terça-feira, 26 de maio de 2020

Bendito Espírito Santo

Estamos na semana que precede o Domingo de Pentecostes, soleníssimo encerramento do Tempo Pascal.

Que Espírito é este, que encheu a inteira Igreja de Cristo? Que Força, que Energia, que Vida divina é esta que, qual rio de Água viva, jamais parada, sempre antiga, sempre nova, sempre vinda, sempre vindo, sempre vindoura novamente, fresca, vital vivificante, inunda a Igreja inteira, Corpo do Ressuscitado, fazendo-a sempre nova, sempre recém-nascida, sempre unida e dependente do Seu Senhor, “Cordeiro de pé como que imolado” (Ap 5,6)?

Ele é o Espírito do Ressuscitado, soprado pelo Cristo Senhor, como fruto bendito da Sua Ressurreição: “Exaltado pela Direita de Deus, Ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou!” (At 2,33).
Nele, tudo fora criado desde o princípio (cf. Gn 1,2; Sb 1,7; Sl 104/103,30). Somente no Santo Espírito podemos compreender que toda a criação e toda a história são penetradas pela Vida de Deus que nos vem pelo Cristo; somente no Santo Espírito podemos perceber a unidade e bondade radicais da criação que nos cerca, mesmo com tantas trevas e contradições (cf. Eclo 42,24s/25s). É o Santo Espírito, doce Consolador, que nos livra do desespero e da falta de sentido! Nele tudo se mantém, tudo tem consistência, tudo é precioso, superado e extinguido o pecado, tudo é conduzido à uma harmonia superior, que desaguará no Reino de Deus Uno e Trino. É por Sua ação constante que tudo existe e persiste no ser. Sem Ele, tudo voltaria ao nada e nada teria consistência real. Nele, tudo tem valor, até a mais simples das criaturas, por Ele continuamente penetrada, pois “Nele – Energia do Pai pelo Filho – vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28).

Sem Ele, nada, absolutamente, podemos nós. Se Jesus, nosso Senhor, disse “Sem Mim, nada podeis fazer (Jo 15,5)”, é porque sem o Seu Espírito Santo que nos sustenta e age no mais íntimo de nós, tudo quanto fizéssemos não teria valor para o Reino dos Céus, não passando de carne que “para nada serve” (Jo 6,63). O Cristo Jesus é a “Videira verdadeira” (cf. Jo 15,1), consumador e plenificador de Israel a antiga videira (cf. Is 5,7); nós, os ramos a Ele unidos como nova videira, novo Povo, Igreja Sua; o Espírito é a Seiva bendita e vital, que, vinda do Tronco, nos faz frutificar frutos de Vida eterna, salvífica e divina...

Ele é a nova Lei, não mais escrita sobre tábuas de pedra, mas inscrita pelo Dedo de Deus (cf. Mt 12,28; Lc 11,20) no nosso coração (cf. Ez 11,19; Jr 31,31-34). A lei de Moisés, em tábuas de pedra, fora dada no Sinai em meio a relâmpagos, trovões, fogo, vento e terremotos (cf. Ex 19); agora, a Nova Lei, o Santo Espírito nos vem em línguas de fogo e vento barulhento e impetuoso (cf. At 2,1-4; 4,31), para marcar o início da Nova Aliança, do Amor derramado no íntimo de nós!

Ele tudo perdoa e renova, pois é Espírito dado por Cristo para a remissão dos pecados (cf. Jo 20 22s; At 2,38). É, pois, no Espírito que a Santa Igreja anuncia a paz do Evangelho do perdão de Deus para a humanidade em Cristo Jesus!
Ele nos une no Corpo de Cristo, que é a Igreja, una na diversidade de tantos dons e carismas; una nas diferenças de seus membros... Ele faz a Igreja falar todas as línguas, fá-la abrir-se ao mundo, procurar o mundo com “santa inquietude”, não para render-se ao mundo num falso diálogo pecaminoso e maligno, ou imitá-lo, presa em ideologias e pensamentos segundo a estreita razão humana, ou perder-se nele, dissolvendo a perene novidade do Cristo, mas para “anunciar as maravilhas de Deus” em Cristo Jesus, chamando o mundo à conversão e à Vida nova em Cristo!

Enfim, Ele torna Jesus, o nosso Cristo bendito, sempre presente no nosso coração e no coração da Igreja e no testemunha incessantemente, sempre e em tudo que Jesus é o Senhor, pois “ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo!”– para a glória de Deus Pai.


segunda-feira, 25 de maio de 2020

Se creres... Se confessares...

Meu caros Amigos e Irmãos no Senhor, na semana entre a Ascensão e Pentecostes, a liturgia insiste no papel indispensável do Espírito Santo como Aquele que ressuscitou Jesus nosso Senhor e O torna contemporâneo a cada geração humana, presente em cada lugar do universo e presente no mais íntimo de nós. Durante toda esta semana espero ter tempo para colocar aqui alguns textos litúrgicos e comentá-los.

Leitura breve de Laudes, no Ofício Divino desta segunda-feira:

“A Palavra está perto de ti, em tua boca e em teu coração”. Essa palavra é a Palavra da fé que pregamos. Se, pois, com tua boca confessares que Jesus é Senhor e, no teu coração, creres que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo. É crendo no coração que se alcança a justiça, e é confessando com a boca que se consegue a salvação (Rm 10,8b-10).

Quem pode verdadeiramente confessar que Jesus é o Senhor? Quem pode realmente crer de todo o coração que Ele ressuscitou dos mortos? Somente aquele que tem o Santo Espírito do Cristo Jesus: “Ninguém será capaz de dizer: ‘Jesus é Senhor’, a não ser sob a ação do Espírito Santo” (1Cor 12,3).

Assim, neste contexto pascal e de preparação para o santo Pentecostes, abramo-nos à ação do Espírito: Ele nos convence de que Jesus está vivo, ressuscitado e é Senhor, Ele nos convence, fazendo-nos proclamar, confessando com o coração e com a boca que Jesus é o Senhor, no Céu e na terra!


sábado, 23 de maio de 2020

Homilia para a Solenidade da Ascensão do Senhor - ano a

At 1,1-11
Sl 46
Ef 1,17-23
Mt 28,16-20

Estamos ainda nos dias pascais, nas alegrias da Ressurreição do Senhor. A Solenidade que hoje celebramos – a Ascensão – e aquela do Domingo próximo – Pentecostes - são ainda partes, aspectos do único e maravilhoso Mistério da Páscoa: Ressurreição, Subida aos Céus e dom do Espírito são três aspectos do mesmo mistério! Celebramo-lo num arco de cinquenta dias porque, enquanto o Senhor Jesus deixou este nosso tempo, feito de ontens, de hojes e de amanhãs, nós continuamos presos às horas, dias, meses e anos deste mundo... Quanto ao Cristo Senhor, desde a morte saiu do nosso tempo e, com Sua Ressurreição, entrou na Eternidade de Deus, no Santuário celeste, onde não já tempo algum, mas somente perene Eternidade!

Eis: Jesus ressuscita no Pai; não ressuscita para depois ir ao Seu Deus e Pai! Ressuscitar é, precisamente, sair da morte, entrando na Vida divina e imortal, que é o Pai. Isso aparece claro em alguns textos dos próprios evangelhos. Em Lc 24,44, Jesus ressuscitado, conversando com Seus apóstolos e sendo tocado por eles, diz claramente que com eles não está mais: “São estas as palavras que Eu vos falei quando estava convosco...”No próprio Evangelho deste hoje, o Senhor, aparecendo aos Seus sobre o monte, dá a entender que já está nos Céus: “Toda autoridade Me foi dada no Céu e na terra!” Vede: Ele já recebeu tal autoridade! Ele, durante quarenta dias apareceu aos Seus, mas já não está fisicamente entre os Seus! Seu novo modo de permanecer conosco é na potência do Seu Espírito Santo, também fruto da Sua Ressurreição e entrada no Pai...

Se é assim, qual o sentido desta Solene Ascensão do Senhor? Eis o seu significado, tão importante para nós e para a nossa salvação: ressuscitado, Jesus foi glorificado na Sua Pessoa, isto é, em Si mesmo. Agora, com a Ascensão, aparece o que Sua Ressurreição significa para nós, o que o Cristo Se torna em relação a nós. Vejamos:
Em primeiro lugar, a Ascensão marca o fim daquele período de encontros que o Ressuscitado teve com Seus discípulos para fortalecer-lhes a fé explicar-lhes a missão. É, portanto, uma despedida! Como já foi dito, a partir desse momento o Senhor estará com os Seus e poderá ser por eles percebido de uma forma nova: na potência do Seu Espírito Santo, presente na força da Palavra anunciada e nos sacramentos da Igreja. É assim, que a Ascensão abre caminho para o Pentecostes, quando o Espírito, de um modo visível e barulhento, marca a inauguração da missão da Igreja, que é testemunhar e anunciar o Senhor, tornando-o presente nos gestos sacramentais.

Segundo: a Ascensão nos revela aquilo que aconteceu nos Céus com o Cristo Jesus e que, na terra, somente pela fé podemos saber e crer, isto é, Sua glorificação como Senhor do Céu e da terra, Senhor da história humana e da Igreja. Ele ressuscitou e subiu aos Céus para tudo recapitular e de tudo ser a Cabeça, fonte de Vida e salvação! São Paulo nos disse na segunda leitura que “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a Quem pertence a glória ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos e fê-Lo sentar-se à Sua direita nos Céus. Ele pôs tudo sob os Seus pés e fez Dele, que está acima de tudo, Cabeça da Igreja, que é o Seu Corpo...” É assim que hoje, cheios de alegria, proclamamos Jesus ressuscitado como Cabeça de toda a criação, Cabeça da humanidade toda, Cabeça e sentido da história humana. E tudo isso Ele o é enquanto Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo! Isso significa que toda a criação caminha para Ele e Nele será um dia glorificada; que toda história somente Nele encontra a direção e o sentido profundo; e que a Igreja participa da Sua obra universal de salvação! Se toda salvação neste mundo somente pode vir através de Cristo, vem desse Cristo que é, inseparavelmente, Cabeça da Igreja. Assim, podemos e devemos dizer que sem o ministério da Igreja não há salvação possível! Isso mesmo: fora da Igreja não há salvação, porque ela é o Corpo do Cristo, sua Cabeça e único Salvador. Em outras palavras: todo ser humano de boa vontade e consciência reta pode salvar-se, mas pode-o somente porque Cristo, Cabeça da Igreja, morreu e ressuscitou e está à Direita do Pai em favor de toda a humanidade, até de quem não crê Nele!

Em terceiro lugar, glorificado, o Senhor é nosso Juiz! Para Ele caminham a história humana e as nossas histórias. Somente Ele pode ver nosso caminho neste mundo com seu sentido profundo, somente Ele nos julgará, porque, à Direita do Pai, somente Ele abarca toda a história com o Seu Espírito e desvela seu sentido pleno.

Quarto: desaparecendo de nossa vista humana, Ele nos dá o Seu Espírito, inaugurando um novo modo de estar presente entre nós, mais profundo e eficaz: agora Ele nos é interior, age em nós pela energia do Seu Espírito Santo: “Eis que Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo!” – Essa promessa não é palavra vazia; é, sim, uma impressionante realidade!
Em quinto lugar, Sua presença na Glória, à Direita do Pai, o constitui para sempre como nosso Intercessor, como diz o Autor da Epístola aos Hebreus: “Cristo entrou no próprio Céu, a fim de comparecer, agora, na presença de Deus, em nosso favor!” (9,24)

Caríssimos, a hodierna Solenidade é também nossa festa e motivo de alegria para nós! Aquele que hoje sentou-Se à Direita do Pai é o Filho eterno feito homem, é um de nós! Que coisa impressionante: hoje, a nossa humanidade foi colocada acima dos Anjos! Aquele que, como Deus, foi colocado no Presépio e no Sepulcro, hoje, como homem, foi colocado acima dos anjos, à Direita do próprio Pai! Ora, alegremo-nos: onde já está o Cristo, nossa Cabeça, estaremos um dia todos nós, membros do Seu Corpo! Era isso que rezava a oração inicial da Missa de hoje: “Ó Deus todo-poderoso, a Ascensão do vosso Filho já é a nossa vitória: membros do Seu Corpo, somos chamados a participar da Sua Glória!” E a oração que faremos após a comunhão dirá claramente que junto do Pai já se encontra a nossa humanidade, no Cristo glorificado.

Irmãos e irmãs! Elevemos o olhar para os Céus: à Direita do Pai, Deus como o Pai, encontra-Se o homem Jesus, nosso irmão, um de nossa raça... Ele é o objetivo para o qual se dirigem a nossa existência e a história humana, Ele é o nosso Juiz, Ele é o nosso Intercessor! Que nossa vida, neste mundo que passa, seja cheia do gosto da Eternidade, porque Nele, nossa esperança é certíssima! Não temamos: Aquele que está nos Céus Se nos dá em comunhão para que o experimentemos, O anunciemos e O testemunhemos, até sermos plenamente unidos a Ele quando aparecer em Sua Glória e entregar o Reino a Deus Seu Pai. “Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje; Ele o será por toda a Eternidade” (Hb 13,8). Amém.


segunda-feira, 18 de maio de 2020

Admiráveis mistérios!

Dos Tratados de São Gaudêncio, Bispo de Bréscia (séc. V):

O sacrifício celeste instituído por Cristo é verdadeiramente um dom do Novo Testamento concedido como herança; é o dom que ele nos deixou como garantia da Sua presença, na noite em que foi entregue para ser crucificado.

Observação minha: Durante todo o tempo da Páscoa, a liturgia insiste no novo modo de presença de Cristo na Sua Igreja, entre os Seus: trata-se de uma presença no Espírito Santo, já que “morto na carne” (1Pd 3,18), isto é, na existência humana, “foi vivificado no Espírito” (1Pd 3,18), isto é, recebeu Vida nova, divina, no Espírito, e agora, é na potência do Seu Espírito que Ele tem em plenitude desde a Ressurreição, e Se faz presente aos Seus. Ora, é fundamental compreender que a ação do Espírito opera maximamente na liturgia, nas celebrações dos santos sacramentos, sobretudo no Sacramento por excelência, que é a Eucaristia! Então, presença de Cristo, ação do Espírito e vida litúrgica-sacramental são aspectos diversos e complementares de uma mesma realidade, que não pode ser compreendida senão articulando estas três vertentes.

Este é o Viático da nossa peregrinação. É o alimento que nos sustenta nos caminhos desta vida até o dia em que, partindo deste mundo, formos ao encontro do Senhor. Pois Ele mesmo disse: “Se não comerdes a Minha carne e não beberdes o Meu sangue, não tereis a Vida em vós” (cf. Jo 6,53).

Observação minha: A Eucaristia é tudo isto – presença real, viático, sustento, penhor de Vida eterna – precisamente porque nos dá o Cordeiro imolado e ressuscitado (cf. Ap 5,6), pleno do Espírito Santo. Quando Jesus, nosso Senhor, diz que comendo Seu Corpo e bebendo Seu Sangue temos – já no presente! – a Vida em nós, refere-Se ao Espírito que Ele dá sem medida, Espírito que é “Senhor que dá a Vida” eterna.

Ele quis efetivamente com Seus dons permanecer junto de nós; quis que as almas, remidas com o Seu Sangue precioso, se santificassem continuamente pelo memorial de Sua Paixão. Por esse motivo, ordenou aos Seus discípulos fiéis, constituídos como primeiros sacerdotes de Sua Igreja, que sem cessar celebrassem estes mistérios da Vida eterna.

Observação minha: Atenção ao termo “memorial”, muito mais forte e correto que simplesmente “memória”. “Memória” pode dar uma ideia subjetiva: algo que somente está presente porque nós o tornamos presente com nossa recordação e desejo; “memorial” não: traduz o hebraico “zikaron”, ou seja, um acontecimento realmente tornado presente e atuante nos ritos que o celebram. Ora, quem torna realmente presente, atual, atuante o sacrifício do Senhor na Eucaristia? O Espírito Santo, invocado antes da consagração! Sem o Espírito do Imolado-Ressuscitado não há Igreja, não há sacramento, não há presença real, não há Vida eterna para nós e em nós, pois a Vida eterna é o próprio Espírito do Eterno, derramado pelo Pai sobre o homem Jesus para ressuscitá-Lo dos mortos.

É necessário, portanto, que estes sacramentos sejam celebrados por todos os sacerdotes em cada Igreja do mundo inteiro, até que Cristo desça novamente dos Céus. Deste modo, tanto os sacerdotes como todo o povo fiel, tendo diariamente ante os olhos o sacramento da Paixão de Cristo, tomando-o nas suas mãos e recebendo-o na boca e no coração, guardem indelével a memória de nossa redenção.

Observação minha: Aqui há algumas importantes considerações a serem feita:
[1] Note-se como São Gaudêncio – e o consenso dos Padres da Igreja – não hesita em chamar os ministros do Novo Testamento de “sacerdotes”. Não devemos ter medo de usar esta linguagem cultual! Os Bispos e presbíteros são realmente os sacerdotes da Nova Aliança, a serviço do Povo sacerdotal, conquistado por Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote que, pelos sacramentos, nos uniu a Ele, nos incorporou Nele, na Sua vida ressuscitada e no Seu ofício sacerdotal!
[2] Veja-se também como o modo de celebrar do sacerdote não é o mesmo do Povo sacerdotal. Por isso o Autor diz que os sacramentos são celebrados pelos sacerdotes em cada Igreja... É o Povo sacerdotal quem celebra os santos mistérios, mas o faz com e pelo sacerdote ordenado. Por isso mesmo o convite ritual do celebrante em cada Missa: “Orai, irmãos, para que o meu e o vosso sacrifício seja aceito por Deus Pai todo-poderoso”. A tradução brasileira trai e empobrece o texto original latino, regra do dizer litúrgico! Não se deveria dizer “o nosso sacrifício”, escondendo a especificidade do ministério sacerdotal; como não se deveria dizer “que ela cresça na caridade... com todos os ministros do vosso povo”, incluindo aí ministros ordenados e não ordenados de todo tipo, mas fiel ao latim e à tradição litúrgica, dever-se-ia dizer “que ela cresça na caridade... com todo clero (universo clero).
[3] Aqui aparece o sentido de memória também naquele sentido mais subjetivo de que falei acima: celebrando o memorial, guardamos e alimentamos em nós a devota e afetuosa memória da Paixão do nosso santíssimo Salvador, cumprindo assim na nossa vida o preceito do Apóstolo: “Tende em vós os mesmos sentimentos do Cristo Jesus” (Fl 2,5).

Com razão se considera o pão como uma imagem inteligível do Corpo de Cristo. De fato, assim como para fazer o pão é necessário reunir muitos grãos de trigo, transformá-los em farinha, amassar a farinha com água e cozê-la ao fogo, assim também o Corpo de Cristo reúne a multidão de todo o gênero humano e o leva à perfeita unidade de um só corpo por meio do fogo do Espírito Santo.

Observação minha: Eis aqui um texto comovente! As espécies eucarísticas não são uma presença estática, gélida, congelada de Jesus Cristo! Não! Ali está Jesus, nosso Salvador, amando, Jesus salvando, Jesus edificando a Sua Igreja na potência do Seu Espírito, fazendo-a semelhante a Si mesmo, nosso Salvador, provocando nos fieis a união com Ele no vínculo do Espírito e, assim, gerando o amor, a unidade, o serviço aos irmãos, sobretudo aos pobres... Por isso, o nosso Autor pode fazer do pão eucarístico uma parábola, cuja semente já aparece em São Paulo (cf. 1Cor 10,16-17): nós somos Igreja-corpo de Cristo porque como o Pão eucarístico, fomos feitos farinha na água do Batismo e cozidos no fogo do Santo Espírito, dado no Batismo como Vida e na Crisma como força! Assim, que comungamos o que somos – Corpo de Cristo – e comungando, nos tornamos mais e mais aquilo que recebemos!

Cristo nasceu pelo poder do Espírito Santo. E porque convinha que Nele se cumprisse toda a justiça, penetrou nas águas do batismo para santificá-las, e saiu do rio Jordão cheio do Espírito Santo que tinha descido sobre Ele em forma de pomba. O evangelista dá testemunho disso dizendo: “Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão” (Lc 4,1).

Observação minha: O Autor aqui não desenvolve a ideia, mas é necessário recordar que esse batismo de Jesus é apenas imagem e prefiguração do nosso Batismo, quando o nosso Senhor, cheio do Espírito de Ressurreição, derramou sobre nós o Espírito, simbolizado pela água batismal [cf. Jo 7,37]).

Do mesmo modo, o vinho do Seu Sangue, proveniente de muitos cachos, quer dizer, feito das uvas da videira por Ele plantada, espremido no lagar da Cruz, fermenta por si mesmo em amplos recipientes que são os corações dos fieis. Todos vós, pois, que fostes libertados do Egito e do poder do Faraó, isto é, do demônio, recebei com santa avidez de coração junto conosco, este Sacrifício pascal portador de salvação. E assim, sejamos santificados até o mais íntimo de nosso ser por Jesus Cristo nosso Senhor, que cremos estar presente em seus sacramentos. Seu poder inestimável permanece por todos os séculos.

Observação minha: Só para arrematar:
[1] Note como a imagem do lagar onde se espreme a uva nos recorda que comungar no Corpo e Sangue do Senhor imolado exige que participemos com a vida concreta na Sua Paixão;
[2] Veja como o Autor fala em receber o Sacrifício... É que comungando a Vítima pascal, imolada e ressuscitada, entramos em comunhão real-sacramental com Cristo na Sua imolação, para fazer da vida uma oferta sacrifical ao Pai no Espírito (cf. Rm 12,1s).


sábado, 16 de maio de 2020

Homilia para o VI Domingo da Páscoa - ano a

At 8,5-8.14-17
Sl 65
1Pd 3,15-18
Jo 14,15-21

Nestes dias pascais em honra do Ressuscitado, contemplamos e experimentamos nos santos mistérios não somente a Sua Ressurreição e Ascensão, como também dom do Seu Espírito Santo em Pentecostes. Pois bem, caríssimos irmãos, a Palavra de Deus que escutamos nesta liturgia do VI Domingo da Páscoa coloca-nos precisamente neste clima. Com um coração fiel e recolhido, contemplemos o mistério que o Evangelho de hoje nos revela! Meditemos nas palavras do Senhor Jesus: é Ele mesmo que, sempre vivo, glorioso, sobreano Senhor da Igreja, nesta Ceia sacrifical da Eucaristia, nos diz novamente, aquelas palavras ditas na Ceia derradeira. Eis as Suas palavras:

“Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós! Pouco tempo ainda, e o mundo não mais Me verá, mas vós Me vereis, porque Eu vivo e vós vivereis!” São palavras estupendas, cheias de promessa e de vitória...
Mas, será que são verdadeiras? Como pode ser verdade tudo isso? Uma coisa é certa: o Senhor não mente jamais! E Ele nos garante: Eu virei a vós! Eu vivo! Vós vivereis! Vivereis da Minha Vida de Ressurreição!
Mas, como se dá tal experiência? Como podemos realmente experimentar tal realidade estupenda em nossa vida e na vida da Igreja? Eis a resposta, única possível: somente no Espírito Santo que o Ressuscitado nos deu ao derramá-Lo sobre nós após a Sua vitória sobree a morte. Vejamos:

“Eu virei a vós!” Na potência do Santo Espírito, Cristo realmente permanece no coração de Sua Igreja, primeiro pela Palavra, pregada na potência do Espírito, como Filipe, na primeira leitura, que, anunciando o Cristo, realizava curas e exorcismos e, sobretudo, tocava os corações! A Palavra que Filipe pregava e que a Igreja proclama é cheia de Espírito Santo de Cristo e, por isso, Palavra que realmente toca os corações e coloca os ouvintes diante do Cristo vivo, soberano, atual e atuante. 
Mas, conjuntamente com a Palavra, os sacramentos, sobretudo o Batismo e a Eucaristia. Em cada sacramento é o próprio Espírito do Ressuscitado Quem age, conformando-nos ao Cristo Jesus, unindo-nos a Ele, fazendo-nos experimentar Sua Vida e Sua força. Pelo Batismo, mergulhados no Espírito do Ressuscitado, realmente nascemos para uma nova Vida, como nova criatura; pela Eucaristia, Seu Corpo e Sangue plenos do Espírito, entramos na comunhão mais plena que se possa ter neste mundo com o Senhor: Ele em nós e nós Nele, num só Espírito Santo que Ele nos doa continuamente!

“Vós Me vereis!” Porque o Santo Espírito do Senhor Jesus habita em nossos corações, nós experimentamos Jesus em nós como uma Presença real e atuante e, com toda a certeza, proclamamos que Jesus é o Senhor, como diz São Paulo: “Ninguém pode dizer: ‘Jesus é Senhor’ a não ser no Espírito Santo” (1Cor 12,3). Porque vivemos no Espírito, experimentamos todos os dias Jesus como Alguém vivo e presente na nossa vida, em outras palavras: vemos Jesus; vemo-Lo de verdade!

“Eu vivo!” Sabemos que o Senhor está vivo: “morto na Sua existência humana, recebeu nova Vida pelo Espírito Santo”. Sabemos com toda a certeza da fé que Cristo é o Vivente para sempre, cheio de Vida divina, o Vencedor da Morte!

“Vós vivereis”. O Senhor Jesus não somente está vivo, totalmente transfigurado pela ação potente do Espírito que o Pai derramou sobre Ele... Vivo na potência do Espírito, Ele nos dá esse mesmo Espírito em cada sacramento. Assim, sobretudo no Batismo e na Eucaristia, tornam-se verdadeiras as palavras do Senhor: “Vós vivereis!”, isto é: recebendo Meu Espírito, Nele vivendo, tereis a Minha Vida mesma! Vivereis porque Meu Espírito “permanece junto de vós e estará dentro de vós!”

Então, caríssimos, palavras de profunda intensidade e de profunda verdade! Num mundo da propaganda, da ilusão, dos simples sentimentalismos, essas palavras do Senhor são uma concreta e impressionante realidade. Mas, escutemos ainda o Senhor: “Naquele dia sabereis que Eu estou no Meu Pai e vós em Mim e Eu em vós!”
É na oração, na prática piedosa dos sacramentos, na celebração ungida e piedosa da Eucaristia que experimentamos essas coisas! Aqui não é só a inteligência, aqui não basta a razão, aqui não são suficientes os nossos esforços! É na fé profunda de uma vida de união com o Senhor, na força do Espírito Santo que experimentamos isso que Jesus disse: Ele está no Pai, no Espírito Ele e o Pai são uma só coisa.
Mas, tem mais: experimentamos que nós estamos Nele, Nele enxertados como os ramos na videira, Nele incorporados como os membros do corpo unidos à Cabeça! Repito: é nos sacramentos que essa experiência maravilhosa torna-se realidade concreta. Um cristianismo que tivesse somente a Palavra de Deus, sem valorizar os sete sacramentos – sobretudo o Batismo e a Eucaristia -, seria um cristianismos mutilado, deficiente, anêmico, não condizente com a fé do Novo Testamento e a Tradição constante da Igreja! Irmãos, atenção para a nossa vida sacramental!

Ora, é esta comunhão misteriosa e real com o Senhor no Espírito, que nos faz amar o Senhor Jesus e vive-Lo com toda seriedade de nossa existência. É cristão de modo pleno quem experimenta o Senhor Jesus vivo e íntimo em sua vida e celebra tal união, tal cumplicidade de amor, nos sacramentos! Aí sim, as exigências do Senhor, Seus mandamentos, não nos parecem pesados, não nos são pesados, não são um fardo exterior que suportamos porque é o jeito. Quem vive a experiência desse Jesus presente e doce no Espírito derramado em nós, experimenta que cumprir os preceitos do Senhor é uma exigência doce, porque é exigência de amor e, portanto, libertadora, pois nos tira de nós mesmos e nos faz respirar um ar novo, o ar do Espírito do Ressuscitado, o Homem Novo!

Mas, quem pode fazer tal experiência? Somente quem vive de modo dócil ao Espírito Consolador, que nos consola mesmo nos desafios mais duros. Somente viverá o cristianismo com um dom e não como um peso quem vive na consolação do Espírito, que é também Espírito de Verdade, pois nos faz mergulhar na gozo da Verdade que é Jesus.
Ora, o mundo jamais poderá experimentar esse Espírito; jamais poderá experimentar o Evangelho como consolação, jamais poderá experimentar e ver que Jesus está vivo e é doce e suave Vida para a nossa vida! Por isso mesmo, o mundo jamais poderá compreender as exigências do Evangelho: aborto, desconstrução da família segundo o plano de Deus, assassinato de embriões com fins pseudocientíficos, ideologia de gênero, eutanásia... Como o mundo poderá compreender as exigências do Evangelho se não conhece o Cristo? “O mundo não mais Me verá!” Nunca nos esqueçamos disso! Ai daqueles que pensam que a Igreja deve correr atrás do mundo, adotando a sua lógica, e os seus critérios! Este não é capaz de receber, de acolher o Evangelho porque – diz Jesus, nosso Senhor – não vê nem conhece o Espírito Paráclito! Mas, vós, cristãos, “O conheceis porque Ele permanece junto de vós e estará dentro de vós!” Irmãos, como nosso Senhor é claro, como é verdadeiro, como nos preveniu!

É esta experiência viva do Senhor Jesus no Espírito que nos dá a força cheia de entusiasmo na pregação como Filipe, na primeira leitura. Dá-nos também a coragem e o discernimento para dar ao mundo “a razão da nossa esperança”, santificando o Senhor Jesus em nossos corações, isto é, pregando Jesus Cristo primeiro com a coerência da nossa fé na vida concreta e, depois, com respeito pelos que não creem como nós, mas com a firmeza de quem sabe no que acredita! Dá-nos, enfim, a graça de participar da Cruz do Senhor, Ele que “morreu uma vez por todas, por causa dos nossos pecados, o Justo pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus”.Assim, com Ele morreremos para uma vida velha e ressuscitaremos no Espírito para uma Vida nova.

Eis! Esta será sempre a grande novidade cristã, o centro, o núcleo de a nossa identidade e nossa força! Nunca esqueçamos disso! Vamos! Sigamos o Senhor! Abramo-nos ao Seu Espírito, E teremos a Vida eterna! Amém.


sábado, 9 de maio de 2020

Homilia para o V Domingo da Páscoa - ano a

At 6,1-7
Sl 32
1Pd 2,4-9
Jo 14,1-12

Neste Domingo, quinto do Tempo da Páscoa, elevemos o olhar para o Ressuscitado; deixemo-nos tomar por Sua palavra: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em Mim também!” Estejamos atentos: estas não são palavras ditas ao vento, para ninguém! São palavras, é exortação a nós, cristãos de agora; palavras para cada um de nós e para nós todos.
No mundo complexo, numa realidade plena de desafios, de pontos escuros e tão obscuros, na nossa vida pessoal tantas vezes sofrida, tantas vezes ferida, cheia de tantas contradições e desafios, o Senhor nos olha, estende-nos as mãos, abre-nos o coração e nos enche de serenidade e confiança: “Não se perturbe o vosso coração!”

Pensemos nos desafios dos tempos atuais: o desafio de crer e testemunhar o Senhor em situações tão cheias de promessas, mas também tão confusas, de tantos relativismos, num mundo em que tudo parece desfazer-se ou, como dizem atualmente, liquefazer-se...
Pois bem, o Senhor insiste: “Tendes fé em Deus, tende fé em Mim também!” Ter fé em Cristo! Eis o desafio para nós! Ontem, como hoje, é necessário proclamar nossa fé Nele, nossa entrega a Ele, nossa certeza de que Ele pode dar um sentido e Vida à nossa existência.

E por quê? Não seria loucura, alienação, infantilidade, confiar assim, de modo tão absoluto, em um alguém? Por que apostar toda a vida em Jesus e somente em Jesus? Por que não um pouquinho de Buda, um pouquinho de Maomé, um pouquinho de Dalai Lama, um pouquinho de esoterismo, um bocadinho nas ideologias disponíveis, um pouquinho mais de consumismo e outro tantinho de rédea solta aos nossos instintos? Por que somente Cristo? Por que absolutizar Jesus?

Eis a resposta, que Ele mesmo nos dá; eis a resposta surpreendente; escutemo-la: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim!” É precisamente neste mundo de tantos desafios e de tantos caminhos, que o Senhor Jesus nos diz: "Eu sou o Caminho!" Nestes tempos de tantas verdades, Ele nos proclama: "Eu sou a Verdade!" Neste mundo que nos tenta, oferecendo Vida onde não há vida verdadeira, Jesus nosso Senhor anuncia: "Eu sou a Vida!" De fato, Ele não é simplesmente um profeta, um sábio, não é alguém a quem podemos admirar e seguir ao lado de outros personagens igualmente ilustres! Jesus Se nos apresenta como Aquele que vem de Deus e é o único que nos pode revelar de modo pleno, de modo claro e conclusivo o caminho para Deus! Mais ainda: Aquele que é nosso Caminho é também nossa única Verdade e nossa única e verdadeira Vida!

Caríssimos, é diante Dele que temos sempre que nos decidir, que somos chamados a dar um rumo à nossa existência em seus múltiplos aspectos, e à existência da sociedade, da família, das relações sociais, do mundo. O mundo tem tantas e tantas medidas para avaliar o bem e o mal, o certo e o errado... Mas, cristãos, a nossa medida é Cristo!
Eis! Ele é nossa medida porque é o único Caminho, a única Verdade, a única Vida! O próprio Apóstolo São Pedro nos afirma na segunda leitura da Missa deste Domingo: “Aproximai-vos do Senhor, Pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e honrosa aos olhos de Deus! Com efeito, nas Escrituras se lê: ‘Eis que ponho em Sião uma Pedra angular, escolhida e magnífica; quem Nela confiar, não será confundido!’ Mas, para os que não creem, ‘a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular pedra de tropeço e rocha que faz cair’”. Não há como escapar: diante de Cristo, é necessária uma escolha, uma decisão! Aqui não se tem nada a ver com ser aberto ou fechado, otimista ou pessimista! Aqui se tem a ver com a experiência tremenda de Deus que entregou o Seu Filho ao mundo para ser nossa Vida e Caminho e os homens O rejeitaram. Ora, é diante do Cristo, Caminho, Verdade e Vida que nossa existência será julgada, que o mundo será examinado! E, no entanto, Ele será sempre sinal de contradição e pedra de tropeço...
Há muitos dentre nós que se iludem – e teimam em iludir-se! –, pensando numa Igreja que faça o jogo da moda, que diga amém a um modo de pensar, agir e viver estranho ao Evangelho! Que engano tão danado! A renovação da Igreja está em voltar sempre a Cristo e Nele se reencontrar sempre, retomando o vigor, como de uma fonte puríssima! O verdadeiro serviço à humanidade e ao mundo é apresentar o Cristo e Nele colocar toda a esperança! Somente em Cristo a Igreja terá razão de ser e despertará interesse por quem deseje encontrar a Vida!

“Não se perturbe o vosso coração!” – Já nos inícios da Igreja havia tensões, desafios, dificuldades externas e internas. Pois bem, já ali o Senhor dizia aos cristãos: “Não se perturbe o vosso coração!” Já ali lhes garantia a grandeza do amor do Pai: “na Casa do Meu Pai há muitas moradas!” E já ali, entre as consolações de Deus e as provações da vida, “a Palavra do Senhor se espalhava”. Portanto, não temamos em colocar toda a nossa confiança no Senhor; não hesitemos em procurar de todo o coração seguir os passos do Senhor Jesus! A oração inicial da Missa de hoje exprimiu muito bem o que espera o cristão, ao colocar no Senhor a sua existência. Recordemo-la: “Ó Deus, Pai de bondade, concedei aos que creem no Cristo a liberdade verdadeira e a Herança eterna!” – Eis o que buscamos, o que esperamos, o que temos a certeza de alcançar: a liberdade verdadeira e a Herança eterna! Amém.


quinta-feira, 7 de maio de 2020

Das trevas ao Deus vivo e verdadeiro

É convicção inerente ao cristianismo e, portanto, absolutamente irrenunciável que o cristianismo é a única religião verdadeira (religio vera). Somente nela Deus revelou-Se plenamente. Toda a história do Povo de Israel foi revelação autêntica e verdadeira do Senhor Deus, preparando a plenitude dos tempos, quando veio o Santo Messias, Jesus Cristo, Verbo do Pai, Deus gerado e vindo de Deus, Luz gerada e vinda da Luz, através de Quem e para Quem tudo foi criado no Céu e na terra. Neste sentido, a situação do judaísmo é única: ele não é propriamente uma religião falsa, mas incompleta, como um botão que não chegou a ser flor, como um fruto que não chegou a amadurecer, como uma promessa que não consegue enxergar o cumprimento. Isto acontecerá, com a graça de Deus, quando o Messias, nosso Senhor, Se manifestar em glória, na Sua gloriosa Parusia, que esperamos e desejamos. Neste sentido coincidimos com os judeus, que também esperam o Messias. Nós já sabemos quem Ele é: é Jesus, nosso Senhor; eles saberão ao final; saberão e reconhecê-Lo-ão! Sobre isto, leia-se Rm 9 – 11. Um cristão não pode, portanto, avaliar o judaísmo como uma religião falsa: ele nasceu da vontade de Deus em vista de Cristo; misteriosamente este propósito divino persiste...

Todas as outras religiões são, fundamentalmente, feitos humanos, realidiades plasmadas pelo home, dele se originando. Em si, têm um aspecto fundamental muitíssimo positivo: são expressão da irrefreável busca de Deus por parte do homem, são expressão da saudade do Infinito que habita o coração humano. Em todas as religiões pagãs o homem procura, às apalpadelas, o Deus escondido. E esta sede, esta procura, este desejo visceral do coração humano é pelo Senhor Deus desejada e foi pelo Senhor Deus colocada no mais íntimo dos filhos de Adão. Por isso mesmo, todas as religiões têm elementos positivos e sementes de verdade e de bem, que devemos reconhecer e pelos quais damos graças a Deus, pois são até preparação para o Cristo (preparatio evangelica). No entanto – e o Concílio Vaticano II é claríssimo nisto -, possuem também graves lacunas e até mesmo erros sérios. Nunca esqueçamos: nenhuma religião pagã é revelada por Deus! É uma procura de baixo para cima: é um desejo do homem, é uma frágil palavra do homem sobre Deus. E, por isso mesmo, provisória, incompleta e, muitas vezes, errônea.

O dever dos cristãos é anunciar claramente Jesus, o Senhor, a todos os povos, a todos os homens, para que conheçam a salvação que Deus nos oferece no Seu bendito Filho e, assim, todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (cf. 1Tm 2,4), que é unicamente Jesus Cristo. A Igreja e os cristãos não podem se eximir desse testemunho sob nenhum pretexto: “Ide e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. E eis que Eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos!” (Mt 28,19s) Isto não é desrespeitar ninguém, desde que o anúncio seja feito sem detratar os outros, sem desrespeitar ou violentar a consciência alheia, sem agredir nem impor: a verdade impõe-se por si, pela sua profundidade, pela sua beleza e harmonia e pelo testemunho pessoal de quem a comunica. No entanto, deixar o paganismo e abraçar o cristianismo é, no dizer de São Paulo, abandonar os ídolos e converter-se ao Deus vivo e verdadeiro, é sair das trevas e ver a grande Luz, que é Cristo, nosso Senhor (cf. Ef 2,1-5; Cl 1,21-23; 2,13ss; 3,5-8).

Um cristão que seja fiel às Escrituras e à constante fé da Igreja, não tem como negar esta realidade: as religiões pagãs trazem, em grau maior ou menor, deturpações na imagem de Deus e do homem e, consequentemente, escravidões. É a escravidão típica do paganismo! A Escritura santa e a própria experiência estão cheias de constatações dessa realidade... O mundo antigo vivia sob a opressão de superstições, da imoralidade, de violência desmedida, do desprezo pela pessoa humana, de opressão e do desrespeito pela consciência. Muitas regiões do nosso planeta, dominadas pelo paganismo, vivem assim! Foi o cristianismo que libertou o homem de tudo isto, revelando-lhe a dignidade de filho de Deus e sua condição de pessoa. Mesmo quando os cristãos não foram fiéis aos princípios evangélicos e também violentaram consciências e até mesmo perseguiram e mataram – e infelizmente, fizeram isto! –, a seiva do cristianismo estava sempre lá, corrigindo as consciências e obrigando os discípulos de Cristo a retomarem, cedo ou tarde, o caminho correto. Por mais que hoje em dia queira-se incutir que todas as religiões são iguais ou que se tem que renunciar a toda obra de difusão do Evangelho, basta escutar com espírito de fé e obediência as Sagradas Escrituras e basta conhecer melhor essas religiões e ver-se-á o quanto de lacunas e erros há nelas. Somente em Cristo é manifestada toda a dignidade do ser humano, pois, como afirma o Segundo Concílio do Vaticano, o mistério do homem somente encontra sua plena luz à luz do mistério do Verbo encarnado... O respeito intransigente que devemos ter pela liberdade religiosa, a liberdade de consciência que devemos defender vigorosamente, o respeito pelas culturas e valores próprios e legítimos de cada povo e pessoa não nos devem jamais perder o foco e esquecer a verdade do Evangelho, seu poder libertador, seu vigor humanizador e o dever que temos de proclamar o Senhor a todos os povos!