quinta-feira, 2 de abril de 2020

Retiro Quaresmal 2020/32 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Quinta-feira da V semana da Quaresma
Meditação XXXI: A certeza de chegar

Reze o Salmo 119/118,65-72
Leia e reze ainda, como lectio divina, Tb 13.

1. Comecemos esta meditação com uma observação. Veja como no v. 4, Tobit afirma: “Exaltai-O na presença dos seres vivos, pois Ele é nosso Senhor, Ele é nosso Deus, Ele é nosso Pai...” No Antigo Testamento, é muito raro que se chame a Deus de Pai. Certamente você já ouviu dizer que é próprio, é original do Senhor Jesus Cristo chamar a Deus de “Abbá”, Pai.
Com efeito, há uma diferença enorme entre o modo de o Antigo Testamento referir-se ao Eterno como “pai” e o modo de Cristo. Nas Escrituras e orações dos judeus, o Senhor nunca é chamado de “meu Pai”, mas sempre “nosso Pai”, Pai de todo o Povo de Israel. E, aqui, é Pai porque plasmou Israel com Abraão, Isaac e Jacó, gerou o Seu Povo ao tirá-lo do Egito, educou com o a Lei, guiou-o pelo deserto, orientou-o e corrigiu-o pelos profetas, apascentou-o através da Casa de Davi. Leia Dt 32,6-12. É importante saber também que os judeus não apreciam muito chamar a Deus de “pai”, pois isto pode dar ideia de uma familiaridade inconveniente em relação ao Deus Santo!
Com o Cristo Jesus, o sentido muda, aprofundando-se enormemente. Primeiramente, Cristo nunca usa a expressão “Pai nosso”. Deus é o “Meu Pai”, de um modo único, misterioso e irrepetível. É muito forte a expressão do Ressuscitado: “Meu Pai e vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). O Senhor Jesus Cristo usa a palavre Abbápara exprimir uma relação única, irrepetível, original, particular com o Deus Santo de Israel. Ele é O Filho, O Filho Amado, o Filho Único! (cf. Mt 3,17; 21,37s) Quando o Senhor Jesus ensina aos Seus a oração própria do discípulo, afirma: “Quando orardes, dizei: Pai nosso...” (Lc 11,2). Observe bem: quando vós orardes. Ele Se exclui, porque é Filho num sentido único e, portanto, Deus é Seu Pai de modo absolutamente singular! Ele é Filho porque o é eternamente, “antes que o mundo existisse” (Jo 17,5). Ele é igual ao Pai, conhece o Pai, vem do Pai, é do Alto (cf. Jo 9,23). O Pai é Seu Pai porque O gera eternamente. Leia Hb 1,1-14. Por isso, somente Ele pode revelar o verdadeiro Nome do Deus de Israel: “Pai, manifestei o Teu Nome (nome de Pai) aos homens” (Jo 17,6).
Então, enquanto para os judeus “pai”, aplicado ao Senhor Deus, é apenas mais um dos títulos do Eterno, para o Senhor Jesus, “Abbá” é a expressão que determina e exprime de modo pleno a relação entre Ele e o Deus de Israel: “Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11,27); “Eu estou no Pai e o Pai está em Mim!” (Jo 14,10) Meditando, pensando com o coração sobre tudo isto, reze o Sl 2. Os cristãos sempre rezaram este salmo pensando em Jesus nosso Senhor: Ele é o Messias, o Ungido a Quem o Pai tudo entregou. Todo o Seu poderio é de Filho, é para proclamar a glória amorosa e o poder do Pai que Lhe disse eternamente: “Tu és Meu Filho, eu hoje Te gerei!” (Lc 3,33; cf. Mc 1,11; Mt 3,17)

2. Esta relação única do Salvador com o Pai, Jesus compartilha conosco após a Ressurreição. Uma vez vitorioso sobre a morte, Ele nos chama irmãos: “Ide anunciar aos Meus irmãos...” (Mt 28,10). É a primeira vez que Ele fazia isto! Mas, não se trata apenas de uma palavra. Aqui se exprime uma realidade muito mais profunda: tendo sido ressuscitado pelo Pai no Espírito dado em plenitude (cf. Rm 1,4), o Filho agora, derrama sobre os Seus, pelo Batismo, o Seu Espírito de Filho (cf. Jo 3,5), de modo que, com Cristo, por Cristo e em Cristo, somos tornados filhos no Filho Jesus! Leia 1Jo 3,1; Rm 8,14-17; Gl 4,4. Sendo assim, tornamo-nos filhos de Deus verdadeiramente quando cremos e somos batizados no Nome de Jesus, recebendo o Seu Espírito de Filho, que nos faz filhos. Aí, então, podemos rezar o Pai-nosso, ousando chamar de “Pai” o nosso Deus! Atenção a isto: se é verdade que qualquer pessoa pode dizer que Deus é seu pai no modo como os judeus O consideram – criador, provedor, sustentador, defensor –, somente os cristãos, batizados no Espírito do Filho, podem chamar o Senhor Deus de Pai no sentido pleno e único que o Senhor Jesus Cristo chamava! O único modo de receber tal filiação é pelo Sacramento do Batismo, que nos mergulha no Espírito do Filho!
Então, somos filhos porque temos o Espírito Santo do Filho, pois, no Batismo, nascemos de uma “Semente incorruptível” (1Pd 1,23). Nascidos “por natureza, como os demais, filhos da ira” (Ef 2,3), fomos “re-generados”, gerados de novo para a Vida eterna, Vida no Espírito do Filho, Vida divina dos filhos de Deus (cf. 1Pd 1,3s), Vida recebida no Batismo, fortalecida e amadurecida na Crisma e alimentada sempre de novo na Eucaristia. Esta filiação bendita e santa nos coloca, já nesta vida terrena, no seio da Trindade Santa: crendo no Filho, somos batizados no Seu Espírito e, tornando-nos habitação desse Espírito filial, somos inseridos no Corpo do Filho, que é a Igreja e, nesse Corpo, peregrino na terra e glorioso no Céu, temos acesso ao Pai de Jesus e, por Ele com Ele e Nele, podemos verdadeiramente clamar “Abbá” neste mundo e, plenamente, no mundo que há de vir! Neste sentido, veja com muita atenção a afirmação de São Paulo aos Gálatas: leia 4,4-7. Observe como o Apóstolo resume toda a história da salvação e coloca como finalidade última de todo a plano de Deus, dar aos homens a filiação adotiva em Cristo!
Ainda uma observação: a expressão “filiação adotiva” precisa ser bem compreendida! É preciso aqui levar em conta a mentalidade judaica. Filiação adotiva não quer dizer filiação de qualidade menor, mas, ao contrário, filiação real, efetiva, eficaz, transformadora. Em Israel, quando um homem adotava alguém como filho, reconhecendo-o, este tinha todos os direitos, tinha a vida do próprio pai. A ênfase, aqui, está exatamente neste aspecto: somos filhos, e o somos realmente (cf. 1Jo 3,1), de modo que somos co-herdeiros com Cristo e herdeiros da Glória do mundo que há de vir (cf. Rm 8,15s; 1Jo 3,2).

3. Voltemos, agora, ao Israel na Diáspora, o Israel do Antigo Testamento e à Igreja do Novo Testamento. Lembre sempre que “testamento” significa “aliança”.
Leia os vv.5s.9s. Vimos, na meditação passada, o sentido espiritual de viver na Diáspora, no Exílio. Para o Israel do Antigo Testamento, estar longe da Terra Santa, distante de Jerusalém, afastado do Templo, era uma dor enorme. Permanecia sempre vivo o desejo e a esperança de voltar. O Povo de Deus da Antiga Aliança, tem consciência de que as promessas de Deus ainda não se realizaram plenamente: os judeus ainda estão em Diáspora, Jerusalém ainda não vive o shalom que seu nome significa (Yeru-shalem), o Templo não foi reconstruído e, sobre o Altar do Senhor, os sacrifícios da Lei de Moisés não foram retomados... Israel vive de esperança, caminha rumo à realização das promessas do Eterno. Todos os anos, na Páscoa judaica, ainda atualmente, o rito termina com uma palavra de desejo e esperança: “Tem piedade, Senhor nosso Deus, de Israel, Teu Povo, e de Jerusalém, Tua Cidade, e de Sião, a sede de Tua Glória, e do Teu Altar e do Teu Templo. Reconstrói Jerusalém, a Cidade Santa, rapidamente em nossos dias...” Finalmente, a ceia pascal é concluída com as palavras: “No próximo ano, em Jerusalém!” A Terra de Israel, lugar da bênção, do louvor a Deus, lugar do repouso no Senhor, continua sendo o desejo de todo judeu piedoso. Reze o Sl 137/136. Observe bem, neste salmo, a saudade de Sião, o monte sobre o qual Jerusalém começou, presente no coração do salmista. Os israelitas esperavam e esperam ainda que, um dia, no dia final, todo Israel será reunido em Jerusalém, a Cidade Santa.

4. Pois bem, esta mesma mística passou para os cristãos! Sabemos que as promessas a Israel alcançaram o seu cumprimento em Cristo nosso Senhor. Leia 2Cor 1,19s. Ele é e será sempre o “Amém” do Pai para nós! Leia Ap 3,14. Mas, o cumprimento que foi iniciado com a piedosa vinda do Salvador na nossa carne, somente no final dos tempos, quando Cristo nossa Vida aparecer em Glória (cf. Cl 3,4), será levado à consumação. Assim, também nós, Novo Povo de Deus, Povo da Nova e Eterna Aliança, também esperamos; ainda não vemos o que esperamos (cf. Rm 8,24s), ainda vivemos de fé (cf. 2Cor 5,7; Hb 11,1). O lobo e o cordeiro ainda não moram juntos (cf. Is 11,6), as lanças de guerra ainda não foram transformadas em relhas de arado (cf. Is 2,4), ainda há males e danos no coração da humanidade e a terra ainda não está repleta da ciência do Senhor (cf. Is 11,9). Pelo contrário, os homens continuam a fechar-se para Deus e o Seu Cristo (cf. Sl 2,1-3). Por isso, os cristãos gemem em dores de parto (cf. Rm 8,22-25; Ap 12,2) e rezam, no Céu e na terra: “Até quando, ó Senhor Santo e Verdadeiro, tardarás a fazer justiça, vingando o nosso sangue contra os habitantes da terra?” (Ap 6,10). Até que tudo se cumpra, “vivemos no exílio, longe do Senhor” (2Cor 5,6) e clamamos: “Maranatha! Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,17.20). Nunca esqueçamos, nunca descuidemos: a nossa certeza deve ser maior que a de Israel, pois sabemos que o Cordeiro que foi imolado venceu e tem nas Suas mãos o Livro da história do mundo e da nossa história (cf. Ap 5,6-10). Em cada Eucaristia, Páscoa da Nova Aliança, celebramos e experimentamos esta vitória que Cristo nos obteve e que ainda se manifestará em plena Glória (cf. Hb 2,8; 1Cor 15,25-28).

5. Pense um pouco: Você tem consciência de que os acontecimentos da história humana e da sua história correm para o Cristo, Princípio e Fim de tudo, como as águas do rio correm para o mar? Você sabe colocar nas mãos do Senhor todos os acontecimentos da vida? Como você reage ao que acontece à sua volta: com desdém, com desespero, com ansiedade ou, ao invés, procurando compreender as coisas à luz de Cristo e da Sua salvação? Nunca esqueça: tudo é dirigido por um desígnio de amor: o amor do Pai pelo Filho no Santo Espírito! Leia como dirigidas a você as palavras do Ap 5,1-5.


quarta-feira, 1 de abril de 2020

Retiro Quaresmal 2020/31 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Quarta-feira da V semana da Quaresma
Meditação XXX: Um Reino pelos séculos dos séculos

Reze o Salmo 119/118,57-64
Leia e reze ainda, como lectio divina, Tb 13.

1. Ainda no rastro da última meditação: Se Deus é Rei, se o Senhor nosso Jesus Cristo, com Sua Pessoa, Sua missão, Sua Páscoa de dor e glória, trouxe o Reinado de Deus a este mundo na força potente do Espírito, então, aquele que se abre para acolher esse Reino bendito, nunca teme, nunca se desespera. Isto não quer dizer que o cristão está isento das dores e reveses da vida. Não! “Não peço que os tires do mundo” (Jo 17,15) - disse Jesus! Mas, abrindo-nos ao Reino, tendo o Reino no nosso coração, seremos guardados do Maligno, como o Salvador pediu para nós. E são do Maligno, do Príncipe deste mundo, toda descrença, todo desespero, toda amargura, toda autossuficiência, todo fechamento para a presença de Deus e Sua ação neste mundo. Então: nunca temamos, nunca percamos a esperança: “há um Deus nos Céus” (Dn 2,28), “há um Trono e, no Trono, Alguém sentado” (Ap 4,2), há um Cordeiro imolado que venceu e está de pé (cf. Ap 5,6) com um livro que traz em suas páginas todos os acontecimentos, sorrisos e prantos da nossa história (cf. Ap 5,6-10)! Deus reina! Tudo está nas benditas mãos do Senhor! Nem mesmo a Morte e o Abismo escapam das Suas mãos (cf. Ap 1,17b-18): “É Ele quem castiga e tem piedade, faz descer às profundezas dos infernos e retira da grande Perdição: nada escapa da Sua mão!” (Tb 13,2)Deixemos o Reino entrar na nossa vida e impregnar a nossa existência! Teremos, então, um modo diferente, divino, de viver, de ver, de agir e reagir! Aí, então, o Reino de Deus em nós – Reino do Pai e do Filho e do Espírito Santo: Reino do Pai pelo Filho no Espírito Santo! – será também Reino nosso, que somos os Santos de Deus! Sim! O Reino de Deus será o nosso reinado quando nos deixarmos tomar totalmente pelo Deus uno e trino reinando em nós: será o Reino dos Santos de Deus! (cf. Dn 7,18.22; 1Pd 2,5.9)

2. Abertos ao Reino, neste mundo seremos uma alternativa: não ideológica, não sociológica, não técnica, não segundo as coordenadas mundanas, mas na perspectiva de Deus: seremos sal num mundo insípido e sem verdadeira esperança, seremos luz nas trevas de um mundo fechado em si mesmo, na sua prepotência, na sua autossuficiência. Não teremos soluções técnicas para o mundo, não ficaremos nos metendo em todos os assuntos seculares, dando em tudo nossa opinião, como se este fosse o nosso serviço e o nosso dever, como se tivéssemos as soluções, mas teremos sim, aquela atitude, aquela palavra, aquela doçura, aquela humildade, aquele recato que vêm de Deus e iluminam e portam paz! Leia Mt 5,13-16. Leia também, rezando, Is 60,1-11; Ap 21,9-27.

3. Agora, guiado pelo Espírito, louve e adore o Cordeiro, o Filho eterno do Pai, rezando Ap 5,9-14. Bendito o Reino do Pai e do Filho e do Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre, e por todos os séculos dos séculos. Amém! Bendito seja o Reino do Deus uno e trino! Bendito seja em nós e no mundo, no nosso coração e no coração do mundo! Amém!

4. Releia, agora, os vv. 3-4. Tobit recorda Israel espalhado pelo mundo, na Diápora... Em 722 aC, as tribos do antigo Reino de Israel, ao norte da Terra Santa, foram levadas embora pelos assírios e espalhadas pelo seu império... Tobit e sua família estavam entre os desterrados. Depois, em 587 aC, foi a vez do Reino de Judá, ao sul: os babilônios deportaram os judaítas. Desde esta época, a maioria dos filhos de Israel vive, até os nossos dias, espalhada pelo mundo, distante da Terra Santa, distante de Jerusalém, distante do Templo. Por que o Senhor permitiu a Diáspora do Seu Povo? Releia Tb 13,3s. Israel não existe para si, não vive para si! A tragédia da sua Diáspora, quando perdeu tudo, misteriosamente, seria também uma bênção para a humanidade: os judeus dariam testemunho do verdadeiro Deus entre as nações; entre os povos, rezariam pela humanidade. Como é misteriosa a providência divina! Como Deus sabe tirar do mal o bem e fazer na maior escuridão brilhar a luz (cf. Sl 139/138,11-12)! Leia ainda Tb 13,7s.

5. Agora, leia At 8,1-4. Veja como os cristãos, duramente perseguidos em Jerusalém, fugiram entre dores e lágrimas. Quanta dor, quantas perguntas, quanto sofrimento, quantas famílias tendo que fugir, quantas pessoas fisicamente agredidas e até mortas... Os discípulos de Cristo Senhor, nesta perseguição, foram obrigados a se espalhar pelas várias regiões e, espalhando-se, levaram o Evangelho e testemunharam Jesus nosso Senhor. Assim, da dolorosa e absurda perseguição, nasceu a Igreja mais fecunda e dinâmica da antiguidade: a de Antioquia. Leia At 11,19-26. Dali sairiam Barnabé e Paulo para a missão! É impressionante! Deus não muda! Ele guia os acontecimentos!
Pense na sua vida! Você sabe realmente confiar no Senhor? Sabe esperar Nele? Confia que Ele tem tudo nas Suas mãos benditas? Nas situações de incerteza, dor e escuridão, você sabe bendizer a Deus, sabe ser testemunha do Seu amor?

6. Vamos adiante... Nós, a Igreja, somos os Novo Israel, o “Israel de Deus” (Gl 6,16). Somos hoje, como Igreja, o que Tobit diz de Israel: dispersos no meio das nações. Leia 1Pd 1,1s. Neste mundo, somos estrangeiros da Dispersão: “Igreja dispersa pelo mundo inteiro” – era assim que dizia de modo belo o Missal Romano na sua versão interior a esta, atual! Estamos no mundo, caminhamos com a humanidade, compartilhando so bons e maus momentos, as alegrias, tristezas, desafios e esperanças. Mas, somos um Povo diferente: sabemos que estamos a caminho, que, neste mundo, somos estrangeiros; nossa Pátria verdadeira, perene e definitiva, é o Céu, na plenitude do Reino. Leia Hb 13,14 e 2Cor 5,6-7. Neste mundo, “diante das nações”, dispersos entre elas (cf. v. 3), devemos ser um Povo de testemunhas (cf. v. 4) e um Povo sacerdotal, que louva e adora a Deus em nome das nações pagãs e testemunha diante delas o Nome do Senhor (cf. vv. 4.11), sendo sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13-16), sendo o bom fermento do Reino que leveda toda a imensa massa da humanidade (cf. Mt 13, 33). Mas, atenção: somente seremos tudo isto se nossas raízes estiverem em Cristo, se nossa certeza provir Dele, se nosso anúncio for sobre Ele, se a contribuição que dermos ao mundo for nada mais nada menos que o próprio Jesus nosso Senhor! Devemos vencer a tentação de ser um Povo que procura agradar ao mundo; devemos vencer a tendência atual de sermos simpáticos, úteis, bonzinhos, modernos. É Cristo o nosso compromisso, é Cristo a nossa identidade, é Cristo a Quem servimos, é Cristo que temos para dar ao mundo como Salvação, Luz e Vida! (cf. 1Cor 3,11) Nosso dever é enorme, nossa missão é tremenda! Mas, não temamos, porque o Senhor está conosco: no meio dos candelabros, que são as Igrejas diocesanas com seus anjos, os Bispos, (cf. Ap 1,12s.20) caminha o Senhor, Cordeiro imolado e ressuscitado, vencedor do pecado e da Morte (cf. Ap 5,6; 1,17s)! Reze o Sl 46/45


segunda-feira, 30 de março de 2020

Retiro Quaresmal 2020/30 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Terça-feira da V semana da Quaresma
Meditação XXIX: Um Reino pelos séculos dos séculos

Reze o Salmo 119/118,49-56
Leia, como lectio divina, Tb 13.

1. Todo este capítulo 13 é uma oração; na verdade, uma grande bênção de louvor ao Senhor! Em todo o Livro, exorta-se insistentemente a que se bendiga o Senhor. E aqui, nas palavras de Tobit, a exortação encontra sua resposta: esta oração é uma explosão de bênçãos e louvores ao Rei Senhor pela Sua fidelidade e misericórdia para com Seus fieis, com o Seu Povo de Israel, com Sua Cidade Santa, Jerusalém e até mesmo para com todos os povos da terra. Isto é impressionante, sobretudo se se leva em conta que os israelitas se encontravam no desterro, oprimidos pelos gentios! Mas, já aqui, aparece claro que o Reinado de Deus deve estender-se por todos os povos! Israel não existe para si próprio, mas sua adoração ao Senhor Deus e o Seu Reinado no meio do Seu Povo, são em vista da extensão desse Reinado bendito a toda a humanidade! Vale para Israel o que o Apóstolo diz para cada um de nós: “Ninguém de nós vive e ninguém morre para si mesmo, porque se vivemos é para o Senhor que vivemos, e se morremos é para o Senhor que morremos” (Rm 14,7s). Isto mesmo: Israel, a Igreja, cada um de nós, existimos e vivemos para o Senhor! É em função do Seu Reino que tudo tem seu sentido verdadeiro!
Vejamos, nesta e na próxima meditação, alguns destes pontos presentes nesta oração.

2. Logo de saída, um tema que aparece em toda esta louvação de bênção é do Reino de Deus. Veja um pouco: “Bendito seja Deus que vive eternamente, e bendito o Seu Reino, que dura pelos séculos!” (v. 1); “Exaltai o Rei dos séculos!” (v. 6); “Minha alma louva o Rei do Céu.” (v. 8); “Bendize o Rei dos séculos.” (v. 10); “Povos numerosos virão a ti de longe... trazendo nas mãos presentes para o Rei do Céu.” (v. 11); “Minha alma, bendiz o Senhor, o grande Rei.” (v. 15); “Serei feliz se restar alguém de minha raça para ver tua glória e louvar o Rei do Céu.” (v. 16)

3. Muitas vezes, no Antigo Testamento, o Senhor é chamado de Rei. Ele é o Rei de Israel, Seu Povo e a Arca é o Seu trono. Os reis de Israel são totalmente dependentes do verdadeiro Rei divino, são ungidos por Ele, no Espírito Dele; são apenas ocupantes do “Trono da realeza do Senhor” (1Cr 28,5; cf. 2Cr 9,8; 1Sm 9,22 – 10,1; 16,1.10-13). Vários salmos chamam o Senhor de Rei (cf. Sl 47/46; 93/92; 97/96; 99/98; 100/99): Rei de Israel; Rei de toda a terra, Rei dos povos todos. Daniel fala de um Reino que não terá fim, um Reino suscitado pelo Senhor Deus. Leia Dn 2,44. O Povo de Deus sempre teve consciência de que o Seu Deus é o seu único Senhor: Ele o formou, o tirou do Egito, o governava com Seus preceitos e dirigia o seu destino. Israel foi descobrindo que sua razão de existir é viver na perfeita e total comunhão com o Senhor, colocando em prática a Sua Lei, vivendo, assim, fielmente à Aliança. Somente deste modo, o Povo santo viveria de verdade: teria paz com Deus e com os povos ao seu redor e viveria na bênção e na salvação, pois o Senhor reinaria verdadeiramente sobre o Seu Povo e o Seu Reinado bendito estender-se-ia a todos os povos da terra. Reze os Salmos 99/98 e 100/99.
Assim, pouco a pouco, o Povo de Deus foi deixando de lado uma ideia de reino meramente político e nacional , reino do Povo de Deus, e tomando consciência de que esse Reinado de Deus se estende por todo o universo e por toda a história humana e abarca todos os povos. É isto que vemos nesta oração de Tobit. Não se trata, portanto, de um Reino como os reinos do mundo, com critérios políticos ou sociais, não se trata de um Reino entre outros, mas de um Reino eterno, que pervade tudo e deve ser acolhido primeiramente nos corações. Deus reina; reconhecer isto na existência concreta é viver na verdade; fechar-se em si mesmo, vivendo como se fosse o próprio dono da vida, é viver numa mentira, excluído do Reinado de Deus (cf. Is 24,23; Sl 145/144.10s). Como ensinavam os rabinos de Israel, vivendo aberto para Deus no cumprimento da Sua Lei, o justo toma sobre si o jugo do Reino dos Céus...

4. Se observarmos bem, a ideia do Reinado de Deus está muito próxima da certeza da  providência do Senhor, que tudo penetra, tudo orienta, tudo governa. Dizer que Deus reina significa afirmar que tudo Ele tem em Suas mãos benditas. Por isso mesmo, Tobit proclama o Reinado de Deus – “Bendito seja Deus, que vive eternamente, e bendito o Seu Reino, que dura pelos séculos!” (v.1) – e, logo depois, proclama a providência divina: “Pois é Ele quem castiga e tem piedade, faz descer às profundezas dos infernos e retira da grande Perdição!” (v. 2). Assim, porque o Senhor é Rei eternamente, Ele tudo dirige, Ele dirige os destinos do mundo e da história humana, Ele tem nas mãos a ventura e a desgraça, a vida e a morte! Nem mesmo o inferno está fora do Seu poderio! (cf. Dn 7,9s; Ap 4,2)

5. Os textos sagrados de Israel também dão conta de que o Senhor Deus manifestaria o Seu Reinado de um modo forte e triunfal no final dos tempos: Ele derramaria Sua bênção, pela ação do Seu Espírito, de modo que o Seu Reinado iria eliminar todo o mal, todo pecado, toda morte e, na força do Seu Espírito, Israel e toda a humanidade, a Terra Santa e toda a criação viveriam na bênção do Reinado de Deus. Ligada a esta bênção aparece a figura misteriosa do Messias, o Ungido, cheio do Espírito, que traria a plenitude do Reinado de Deus. Leia Is 11,1-11. Expressão muito importante desta esperança é o texto de Is 52,7: “Como são belos sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz, do que proclama boas novas e anuncia a salvação, do que diz a Sião: ‘O teu Deus reina’”. É muito importante recordar que a versão grega do Antigo Testamento, utilizada pelos judeus da Diáspora e pelos primeiros cristãos, traduz “boa nova” por “evangélion”, isto é “evangelho”. Para tornar mais clara a compreensão do que estou dizendo, podemos afirmar, que o texto grego de Isaías soaria mais ou menos assim: “Como são belos sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz, do que proclama o evangelho e anuncia a salvação, do que diz a Sião: ‘O teu Deus reina’”. Observe: qual é o evangelho que será anunciado? Este: “O teu Deus reina!” A boa notícia é a chegada do Reino de Deus, Reino de Vida divina, Reino de bênção, Reino que é a presença de Deus no meio do Seu Povo, sendo graça e bênção para todos os povos! Nunca esqueça: o evangelho anunciado no Antigo Testamento é o evangelho da chegada do Reino, o evangelho do Reino!

6. Agora leia com atenção Mc 1,14s. É o cumprimento da profecia de Isaías! Quem é o Mensageiro que anuncia a paz, o shalom de Deus? É Jesus, nosso Senhor! Qual é o Evangelho que Ele anuncia? O Reino de Deus chegou; está no meio de vós! (cf. Lc 17,21) O que é necessário para acolher verdadeiramente este Evangelho? A fé neste Evangelho da chegada do Reino e a conversão de toda a vida: deixar de ser o centro da própria existência, deixar de viver para si, do seu modo, e permitir, verdadeiramente, que Deus reine no seu coração, na sua vida.
Este Reino aparece claro e forte no próprio Senhor Jesus: Nele, Deus, o Pai reinou totalmente, absolutamente: “O Meu alimento é fazer a vontade do Pai e consumar a Sua obra!” (Jo 4,34) Guiado pelo Espírito do Pai, Jesus, nosso Senhor, foi totalmente obediente, deixando o Pai reinar de modo pleno em todos os aspectos da Sua vida e da Sua missão. Esta obediência total ao Pai, este reinado do Pai em Jesus Cristo, levou-O à Morte e à Ressurreição (cf. Fl 2,8-11; Hb 10,7). Agora, cheio do Espírito que o Pai derramou sobre Ele, o Salvador derrama este Espírito sobre os Seus (cf. At 2,33), para que tenham o mesmo Espírito do Filho (cf. Rm 8,15), na obediência total ao Pai, deixando que o Reino invada totalmente a vida deles e, através deles, aja no mundo!

7. O Reino não é deste mundo: não está em estruturas políticas ou sociais, não está nas ideias ou ideologias. Leia Lc 17,20-21. O Reino está onde está o Espírito Santo de Jesus, o Reino acontece onde as pessoas, cada pessoa, abre-se para o Senhor Deus, por Cristo, com Cristo e em Cristo, deixando-se transformar pelo Espírito filial do Cristo Jesus. Como diz uma antiga versão do Pai-nosso segundo Lucas: onde se lê: “Venha o Teu Reino” (Lc 11,2b),escreveu-se “Vosso Espírito Santo venha sobre nós e nos purifique!” Isto mesmo: venha ao nosso coração, à nossa vida, o Espírito do Cristo obediente ao Pai, Cristo morto e ressuscitado, e nos purifique do pecado original de toda autossuficiência, de todo fechamento em nós mesmos, de todo soberba egolatria, abrindo-nos para o Pai, com Cristo e como Cristo. Assim, onde estiver o Espírito de Cristo estará aí o Reino de Deus! Que esteja no nosso coração e, através de nós, no coração do mundo!

8. Pense: Quem reina na sua vida: você, com sua autossuficiência ou o Senhor? Pense em fatos e situações concretas que fundamentem sua resposta... Para rezar, tome os salmos 47/46 e 93/92. Depois, tome 1Cor 15,20-28. Finalmente, reze o prefácio da Solenidade de Cristo Rei:
“Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-Vos graças, sempre e em todo o lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso. Com óleo de exultação, consagrastes Sacerdote eterno e Rei do universo Vosso Filho único, Jesus Cristo, Senhor nosso. Ele, oferecendo-Se na Cruz, Vítima pura e pacífica, realizou a redenção da humanidade. Submetendo ao Seu poder toda criatura, entregará à Vossa infinita Majestade um Reino eterno e universal: Reino da verdade e da vida, Reino da santidade e da graça, Reino de justiça, do amor e da paz. Por essa razão, hoje e sempre, nós nos unimos aos anjos e arcanjos, aos querubins e serafins e toda a milícia celeste, cantando a uma só voz!”


Retiro Quaresmal 2020/29 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Segunda-feira da V semana da Quaresma
Meditação XXVIII: Uma santidade chamada amor

Reze o Salmo 119/118,41-48
Leia, ainda uma vez, como lectio divina, Tb 12.

1. Continuamos ainda no capítulo 12. Detenhamo-nos agora nos misteriosos vv. 13-14. Releia-os: “Quando tu não hesitaste em te levantares da mesa, deixando a refeição, para ires sepultar um morto, fui enviado para provar tua fé, e Deus enviou-me, ao mesmo tempo, para curar-te a ti e a tua nora Sara!” São palavras desconcertantes, inaceitáveis para a mentalidade atual! No entanto, é Palavra santa, é Palavra sagrada, é Palavra de Deus, é Palavra que revela o misterioso modo de agir de Deus! É pegar ou largar, caminhar com um Deus tão misterioso nos Seus caminhos! O Senhor nos ultrapassa, o Senhor é Santo, o Senhor é incompreensível: Quem pode medir a Sua grandeza? Leia Is 40,12-18.22-31. Reze! 

2. Vamos reler Tb 2,1-10. É de cortar o coração! Tanto sofrimento, tantas lágrimas. Releia a triste oração de Tobit (cf. 3,1-6). A vida não é um faz-de-conta, não é um teatro; os acontecimentos da existência, por vezes, machucam, doem muito. E agora, Rafael revela a Tobit que toda esta dor tremenda, estes dias de solidão, de incerteza, de sofrimento, de tentação de desespero, tudo isto foi não somente permitido, mas foi também desejado, querido pelo Senhor Deus! Tobit fizera o bem, fora fiel ao seu Deus, servira de coração sincero ao seu próximo por amor à Lei do Eterno e o Senhor, agradando-Se desse bem, resolveu prová-lo de modo tão forte, tão duro, como fizera com Jó! Leia Jt 8,12-17.25-27 e Hb 12,5-13.
Temos aqui o tremendo problema, o insuperável mistério, do sofrimento dos inocentes! Claro que esse Deus não é compreensível nem aceitável para o homem atual, que tudo julga e avalia na sua própria medida, nas coordenadas estreitas da sua razão; talvez não o seja nem para você nem para mim... Mas, este é o único Deus verdadeiro! Não há outro! Este é o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Ele, que não poupou Tobit, não poupou Jó, não poupou Abraão, também não poupou o Seu próprio Filho! Leia e reze Rm 11,33-36. Deus misterioso, Deus perigoso, este; Deus verdadeiro! Coragem: leia, rezando, Lm 3,1-58.

3. A primeira coisa que é preciso ter sempre presente é que Deus é Santo, isto é, “o Diferente”, “o Para-Além-de-Tudo”, “o que nos ultrapassa totalmente”, “o Absolutamente Outro”. Não podemos compreender totalmente os caminhos do Senhor, não conseguiremos nunca enquadrá-Lo. O Seu agir nos escapa (cf. Sl 139/138,1-12.17s; Jó 23,8-10), a Sua lógica, apesar de não ser ilógica nem irracional, nos ultrapassa de longe (cf. Is 55,8s) É este o sentido da palavra “santo” nas Escrituras! A maior prova dessa santidade desconcertante do Senhor foi o próprio modo surpreendente que Ele escolheu para nos salvar: na loucura da Cruz, que desmoraliza a nossa razão soberba (cf. 1Cor 2,6-8).

4. Daqui surge uma questão seríssima, dolorosa para nós: como confiar num Deus assim? Se Ele é tão misterioso, tão incompreensível, se Sua ação pode nos fazer sofrer, como poderemos, verdadeiramente, abandonar-nos nas Suas mãos? Deus perigoso, este Deus! Sim, muitas vezes na vida podemos ter esta sensação e fazer, direta ou indiretamente, estas perguntas. Mas, atenção: esse Deus misterioso, exatamente no Seu agir misterioso, mostrou-Se próximo, fiel, amoroso, confiável: Ele, por nós, por mim, por você, entregou o Seu Filho Único até a morte e morte de Cruz (cf. Jo 3,16s). Ele não nos precisa provar mais nada! “Conhecemos o amor de Deus por nós e nele acreditamos” (1Jo 4,16) porque vimos o Seu Filho crucificado por nós; mais ainda: vimo-Lo ressuscitado, Vencedor de toda dor, de todo absurdo, de toda morte! Veja que o Deus verdadeiro está longe do deus da teologia da prosperidade, do deus das negociatas, do deusinho domesticado, que se dobra à nossa vontade, que pode ser subornado por nós (Dt 10,17).

5. O sofrimento será sempre um tremendo mistério, sobretudo o sofrimento dos inocentes. Somente a confiança no amor de Deus, na Sua bondade e sabedoria infinita pode acolhê-lo, mesmo sem compreender! Somente em Cristo este mistério pode ser iluminado: Ele, o Inocente, o Justo e Santo, tomou em Seus ombros, acolheu no Seu Coração trespassado, toda dor, todo sofrimento, todo pranto do mundo, de cada criatura, de cada povo, de cada ser humano (cf. Sl 56/55,9s). Leia Is 53,4-12. Aquele que é amigo de Cristo, que Nele se abandona, que vive em comunhão com Ele, imolado e ressuscitado na Eucaristia, ainda que sofra, ainda que não compreenda, sabe entregar-se, abandonar-se, confiar no Senhor, mesmo de noite! Nunca esqueça: crer não é compreender tudo! Crer é entregar-se, abandonar-se, caminhando como se visse o Invisível! Crer é dizer como Jó: “Ainda que Ele me matasse, eu Nele esperaria” (13,15).

6. É por tudo isto que as Escrituras insistem e o Senhor Jesus repete insistentemente que somente o pobre de coração pode acolher o Reino de Deus. Somente o pobre interiormente pode aceitar o Senhor como Ele é, como Ele age, deixando-se guiar por Ele e nas Suas mãos se abandonando. O pobre sabe que não tem direitos adquiridos diante do Senhor e sabe que tudo quanto sai das mãos do Senhor é, no final de tudo, para o nosso bem! Veja o que o próprio Rafael afirma: “Fui enviado para provar tua fé, e Deus enviou-me, ao mesmo tempo, para curar-te a ti e a tua nora Sara!” No desígnio do Eterno, de uma só vez, Rafael vem para ferir e curar, vem ferir e, na própria ferida, vem derramar uma bênção muito mais abundante! Mas, o que Deus concebe, vê e sabe de uma só vez, para nós, é tão misterioso, e se dá no tempo, pouco a pouco... O Eterno vê na perspectiva da eternidade; nós somente vemos parcialmente e pouco a pouco... Vemos embaçado, como num espelho fosco, de superfície irregular. Leia 1Cor 13,12. É necessário, portanto, um coração pobre, de criança confiante no Pai, para caminhar com este Deus. Permita-me dar-lhe dois exemplos que muito me edificaram ao longo de minha vida.

a) Eu era jovem e estava vendo o noticiário sobre uma enorme cheia no Estado do Paraná. Foi no final dos anos 70. A reportagem mostrou uma pobre senhora, realmente desvalida... O seu precário barraco de madeira estava sendo levado pela água torrencial... A velhinha olhava, silenciosa... Era uma cena de cortar o coração. Eu lembro bem... O repórter aproximou-se daquela senhora e disse: “Perdeu tudo, hein, vovó?” Aquela senhora nem olhou para o seu interlocutor... Ergueu os olhos para o Céu, juntou as mãos enrugadas, e disse: “Perdi tudo, graças a Deus!” Eu chorei. Aquela mulher era uma pobre de Deus! Nada nem ninguém poderia nunca quebrar aquela senhora! Nela, Deus reinava livremente; ela não duvidava do Seu amor, ela não colocava condições para Nele crer e O amar! Ela, aquela semianalfabeta, aquela iletrada, poderia repetir como Jó: “Ainda que Ele me matasse, eu Nele esperaria” (13,15).

b) Eu já era Bispo e estava fazendo uma visita pastoral no agreste nordestino. Era pelo ano de 2011. Já há uns três anos, o Nordeste estava sendo castigado pela seca. Seca crudelíssima; das piores. Durou mais de cinco anos. Eu fui visitar uma capela de povoado rural. Encontrei um pequeno proprietário. Disseram-me que ele havia perdido todo o seu gado e sua lavoura... Coisa de dar pena. Naquele povoado todos tinham perdido tudo... Olhei para aquele homem e perguntei-lhe: “E a chuva?” Ele tirou o chapéu, como os sertanejos fazem nessas horas, e olhando rapidamente para o Céu, disse-me: “Quando a Deus for servido, ela virá!” Mais uma vez, como há anos, com aquela mulher paranaense, meus olhos marejaram! Eu estava diante de um pobre de Deus, de um homem que verdadeiramente confiava no Senhor sem pedir explicações nem colocar condições! Esse homem, sem estudo, sem teologia, poderia repetir com Tobit: “Tu és justo, Senhor, e justas são todas as Tuas obras. Todos os Teus caminhos são graça e verdade, e Tu és o Juiz do universo. E agora, Senhor, lembra-Te de mim, olha para mim!” (Tb 3,2-3a).São estes os pobres, como Tobit! São estes que deixam verdadeiramente Deus reinar nos seus corações e nas suas vidas! São estes que imitam o Pobre Jesus, que Se entregou inteiramente nas mãos do Pai e, por isso, recebeu o Nome acima de todo o nome! (cf. Fl 2,5ss)

7. Pense nestas coisas... Olhe a sua vida... Examine a sua fé... Reze o Sl 25/24.


sábado, 28 de março de 2020

Homilia para o V Domingo da Quaresma - ano a

Ez 37,12-14
Sl 129
Rm 8,8-11
Jo 11,1-45

De hoje a oito entraremos na Semana Santa, com a solenidade dos Ramos e da Paixão do Senhor. Agora, neste último Domingo antes dessa Grande Semana, a Liturgia nos apresenta o Senhor Jesus como nossa Ressurreição e nossa Vida. Vida muito mais que a simples vida psico-biológica, vida muito mais que vida deste mundo, sustentada por nossas necessidades básicas; trata-se de Vida divina, Vida plena, Vida que nem a morte por destruir, Vida que recebemos no santo Batismo, Vida que nos vem como força na Crisma, Vida que comemos como alimento de Eternidade na Eucaristia. Eis a Vida: Jesus! Eis o que buscam os catecúmenos, aqueles que por toda a terra estão se preparando para receber, na próxima Solenidade pascal, os sacramentos da iniciação à vida cristã, a Vida em Cristo, no Batismo, na Crisma, na participação à Mesa eucarística!

Aqui, ao dizermos que Jesus é a Vida, não estamos falando de modo figurado, metafórico! Jesus é realmente, propriamente, a nossa Vida, a nossa Ressurreição!
Ele é o cumprimento do sonho de vida e felicidade que o Pai, desde o início, tem para nós: “Ó Meu povo, vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel. Porei em vós o Meu Espírito, para que vivais!” É em Jesus que esta promessa se cumpre, é Nele, morto e ressuscitado, que somos arrancados das sepulturas da vida de pecado e da sepultura da morte; é no Seu Espírito Santo, derramado sobre nós, que o Pai nos vivifica!

Caríssimos, Jesus é a própria Ressurreição; Ele é a própria Vida, Vida plena, Vida divina, Vida eterna! Jesus é a plenitude desta nossa vida, da nossa existência: Nele, o nosso caminho termina não no Nada do absurdo, do vazio, mas na plenitude da Glória! Sem Ele, seríamos nada, sem Ele, tudo quanto vivemos terminaria no aniquilamento: “De que nos valeria ter nascido, se não nos redimisse em Seu amor?” – é o que vai perguntar a Liturgia da Igreja daqui a poucos dias, na noite da Páscoa. Num mundo que procura desesperadamente a vida, a felicidade; numa época como a nossa, em que se tem sede de um motivo para viver, de um sentido para a existência, Jesus Se nos apresenta como a própria Vida, Vida da nossa vida!

Mas, escutemo-Lo falar, Ele mesmo no Evangelho deste Domingo. Deixemos que Ele nos fale da vida, que Ele mesmo nos ensine a viver!

Lázaro encontrava-se doente, sofrendo; depois, morreu. Suas irmãs estavam sofridas, angustiadas, imploraram tanto pela vinda do Senhor para curar o irmão... E Jesus não foi; Jesus demorou-Se. Quantas vezes fazemos, nós também, esta mesma experiência em nossa vida. “Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela!” E, pensemos bem: Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro. Quando ouviu que estava doente, Jesus ficou ainda dois dias no lugar em que Se encontrava”... Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos, os nossos tempos e modos não são os Dele. “Senhor, se estivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido...” Nesta queixa dolorida de Marta e Maria sentimos também as nossas queixas diante dos sofrimentos da nossa própria vida...
Jesus sentiu a morte de Lázaro: “ficou profundamente comovido” e chorou por Lázaro, mas não impediu sua doença e sua morte! Vede, irmãos: nosso Deus não é tapa-buracos; jamais compreenderemos o Seu modo de agir! Ele nos ama, Ele é fiel, Ele Se preocupa conosco, Ele conhece nossas dores. Mas, jamais compreenderemos totalmente Seu modo de estar presente no mundo e na nossa existência! O justo, o humilde crê; o ímpio declara, então: Deus não existe! Uma coisa é certa: se crermos, veremos sempre a glória de Deus, e em tudo no mundo e em tudo na nossa vida Deus será glorificado!

Então, Jesus consolou Marta e Maria. Jesus lhes prometeu a Ressurreição.
Como todo judeu, as irmãs esperavam a Ressurreição no Último Dia, no final dos tempos. Jesus, então, fez uma das revelações mais impressionantes de todo o Evangelho: “Eu Sou a Ressurreição! Eu Sou a Vida!” Atenção, Irmãos! Levemos a sério esta afirmação! Detenhamo-nos diante dela, admirados!
A Ressurreição que os judeus esperavam chegou: é Jesus, o Cristo do Pai!
A Ressurreição não é uma coisa, uma realidade impessoal, não é um força, não é uma energia da natureza, não é uma dinâmica nossa! Não! Nada disto!
A Ressurreição é uma Pessoa: ela tem coração, rosto, voz e amor sem fim! A Ressurreição é o Senhor Jesus em pessoa: “Eu sou a Ressurreição e a Vida! Quem crê em Mim, mesmo que esteja morto, viverá!”
Na hora tão dramática e misteriosa da nossa morte, é Ele, pessoalmente, com a força vivificante do Seu Espírito Santo, Senhor que dá a Vida, Quem vem nos buscar, é na força Dele que seremos erguidos da morte, é Nele que nossa vida é salva do Absurdo, do Nada, do Vazio: “quem vive e crê em Mim, não morrerá para sempre!”
Nunca será demais a surpresa, a admiração, a grandeza dessas palavras! Caríssimos, eis o Evangelho, eis a notícia, eis a novidade que dá sentido a toda uma vida: “Deus nos deu a Vida eterna, e essa Vida está no Seu Filho” (1Jo 5,11), esta Vida é o Seu Filho!

Amados no Senhor, estamos para celebrar a Páscoa. Não esqueçamos que é para que tenhamos esta Vida divina, a Vida eterna que o nosso Jesus Se entregou por nós: morto na carne foi vivificado no Espírito Santo pela Sua Ressurreição (cf. 1Pd 3,18). Ressuscitado, plenificado no Espírito Santo, Ele, o Vencedor da morte, derramou sobre nós esse Espírito de Vida, dando-nos, assim, a semente de Vida eterna: “Se o Espírito do Pai que ressuscitou Jesus dentre os mortos já habita em vós, então o Pai que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do Espírito que habita em vós!”

É esta a nossa esperança: a Ressurreição! Por ela vivemos, dela temos certeza; menos que isto não queremos, com menos que isto não estaremos satisfeitos! E já possuímos, como primícias, como garantia, pelos sacramentos da Igreja, o Espírito Santo de Ressurreição: é Ele a Vida do Cristo Jesus.
Então, vivamos uma vida nova, uma vida de ressuscitados em Cristo Jesus: “Os que  vivem segundo a carne, segundo o pecado, fechados em si mesmos, não podem agradar a Deus! Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito” do Cristo Jesus!
Então, vida nova! Deixemo-nos guiar pelo Espírito! Deixemo-nos renovar pelo Senhor! Convertamo-nos! Que as observâncias da santa Quaresma, a oração intensa e perseverante, o combate aos vícios, a abstinência dos alimentos e a confissão dos pecados nos preparem para celebrar de coração renovado a Santa Páscoa que já está bem próxima – esta, deste ano e aquela, da Vida eterna! Amém.


Retiro Quaresmal 2020/28 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Sábado da IV semana da Quaresma
Meditação XXVII: Por Cristo, com Ele e Nele todo bem e toda graça

Reze o Salmo 119/118,33-40
Leia, ainda uma vez, como lectio divina, Tb 12.

1. É preciso ainda voltar aos vv. 6-10. É necessário aprofundar duas afirmações de Rafael, palavras que podem ser luz para os nossos passos nesta vida. Vamos, passo a passo:

a) “Bendizei a Deus e proclamai entre os viventes os bens que Ele vos concedeu!” – Proclamar as ações de Deus é louvá-Lo, é uma forma também de anunciá-Lo. O Povo de Israel e, atualmente, o Novo Israel, que é a Igreja, terão sempre o dever sagrado de testemunhar as obras do Senhor, Sua atuante presença no mundo. Nosso Deus não é um deus ausente, não é um deus teórico, reduzido a uma ideia etérea, irreal. Mesmo nos momentos de dor e de sofrimento da história do mundo e de cada um de nós, é Ele que está sempre presente e atuante! Reze o Sl 135/124. Se nós nos calarmos, estaremos sendo infiéis. Estejamos atentos, que o politicamente correto nos quer aprisionar numa religiosidade aguada, vazia, de um deus simplesmente pai de todos, um deus ideal, que é bonzinho e tudo aceita, olhando simplesmente se somos coerentes com nossos próprios desejos, com nossa própria consciência e vontade. Ou seja: basta que eu seja coerente comigo mesmo, fechado em mim mesmo; basta que o homem seja bonzinho com o homem... Esquecemo-nos, neste caso, de que o Senhor nos mostrou o caminho, nos revelou a Sua vontade, proibiu-nos de nos fecharmos em nós mesmos, deu-nos preceitos, ordenou-nos escutá-Lo no Seu Filho, que é o Seu Verbo bendito e santo (cf. Dt 5,32 – 6,9; Mt 17,5). Os grandes bens que o Senhor nos concedeu e que devemos proclamar são, primeiramente, as Suas grandes obras salvíficas: como criou tudo, como chamou Abraão e dele fez um Povo para Si, como retirou Israel do Egito, como deu-lhe a Lei através de Moisés, como o guiou no deserto com sinais e prodígios, como o educou, enviando uma multidão de profetas, como o castigou e o recuperou e, sobretudo, como, “na plenitude dos tempos” (Gl 4,4), “enviou o Seu Filho Unigênito para que não pereça todo aquele que Nele crê, mas tenha a Vida eterna!” (Jo 3,16). Ainda é necessário proclamar como o Cristo Senhor,“entregue pelos nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação” (Rm 4,25), é o único Senhor de tudo (cf. Fl 2,11; 1Cor 8,5s), do universo, da história, da Igreja, que Ele guia e é Sua Esposa e, finalmente, cuida de todos nós, de cada um de nós... E aí, nosso louvor e proclamação podem chegar aos fatos concretos e miúdos da nossa vida: “Ele dá o pão a toda carne, porque o Seu amor é para sempre!” (Sl 137/136,25; cf. Mt 6,25-34).

b) “Melhor é a esmola com a justiça do que a riqueza com a iniquidade. É melhor praticar a esmola do que acumular ouro. A esmola livra da morte e purifica de todo pecado. Os que dão esmola terão vida longa; os que cometem o pecado e a injustiça são inimigos da própria vida” – Algumas afirmações interessantes sobre a esmola; uma verdadeira exortação e motivação a esta prática... Aprofundemos um pouco. Numa sociedade como a nossa, fixada em ter, em consumir, totalmente refém de um bem-estar desenfreado, a Palavra de Deus associa a esmola com a retidão, a justiça, a piedade – é este o sentido de justiça, no texto – e a riqueza, com a iniquidade. Por quê? Porque a esmola é sempre uma abertura para os outros, uma sensibilidade para as suas necessidades espirituais e materiais. Ora, uma atitude assim nos aproxima de Deus, do Seu amor, da Sua bondade, da Sua liberalidade, que cuida de todas as Suas criaturas. Leia Lc 6,36. Assim, a esmola ajuda no caminho para perceber o Senhor, para ter em nós os mesmos sentimentos dos Cristo Jesus (cf. Fl 2,5). Já o afã de ter, de escorar-se nas seguranças humanas, materiais ou não, leva, de um modo ou de outro, cedo ou tarde, à iniquidade: sem que se perceba, a escravidão aos bens deste mundo vai obscurecendo a consciência e vão-se afrouxando os verdadeiros valores, a ponto de se viver uma vida iníqua! Por isso, Jesus nosso Senhor previne duramente contra uma vida frouxa, satisfeita consigo própria (cf. Lc 6,20-26). O cristão deve procurar ter uma vida equilibrada e simples, dando a cada aspecto da existência seu justo valor e correspondente importância, mas tudo vivendo diante do Senhor e a Ele tudo relacionando. Leia, rezando, Mt 6,11a; compare com Pr 30,7-9.
Por tudo isto, é melhor a esmola praticada que o ouro acumulado: a esmola feita, enriquece de vida e amor a tantos, provoca bênção e ação de graças em muitos, conquista-nos amigos no Céu e nos abre para o Senhor (cf. Lc 16,9-13); já o ouro acumulado de modo mesquinho e ganancioso nos fecha em nós mesmos, tornando-nos pobres para os outros, fechados para Deus e nos mata, primeiro no coração neste mundo e, depois, na Eternidade (cf. Lc 12,16-21; 1Tm 6,6-10)! Por isso, o texto de Tobias diz que a esmola livra da morte: da morte do coração, da morte da alma, provocada por uma vida fechada em si e estéril! Por isso também afirma que purifica do pecado, porque todo pecado é um fechamento em si, nos afastando do Senhor Deus e dos outros. A esmola é abertura aos irmãos por amor de Deus e no amor de Deus! Por tudo isto, a conclusão é clara e cortante: “Os que dão esmola terão vida longa; os que cometem o pecado e a injustiça são inimigos da própria vida!” Pense bem: o que é viver verdadeiramente: simplesmente viver, sobrevivendo, fechado em si ou, ao invés, viver no diálogo amoroso com o Senhor e, no amor do Senhor, na abertura de coração e de bolso para os irmãos? Lembre da palavra do Senhor: “Há mais alegria em dar que em receber!” (At 20,35). Reze o Sl 112/111.

2. Os vv. 12-15 tratam do papel dos Anjos nas nossas relações com Deus. Ao longo destas meditações, já falamos sobre esses seres espirituais, criados para a comunhão com Deus e o Seu louvor e também, misteriosamente, colocados como “espíritos servidores, enviados ao serviço dos que devem herdar a salvação” (Hb 1,14). Atenção mais uma vez: dos Anjos, sabemos apenas o que a Escritura Santa nos revela. E o que ela nos ensina é que foram todos criados pelo Pai através do Filho no Espírito. Como todas as criaturas, a realização desses seres encontra-se na comunhão de vida e amor com o Deus uno e trino. Sabemos que alguns deles foram colocados a serviço do desígnio salvador do Senhor Deus para toda a humanidade. É o que vemos no caso de Rafael: ele apresentava ao Senhor as orações e as boas obras de Tobit! Claro que esta linguagem aqui é figurada! Não vamos pensar um Arcanjo lendo um relatório diante de Deus, o Onisciente! Aqui, temos um modo de falar humano de uma realidade que nos ultrapassa completamente! Cuidado para não cairmos em leituras ingênuas e, por vezes, ridículas, das Escrituras Santas! Eles intercedem por nós, pois estão ao serviço da nossa salvação para a glória de Deus. Afirmar que os Anjos intercedem em nada diminui a única mediação do Cristo nosso Senhor, pois é Nele e para Ele que tudo existe e subsiste (cf. Cl 1,15s) e é Nele, no Seu Espírito Santo, que toda a mediação se dá, pois Ele é Cabeça de toda a criação (cf. 1Cor 15,26-28; Cl 1,16-18). A mediação dos Anjos deve ser compreendida no mesmíssimo sentido da mediação dos santos no Céu e dos santos batizados na terra. Neste sentido, o que for dito sobre os santos vale para os Anjos, enquanto, no Espírito de Cristo, Espírito de comunhão de amor, uns e outros vivem a mesma Vida divina no Corpo do Imolado e Ressuscitado (cf. Ap 5,6). Vejamos isto com mais vagar, a seguir.

3. É verdade que somente Jesus Cristo salva: “Não há, debaixo do Céu, outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4,11); Ele é o único Mediador entre Deus, nosso Pai, e a humanidade: “Há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, um homem, Cristo Jesus, que Se deu em resgate por todos” (1Tm 2,5).Nele nós temos a bênção da graça e da salvação: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a sorte de bênção espirituais, nos Céus, em Cristo. É pelo sangue Deste que temos a redenção, a remissão dos pecados... (Ef 1,3.7). Este, é, portanto, um ponto central claríssimo da fé católica: só Cristo salva e somente Cristo intercede por nós junto do Pai. Não há outra mediação fora da mediação do único e absoluto Salvador, Cristo Jesus.
A Escritura nos ensina também que todos os batizados foram revestidos de Cristo e, tornando-se uma só coisa com Ele, são membros do Seu Corpo, que é a Igreja. Ser cristão é estar incorporado, enxertado no Senhor Jesus ressuscitado (cf. Gl 3,27; 1Cor 12,27; Rm 12,5) A união nossa com Cristo é tão forte e real, tão concreta e verdadeira, que São Paulo afirma que o cristão é batizado (isto é, mergulhado) em Cristo, no Cristo, dentro de Cristo. Leia Rm 6,3-9. Assim, a vida dos bem-aventurados no Céu - e também já aqui na terra a Vida de cada batizado - é Vida em Cristo: “A graça de Deus é a Vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 6,23). A Ele estamos unidos como os ramos à videira, de tal modo que vivemos da Sua mesma Vida gloriosa (cf. Jo 15,1.4-5). Portanto, o cristão é aquele que permanece em Cristo, que vive não mais por si mesmo, mas por Cristo. A seiva, a vida nova da qual vivem os cristãos é o próprio Espírito Santo do Senhor Jesus ressuscitado, recebido no Batismo: “Aquele que se une ao Senhor, constitui com Ele um só Espírito” (1Cor 6,17); “Pois fomos todos batizados num só Espírito para ser um só Corpo... e todos bebemos de um só Espírito” (1Cor 12,13). De tal modo isto é verdadeiro, real, que o Apóstolo exclamava: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20); “Para mim o viver é Cristo...” (Fl 1,23).Cristo está de tal modo presente no cristão e este é de tal modo enxertado em Cristo e Nele incorporado, que fazia o Apóstolo afirmar: “A vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,2) e falar também do mistério de Deus que é “o Cristo em vós, a esperança da Glória” (Cl 1,27). Aparece assim claramente que os batizados - particularmente os que estão na Glória - são uma só coisa com Cristo, estão em Cristo, foram “con-formados” com Cristo, são membros de Cristo, que é Cabeça de todos. Não há, para aqueles que estão na Glória, outra vida que não a de Cristo e em Cristo!

4. Demos um passo adiante. O Espírito de Cristo ressuscitado em nós, fazendo-nos uma só coisa com o Senhor Jesus, suscita em nós os bons sentimentos e as boas obras: tudo de bom que pensamos e fazemos é suscitado pelo Espírito Santo em nós: “É Deus quem opera em vós o querer e o operar” (Fl 2,13). É exatamente porque cremos em Cristo, porque estamos unidos a Ele e Nele estamos enxertados e incorporados pelo Batismo, que podemos realizar as obras da fé, daquela fé que atua pela caridade (cf. Gl 5,6). Quando rezamos, não somos nós que rezamos: em última análise, quem ora em nós, quem louva em nós e intercede em nós é o próprio Espírito do Cristo Jesus ressuscitado. Leia Rm 8,26s. É por isso que, já aqui na terra, pedimos aos nossos irmãos que intercedam por nós. Dizemos uns aos outros: “Fulano, reze por mim!” O próprio Novo Testamento recomenda que rezemos uns pelos outros (cf. 2Cor 1,1; Ef 1,16; 6,19; Fl 1,4; Cl 4,12; 1Ts 1,2; 1Ts 5,25; 1Tm 2,1; Tg 5,16). Pedimos a oração de um irmão batizado porque sabemos que ele ora em Cristo, que esse irmão é uma só coisa com Cristo, já que é membro do Seu Corpo e vive do Espírito do Senhor ressuscitado, de modo que já não é ele quem ora, mas é Cristo que ora nele como Mediador único entre nós e Deus.
Com nossos irmãos que estão na Glória e os Anjos com eles em comunhão no Céu, todos mergulhados no Espírito do Ressuscitado, acontece o mesmo. A morte não nos separa do amor de Cristo nem dos irmãos, não rompe a comunhão entre os que estão com o Senhor, no Céu, e nós, peregrinos: “Estou convencido de que nem a morte nem a vida nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,38s). No Senhor, todos vivem e permanecem unidos no amor. Se a morte interrompesse uma tal comunhão em Cristo isso significaria que ela - a morte - seria mais forte que o amor, que a Vida e que a vitória do Senhor Jesus. Mas, não! Cristo é mais forte que a Morte e o Inferno: “Morte, onde está a tua vitória? Morte, onde está o teu aguilhão?” (1Cor 15,55). Desse modo, nossos irmãos que estão com Cristo (cf. Fl 1,23) na Glória, são plenamente membros do Corpo do Cristo, vivem do Espírito do Cristo ressuscitado e participam da única mediação de Cristo! É Cristo quem intercede neles, de modo que a intercessão dos Santos, amigos de Cristo, nada mais é que uma admirável manifestação do poder e da fecundidade da única mediação do Senhor Jesus. Ele é o único Mediador, que inclui na Sua mediação única todos os que são uma só coisa com Ele por serem membros do seu Corpo. A mediação do Senhor Jesus não é mesquinha: é única, mas não é exclusivista; ela inclui todos nós; não é exclusiva, mas inclusiva! Caso contrário, nem nós, que vivemos ainda neste mundo, poderíamos rezar uns pelos outros, já que isso é também uma forma de mediação. Assim, é em Cristo, como Seus membros, no Seu Espírito, que os Anjos e os Santos intercedem ao Pai. A intercessão dos Santos nada mais é que uma manifestação da única intercessão do Senhor Jesus, que, sendo rico e potente, suscita em nós a capacidade de participar da sua única mediação. O mesmo vale para os Anjos bons, enquanto criaturas do Pai pelo Filho no Espírito, totalmente dedicados ao louvor do Deus uno e trino. Quanto aos santos, nossos irmãos na Glória são aquela nuvem de testemunhas de que fala a Epístola aos Hebreus: “Portanto, também nós, com tal nuvem de testemunhas ao nosso redor, rejeitando todo o fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, com os olhos fixos Naquele que é o Autor e Realizador da fé, Jesus” (Hb 12,1-2). São eles que, a exemplo dos primeiros santos mártires, participando da mediação única do Senhor Jesus, e nessa única mediação, suplicam em nosso favor, como membros de Cristo: “Vi sob o Altar as vidas dos que tinham sido imolados por causa da Palavra de Deus e do testemunho que dela tinham prestado. E eles clamaram em alta voz: ‘Até quando, ó Senhor Santo e Verdadeiro, tardarás a fazer justiça, vingando nosso sangue contra os habitantes da terra?’” (Ap 6,10) De tudo isto, fica claro que a Igreja de Cristo, ao ensinar que os nossos irmãos do Céu, os santos, intercedem por nós, mostra o quanto a única mediação de Cristo é fecunda e eficaz; de tal modo fecunda e eficaz, que nela nos inclui e dela nos faz participantes! Não se trata, portanto, nem de concorrência, nem de competição e nem mesmo de uma mediação paralela à mediação única de Cristo. Também não se trata de uma escadinha de mediadores: os santos e os Anjos seriam mediadores junto a Cristo e Cristo é o Mediador junto ao Pai. Não! Há um só Mediador! Todos os outros apenas participam da única mediação do Cristo Jesus, nossa Cabeça e nossa santificação. Se participamos desta mediação única é exatamente porque, pelo Batismo, recebemos a plenitude de Cristo: “Nele aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e reconciliar por Ele todos os seres” (Cl 1,19); “E da Sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça!” (Jo 1,16).

5. Terminemos a presente meditação com algumas rápidas observações sobre os vv. 16-21: (a) Quando Tobit e Tobias ficam sabendo que Azarias é o Arcanjo Rafael, “caíram com a face em terra, com grande temor”. É que ao Anjos, sendo vindos do mundo invisível, apesar de serem criaturas, tem uma proximidade com o Deus vivo muito maior que os homens e, assim, refletem algo da gloriosa santidade do Altíssimo, causando no ser humano um temor reverencial. No texto da Vulgata, no v. 19, Rafael explica: “Parecia-vos que eu comia e bebia convosco, mas o meu alimento é um manjar invisível e minha bebida não pode ser vista pelos homens”. (b) Mais uma vez, Rafael deixa claro que ele não veio por si mesmo e não age por si próprio, mas veio da parte de Deus e é expressão da Sua bondosa providência. Um Anjo é mensageiro e instrumento das ordens do Altíssimo. Terminada a missão, ele desaparece, retira-se humildemente. Não há ação angélica no nosso mundo que não seja expressamente por desígnio do Altíssimo em ordem à salvação dos homens. Daí a conclusão da sua missão: “Vou voltar para Aquele que me enviou!” (c) Muito interessante qual foi a grande maravilha para Tobit e Tobias: não foi o dinheiro recuperado, não foi a vista curada, não foi ter encontrado Sara como esposa, mas “haver-lhes aparecido um Anjo de Deus”. Como é diferente a ordem dos valores e das prioridades para quem crê! Pense nisto.

6. Há ainda um ponto para nossa oração neste capítulo 12. Veremos na próxima meditação.  Por agora, juntando-se ao louvor de Tobit e Tobias, reze os Salmos 146/145 e 147/146-147.


sexta-feira, 27 de março de 2020

Retiro Quaresmal 2020/27 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Sexta-feira da IV semana da Quaresma
Meditação XXVI: Atitudes e virtudes de amigos de Deus

Reze o Salmo 119/118,25-32
Leia, agora, como lectio divina Tb 12.

1. Comecemos nossa meditação com os vv. 1-5:

a) Tobit e Tobias cuidam, agora, de pagar de modo justo e sem demora pelos serviços de Azarias. A responsabilidade e seriedade nos nossos negócios e contratos fazem parte da nossa relação com Deus: pagar a quem devemos, ser pontual no pagamento dos que nos servem, ser responsável no pagamento das taxas e impostos que visam ao bem comum. Leia Dt 24,14s; Tg 5,1-6. O senso de justiça, de equidade, de honra à palavra dada (cf. Mt 5,37) e aos compromissos assumidos são parte importante da nossa relação com o Senhor. Você é uma pessoa honesta e reta nos seus negócios? É confiável? Cumpre seus compromissos? Quanto vale sua palavra?

b) E atenção: não basta ser justo, pagar em dia. O Senhor nos leva mais adiante, pede-nos mais: ser generoso, saber compadecer-se, saber ser solidário, saber preocupar-se com os demais e querer o bem dos demais. Observe que Tobit e Tobias querem pagar a Azarias mais até do que haviam acertado com ele antes. São reconhecidos, gratos, generosos, são benévolos. Um cristão mesquinho, miúdo, sem generosidade é uma triste caricatura de discípulo do Cristo! Leia Lc 12,33s. Esses homens experimentaram a bondade do Eterno e desejam partilhar generosamente com os outros aquilo que abundantemente receberam! Veja a atitude contrária nestes dois textos seguintes: Lc 12,13-21; 16,19-31. Esses aí, das parábolas, não roubaram, não atrasaram salários e, no entanto, sofrem do Senhor duríssima reprovação pelo fechamento insensível a Deus e aos demais: para eles, somente existem eles próprios e seus interesses; a preocupação é somente consigo mesmos!

c) Faça agora uma revisão sobre o modo como você trata seus subalternos em casa ou no trabalho. Revise também como você age com quem é seu chefe ou patrão... O Evangelho impregna e inspira realmente as suas relações no ambiente de trabalho, quer você seja chefe quer seja subalterno? Leia Cl 3,22 – 4,1; Tt 2,9-10. Honestidade, responsabilidade, justiça, assiduidade, pontualidade, respeito, honestidade, são valores e virtudes que um cristão não pode deixar de lado nunca nas suas relações de trabalho, “a fim de que em tudo seja Deus glorificado por Jesus Cristo” (1Pd 4,11)... Compreendamos bem: seja da parte do chefe ou patrão cristão como da parte do funcionário ou empregado cristão, o Senhor espera de nós relações humanas sadias, alicerçadas não só nos bons sentimentos humanos, mas até mais: no exemplo do Cristo, servo de todos. É interessante que 1Pd 2,18-25 coloca o exemplo de Cristo como modelo e motivo das nossas relações. Leia este texto! Agora escute estes conselhos com o coração aberto e fiel: Eclo 5,1-8/10. Por fim, reze o Sl 101/100: peçam ao Senhor que expulse do seu coração tudo aquilo que de maldade haja nele e confirme e aumente toda bondade!

2. Vamos aos vv. 6-7: As palavras de Rafael são belas! Releia-as atentamente: bendizer ao Senhor, proclamar Suas maravilhas e Suas bondades; nunca deixar de agradecer por tudo; em outras palavras, uma vida diante de Deus, aberta para Deus, que leva realmente Deus a sério: “Agradecei-Lhe dignamente e praticai o bem!” – A oração e o louvor vão sempre juntos com o empenho em realizar na vida o que cremos, praticando o bem e evitando o mal, cumprindo de verdade os mandamentos do Senhor! Pense: sua vida concreta é expressão da sua vida de oração ou, ao invés, sua oração vai por um lado e sua vida, por outro? Reze Dn 3,51-90.

3. Duas vezes aparece a afirmação: “É bom manter oculto o segredo do rei; porém é justo revelar e publicar as obras de Deus” (vv. 7.11). O que este provérbio significa? Vejamos a primeira parte da frase: “É bom manter oculto o segredo do rei”.
Podemos compreendê-la primeiramente num sentido meramente humano, de bom senso. Aqui, o rei seria o chefe, o patrão, alguém que nos é superior e de quem gozamos a confiança: deve-se ser discreto, guardar segredo das coisas que são reservadas, tendo um sentido de prudente conveniência, respeito pela privacidade das pessoas e até mesmo sentido ético. Por exemplo: a discrição para não difamar alguém, para não violar um segredo profissional, para não se gabar, revelando coisas inconvenientes, etc. Quem não sabe ser conveniente e discreto, muito errará e muito mal provocará. Leia Eclo 19,4-17/18. 
Numa compreensão mais “espiritual”, o Rei da frase acima seria o Deus eterno. Com o Senhor todos nós temos nossos segredos: a nossa história vivida no íntimo do nosso coração diante Dele, nossas lágrimas de amor ou dor choradas no Seu regaço, nossos medos, dúvidas, nossas quedas, nossas vitórias... Estas coisas espirituais, nossas experiências com o Altíssimo, não devemos sair espalhando à toa, pois a chama, quando exposta ao vento se apaga! Isto serve para tudo na vida: aquelas coisas mais profundas, aquelas realidades que nos são mais caras, devemos cercar de discrição e reserva, pois formam a nossa identidade mais profunda! É o contrário da mentalidade das redes sociais, onde as pessoas expões sua vida de modo desbragado e até vulgar... Sobra superficialidade; falta tanta profundidade!
E aqui, a segunda parte do provérbio: é sempre bom publicar as maravilhas do Senhor, pensando não no nosso engrandecimento e autoafirmação, mas em glorificar o Senhor por Suas obras e Sua fidelidade (cf. Jr 9,22s; 2Cor 10,17s)! Leia, rezando, Eclo 43,28-33/30-37.

4. Nos vv. 8-10 reencontramos os temas caríssimos a este Livro: a oração, o jejum e a esmola. Trata-se de realidades que ainda atualmente são importantes para a vivência da nossa fé cristã. Estas três observâncias, nós as herdamos do Antigo Testamento e foram recomendadas pelo Senhor Jesus Cristo, pelos santos Apóstolos e pela inteira Tradição da Igreja. Leia Mt 6,1-18. Observe que o Nosso Senhor fala em “praticar a justiça”, isto é, praticar as observâncias da religião. Cristo retoma as práticas do judaísmo e dá-lhes um sentido interior, que seja expressão de um coração que ama, teme e serve a Deus! Isto está perfeitamente na linha do Livro de Tobias! O cristão realiza estas práticas por amor a Jesus nosso Senhor e no amor a Jesus!

5. Com este mesmo espírito, os cristãos primitivos jejuavam (cf. At 13,2s; 14,22s). O Apóstolo São Paulo também valorizou esta prática: várias vezes, ele se referiu aos seus jejuns (cf. Cor 6,5; 11,27). O jejum é precioso, pois coloca nosso corpo debaixo do senhorio de Cristo, ajuda-nos a dominar nossos instintos e paixões; fazendo-nos sentir fraqueza, recorda-nos que somos pequenos e dependentes de Deus. Além disso, faz-nos recordar os que são materialmente necessitados e até mesmo passam fome. Desse modo, abre o nosso coração para as necessidades dos demais!

6. Quanto à esmola, basta ver estes textos bem contundentes: 1Jo 3,17; Tg 2,15s; 1Cor 11,20ss; 2Cor 8,1-15. A esmola é preciosa, até porque aperfeiçoa o jejum. Se o jejum e a mortificação sozinhos poderiam degenerar numa prática meramente formal, dando brecha à autoafirmação e presunção (cf. Lc 18,9-14), a esmola, dada de bom coração, por amor ao Senhor e compaixão pelo próximo, coroa o jejum e torna a pessoa agradável ao Senhor Deus! Observe que o jejum e a esmola tocam a nossa vida material: o nosso corpo, no jejum, e os nossos bens materiais, na esmola. É com todo o nosso ser – e não só com a alma, com a inteligência, com o sentimento – que cremos, louvamos e bendizemos ao Senhor nosso Deus! Leia Eclo 3,30 – 4,10/3,33 – 4,11; 29,8-11/11-14. Leia ainda o comovente texto de Lc 21,1-4. Nossa adesão ao Cristo Jesus deve impregnar nossa alma e nosso corpo, nossa vida espiritual e material!

7. Finalmente, a oração. Aqui, não há muito em que insistir: o Senhor Jesus rezou, ensinou-nos a rezar e muitas vezes nos ordenou rezar. Veja, por exemplo: Lc 11,1-13; Mc 14,32-42; Hb 5,7. Toda a Escritura, de modo geral, e o Novo Testamento, de modo particular, dão testemunho disto. Leia Fl 4,6-7; 1Ts 5,16. A inteira Tradição da Igreja insiste nisto! Já tratamos da oração ao longo destas meditações. Baste-nos recordar agora que a oração nos abre para Deus, faz-nos reconhecer que somos criaturas Dele, que Dele dependemos e que Ele cuida de nós, Ele é presente e atuante na nossa vida. Quem reza vai deixando o Senhor Deus ser verdadeiramente presente na sua vida; quem não reza, termina por tornar-se um ateu prático: ainda que diga que crê, Deus, de verdade, concretamente, já não tem importância nem incidência na vida concreta de alguém assim!

8. Faça, agora, um sério exame de consciência sobre estas práticas cristãs tão seriamente recomendadas pelas Escrituras Santas e pela inteira tradição da Igreja: Como vai sua vida de oração? Como você reza? Qual o lugar para o jejum, a abstinência de carne e a mortificação na sua vida cristã? Como está a prática da esmola: a ajuda aos necessitados, o dízimo, as obras de misericórdia corporais e espirituais?
Somente para recordar:

a) O jejum pode ser (1) a privação total de refeição num dia; (2) o alimentar-se somente de pão e água; (3) o fazer somente uma refeição completa ao meio-dia e comer parcamente nas outras duas, de modo que, juntas, não cheguem a uma refeição completa. Jejua-se obrigatoriamente na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira da Paixão. É recomendável o jejum também no Sábado Santo.

b) A abstinência de carne é o não se alimentar de carne de animais de sangue quente às sextas-feiras do ano, em honra da Paixão do Senhor. Isto vale também para a Quarta-feira de Cinzas e é muito recomendado para o Sábado Santo.

c) Quanto à mortificação, é a renúncia, por amor a Cristo, a algo de que gostamos, a algo que nos dá satisfação ou prazer, como um modo de oferecer nossa vontade e nossa privação ao Senhor e disciplinar nossos sentidos, fortalecendo nossa vontade. Leia Lc 21,34-36.

9. Reze o Sl 41/40. Observe a bênção no fim do Salmo. É a conclusão da primeira parte do Saltério! Veja as outras conclusões: Sl 72/7118-19 e Sl 106/105,48. Veja a conclusão final do Saltério: o apoteótico Sl 150.