consolando-nos e enchendo-nos da doce certeza da Sua Ressurreição!

Era a manhã do Sábado Santo de 1980, logo após o café, quando disse à minha família que iria entrar no seminário. Naquela ocasião, meu pai conversou comigo quase até a hora do almoço. Deu-me, então, um conselho do qual nunca esqueci, nunca esquecerei: que eu fizesse o melhor que estivesse ao meu alcance como padre, que eu não poupasse minhas forças, energias e talentos no serviço do Senhor; mas, que nunca me preocupasse com o resultado, que não me impressionasse com ele, que deixasse tudo nas mãos do Senhor... Tenho certeza de que meu pai não recorda de nada disso que me disse... Mas, eu recordo e sei, com certeza certa, que, naquela manhã, o Senhor falou por ele...

Hoje, passados tantos anos, quando escuto os debates, quando leio as análises, quando vejo as iniciativas pela evangelização, quando constato as soluções artificiais e pouco piedosas e fieis, recordo, sereno, daquelas palavras... Olho o Senhor, o Crucificado, que fracassou na Cruz e venceu, porque foi fiel e obediente ao Pai até o fim... Lembro, então, daquelas palavras do meu pai e daquelas outras, do cântico de nossas comunidades: “Lança a semente na terra, não será em vão; não te preocupe a colheita: plantas para o irmão”. Respiro fundo, olho para o meu Senhor, e cheio de paz, sorrio dos desafios e, feito menino meio despreocupado, sigo adiante... A verdade é que ainda hoje, como Bispo, guardo no coração a mesma esperança e a mesma certeza dos dias da minha juventude, quando disse aos meus pais que iria abraçar o sacerdócio, entregando minha vida ao meu Senhor e Salvador...
Eis os sentimentos que levo no coração constantemente e confio, com a graça de Deus, que os levarei sempre...