sábado, 13 de julho de 2019

Homilia para o XV Domingo Comum - ano c

Dt 30,10-14
Sl 68 ou Sl 18B
Cl 1,15-20
Lc 10,25-37

A Palavra de Deus proposta neste Domingo é surpreendente. Tudo começa com uma pergunta que, apesar de ter sido feita para testar o Senhor Jesus, é válida, necessária, sempre urgente; pergunta que brota do mais profundo da nossa angústia: “Que devo fazer para receber a vida? Como devo viver para viver de verdade, para que minha vida valha a pena e não seja uma paixão inútil?” Apesar de um mundo que procura nos distrair dessa pergunta, não há como sufocá-la, como fazer de conta que ela não perturba nosso coração!
Pelo amor de Deus, responda o mundo tão animado e cheio de distrações: onde está a felicidade duradoura? Onde está a vida, a realização da existência? Que caminho seguir, para ser feliz de verdade?

Jesus, nosso Senhor, indica o caminho: “O que está escrito na Lei? Como lês?” – Aqui, há algo importantíssimo. O Cristo Jesus está falando com um escriba judeu; por isso, manda-o à Lei de Moisés. Uma coisa Ele quer deixar clara: a vida não está no homem, mas na vontade de Deus! O homem somente será feliz, somente encontrará verdadeiramente a Vida se procurar lealmente a vontade de Deus. Por isso, no Salmo 118, o Salmista pede, de modo comovente: “Sou apenas peregrino sobre a terra; de mim não oculteis Vossos preceitos!” Perder de vista o desígnio de Deus para nós, é perder de vista a própria vida, o sentido da existência!
Não esqueçamos, para não sermos enganados: fechados para a vontade do Senhor, não encontraremos a realização verdadeira! E este é o drama do mundo atual, que se julga maior de idade e, portanto, independente de Deus. Na verdade, é um mundo ateu, porque é um mundo autossuficiente, que só confia de verdade na sua filosofia, na sua tecnologia, na sua racionalidade pagã e na sua moral fechada para o Infinito!

Ao invés, o Cristo Senhor nos força a abrir o coração para o Alto, para o Altíssimo; convida-nos a respirar fundo o ar novo e puro, que brota das narinas de Deus e dá novo alento ao ser humano cansado e envelhecido pelo pecado! “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua força e com toda a tua inteligência”. Esta abertura para Deus dilata e realiza o coração humano, que foi criado para dar e receber amor, um amor pleno, amor na relação com Deus, que desemboca, generoso, no amor em relação aos outros: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. – “Faze isto e viverás!”
Os filósofos ateus dos últimos séculos – de Feuerbach aos louquinhos superficiais de hoje, de ateísmo de folhetim - gostam de insistir que Deus escraviza o homem, desumaniza a humanidade, impedindo-a de ser ela própria, de ser feliz. É mentira! É um triste mal-entendido! A verdadeira abertura para Deus nos faz crescer, nos faz superar nossos estreitos limites, nos lança de verdade em relação a Deus e nos compromete com os outros! Os mandamentos de Deus realizam o mais profundo anseio do nosso coração, que é a vida: “Converte-te ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma! Na verdade, o mandamento que hoje te dou não é difícil demais, nem está fora do teu alcance!” O próprio Deus – acreditem – nos deu o desejo e a capacidade de amar ao nos criar à Sua imagem!

O nosso bendito Salvador insiste ainda em algo muito importante: nossa relação com Deus, se é verdadeira, deve abrir-nos aos irmãos: “Quem é o meu próximo?”– A resposta de Jesus é clara: nosso próximo são aqueles que a vida fez próximos de nós. Nosso próximo são os próximos! Ou os amamos de verdade, ou não há próximo para amar. O próximo viraria uma ideia abstrata e sem valor algum. Não esqueçamos: o próximo tem rosto, tem cheiro, tem problemas e, às vezes, nos incomoda, nos atrapalha, nos desafia, nos causa raiva e contradição. É este próximo, concreto como uma rocha, que eu devo amar! Um judeu deve amar o próximo como a si mesmo: é isto que está escrito na Lei do Antigo Testamento. Um cristão, não! Ele deve amar o próximo como Jesus, nosso Redentor: até dar a vida: “Amai-vos como Eu vos amei! Dei-vos o exemplo para que, como Eu vos fiz, façais vós também!” (Jo 13,34.15).

Recordemos que o próprio Senhor nos deu o exemplo; Ele mesmo Se fez próximo de nós: sendo Deus, Se fez homem, veio viver a nossa aventura, partilhar a nossa sorte, para nos dar a Sua Vida: “Cristo é a imagem do Deus invisível... porque Deus quis habitar Nele com toda a Sua plenitude”. Ele não viu nossa miséria de longe: Ele desceu e veio viver a nossa vida, fazendo-Se Deus conosco! Por isso, Ele é o verdadeiro Bom Samaritano, o verdadeiro modelo daquele que se faz próximo: viu-nos à margem do caminho da vida; viu-nos roubados e despojados de nossa dignidade de imagem de Deus; viu-nos totalmente perdidos... Ele Se compadeceu de nós, desceu à nossa miséria, fez-Se homem, para nos curar e elevar. Nele, se revela a plenitude do amor a Deus e aos outros: “Deus quis por Ele reconciliar Consigo todos os seres que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da Sua cruz”. Então, somente em Cristo, encontramos a Vida verdadeira e a realização pela qual tanto almejamos. Só Ele nos reconcilia com Deus e no abre uns para os outros, aproximando-nos no Seu amor!

Quando os cristãos não conseguem viver isso, quando não conseguem deixar que essa realidade maravilhosa transpareça, é porque estão sendo infiéis, estão sendo uma caricatura de discípulos do Senhor Jesus. Que responsabilidade a nossa! Saiamos daqui, hoje, com essa pergunta: quem são os meus próximos? Que tenho feito com eles? De quem ando distante e devo me aproximar Pensemos em Jesus Cristo que veio ser próximo, e ainda se faz próximo, hoje, em cada Eucaristia. Pensemos Nele: “Vai, tu também, e faze o mesmo!” Amém.


sexta-feira, 12 de julho de 2019

Apontamentos para uma vida sábia

“Toda sabedoria vem do Senhor Deus. Ela esteve e está sempre com Ele. Ele a concede àqueles que O temem” (Eclo 1,1.10). Estas palavras tão simples da Sagrada Escritura, no Livro do Eclesiástico, dão o que pensar. São tão simples que, de modo ligeiro, damos por descontadas e, no entanto, se o homem realmente lhes desse atenção, o mundo seria totalmente diferente.

Que é a sabedoria? É o viver bem, viver de modo reto, dando um sentido verdadeiro, não ilusório e falso, à existência. O sábio é aquele que descobriu o sentido da vida e procura viver conforme esse sentido. Pois bem, o Autor Sagrado afirma que toda sabedoria vem do Senhor, porque somente à Sua luz se descortina o que somos verdadeiramente.
Não somos donos de nós mesmos, não nos criamos, não somos patrões de nossa vida de modo absoluto, não somos a nossa própria medida. Então, o primeiro passo para uma vida realmente sábia é reconhecer isso: a vida foi-me dada; não a fabriquei! Recebi-a como um dom vindo de um Outro, que me ultrapassa, antecede-me e me é posterior.
Quando, realmente, temos esta percepção, muda o nosso modo de viver nossos dias, de tomar nossas decisões, pois deixamos de nos pensar como o centro e passamos a viver abertos Àquele Outro, de quem recebemos a existência. Ele, sim, é o centro, o eixo, o critério. Viver abertos para Ele é viver de verdade, viver segundo aquilo que somos e devemos ser; fechar-se para Ele é viver na ilusão de que somos nosso próprio fim, nossa própria referência. É, então, viver numa mentira ou, o que é pior, cair no desespero cínico de não ter referência alguma e ter fim nenhum na vida!

A raiz da sabedoria é, pois, abrir-se para o Absoluto, para o Senhor e reconhecê-Lo concretamente na existência. Não há como escapar disso. O homem tem sede de Deus, é um mendigo do Eterno, do Absoluto! Precisamente a negação dessa busca de Deus é que provoca o stress existencial no qual nossa sociedade está metida. Pensemos bem! Temos tudo em tecnologia, informação, acesso a bens de consumo; quebramos todos os tabus, violamos todas as normas, jogamos no chão quase todos os valores, relativizamos todos os dogmas, esvaziamos a Palavra santa de Deus e, no entanto, nosso mundo é um mundo desencantado, um mundo que já não crê realmente em valores perenes e universais nem na existência de um Valor, um Sentido, que dê real sentido à aventura da existência. No fundo, mesmo os poucos valores que estão na moda (a preservação da natureza, a salvaguarda da vida segundo o politicamente correto, os direitos das minorias, etc), na prática são manipulados segundo a ocasião; não são valores absolutos, mas de conveniência, feita de bandeiras idológicas. Os países ricos continuam destruindo a natureza, a vida humana mais frágil, como a do embrião e a dos pobres, é pisada e destruída, e os direitos das minorias são manipulados muitas vezes com intenções escusas de simples panfletagem e jogo de politicamente correto... As certezas são muitas vezes vistas com desconfiança, sobretudo quando são certezas brotadas da fé. É o atávico relativismo da nossa época! Não se trata tanto de um relativismo teórico, filosófico, quanto de um relativismo prático, por falta de referência a um Absoluto e fadiga de valores.

Sem a sabedoria que abre para Deus e Nele encontra sua raiz, a existência aparece como fragmentada, sem muito sentido. Por mais belos que vejamos o mundo e a vida, a verdade é que a realidade apresenta pontos negros, que nos desafiam e parecem absurdos. Há, então, a tentação de não mais se procurar nem querer encontrar um sentido que preencha e dê harmonia a toda a realidade. Contentamo-nos com migalhas de sentido, de felicidade, de vida... E – que ninguém se iluda – o homem sem uma abertura para Deus não encontrará um alicerce firme, seguro, no qual construir a casa da sua existência e a construção de um sentido. Neste mundo, na nossa realidade, não há como encontrar o Sentido que a tudo preenche de sentido, a não ser que nos se abram a mente e o coração para um Transcendente, um Sentido último, que está para além deste mundo e a este mundo envolve com amor providente! Um Sentido do qual vimos e para o qual vamos, o nosso Donde e nosso Aonde!

As consequências desse vazio, desse oco existencial estão aí: violência, incapacidade de renunciar por um ideal, incapacidade de apostar a vida em valores, incapacidade de renunciar a migalhas de desejos e impulsos para sermos fieis aos ideais aos quais nos propomos e até mesmo, em alguns mundanos setores da Igreja, a indolência de uma fé morna, mole, que não alavanca realmente a existência e não serve para nada mais além de fugaz e ilusório verniz... Mas, não só. A própria indiferença pelo sofrimento alheio, o conformismo com as situações de opressão, dor e injustiça generalizada... Tudo isso revela uma descrença de fundo num Sentido absoluto, transcendente, para a existência humana. Para não irmos muito longe, pensemos em tantos dos nossos dirigentes brasileiros, pensemos nos nossos políticos... Como não se propõe nada, como não se tem um verdadeiro projeto, como não se tem um sonho, uma mística que inspire o agir... É que, quando falta o Sentido, contentamo-nos com as migalhas do provisório, do arrumar a vida privada a qualquer custo, mesmo às expensas dos outros... O mesmo vale para o modo como se vive hoje as relações afetivas no sexo e na família. Não se sacrifica nada, não se renuncia a nada, porque “eu tenho o direito de ser feliz”... Com um projeto de vida assim, é impossível viver! 
Recordo a constatação da adolescente Teresinha do Menino Jesus: “Quando me esqueci de mim, fui feliz!” Temos tudo quanto queremos, fazemos tudo quanto desejamos, transgredimos todos os costumes e negamos quase todos os valores; tornamos legais e aceitáveis os maiores absurdos e, ainda assim, não somos felizes, não somos mais plenos, não somos mais nós mesmos... Mesmo aquelas pessoas de boa vontade que, sem crerem, apostam nos valores, esses valores, carecem de um Fundamento último que lhes dê sustentação...

Pode-me crer, caro Irmão, a aposta do futuro do mundo é esta – e só esta: ou o homem volta a acolher a vida como dom e abrir-se para o Doador, ou construirá a vida como absoluta solidão e falta de sentido... Não há como escapar dessa escolha e de suas consequências...


quarta-feira, 10 de julho de 2019

Teu Nome é Santo, ó Deus sempre escondido!

“Ó Tu, que superas todas as coisas, 
com que outro nome poderia designar-Te? 
Que hino poderei cantar-Te? 

Palavra alguma exprime o que Tu és! 
Que inteligência poderá compreender-Te? 
Nenhum raciocínio conseguirá conceber-Te! 
Só Tu és inefável: tudo o que se pode dizer de Ti, de Ti provém! 
Tu és incognoscível: tudo o que se pode pensar de Ti, procede de Ti! 

Todos  os  seres  Te  celebram,  tanto  os  que  falam  como  os  que  não falam... 
Todos os seres Te prestam homenagem, 
tanto os pensam como os que não pensam... 
Todo o universo anseia ardentemente por Ti! 
Tudo quanto existe Te proclama 
e todo ser que se apercebe do Teu mundo 
elevará a Ti um hino de adorante silêncio. 
Tudo quanto permanece, permanece somente em Ti. 
O movimento do universo irrompe de Ti. 

Tu és o fim de todos os seres; és o Único! 
Estás em cada um deles, a cada um deles sustentas 
e não és nenhum deles. És o Outro, o Santo! 
Não és nem um ser isolado nem um conjunto. 
Tens todos os nomes e nome algum Te define. Como Te chamarei? 

Ó Tu, o único para o qual não existe denominação adequada, 
que espírito celestial poderá desvendar as nuvens que ocultam o Teu céu? 
Tem piedade, ó Tu que superas todas as coisas! 
Com que nome poderei chamar-Te, ó meu Deus, 
Se Tu mesmo não revelares Teu Nome?


domingo, 7 de julho de 2019

Apagar os rastros de Deus, apagar os rastros do homem...

Caro Amigo, aqui vai um antigo texto meu, que faço questão de repropor hoje, palavra por palavra...

O Governo francês está em guerra com os fundamentalistas muçulmanos. Por isso mesmo, reuniu o Conselho dos Sábios(!) – não se sabe de que sabedoria – e decidiu proibir nas escolas públicas de França quaisquer sinais religiosos: cruzes, turbantes, o véu das muçulmanas, o kippar dos judeus... Certamente, a medida é um desrespeito à liberdade de consciência e à liberdade de expressão, apesar de ter a desculpa esfarrapada de coibir o fundamentalismo e, por tabela, o terrorismo. A questão, no entanto, é mais profunda, mais ampla, mais séria. Trata-se do medo e da recusa, tão próprios de nossa sociedade ocidental, de abrir-se verdadeiramente para a ideia de um Ser transcendente, um Deus que seja realmente criador e interlocutor da humanidade.

Desde o século XVIII, a Europa vem cada vez mais relegando a questão religiosa para o campo do privado: a religião seria coisa de cada um, coisa para ser praticada no interior das casas e das consciências; não deveria ter nenhuma incidência na vida pública, social, comunitária. Esquecem os governantes franceses, esquecem os “sábios” da república pagã que, sem a religião, sem a Igreja católica, a França não seria França e a Europa não seria Europa. Esquecem o papel que o cristianismo, em geral, e o catolicismo, em particular, tiveram na formação da cultura e da consciência europeias. Isto é trágico, pois agora que desejam construir uma Europa unida, grande, atiram no pé ao esquecerem as origens culturais e humanas do Velho Continente. Ainda a França – primeiro país da Europa ocidental a receber o Batismo e já considerada “filha primogênita da Igreja” – foi contrária a uma referência ao cristianismo na nova constituição da União Europeia...

É necessário, no entanto, que se compreenda que o valor incomensurável, que é a liberdade religiosa, não deve ser confundido com a privatização da fé e da religião. A experiência religiosa é um valor imprescindível para a humanidade e a religião, como tal, pode e deve influenciar a consciência e o comportamento social, deve forjar um modo de ver o mundo e a vida, deve plasmar um jeito de encarar os problemas, realizar as escolhas e afrontar os desafios. É verdade que a religião não pode nem deve impor, mas pode e deve propor, insistir, recordar valores, exigências éticas, critérios morais. Sem isso, é a barbárie! Sem Deus, o humanismo é capenga, falso, simples e pura ideologia! Não resiste muito uma afirmação da dignidade do homem que não se funde na consciência do seu ser-amado-por-Deus. Nunca é demais insistir nas palavras do Senhor Deus, no livro do Gênesis: “Eu pedirei contas da vida do homem. Quem derrama o sangue do homem, pelo homem terá o seu sangue derramado. Pois à imagem de Deus o homem foi feito!” (Gn 9,5b-6)

É, pois, indispensável que as sociedades desenvolvidas do chamado Primeiro Mundo compreendam que, fechando-se para Deus - para Aquele que nos transcende e nos situa, fazendo-nos compreender a nós mesmos -, somente nos destruímos e perdemos o sentido mais profundo de nossa dignidade. Já nos anos sessenta, os Bispos do mundo inteiro, reunidos no Concílio Vaticano II, alertavam para esta triste possibilidade que se concretiza nos nossos dias. Primeiramente, colocavam a questão da essência do ser humano: “Que é o homem? Ele próprio já formulou, e continua a formular, acerca de si mesmo, inúmeras opiniões, diferentes entre si e até contraditórias. Segundo estas, muitas vezes se exalta, até se constituir norma absoluta, outras se abate até ao desespero. Daí as suas dúvidas e angústias... A Sagrada Escritura ensina que o homem foi criado à imagem de Deus, capaz de conhecer e amar o seu Criador, e por Este constituído senhor de todas as criaturas terrenas...” Depois, os Bispos recordaram que Deus é a verdade do homem: “A razão mais sublime da dignidade do homem consiste na sua vocação à união com Deus. E desde o começo de sua existência, o homem é convidado a dialogar com Deus: pois, se existe, é só porque, criado por Deus por amor, e por Ele, por amor, constantemente conservado; nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente esse amor e se entregar ao seu Criador”.

Em essência, o grande desafio do mundo ocidental, se não quiser se perder de vez, perdendo o rumo de sua consciência e de seu coração, é reconhecer novamente o ser humano como estruturalmente aberto para Deus. A racionalidade ocidental tem que reconhecer que não pode abarcar o sentido último e global da realidade toda: nem as ciências da natureza, nem a filosofia, nem as ciências sociais poderão jamais chegar ao cerne da questão do sentido mesmo da existência! Também a incrível habilidade científica e tecnológica não deveria engabelar o Ocidente, dando-lhe a ilusão de tudo poder e de satisfazer o coração humano empanturrando-se de bem-estar. Tudo que conseguiremos assim é a destruição do coração e do planeta! O homo sapiens (homem que pensa) e o homo faber (homem que produz ciência e tecnologia) têm que ser também homo fidelis (homem que é aberto ao Transcendente e é capaz de crer e ser fiel a Deus). Não esqueçamos as dramáticas palavras de Miguel de Unamuno, ateu que procurava Deus: “Sofro eu à Tua custa, Deus não existente, pois se Tu existisses, eu existiria também de verdade”. Ou Deus e o homem, ou nem Deus nem o homem!

sábado, 6 de julho de 2019

Homilia para o XIV Domingo Comum - ano c

Is 66,10-14c
Sl 65
Gl 6,14-18
Lc 10,1-12.17-20

No Evangelho de hoje, o Senhor nosso Jesus Cristo envia em missão setenta e dois discípulos. Estamos no capítulo 10 do Evangelho segundo São Lucas. No capítulo 9, Ele já enviara os Doze, dando-lhes “poder e autoridade sobre todos os demônios, bem como para curar doenças, e enviou-os a proclamar o Reino de Deus” (9,1-2a). Agora, o Senhor envia setenta e dois. Que significa isto? Por que estes dois grupos distintos de discípulos? Podemos pensar em dois motivos.
Primeiro: Doze é o número de Israel – e o Senhor foi enviado para salvar Israel; setenta ou setenta e dois é o número das nações pagãs – e, após a Ressurreição, os discípulos deveriam dirigir-se a todos os povos da terra, sem exceção, para que se cumprisse o que os profetas anunciaram e a primeira leitura desta santa Eucaristia nos anunciou: todas as nações da terra haveriam de se alegrar com a salvação do Deus de Israel, que seria manifestada em Jerusalém. Ora, esta Cidade Santa que consola, alimenta e acaricia como uma mãe, é imagem da verdadeira Jerusalém, do verdadeiro “Israel de Deus”, de que fala a segunda leitura, isto é, da Igreja! É ela o verdadeiro e definitivo Israel de Deus, é ela a Jerusalém do Alto que “é livre e é nossa Mãe” (Gl 4,26)!
Mas, há ainda um segundo motivo: se os Doze são o núcleo da Igreja e deles brotam a autoridade e todo o ministério apostólico, que continua na Igreja no ministério dos Bispos e dos padres e diáconos em comunhão com eles, por outro lado, os Doze não esgotam, não abarcam toda a missão da Igreja! Os setentas e dois recordam isto: para além dos Apóstolos e seus sucessores, o Senhor envia a todos, o Senhor conta com todos os Seus discípulos, conta com cada batizado, para que, cheios de zelo e coragem, vão “à Sua frente a toda cidade e lugar aonde Ele mesmo devia ir!” Sim, Irmãos no Senhor: somos todos enviados por Cristo, em certo sentido, somos todos sacramentos de Cristo, sinais de Cristo neste mundo, nas cidades do mundo, nas situações e realidades do mundo! Aí devemos ser testemunhas do Senhor “como cordeiros entre lobos”, num mundo que não é bonzinho nem simpático, nem irá nos acolher com facilidade; mundo que sempre apresentará tantas resistências em converter-se ao Senhor!

O Evangelho, caríssimos, se for pregado de verdade e na verdade, será pregado sempre em fraqueza, pois o verdadeiro discípulo de Cristo estará crucificado para o mundo e o mundo para ele! Nunca esqueçamos: o Evangelho não é simpático, não é bonzinho, não é óbvio! O anúncio do Reino de Deus exige que o homem se deixe, se esvazie de si próprio, isto é, se converta, dos seus vícios, da sua descrença, das suas manhas, para que Deus reine de verdade no seu coração. Ora, isto não é fácil nem para nós nem para ninguém! Por isso mesmo, o Senhor deixa claro hoje a séria possibilidade de sermos rejeitados, de termos de bater a poeira de nossas sandálias e seguirmos adiante, sem nos preocupar ou fazer conta com sucesso e fracasso! Atenção: o Senhor não nos envia para que façamos sucesso, mas para que sejamos fieis, trazendo em nós as marcas de Cristo, como São Paulo diz, na primeira leitura de hoje! Ai, Irmãos, como isto é esquecido na Igreja dos nossos dias! Deseja-se sucesso, deseja-se ser simpático ao mundo, deseja-se ser acolhido, aplaudido, compreendido, elogiado pelo mundo! Como anda esquecida a afirmação do santo Apóstolo Paulo: “Se eu quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo!” (Gl 1,10)

Caríssimos, o Senhor Jesus, ao nos enviar, faz uma constatação tão atual e urgente: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos”. Meus amados Irmãos, será sempre assim! A messe será sempre muito maior que as nossas possibilidades! Os ministros da Igreja e os evangelizadores serão sempre poucos em relação às necessidades e desafios do mundo.
O que fazer? Inventar soluções artificiais? Acabar com o celibato obrigatório dos padres? Não! Este não é o caminho indicado por Cristo, esta não é a solução de quem realmente tem fé! Isto cabe somente em corações mundanos, que fazem cálculos segundo a carne, mas não pensam segundo Cristo; gente que se coloca no lugar de Deus e julga poder plasmar a Igreja segundo seus caprichos!
O próprio Senhor, que aponta o desafio, indica também a solução: “Pedi ao Dono da messe que mande trabalhadores para a colheita!” Por que duvidamos? Por que não obedecemos? Por que a temeridade de colocar à prova o Senhor? Ele é fiel! Ele nunca deixará de chamar e enviar os operários para a messe! A questão é que tipo de Igreja alimentamos e construímos: é uma Igreja que cr6e, que cultiva a piedade, que conduz à santidade, que reza, que tem realmente Jesus nosso Senhor como centro e o Evangelho, sem ideologias, como critério?
Rezemos, imploremos, insistamos! Peçamos ao Senhor que envie padres, diáconos, missionários leigos e religiosos, cheios de amor genuíno e apaixonado pelo Senhor, capazes de anunciar com toda a vida e com toda a alma o Reino de Deus, convidando todos a uma verdadeira conversão de vida, deixando os ídolos do mundo e convertendo-se ao Deus vivo e verdadeiro (cf. 1Ts 1,9).

Observai, Irmãos, como a missão da Igreja não deve se dar pelos critérios humanos, por medidas de sucesso, pela riqueza de meios e técnicas, pela segurança e o aplauso do mundo, mas, ao invés, pela confiança no Senhor e no Seu poder, pela fidelidade, pela generosidade da entrega da nossa vida, do nosso esforço, do nosso amor! Sem bolsa nem sacola nem sandálias, sem perder tempos com saudações desnecessárias e discursos ou raciocínios inúteis, sem medo da incompreensão e da rejeição, mas com uma única certeza, com um único anúncio, com uma única novidade: “O Reino de Deus está próximo!” Em outras palavras:
Em Jesus nosso Senhor, Deus nos visitou, visitou a humanidade!
Em Jesus nosso Senhor, Deus nos dirigiu a Sua Palavra, ofereceu-nos a salvação que o Filho amado conquistou no tremendo combate da Cruz!
Em Jesus nosso Senhor, ressuscitado dentre os mortos, Deus nos oferece a possibilidade de entrar numa Vida nova, a Vida do Cristo, que é o próprio Espírito Santo, já neste mundo e, após a morte, por toda a eternidade!
Mas, para isto, é indispensável, é imprescindível, a conversão: a abertura do coração à Palavra e ao Juízo do Senhor sobre a nossa vida! É indispensável, é imprescindível deixar que o Senhor verdadeiramente reine sobre nós, em todos os aspectos da nossa existência: amor, sentimento, sexualidade, vida familiar, relações sociais, divertimento, trabalho, opções políticas, vida econômica e financeira! Somente entraremos no Reino se deixarmos que o Reinado do Senhor entre em cada aspecto, em cada setor em cada fibra do nosso coração e da nossa vida! Sem isto, não há verdadeira conversão! Não nos iludamos: se o Reino não entrar em nós, nós não entraremos no Reino! Eis a verdade, sem maquiagem, nem “mas”, nem “porém”! O que passa disso, vem do Maligno!

Meus queridos Irmãos, se vivermos e testemunharmos o Senhor assim, se com a nossa vida, palavras e atitudes anunciarmos o Seu Reinado, tenhamos certeza não somente de que Ele estará sempre conosco, mesmo nas provações e apertos, mas, acima de tudo, estejamos seguros de que os nossos nomes estão escritos no céu!
Que o Senhor nos dê esta fé, que o Senhor nos dê esta coragem, que o Senhor nos torne dignos de sermos trabalhadores da Sua messe, que o Senhor nos dê a graça da Vida eterna! Amém.


sexta-feira, 5 de julho de 2019

Gloria Dei homo vivens!

No longínquo século II, um dos mais ilustres dentre os bispos e teólogos da Igreja, Santo Irineu de Lião, afirmava: "Nunca poderíamos obter a incorrupção e a imortalidade a não ser unindo-nos à incorrupção e à imortalidade. Mas como poderíamos realizar esta união sem que antes a incorrupção e a imortalidade se tornassem aquilo que somos, a fim de que o corruptível fosse absorvido pela incorrupção e o mortal pela imortalidade e, deste modo, pudéssemos receber a adoção de filhos? (Contra as Heresias, III,19,1).
Aqui, o santo Bispo quer dizer, entre outras coisas, que o homem sozinho não se salva, não chega a ser aquilo que sonha ser, não chega à plenitude, não se realiza. Aquilo que hoje chamamos de realização da existência, de vida plena, de sentido da vida e de salvação, Irineu chama de "incorrupção e imortalidade": vida plena neste mundo e na glória eterna!
Pois bem, o homem sozinho, não chega a isso. Foi preciso que Deus lhe estendesse a mão, que o Filho de Deus Se tornasse filho do homem, que o Verbo Se fizesse carne, um de nós, um como nós, um vivendo a nossa aventura humana: "Tendo falhado o homem, Deus foi magnânimo, pois previa a vitória que pelo Verbo lhe seria restituída. Porque a força se perfaz na fraqueza, revelou-se então a benignidade de Deus e Seu esplêndido poder" (Ibidem, III,20,1).

Não deixa de ser surpreendente que, passados dois mil anos de cristianismo, a nossa cultura ocidental, engendrada pela fé cristã e por ela marcada, revele-se tão bêbada de prepotência e tão cega, na ilusão de construir uma civilização sem Deus, como se o homem se bastasse, fosse seu próprio fim, seu critério último ou, no dizer dos sofistas gregos, "a medida de todas as coisas". Não! O homem não é a medida de todas as coisas, o critério último do bem e do mal, do certo e do errado! Ao menos esse homem, fechado em si, incapaz de reconhecer que ele vem de um Outro, a esse Outro está sempre referido e deste Outro dependerá sempre!

Por que esta reflexão, no presente texto? Por toda essa dissolução do verdadeiro sentido da vida humana na nossa enferma e decadente cultura ocidental. Recordo aqui umas admiráveis palavras de São João Paulo II, que advertia, de modo belíssimo: "Reconhecer a vida! Reconhecer significa, antes de tudo redescobrir com renovada admiração aquilo que a própria razão e a ciência não temem chamar de 'mistério'. A vida, especialmente a vida humana, suscita a pergunta fundamental, que o Salmista exprime de modo insuperável: 'Que é o homem para que te recordes dele, o filho do homem, para que dele cuides?' (Sl 8,5). Ninguém é dono da vida, ninguém tem o direito de manipular, oprimir ou até mesmo tirar a vida, sua ou dos outros".

Nosso tempo tem a seríssima tendência de desrespeitar a vida, no seu início (manipulações imorais, aborto, pílulas do dia seguinte), no seu desenvolver-se (pela fome, pela prostituição e libertinagem sexual, pelos entorpecentes, pelo fumo e o álcool, pela violência) e no seu fim (desprezo pelos anciãos, eutanásia). Tudo isso revela, por um lado, um vazio de Deus, de sentido do Absoluto que dá a razão última e o valor supremo de nossa existência e, por outro lado, revela também uma autossuficiência humana, que pensa bastar-se a si mesma! As palavras do santo Papa, neste sentido, eram proféticas: "Ninguém é dono da vida!" Esta é o dom primordial, o maior de todos: dom, presente imerecido e inesperado, surpresa absoluta vinda de Deus, aquilo que na linguagem teológica chamamos de "graça"! Isso mesmo: a vida é graça, como graça deve ser acolhida e como graça deve ser vivida!

Dramático na nossa cultura ocidental é que o homem nega Deus para afirmar-se, como um adolescente que somente se sente autônomo negando a autoridade dos pais. O triste é que negando Deus, negando Sua autoridade sobre nós, não nos tornamos mais livres nem dignificamos mais a existência humana, mas, ao contrário, sem Deus valemos menos, sem Deus a vida humana, em última análise, está entregue ao próprio capricho humano. Basta que olhemos ao nosso redor: quão pouco vale o homem. Para o sistema globalizado ele somente vale pelo que tem, pelo que produz e pelo que consome! Ao invés, quando Deus é retamente compreendido, torna-Se a maior garantia da preciosidade da vida humana – do primeiro ao último momento de sua existência! A verdadeira e perene base de todo autêntico direito humano é Deus, de Quem o homem é imagem e a Quem o homem é referido radicalmente, como já recordava o Livro do Gênesis: “Eu pedirei contas da vida do homem. Quem derrama o sangue do homem, pelo homem terá o seu sangue derramado. Pois à imagem de Deus o homem foi feito!” (Gn 9,5b-6) Era isso também que Santo Irineu queria exprimir ao dizer: Gloria Dei vivens homo (A glória de Deus é o homem vivo). Deus é o Amigo dos homens, e somente na alegria e na plenitude humana a Sua glória manifesta-se realmente! O homem morto, humilhado, coisificado pelas várias ideologias, antigas ou novas, pisoteado na sua dignidade, não glorifica a Deus, de Quem é imagem. Mas, Irineu também completava: Vita hominis visio Dei (A Vida do homem é a visão de Deus). Somente na visão (na comunhão, na intimidade) de Deus o homem encontra sua verdadeira Vida, porque descobre o âmago da sua dignidade e o fundamento do sentido de sua existência. Sem a visão de Deus em sua vida, sem ter a Deus como seu horizonte, o homem se perde, o homem "morre" e, morto, também não revela a glória de Deus. Eis a nossa civilização, que autoriza aborto, como se fôssemos senhores da vida e da morte, que manipula células-tronco de embriões humanos, que brinca de clonar e de fecundar in vitro, que destrói o reto e natural conceito de família, que deturpa e denigre o verdadeiro sentido da sexualidade e da diferença entre os sexos, desejando plagiar o próprio Deus, zombando do próprio Autor e Senhor da vida.

O triste e dramático é que, fechando-se para Deus, nossa civilização torna-se, na verdade, barbárie, que destruirá as pessoas e a si própria. Os sinais já estão aí; em alguns setores, de modo muito evidente, num avançado processo de decomposição cultural e humana. Quem tem olhos para ver, veja!


quinta-feira, 4 de julho de 2019

As bestas, as besteiras e o Cordeiro

Quando meditamos sobre o precioso Livro do Apocalipse, constatamos, edificados a convicção dos cristãos de que há um Senhor nos Céus e, portanto, há um rumo e um sentido para a história e a vida do mundo; em última análise, há um sentido e um rumo para a minha existência pessoal. 

No capítulo 13 deste última livro da Escritura Santa, há uma imagem inquietante e atual, a ser interpretada com profundidade e lucidez: João vê uma besta (cf. 13,1) de dez chifres (símbolo de força, de poder militar e agressividade), dez diademas (símbolo da realeza, do poder político) e sobre as cabeças, um nome blasfemo (porque essa besta quer assumir o poder e o papel de Deus). A besta tinha poder, trono e grande autoridade; possuía até uma ferida mortal, que foi curada. E o mundo, cheio de admiração, seguiu a besta, pois dizia; “Quem é como a besta?” E a adorou dizendo: “Quem pode lutar contra ela?” Essa besta recebeu poder de guerrear contra os cristãos e vencê-los, bem como autoridade sobre toda a humanidade. Havia ainda uma outra besta (cf. 13,11)...

A linguagem, claro, é simbólica e mítica. Mas, o significado é contundente, atual e de um realismo perturbador. Basta ver as perseguições explícitas ou veladas em relação aos cristãos; basta constatar o ridículo a que a nossa santa fé e os verdadeiros e simples discípulos do Senhor são submetidos...
Quem são essas bestas? São tudo aquilo que no mundo pretende fazer passar-se por Deus, toda instituição, ideologia, moda ou projeto humano que pense poder assenhorear-se do mundo, da Igreja, das consciências, do destino das pessoas; são toda ideologia que pretenda abarcar a totalidade da realidade e da existência, impondo-se de modo arbitrário. As bestas são todos os tiranos e tiranias da história. Podem ser o racionalismo, o nazismo, o fascismo, o socialismo, com sua ânsia de reduzir a pessoa a engrenagem de um estado divinizado, chegando a perseguir, a matar, a violentar as consciências em nome de uma pretensa justiça social, o capitalismo quando selvagem e sem critérios morais, que dá à luz o monstro de uma sociedade consumista, hedonista e rasa de valores; as bestas podem ser uma certa globalização, quando conduzida simplesmente com base no consumo e no politicamente correto. As bestas podem ser os meios de comunicação, com sua tirania, sua mentira, seu serviço à desinformação, plasmando uma opinião mundial fechada aos valores religiosos e à transcendência.

A besta é um triste arremedo do verdadeiro Deus. O poder dela, sua grandeza e força, são ilusórios. Mas, que ela engana, engana! As pessoas, admiradas, se perguntam: “Quem é como a besta?” – Trata-se, aqui, de um arremedo do nome bíblico Miguel, que significa “quem é como Deus?” Nesse capítulo 13 do Apocalipse, ela parece forte e imbatível: estava ferida mortalmente e foi curada. Ela parece eterna...

E, no entanto, o número da besta é um número de homem: 666! A ironia é gritante! Na Bíblia, 6 significa aquilo que não é pleno, que é passageiro, pois é 7 (perfeição, completude) menos 1. Lembremo-nos que o homem foi criado no sexto dia. Ele não é Deus, ele não é pleno em si mesmo, ele não é o senhor absoluto dos planos e dos sonhos; é livre, mas sua vida está nas benditas mãos do Eterno! Como exclamava o Profeta Jeremias: “Eu sei, Senhor, que não pertence ao homem o seu caminho, que não é dado ao homem que caminha dirigir seus passos” (10,23).
O homem não é homem simplesmente porque é racional; ele é homem e é humano porque é o único ser capaz de um diálogo com o seu Criador. É o único ser que sabe que existe, que sabe apreciar o dom de viver e que sabe que caminha para a morte; e deve enfrentá-la como entrada numa plenitude ou mergulho num nada absurdo. O número do homem é 6: perto da plenitude, somente abrindo-se para o Infinito pode chegar à plenitude!
O número da besta é 666. Três vezes 6, três vezes incompleta, três vezes humana... Absolutamente incompleta, falível, frágil, humana, por mais que deseje parecer eterna, forte e divina! Com ironia finíssima, o Autor do Apocalipse diz: “Aqui é preciso discernimento! Quem é inteligente calcule o número da besta, pois é um número de homem!” A besta de plantão da época era o Império Romano, com seu imperador Domiciano, perseguidor maior dos cristãos. E a besta hoje? “Quem é inteligente, calcule o número da besta!”
Mas, além da imagem da besta (e das bestas), há um outro animal: um Cordeiro (cf. 14,1). É imagem do Cristo. O Leão da tribo de Judá é apresentado manso e humilde, frágil e indefeso, como um Cordeiro imolado (cf. 5,6). É uma imagem fascinante! O que pode um cordeiro contra um animal como a besta, com corpo de leopardo, patas de urso e boca de leão? O que pode um Cordeiro imolado, cujo lado estará continuamente ferido, aberto, contra um animal que, ferido mortalmente, volta a viver, como que ressuscitando sempre? O que pode a fé num Deus crucificado e impotente contra o mundo atual, com sua pretensa ciência, sua tecnologia, seu poder de persuasão e comunicação, sua riqueza de recursos e argumentação? O que pode a fraqueza do Evangelho contra um mundão que entra sem pedir licença em nossas casas e nossas vidas, impregna o nosso coração e invade famílias, destrói ideais e subverte valores?

E, no entanto, é o Cordeiro imolado – eternamente imolado, de cujo lado saem a água do Batismo e o sangue da Eucaristia -, que vencerá a besta que sempre teima em curar suas feridas. É o Cordeiro imolado que estará sempre de pé, vitorioso. Ele, que pode aquietar nossos sonhos, realizar nossos mais profundos anseios de vida, beleza, verdade, paz, amor e eternidade. É o Cordeiro quem nos apascentará e nos conduzirá às fontes da Vida... O Cordeiro que parece frágil, derrotado, ferido de morte.

Meu caro “Irmão e companheiro na tribulação, na realeza e na perseverança em Jesus” (Ap 1,9), quis partilhar com você esta meditação porque muitas vezes nos iludimos na busca de um cristianismo triunfalista, que de modo pagão, imagina um poder de Deus, um triunfo do Cristo numa moldura de grandeza humana, de prestígio, de aliança com os grandes, de capitulação e adulação ante as ideologias e modas politicamente corretas e de reconhecimento pelo mundo. Não é nem pode ser esse o caminho!
O cristão deve ser livre e libertador! Livre porque, sabendo apreciar e valorizar tudo quanto de bom o mundo oferece, não se encanta com nada, não atola seu coração em nada, porque sabe que tudo passa e é provisório... O cristão também não teme as bestas, não se admira nem se dobra ante sua grandeza. Por isso mesmo, é nosso dever, com paciência, humor e firmeza, denunciar todos os projetos humanos que tenham a aparência de solução definitiva, caminho mágico, verdade suprema para a humanidade. Só em Cristo, o Cordeiro imolado, o cristão ancora a sua vida e a sua esperança.

Cuidemos de ser precavidos com as bestas. Cuidemos de não nos entusiasmar demais com as modas do momento, absolutizando aquelas coisas que passam tão depressa e são humanamente ilusórias. Cuidemos de ser inteligentes para viver o presente intensamente, mas com o coração atento à Eternidade. Cuidemos de viver como aqueles que – usando ainda uma imagem do Apocalipse – “estão inscritos no livro da Vida do Cordeiro” (21,27).