sábado, 19 de abril de 2014

Retiro Quaresmal - A Paixão segundo Mateus (8)


Tríduo Pascal: Sábado Santo
XL Dia de Penitência
Mt 27,1-10

1De manhã cedo, todos os sumos sacerdotes e os anciãos do povo deliberaram a respeito de Jesus para levá-Lo à morte. 2Então, o amarraram, levaram-no e o entregaram a Pilatos, o governador.

Comentando:

A decisão prenunciada no pré-julgamento da noite, foi confirmada de manhã cedo: o Sinédrio, órgão máximo de Israel, condenou Jesus à morte. Mas, como já expliquei antes, Roma tinha retirado dos judeus o poder de executar quem quer seja: “Não nos é permitido matar ninguém” – reclamaram os membros do Sinédrio a Pilatos (cf. Jo 18,31). Era necessário que Pilatos, o Governador, condenasse o Senhor Jesus.
Pilatos, que tinha residência em Cesareia Marítima, governou da Judeia de 26 a 36. Ele sentia desprezo pelos judeus e, de modo geral, lhes era hostil. O Governador estava em Jerusalém por causa da Páscoa. Vinha por medida de segurança: trazia reforços de tropas romanas para o caso de qualquer tumulto. Nessa ocasião, ficava instalado na Fortaleza Antônia, que dominava toda esplanada do Templo. Assim, tinha um ótimo controle da situação.
É importante também compreender a pressa do Sinédrio em conduzir o julgamento de Jesus: se deixassem para depois da Páscoa, tudo ficaria muito mais difícil: o risco de os discípulos de Jesus provocarem uma rebelião entre Seus admiradores; a própria ausência de Pilatos da Cidade, pois que o Governador estaria novamente em Cesareia. Além disso, Jesus fora preso antes da Páscoa precisamente para prevenir que levantasse qualquer tumulto entre os Seus seguidores... Era assim que funcionava a mente dos sinedritas...
Eis, pois Jesus levado a Pilatos. Os judeus entregam um irmão de raça e de fé ao Governador pagão. A acusação não aparece claramente em Mateus, mas é transparente em Lucas, o evangelista que melhor dá conta do processo diante de Pilatos: “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo, proibindo pagar os tributos a César e afirmando ser Ele mesmo o Cristo, o Rei”. Note, meu Leitor, que aqui a acusação é estritamente política: Jesus seria inimigo do Império Romano, pois prega o não pagamento dos impostos a Roma e Se declara rei, no lugar de César! Assim, o Sinédrio deturpa a pregação de Jesus com o objetivo de conseguir Sua acusação perante Pilatos, que jamais O condenaria por motivos religiosos!

 3Judas, o traidor, ao ver que Jesus fora condenado, ficou arrependido e foi devolver as trinta moedas de prata aos sumos sacerdotes e aos anciãos, 4dizendo: “Pequei, entregando à morte um inocente”. Eles responderam: “Que temos nós com isso? O problema é teu”. 5E ele jogou as moedas no Santuário, saiu e foi se enforcar. 6Recolhendo as moedas, os sumos sacerdotes disseram: “É contra a Lei depositá-las no tesouro do templo, porque é preço de sangue”. 7Então deliberaram comprar com esse dinheiro o Campo do Oleiro, para aí fazer o cemitério dos forasteiros. 8É por isso que aquele campo até hoje se chama “Campo de Sangue”. 9Cumpriu-se então o que tinha dito o profeta Jeremias: “Eles pegaram as trinta moedas de prata — preço do Precioso, preço com que os filhos de Israel O avaliaram — 10e as deram em troca do Campo do Oleiro, conforme o Senhor me ordenou”.

Comentando:

A situação de Judas é lamentável. Realmente, “melhor seria que tal homem nunca tivesse nascido” (Mt 26,24). Meu caro Leitor, eis aqui um mistério que nos ultrapassa: aquele da consciência e da liberdade humana. Judas fora amado por Jesus; até o fim o Senhor o chamou de amigo... Mas, era tarde demais: o Iscariotes estava decepcionado demais, amargurado demais para deixar-se comover e tocar por qualquer gesto de boa vontade por parte de Jesus!
Cuidado, meu Leitor, cuidado com os sentimentos que alimentamos em nós, com os pensamentos que cultivamos. Recorda de Caim, de cara amuada com ciúmes de Abel (cf. Gn 4,5)? Deus o previne: “Por que andas irritado e com o rosto abatido? Não é verdade que, se fizeres o bem, andarás de cabeça erguida? E se fizeres o mal, não estará o pecado espreitando-te à porta? A ti vai seu desejo, mas tu deves dominá-lo!” Ou, melhor ainda, na tradução da Bíblia de Jerusalém: “Por que estas irritado e por que teu rosto está abatido? Se estivesses bem disposto, não levantarias a cabeça? Mas se não estás bem disposto não jaz o pecado à porta, como animal acuado que te espreita? Podes acaso dominá-lo?” Compreende a ideia, meu Leitor? Deus previne a Caim para que não alimente pensamentos negativos – no caso aqui a inveja contra Abel; no caso de Judas, a decepção transformada em amargura e raiva contra Jesus. O pensamento negativo alimentado é como uma fera tremenda que se cria e alimenta. Depois, será possível dominá-la? Não! O mau espírito nos cega e nos domina! Observe a reação de Caim depois que Deus o previne: não responde nada a Deus, pois já não dialoga, já está fechado e cego no seu propósito: “Caim disse a seu irmão Abel: ‘Vamos ao campo!’ Mas, quando estavam no campo, Caim atirou-se sobre seu irmão Abel e o matou” (Gn 4,8).
É a mesma situação de Judas: Jesus chamou-o amigo, Jesus o preveniu quando ele criticou Maria, irmã de Lázaro, com a desculpa de que o dinheiro do nardo jogado nos pés do Senhor deveria ir para os pobres; Jesus foi gentil dando-lhe o pão ensopado no molho... Nada! Pelo contrário: “Depois do bocado, Satanás entrou em Judas” (Jo 13,27). Jesus sabe que Seu discípulo está totalmente cego: “‘O que tens a fazer, faze logo’. Então, depois de receber o bocado, Judas saiu imediatamente. Era noite!” (Jo 13,27b.30). Veja, meu Leitor: são palavras tremendas! O coração de Judas era todo treva, como o de Caim, e ele vai ser responsável pelo sangue derramado, sangue mais eloquente que o Abel (cf. Hb 12,24)!

O dramático é que depois de ver Jesus condenado e sendo entregue a Pilatos, a cegueira de Judas se desfaz e ele vê o tremendo pecado que cometeu. Mas, atenção: nenhum texto da Escritura o desculpa! Ele é responsável – totalmente responsável pelo que fez! É a mesma situação nossa, quando por cegueira e teimosia pecamos – às vezes gravemente. Depois vem o arrependimento; mas nem por isso o pecado foi menos pecado e menos grave! É impressionante que Mateus insiste em chamar Judas de traidor, mesmo quando narra o seu arrependimento (cf. v. 3).

Judas teria saída ainda? Teria perdão? Certamente. Mas, observe que, mais que arrependimento – que é confiança na misericórdia do Senhor -, Judas sente remorso – que é pesar provocado por ver que agiu mal. Assim, se desespera e se suicida... É a mesma tentação de desespero de Caim: “Meu castigo é grande demais para eu poder suportar!” (Gn 4,13). Mas, na miséria de Caim, Deus revela Sua misericórdia e Seu cuidado para com aquele pecador: “‘Se matarem Caim, ele será vingado sete vezes’. O Senhor pôs então um sinal em Caim, para que ninguém, ao encontrá-lo, o matasse” (Gn 4,15).
Eis: o Senhor continuou a amar Judas, pois Seu amor é maior que qualquer pecado que possamos cometer! Pedro não negou? Tomé não descreu? Todos não fugiram? Mas, Judas não espera mais no Senhor e tira a própria vida... É tudo quanto sabemos, é tudo quanto podemos afirmar... Sem esquecer as palavras tremendas de Jesus: “Melhor seria que tal homem nunca tivesse nascido” (Mt 26,24). Não brinquemos com nossa liberdade, não alimentemos o mal ou o cinismo na nossa consciência! Haverá sim um julgamento do Senhor para nós! Que no Juízo o Senhor não nos diga que melhor seria não termos nascido!


Depois, o cinismo legalista daqueles sinedritas: não tiveram o menor escrúpulo em forjar acusações truncadas contra Jesus para matá-Lo: mentiram, mataram, entregaram um irmão judeu aos pagãos romanos... Tudo isto era absolutamente contrário à Lei de Deus! E, agora, com requintes de sensibilidade legalista, estão preocupados em não colocar o dinheiro devolvido por Judas no tesouro do Templo, porque foi dinheiro de sangue, de assassinato, foi o preço do Precioso, do Filho amado! Assim, sem saberem e sem quererem, cumprem a profecia de Zc 11,12s e Jr 18,2-3; 19,1-2; 32,6-15. Bem que Jesus havia dito: “Guias cegos! Filtrais o mosquito, mas engolis o camelo!” (Mt 23,24). Vê, meu caro Irmão leitor? Quanto devemos pensar em nós mesmos, meditando nestas coisas!


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