quinta-feira, 17 de abril de 2014

Retiro Quaresmal - A Paixão segundo Mateus (4)

XLIV Dia da Quaresma - XXXVIII de Penitência
Mt 26,36-46

36Jesus chegou com eles a uma propriedade chamada Getsêmani e disse aos discípulos: “Sentai-vos, enquanto Eu vou orar ali!” 37Levou consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu e começou a ficar triste e angustiado. 38Então lhes disse: “Sinto uma tristeza mortal! Ficai aqui e vigiai Comigo!” 39Ele foi um pouco mais adiante, caiu com o rosto por terra e orou: “Meu pai, se possível, que este cálice passe de Mim. Contudo, não seja feito como Eu quero, mas como Tu queres.”
40Quando voltou para junto dos discípulos, encontrou-os dormindo. Disse então a Pedro: “Não fostes capazes de ficar vigiando uma só hora Comigo? 41Vigiai e orai, para não cairdes em tentação; pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca”.
42Jesus afastou-se pela segunda vez e orou: “Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, seja feita a Tua vontade!” 43Voltou novamente e encontrou os discípulos dormindo, pois seus olhos estavam pesados. 44Deixando-os, afastou-se e orou pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. 45Então voltou para junto dos discípulos e disse: “Ainda dormis e descansais? Chegou a hora! O Filho do Homem está sendo entregue às mãos dos pecadores. 46Levantai-vos, vamos! Aquele que vai Me entregar está chegando”.


Comentando:

Terminada a Ceia, Jesus dirige-Se ao Monte das Oliveiras. Já está tudo decidido: ao entregar-Se no Seu Corpo e Sangue na Eucaristia, Ele selou Sua sorte: o que fez naquela Ceia derradeira terá de fazer na carne de Sua vida: entregar-Se e Seu corpo será suspenso na cruz, alquebrado pela flagelação e a dor, Seu sangue, sinal da Sua vida, será derramado até a morte, para a remissão dos pecados do mundo... No Monte das Oliveiras, do lado do Monte que fica de frente para Jerusalém, Jesus entra num pequeno jardim de oliveiras, chamado de Getsêmani, ou seja, “lagar de azeite”. Provavelmente ali existiria uma prensa para fabricar óleo... o óleo da unção, do Messias... Lugar muito significativo para a agonia do Ungido de Deus, do Rei de Israel, do Salvador da humanidade!

A tremenda realidade que o Senhor tinha pela frente não era uma brincadeira, um faz-de-conta: Ele, Deus verdadeiro e perfeito, Pessoa divina, realmente assumiu a natureza humana, sendo homem verdadeiro. Agora sentia todo o pavor que a morte nos causa – e mais ainda nele, pois essa morte tem o trágico do pecado do mundo; é uma morte obscura, que envolve traição, trama, maldade, violência, desprezo, ignomínia! Toda a natureza humana de Jesus nosso Senhor rebela-se contra a possibilidade de morrer. Faz parte de nossa natureza, pois fomos criados para a vida, não para a morte! O instinto de sobrevivência do Senhor era igual ao nosso: Seu corpo, Seus reflexos, Sua vontade humana, tudo reage à ideia de morte, e morte violenta... Ele procura refúgio no regaço do Pai: procura-O na oração! Que exemplo para nós! Ele, o Filho de Deus precisou rezar procurando conformar Sua vontade humana àquela do Pai! Pense nisso, meu Leitor, e seja assíduo e fiel à oração, se realmente quiser viver na vontade de Deus! Sem a oração, só vemos a nossa vontade e, pior ainda, a confundimos com a santa vontade de Deus... Quem não reza é ateu, pois, na prática, vive como se Deus não existisse!

Como é comovente: Jesus, abatido, precisa do apoio dos discípulos. Escolhe para permanecer com ele na agonia os mesmos três que escolhera para ver sua glória no Tabor. Na verdade, a glória do Tabor era uma preparação para a agonia do Getsêmani. E Jesus cai numa profunda depressão: “ comçou a a ficar triste e angustiado”, a ponto de desabafar, pedindo socorro: “Sinto uma tristeza mortal! Ficai aqui e vigiai comigo!” – Vigiamos contigo, Senhor, quando nas horas de escuridão nossas ou da tua Igreja, mantemos a fé e a união contigo, quando não nos acovardamos, quando não esfriamos no nosso ardor e na nossa adesão a ti e à tua santa Esposa. Vigiamos contigo quando nos mantemos fieis nos combates da vida. Ajuda-nos a não esmorecer, a não dormir no pecado, na frieza e no descaso! Dá-nos a graça de escutar, um dia, aquele teu elogio agradecido: “Vós sois aqueles que permaneceram comigo em minhas provações” (Lc 22,28)!

E o Senhor cai por terra, prostrado em dor e agonia: “Meu Pai, Pai querido, que sempre estás comigo! Se este cálice puder passar de mim!” Jesus sabe que o Pai o ama, que o Pai é todo carinho; mas, agora, quanta angústia: seu coração, seus sentimentos parecem frios, entorpecidos pela angústia. Jesus não sente o calor do carinho do Pai: está unido a ele, sabe que ele é fidelíssimo, que ele é todo amor e, no entanto, sua sensibilidade, todas as suas potências humanas, encontram-se em profunda treva. Mas, ele se abandona, ele confia, ele se entrega: “Não seja feito como eu quero, não seja feita minha vontade tão humana, mas como tu, meu Pai amado, como tu queres!”

E quando volta, numa pausa da oração, para procurar apoio nos discípulos prediletos, que decepção: encontra-os dormindo! Caro Leitor: em toda a sua vida Jesus foi tão sozinho! Seu caminho foi de uma profunda solidão existencial diante do Pai! E agora experimenta isto de modo tão tristemente doloroso: “Não fostes capazes de ficar vigiando uma só hora comigo?” A pergunta é a Pedro, àquele que é o cabeça dos Doze, o que deve confirmar os irmãos na fé, na vigilância, na fidelidade, enquanto a Igreja nascida do lado do Salvador perdurar neste mundo. E o conselho – um conselho do qual o próprio Jesus é exemplo: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação! Se não vigiardes, não compreendereis o desígnio do Pai quando vierem as trevas e as lutas da vida! Se não vigiardes, perdereis a fé, errareis o caminho, compreendereis de modo errado, sentireis como o mundo sente e não segundo o coração do Pai! Vigiai e orai: o espírito está pronto, vossa vontade é reta, mas a carne, a natureza humana, é frágil!”

É interessante como o Pai vai convencendo Jesus na oração. Primeiro ele pediu: “Se possível, que este cálice passe de mim...” Agora pede: “Se este cálice não pode passar...” Na oração, ele vai compreendendo: o Pai escuta, o Pai sustenta, mas sua vontade deve ser realizada. E Jesus vai aceitando, fazendo-se cada vez mais dócil! Jesus reza, Jesus vai aprendendo a obedecer entre gemidos e lágrimas (cf. Hb 5,7-8). Enquanto isso, os discípulos dormem, distantes, indiferentes à dor do Salvador... – Perdoa-me, Senhor, porque muita vez sou assim também: tão distante do teu sentimento, tão sem compromisso com tuas dores, tuas perseguições, teus padecimentos! Dá-me a graça de ter em mim os mesmos sentimentos teus (cf. Fl 2,5).

Pronto! “Chegou a hora!” Jesus está pronto, curtido pela dor, pelo combate, vencido na oração! Agora ele está totalmente pronto para realizar a vontade do Pai, numa total obediência amorosa, que é a causa da nossa salvação (cf. Hb 5,9). Este é o caminho de Jesus; este é o nosso caminho. Não há outro!



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