sábado, 14 de julho de 2018

Em Cristo, o amor gratuito

Num mundo no qual tudo é pago, tudo gira em torno do lucro, tudo tem a preocupação do retorno econômico e do interesse - até nas seitas por aí afora, o dízimo é a chave de entrada no céu -, o Senhor Se revela graciosamente!

Quem dera, o mundo compreendesse esse amor apaixonado de Deus que se manifesta em Jesus!
Quem dera que a humanidade dos nossos dias se reconhecesse faminta e sedenta!
Quem dera se deixasse interpelar: “Por que gastar dinheiro com outra coisa que não é pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-Me com atenção e alimentai-vos bem! Inclinai vosso ouvido e vinde a Mim, ouvi e tereis Vida!” (55,2s)

Infelizmente, o nosso é um mundo cansado, desencantado, mas também autossuficiente, prepotente, que pensa sozinho, do seu modo, poder se saciar e viver de verdade!
Também nós, nas nossas pobrezas, tanta vez fugimos do Senhor, ao invés de correr para Ele, nosso Poço, nossa Água, nosso Pão, nosso Refrigério, nosso Consolo, nossa Vida plena de sentido e Eternidade!

E, no entanto, nós, cristãos, sabemos que em Cristo Jesus encontra-se a Vida, encontra-se o verdadeiro caminho, o verdadeiro sentido da nossa existência e do mundo! Portanto, “quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? Em tudo isso somos mais que vencedores, graças Àquele que nos amou!” (Rm 8,35ss) É por essa experiência do amor tão terno e presente do Senhor Jesus na nossa vida que somos cristãos! Deixemo-nos, pois, saciar pelo Senhor e experimentaremos que “nem a morte, nem a vida, nem o presente nem o futuro, nem outra criatura qualquer, será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor!”

Compreendamos bem: a verdadeira Boa-Nova para o mundo atual é esta: o amor terno e próximo de Deus, manifestado em Jesus Cristo! Mas, somente poderemos ser testemunhas de tal amor se nós mesmos nos deixarmos tocar e envolver pela ternura do Cristo! Atendamos, portanto, ao Seu convite de ir gratuitamente a Ele, apesar de nossas pobrezas! Deixemos que Ele nos alimente e sacie de Vida e de paz!
Resultado de imagem para o amor grautio de cristo

sexta-feira, 13 de julho de 2018

O desígnio salvífico de Deus rezado pela Igreja diante do Pai

“Na verdade, ó Pai, é nosso dever dar-Vos graças,
é nossa salvação dar-Vos glória:
só Vós sois o Deus vivo e verdadeiro
que existis antes de todo o tempo
e permaneceis para sempre,
habitando em luz inacessível.

Mas, porque sois o Deus de bondade e a fonte da Vida,
fizestes todas as coisas para cobrir de bênçãos as vossas criaturas
e a muitos alegrar com a Vossa luz.

Eis, pois, diante de Vós todos os Anjos
que Vos servem e glorificam sem cessar,
contemplando a Vossa glória.

Com eles, também nós,
e, por nossa voz, tudo o que criastes,
celebramos o Vosso Nome, cantando a uma só voz:
Santo, Santo, Santo...

Nós proclamamos a Vossa grandeza, Pai santo,
a sabedoria e o amor com que fizestes todas as coisas:
criastes o homem e a mulher à Vossa imagem
e lhes confiastes todo o universo,
para que, servindo a Vós, seu Criador, dominassem toda criatura.
E quando pela desobediência perderam a Vossa amizade,
não os abandonastes ao poder da Morte, mas a todos socorrestes com bondade, para que, ao procurar-Vos, vos pudessem encontrar.

E, ainda mais, oferecestes muitas vezes aliança aos homens e às mulheres
e os instruístes pelos profetas na esperança da salvação.
E de tal modo, Pai santo, amastes o mundo
que, chegada a plenitude dos tempos,
nos enviastes Vosso próprio Filho para ser o nosso Salvador.

Verdadeiro homem, concebido do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria,
viveu em tudo a condição humana, menos o pecado,
anunciou aos pobres a salvação,
aos oprimidos. a liberdade,
aos tristes, a alegria.
E para realizar o Vosso plano de amor,
entregou-Se à morte e, ressuscitando dos mortos,
venceu a morte e renovou a vida.

E, a fim de não mais vivermos para nós,
mas para Ele, que por nós morreu e ressuscitou,
enviou de Vós, ó Pai, o Espírito Santo, como primeiro Dom aos vossos fieis
para santificar todas as coisas, levando à plenitude a Sua obra” (Oração Eucarística IV).


Homilia para o XV Domingo Comum - ano B

Am 7,12-15
Sl 84
Ef 1,3-14
Mc 6,7-13

Hoje, a santa Palavra que Deus nos dirige nos fala de duas realidades: nossa missão de profetas e a mensagem de devemos comunicar.

Primeiro, a vocação de profeta. Escutamos na primeira leitura como Amós não poderia se calar. Ele mesmo reconhece: “Não sou profeta nem sou filho de profeta; sou pastor de gado e cultivo sicômoros. O Senhor chamou-me, quando eu tangia o rebanho, e o Senhor me disse: ‘Vai profetizar para Israel, Meu povo!’” Amós não era profeta profissional nem era de um grupo tradicional de profetas. E, no entanto, o Senhor o tirou de trás do rebanho, tirou-o da sua vida, e o mandou falar em Seu Nome ao Povo de Israel. No evangelho, vimos Jesus chamando os Doze e os mandando em missão: sem levar nada, confiando somente em Deus, correndo o risco de serem incompreendidos e rejeitados, eles deveriam ir, anunciando o Reino de Deus, que exige mudança de vida, conversão de pensamento, atitudes e modo de agir...

Meus caros, ainda hoje é assim; entre nós é assim! Deus continua falando, Deus continua escolhendo profetas, Deus continua dirigindo o Seu chamado ao mundo e a cada pessoa. Se escutarmos com atitude de fé a Palavra santa, se na oração nos abrirmos aos seus apelos, se estivermos atentos ao que Ele nos fala no nosso coração, descobriremos que o Senhor também nos envia! Isso mesmo: todo cristão, pelo Batismo e a Crisma, participa da missão do Cristo Jesus, a missão de anunciar o Reino de Deus, revelando a Face do Pai, que Jesus nos veio mostrar! É verdade que, na Igreja, há aqueles chamados para o ministério ordenado: Bispos, padres e diáconos que, em Nome de Cristo, apascentam o rebanho e anunciam o Evangelho. Eles são os primeiros responsáveis pelo anúncio da Palavra de Deus. Mas, todo o povo de Deus, todos os batizados e crismados, cada um de nós, tem a missão de falar em Nome do Senhor e, em Nome de Cristo, levar a luz nas trevas, a reta fé nas crenças a deformam, a verdade no erro, a paz nas tensões e angústias, a esperança no desespero, a vida nova nas situações de morte. Somos todos um povo de profetas, caríssimos e, se nos calarmos, se nos omitirmos, seremos culpados de escondermos e sufocarmos a Palavra do Senhor de que o mundo tanto necessita!

Aqui cabe um urgente exame de consciência. Quantas oportunidades temos de falar de Cristo, de anunciar a vontade e o plano de Deus, de dar testemunho do seu amor e da Sua presença – e nos calamos, nos omitimos, como se Cristo não fosse uma questão nossa! Quantas vezes somos cristãos cansados, cristãos omissos, cristãos comodistas! Os pais aqui presentes têm anunciado Jesus a seus filhos, têm sido seus primeiros evangelizadores e catequistas? Têm rezado com eles? Têm procurado lavá-los à Igreja? Marido e mulher, têm sido um para o outro um sinal de Deus, uma palavra e uma presença de Cristo? Têm procurado construir o lar como um sinal do Reino dos Céus? E os jovens cristãos, têm sido sinal de Nosso Senhor no mundo em que vivem? Têm feito e vivido as várias experiências da vida como discípulos de Cristo? Eis, meus caros irmãos! Não esqueçamos que nós somos os profetas, nós somos os enviados do Senhor! É esta a primeira lição que hoje a Palavra de Deus nos dá. No trabalho, no amor, no descanso, no estudo, nas relações sociais somos as testemunhas do Senhor nosso! Um dia, certamente seremos cobrados por isso; o Senhor nos pedirá contas!

Um segundo aspecto para nossa meditação é o que diz São Paulo na segunda leitura. Aí ele apresenta de modo maravilhoso aquilo que devemos comunicar ao mundo com a palavra e com a vida, isto é, o conteúdo da nossa fé cristã, o grande sonho de Deus para o mundo e para a humanidade. O que nos diz o Apóstolo? Diz-nos que antes da criação do mundo, o Pai sonhou conosco! As montanhas ainda não existiam, as estrelas ainda não brilhavam e o Pai, em Cristo, já sonhava em criar tudo, em nos criar – a mim e a você – e nos mandar o Seu Filho amado. Por Ele, o Pai criou tudo, por Ele, na força do Santo Espírito, o Pai, desde o princípio, cumulou de bênçãos a Sua criação. Seu maior sonho era nos mandar Jesus, o Filho feito um de nós, para que Ele nos levasse à plenitude da amizade com o Pai na potência do Espírito. E quando nós pecamos, quando a humanidade, desde o princípio, fechou-se para Deus e para o Seu sonho, o Pai nem assim desistiu do Seu amor: na plenitude dos tempos Ele enviou o Seu Cristo para que, morrendo na Cruz, Ele nos libertasse do nosso pecado de teimosia e fechamento e, enchendo-nos do Seu Espírito Santo, nos desse já o gostinho, as primícias da Vida eterna. Essa Vida, nós já a experimentamos aqui, em Jesus, ouvindo sua Palavra, convivendo com os irmãos como membros da santa Igreja e, sobretudo, participando dos santos sacramentos, de modo especial da Eucaristia, que é Pão do Céu, alimento que nos traz já o sabor da Vida de Deus.

Eis, caríssimos! Somos enviados por Jesus ao mundo para testemunhar o plano, o sonho de amor para toda a humanidade, que o Pai desde toda eternidade acalentou e realizou em Cristo Jesus, tornando-o presente para nós pelo ministério da Igreja! Estejamos certos de uma coisa: somos parte desse sonho, somos cooperadores desse sonho! Que nossa vida, nossas palavras, nosso compromisso, testemunhem tornem presente esse sonho lindo de Deus!

Olhemos a Cruz, consequência do nosso pecado, e tomemos consciência do quanto somos caros a Deus, do quanto somos preciosos, do quanto somos amados e do quanto somos chamados a amá-Lo e participar da obra de salvação do mundo!

É esta a mensagem deste Domingo, é este o apelo do Senhor! Não sejamos surdos, mas como Amós, como os Doze primeiros, sejamos sementes do Reino de Deus. Amém.

"Vai! Anuncia-Me!"

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A tremenda aventura de crer

Crer não é compreender tudo. Os profetas, que falam em nome de Deus, nem mesmo eles compreendem totalmente o agir de Deus, e quantas vezes se angustiam e perguntam e choram: “Senhor, por que ages assim? Por que Teus caminhos nos escapam deste modo?”

A verdade é que a fé não é uma realidade quieta e pacífica! O próprio Jesus adverte que somente os violentos conquistam o Reino dos Céus (cf. Mt 11,12s); somente aqueles que lutam, que teimam em acreditar, às vezes contra toda esperança e evidência, como nosso pai Abraão!
A fé é uma realidade que sangra, sangra na dor de tantas perguntas sem resposta, sangra pelo sofrimento do inocente, pela vitória dos maus, pelo mal presente em tantas dimensões da nossa vida, pelas situações que nos parecem absurdas e para as quais não divisamos qualquer sentido; sangra nas orações aparentemente não ouvidas, sangra no tremendo silêncio de Deus, na Sua ausência que deixa a vida tão escura e fria como uma cortante noite de inverno... Sim! Deus parece calar-Se!
Um filósofo ateu do século passado chegou mesmo a dizer, escandalizado com o sofrimento no mundo: “Se Deus existe, o mundo é Sua reserva de caça!”
A Palavra Santa, no Livro de Jó, usou palavras parecidas: “Também hoje minha queixa é uma revolta, porque Sua mão agrava os meus gemidos. Ele cobriu-me o rosto com a escuridão (23,2.17). E, pesaroso, esse homem sofredor, triturado pelo Eterno, se queixa de Deus: “Clamo por Ti, e não me respondes; insisto, e não Te importas comigo. Tu Te tornaste o meu carrasco e me atacas com Teu braço musculoso!” (30,20s).

Por que, Senhor?
Por que Te calas?
Por que Teus caminhos nos são escondidos?
Por que parece que não Te importas conosco?
Por que, neste mundo, és o grande Ausente? Onde Te escondes? Onde a Tua Presença?
“Tu tratas o homem como peixes do mar,
como répteis que não têm dono!
Ele os tira a todos com o anzol,
Puxa-os com sua rede
E os recolhe em sua vasilha...” (Hab 1,14s)
– Eis a dor que sangra das feridas dos crentes:
Quantas vezes sentimo-nos sem dono, sem Alguém que vele por nós,
como os peixes do mar, como míseros répteis!

Deus é assim: nunca nos explica, mas nos convida sempre à confiança renovada, ao abandono nas Suas mãos; mãos Daquele mesmo que, por nós, entregou o Seu próprio Filho, o Amado.

É isto que é tão difícil para o homem de hoje, que tudo deseja enquadrar na sua razão e, quando não enquadra, se revolta e dá as costas a Deus e, assim, termina morrendo, porque viver sem Deus é a pior das mortes, o maior dos absurdos!

O justo vive da fé, vive na fé, vive abandonado nas mãos do Senhor (cf. Rm 1,17). Ele sabe que tudo está nas mãos do Eterno, Daquele que é amorosa providência: “Senhor, tudo está em Teu poder, e ninguém pode resistir à Tua vontade. Tu fizeste todas as coisas: o céu, a terra, e tudo o que eles contêm; és o Deus do universo!” (Est 13,9.10-11).

Nunca esqueçamos: Deus não nos explica Seu modo de agir! Se o compreendêssemos, compreenderíamos o próprio Deus e, aí, já não seria o Deus verdadeiro, mas apenas um idolozinho! "Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis Seus juízos e impenetráveis Seus caminhos! Quem, com efeito, conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi Seu conselheiro? Ou quem primeiro Lhe fez o dom para receber em troca? Porque tudo é Dele, por Ele e para Ele. A Ele a glória pelos séculos. Amém" (Rm 11,33-36).

Contudo, isso não significa que Deus não liga para nossa dor e para o nosso destino. Pelo contrário!
Ele veio a nós,
fez-Se um de nós,
viveu nossa vida,
suportou nossas dores,
experimentou nossa morte!
Deus próximo, Deus de amor, Deus solidário!
Por isso, podemos olhar para Ele e, suplicantes, estender-Lhe as mãos, como os discípulos do Evangelho, que pediam: “Aumenta a nossa fé!” E Jesus responde – a eles e a nós – “Se vós tivésseis fé (em Mim), mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’ e ela vos obedeceria” (Lc 17,5ss). Ou seja: se crermos de verdade naquele Amor que se manifestou até a Cruz, se crermos – aconteça o que acontecer – que Deus nos ama a ponto de entregar o Seu Filho, teremos a força de enfrentar todas as noites com a Sua luz, todos os pecados com a Sua graça, todas as mortes com a Sua Vida!
Mas, se não crermos, pereceremos...

O que o Senhor espera dos Seus servos é esta fé total, incondicional, pobre e amorosa! É o que o Senhor espera de nós:
"A figueira não dará fruto,
e não haverá frutos nas vinhas.
Decepcionará o produto da oliveira,
e os campos não darão de comer,
as ovelhas desaparecerão do aprisco
e não haverá gado nos estábulos.
Eu, porém, me alegrarei no Senhor,
exultarei no Deus de minha salvação!
O Eterno, meu Senhor, é a minha força,
torna os meus pés semelhantes aos das gazelas,
e faz-me caminhar nas alturas" (Hab 3,17-19).

Só quem e pobre, só quem tem coração de criança crê assim, abandona-se assim, confia assim, espera assim, mesmo nas penúrias e nas noites da existência...


segunda-feira, 9 de julho de 2018

“Eles, por uma coroa perecível...”

Mesmo com a recente derrota da Seleção na Copa do Mundo de Futebol, assiste-se ao entusiasmo, à paixão por parte dos torcedores e vê-se o esforço dos atletas, idolatrados e xingados, de acordo com o resultado que obtenham. Quanto dinheiro, quanto esforço, quanta paixão, quanto tempo dedicado... Como não recordar as palavras de São Paulo: “Não sabeis que aqueles que correm no estádio, correm todos, mas um só ganha o prêmio? Correi, portanto, de maneira a consegui-lo. Os atletas se abstêm de tudo; eles, para ganhar uma coroa perecível; nós, porém, para ganhar uma coroa imperecível” (1Cor 9,24s).

Se pensarmos bem, causa tristeza... Hoje, investe-se tanto em esporte, divulga-se o esporte como a coisa mais séria do mundo; os atletas são apresentados como modelos de vida a serem admirados e seguidos; a Seleção é elevada à categoria de símbolo nacional, os treinos, o esforço, a disciplina esportiva, tudo apresentado como virtude e altruísmo... Os slogans são grandiloquentes: “Esporte é vida”, “O esporte irmana os povos”, “Esporte é paz”... É verdade que há muito dinheiro em jogo e, por isso, toda essa promoção esportiva. Basta pensar no tênis, no futebol e na fórmula 1. Mas, é verdade também que se não houvesse quem assistisse, procurasse e muitas vezes idolatrasse a prática esportiva, todo esse aparato não existiria... É inquietante, é, sim, de fazer pensar...

Claro que, em si, o esporte é um bem: auxilia a saúde física e mental, é fator importante de socialização, pode desenvolver lideranças, incentivar o trabalho em equipe, etc. O problema não é o esporte, mas o modo como hoje ele é visto e valorizado, a mística que se criou em torno dele! Quando nossa sociedade era cristã, os heróis não eram os atletas, mas os santos: aqueles que empenharam a vida em Cristo e, por Ele, deram tudo a Deus e aos irmãos. Os heróis dos jovens cristãos eram um Francisco de Assis, um Camilo de Lélis, um Inácio de Loyola, um Francisco Xavier, um Luís Gonzaga, uma Clara de Assis, uma Teresa do Menino Jesus... Era o tempo em que Cristo era realmente a seiva vital de nossa cultura e o cristianismo inspirava valores, ideais, modelos de existência, tempo em que o Domingo (do latim dies Dominidominica= dia do Senhor) era dia, antes de tudo, de participar da Ceia do Senhor, celebrando a Eucaristia. 

Atualmente, se os heróis são os atletas, os jogadores de futebol, sobretudo; os domingos são dias de cerveja, estádio e praia... E nada mais. Escutam-se os slogans de efeitos, mas tão falsos, tão falsos: “Esporte é vida; esporte é paz”... Não! Cristo é Vida, porque somente Ele confere um sentido real e duradouro à existência; uma tal certeza, uma tal perspectiva, que nem a morte pode destruir! Cristo é Paz! Somente Ele! Porque somente Nele o coração descansa realmente, de um descanso não ilusório, verdadeiro, consistente! “O esporte irmana os povos!” Somente o Cristo nos irmana de verdade, porque nos faz filhos do mesmo Pai, ao qual nos dirigimos exclamando: “Pai nosso!”

É sintomático: sempre que uma pessoa ou uma sociedade exclui Deus, teórica ou praticamente, cria uma nova religião, secular, uma religião sem Deus. Pois bem: o esporte é, hoje, uma dessas religiões; os templos são os estádios, os encontros de oração, as academias... Que pena, porque por mais que seja interessante a prática esportiva, ela não é um valor dos mais importantes da existência: ela não garante o sentido da vida, ela não realiza em profundidade o coração, ela não pode dar o eixo e o rumo de nossos dias neste mundo. Que pena! Como temos caído, a ponto de nos satisfazermos com tão pouco, de colocar nossa alegria em um ideal tão óbvio, tão curto, tão baixo...

Realmente, são de cortar coração e atiçar a consciência, as palavras de São Paulo: “Não sabeis que aqueles que correm no estádio, correm todos, mas um só ganha o prêmio? Correi, portanto, de maneira a consegui-lo. Os atletas se abstêm de tudo; eles, para ganhar uma coroa perecível; nós, porém, para ganhar uma coroa imperecível” (1Cor 9,24s). Quem dera que nós, cristãos, nos entusiasmássemos tanto com o Cristo como os desportistas com seus esportes; que nos exercitássemos tanto na oração, na ascese (exercício espiritual, que tem a mesma raiz grega da palavra “atleta”) como os atletas fazem para suas competições; que nosso entusiasmo em testemunhar e o Evangelho fosse o mesmo dos locutores tresloucados de rádio e televisão; que “perdêssemos” com o Senhor o tempo que os comentadores dos programas esportivos perdem todos os dias, com tantas futilidades...

Ah! Que os católicos não façam do Domingo um dia mundano, dia simplesmente de ocupações lúdicas. Que o Domingo seja aquilo que é: Dia do Senhor Ressuscitado que nos reúne como Igreja, nos dirige Sua Palavra e conosco parte o Pão da Eucaristia... Mas, a grande maioria dos católicos nominais não terá entusiasmo algum por um Domingo assim, certamente. Estão muito ocupados com suas distrações e, além do mais, somente pode compreender essas coisas quem encontrou realmente o Cristo na sua vida, quem fez Dele sua corrida, a causa de sua existência, o motivo último de seu esforço e a certeza do seu troféu...  Quem dera que os católicos se exercitassem tanto na oração, treinassem tanto na vida cristã, fossem tão disciplinados e generosos no compromisso com Cristo e a Sua Igreja, corressem tanto na vida cristã, que fossem alcançados pelo Cristo Jesus e Dele recebessem a única coroa que é imperecível: aquela, da Vida eterna!


domingo, 8 de julho de 2018

Eta!

O Lucas tem somente um ano e cinco meses. Já caminha passos mais ou menos firmes, seguros e, assim, com a energia de criança, gira a casa toda. Também já ensaia algumas palavras: “papá”, “mamã”, etc... Mas, fascinante mesmo é vê-lo, diante de alguma coisa que o surpreende, espanta ou intriga dizer, com a carinha mais linda do mundo: “Eta!’ (o nosso popular “eita”!). Onde terá ele aprendido isso?
“Eta”, na nossa língua portuguesa, é uma interjeição que exprime admiração, surpresa, espanto, pasmo! Se pensarmos bem, toda a vida humana é um contínuo “eta”, do nascimento à morte: é nossa sina, nossa identidade: admirar-se com a vida que nos acontece, envolvendo-nos em alegrias e desventuras. A atitude do Lucas, tão pequenininho ainda, é a atitude de cada um de nós e da humanidade toda! Efetivamente, quem de nós pode controlar a vida, medi-la, calculá-la, dissecá-la, explicá-la, enfim? Não é ela uma surpresa, um mistério indevassável? Por que nascemos? E com que propósito? Por que somos como somos e não diferentes? Por que passamos por estas experiências e não por aquelas outras? Quantas vezes a existência nos surpreende de tantos modos e ficamos embasbacados, como que pegos de surpresa para o bem e para o mal! E, se fôssemos o pequeno Lucas, somente poderíamos exclamar: “Eta!” Nem sabe o Lucas que neste pequeno vocábulo de três míseras letras já está profetizado o que será sua vida: uma constante surpresa, um diuturno desafio, um perene mistério!
Isto é fascinante, pois o ser humano é o único ser capaz de admirar, de surpreender-se realmente! E a vida tem tanto a nos surpreender: as dores e gozos, tristezas e alegrias, sucessos e fracassos, nossas grandezas e baixezas, nossos alentos e desilusões... Sempre foi, sempre será assim! O homem sempre viveu entre estas realidades tão diversas e, aparentemente, tão contraditórias e surpreendentes e, bem ou mal, sempre soube se sair.
O que é preocupante é que em nossa época, com o avanço das comunicações, com o domínio da técnica que permite ao homem controlar e explorar como nunca antes a natureza, criando para si uma vida artificial e meio alienada, com a ruptura do diálogo entre gerações, estamos perdendo a capacidade de admirar, de nos surpreender de modo construtivo. A vida parece que vai passando sobre nós como um trator: amassando-nos, oprimindo-nos, machucando-nos com a ameaça da falta de sentido para as coisas e para a nossa própria existência. Não é novidade uma vida humana feita de altos e baixos; novidade é que o homem atualmente não saiba conviver com eles, encontrar para eles um sentido, não saiba mais exclamar “eta!” sem perder o rumo nem a paz! E tudo isto por um motivo só: diante da existência, com suas contradições, somente nos são dadas três alternativas: o cinismo de quem não vê sentido nenhum para a existência e não a leva a sério (e isto nos desumaniza e nos reduz a meros animais), o desespero amargo de quem tentou construir, ser feliz e, no entanto, se sente iludido pela vida, atropelado e enganado (e isto nos reduz a deprimidos impotentes, incapazes de lutar e ver a beleza da vida) e, finalmente, a esperança de quem sabe que é possível dar um sentido às lutas, às lágrimas, às renuncias que a existência nos impõe e, assim, saborear sabiamente as verdadeiras alegrias da vida (e isto nos faz maduros, humanos e realizados). Mas, esta última alternativa somente pode ser assumida em toda a sua profundidade à luz da fé, por aqueles que sabem que mesmo que tudo ou muito na vida pareça sem sentido, há Alguém que dá sentido aos nossos dias, que nos criou não para o caos absurdo, mas para caminhar e repousar no Seu amor.
Tomara que seja esta última a alternativa do Lucas, para que ele possa dizer “eta!” até o fim da vida com um coração de criança, que confia e sabe que, aconteça o que acontecer, haverá sempre um Pai nos Céus que segura o leme da sua vida!


sábado, 7 de julho de 2018

Homilia para o XIV Domingo Comum – Ano B

Ez 2,2-5
Sl 122
2Cor 12,7-10
Mc 6,1-6

O Evangelho deste Domingo apresenta-nos Jesus na Sua Nazaré. Ali mesmo, na Sua própria cidade, onde nascera e fora criado, os Seus o rejeitaram: “'Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?’ E ficaram escandalizados por causa Dele”. Assim, cumpre-se mais uma vez a Escritura: “Veio para o que era Seu e os Seus não O receberam” (Jo 1,11). E a falta de fé foi tão grande, a dureza de coração, tão intensa, a teimosia, tão pertinaz, que São Marcos afirma, de modo surpreendente: “Ali não pôde fazer milagre algum!”, tão grande era a falta de fé daquele povo.

Meus caros, pensemos bem na advertência que esta Palavra de Deus nos faz! O próprio Filho do Pai, em pessoa, esteve no meio do Seu povo, conviveu com ele, falou-lhe, sorriu-lhe, abraçou-lhe e, no entanto, não foi reconhecido pelos Seus! E por quê? Pela dureza de coração, pela insistência teimosa em esperar um messias de encomenda, sob medida, a seu bel-prazer... Valia bem para Israel a censura da primeira leitura de hoje, na qual o Senhor Deus Se dirige a Seu servo: “Filho do homem, Eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de Mim. A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra, vou-te enviar, e tu lhes dirás: ‘Assim fala o Senhor Deus’. Quer escutem, quer não, ficarão sabendo que houve entre eles um profeta!” Que coisa tremenda, meus caros: houve entre os israelitas um profeta, e mais que um profeta: o Filho de Deus, o Eterno, o Filho amado... E Israel O rejeitou! Eis: “Veio para o que era Seu e os Seus não O receberam”  (Jo 1,11)...

Mas, deixemos Israel. E nós? Acolhemos o Senhor que nos vem? Escutamos com fé Sua Palavra, quando Ele Se dirige a nós na Escritura, aquecendo nosso coração? Acolhemo-Lo na obediência da fé, quando Ele Se nos dirige pela boca da Sua Igreja católica, ensinando-nos o caminho da vida? Acolhemo-Lo, quando nos fala pela boca de Seus profetas, homens de fogo, que não procuram agradar ao mundo, mas a Deus?
Não tenhamos tanta certeza de que somos melhores que aqueles de Nazaré! Aliás, é bom que nos perguntemos: por que os nazarenos não foram capazes de reconhecer Jesus como Messias?
Já lhes disse: porque o Senhor não era um messias do jeito que eles esperavam: um simples fazedor de milagres, um resolvedor de problemas... Jesus, pobre, manso, humilde, era também exigente e pedia do povo a conversão de coração. Mas, há também uma outra razão para os nazarenos rejeitarem Jesus: eles foram incapazes de ver além das aparências. De fato, enxergaram em Jesus somente o carpinteiro, filho da Maria, ali tão conhecida, aquele que correra e brincara nas suas praças, aquele ao qual eles haviam visto crescer. Assim, sem conseguir olhar com mais profundidade, empacaram na descrença. Mas, nós, conseguimos olhar com profundidade? Somos capazes de escutar na voz dos ministros de Cristo a própria voz do Senhor? Somos sábios o bastante para ouvir na voz da Igreja a voz de Cristo?

É exatamente pela tendência nossa, tremenda, de sermos surdos ao Senhor, que Jesus tanto sofreu e que Paulo se queixava das dificuldades do seu ministério. O Apóstolo fala de um anjo de Satanás que o esbofeteava. Que anjo era esse? Ele mesmo explica: suas “fraquezas, injúrias, necessidades, perseguições e angústias sofridas por amor de Cristo”. O drama de Paulo é uma forte exortação aos pregadores do Evangelho e a todos os cristãos.
Aos pregadores do Evangelho essa palavra do Apóstolo recorda que o anúncio será sempre numa situação de fraqueza, de pobreza humana, de apertos e contradições. A evangelização, caríssimos, não é um trabalho de marketing televisivo como vemos algumas vezes nos “missionários” dos meios de comunicação. O Evangelho do Cristo crucificado e ressuscitado é proclamado não somente pela palavra do pregador, mas também pela carne de sua vida. Como proclamar a Palavra sem sofrer por ela? Como anunciar o Crucificado que ressuscitou sem participar da Sua Cruz na esperança firme da Sua Ressurreição? O Evangelho não é uma teoria, não é um sistema filosófico. O Evangelho é Cristo Jesus encarnado na nossa vida, de modo que possamos dizer como São Paulo: “Eu trago no meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6,17). Triste do pregador que pensar em anunciar Jesus conservando-se para si mesmo. Um diácono, um padre, um Bispo, que quisesse se poupar, que separasse a pregação do seu modo de viver, que fosse pregador de ocasião, tornar-se-ia um falso profeta, transformar-se-ia em marketeiro do Evangelho, portanto, inútil e estéril. É toda a vida do pregador que deve ser envolvida na pregação: seu modo de viver, de agir, de vestir, de relacionar-se com os bens materiais, sua vida afetiva, seu modo de divertir-se, seu tipo de amizade... Tudo nele dever ser comprometido com o Senhor e para o Senhor!

Mas, esta palavra de São Paulo na liturgia de hoje vale também para cada cristão. Nos tempos que correm, somos minoria. O mundo não-crente, secularizado, zomba de nós e já não crê no anúncio de Cristo que lhe fazemos. O Senhor e Seu Evangelho já não mais são levados a sério; na melhor das hipóteses, são tolerados! Sentimos isto na pele! Pois bem, quando experimentarmos a frieza e a dura rejeição, quando em casa, no trabalho, nos círculos de amizades, formos ignorados ou ridicularizados por sermos de Cristo, recordemos do Evangelho de hoje, recordemo-nos dos sofrimentos dos apóstolos e retomemos a esperança: o caminho de Cristo é também o nosso; se sofrermos com Ele, com Ele reinaremos; se morrermos com Ele, com Ele viveremos (cf. 2Tm 2,11-12). Não tenhamos medo: nós somos as testemunhas, os profetas, os sinais de luz que Deus envia ao mundo de hoje! Sejamos fieis: o Senhor está conosco, hoje e sempre. Amém.