segunda-feira, 25 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação XVI - segunda-feira da III semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,121-128
Leia, agora, Gl 3,23-29

1. Paulo continua refletindo sobre o papel, o significado da Lei de Moisés. Ele, agora fala como judeu: “antes que chegasse a fé”, isto é, antes que chegasse o Descendente prometido por Deus a Abraão e no qual Abraão acreditou, ou seja, antes de Cristo, “nós éramos guardados sob a tutela da Lei para a fé que haveria de se revelar”. A ideia de São Paulo, aqui, é clara: Deus concedeu a Lei a Israel como um elemento preparatório, educativo, até que chegasse o tempo da realização da Promessa que o Senhor Deus fizera a Abraão: um Descendente através do qual todos os povos da terra seriam abençoados (cf. Gn 12,3; Gn 15,5s). Aqui aparece claro, mais uma vez, que a Lei foi dada em função da Promessa, com um caráter provisório e educativo “em vista da fé que haveria de se revelar”. A conclusão do Apóstolo é bela: usa a imagem do pedagogo, aquele que, na antiguidade, conduzia a criança até o mestre. Eis: “Assim, a Lei se tornou nosso pedagogo até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé” (cf. v. 24). No pensamento do Apóstolo, a Lei educou-se e conduziu Israel à fé em Cristo. Crendo em Cristo, o Descendente prometido, os israelitas seriam justificados pela fé, como o Pai Abraão (cf. Gn 15,6). Assim, cumprida sua missão, a Lei com seus preceitos cede lugar à fé em Cristo, o Doador do Espírito, nova Lei, conforme anunciado pelos profetas (cf. Ez 36,26; 37,14; 39,29; Jl 3,1-5). Crendo em Cristo, o Prometido, o Descendente de Abraão, Israel passaria de simples Israel segundo a carne para ser também Israel segundo o Espírito do Filho Jesus Cristo!
Leia mais uma vez, rezando, Rm 8,1-17.

2. “Chegada a fé, chegado o Cristo, nós judeus, não estamos mais sob o pedagogo” (v. 25): o verdadeiro judeu, que deseja ser fiel ao plano de Deus, deveria, agora, acolher o Senhor Jesus pela fé e viver a Vida nova que Ele concede, dando a todos o perdão pela Sua Cruz e Ressurreição. Quanto aos que não eram israelitas, os gentios, “vós todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus…” (v. 26). Eis aqui: judeu ou gentio, crendo em Jesus como o Cristo, o Descendente prometido, torna-se filho de Deus em Cristo: “pois todos vós, que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (vv. 27s). Frase estupenda!

a) Os judeus, crendo, devem receber o Batismo no Espírito de Cristo; também os gentios, crendo, como os judeus, recebem o Batismo, isto é, o mergulho (“batizar”, em grego, significa mergulhar) no Espírito de Cristo e são revestidos de Cristo, como o batizado é revestido da água do Espírito (cf. Jo 3,5).

b) Agora, em Cristo, toda diferença de separação é superada: seja judeu ou gentio, escravo ou livre, homem ou mulher, o importante é crer em Cristo e Nele ser batizado, recebendo o Seu Espírito e tornando-se Nele e por Ele uma só coisa, uma só realidade nova, participando daquela bênção que desde o início Deus prometera através da Descendência de Abraão (cf. Gn 12,3).

c) Aparece, aqui, o impressionante desígnio do Senhor Deus: reunir todas as coisas em Cristo, concedendo a toda a humanidade e a toda a criação o dom da salvação, que é a Vida nova no Espírito do Cristo Jesus. Leia com toda atenção Ef 1,3-14; Cl 1,21-23. Releia, medite, reze!

3. Pronto: agora fica fácil compreender a conclusão de Paulo: “E se vós sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, herdeiros segundo a Promessa” (v. 29). Paulo fala aos gálatas: crendo e tendo sido batizados no Espírito do Cristo, Descendência de Abraão, eles, que, segundo a carne, estavam for a dessa descendência, são agora, pelo Batismo no Espírito de Cristo, o Descendente, descendência de Abraão segundo a fé e, portanto, herdeiros da bênção (cf. Gn 12,3), segundo a Promessa (cf. Gn 15,5s).

4. Com o coração admirado e grato ao Senhor, leia e reze Ef 2,11-18. Agora reze o Sl 137/138


sábado, 23 de março de 2019

Homilia para o III Domingo da Quaresma - ano c

Ex 3,1-18a.13-15
Sl 102
1Cor 10,1-6.10-12
Lc 13,1-9

O tempo da Quaresma recorda muitas vezes o tempo da travessia do deserto por parte de Israel: tempo de peregrinação, de provação e de purificação. O livro do Deuteronômio recorda isto com palavras muito fortes: “Lembra-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer durante quarenta anos no deserto, a fim de humilhar-te, tentar-te e conhecer o que tinhas no coração. Portanto, reconhece hoje no teu coração que o Senhor teu Deus te educava, como um homem educa seu filho” (Dt 8,2.5).
No deserto, portanto, Deus usou as provas pelas quais Israel passou para revelar ao Seu Povo aquilo que estava escondido no seu próprio coração, isto é, seu pecado, sua fraqueza, sua infidelidade. Mas, também no deserto, Deus cercou Seu Povo de carinho e proteção, alimentou-o com o maná e saciou-o com a água do rochedo, guiou-o pela nuvem luminosa de noite e protetora contra o sol de dia... Tempo de noivado e de amor entre Deus e o Seu Povo, foi o tempo do deserto! Por isso, pensar nessa travessia pelo deserto serve tanto para a nossa preparação para a Páscoa.

Mas, vejamos. Como começou o caminho de Israel deserto adentro? Começou com a “descida” de Deus para juntinho do Seu Povo que gemia debaixo de humilhante escravidão: “Eu vi a aflição do Meu Povo que está no Egito e ouvi o seu clamor por causa da dureza de seus opressores. Sim, conheço os seus sofrimentos. Desci para libertá-lo e fazê-los sair...” Que coisa impressionante: um Deus tão grande, tão santo, o Deus de Israel e, no entanto, é capaz de ver a aflição, ouvir o clamor, conhecer o sofrimento do Seu Povo, que era ninguém, que não passava de um punhado de escravos! “Eu desci para libertá-lo!”
Nosso Deus é um Deus que desce, que vem para junto do pobre que se encontra no monturo! 
Nosso Deus é um Deus que liberta e salva!
E quando Moisés pergunta pelo Seu Nome, Deus revela-O de dois modos: primeiro apresenta-Se como o “o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó” – isto é, o Deus fiel, o Deus que não esqueceu Seus amigos do passado, Abraão, Isaac e Jacó e agora vem em socorro de seus descendentes. Depois, Deus revela o Seu Nome: “Eu Sou Aquele que Sou” ou “Eu Sou Aquele que Será”. Segundo bons exegetas, assim deve-se traduzir o Nome de Deus. Isto é, Deus não revela o seu Nome a Moisés! Seu “Nome”, na verdade, é um desafio, um convite; quer dizer: “Eu Sou o que tu verás quando Eu agir! Tu verás quem Eu Sou à medida que caminhares Comigo! Eu Sou o que estará sempre contigo!” – O Deus que foi fiel a Abraão, a Isaac e a Jacó é confiável, pode-se apostar a vida Nele: Moisés e o Povo de Israel haverão de ver! E viram, em tantos momentos da travessia do deserto. Na segunda leitura, São Paulo recorda vários destes acontecimentos: a nuvem e o mar (imagens do Espírito e da água do Batismo), o maná (imagem da Eucaristia), a água que brotou da rocha (imagem do Cristo, de cujo lado traspassado brotou o Espírito). Deus fora todo carinho, todo proteção, todo compaixão e paciência... E, no entanto, Israel tantas vezes duvidou, revoltou-se, murmurou, foi de cerviz dura e infiel!

São Paulo nos previne: “Esses fatos aconteceram para servir de exemplo para nós, a fim de que não desejemos coisas más, como fizeram aqueles no deserto. Não murmureis, como alguns deles murmuraram... Portanto, quem está de pé tome cuidado para não cair”. Nós somos o Povo de Deus da Nova Aliança. Como Israel, atravessamos um longo deserto rumo à Terra Prometida, que é a Pátria celeste; e também nós somos sujeitos a tantas tentações, como Israel. O grande pecado do Povo de Deus da Antiga Aliança era descrer e murmurar contra Deus. De cabeça dura, Israel teimava em caminhar do seu modo, em fazer do seu jeito, em contar com suas forças e sua lógica. Quantas vezes o povo fez isso! Quantas vezes nós fazemos isso!

Neste santo Tempo quaresmal, somos chamados a uma sincera conversão, a mudar nossa lógica, confiando realmente no Senhor e trilhando sinceramente Seus caminhos! Estejamos atentos à seríssima advertência que o Senhor Jesus nos faz no Evangelho. Primeiro, Ele usa dois acontecimentos daqueles dias em Jerusalém para ilustrar a necessidade de conversão urgente: os galileus que Pilatos perversamente mandara matar e misturar seu sangue com o dos animais sacrificados no Templo – um ato de profanação! – e as dezoito pessoas que morreram por conta do desabamento de uma torre em Jerusalém. Jesus pergunta: “Pensais que essas pessoas eram mais pecadoras que as outras?” Não! Os sofrimentos da vida não são castigo pelos pecados! Mas, devem servir de reflexão e de alerta para todos! Há uma desgraça muito pior que qualquer acidente: morrer para Deus, ressecar o coração para o Senhor: “Se não vos converterdes, ireis morrer do mesmo modo!” Depois Jesus ilustra o que ele quer dizer com a parábola da figueira estéril: “Há três anos venho procurando figos nesta figueira e nada encontro!” A figueira da parábola é o Povo de Israel que, durante três anos, ouviu a pregação do Senhor e não O acolheu! Mas, e nós, há quantos anos escutamos o Senhor? Que frutos estamos dando? Nesta Quaresma deste ano, como vai o nosso combate espiritual, o nosso caminho de conversão?

Não abusemos da paciência de Deus, não tomemos como desculpa a Sua misericórdia para retardar nossa conversão! O Eclesiástico previne severamente: “Não digas: ‘Pequei: o que me aconteceu?’ porque o Senhor é paciente. Não sejas tão seguro do perdão para acumular pecado sobre pecado. Não digas: ‘Sua misericórdia é grande para perdoar meus inúmeros pecados’, porque há Nele misericórdia e cólera e Sua ira pousará sobre os pecadores. Não demores em voltar para o Senhor e não adies de um dia para o outro, porque, de repente, a cólera do Senhor virá e no dia do castigo perecerás” (Eclo 5,4-7)

Caríssimos, eis o tempo de conversão, eis o dia da salvação! Deixemo-nos reconciliar com Deus em Cristo! Convertamo-nos!


Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação XV - sábado da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,113-120
Leia, agora, Gl 3,19-22

1. Estamos vendo como São Paulo procura colocar a Lei de Moisés no interior de algo mais amplo e profundo: a Promessa de Deus, Promessa feita a Abraão de que através da sua Descendência, o Cristo-Isaac, todas as nações da terra seriam abençoadas: esta bênção é a salvação para todos! Promessa que foi cumprida pelo Senhor graças à fé de Abraão, de modo que este foi justificado pela fé! Assim, os que crerem no verdadeiro Isaac, que é Cristo, são justificados pela fé, como Abraão o fora. Nele, toda a humanidade, sejam judeus sejam gentios, encontra a salvação!
Todo este raciocínio pode, à primeira vista, nos fazer pensar que o Apóstolo desqualifica a Lei de Moisés, tornando-a quase que inútil e até mesmo má! Mas, não é esta a sua intenção nem sua doutrina! Como ele poderia considerar má uma realidade que é dom de Deus? Disto ele trata nos versículos que meditaremos agora.

2. “Por que, então, a Lei?” São Paulo medita sobre este tema nas cartas aos Romanos e aos Gálatas. Vejamos o que o santo Apóstolo diz...

a) A Lei fora acrescentada à Promessa. Em si, a Promessa já bastava: Deus daria Cristo à humanidade, a todo aquele que acreditasse Nele e, esses, crendo seriam justificados, seriam salvos no poder do Seu Espírito Santo (cf. Gl 3,14)! Mas, até que o Descendente viesse e a Promessa se cumprisse, Deus, na Sua sábia providência, quis dar a Israel a Torá, a Lei ao Povo do qual nasceria o Cristo. Poderíamos dizer que Israel é o Povo dos descendentes de Abraão do qual viria o Descendente, Cristo, verdadeiro Isaac!
A grande questão é que Paulo e os cristãos não concordam de modo algum com a absolutização da Lei de Moisés que o judaísmo cultivava e cultiva! Aqui, entre judaísmo e cristianismo não há acordo: são duas visões radicalmente diferentes e opostas! Para um cristão, jamais a Lei será o centro da relação com Deus; o centro é Cristo, realizador da Promessa! Qual é, então, o papel da Lei? Por que Deus a quis?

b) O Apóstolo já dissera que a Lei fora dada posteriormente à Promessa: esta foi feita a Abraão; a Lei foi dada a Israel através de Moisés. Então, ela, de modo algum, é importante como a Promessa (cf. Gl 3,17s). No pensamento paulino, a Lei deve ser compreendida dentro da Promessa e em função da Promessa; não como algo absoluto, um valor em si mesmo!

c) De modo surpreendente, São Paulo afirma agora que a Lei “foi acrescentada para que se manifestassem as transgressões” (v.19). Como compreender tal afirmação? A Lei, com suas cláusulas, regula, delimita, distingue e, assim, faz com que o homem veja o pecado, saiba com maior consciência o que é o pecado, o que agrada ou desagrada a Deus (cf. Br 4,4): tudo quanto está em desacordo com a Lei é pecado! Assim, a Lei faz com que se manifeste claramente a Israel as transgressões à vontade do Senhor Deus.
Mais ainda: o homem, conhecendo a Lei, vendo o que é o pecado, e desobedecendo, por malícia ou por fraqueza, acaba por se tornar um transgressor! Assim, a Lei termina por mostrar a visceral fraqueza do homem, sua impotência para agradar a Deus somente com suas forças: a Lei mostra o que é a transgressão e revela que o homem é um transgressor, revela o pecado! Sobre isto, o Apóstolo tem afirmações fortíssimas, que não convém aprofundar agora, mas que podem ser lidas para compreender o seu pensamento: Rm 3,20; 4,15; 5,20; 7,7-13; 1Cor 15,56

d) Deste modo, a Lei termina servindo para fazer com que o homem experimente que não pode sozinho cumprir a vontade de Deus e que necessita da graça de Deus para se salvar, porque ele, sozinho, não passa de um transgressor! Ora, esta graça de que o homem precisa, seja ele judeu ou gentio, é dada precisamente pelo Descendente a todo aquele que crer Nele, que é o prometido a Abraão e à sua descendência formada agora por todos aqueles que crerem, de todas as nações que, assim, se tornarão benditas, conforme a Promessa (cf. Gn 12,3). Assim, a Lei termina fazendo o fiel clamar pelo cumprimento da Promessa, realizada em Cristo!

3. São Paulo utiliza ainda um outro argumento para ilustrar que a Lei é inferior à Promessa. Trata-se de um argumento baseado numa crença muito presente na tradição judaica de que a Lei fora dada no Sinai pelo ministério dos anjos. Leia, por exemplo, At 7,38.53. O Apóstolo usa esta crença para argumentar que a Lei promulgada por anjos é inferior à Promessa feita pelo próprio Deus diretamente (vv. 19s). Assim, os gálatas são insensatos por se apegarem à Lei de Moisés ao invés de fundamentarem sua fé na Promessa do próprio Deus!

4. Há, ainda uma outra questão muito séria para o Apóstolo: a Lei em si, com seus preceitos, dá a norma, indica o caminho, mas não dá a graça, não dá a força para cumprir os mandamentos! Assim sendo, ela mostra o caminho da Vida e, também neste sentido ela é boa e louvável, é Vida para Israel, mas ela mesma, em si, não produz a graça, a força do Espírito que dá Vida divina que nos torna justos diante de Deus! Releia os vv, 21s. Como já vimos, a Lei mostra onde está o pecado, porque mostra o caminho de Deus, mas, em si mesma, não dá a força para evitar o pecado e fazer o bem! Para isto, é necessária a graça de Deus, que nos vem pela fé em Cristo, Descendente de Abraão, fruto da Promessa, doador do Espírito que dá Vida!

5. A conclusão deste raciocínio está no coração da nossa fé cristã: todos – judeus ou gentios – estão debaixo do pecado e todos podem ser salvos somente pela fé em Jesus Cristo, por quem o Senhor Deus cumpriu a Promessa de abençoar toda a humanidade com a salvação, no Dom do Espírito (cf. Rm 3,21s)!

6. Seria muito bom reler a Epístola aos Gálatas do princípio até 3,22.
Leia agora Jr 7,21-24. Aí, se encontra uma situação parecida com esta da relação entre a Promessa e a Lei. No caso de Jeremias, é a relação entre os sacrifícios no Templo e a prática da vontade do Senhor, a escuta da Sua Palavra, contida na Lei e pronunciada pelos profetas de cada geração.
Quando o Senhor Deus entregara a Israel o Decálogo, que é o coração de toda a Lei, não prescrevera ali nada de sacrifícios. Mas, ordenara simplesmente que escutasse a voz do Senhor (cf. Ex 19,5; Dt 5,1). Os sacrifícios cultuais no Templo depois também foram prescritos pelo Senhor Deus, mas somente teriam sentido se fossem expressão do cumprimento amoroso, obediente, cheio de amor fiel aos preceitos do Senhor Deus. No entanto, muitos em Israel – a maioria – parava nos sacrifícios, no culto externo e descuidava do coração da Lei, que era a escuta amorosa e fiel ao Senhor. Era a mesma coisa agora, na questão dos judaizantes: eles paravam na Lei e não compreendiam que a Lei somente tinha sentido em vista da Promessa realizada em Cristo! É sempre o perigo tão nosso de confundir os meios com o fim, o essencial com o acessório, o principal com o periférico!
Pense em você mesmo e no seu modo de viver a. religião e a sua relação com Deus e os irmãos: você trata o essencial como essencial e o menos importante como secundário?

7. Leia também Ap 7,9-10: fruto da Promessa em Cristo é a salvação da multidão humana dos que creem!
Agora reze novamente o Sl 97/98


sexta-feira, 22 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação XIV - sexta-feira da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,105-112
Leia, agora, Gl 3,15-18

1. São Paulo continua insistindo sobre seu argumento: a fé, que acolhe a promessa de Deus, é que nos dá a graça da justificação, não as obras de Lei de Moisés. Tome o v. 15: agora, nesta perícope, o Apóstolo usa a ideia do “testamento”. Em grego, diathéke significa ao mesmo tempo aliança e testamento. Partindo deste duplo significado, ele desenvolve o seu raciocínio: Deus fez a Abraão uma promessa, um testamento em forma de aliança. Leia novamente Gn 15,1-18a. Aí aparecem realmente a promessa de Deus de dar a Abraão um descendente, o Isaac-Cristo, aparece a fé de Abraão na promessa divina, fazendo-o justo diante de Deus e, finalmente, a conclusão do encontro entre o Senhor Deus e Abraão com a aliança selada nos animais mortos e no braseiro fumegante. Resumindo: Deus selou uma aliança com Abraão, garantindo a veracidade e validade da promessa que lhe havia feito.
Reflita um momento: o Senhor Deus é bom, o Senhor Deus é generoso, o Senhor Deus é fiel, é veraz: quando promete não engana nunca! Reze o Sl 32/33

2. Vamos, agora, ao v. 16. Utilizando um raciocínio bem próprio da exegese antiga, o Apóstolo recorda que Deus fez a promessa “a Abraão e à sua Descendência”. Aqui, ele aproveita o fato de “descendência” está no singular e concentra toda a descendência de Abraão, isto é, todo o Povo de Israel, em Cristo! Esta é uma ideia preciosa, muitas vezes presente nas Escrituras: um que representa e concentra em si os muitos. Por exemplo: Adão, que concentra em si toda a humanidade; Jacó, que concentra em si todo o Israel; o Servo Sofredor, que concentra em si todo o Israel e toda a humanidade pecadora; Cristo, que concentra em Si toda a Igreja.
Ora, Cristo é a razão de ser de Israel, o Povo nascido de Abraão, o Povo prometido ao nosso pai na fé. Esta ideia aparece também no Evangelho de São João: no Antigo Testamento, Israel é a vinha de Deus, é Sua videira (cf. Is 5,7; Sl 79/80), videira provisória, figura da verdadeira e definitiva vinha, que deveria vir. Em Jo 15,1, Jesus nosso Senhor Se revela como a “Videira verdadeira” isto é, definitiva, da qual a primeira videira, Israel, era somente imagem, profecia, figura e preparação! Assim, coincidindo com a visão de São Paulo, o Quarto Evangelho afirma que Jesus é realmente o verdadeiro Israel, a verdadeira videira e, portanto, verdadeira Descendência de Abraão, que traz em Si e plenifica o Israel segundo a carne!
Portanto, as promessas do Senhor Deus a Abraão e à sua descendência concretizam-se em Cristo, “personalidade corporativa” (pessoa única que concentra em si a multidão) de Israel e, principalmente, da Igreja: o Senhor Jesus Cristo não só é ponto de chegada, realização e plenitude do Antigo Israel, como é também princípio, origem e realidade na qual subsiste e encontra o ser e o sentido o Novo Israel, que é a Igreja, Corpo do qual Cristo é Cabeça (cf. Cl 1,18).

3. Todo este belo raciocínio de São Paulo e do Quarto Evangelho nos convidam a nunca esquecer que somente em Cristo a Escritura encontra seu sentido último, definitivo, verdadeiro e pleno! Como vimos na meditação passada, até os judeus afirmam isto sobre o Messias: somente ele desvelaria o sentido último da Lei de Moisés! Pois bem, o é nosso Senhor Jesus Cristo! Nele a Escritura e o desígnio do Senhor Deus para a humanidade e a criação inteira encontra seu foco, seu sentido e sua realização!
Medite na profunda afirmação de Hb 1,1-4! Cristo é a Plenitude de tudo porque vem de Deus, sendo Ele mesmo divino, superior a toda criatura!

4. Finalmente, os vv. 16s tratam da relação entre a Lei de Moisés e a promessa feita a Abraão: a promessa como dom gratuito acolhido pela fé em Isaac-Cristo e a Lei como cumprimento de preceitos, de obras. Primeiro fora feita a promessa, no tempo dos Patriarcas, quando ainda não existia o Povo de Israel. Somente depois, quando de Abraão veio Isaac, de Isaac veio Jacó, apelidado de Israel e, deste último, os doze filhos que originaram as doze tribos do Povo de Israel, é que a Lei fora dada no Sinai. Baseando-se em Ex 12,40s, Paulo faz um cálculo aproximado de quatrocentos e trinta anos de diferença entre a promessa a Abraão e o dom da Lei no Sinai por meio de Moisés. Ele, então, raciocina: uma Lei vinda quatro séculos depois, não pode invalidar a promessa de Deus! Além do mais, a Lei fora dada a Israel pelo ministério dos anjos (cf. Gl 3,19), enquanto a promessa fora feita pelo próprio Deus (cf. Gl 3,17). Resultado: a graça de Deus, Seu dom prometido a Abraão, é Cristo-Isaac, fruto e cumprimento da promessa e não depende de modo algum das obras de uma Lei dada posteriormente, “porque se a herança vem pela Lei, já não é pela promessa. Ora, é pela promessa que Deus agraciou a Abraão” (v. 18) e, através dele a toda a humanidade na sua Descendência que é Cristo (cf. Gn 12,3)! Portanto, os gálatas não deviam dar ouvidos aos cristãos judaizantes, que, a ferro e fogo, queriam fazer os cristãos gentios cumprirem a Lei de Moisés, pois as promessas da Aliança não dependem do cumprimento das obras da Lei. Estas obras poderiam valer para a Aliança do Sinai, para o Povo de Israel, como preparação para Cristo, cumprimento das promessas e plenitude da Lei, mas não para os cristãos fossem vindos da gentilidade ou do judaísmo! A realidade agora é a fé em Cristo, o verdadeiro Isaac, cumprimento pleno de todas as promessas do Pai!

5. Leia e medite o texto de Mt 2,1-12. Veja:
a) os pagãos vêm de longe, como Abraão que partiu de sua terra, do Oriente, procurando o Rei dos Judeus.
b) o Israel segundo a carne, representado por Jerusalém e seus doutores, não crê e não vai à procura do Menino.
c) os Magos seguem a estrela do Menino, iluminados pela fé.
d) Jerusalém não crê e não encontra o Menino; os Magos pagãos creem e O encontram e O adoram.
e) Depois, voltam por outro caminho e não mais entram em Jerusalém, no judaísmo...

Agora reze o Sl 116/117, que convida todos os povos a louvar a Deus! Reze também o Sl 97/98.


quinta-feira, 21 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação XIII - quinta-feira da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,97-104
Leia, agora, Gl 3,8-14

1. Vimos, na meditação passada (cf. Gl 3,8s), que o Apóstolo ensinou que aqueles que vivem pela fé, como Abraão, recebem a bênção de Abraão e vivem na bênção. Talvez seja bom reler os tópicos 2 e 3 da meditação anterior.
Agora, no v. 10, São Paulo faz uma afirmação surpreendente: “Os que são pelas obras da Lei, esses estão debaixo da maldição!” Que significam estas palavras? A Lei de Deus, Lei santa, dada a Moisés no Sinai, seria fonte de maldição? Certamente, não! Aqui, Paulo se refere aos judeus que, apegados às obras da Lei, obras milimetricamente codificadas pela tradição oral, julgavam-se justos e autossuficientes diante de Deus e esperavam dessas práticas merecer como pagamento a salvação. Atenção para o que diz o Apóstolo: não diz “os que são pela Lei”, mas “os que são pelas obras da Lei”, isto é, os que colocam a confiança nessas obras!
Mas, com base em que o Apóstolo afirma tal coisa? Com base na própria Lei, pois está escrito na Lei: “Maldito todo aquele que não se atém a todas as prescrições que estão no livro da Lei para serem praticadas” (v. 10b; cf. Dt 27,26). Portanto, a própria Lei afirma ser maldito quem não cumpre toda a Lei! Assim, com tantas prescrições e quase reduzida pelos rabinos a prescrições minunciosas - as obras da Lei -, a Torá, a Lei de Moisés, tornou-se um jugo pesado demais, um jugo insuportável! Como ninguém conseguiria cumprir sempre e totalmente tantos preceitos, os que colocam sua esperança de salvação, de justificação, no cumprimento das obras da Lei estão debaixo da maldição.

2. Pareceria que o raciocínio de Paulo é meio forçado e sua visão sobre as obras da Lei seria demasiada negativa e exagerada. Não é assim! Primeiro: o Apóstolo faz exegese, isto é, interpretação das Escrituras como os rabinos daquele tempo faziam, usa o mesmo método de estudo das Escrituras que eles usavam. Depois, somente para que você, caro Irmão, possa compreender o que se tornou a Lei no judaísmo, leve em consideração estes pontos:

a) A palavra Torá (Lei, na tradução da Bíblia grega usada por judeus e cristãos) significa “ensinamento” e, para os judeus, pode referir-se ao Pentateuco, a todo o Antigo Testamento ou, ainda, a toda a tradição judaica! Imagine, pois, o volume de preceitos, de minúncias, de obrigações! Os rabinos judeus contam na Torá 613 mandamentos! Assim, quem procura a justificação, a salvação pela Torá, deve cumprir todos estes preceitos sob pena de maldição!

b) Os judeus chegam a afirmar que Deus estuda a Torá no céu; ela existe antes do mundo existir e foi usada por Deus como planta para a obra da criação! Observe, caro Irmão, como foi dando uma importância à Lei, foi absolutizando-a de um modo que a salvação estaria nela e no cumprimento dos seus preceitos! Jesus nunca aceitou isto: acusava os rabinos de invalidarem a Palavra de Deus, o espírito mesmo da Lei com essas extrapolações. Leia Mt 15,1-14; Mc 7,1-13. A esta Lei reinterpretada como uma infinitude de preceitos detalhistas, o Senhor Jesus chama de modo pejorativo de “vossa lei” (Jo 8,17; 10,34), bem diferente dos “mandamentos”do Pai: “Eu sei que o Seu mandamento é Vida eterna!” (Jo 12,50). Aí sim! E os mandamentos caminham e se resumem num só foco, numa só realidade: “Este é o Seu mandamento: crer no Nome do Seu Filho Jesus Cristo e amar-nos uns aos outros, conforme o mandamento que Ele nos deu!” (1Jo 3,23) Pois bem, tampouco São Paulo aceitava esta absolutização da Lei e dos preceitos! A Lei compreendida como prática de preceitos termina em legalismo e soberba autossuficiência que fecha para Deus; bem diferente da Lei de Deus compreendida e vivida como participação na sabedoria providente de Deus: esta leva à confiança humilde no Senhor e à disposição de acolher na fé o Cristo Jesus! Portanto, todas estas extrapolações, todas estas tradições e práticas que terminaram por sobrecarregar e obscurecer o sentido genuíno da Lei foram plantadas pelos homens, pelos rabinos. A sentença do Senhor é clara: “Toda planta que não foi plantada por Meu Pai celeste será arrancada! Deixai-os! São cegos conduzindo cegos!” (Mt 15,13s)

c) Para os judeus, somente o Messias poderia revelar totalmente o sentido interior da Torá, isto é, da Lei de Moisés. Os cristãos concordam plenamente com isto! Somente o Cristo Jesus, que é o Messias, é a plenitude da Lei, pois “a Lei foi dada por meio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17). Efetivamente, as Escrituras de Israel dão testemunho Dele, do Senhor Jesus Cristo, santo Messias, e para Ele preparou Israel (cf. Lc 24,27; Jo 5,39; Gl 3,25).

3. Para arrematar e fundamentar o seu raciocínio, Paulo cita as Escrituras, e as cita com o Antigo Testamento grego (chamado de LXX ou septuaginta), que é o mais longo, como o dos católicos, ainda hoje usado na Igreja de Cristo: “O justo viverá pela fé” (Gl 3,11; Rm 1,17; cf. Hab 2,4). Ou seja, aquele que é agradável a Deus, aquele que é justificado, o é pela fé, fé no Deus que deu a Abraão e a nós o verdadeiro Isaac, Jesus Cristo, nosso Senhor!
Então, enquanto quem coloca sua confiança na Lei espera a Vida e a salvação do cumprimento de preceitos, aquele que coloca a sua confiança no Deus de Abraão, Nele crendo, coloca sua esperança em Jesus o Salvador, imolado por nós como Isaac (cf. Gn 22,9-18; Rm 8,32).

4. No v. 13, o Apóstolo faz a proclamação triunfante: “Cristo nos resgatou da maldição da Lei tornando-Se maldição por nós!” Outra afirmação impressionante! O que quer dizer? Cristo nos resgatou a todos, judeus e gentios, dos preceitos da Lei de Moisés. Aos gentios também, porque sem Cristo, o único modo de entrar para a Aliança seria tornar-se judeu, subjugando-se aos preceitos, às obras da Lei. Não entrando para o Povo de Israel segundo a carne, viviam sob a lei do pecado provocado por uma consciência obscurecida e pelas paixões que os escravizavam. Vale muito a pena ler Rm 1,18-32. Aí se encontra a situação deplorável dos gentios de toda a humanidade de ontem e de hoje sem Cristo – e até de certos cristãos de nome, que defendem de modo cego, pagão e sacrílego todo tipo de pecado e torpeza, colocando tudo na conta da misericórdia, aviltando e fazendo pouco do amor de Deus revelado na Cruz do Senhor!

5. Demos ainda um passo adiante: Como Cristo nos resgatou da Lei? Ele assumiu o nosso débito, a nossa incapacidade de suportar o fardo dos preceitos: morrendo pendurado na Cruz por nós todos, como se fosse um maldito – a própria Lei afirma ser maldito o que morre pendurado num madeiro (cf. v. 13; Dt 21,23). Certamente, esta realidade material – a morte pendurado no madeiro – exprime uma profunda realidade espiritual: fazendo-Se realmente homem, plenamente um de nós, foi solidário conosco e “tomou sobre Si as nossas dores, carregou-Se com os nosso pecados, de modo que o castigo que nos dá a paz caiu sobre Ele e por Suas chagas fomos curados” (cf. Is 53). Assim, assumindo a nossa maldição, Ele, o Bendito do Pai, o Filho Amado, o Eleito (cf. Mt 3,17; 17,5; Jo 3,35; 5,20), apagou na Cruz todas as nossas transgressões em relação à Lei e seus preceitos e a todos os nossos pecados (cf. Cl 2,14; Ef 2,1-5), para que a bênção de Abraão, através do Cristo, novo Isaac, se estenda aos gentios, como fora prometido a Abraão, o crente, pai de todos os que creem (cf. vv. 13s)! Sim, verdadeiramente o Senhor nosso pode ter compaixão de nós, filhos de Adão, judeus ou gentios, que gememos debaixo do fardo da Lei de Moisés e da lei do pecado. Ele pode realmente nos dizer as comoventes palavras de Mt 11,28-30.

6. Finalmente, São Paulo apresenta a finalidade última de fé em Jesus Cristo: crendo, “pela fé, recebamos o Espírito prometido”... Explicando: crendo em Jesus nosso Senhor, judeu ou gentio é Nele batizado e, no Batismo, recebe o Seu Espírito Santo, que impregna interiormente o crente da Vida divina do próprio Cristo imolado e ressuscitado, dá ao crente os próprios sentimentos do Cristo Jesus, transfigurando mais e mais o crente, sobretudo pela participação na Eucaristia, até a plena configuração ao Senhor, ao verdadeiro Filho-Isaac, na Glória eterna (cf. Rm 8,11)! Tudo isto é realizado pelo Espírito Santo recebido no Batismo, sacramento da fé! E este Espírito, como já disse anteriormente, é a Lei verdadeira (cf. Rm 8,2), a Lei dinâmica (cf. Rm 8,14-17), a Lei interior (cf. Rm 8,9), a Lei do amor (cf. Rm 5,5; 13,8-10), não mais de preceitos pesados e exteriores!

7. Reze o Sl 18/19,8-15. Medite rezando na promessa do Espírito já feita no tempo da Antiga Lei. Leia Ez 36,26; 37,14; 39,29; Jl 3,1-5. Pense um pouco: sua vida religiosa é centrada em preceitos exteriores ou na experiência profunda da intimidade exigente, amorosa e criativa de se deixar impregnar e guiar pelo Espírito do Cristo? Só quem se deixa guiar pelo Espírito pertence a Cristo...


quarta-feira, 20 de março de 2019

Retiro Quaresmal: A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação XII - quarta-feira da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,89-96
Leia, agora, Gl 3,8-9

1. Observando bem vários dos textos importantes de São Paulo, sobretudo na Epístola aos Romanos e aos Gálatas, o Apóstolo fala em dois modos de fundamentar e viver a relação com o Senhor Deus, dois amplos horizontes: a fé e o cumprimento dos preceitos a Lei de Moisés, isto é, as famosas obras da Lei.

2. Ora, nestes dois versículos que estamos meditando, Paulo afirma que Deus justificaria, isto é, tornaria seus amigos os gentios pela fé. Interessante que, de modo surpreendente, aparentemente, não diz em quem seria essa fé... “Deus justificaria os gentios pela fé...” (v. 8a) Mas, se formos atentos ao contexto, aparece claríssimo que se trata de mesma fé que Abraão teve: fé na promessa de um Descendente, de um Isaac, que é o próprio Cristo, como eu mostrei na meditação passada. É esta fé que os gálatas devem sustentar agora, ao invés de se apegaram às obras da Lei de Moisés, à circuncisão que os cristãos judaizantes desejavam convencê-los a praticar (cf. Gl 1,6).
Por isso mesmo, o Apóstolo cita a promessa feita a Abraão, em Gn 12,3: “Em ti serão abençoadas todas as nações” (v. 8b). Eis o sentido: na fé de Abraão, que creu na promessa de Deus de que lhe nasceria um filho, Isaac, seu descendente, estava já presente verdadeiramente, segundo o desígnio de Deus, a fé que teriam os gentios, acreditando no verdadeiro Isaac que Deus mandaria: o Filho, Jesus nosso Senhor, Descendente de Abraão por excelência, como veremos claramente mais adiante (cf. Gl 3,16).

3. Assim, os que são pela fé, sejam gentios ou judeus, são abençoados juntamente com Abraão, o Crente, o Amigo de Deus (cf. Gn 15,6; 1Mc 2,52; 2Mc 1,2; Eclo 44,19.21), são verdadeiramente filhos de Abraão segundo a fé!
Aqui, atenção: O judeu, por ser judeu simplesmente, recebe a “bênção” da Lei, cumprindo os preceitos da Lei. Somente crendo no enviado de Deus, Jesus Cristo, o novo Isaac, o Descendente de Abraão, o judeu receberá o que a própria Lei prometeu em Gn 12,3: a bênção de Abraão! A bênção da Lei prepara o judeu para receber em Cristo, novo Isaac, a bênção definitiva, que é a bênção de Abraão, prometida antes da bênção da Lei! Deste modo, para São Paulo, seja o judeu que o gentio é justificado somente pela fé em Cristo, o descendente prometido a Abraão, que creu na promessa e foi justificado (cf. Gn 15,6)! Isto sim, é uma novidade, uma percepção do mistério de Deus revelada a Paulo, é como que o “Evangelho de Paulo”. Leia com atenção Ef 3,1-7. Enquanto Paulo tem este pensamento largo a respeito da bênção que Deus preparou desde sempre para os gentios, os judeus, debaixo da Lei, de modo geral pensavam que os gentios poderiam receber as bênçãos prometidas a Abraão, desde que adorassem ao Deus de Israel e se submetessem à circuncisão, porta de todas as observâncias da Lei de Moisés. Paulo, indignado, pergunta: Então, para que Cristo? Se é pela Lei, não é pela fé, pela adesão ao Senhor Jesus Cristo que vem a salvação! Cristo seria inútil, seria apenas mais um profeta judeu (cf. Gl 2,21).

4. Agora, façamos uma pausa em acompanhar o raciocínio do santo Apóstolo. Vamos nos deter nesta realidade de que ele fala com tanta paixão, a realidade da fé! O que significa esta fé que justifica? Sgnifica

=> acolhimento do dom de Deus, isto é, acolhimento Daquele que Ele enviou: Jesus Cristo (cf. Jo 6,28s).

=> a partir do acolhimento deste dom tão grande e inesperado, Jesus crucificado delineado diante de nós (cf. Gl 3,1), o reconhecimento de que somos todos insuficientes, somos pecadores: os judeus diante da Lei; gentios diante da consciência: todos vemos no Crucificado o quanto somos incapazes sozinhos de nos salvar, já que somos deficientes diante da Lei da consciência e diante da Lei de Moisés! Somos necessitados de salvação, de um Salvador! Leia, novamente, com toda atenção Rm 3,21-31.

=> o reconhecimento de que em Cristo, o Senhor nos deu gratuitamente o perdão, pregando na Cruz os nossos pecados (cf. Rm 3,30; Cl 11,14).

=> o acolhimento da salvação trazida por Jesus, Nele crendo, recebendo o Batismo no Seu Espírito e vivendo em comunhão com Ele na vida e no Sacramento, Nele colocando toda a nossa vida e toda a nossa esperança.

5. Assim, pois, que fique bem claro: o centro da vida cristã é a própria Pessoa de Jesus Cristo: Nele está a salvação; mais ainda: Ele mesmo é a Salvação! No Seu corpo de carne crucificado e ressuscitado fomos salvos pela fé Nele (cf. Rm 8,1-4)! Cristo, Ele mesmo é a salvação, é a nossa paz, o nosso shalom com Deus, o Pai: Nele, judeus e gentios recebem a bênção e formam um só povo, o Novo Povo de Deus, a Igreja.
Leia e reze o estupendo texto de Ef 2,13-22!

6. Ante tudo quanto estamos meditando, procure responder com sinceridade no coração:
Qual o papel do Cristo Jesus na sua vida?
Como é, realmente, a sua relação com Ele?
Leia e medite rezando 1Pd 2,21-25.
Reze Ap 5,9s, louvando o Cristo, nossa fé, razão da nossa esperança.


terça-feira, 19 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação XI - terça-feira da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,81-88
Leia, agora, Gl 3,5-6

1. Em 3,2 São Paulo refere-se ao dom do Espírito que os gálatas receberam. Não se trata de um dom qualquer, uma experiência qualquer, mas é a grande característica do ser cristão: viver no Espírito do Cristo imolado e ressuscitado. Esta é a grande distinção do cristão: ele vive no Espírito de Cristo (cf. Rm 8,1s.9.14). Aquele que creu em Cristo e por Ele foi resgatado,

=> apesar de ter uma vida biológica, não vive simplesmente neste nível físico, somático e muito menos vive na carne (carne, aqui no sentido de pecado, de fechamento em si mesmo, sem relação com Deus, dizendo “a vida é minha, eu faço como eu quero”);

=> apesar de ter uma vida psíquica, racional, consciente, inteligente, não vive simplesmente no nível da razão e seu critério último não é mais a razão humana;

=> o cristão vive do Espírito e no Espírito: seu critério, sua vida é o Espírito do Cristo! Este Santo Espírito divino não somente é o princípio da Vida nova do cristão como também é Ele mesmo, a Lei na Nova Aliança, Lei dada, derramada no Pentecostes (cf. Rm 8,1s). Explicando melhor: Pentecostes, para os judeus era a festa das primícias da colheita e também a festa do dom da Lei a Moisés no Sinai. Pois bem, foi exatamente nesta festa que o Espírito foi dado, foi derramado sobre a Igreja, pois Ele é as verdadeiras primícias da Vida nova em Cristo, Ele a verdadeira e definitiva Lei da Nova Aliança. Mas, agora trata-se não de uma lei de preceitos, como a Lei de Moisés, escrita em tábuas, mas de uma Lei interior, que convence amorosamente, interiormente, a partir de dentro, do mais íntimo de nós, onde Deus habita (cf. 1Cor 2,10ss)! Desde o Batismo, o Espírito de amor habita o íntimo de cada cristão e o une a Cristo e lhe concede a Vida de Cristo, os sentimentos de Cristo, as atitudes de Cristo, a participação na Cruz e na Ressurreição de Cristo: “O amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito anto que nos foi dado” (Rm 5,5).
Leia, novamente, com toda atenção 1Cor 2,1-16! Medite, rumine, interiorize, reze!

2. Como foi dito, esta Lei bendita, própria da Nova Aliança, é uma lei interior. Não mais se trata de preceitos, mas sim de uma relação viva e amorosa com Cristo, uma Lei de amor forte, a ponto de São Paulo exclamar: “O Amor de Cristo os impele!” (2Cor 5,14)
Os profetas já haviam anunciado uma Nova Aliança escrita não em tábuas de pedra, feita não de preceitos exteriores, mas uma Aliança feita de amor, de intimidade com o Senhor, uma Aliança inscrita no íntimo, no coração do homem, de tal modo que aquele que entrasse nessa Aliança bendita teria uma conaturalidade com o Senhor, conheceria e reconheceria o Senhor. 
Leia com atenção Jr 31,34; Hb 8,6-13 e 1Jo 2,27. São textos importantíssimos para a nossa compreensão do mistério da vida em Cristo! A Unção do Santo é o Espírito de Cristo, Óleo bendito, Crisma de salvação, que, nos ungindo, habita em nós, dá-nos a Vida nova, esta conaturalidade com o Senhor Jesus Cristo morto e ressuscitado, a ponto de São Pedro afirmar que nós realmente participamos da natureza divina (cf 2Pd 1,4), pois, tendo ouvido o Evangelho do Cristo morto e ressuscitado e nele crido, fomos pelo Batismo, sacramento da fé, gerados de novo, nascidos de novo, agora no Espírito de Cristo (cf. 1Pd 1,23).
Estas são ideias centrais na nossa fé cristã, são o miolo da nossa vida em Cristo e, no entanto, quase não temos consciência desta realidade impressionante! É nestas coisas que São Paulo está pensando, são estas realidades que o Apóstolo está defendendo com unhas e dentes quando se dirige aos gálatas, agora fascinados pela Lei de Moisés!
O judeu vive na Torá, vive toda a sua vida na Lei de Moisés, feita de preceitos e interpretada e esmiunçada por normas e prescrições desenvolvidas geração após geração pelos rabinos de Israel; Lei feita de preceitos (cf. Mc 7,1-13). Certamente a Lei em si é santa e não é má, mas é totalmente insuficiente: ela é uma regra exterior, ela consiste em normas; ela não é interior, não dá por si mesma o Espírito de Deus, não é um princípio de transformação interior. A Lei de Moisés é somente um pedagogo, uma preparação para o Cristo, o Ungido, Aquele que é pleno do Espírito e que, com Sua Morte e Ressurreição, unge com o Espírito do Pai (cf. At 2,32s; Gl 3,24)! Nunca esqueça: sem o inestimável Dom do Espírito, sem o Espírito que é o Dom do Senhor, não é possível uma Nova Aliança, não existe Vida em Cristo! Sem o Espírito, a Lei de Cristo seria tão exterior quanto a Lei de Moisés. Somente o Cristo, exultando no Espírito (cf. Mt 11,25) pode dizer: “Vinde a Mim; tomai o Meu jugo; Meu jugo é suave!” (Mt 11,28-30). Trata-se, aqui do jugo da Lei de Cristo, na suavidade do Espírito! Leia o texto todo: Mt 11,25-30! Vale a pena!

3. É necessário ainda recordar sempre o que já expliquei numa anterior meditação: recebe-se o Espírito crendo em Jesus como o Enviado, o Cristo, o Messias, o Ungido de Deus e Nele sendo batizado, isto é, mergulhado num só Espírito para formar um só Corpo na Igreja pelo sacramento da Eucaristia (cf. 1Cor 12,13). É, pois, pela fé que se entra na amizade com Deus, que se é justificado, isto é, tornado justo, amigo de Deus, participante da própria Vida divina (cf. 2Pd 1,4)!

4. Vamos adiante na nossa meditação! Em Gl 3,6, o Apóstolo coloca diante dos seus leitores o exemplo de Abraão, pai do Povo de Israel! Vejamos o que ele quer dizer:

a) Tomando Gn 15,6, Paulo explica que Abraão foi tornado justo, amigo de Deus, agradável a Deus, pela fé no Senhor. Em outras palavras: Abraão foi justificado pela fé!

b) Mais ainda: Abraão não poderia de modo algum ser justo diante de Deus pelas obras de Lei porque nem sequer existia ainda o dom da Lei, que somente seria revelada a Israel através de Moisés séculos depois! Sem a Lei, Abraão não poderia ser justo em virtude dos preceitos da Lei!

c) Então, os verdadeiros filhos de Abraão, os verdadeiros amigos de Deus como Abraão são os que creem em Deus como Abraão creu (sem a Lei de Moisés!) e não os que cumprem os preceitos de uma Lei que foi dada muito tempo depois de Abraão! Os que creem no Deus que enviou Jesus como Salvador, estes é que são tidos em conta de justos pelo Senhor Deus, pois estes creem como Abraão! Assim, a justiça do cristão, o seu ser justo diante de Deus não vem pela prática das obras da Lei de Moisés, mas pela fé no Deus que entregou o Seu Filho Jesus e derramou em nossos corações o Espírito do Cristo!

5. Aprofundemos ainda um pouco mais este tema tão importante e surpreendente. Agora leia com atenção Gn 15,1-6! É preciso ler cuidadosamente este texto! Vamos lá! Siga o raciocínio seguinte:

a) Aqui, neste texto, a crise de Abraão dizia respeito a uma descendência, a um filho: nosso Pai na fé havia recebido a promessa de uma descendência e, passados quase vinte e cinco anos,  Deus não lhe dera ainda o filho prometido (cf. vv. 2s)!

b) Deus, então, renovou a promessa que fizera: aqui também a promessa de Deus diz respeito a uma descendência, a uma posteridade: “Conta as estelas, se as pode contar! Assim será a tua posteridade!” (v. 5).

c) Aqui ainda, fé de Abraão em Deus, fé que o justifica, que o faz amigo de Deus (cf. v.6), diz respeito à fé na promessa de um filho: Abraão creu que Deus poderia lhe dar esse filho, embora ele já fosse tão idoso e Sara fosse estéril. Abraão creu em Deus e foi considerado justo (cf. v. 6)!

d) Agora, reflita comigo: quem é este filho? É Isaac! Ora, Isaac é imagem de Cristo, o Filho desejado e bendito, a verdadeira e definitiva descendência de Abraão por excelência! Leia com toda atenção Gn 21,1-7 e 22,1-18. Agora, veja a surpreendente afirmação de Jesus nosso Senhor em Jo 8,56: Ele Se considera o verdadeiro Isaac! O primeiro Isaac era figura de Cristo (cf. Hb 11,17-19)! O Isaac segundo a carne, o Isaac que alegrou Abraão era apenas figura do verdadeiro Isaac, Aquele enviado por Deus, o Seu próprio Filho! Ele sim, é a verdadeira descendência de Abraão, aquele Cordeiro que Deus providenciou no lugar do Isaac segundo a carne. Leia com atenção Mt 1,1; Gn 22,8; Gl 3,16 e Hb 11,17-19!

e) Que mistério tremendo e sublime! Deus promete a Abraão um descendente, o Isaac, o que faz rir! Esse Isaac é imagem de Cristo, o Descendente de Abraão por excelência; Ele é o Isaac-Cristo! Abraão, crendo em Deus, como que vendo o invisível (cf. Hb 11,27), creu em Cristo, o Cordeiro que Deus providenciaria! Abraão creu em Deus, que lhe prometera o Cristo! Assim, a verdadeira descendência de Abraão são os que creem no Cristo, o verdadeiro Isaac de Deus! Conclusão surpreendente, mistério admirável da providência divina que tudo predispõe, dispõe e dirige para Cristo!

6. Ainda uma coisa muito importante: Nas Escrituras, crer é uma atitude, uma dinâmica que envolve a pessoa toda: é abrir-se para Deus, a Ele aderir totalmente simplesmente porque Ele é Deus! Esta fé envolve sentimento, inteligência, vontade... Crer supõe e exige uma relação viva, dinâmica, livre, consciente, total... A fé nos joga totalmente em Deus, faz-nos viver Dele, viver Nele e viver para Ele!
Ora, para um cristão, crer não significa simplesmente afirmar que Deus existe, mas proclamar plenamente que o Deus de Abraão é fidelíssimo: Ele enviou o Isaac verdadeiro, Jesus Cristo que, pela humanidade toda morrendo e ressuscitando, fez dela descendência de Abraão, participante da sua bênção, isto é, da sua salvação, cumprindo-se, deste modo, a promessa que Deus fez ao velho Patriarca: “Por ti serão benditos todos os clãs da terra” (Gn 12,3).
Para um cristão, crer é crer na fidelidade amorosa do Deus de Abraão, que não só enviou o Seu Isaac-Cristo, mas O entregou até a morte e morte amorosa de cruz, não poupando o Seu Filho para dar o perdão dos pecados e a salvação não somente aos filhos de Abraão segundo a carne, mas também a todos os que cressem como Abraão (cf. Rm 8,32)!

7. Agora, com sinceridade, com humildade e gratidão a Deus, pergunte-se:
Sua relação com Deus é viva, é totalizante? Em outras palavras: sua fé no Deus que nos salvou em Cristo é viva, é total, abrange toda a sua existência em todos os âmbitos?
Recorde fatos que ilustrem isto no seu caminho...
Em que se fundamenta a sua fé: em Cristo, que por nós morreu e ressuscitou ou em outros motivos?
Lembre:“sem a fé é impossível agradar a Deus!” (Hb 11,6) E aqui se trata da fé no Deus que nos deu Jesus Cristo! É crendo de verdade no Cristo que o cristão realiza a obra de Deus (cf. Jo 6,29), é tornado justo, amigo de Deus porque renascido do Espírito de Cristo e, assim, recebe a salvação!
Pense nestas coisas! Releia toda esta meditação! Interiorize esta realidade!

8. Agora louve e agradeça ao Senhor; reze o Sl 137/138 e o Sl 145/146.