sábado, 19 de janeiro de 2019

Homilia para o II Domingo Comum - ano c

Is 62,1-5
Sl 95
1Cor 12,4-11
Jo 2,1-11

Em certo sentido, a liturgia da Palavra deste segundo Domingo comum, ainda está ligada ao Santo Natal, tempo da manifestação do Senhor. Na liturgia da Igreja antiga, a festa da Epifania, da Manifestação do Senhor, celebrava, de uma só vez e num só dia, a visita dos Magos, o batismo de Jesus e as bodas da Caná. São três momentos da Manifestação do Senhor Jesus Cristo: aos Magos, Ele Se manifestou como Rei dos Judeus pelo brilho da Estrela; no batismo, o Pai O manifestou como Messias de Israel, ungindo-O com o Espírito Santo para a missão e, em Caná, Jesus manifestou a Sua glória ao transformar a água em vinho, e os Seus discípulos creram Nele. Portanto, estamos ainda em clima de Manifestação, de Epifania Daquele que veio do Pai para nossa salvação; e é neste contexto que as leituras da Missa de hoje devem ser interpretadas.

Comecemos por observar que o Evangelho narra uma festa de casamento e não informa nada sobre o nome dos noivos... É de caso pensado! O Evangelista tomou um fato histórico e deu-lhe um sentido espiritual e teológico: o verdadeiro noivo é o Cristo, Deus em pessoa que vem desposar Sua esposa, o Povo de Israel e, mais precisamente, o novo Israel, a Igreja, representada pela Mulher – a Virgem Maria!
Tudo, na perícope do Evangelho, fala disso: porque o Messias-Esposo chegara, a água da Antiga Aliança (água da purificação segundo os ritos judaicos da Lei de Moisés) foi transformada no vinho da Nova Aliança (o vinho, símbolo da alegria e da exultação do Espírito Santo, que é fruto da Morte e Ressurreição do Senhor). É esta a glória que Jesus manifestou, é este o sinal! “Sinal” não é um simples milagre; “sinal” é um gesto do Senhor Jesus, carregado de sentido profundo, que revela Sua Pessoa, Sua missão e Sua obra de salvação. “Este foi o princípio dos sinais de Jesus... e Seus discípulos creram Nele”.

Na verdade, o sinal da Caná, é uma preparação uma antecipação da Páscoa, quando o Cristo, Esposo ressuscitado, desposaria para sempre a Igreja, dando-lhe como dote eterno, o dom do Espírito:“Alegremo-nos e exultemos, demos glória a Deus, porque estão para realizar-se as núpcias do Cordeiro, e Sua Esposa já está pronta: concederam-lhe vestir-se com linho puro, resplandecente” (Ap 19,7s). Por isso, a exultação da primeira leitura de hoje. Saudando o Povo de Deus, o novo Israel, a Igreja-Esposa, o profeta afirma: “As nações verão a tua justiça; serás chamada por um nome novo, que a boca do Senhor há de designar. E serás uma coroa de glória na mão do Senhor, um diadema real na mão de teu Deus. Não mais te chamarão abandonada, e tua terra não mais será chamada Deserta; teu nome será Minha Predileta e tua terra será Bem-Casada, pois o Senhor agradou-Se de ti e tua terra será desposada. Assim como o jovem desposa a donzela, assim teus filhos te desposam; e como a noiva é a alegria do noivo, assim também tu és a alegria do teu Deus”. Maria, a Virgem-Mulher do Evangelho de hoje é, pois, imagem viva da Igreja-Esposa, desposada na Nova e Eterna Aliança!

Esta Aliança não é mais aquela de Moisés. A Antiga Lei passou; passaram os antigos preceitos, as antigas observâncias, as coisas antigas! Não esqueçamos o Prólogo de João, tantas vezes ouvido no Natal: “A Lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade nos vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17). Esta Nova Aliança não se funda em uma lei de preceitos escritos, mas na Nova Lei, que é o Espírito de amor, derramado nos nossos corações. O Espírito que o Cristo derramou sobre nós com a Sua Morte e Ressurreição é a alma, a lei, a vida da Igreja-Esposa, novo Israel, novo Povo de Deus. Por isso, a segunda leitura da Missa de hoje nos apresenta toda a vida da Igreja, tão rica e dinâmica, como sendo fruto da ação animadora e sustentadora do Espírito Santo: “A cada um de nós é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum”, isto é, em vista da edificação da Igreja, Corpo e Esposa de Cristo!

O que nos fica da Liturgia da Palavra de hoje? A gratidão ao Cristo por ter vindo, por ter manifestado a Sua glória em nosso mundo tão pobre e na nossa vida tão ameaçada pelas trevas. Fica também essa consciência que somos o Povo de Deus da Nova Aliança, povo nascido da Encarnação, da Morte e da Ressurreição de Cristo; povo nascido na força do Espírito Santo que Ele, morto e ressuscitado, nos concedeu. Fica ainda a certeza que Ele permanece conosco, alimentando e construindo Sua Igreja-Esposa na força do Espírito Santo. Esta Igreja é a una e santa nossa mãe católica. Ela foi eternamente desejada, escolhida, amada pelo Esposo Jesus; ela foi desposada quando Ele Se fez homem e por ela morreu e ressuscitou! Lembremo-nos das palavras do Apóstolo: “Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, a fim de purificá-la, com o banho da água e santificá-la pela Palavra, para apresentar a si mesmo a Igreja, gloriosa, sem mancha nem ruga, ou coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5,25-27). Por isso a Igreja será sempre Esposa, será sempre bela, sem mancha nem ruga, será sempre santa, apesar dos pecados e traições de seus membros! Ela é a Amada, a Escolhida, a ornada com o a jóia do Espírito Santo! Se formos fieis a esse Espírito, vinho novo do Reino de Deus, seremos pessoas novas na nossa vida: novos sentimentos, novo modo de ver e de agir, de sentir e de enfrentar as situações da vida. Nem os fracassos, nem as tristezas, nem as lágrimas, nem mesmo a morte poderão nos tirar a alegria e a certeza de viver! Fica também a certeza certíssima, de que como Igreja, como Comunidade dos discípulos de Cristo, o Espírito nos vivifica, nos guia, nos une e nos conduz sempre. Não temamos, não sejamos frios, não sejamos frouxos! O Cristo que habitou entre nós, conosco continua na potência do Seu Espírito Santo. Se formos fieis à Sua ação, nossa Comunidade será viva, os carismas e ministérios serão abundantes, a alegria de ser e viver como Comunidade não faltará, o nosso testemunho de Jesus Cristo será entusiasmado e convincente e a nossa esperança será inabalável, mesmo diante das dificuldades do mundo e da vida, mesmo diante da morte!

O Senhor manifestou a Sua glória e Seus discípulos creram Nele! O Senhor Se manifesta agora, pela Sua Palavra e pela Sua Eucaristia, e nos reúne na força amorosa do Espírito Santo! Creiamos! E que nossa Eucaristia seja toda ungida, toda doçura, toda renovação da nossa vida em Cristo: “Felizes aqueles que foram convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro” (Ap 19,9). Felizes somos nós, que vivemos em Cristo, Ele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Homilia para a Festa do Batismo do Senhor - ano c

Is 42,1-4.6-7
Sl 28
At 10,34-38
Lc 3,15s.21-22


A Festa de hoje encerra o sagrado tempo do Natal: o Pai apresenta, manifesta a Israel o Salvador que Ele nos deu, o Menino que nasceu para nós: “Tu és o Meu Filho amado; em Ti ponho o Meu bem-querer”, ou, segundo a versão de Mateus: “Este é o Meu Filho amado, em Quem Me comprazo!” (3,17).
Estas palavras contêm um significado muito profundo: o Pai apresenta Jesus usando as palavras do profeta Isaías, que ouvimos na primeira leitura desta santa Eucaristia. Mas, note-se: Jesus não é somente o Servo; Ele é o Filho, o Filho amado! O Servo que o Antigo Testamento anunciava é também o Filho amado eternamente! No entanto, é Filho que sofrerá como o Servo, que deverá exercer Sua missão de modo humilde e doloroso!

Hoje, às margens do Jordão, Jesus foi ungido com o Espírito Santo como o Messias, o Cristo, Aquele que as Escrituras prometiam e Israel esperava. Agora, Ele pode começar publicamente a missão de anunciar e inaugurar o Reino de Deus. Esta missão, Ele iniciou desde que Se fez homem por nós; agora, no entanto, vai manifestar-Se publicamente, primeiro a Israel e, após a Ressurreição e o envio do Espírito, a toda a humanidade. É na força do Espírito Santo que Ele pregará, fará Seus milagres, expulsará Satanás e inaugurará o Reino do Pai; é na força do Espírito que Ele viverá uma vida de total e amorosa obediência ao Pai e doação aos irmãos até a morte e morte de Cruz.

Mas, atenção: como já dissemos, esse Jesus que é o Filho, é também o Servo sofredor, anunciado por Isaías. Hoje, o Pai revela a Jesus qual o modo, qual o caminho que Ele deve seguir para ser o Messias como Deus quer: na pobreza, na humildade, no despojamento, no serviço! É assim que o Reino de Deus será anunciado no mundo. Jesus deverá ser manso: “Ele não clama nem levanta a voz, nem Se faz ouvir pelas ruas”. Deve ser cheio de misericórdia para com os pecadores, os fracos, os pobres, os sem esperança: “Não quebra a cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega”. Ele irá sofrer, ser tentado ao desânimo, mas colocará no Seu Deus e Pai toda a Sua esperança, toda a Sua confiança: “Não esmorecerá nem Se deixará abater, enquanto não estabelecer a justiça na terra”. O Senhor Deus estará sempre com Ele e Ele veio não somente para Israel, mas para todas as nações da terra: “Eu, o Senhor, Te chamei para a justiça e Te tomei pela mão; Eu Te formei e te constituí como aliança do povo, luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas”.

E Jesus já começa cumprindo Sua missão na humildade: Ele entra na fila dos pecadores, para ser batizado por João. Ele, que não tinha pecado, assume os nossos pecados, faz-Se solidário conosco; Ele, o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo! “João tentava dissuadi-Lo, dizendo: ‘Eu é que tenho necessidade de ser batizado por Ti e Tu vens a mim?’ Jesus, porém, respondeu-lhe: ‘Deixa estar, pois assim nos convém cumprir toda a justiça’” (Mt 3,14s). Assim convinha, no plano do Pai, que Jesus Se humilhasse, Se fizesse Servo e assumisse os nossos pecados! Ele veio não na glória, mas na humildade, não na força, mas na fraqueza, não para impor, mas para propor, não para ser servido, mas para servir. Eis o caminho que o Pai indica a Jesus, eis o caminho que Jesus escolhe livremente em obediência ao Pai, eis o caminho dos cristãos, e não há outro!

Uma última observação, muito importante: João diz: “Eu vos batizo com água, mas virá Aquele que é mais forte do que eu. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo”. O batismo de João não é o sacramento do Batismo: era somente um sinal exterior de que alguém se reconhecia pecador e queria preparar-se para receber o Messias. Ao ser batizado no Jordão, Jesus é ungido com o Espírito Santo para a missão. Esta unção será plena na Ressurreição, quando o Pai derramará sobre Ele o Espírito como Vida da Sua vida humana. Então – e só então – Ele, pleno do Espírito Santo que O ressuscitou, derramará este mesmo Espírito, que será também Seu Espírito, sobre nós, dando-nos uma nova Vida! Para os cristãos, não há batismo nas águas, mas somente Batismo no Espírito, simbolizado pela água (cf. Jo 3,5; 7,37-39). Ao sermos batizados, recebemos o Espírito Santo de Jesus e, por isso, somos participantes de Sua missão de viver, testemunhar e anunciar o Reino de Deus, a Vida eterna, a Vida no amor a Deus e aos irmãos, que Jesus veio anunciar ao Se fazer homem igual a nós! Mas este testemunho não é festivo, não é de oba-oba, mas um testemunho dado na simplicidade, na pobreza e na humildade do dia a dia!

Eis! O Menino que nasceu para nós, a Criança admirável que cresceu em sabedoria, idade e graça, submisso aos Seus pais na família de Nazaré, o Deus perfeito, filho da Toda Santa Mãe de Deus, Aquele que com o brilho de Sua Estrela atraiu a Si todos os povos, hoje é apresentado pelo Pai: Ele é o Filho querido, Ele é o Servo sofredor, Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, Ele é o Messias, o Ungido de Deus! Acolhamo-Lo na nossa existência e no nosso coração e nossa vida terá um novo sentido. Seguindo-O, chegaremos ao coração do Pai que O enviou e é Deus com Ele e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.



sábado, 5 de janeiro de 2019

Homilia para a Sagrada Epifania do Senhor

Is 60,1-6
Sl 71
Ef 3,2-3a.5-6
Mt 2,1-12

Celebramos hoje a solene Manifestação, a sagrada Epifania do Senhor. Como dizia Santo Agostinho, “celebramos, recentemente, o dia em que o Senhor nasceu entre os judeus; celebramos hoje o dia em que foi adorado pelos pagãos. Naquele dia, os pastores O adoraram; hoje, é a vez dos magos”. A festa deste dia é nossa, daqueles que não são da raça de Israel segundo a carne, daqueles que, antes, estavam sem Deus e sem esperança no mundo! Hoje, Cristo nosso Deus, apareceu não somente como glória de Israel, mas também como “luz para iluminar as nações” (Lc 2,32).Hoje, começou a cumprir-se a promessa feita a nosso pai Abraão: “Por ti serão benditos todos os clãs da terra” (Gn 12,3).

Na segunda leitura desta Missa, São Paulo nos falou de um Mistério escondido e que agora foi revelado: “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho”. Eis: com a visita dos magos, pagãos vindos de longe, é prefigurado o anúncio do Evangelho aos não-judeus, aos pagãos, aos que desconheciam o Deus de Israel, aos que estavam sem Cristo, que não participavam da cidadania em Israel, nem das alianças da Promessa e não tinham esperança no Deus verdadeiro (cf. Ef 2,12). Ainda Santo Agostinho, explicando o mistério da festa hodierna, explicava muito bem: “Ele é a nossa paz, Ele, que de dois povos fez um só (cf. Ef 2,14). Já Se revela qual Pedra Angular, este Recém-nascido que é anunciado e como tal aparece nos primórdios do nascimento. Começa a unir em Si dois muros de pontos diversos, ao conduzir os pastores da Judeia e os Magos do Oriente, a fim de formar em Si mesmo, dos dois, um só homem novo, estabelecendo a paz. Paz para os que estão longe e paz para os que estão perto”. É este o sentido da solenidade da santa Epifania do Senhor!

Hoje, cumpre-se o que o profeta Isaías falara na primeira leitura: “Levanta-te, Jerusalém, acende as luzes, porque chegou tua luz, apareceu sobre ti a Glória do Senhor! Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e Sua Glória já se manifesta sobre ti! Levanta os olhos ao redor e vê: será uma inundação de camelos de Madiã e Efa; virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando a Glória do Senhor!”
Mas, estejamos atentos, porque a festa de hoje esconde um drama: a Jerusalém segundo a carne não reconheceu o Salvador: “O rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a Cidade de Jerusalém”. Ela conhecia a profecia, mas de nada lhe adiantou, pela dureza de coração. É na nova Jerusalém, na Igreja, que somos nós, na nossa Mãe católica, que esta profecia de Isaías se cumpre. É a Igreja que acolherá todos os povos, unidos não pelos laços da carne, mas pela mesma fé em Cristo e o mesmo Batismo no Seu Espírito.

Que contraste, no Evangelho de hoje! Jerusalém, que conhecia a Palavra, não crê e, descrendo, não vê a Estrela, não vê a luz do Menino. Os magos, pagãos, porque têm boa vontade e são humildes, veem a Estrela do Rei, deixam tudo, partem sem saber para onde iam, deixando-se guiar pela luz do Menino e, assim, atingem o Inatingível e, vendo o Menino, reconhecem Nele o Deus perfeito: “ajoelharam-se diante Dele e O adoraram”. Com humildade, oferecem-Lhe o que têm: “Abriram seus cofres e Lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra”: ouro para o Rei, incenso para o Deus, mirra para o que, feito homem, morrerá e será sepultado! Os magos creem e encontram o Menino e “sentiram uma alegria muito grande”.Herodes, o tolo, ao invés, pensa somente em si, no seu título, no seu reino, no seu poder e tem medo do Menino! Escravo de si e prisioneiro de suas paixões, quer matar o Recém-nascido! A Igreja, na sua liturgia, zomba de Herodes e dos herodes, e canta assim: “Por que, Herodes, temes/ chegar o Rei que é Deus?/ Não rouba aos reis da terra/ Quem reinos dá nos céus!”. Que bela lição, que mensagem impressionante para nós: quem se deixa guiar pela luz do Menino, O encontra e é inundado de grande alegria, e volta por outro caminho. Mas, quem se fecha para esta luz, fica no escuro de suas paixões, na incerteza confusa de suas próprias certezas, tão ilusórias e precárias e termina matando e se matando!

Que nós tenhamos discernimento: não procuremos esta Estrela do Menino nos astros, no céu! Não perguntemos sobre ela aos astrônomos, aos cientistas, aos historiadores. Sobre essa luz, sobre essa Estrela bendita, eles nada sabem, nada têm a dizer! Procuremo-la dentro de nós: o Menino é a Luz que ilumina todo ser humano que vem a este mundo! No século I, Santo Inácio de Antioquia já ensinava: “Uma estrela brilhou no céu mais do que qualquer outra estrela, e todas as outras estrelas, junto com o sol e a luz, formaram um coro, ao redor da estrela de Cristo, que superava a todas em esplendor”. É esta Luz que devemos buscar, esta Luz que devemos seguir, por esta Luz devemos nos deixar iluminar! São Leão Magno, no século V, já pedia aos cristãos: “Deixa que a luz do astro celeste aja sobre os sentidos do teu corpo, mas com todo o amor do coração recebe dentro de ti a Luz que ilumina todo homem vindo a este mundo!”. E, também no mesmo século V, São Pedro Crisólogo, bispo de Ravena, falava sobre o mistério deste dia: “Hoje, os magos que procuravam o Rei resplandecente nas estrelas, o encontram num berço. Hoje os magos veem claramente, envolvido em panos, aquele que há muito tempo procuravam de modo obscuro nos astros. Hoje, contemplam, maravilhados, no presépio, o céu na terra, a terra no céu, o homem em Deus, Deus no homem e, incluído no corpo pequenino de uma criança, Aquele que o universo não pode conter. Vendo-O, proclamam sua fé e não discutem, oferecendo-lhe místicos presentes. Assim, o povo pagão, que era o último, tornou-se o primeiro, porque a fé dos magos deu início à fé de todos os pagãos!”

Quanta luz, na festa de hoje! E, no entanto, é preciso que compreendamos sem pessimismo, mas também sem ilusões diabólicas, que este mundo vive em trevas: “Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos...” Que tristeza tão grande, constatar que as palavras do Profeta ainda hoje são tão verdadeiras... “Mas sobre ti apareceu o Senhor, e Sua Glória já se manifesta sobre ti”. Não são trevas as tantas trevas da realidade que nos cerca? Não são trevas a violência, a devassidão, a permissividade, as drogas, a exacerbação da sensualidade? Não são trevas a injustiça, a corrupção e a impiedade? Não é treva densa o comércio de religiões, o coquetel de seitas, o uso leviano e interesseiro do Evangelho e do Nome santo de Jesus? Não é treva medonha a dissolução da família, a relativização e esquecimento dos valores mais sagrados e da verdade da fé, com o pretexto torpe de agradar ao mundo?

Deixemo-nos guiar pela Estrela do Menino, deixemo-nos iluminar pela Sua Luz! Com os magos, ajoelhemo-nos diante Daquele que nasceu para nós e está nos braços da sempre Virgem Maria Mãe de Deus: ofereçamos-Lhe nossos dons: não mais mirra, incenso e ouro, mas a nossa liberdade, a nossa consciência e a nossa decisão de segui-Lo até o fim. Assim, alegrar-nos-emos com grande alegria e voltaremos ao mundo por outro caminho, “não em orgias e bebedeiras, nem em devassidão e libertinagem, nem em rixas e ciúmes. Mas vesti-vos do Senhor Jesus e não procureis satisfazer os desejos da carne. Deixemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz” (Rm 13,13.12).

Terminemos com o pedido que a Igreja fará na oração após a comunhão: “Ó Deus, guiai-nos sempre e por toda parte com a Vossa luz celeste, para que possamos acolher com fé e viver com amor o Mistério de que nos destes participar!” Amém.


segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O nascimento do Verbo, por São Máximo de Turim (séc. V)


Caríssimos irmãos, há dois nascimentos em Cristo, e tanto um como o outro são a expressão de um poder divino que nos ultrapassa absolutamente.

Por um lado, Deus gera o Seu Filho a partir de Si mesmo; por outro, Ele é concebido por uma Virgem por intervenção de Deus.

Por um lado, Ele nasce para criar a vida; por outro, para eliminar a morte.

Ali, nasce de Seu Pai; aqui, é trazido ao mundo pelos homens.

Por ter sido gerado pelo Pai, está na origem do homem; por ter nascido humanamente, liberta o homem.

Uma e outra formas de nascimento são propriamente inexprimíveis e ao mesmo tempo inseparáveis.
Quando ensinamos que há dois nascimentos em Cristo, não queremos com isto dizer que o Filho de Deus nasça duas vezes; mas afirmamos a dualidade de natureza num só e mesmo Filho de Deus.

Por um lado, nasceu Aquele que já existia; por outro, foi produzido Aquele que ainda não existia.

O bem-aventurado evangelista João afirma isto mesmo com as seguintes palavras: "No princípio era o Verbo; o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus” e ainda: “E o Verbo Se fez carne”.
Assim, pois, Deus, que estava junto de Deus, saiu Dele, e a carne de Deus, que não estava Nele, saiu de uma mulher.

O Verbo fez-Se carne, não de maneira que Deus Se diluísse no homem, mas para que o homem fosse gloriosamente elevado em Deus.

É por isso que Deus não nasce duas vezes; mas, por estes dois gêneros de nascimento – a saber, o de Deus e o do homem –, o Filho único do Pai quis ser, a um tempo, Deus e homem na mesma Pessoa: “E quem poderá contar o Seu nascimento?” (Is 53, 8 Vulg)

“A Vida Se manifestou!”

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Homilia para a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus

Nm 6,22-27
Sl 66
Gl 4,4-7
Lc 2,16-21

Hoje é a Oitava do Santo Natal. É um antiquíssimo costume da Igreja de Roma, voltar seu coração e sua mente, neste dia, para Aquela de quem nasceu o Salvador do mundo. O Evangelho de São Mateus afirma que os magos, ao entrarem onde estava a Sagrada Família, “viram o Menino com Maria, Sua Mãe e, prostrando-se, O homenagearam” (2,11).
Trata-se da homenagem solene e ritual prestada aos reis orientais. E, no Oriente, a Mãe do rei, chamada gebirah, exercia um papel importantíssimo. Pois, eis aqui, na cena do Evangelho, o Rei dos judeus, o Rei-Messias, o Rei que é Deus, e Sua Rainha-Mãe, sua gebirah, a Virgem Maria! Agradecida pelo seu “sim” ao plano de Deus, a Igreja chama-a, desde os primórdios da fé cristã, de “Mãe de Deus”, isto é, “Mãe de Deus-Filho feito homem”! Com isto, nós confessamos que o Menino nascido da Virgem é Deus verdadeiro e perfeito, uma Pessoa divina com a natureza divina completa e uma verdadeira natureza humana. Ele, Filho do eterno Pai, fez-Se realmente, como homem, filho de Maria Virgem, sem deixar de ser Deus! Na Virgem Santíssima, que trouxe em seu seio a segunda Pessoa da Trindade Santa, o divino e o humano se encontraram para sempre, os Céus e a terra se abraçaram para nunca mais se deixarem!

Ao recordar a Maternidade Divina de Nossa Senhora, a Igreja recorda também as condições maravilhosas dessa maternidade: ela aconteceu de modo virginal! Com efeito, a Mãe do Senhor concebeu virginalmente, virginalmente deu à luz e virgem permaneceu para sempre! A Virgem não somente concebeu, mas também virginalmente deu à luz um Filho – eis a profecia de Isaías (cf. 7,14). A Igreja canta esse mistério com palavras admiráveis: “Na sarça que Moisés via arder sem se consumir, admiramos o sinal da vossa incomparável virgindade, ó Mãe de Deus!” e ainda, pensando na porta selada, pela qual somente o Senhor passaria, como profetizou Ezequiel (cf. 44,2), a Igreja exclama: “A porta eterna do Templo eternamente fechado feliz e pronta se abre somente ao Rei esperado!”.
Aqui silencia a imaginação humana, pois que pertence ao segredo de Deus o modo como, Virgem, Nossa Senhora concebeu e ainda como, virginalmente, deu à luz! Uma coisa é certa: sua virgindade perpétua quer nos mostrar o quanto esse Menino todo vindo de Deus é um novo começo, um novo início para toda a criação e toda a humanidade! Além do mais, revela o quanto Maria Virgem foi integralmente de Deus, de corpo e alma. Num mundo que endeusa o sexo e exalta de modo abusivo a sensualidade, a Santíssima Virgem nos aponta outros valores e revela a beleza da virgindade e da castidade como expressão do ser humano vivendo livre, debaixo do senhorio de Cristo, no seu corpo, no seu afeto e na sua alma! Quanto mais alguém vive totalmente para o Senhor, mais fecundo se torna em sua vida e mais traz Jesus ao mundo, como testemunha do Reino dos Céus. Por isso a saudação que a Igreja hoje dirige à Virgem Maria: “Salve, ó Santa Mãe de Deus, vós destes à luz o Rei que governa o céu e a terra pelos séculos eternos!”

Hoje também, oitavo dia do nascimento do Fruto do ventre da Virgem, a Igreja recorda a circuncisão do Menino. Ele, circuncidado, passou a fazer parte do Povo de Israel. Assim, cumpriu-se a promessa que Deus fizera a Abraão, nosso Pai. Da sua descendência o Senhor fizera surgir um Salvador para todas as nações: “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o Seu filho, nascido de uma Mulher, nascido sob a Lei!”. Circuncidado, o Menino recebeu o nome de Jesus, que significa “o Senhor salva”. Seu nome revela Sua identidade, Sua missão e a causa da nossa alegria! Ele é a salvação que Deus nos concede, Ele é a nossa Paz, pois nos reconcilia com Deus e nos abre as portas do céu. Por isso mesmo, os cristãos hoje, juntamente com toda a humanidade, celebram o Dia da Paz. Para nós, essa Paz tem um nome, tem um rosto, tem um sorriso. Podemos encontrar tudo isso Naquele que veio de Maria, a Virgem! Somente abrindo-se para Ele, o mundo encontrará a verdadeira paz!

Confiemos, pois, os dias do novo Ano civil que está começando, a este Menino, o Príncipe da Paz. Que o Seu Nome repouse sobre nós, como uma bênção! Certamente, neste 2019 choraremos e sorriremos, venceremos e fracassaremos, cairemos e nos ergueremos... Não importa! Importa, sim, que estejamos com o Senhor, Ele, que estará sempre conosco. Ele foi apelidado – não esqueçamos – de Emanuel, Deus-conosco! Que este ano seja, como se colocavam nos antigos documentos, “Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo!”

Hoje, também tomaram posse os novos governantes da nossa Pátria e dos Estados da Federação brasileira. Como nos manda as Escrituras, rezemos pelos nossos governantes, para que nos dirijam com sabedoria, com prudência, com honestidade, com preocupação sincera pelo bem comum. Que nossos líderes não sejam corruptos, que se preocupem com os mais necessitados e promovam lealmente os verdadeiros valores humanos e cristãos que forjaram a nossa sociedade.

Coloquemos, pois, os dias de nossa vida nas mãos do Salvador. E, como penhor de que nossas preces serão ouvidas, supliquemos à Mãe de Deus toda Santa: “À vossa proteção recorremos, ó Santa Mãe de Deus! Protegei os pobres, ajudai os fracos, consolai os tristes, rogai pela Igreja, protegei o clero, ajudai-nos todos, sede nossa salvação! Santa Maria, sois a Mãe dos homens, sois a Mãe do Cristo que nos fez irmãos! Rogai pela Igreja, pela humanidade e fazei que, enfim, tenhamos paz e salvação!” Amém.


Homilia para a Festa da Sagrada Família - ano c

“Vieram apressados os pastores, e encontraram Maria com José e o Menino deitado no presépio” (Lc 2,16).
Como é eloquente esta afirmação do Evangelho! O Menino que nasceu para nós, tão humano, encontrado com Seu pai e Sua Mãe, no seio - tão normal, tão nosso - de uma família! É o sentido da festa deste Domingo dentro da Oitava do santo Natal.

Compreendamos: a Festa do Natal não se resume a um dia; trata-se, antes de um tempo, no qual a Igreja celebra o mistério da Manifestação do Senhor na nossa humanidade. Ele assumiu tudo quanto é nosso, encheu tudo quanto é nosso com a Sua bendita divindade, para nos fazer participar da Sua Vida eterna. Em outras palavras: assumiu a nossa humanidade para encher-nos com a Sua divindade! Pois bem: Jesus, o Filho eterno do Pai, assumiu realmente uma família humana! Poderia ter simplesmente aparecido na terra... Mas, não: nasceu de uma Mãe, precisou de um pai, de um lar, de uma vida familiar. E isto tem implicações seríssimas para a nossa fé cristã. Vejamos:

Antes de mais nada, a festa deste hoje deixa claro que a família é sagrada. Para nós, cristãos, ela não é somente uma realidade cultural, social, antropológica; é, acima de tudo, uma realidade teológica, isto é, ela pertence ao plano de Deus para a humanidade. Desde a criação, o Senhor pensou a humanidade como homem e mulher (cf. Gn 1,27) e determinou que o homem não estivesse sozinho (cf. Gn 2,18); desde o princípio, a primeira palavra do homem foi uma declaração de amor à mulher: “Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne” (Gn 2,23).Ora, o Cristo que veio para levar à plenitude tudo quanto o Pai sonhou deste o princípio, assumiu e santificou a família, de modo que, se ela já era santa porque faz parte do plano de Deus, mais santa ainda tornou-se, porque assumida e santificada pelo Cristo Jesus e feita por Ele sinal da Igreja e do Reino de Deus. É o que recorda o Evangelho de hoje, mostrando o Senhor Jesus no seio familiar, como qualquer criança, submisso aos Seus pais no dia-a-dia; é o que nos mostra, de modo muito terno e comovedor, a Carta aos Colossenses – a família como uma pequena Igreja, a Igreja da casa, a Igreja doméstica: “Irmãos, vós sois amados por Deus, sois Seus santos eleitos: revesti-vos de sincera misericórdia, humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver queixa contra o outro. Que a paz de Cristo reine em vossos corações, à qual fostes chamados como membros de um só corpo. Que a palavra de Cristo habite em vós. Tudo que fizerdes, seja feito em Nome do Senhor Jesus Cristo. Por meio Dele dai graças a Deus, o Pai”.
Notem que a família aqui é vista e pensada em Cristo, como uma pequena comunidade de irmãos em Cristo. Jamais, para um cristão, a vida familiar é simplesmente natural! Jamais um cristão poderá aceitar que seja chamado propriamente família quaisquer uniões, que não a união de um esposo com uma esposa e os filhos nascidos do amor deles ou pelo amor deles acolhidos! Com todo o respeito que os pares homossexuais merecem, e com todo respeito pelo pensamento de muitos juristas e juízes de família ou de sabichões arrogantes e vaidosos togados do Supremo Tribunal Federal, jamais será lícito a um cristão aceitar um conceito de família diferente daquele que a Palavra de Deus nos apresenta!
E que não venham dizer que a Igreja é desumana ou quadrada! Trata-se, aqui, de fidelidade à Palavra de Deus! E num tema decisivo para a humanidade! Destruir e desvirtuar a família, é colocar em perigo a própria humanidade, o próprio tecido social! Olhem o mundo atual, pensem na situação de nossos jovens, sem religião, descristianizados por falta de uma família realmente cristã, e vocês darão razão ao que digo!

No desígnio de Deus, a família não é somente uma pequena Igreja, mas é também lugar de humanização e realização humana. Basta recordar as palavras comoventes do Eclesiástico e do Salmo da Missa de hoje! É no seio familiar que se aprende a ser gente, aprende-se o amor, a solidariedade, o diálogo, o respeito de uns pelos outros, a vida comum, o valor do trabalho honesto, o valor da verdade, da piedade e da paz. Na família, aprende-se ou deve-se aprender a rezar e a amar a Deus com terno carinho. Na família também, nós fazemos as nossas primeiras experiências da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois é aí que choramos pela primeira vez, aí enfrentamos as primeiras crises e os primeiros sofrimentos, como a família de Nazaré, no Evangelho de hoje! É aí, na família cristã, que aprendemos que o sofrimento, quando vivido na fé e em união com Cristo, torna-se fecundo, amadurece-nos, faz-nos crescer e nos dá a graça de participar da Paixão redentora do Senhor.

Infelizmente, uma sociedade como a nossa, paganizada, terra-terra, incapaz de sonhar ideais altos, já não mais compreende esta linguagem! A família é vista simplesmente sob um prisma humano, sem nenhuma referência ao plano de Deus, como se fora um mero ajuntamento de pessoas, uma mera “comunidade afetiva”, dizem os tolos sabichões do Direito de Família! Secularizada, a família cai no faça-você-mesmo, sendo destruída e desmoralizada! A televisão prega todos os dias o seu fim, as novelas desmoralizam-na, os astros e estrelas dos meios de comunicação defendem o divórcio, o aborto, a infidelidade conjugal, paterna e filial, a permissividade, a destruição dos gêneros masculino e feminino como Deus quis e criou, a desrespeito entre pais e filhos... Os resultados estão aí, patentes e trágicos! Que o digam os filhos que já não têm o direito de terem um pai e uma mãe vivendo juntos; que o digam os jovenzinhos que só sabem “ficar”, e isto com doze, treze anos de idade; que o digam as mães e pais solteiros de quatorze, quinze anos de idade; que o digam os tantos desquitados e divorciados e descasados de nossa sociedade, que o digam tantos jovem confusos em sua identidade sexual e marcados negativamente de modo traumático por experiências negativas e destrutivas que poderiam ter evitado...

Nós, cristãos, temos o dever sagrado de resgatar o plano de Deus para a família. Respeitando a opinião dos outros, dos pagãos – vários dos quais se dizem cristãos! – é preciso deixar claro qual o sonho de Deus para a realidade familiar humana! É preciso deixar patente que não aceitamos profanar algo que nasce de um sacramento e foi abençoado por Deus desde o princípio e santificado pelo Senhor Jesus! Aqui, não se trata de ser aberto ou não, moderno ou não, mas de ser fiel ou não, de ser cristão ou não, de levar a sério o Evangelho ou não! Não é permitido a ninguém – muito menos à Igreja! – adulterar e perverter o sagrado desígnio de Deus nosso Senhor!

Cristãos, que nossas famílias sejam cristãs! O Senhor pedir-nos-á contas de nossa vida de família! Que sejam nossos lares lugar de convivência pacífica e respeitosa, lugar de partilha de sonhos, problemas, esperanças, alegrias e tristezas; que sejam nossas famílias lugar onde se vive a fé, onde se reza diariamente, onde, aos domingos, o Senhor tenha um lugar especial; que sejam lugar de humanização, de crescimento nas virtudes humanas e cristãs! Lugar de diálogo, de perdão, de compreensão, de diálogo, e mútua ajuda e de paz! Que os pais aprendem a dialogar com os filhos, a ouvi-los, a falar-lhes, a corrigi-los, a incentivá-los, a perdoá-los. Que os filhos aprendam a respeitar seus pais, a escutá-los, a levar em consideração a experiência de vida que eles têm, a pensar com seriedade nos conselhos que dão! Que os filhos rejuveneçam os pais com seus sonhos; que os pais amadureçam os filhos com sua experiência! Que pais a filhos vivam debaixo do amor de Deus e do Evangelho de Cristo!

E que intercedam por nós a Virgem Maria e seu esposo, São José! Que tenha misericórdia de nós o Cristo Jesus, feito obediente a Seus pais no coração da casa de Nazaré. E que todos nos esforcemos sinceramente para construir em nossa casa um ambiente realmente de Igreja doméstica, que seja já agora um pedacinho do céu, daquele céu que esperamos, um dia, onde, com Maria sempre Virgem e com São José, contemplaremos eternamente o Cristo por nós nascido, que é Deus, com o Pai e o Espírito Santo. Amém.


terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Homilia para a Missa do Dia do Natal do Senhor

Mais uma vez, caríssimos, a volta do ano trouxe-nos a santa Celebração do Natal do Senhor nosso Jesus Cristo. Historicamente, o natalício do Cristo nosso Deus ocorreu há dois mil anos atrás; no entanto, na potência do Santo Espírito, o Natal acontece hoje misticamente, nos santos mistérios que celebramos com piedade e unção. Cada um de nós, que participa desta Celebração sagrada, conserve no coração esta certeza: nos gestos, nas palavras, nos ritos da Santa Liturgia, a graça do santo Natal do Senhor faz-se realmente presente e verdadeiramente inunda a nossa vida! Para nós, aqui reunidos, o Natal é hoje, o Natal é agora!

Assim, podemos, cheios de admiração, escutar o Evangelho que nos anuncia: “O Verbo Se fez carne e habitou entre nós!” Em outras palavras: o Filho eterno do Pai, Luz gerada da Luz, Deus verdadeiro gerado eternamente do Deus verdadeiro, para salvar o mundo com a Sua piedosa vinda, hoje nasceu homem verdadeiro, homem entre os homens, de Maria, a Virgem!
Caríssimos, quem poderia imaginar tal mistério, tal surpresa de Deus, nosso Senhor?
A Liturgia oriental exclama, admirada: “Vinde, regozijemo-nos no Senhor, explicando o mistério deste Dia. A Imagem idêntica do Pai, o Vestígio de Sua eternidade, toma forma de escravo, nascendo de uma mãe que não conheceu o casamento, e sem mesmo sofrer mudança! O que Ele era, permaneceu: Deus verdadeiro; o que não era, Ele assumiu: tendo-Se feito homem por amor dos homens” (Grandes Vésperas do Natal).
Eis o mistério: o Menino que nos nasceu para nós, o filho que nos foi dado, é Deus perfeito, é o Filho eterno, através de Quem e para Quem tudo foi criado no céu e na terra. Ele não é uma pessoa humana; é uma Pessoa divina, a segunda da Trindade. Este Menininho é adorável: deve receber toda nossa adoração, todo nossa louvor, todo nosso afeto. No entanto, sendo Deus perfeito, hoje, Ele saiu do seio da Sempre Virgem Maria, como verdadeiro homem, homem perfeito, com um corpo igual ao nosso, com uma alma igual à nossa, com uma vida para viver igual à nossa pobre existência! Quanto amor, quanta bondade, quanta humildade! 

Caríssimos, neste Deus hoje nascido da Virgem, a nossa humanidade foi unida ao próprio Deus. 
Hoje a força do pecado começou a ser quebrada,
hoje a doença da nossa natureza humana, tão propensa ao pecado, ganhou seu verdadeiro remédio,
hoje, fazendo-Se homem mortal, o Salvador nosso veio trazer a medicina que cura a nossa morte! 
Bendita seja a Sua gloriosa vinda, o Seu virginal nascimento! Adoremo-Lo! Afirmemos com a Igreja, na sua santa Liturgia:
“Foi depositado num estábulo Aquele que contém o universo.
Ele descansa numa manjedoura e reina nos Céus.
É o Salvador dos séculos, o Rei dos Anjos, Aquele mesmo que a Virgem amamentava (Liturgia romana).

Caríssimos, por tudo isso, nunca percamos de vista a graça que recebemos pelo dom da fé! Vivemos num mundo confuso, de mentiras, de idolatrias, de confusão. O homem pensa poder fazer sozinho a sua vida, encontrar do seu modo a felicidade, fazer de seu jeito a sua própria existência. A Solenidade de hoje nos recorda que a humanidade precisa de um Salvador – e esse Salvador é Jesus, nosso Senhor!
Ele é a nossa única Verdade,
Ele, o nosso único Caminho,
Ele, a verdadeira Vida!
Não queremos outros mestres, não admitiremos outros senhores, não buscaremos outras verdades. Mais que nunca, nesta quadra tão difícil da história, quando o cristianismo e a Igreja de Cristo são ameaçados externa e internamente, tão caluniados e perseguidos, quando a verdadeira fé é tão denegrida de tantos modos e os que a defendem são ridicularizados e vilipendiados...
Hoje, quando ser cristão tem se tornado motivo de chacota e gozação, queremos, uma vez mais, e com todas as nossas forças, proclamar nossa total e incondicional adesão ao nosso Deus e Senhor Jesus Cristo! Por isso, amados nos Senhor, o Filho de Deus fez-Se homem: para que o homem possa ver e ouvir claramente o que é ser homem, o que é viver de modo verdadeiramente digno, livre, maduro e feliz!
O mundo nos propõe uma liberdade torpe, fundada nos caprichos, na loucura de fazer aquilo que se quer;
o mundo nos tenta convencer que cada um é a sua própria medida, é o dono de sua própria vida;
o mundo atual nos ensina a viver entregue às próprias paixões, aos próprios desejos...
Aí estão: famílias destruídas, filhos sem pais, um rio de abortos e infelicidade, jovens sem esperança, uma sociedade sem valores nem critérios verdadeiramente dignos do homem criado à imagem de Deus...
Mas, outro é o caminho que o Salvador hoje nascido nos aponta. Aprendamos com Ele, o homem perfeito; sigamo-Lo sem medo, coloquemos aos Seus pés a nossa vida e a nossa liberdade, os nossos desejos e os nossos afetos. Deixemos que Sua santa lei de amor e graça inunde nosso coração, penetre nas nossas famílias, modele o nosso modo de viver! Então, seremos realmente humanos, seremos realmente livres, seremos realmente felizes!

Alegremo-nos, caríssimos, pela hodierna Solenidade!
“Que desapareça toda enfermidade: hoje, o Salvador apareceu.
Não haja guerra, cale-se a discórdia: hoje, a verdadeira paz desceu dos Céus.
Desapareça toda amargura: hoje por todo o universo os Céus destilam mel.
Fuja a morte, pois hoje a vida nos é dada dos Céus...
Hoje, os cegos recobram a vista, os surdos ouvem, os coxos e os leprosos são curados, aqueles que estavam na tristeza estão na alegria, os enfermos encontram a saúde, os mortos ressuscitam. 
Somente o Diabo e seus demônios – e o mundo que os serve – tremem de cólera, pois sua derrota é a restauração do gênero humano.
Hoje, o Cristo nos apareceu como Salvador” (Homilia de um Anônimo do século V).

Eis, pois, quantos motivos para nossa alegria, quantos, para nosso júbilo! Que pessoalmente e em família, celebremos de modo santo e devoto a Vinda do Nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo, a Quem seja dada a glória com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.