sábado, 19 de abril de 2014

Retiro Quaresmal - A Paixão segundo Mateus (11)

Tríduo Pascal: Sábado Santo – XL e último Dia de Penitência

Mt 27,32-44

32Ao saírem, encontraram um homem chamado Simão, que era de Cirene, e o obrigaram a carregar a cruz de Jesus. 33E chegaram a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer Calvário. 34Deram-Lhe de beber vinho misturado com fel. Ele provou, mas não quis beber. 35Depois de O crucificarem, repartiram as Suas vestes tirando a sorte. 36E ficaram ali sentados, montando guarda. 37Acima da cabeça de Jesus puseram o motivo da condenação: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus”. 38Com Ele também crucificaram dois ladrões, um à Sua direita e outro, à esquerda.
39Os que passavam por ali O insultavam, balançando a cabeça e dizendo: 40“Tu que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-Te a Ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!” 41Do mesmo modo zombavam de Jesus os sumos sacerdotes, junto com os escribas e os anciãos, dizendo: 42“A outros salvou, a Si mesmo não pode salvar! É Rei de Israel: desça agora da cruz, e acreditaremos Nele. 43Confiou em Deus; que O livre agora, se é que O ama! Pois Ele disse: ‘Eu sou Filho de Deus’”.
44Do mesmo modo, também O insultavam os dois ladrões que foram crucificados com Ele.

Comentando:

No caminho para a crucifixão os soldados obrigam um judeu do norte da África, de Cirene, a levar a cruz de Jesus. Por que isso? Pelo estado de debilidade em que o Senhor Se encontrava. Não era normal uma flagelação tão severa como aquela que Ele sofrera.
Recorde, meu Leitor: Pilatos queria impressionar a turba; por isso a flagelação fora severa! Jesus deveria estar extenuado: fome, cansaço, derrocada emocional... Não suportaria levar a trave horizontal da cruz até o local da execução da sentença. Por isso os soldados, utilizando uma prerrogativa que a lei romana lhes dava, recrutam um homem do povo para ajudar ao prisioneiro.
Sabemos com relativa certeza que esse judeu de Cirene converteu-se ao cristianismo! Marcos nos indica isso, ao afirmar que ele era o pai de Alexandre e Rufo (cf. Mc 15,21). O modo como o Evangelista refere-se aos dois filhos de Simão dá a entender fortemente que eles eram bem conhecidos da comunidade cristã: eram cristãos! Que honra, depois para esses filhos! Que honra para esse homem de Cirene, poder testemunhar na Igreja dos primeiros anos que ajudara o Senhor a levar Sua cruz, cruz que remiu o mundo inteiro! Caminhos de Deus! Quando menos esperamos, nas estradas de nossa existência, o Senhor vem ao nosso encontro, e nos apela, e nos interpela! Feliz aquele que não foge Dele e dos Seus apelos!

Com a ajuda de Simão Jesus consegue chegar ao Gólgota, pequena colina próxima à muralha de Jerusalém do século I. Era proibido malfeitores morrerem dentro da cidade! Jesus, o Santo, o Justo, o Inocente, tratado como um malfeitor! Excluído da Cidade Santa dos judeus, morrendo fora dos muros do judaísmo, Jesus será início de uma Nova Aliança, será pedra angular de uma nova Jerusalém, aquela celeste. De modo comovente, o Autor da carta aos Hebreus nos convida a seguir o nosso bendito Senhor no caminho de Sua humilhação: “Jesus sofreu do lado de fora da porta, para, com Seu sangue, santificar o povo. Vamos, portanto, sair ao Seu encontro, fora do acampamento, carregando a Sua humilhação” (Hb 13,12s).
Eis o convite que nos é feito: ir com Jesus, sair da cidade – a cidade aqui é tudo quanto construímos, tudo quanto este mundo constrói, buscando vida, felicidade e segurança... E por quê? “Por que não temos aqui cidade permanente, mas estamos à procura da que está para vir!” (Hb 13,14).
Nem o judaísmo pode ser nossa cidade nem aquilo que o mundo pode oferecer como critério, certeza e segurança! Nossa esperança encontra-se na Jerusalém celeste, edificada pelo Senhor e prenunciada pela Igreja (cf. Gl 4,26).

A bebida que deram a Jesus deve ter sido na verdade vinho com mirra (cf. Mc 15,23), que tinha um efeito entorpecente. Mateus fala em fel certamente pensando no Sl 68,22. Em todo caso, Jesus rejeita: quer beber o cálice que o Pai Lhe deu até o fim, em total obediência e disponibilidade!

Depois, as vestes repartidas, o motivo da condenação – aquele, de cunho político, apresentado de modo desonesto diante do tribunal de Pilatos: “Rei dos judeus!” -, os ladrões que zombam Dele (em Mateus não há bom ladrão: os dois zombam), e os insultos dos transeuntes e dos chefes.
Observe que os judeus zombam e insultam usando os argumentos apresentados de modo truncado diante do Sinédrio! Vai-se cumprido o Salmo 21/22: “Zombam de Mim todos os que Me veem, torcem os lábios e sacodem a cabeça: ‘Confiou no Senhor, que Ele O salve; que O livre, se é Seu amigo’. Eles Me olham e observam, repartem entre si as Minhas roupas, sobre Minha túnica tiram a sorte...”

Uma atenção especial merece a zombaria dos chefes judeus: “A outros salvou, a Si mesmo não pode salvar!” É verdade: para que fôssemos salvos Jesus teve de fazer-Se obediente até a morte e morte de cruz. Era necessário que o Cristo sofresse!

Depois, outra frase, que é uma tentação: “Desça agora da cruz, e acreditaremos Nele!” Tentação de uma demonstração pueril de poder... Mas que iria contra a lógica do Pai, contra a vontade que o Pai revelara no Horto! Quantas vezes caímos neste tipo de tentação! Não se serve ao Reino de Deus a não ser seguindo a lógica de Deus – e esta lógica se revela na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo!


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