quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Sobre o Livro de Daniel - Dn 1,1-3

Estamos nas últimas semanas do Ano Litúrgico. Ao findar de um ano da Igreja e ao começar um outro, preparando-nos para a Vinda do Senhor nos final dos tempos e para celebrar o Santo Natal no tempo deste mundo, as leituras da Liturgia nos fazem pensar sobre o Tempo do Fim. Pois bem, aproveitando esta pedagogia da Igreja, gostaria de propor-lhes, caros Amigos, algumas simples meditações sobre o Livro de Daniel.

“No terceiro ano do reinado de Joaquim, rei de Judá, o rei da Babilônia, Nabucodonosor, marchou contra Jerusalém e pôs-lhe cerco. O Senhor entregou-lhe nas mãos Joaquim, rei de Judá, assim como boa parte dos utensílios do Templo de Deus. Ele os transportou à terra de Sanaar, depositando esses utensílios na sala do tesouro de seus deuses” (Dn 1,1-3).

A Palavra de Deus é assim: tão poucos versículos e dá tanto o que pensar... E nos questiona, nos testa a fé, nos escandaliza...

Veio Nabucodonosor, feroz, conquistador... Destruiu o Templo, colocou os tesouros do Templo do Deus vivo no tesouro dos falsos deuses.... Um desastre; um escândalo!
E a Escritura Sagrada, com os olhos da fé, afirma: “O Senhor entregou-lhe...” Simples assim, escandaloso assim: tudo está nas mãos de Deus, tudo entra na Sua providência, nada escapa do Deus sábio e do Seu providente desígnio...

Devemos sempre fazer a nossa parte, devemos sempre lutar contra o mal e procurar o bem... Mas, haja o que houver, não esqueçamos nunca de que tudo está nas mãos de Deus: Ele pode tudo, Ele sabe tudo... Como dirá o próprio Daniel em 2,28: “Há um Deus no Céu que revela os mistérios...” 

Certamente, até mesmo para muitíssimos cristãos de hoje, esta visão é conformista, alienada, fatalista...
Um visão da vida e da história provinda de fé rasa e de muito condicionamento ideológico baseado nas chamadas filosofias do progresso e num marxismo explícito ou disfarçado, consciente ou inconsciente, pensa que o homem é o senhor dos planos e dos projetos e o artífice único de sua própria história: “Esperar não é saber.... Quem sabe faz a hora; não espera acontecer”....
Mas, a realidade e a fé nos ensinam diferente... Há um Deus nos Céus que tudo  sabe, tudo dirige, é Senhor dos tempos e das horas e, respeitando a liberdade humana e exigindo nossa responsabilidade, sabe, no entanto, tirar até mesmo dos males, o bem.

Os babilônios invadiram Judá, derrubaram as muralhas de Jerusalém, destruiram o Templo santo de Deus, levaram muitos para o exílio... Quanta dor, quanta lágrima, quanta tragédia, quanta impiedade... Deus permitiu... Ele pode tudo, Ele sabe tudo, na vida humana e na minha vida! Bendito seja hoje e sempre o Seu santo Nome!


sábado, 9 de novembro de 2019

Homilia para o XXXII Domingo Comum - ano c

2Mc 7,1-1.9-14
Sl 16
2Ts 2,16 – 3,5
Lc 20,27-38

Estamos já próximos do final do Ano Litúrgico. De hoje a 15 dias, estaremos celebrando a Solenidade de Cristo-Rei, que marca o final do ano da Igreja. Pois bem, a Liturgia nos vai educando, irmãos amados, fazendo-nos pensar no fim de nossa vida, fim no sentido de final e fim no sentido de finalidade – fim que, em todo caso, nos obriga a nos perguntar pelo sentido da nossa existência e pelo que estamos fazendo dela. Neste sentido, tivemos a Solenidade de Todos os Santos e a Comemoração dos Fiéis Defuntos... E hoje a Liturgia fala-nos da ressurreição.

O Evangelho nos apresenta uma disputa entre o Senhor Jesus e os saduceus, que não acreditavam na ressurreição. O Senhor confirma: há, sim ressurreição! Os mortos ressurgirão, mas de um modo que nós não podemos descrever nem imaginar: “Os que forem julgados dignos da ressurreição dos mortos e da Vida futura, nem eles se casam nem elas dão em casamento; e já não poderão morrer, pois serão iguais aos anjos, serão filhos de Deus, porque ressuscitaram”. Em outras palavras: estaremos em tal comunhão com o Deus vivente, Deus da vida plena, em tal proximidade Dele – como os anjos – que, a morte nunca mais nos poderá atingir: nem a morte física, nem a morte da dor, nem a morte da tristeza, do medo, da saudade, nem a morte do pecado! Como diz o Salmista: “Eu verei, justificado, a Vossa Face e ao despertar me saciará Vossa presença!”

Caríssimos, quando a Escritura fala em ressurreição, não está pensando simplesmente em voltarmos a esta nossa vida, deste nosso modo atual, somente que habitando no Céu... De modo algum! Nós seremos glorificados em corpo e alma! Ressuscitar é receber em todo o nosso ser a Vida de Deus, que Cristo, o Primogênito dentre os mortos, nos conquistou e já derramou em nós no Batismo. Semente dessa Vida é o Espírito Santo vivificador – o mesmo em Quem o Pai ressuscitou o Filho Jesus! É Jesus Quem nos ressuscita, Ele que disse a Marta: “Eu sou a Ressurreição!” (Jo 11,25) É somente Nele e por causa Dele que esperamos vencer a morte!
Na primeira leitura deste Domingo escutamos, impressionados, o testemunho dos sete irmãos, filhos de uma corajosa mãe viúva, que incentiva seus filhos a entregarem a vida por amor da Lei de Deus. Donde lhes vinha tanta coragem? Donde, tanta disponibilidade para serem fiéis até o fim? Da certeza de que ressuscitariam: “Prefiro ser morto pelos homens tendo em vista a esperança dada por Deus, que um dia nos ressuscitará!” – disse um deles. E o outro, pensando na ressurreição da carne, afirmou sem medo: “Do céu recebi estes membros; por causa de Suas leis os desprezo, pois do Céu espero recebê-los de novo!” Vede, meus caros, o quanto a certeza da Vida eterna muda nosso modo de enfrentar os revezes da vida! A este propósito, poderíamos perguntar: Tanta frouxidão na nossa fé, tanto relaxamento nos nossos costumes, tão pouca seriedade na prática da religião, tanta condescendência com os vícios, a comodidade e a tibieza, não seriam causados por uma fraca e sem convicção fé na ressurreição, na Vida eterna? Atenção, que quando, de verdade, cremos numa recompensa celeste, quando verdadeiramente levamos a sério o juízo de Deus e a ressurreição, tudo muda de figura no nosso modo de agir e reagir aos desafios e dificuldades da vida, “pois nossas tribulações momentâneas são leves em relação ao peso eterno de Glória que elas preparam até o excesso. Não olhamos para as coisas que se veem, mas para as que não se veem; pois o que se vê é passageiro, mas o que não se vê é eterno” (2Cor 4,17s).

A nossa esperança é firme: fomos criados para Deus, para Deus estamos a caminho... Um dia morreremos, terminará nosso caminho neste mundo tão incerto. E, imediatamente após a morte, em nossas almas, estaremos diante do Cristo, nossa Salvador e Juiz, cumprindo o ardente desejo do Apóstolo e de todo cristão: “Meu desejo é partir para estar com Cristo, pois isto me é muito melhor, pois, para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1,23.21). Se tivermos sido abertos ao Seu Espírito Santo, se Lhe tivermos sido realmente fiéis, Ele, nosso Senhor, no Seu abraço eterno, glorificará com o Seu Espírito Santo a nossa alma e, então, estaremos para sempre com o Senhor, onde ninguém mais vai sofrer, ninguém mais chorar, ninguém vai ter saudade, ninguém mais vai ficar triste, pois “nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes, nem a altura, nem a profundeza, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,38s). No final dos tempos, quando Cristo nossa vida, glorificar todo o universo, também nossos pobres corpos ressuscitarão, pela força e ação do mesmo Espírito Santo vivificador, que o Senhor tem em plenitude, como diz a Escritura: “Se a nossa morada terrestre, esta tenda, for destruída, teremos no Céu um edifício, obra de Deus, morada eterna, não feita por mãos humanas. Porquanto, todos nós teremos de comparecer manifestamente perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito durante a sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal” (2Cor 5,1.10). Assim, em todo o nosso ser, corpo e alma, estaremos para sempre com o Senhor! Eis por que somos cristãos, eis por que temos esperança! Eis por que queremos viver com retidão, sobriedade, abertura de coração para os irmãos e santo temor em relação a Deus. É o que exprime ainda São Paulo na segunda leitura: “Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus nosso Pai, que nos amou em Sua graça e nos proporcionou uma consolação eterna e feliz esperança, animem os vossos corações e vos confirmem em toda boa ação e palavra. O Senhor dirija os vossos corações ao amor de Deus e à firme esperança em Cristo!”

Caríssimos, em Cristo, se fomos criados para Deus, para a comunhão com Ele no Céu, tenhamos, no entanto, o cuidado de não O perdermos para sempre no inferno. O inferno existe, é real e pode ser nossa miserável herança! Pode dar-se que, logo após a minha morte, não exista nenhuma comunhão com o Cristo que é Vida, mas somente o “Apartai-vos de Mim, malditos! Não vos conheço”; e nossa alma caia na eterna tristeza, na depressão sem fim, que devora, como verme e queima como fogo! Não aconteça que, no fim dos tempos, também nosso corpo tenha de padecer também este triste destino!

Eis, amados em Cristo, que o Senhor nos adverte! Procuremos, pois, viver de tal modo, que possamos ser considerados dignos de viver para sempre com Ele. Para isso, pautemos nossa vida pelo amor e obediência ao Senhor. Assim poderemos dizer como o Salmista, tendo os olhos fixos em Cristo nosso Deus e nossa vida: “Os meus passos eu firmei na Vossa estrada,/ e por isso os meus pés não vacilaram./ Eu Vos chamo, ó meu Deus, porque me ouvis,/ inclinai o Vosso ouvido e escutai-me!/ Protegei-me qual dos olhos a pupila/ e guardai-me, à proteção de Vossas asas./ Mas eu verei justificado a Vossa Face/ e ao despertar me saciará Vossa presença!”
Que o Senhor, que tudo pode, confirme a nossa esperança! Amém.


domingo, 3 de novembro de 2019

A fé da Igreja: o Juízo Final

1038. A ressurreição de todos os mortos, «justos e pecadores» (At 24,15), há de preceder o Juízo final. Será «a hora em que todos os que estão nos túmulos hão de ouvir a Sua voz e sairão: os que tiverem praticado o bem, para uma ressurreição de Vida, e os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de condenação» (Jo 5,28-29). Então Cristo virá «na Sua glória, com todos os Seus anjos [...]. Todas as nações se reunirão na Sua presença e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; e colocará as ovelhas à Sua direita e os cabritos à Sua esquerda. [...] Estes irão para o suplício eterno e os justos para a Vida eterna» (Mt 25, 31-33.46).

1039. É perante Cristo, que é a Verdade, que será definitivamente posta descoberto a verdade da relação de cada homem com Deus (cf. Jo 12,48). O Juízo final revelará, até às suas últimas consequências, o que cada um tiver feito ou deixado de fazer de bem durante a sua vida terrena:
«Todo o mal que os maus fazem é registrado – e eles não o sabem. No Dia em que "Deus virá e não Se calará" (Sl 50/49,3) [...]. Então, Ele Se voltará para os da Sua esquerda: "Na terra, dir-lhes-á, Eu tinha posto para vós os Meus pobrezinhos, Eu, Cabeça deles, estava nos Céus sentado à direita do Pai – mas na terra os Meus membros tinham fome: o que vós tivésseis dado aos Meus membros, teria chegado à Cabeça. Quando Eu coloquei os Meus pobrezinhos na terra, constituí-os vossos portadores para trazerem as vossas boas obras ao Meu tesouro. Vós nada depositastes nas mãos deles: por isso nada encontrais em Mim"» (Santo Agostinho de Hipona).
1040. O Juízo final terá lugar quando acontecer a Vinda gloriosa de Cristo. Só o Pai sabe o dia e a hora, só Ele decide sobre a Sua Vinda. Pelo Seu Filho Jesus Cristo, Ele pronunciará então a Sua palavra definitiva sobre toda a história. Nós saberemos o sentido último de toda a obra da criação e de toda a economia da salvação, e compreenderemos os caminhos admiráveis pelos quais a Sua providência tudo terá conduzido para o seu fim último. O Juízo final revelará como a justiça de Deus triunfa de todas as injustiças cometidas pelas suas criaturas e como o Seu amor é mais forte do que a morte (cf. Ct 8,6).

1041. A mensagem do Juízo final é um apelo à conversão, enquanto Deus dá ainda aos homens «o tempo favorável, o tempo da salvação» (2Cor 6,2). Ela inspira o santo temor de Deus, empenha na justiça do Reino de Deus e anuncia a «feliz esperança» (Tt 2,13) do regresso do Senhor, que virá «para ser glorificado nos Seus santos, e admirado em todos os que tiverem acreditado» (2Ts 1,10).


A fé da Igreja: o Inferno

1033. Não podemos estar em união com Deus se não escolhermos livremente amá-Lo. Mas não podemos amar a Deus se pecarmos gravemente contra Ele, contra o nosso próximo ou contra nós mesmos: «Quem não ama permanece na morte. Todo aquele que odeia o seu irmão é um homicida: ora vós sabeis que nenhum homicida tem em si a Vida eterna» (1Jo 3,14-15). Nosso Senhor adverte-nos de que seremos separados Dele, se descurarmos as necessidades graves dos pobres e  dos pequeninos Seus irmãos (cf. Mt 25,31-46). Morrer em pecado mortal sem arrependimento e sem dar acolhimento ao amor misericordioso de Deus, significa permanecer separado Dele para sempre, por nossa própria livre escolha. E é este estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa pela palavra «Inferno».

1034. Jesus fala muitas vezes da «Geena» do «fogo que não se apaga» (Mt 5,22.29; 13,42.50; Mc 9,43-48) reservada aos que recusam, até ao fim da vida, acreditar e converter-se, e na qual podem perder-se, ao mesmo tempo, a alma e o corpo (cf. Mt 10,28). Jesus anuncia, em termos muitos severos, que «enviará os Seus anjos que tirarão do Seu Reino [...] todos os que praticaram a iniquidade, e hão de lançá-los na fornalha ardente» (Mt 13,41-42), e sobre eles pronunciará a sentença: «afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno» (Mt 25,41).

1035. A doutrina da Igreja afirma a existência do Inferno e a sua eternidade. As almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente, após a morte, aos infernos, onde sofrem as penas do Inferno, «o fogo eterno». A principal pena do inferno consiste na separação eterna de Deus, o único em Quem o homem pode ter a Vida e a felicidade para que foi criado e a que aspira.

1036. As afirmações da Sagrada Escritura e os ensinamentos da Igreja a respeito do Inferno são um apelo ao sentido de responsabilidade com que o homem deve usar da sua liberdade, tendo em vista o destino eterno. Constituem, ao mesmo tempo, um apelo urgente à conversão: «Entrai pela porta estreita, pois larga é a porta e espaçoso o caminho que levam à perdição e muitos são os que seguem por eles. Que estreita é a porta e apertado o caminho que levam à Vida e como são poucos aqueles que os encontram!» (Mt 7, 13-14):
«Como não sabemos o dia nem a hora, é preciso que, segundo a recomendação do Senhor, vigiemos continuamente, a fim de que, no termo da nossa vida terrena, que é só uma, mereçamos entrar com Ele para o banquete de núpcias e ser contados entre os benditos, e não sejamos lançados, como servos maus e preguiçosos, no fogo eterno, nas trevas exteriores, onde "haverá choro e ranger de dentes"» (Concílio Vaticano II, Lumen Gentium 48).
1037. Deus não predestina ninguém para o Inferno. Para ter semelhante destino, é preciso haver uma aversão voluntária a Deus (pecado mortal) e persistir nela até ao fim. Na Liturgia eucarística e nas orações cotidianas dos seus fiéis, a Igreja implora a misericórdia de Deus, «que não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam» (2 Pd 3,9):
«Aceitai benignamente, Senhor, a oblação que nós, vossos servos, com toda a vossa família, Vos apresentamos. Dai a paz aos nossos dias livrai-nos da condenação eterna e contai-nos entre os vossos eleitos».

Homilia para a Solenidade de Todos os Santos

Ap 7,2-4.9-14
Sl 23
1Jo 3,1-3
Mt 5,1-12

Hoje, a Igreja volta seu olhar e seu coração para o Céu e enche-se de alegria ao contemplar uma multidão que participa da Glória e da plenitude do Deus Santo.

A nossa fé nos ensina que somente Deus é Santo.
Na Bíblia, “santo” significa, literalmente, “separado”. Deus é aquele que é separado, absolutamente diferente de tudo quanto exista no Céu e na terra: Ele é único, Ele é absoluto, Ele sozinho Se basta, sozinho é pleno, sozinho é infinitamente feliz. Ele é Deus! Por isso, Santo, em sentido absoluto, é somente o Deus uno e trino, Pai, Filho e Espírito Santo. A Jesus, o Filho eterno feito homem, nós proclamamos em cada missa: “Só Vós sois o Santo”; ao Pai nós dizemos: “Na verdade, ó Pai, Vós sois Santo e fonte de toda santidade”; ao divino Espírito nós chamamos de Santo.

Mas, a nossa fé também nos ensina que este Deus santo e pleno, dobra-Se carinhosamente sobre a humanidade – sobre cada um de nós – para nos dar a Sua própria Vida, para nos fazer participantes de Sua própria plenitude, Sua própria santidade.
Foi assim que o Pai, cheio de imenso amor, enviou-nos Seu Filho único até nós, e este, morto e ressuscitado, infundiu no mais íntimo de nós e de toda a Igreja o Seu Espírito de santidade.
Eis, quanta misericórdia: Deus, o único Santo, nos santifica pelo Filho no Espírito: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!” (1Jo 3,1) É isto a santidade para nós: participar da Vida do próprio Deus, sermos separados, consagrados por Ele e para Ele desde o nosso Batismo, para vivermos Sua própria Vida, Vida de filhos no Filho Jesus! É assim que todo cristão é um santificado, um separado para Deus.
Mas, esta santidade que já possuímos deve, contudo, aparecer no nosso modo de viver, nas nossas ações e atitudes. E o modelo de toda santidade é Jesus, o Bem-aventurado. Ele, o Filho, foi totalmente aberto para o Pai no Espírito Santo e, por isso, foi totalmente pobre, totalmente manso, totalmente puro e abandonado a Deus no pranto, na fome de justiça e na misericórdia. Então, ser santo, é ser como Jesus, deixando-se guiar e transformar pelo Seu Espírito em direção ao Pai. Esta santidade é um processo que dura a vida toda e somente será pleno na Glória. São João nos fala disso na segunda leitura de hoje: “Quando Cristo Se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como Ele é”.

Nesta perspectiva, podemos contemplar a estupenda leitura do Apocalipse que escutamos como primeira leitura. O que se vê aí? Uma multidão.
Primeiro, cento e quarenta e quatro mil de todas as tribos do Povo de Deus. Isto simboliza todo o Novo Israel. Recordemos: 12 é o número do Povo do Antigo Testamento e da Igreja fundada sobre os Apóstolos. Pois bem, cento e quarenta e quatro mil equivale a 12 x 12 x 1000, isto é, à totalidade do Povo de Deus que ainda peregrina neste mundo, entre lutas e tribulações: todos aqueles que, crendo no Cristo, em Seu santo Nome tendo recebido o Batismo, vivendo na Sua Palavra e do Corpo do Senhor nutrindo-se na Eucaristia, combatem de coração ao Reino de Deus por uma vida de santidade!
O Senhor Deus não Se cansa de chamar o Seu Povo, o Senhor continua nos chamando, até que o número dos eleitos se cumpra. E este número é completo, pleno, amplo, largo, pois o desejo de Deus é a salvação de todos!

Mas, há ainda mais: “Depois disso, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro”. Essa multidão são todos os povos da terra, chamados por Cristo, na Igreja, e que já chegaram à salvação, à Glória, que, para eles, já é uma posse e, para nós, é ainda uma firme esperança. Enquanto nós ainda lutamos e caminhamos, eles já chegaram, já estão em Glória; não dormindo, não em morte, mas em Glória, imersos na Vida do Cristo ressuscitado! Seus corpos dormem ainda, suas almas, resplandecentes do Espírito de Cristo, já estão na Gloria de Cristo!
Notemos bem: “uma multidão que ninguém podia contar”. A salvação é para todos, a santidade não é para um grupinho de eleitos, para uma elite espiritual. Todos são chamados a essa Vida divina que Deus quer partilhar conosco, todos são chamados à santidade!

“Trajavam vestes brancas e traziam palmas nas mãos. São os que vieram da grande tribulação e lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro”. Eis quem são os santos: aqueles que atravessaram as lutas desta vida, as tribulações desta nossa pobre existência, unidos a Cristo; são os que venceram em Cristo – por isso já trazem, agora, a palma da vitória; são os que não tiveram medo de viver e, se caíram, se erraram, foram, humildemente, lavando e alvejando suas vestes no sangue precioso de Cristo: são santos não com sua própria santidade, mas com a santidade do Cristo-Deus. 
Nunca esqueçamos: ninguém é santo com suas forças, ninguém é santo por sua própria santidade: só em Cristo somos santificados, pois somente Cristo derrama sobre nós o Espírito de santidade. O nosso único trabalho é lutar para acolher esse Espírito, deixando-nos guiar por Ele e por Ele sermos transfigurados em Cristo!

Olhemos para o Céu: lá estão Pedro e Paulo, lá estão os Doze, lá estão os mártires de Cristo, os santos pastores e doutores, lá estão as santas virgens e os santos homens, lá estão tantos e tantos – uns, conhecidos e reconhecidos pela Igreja publicamente, outros, cujo nome somente Deus conhece; lá está a Santíssima e Bem-aventurada sempre Virgem Maria, Mãe e discípula perfeita do Cristo, toda plena do Espírito, toda obediente ao Pai. Eles chegaram lá, eles intercedem por nós, eles são nossos modelos, eles nos esperam.

Num mundo que vive estressado, que corre sem saber para onde, num mundo que já não crê nos verdadeiros valores, porque já não crê em Deus, contemplar hoje todos os santos é recordar para onde vamos e qual é o sentido da nossa vida! Não tenhamos medo de ser de Deus, não tenhamos medo de testemunhar o Evangelho, não tenhamos medo de alimentar nossa visa com o Cristo, na Sua Palavra e na Sua Eucaristia para sermos inebriados da Vida do próprio Deus.

Infelizmente, muitos hoje têm como heróis os atletas, os atores, os cantores e tantos outros que não têm muito e até nada para ensinar. Quanto a nós, que nossos heróis e modelos sejam os santos e santas de Cristo, que foram heróis porque se venceram a si próprios, e correram para o Cristo! Que eles roguem por nós, pois o que eles foram, nós somos e o que eles são, todos nós somos chamados a ser. Todos os santos e santas de Deus, rogai por nós!


A purificação após morte: o Purgatório

Vamos falar sobre o purgatório. Por ocasião da Comemoração dos Fieis Defuntos, o Dia de Finados, é conveniente que nos detenhamos mais sobre este tema.


Nossos irmãos protestantes criticam-nos e dizem que o purgatório é invenção da Igreja católica! Nada disso! A doutrina do purgatório está presente na Sagrada Escritura de modo implícito e na contínua Tradição da Igreja. O problema é compreendê-la bem, para não terminar colocando na nossa cabeça coisas que a Igreja jamais ensinou, deturpando, assim, a nossa fé católica!


Primeiramente é necessário deixar claro uma coisa: não existe, na Bíblia, uma passagem falando sobre o purgatório, nem tampouco existe esta palavra “purgatório”! É inútil procurar. Mas, vejamos bem os seguintes pontos:

1. No Antigo Testamento aparece uma constante convicção que somente uma absoluta pureza é digna de ser admitida à Visão de Deus; nada de impuro pode estar diante Dele:

Tendo Moisés transmitido ao Senhor a resposta do povo, o Senhor lhe disse: “Vai ter com o povo e o santifica, hoje e amanhã. Eles devem lavar as vestes, e estar prontos para o terceiro dia, pois no terceiro dia o Senhor descerá à vista de todo o povo sobre a montanha do Sinai.
O povo todo presenciou os trovões, os relâmpagos, o som da trombeta e a montanha fumegando. à vista disso, o povo permaneceu ao longe, tremendo de pavor. Disseram a Moisés: “Fala-nos tu, e te escutaremos. Mas que não nos fale Deus, do contrário morreremos” (Ex 19,10s; 20,18s).

Ai de mim! Estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de lábios impuros, e meus olhos viram o Rei, o Senhor Todo-poderoso” (Is 6,5)

Lá haverá um caminho;
chamar-se-à Caminho Santo.
Nenhum impuro passará por ele;
os insensatos não errarão nele (Is 35,8).


Também o Novo Testamento tem esta mesma convicção: Jesus afirma que os puros de coração verão a Deus (cf. Mt 5,8) e o Apocalipse diz que nada profano entrará na nova Jerusalém (cf. 21,27).


2. Outro elemento, ainda mais importante, presente na Bíblia, é a convicção da responsabilidade humana no processo da justificação (isto é, de sermos santificados por Deus), que implica na necessidade de uma participação pessoal na reconciliação com Deus e na aceitação das consequências penais derivadas dos pecados. Em outras palavras: Deus não salva o homem automaticamente, sem a sua aceitação e sem a sua participação - não somos fantoches de Deus! Em 2Sm 12, que conta o pecado de Davi com a mulher de Urias, existe uma típica distinção entre culpa e pena: Deus perdoou o pecado de Davi, mas a pena pelo pecado permaneceu: o filhinho morreu! Afinal de contas, o pecado, como fruto de uma livre decisão, não é um ato mecânico nem isolado, mas afeta a estrutura global do homem, tanto na sua dimensão pessoal quanto comunitária. Dou um exemplo: imaginem uma pessoa que gosta de difamar os outros. Cada vez que ela cai neste pecado e se confessa, o pecado é perdoado, mas as consequências permanecem: em primeiro lugar, esta pessoa, cada vez que cai neste pecado, fica mais fraca, mais viciada nele; em segundo lugar, pensem no mal, na difamação que ela espalhou! Tudo isto pesa na nossa vida: nós somos aquilo que fomos fazendo na vida; nossos atos nos formam, formam nossa personalidade e terão consequências no nosso destino eterno!

Agora, vejam bem: é precisamente estas duas ideias que abrem a possibilidade de que alguma pessoa de bem, amiga de Cristo, morra sem ter alcançado o grau de maturidade espiritual requerida para viver na comunhão imediata com Deus, havendo, portanto, a necessidade de uma purificação após a morte. Imaginem uma pessoa que ama o Cristo, que vive Nele, que tem uma vida autenticamente cristã, mas esta pessoa tem um vício, uma falha, uma má tendência que não consegue superar por fraqueza ou porque não lutou o suficiente contra ela. Ora, após a morte, certamente esta pessoa vai ter que ser purificada desta má tendência que estava “colada” nela: é como a ferrugem que precisa ser raspada! É à luz dessa situação que a Escritura apresenta e aprova o costume da oração pelos defuntos. Leia, por exemplo, 2Mc 12,40ss. Vejamos também outros textos:

De outra maneira, o que pretendem aqueles que se batizam em favor dos mortos? Se os mortos realmente não ressuscitam, por que se batizam por eles? (1Cor 15,29)

O Apóstolo, aqui, refere-se a uma rito existente na Igreja de Corinto de "fazer-se batizar pelos mortos”. Parece que os fieis esperavam que um batismo no lugar dos mortos favoreceria os membros pagãos de suas famílias que já haviam falecido. Ou então, o batismo no lugar dos catecúmenos falecidos antes do batismo. Paulo nem aprova nem desaprova tal prática... O que nos interessa aqui é a convicção que Paulo mostra de que certas ações litúrgicas, certas orações da Igreja, poderiam ser proveitosas aos mortos! Isso aparece claro!

O Senhor conceda sua misericórdia à família de Onesíforo, porque muitas vezes me socorreu e não se envergonhou de minhas algemas. Pelo contrário, quando veio a Roma, procurou-me com solicitude até me encontrar. O Senhor lhe conceda a graça de obter misericórdia junto ao Senhor naquele Dia. Sabes melhor do que ninguém, quantos bons serviços prestou ele em Éfeso (2Tm 1,16-18).

Segundo todos os indícios, Onesíforo está morto e Paulo intercede por ele, suplicando a misericórdia do Senhor. Em outras palavras, Paulo reza por um morto!

Concluindo, está presente na Escritura a oração pelos mortos, que a Igreja conheceu e praticou constantemente. Também a Tradição mais antiga da Igreja atesta abundantemente o costume de rezar pelos mortos litúrgica e privadamente. Tais testemunhos encontram-se, particularmente, nas catacumbas e cemitérios. Pense-se, por exemplo, na famosa inscrição encontrada sobre o túmulo de um cristão chamado Abércio, no início do cristianismo. Aí lê-se: 
... quem compreende e está de acordo com estas coisas, rogue por Abércio.

Tertuliano, no século III, atesta largamente o costume de orar pelos defuntos pública e privadamente, inclusive oferecendo por eles a Eucaristia. Ele diz claramente que a viúva

ora pela alma (do marido)... e oferece um Sacrifício em cada aniversário de sua morte.

Assim, é claríssimo o costume da oração pelos mortos nos quatro primeiros séculos cristãos. Um texto que teve particular importância para o nosso tema foi o de São Cipriano, Bispo de Cartago no século III. Explicando uma frase de Cristo, ele diz o seguinte:

Uma coisa é não sair o encarcerado até pagar o último centavo e outra é receber sem demora o prêmio da fé e do valor. Uma coisa é purificar-se dos pecados pelo tormento de grandes dores e purgar muito tempo pelo fogo... e outra, ser coroado logo pelo Senhor.

Cipriano, aqui, refere-se aos que fugiram do martírio nas perseguições: para aqueles que não puderam se purificar antes da morte ou pelo martírio, haverá um “fogo purificador”, fogo "purgatório". Aqui aparece pela primeira vez um testemunho explícito da convicção deste estado purgatório. Mas, notemos que a expressão “fogo purgatório” é, metafórica. 

Desde então, vai aparecendo cada vez mais claro para os cristãos:

(1) a existência de um estado no qual os defuntos são purificados,
(2) o caráter penal-expiatório deste estado e
(3) a ajuda que os sufrágios, as orações dos vivos podem dar aos defuntos.

Afinal, como devemos entender o purgatório? Vamos partir de uma belíssima imagem do Apocalipse, que descreve o Cristo ressuscitado:

Os olhos eram como chamas de fogo. Os pés, semelhantes ao bronze incandescente no forno, e a voz, como a voz de muitas águas (Ap 1,14b-15 cf. Dn 10,6).

Morrer é partir para estar com Cristo, para encontrar Aquele que “tem os olhos de fogo”, quer dizer, que nos vê como somos. No nosso encontro com Ele, este fogo do Seu olhar amoroso, fogo que é o próprio Espírito Santo, nos purificará: tudo aquilo que em nós foi “poeira do caminho”, aquelas pequenas coisas que ainda nos atrapalhavam e impediam que fôssemos totalmente livres, serão “queimadas”, purificadas no abraço final que Cristo nos dará! Então, compreendamos bem: o purgatório não é um "lugar" no sentido material, nem está entre o Céu e o inferno! O purgatório é a purificação que recebemos logo após a nossa morte, quando o abraço amoroso de Cristo nos envolve no fogo do Seu Amor! A gente passa pelo purgatório logo após a morte, caso ainda tenhamos aqueles apegozinhos, aquelas escravidõezinhas, aqueles pecadinhos de estimação.... Cristo completará em nós a obra começada. 
Mas, atenção: não é que a gente vai se converter depois da morte! Nada disso! Com a morte acaba nossa possibilidade de escolha: o purgatório é para quem escolheu o Cristo, viveu com Ele, mas ainda tinha as pequenas incoerências de cada dia! Quem escolheu viver longe de Cristo não experimenta o purgatório, mas, ao contrário, viverá para sempre na contradição do inferno.

E as famosas penas do purgatório? Trata-se da dor, do sofrimento por ver que não amamos o bastante o Senhor. Quem é amado e descobre que não correspondeu a este amor como devia, sofre! As penas são devidas também ao apego que se teve a determinados vícios, que se tornaram como que incrustados como uma segunda natureza no pecador. Ora, arrancar tais vícios certamente acarreta penas dolorosas, pelo apego, pelo arraigado que estavam na pessoa que neles consentiram.
Assim, o sofrimento do purgatório não é algo que Deus nos impõe, mas algo que vem da nossa própria imperfeição, da dor de não ter amado o bastante e do apego arraigamento do vício em nós. Daí a importância de nos trabalharmos agora pela ascese, pela prática dos sacramentos, pelo rompimento com tudo quanto nos atrapalha no caminho do Senhor! Que fique bem claro: as penas purgatórias são reais e necessárias!

E para que rezar pelos mortos que passam por este estágio purgatório? Já vimos que a Escritura Santa atesta a oração pelos mortos: trata-se de uma expressão belíssima da solidariedade dos membros do Corpo de Cristo: os mortos não cumprem seu destino de modo solitário, mas inseridos no Corpo do Senhor. A Igreja da terra está unida à Igreja que se purifica: o amor de Cristo nos uniu! Inseridos no Corpo de Cristo pelo Batismo, jamais estamos isolados, jamais estamos sozinhos! Mais ainda: neles, a Igreja mesma se purifica para ser Igreja glorificada!

Uma última questão: se o purgatório acontece imediatamente após a morte, para quê, então, rezar pelos mortos? É que para Deus não há tempo; tudo para Ele é presente: a oração que fazemos hoje serve para um irmão nosso que já morreu há cem anos! Depois, atenção: no Além não se pode falar em duração no mesmo sentido daqui, deste mundo... O "ficar" ou o "passar" pelo purgatório são modos que temos aqui de falar sobre as realidades do Além!

Assim, rezemos pelos nossos mortos. Às vezes a gente escuta dizer na Missa: “pelas almas do purgatório...” O que significa isso? Simplesmente: “pelos nossos irmãos que se purificam...” Rezamos para que sintam nossa solidariedade, já que a Igreja é a comunhão dos santos (dos batizados), todos unidos no Corpo de Cristo ressuscitado.

É muito errado fantasiar o purgatório, pensando que é um lugar geográfico, ou que lá se está sofrendo castigos, ou que alguém fique lá por uns tempos no nosso sentido cronológico... Na outra vida não há tempo como aqui, nesta vida! Cuidado com as afirmações infantis!

Uma coisa é certa: somente purificados de nossas incoerências e imperfeições poderemos estar com Aquele que é a Verdade. Se não arrancarmos nossos pecadinhos de estimação aqui, o Senhor vai arrancá-los no momento de nosso encontro com Ele! E que dor saber que não fomos generosos o bastante; que dor ver essas imperfeições e pequenas infidelidades arrancadas de modo violento para nós, porque a elas estávamos apegados! É isto - tudo isto e só isto - que a Igreja quer dizer quando fala em purgatório!



A fé da Igreja: o Purgatório

1030. Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do Céu.
1031. A Igreja chama Purgatório a esta purificação final dos eleitos, que é absolutamente distinta do castigo dos condenados. A Igreja formulou a doutrina da fé relativamente ao Purgatório sobretudo nos concílios de Florença e de Trento. A Tradição da Igreja, referindo-se a certos textos da Escritura fala dum fogo purificador:
«Pelo que diz respeito a certas faltas leves, deve crer-se que existe, antes do julgamento, um fogo purificador, conforme afirma Aquele que é a Verdade, quando diz que, se alguém proferir uma blasfêmia contra o Espírito Santo, isso não lhe será perdoado nem neste século nem no século futuro (cf. Mt 12,32). Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas neste mundo e outras no mundo que há de vir» (São Gregório Magno).
1032. Esta doutrina apoia-se também na prática da oração pelos defuntos, de que já fala a Sagrada Escritura: «Por isso, [Judas Macabeu] pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres das suas faltas» (2Mac 12,46). Desde os primeiros tempos, a Igreja honrou a memória dos defuntos, oferecendo sufrágios em seu favor, particularmente o Sacrifício eucarístico para que, purificados, possam chegar à Visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também a esmola, as indulgências e as obras de penitência a favor dos defuntos:
«Socorramo-los e façamos comemoração deles. Se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício do seu pai por que duvidar de que as nossas oferendas pelos defuntos lhes levam alguma consolação? [...] Não hesitemos em socorrer os que partiram e em oferecer por eles as nossas orações» (São João Crisóstomo).


A fé da Igreja: o Céu

1023. Os que morrerem na graça e na amizade de Deus e estiverem perfeitamente purificados, viverão para sempre com Cristo. Serão para sempre semelhantes a Deus, porque O verão «tal como Ele é» (1 Jo 3,2), «face a face» (1Cor 13, 12) (615):
«Com a nossa autoridade apostólica, definimos que, por geral disposição divina, as almas de todos os santos mortos antes da Paixão de Cristo [...] e as de todos os outros fiéis que morreram depois de terem recebido o santo Batismo de Cristo e nas quais nada havia a purificar no momento da morte, ou ainda daqueles que, se no momento da morte houve ou ainda há qualquer coisa a purificar, acabaram por o fazer [...] mesmo antes de ressuscitarem em seus corpos e do Juízo universal – e isto depois da Ascensão aos Céus do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo –, estiveram, estão e estarão no Céu, associadas ao Reino dos Céus e no paraíso celeste, com Cristo, na companhia dos santos anjos. E depois da Paixão e Morte de nosso Senhor Jesus Cristo, essas almas viram e veem a Essência divina com uma visão intuitiva e face a face, sem a mediação de qualquer criatura» (Bento XII, Bula Benedictus Deus - DS 1000).
1024. Esta vida perfeita com a Santíssima Trindade, esta comunhão de vida e de amor com Ela, com a Virgem Maria, com os anjos e todos os bem-aventurados, chama-se «Céu». O Céu é o fim último e a realização das aspirações mais profundas do homem, o estado de felicidade suprema e definitiva.

1025. Viver no Céu é «estar com Cristo» (Jo 14,3; Fl 1,23; 1Ts 4,17). Os eleitos vivem «Nele»; mas Nele conservam, ou melhor, encontram a sua verdadeira identidade, o seu nome próprio (cf. Ap 2,17):
«Porque a Vida consiste em estar com Cristo, onde está Cristo, aí está a Vida, aí está o Reino» (Santo Ambrósio).
1026. Pela Sua Morte e Ressurreição, Jesus Cristo «abriu-nos» o Céu. A Vida dos bem-aventurados consiste na posse em plenitude dos frutos da redenção operada por Cristo, que associa à Sua glorificação celeste aqueles que Nele acreditaram e permaneceram fiéis à Sua vontade. O Céu é a comunidade bem-aventurada de todos os que estão perfeitamente incorporados Nele.

1027. Este mistério de comunhão bem-aventurada com Deus e com todos os que estão em Cristo ultrapassa toda a compreensão e toda a representação. A Sagrada Escritura fala-nos dele por imagens: vida, luz, paz, banquete de núpcias, vinho do Reino, casa do Pai, Jerusalém celeste, paraíso: aquilo que «nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou pelo pensamento do homem, Deus o preparou para aqueles que O amam» (1Cor 2,9).

1028. Em virtude da Sua transcendência, Deus não pode ser visto tal como é, senão quando Ele próprio abrir o Seu Mistério à contemplação imediata do homem e lhe der capacidade para O contemplar. Esta contemplação de Deus na Sua Glória celeste é chamada pela Igreja «visão beatífica»:
«Qual não será a tua glória e a tua felicidade quando fores admitido a ver a Deus, a ter a honra de participar nas alegrias da salvação e da luz eterna, na companhia de Cristo Senhor teu Deus, [...] gozar no Reino dos Céus, na companhia dos justos e dos amigos de Deus, das alegrias da imortalidade alcançada!» (São Cipriano de Cartago).
1029. Na glória do Céu, os bem-aventurados continuam a cumprir com alegria a vontade de Deus, em relação aos outros homens e a toda a criação. Eles já reinam com Cristo. Com Ele «reinarão pelos séculos dos séculos» (Ap 22,5).


sábado, 2 de novembro de 2019

A fé da Igreja: o Juízo Particular

1021. A morte põe termo à vida do homem, enquanto tempo aberto à aceitação ou à rejeição da graça divina, manifestada em Jesus Cristo (cf. 2Tm 1,9s). O Novo Testamento fala do juízo, principalmente na perspectiva do encontro final com Cristo na Sua segunda Vinda. Mas também afirma, reiteradamente, a retribuição imediata depois da morte de cada qual, em função das suas obras e da sua fé. A parábola do pobre Lázaro (cf. Lc 16,22) e a palavra de Cristo crucificado ao bom ladrão (cf. Lc 23,43), assim como outros textos do Novo Testamento (cf. 2Cor 5,8; Fl 1,23; Hb 9,27; 12,23), falam dum destino final da alma (cf. Mt 16,26), o qual pode ser diferente para umas e para outras.

1022. Ao morrer, cada homem recebe na sua alma imortal a retribuição eterna, num juízo particular que põe a sua vida em referência a Cristo, quer através duma purificação, quer para entrar imediatamente na felicidade do Céu, quer para se condenar imediatamente para sempre.

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A fé da Igreja: Creio na Vida eterna

1020. O cristão, que une a sua própria morte à de Jesus, encara a morte como chegada até junto Dele, como entrada na Vida eterna.

A Igreja, depois de, pela última vez, ter pronunciado sobre o cristão moribundo as palavras de perdão da absolvição de Cristo e de, pela última vez, o ter marcado com uma Unção fortificante e lhe ter dado Cristo, no Viático, como alimento para a viagem, fala-lhe com estas doces e confiantes palavras:
«Parte deste mundo, alma cristã, em nome de Deus Pai onipotente, que te criou, em nome de Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, que por ti sofreu, em nome do Espírito Santo, que sobre ti desceu; chegues hoje ao lugar da paz e a tua morada seja no Céu, junto de Deus, na companhia da Virgem Maria, Mãe de Deus, de São José e de todos os Anjos e Santos de Deus [...]. Confio-te ao Criador para que voltes Àquele que te formou do pó da terra. Venham ao encontro de ti, que estás a partir desta vida, Santa Maria, os Anjos e todos os Santos [...]. Vejas o teu Redentor face a face e gozes da contemplação de Deus pelos séculos dos séculos». - (Catecismo da Igreja Católica)

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A nossa irmã morte

A Igreja dá à data litúrgica de 2 de novembro o título de “Comemoração de todos os fiéis defuntos”. É um dia no qual nós, cristãos, rezamos principalmente pelos nossos irmãos na fé, ou seja, os batizados em Cristo, que já morreram. Claro que toda a humanidade – e não só os cristãos – são objeto da oração e solicitude da Igreja, que é Corpo de Cristo, o Salvador de todos! Diariamente, na Santa Missa, a Igreja recorda não somente os “nossos irmãos que partiram desta vida”, mas também “todos aqueles cuja fé só Vós conheceis”!

Seja como for, o Dia de Finados coloca-nos diante de uma questão fundamental para nossa existência: a questão da morte. Nosso modo de enfrentar a vida depende muito do modo como encaramos a morte, e vice-versa! Atualmente, há quatro modos possíveis de encará-la, de colocar-se diante da realidade da morte. Senão vejamos:

Há aqueles – e não são poucos – que cinicamente a ignoram. Vivem como se um dia não tivessem que morrer: preocupam-se tão somente com esta vida: comamos e bebamos! Em geral, quando vão a um sepultamento, conversam o tempo todo sobre futebol, política ou quaisquer outros assuntos banais e rasteiros. São pessoas rasas, essas; pessoas que nunca pararam de verdade para se perguntar sobre o sentido da vida e, por isso mesmo, não vivem; sobrevivem, apenas! Estas, quando tiverem que enfrentar a própria morte, que vazio, que absurdo encontrarão! É o preço a pagar pelo modo leviano com que viveram a vida! Isto é triste porque quando o homem não pensa na morte, esquece que é finito, passageiro, fugaz e, assim, começa a julgar-se Deus de si mesmo e tudo que consegue é infernizar sua vida e a dos outros. São tantos os exemplos atuais...

Há ainda aqueles que diante da morte se angustiam, apavoram-se até ao desespero. A morte os amedronta: parece-lhes uma insensatez sem fim, pois é a negação de todo desejo de vida, de felicidade e eternidade que cresce no coração do homem. Estes sentem-se esmagados pela certeza de um dia ter que encarar, frente a frente, tão fria, tirana e poderosa adversária. Assim, querendo ou não, podem afirmar como Sartre, o filósofo francês: “A vida é uma paixão inútil!”

Há também um terceiro grupo: o dos otimistas ingênuos. Vemo-los nessas seitas esotéricas de inspiração oriental e em todas as doutrinas reencarnacionistas. Certas seitas orientais, por exemplo, afirmam que o mal, a doença, a morte, são apenas ilusão: a meditação, o autocontrole, a purificação contínua, podem libertar o homem de tais ilusões; o espiritismo, proclama, bêbado de doce ilusão: “A morte não existe. Não há mortos!” – É esta a afirmação existente num monumento ao nascimento do espiritismo moderno, em Hydesville, Estados Unidos. Não há morte para nos agredir; há somente uma desencarnação!

Mas, há ainda um último modo de encarar a morte, tipicamente cristão. A morte existe sim! E dói! E machuca! Não somente existe, como também marca toda a nossa existência: vivemos feridos por ela, em cada dor, em cada doença, em cada derrota, em cada medo, em cada tristeza, até a morte final! Não se pode fazer pouco caso dela: ela nos magoa e nos ameaça; desrespeita-nos e entristece-nos, frustra nossas expectativas sem pedir permissão! O cristão é realista diante da morte; recorda-se da palavra de Gn 2,17: “De morte morrerás!” Então, os discípulos de Cristo somos pessimistas? Não! Nós simplesmente não nos iludimos: sabemos que a morte é uma realidade e uma realidade que não estava no plano de Deus para nós: não fomos criados para a ela, mas para a vida! Deus não é o autor da morte, não a quer nem Se conforma com ela! Por isso mesmo enviou-nos o Seu Filho, aquele mesmo que disse: “Eu sou a Vida; Eu sou a Ressurreição!” Ele morreu da nossa morte para que nós não morramos sozinhos, mas morramos com Ele e como Ele, que venceu a morte! Para nós, cristãos, a morte, que era como uma caverna escura, sem saída, tornou-se um túnel, cujo final é luminoso. Isto mesmo: Cristo arrombou as portas da morte! Ela tornou-se apenas uma passagem, um caminho para a nossa Páscoa, nossa passagem deste mundo para o Pai: “Ainda que eu passe pelo vale da morte, nenhum mal temerei, porque estás comigo!” Em Cristo a morte pode ser enfrentada e vencida! Certamente, ela continua dolorosa, ela nos desrespeita; mas, caso no dia a dia aprendamos a viver unidos a Cristo e a vivenciar as pequenas mortes de cada momento em comunhão com Senhor que venceu a morte, a morte final será um “adormecer em Cristo”.

Por tudo isso, o Dia de Finados é sempre excelente ocasião não somente para rezar pelos nossos irmãos já falecidos, mas também para pensarmos na nossa morte e na nossa vida, pois “tal vida, tal morte!”

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