segunda-feira, 8 de abril de 2019

O caminho para a Páscoa na Liturgia da Palavra (VII)

Jo 8,12-20

É fora de dúvida que Jesus nosso Senhor apresentou-Se a Israel com uma autoridade e uma consciência de Si próprio tão majestosa e grandiosa que desconcertou a grande maioria dos judeus! Quem, jamais, nas Escrituras, teve a ousadia de pronunciar tais palavras: “Eu sou a luz do mundo”? Só Deus é luz! Nele não há treva! O nosso Salvador tinha plena e profunda consciência da Sua divindade, da Sua autoridade, que provinha da Sua comunhão perfeita com o Pai: “Eu não estou só, mas o Pai que Me enviou está Comigo!”

Impressiona também como o Senhor convida a todos a segui-Lo e deixa claro que tal seguimento é condição para sair da humana treva e viver na luz, caminhando na luz! Não é facultativo, não é um opcional o seguimento de Cristo! Não segui-Lo é jamais alcançar a luz plena, o sentido pleno do pensamento do Senhor Deus para a existência humana!

Quanto ao debate sobre o testemunho, já vimos: o Pai dá testemunho de Jesus Cristo pelas obras que Lhe deu para que as realize; João Batista deu testemunho de Cristo; as Escrituras dão testemunho de Cristo; Moisés, na Lei, dá testemunho de Cristo!

Outro tema profundo e belo: Cristo sabe de onde vem e para onde vem: vem do Pai e vai para o Pai! Ele mesmo diz: “Vou para o Pai” (Jo 14,28) e também: “Saí do Pai e vim ao mundo; agora deixo o mundo e volto ao Pai” (Jo 16,28). Observemos: toda a existência humana do Senhor é centrada no Pai, tem no Pai seu horizonte, seu princípio e seu fim! Por isso, Nosso Senhor apresenta-Se tão livre, tão seguro, tão senhor de Si: Ele sabe o sentido da Sua existência, o rumo do Seu caminho neste mundo: do Pai, diante do Pai, para o Pai! Felizes de nós, se com Cristo Jesus e como Cristo Jesus e através de Cristo Jesus, tivermos este sentido na vida!

Também é importante a questão da identidade de Nosso Senhor: os judeus somente veem segundo a carne, veem na aparência; não conseguem descer à identidade do Senhor: Ele somente pode ser reconhecido se for visto em relação com o Pai: Ele é o Enviado, o Filho Único! E o Deus de Israel somente pode ser conhecido na Sua identidade mais íntima se for contemplado na Sua relação com o Filho. Aí se descobrirá o insondável Mistério: Deus é essencial e eternamente Pai, o Eterno Pai do Filho Eterno! Por isso, quando os judeus perguntam: “Onde está o Teu Pai?” Eles não percebem que o Pai do Eterno Filho é o mistério mais profundo do Deus de Israel! Daí a precisa resposta do Senhor: “Não conheceis nem a Mim (o Filho único) nem a Meu Pai (Pai Eterno do Eterno Filho); se Me conhecêsseis (como Filho unigênito), conheceríeis também Meu Pai (Aquele a Quem chamais “nosso Deus”)”.

Também os homens: somente conhecerão Jesus de Nazaré, se reconhecerem Nele o Enviado do Pai, Aquele que vem de Deus e Dele nasceu, “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”. Sem isto, o homem não conhece verdadeiramente nem a identidade verdadeira e profunda do Senhor Jesus nem conhece verdadeiramente a Deus! E isto é sem apelo nem desconto!


O caminho para a Páscoa na Liturgia da Palavra (VI)

Jo 7,40-53

Esta perícope revela a tensão que vai se acumulando ao redor de Jesus. Ele foi e será sempre sinal de contradição e causa de divisão, também no mundo atual! Nestes versículos podemos constatar a divisão e a polêmica entre o povo (cf. vv. 40-44) e entre os próprios membros do Sinédrio de Israel (cf. vv. 47-52). Aliás, é interessante como termina a perícope: cada um volta para a sua casa, sem um acordo de pensamento e avaliação diante do fenômeno Jesus de Nazaré...

Ainda hoje Jesus é causa de divisão; sê-lo-á sempre!

Os cristãos não devem ter receio disto, não devem ter medo de contradizer e contrariar o mundo! O cristianismo verdadeiro jamais andará ao sabor das modas e modismos e correntes do mundo (cf. Jo 15,18; Gl 1,10)! O testemunho de Cristo Jesus, Enviado do Pai, Caminho, Verdade e Vida, único e suficiente Salvador de toda a humanidade, jamais será inclusivo (cf. Mt 22,14; Lc 13,22-30)! O Evangelho é para todos, deve ser pregado a todos com amor, respeito, paciência, mas sem panos mornos, sem irenismos e relativismos, sem panos mornos nem respeito humano. Por isso mesmo, ele traz mal-estar e divisão, colocando os ouvintes em crise! O próprio Jesus agiu assim e nos ensinou a proceder deste modo (cf. Mt 10,34s). O que passa disto, não é de acordo com o pensamento do Senhor, mas com o pensamento do mundo.

O cristão deve amar a todos, a todos servir, a todos respeitar, a todos acolher, mas sem ceder em nada no que toca ao anúncio do Senhor como único Salvador e sem mutilar ou macular em nada a verdade da fé (cf. At 20,20). Por isso, seremos incompreendidos até mesmo dentro da Igreja e dos que vivem de modismos (cf. Lc 21,8-20; Mt 10,21s). Mas, este é um belo modo de ser fiel ao Senhor e de caminhar com Ele até o Calvário, sofrendo com Ele para ter parte na Sua Ressurreição! Coragem, pois! É Cristo o Senhor a Quem servimos (cf. Cl 3,24)!


Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação XXVIII - segunda-feira da V semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,49-56
Leia Gl 5,1-12

1. Vamos, agora, ao v. 2: “Atenção! Eu, Paulo, vos digo: se vos fizerdes circuncidar, Cristo de nada vos servirá! Grave, esta exortação do Apóstolo. E não é exagero. O centro da fé dos cristãos, o âmago da sua esperança é o fato de Cristo nos ter salvo do afastamento de Deus, da escravidão e do desequilíbrio nos quais a lei do pecado colocou a todos nós. Toda a humanidade encontra-se debaixo desta triste situação. Nem mesmo os judeus estão livres dela, pois a Lei de Moisés, que é santa, dá consciência do pecado, mostra como viver para evita-lo, mas não dá força para tanto. Sobre isto já falamos nas meditações anteriores. Leia Rm 7,14-25. Pois bem, é Cristo que nos liberta! Ora, se os gálatas se deixassem se circuncidar, entravam no judaísmo, colocando sua esperança não em Cristo, que nos libertou (cf. Gl 5,1), mas no cumprimento dos preceitos da Lei de Moisés tal como os rabinos judeus a interpretavam. Deste modo, colocando-se sob a Lei de Moisés, estariam obrigados a cumprir todos os preceitos da Lei, tornando-se judeus. Leia o v. 3. Eles estariam debaixo da “maldição da Lei” (cf. Gl 3,10s). Assim, para que Cristo? É necessário recordar sempre que o homem sozinho não pode se salvar nem mesmo pode cumprir da Lei de Moisés de modo satisfatório. O próprio Senhor Jesus já dizia isto aos judeus (cf. Jo 7,19)! Somente Cristo nos salva com a Sua Cruz e Ressurreição e o dom do Seu Espírito (cf. Rm 3,23ss). Por isso doutrinas que proclamem outro princípio salvífico são incompatíveis com a esperança cristã. Por exemplo:

- o judaísmo, que coloca na prática de Lei o princípio de salvação. Para que Cristo, se já se tem a Lei de Moisés?

- o islamismo, que coloca a entrada no paraíso na prática do Corão. Para que a morte e ressurreição de Cristo? Bastaria seguir o Corão à risca!

- o espiritismo e todas as doutrinas reencarnacionistas, que colocam a plenitude humana na reencarnação: reencarnando-se, a pessoa se purifica das suas faltas e imperfeições, limpando o seu “carma”... Para que a morte de Cristo e o Seu perdão? Basta se reencarnar continuamente e praticar obras de filantropia, limpando o carma continuamente...

Ora, o Cristo Jesus é o único meio de acesso ao Pai (cf. Jo 14,6; 8,36), porque por nós Se fez homem, morreu e e ressuscitou; ressuscitando, deu-nos o Seu Espírito, que nos cura do pecado e nos faz participantes da própria Vida divina! Leia At 4,12; 2Pd 1,4; Ap 4,9s. O grande serviço que o Cristo Jesus nos prestou foi nos salvar: se nós não aceitarmos o Seu serviço de morrer e ressuscitar por nós em amor, não poderemos ter parte com Ele. Leia Mc 10,45; Jo 13,2-8.

2. São Paulo previne aos gálatas de modo dramático: “Rompestes com Cristo, vós que buscais a justiça na Lei; caístes fora da graça!” (v. 4) Esta é uma ideia central na nossa fé: a salvação é graça de Deus, é dom gratuito, abundante, misericordioso, imerecido! Leia atentamente Tt 2,11-14.
As obras do cristão não têm nada a ver com as obras da Lei de Moisés. Certamente, a fé exige que o cristão dê frutos (cf. Jo 18,1-8) de boas obras (cf. Tg 2,14-26). Mas, essas obras nascem da fé em Cristo e exprimem nossa adesão concreta a Ele. Sem as obras nascidas da fé, essa mesma fé seria uma ilusão, uma ficção, uma mentira (cf. Lc 6,46-49; Mt 7,21-27; 25,31-46)! A fé age pela caridade, manifesta-se pelo amor fecundo em obras em Cristo! As obras do cristão são obras em Cristo, fruto da correspondência à graça, da docilidade fecunda ao Espírito de Cristo (cf. Tt 3,4-7; Gl 5,6). Tudo isto é bem diferente das obras da Lei de Moisés: aí trata-se de preceitos do rabinismo, isto é, da interpretação da Lei de Moisés dada pelos rabinos de Israel como meios suficientes de alguém ser justo, santo, diante de Deus! Isto um cristão não aceita! Nossa justiça, isto é, nossa santidade diante de Deus, nossa amizade com Ele, em uma palavra, nossa salvação, somente pode ser alcançada em Cristo Jesus nosso Senhor que, gratuitamente, com Sua Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição, nos salvou do pecado e da morte! Leia Rm 5,1-11.

3. “Nós, com efeito, aguardamos, no Espírito, a esperança da justiça que vem da fé” (v. 5) importantíssima, esta afirmação de São Paulo, esta referência ao Espírito Santo. Vamos lá: Cristo morreu e ressuscitou por obra do Pai, que sobre Ele derramou a plenitude do Santo Espírito. Este Espírito é a própria Vida divina, que nos queima os pecados e nos recria como novas criaturas em Cristo, já que é Espírito de Cristo, Espírito dado pelo próprio Cristo! Ressuscitado, o Cristo Senhor derramou sobre nós esse Espírito, que é dado nos sacramentos, sobretudo no Batismo e na Eucaristia: no Batismo, Ele é dado como remissão dos pecados, como justificação, pois nos faz filhos de Deus no Filho Jesus Cristo; é-nos dado como nova Vida em Cristo; na Eucaristia, Ele impregna o pão e o vinho, transformando-os em Corpo e Sangue do Senhor imolado e ressuscitado, fazendo crescer e a amadurecer mais e mais a Vida divina em nós, dando-nos a graça de participar, na nossa vida, da Morte e Ressureição do Senhor, até sermos configurados com Ele na Glória eterna! Daí a necessidade absoluta do Batismo: quem crê, deve, necessariamente, ser batizado, recebendo o Espírito Santo, que nos dá a justificação na remissão dos pecados! Nunca esqueçamos: fé e Batismo são inseparáveis (cf. Mc 16,15s).
Leia

4. No v. 6, o Apóstolo insiste no que já havia acenado antes: em Cristo, não é mais decisivo ser judeu ou gentio (cf. Rm 10,12s)! Esta diferença fazia sentido no tempo da pedagogia do Antigo Testamento, quando Deus, através da Lei de Moisés, preparava Israel para o cumprimento da Promessa com a vinda do Messias. Mas, agora, seja Israel sejam os gentios, são chamados à fé em Jesus Cristo (cf. At 20,20s; Ef 2,12-18). Nele crendo e no Seu Nome sendo batizados, recebem o Santo Espírito de amor, de modo a serem todos no Senhor Jesus Cristo novas criaturas, membros de uma nova humanidade (cf. Rm 5,5). 
Pense um pouco: você tem consciência de que o Sacramento do Batismo marcou radicalmente a sua vida: você é de Cristo, vive em Cristo, inundado na Vida do Cristo, que é o Seu Santo Espírito? Você tem o pensamento de Cristo ou o pensamento do mundo? Qual o seu fundamental critério de vida?

5. Releia os vv. 7-12:

a) Nos vv. 7-10, o Apóstolo chama atenção dos gálatas que elementos estranhos à comunidade chegaram para envenenar a paz em Cristo na qual eles viviam. Compara-os ao fermento que penetra a massa, levedando-a toda. Aqui, como um fermento ruim, esses judaizantes, impregnaram toda a comunidade cristã dos gálatas perturbando a fé serena no Evangelho que lhes tinha sido anunciado. Esses serão condenados pelo Senhor, pois maculam a verdadeira doutrina, afasta os fieis da verdade e geram divisão! Ainda hoje, infelizmente, esse tipo de comportamento está presente em todos os níveis da vida eclesial...

b) O v. 11 é um pouco obscuro. Releia-o. Talvez os judaizantes que perturbaram os gálatas tenham dito que São Paulo também praticava a circuncisão, como fez com Timóteo (cf. At 16,3; 1Cor 9,20). Se utilizavam mesmo tal argumento, esses judaizantes eram muito maldosos! Paulo responde com um argumento bem prático: se ele pregasse a circuncisão, os judeus e os judaizantes não seriam contra ele! Mas, aí o escândalo da Cruz, isto é, a novidade de Cristo que ultrapassa e supera a prática de Lei de Moisés, estaria eliminado!

c) O v. 12 é ironia pura: que esses que pregam a circuncisão se mutilem – a circuncisão comporta uma pequena mutilação... Aliás, os gálatas pagãos conheciam bem a castração dos sacerdotes da deusa Cibele. Se esses judaizantes sentem prazer nisto, então que se castrem logo de vez! A dureza na ironia do Apóstolo é decorrência da importância do que está em jogo: a pureza do Evangelho e a liberdade em Cristo. Isto nunca será de pouca importância... Também hoje, mesmo com toda a onda de relativismo, de irenismo e bomocismo, presentes na Igreja, ameaçando a novidade cristã, a vitalidade do Evangelho, e especificidade e originalidade da experiência cristã e a radicalidade da vida em Cristo!

6. Reze o Sl 139/140.



sábado, 6 de abril de 2019

Homilia para o V Domingo da Quaresma - ano c

Is 43,16-21
Sl 125
Fl 3,8-14
Jo 8,1-11

Vai-se intensificando a preparação para o Tríduo Sacro que nos faz celebrar a Santa Páscoa. Desde a segunda-feira passada, as leituras do Evangelho de João apresentam-nos Cristo em tensão com os judeus, tensão que culminará com Sua Morte. Hoje, a liturgia permite que cubramos as imagens de roxo ou branco, exprimindo o jejum dos nossos olhos: a necessidade de purificar o olhar de nosso coração, para irmos direto ao essencial: “a caridade, que levou o Filho a entregar-se à morte no Seu amor pelo mundo” (Oração da Coleta). A partir de amanhã, segunda-feira, este clima de preparação para o mistério pascal intensifica-se ainda mais com o Prefácio da Paixão, rezado em cada Missa.

Por tudo isso, o profeta Isaías, em nome do Senhor, nos convida a olhar para frente, para o Mistério que é maior que qualquer outra ação de Deus: o mistério do Filho em Sua Paixão, Morte e Ressurreição:“Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que Eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis”. Mais que a criação, mais que a travessia do Mar Vermelho, mais que a água jorrada da rocha, o Senhor fará algo definitivo! Ele abrirá uma estrada no deserto, fará correr rios em terra seca! Pensemos estas imagens à luz da Páscoa:
O Senhor Jesus nos abrirá no deserto da morte – e das mortes da vida – uma estrada de vida, um caminho para o Pai: “Vós me ensinareis o caminho da Vida!”
O Senhor Jesus fará brotar de Seu lado aberto o rio da graça, o rio dos sacramentos, do Batismo (água) e da Eucaristia (sangue) que regam e fertilizam a nossa pobre existência! “Eis que Eu farei coisas novas!”Coisas novas e definitivas!

Nunca esqueçamos que a Páscoa do Senhor – passagem deste mundo para o Pai, atravessando o tenebroso vale da morte – é também a nossa Páscoa: passagem pela vida neste mundo, que terminará com Cristo na plenitude do Pai; mas também, já agora, passagem sempre renovada do pecado para a graça, dos vícios para a virtude, de uma vida centrada em nós mesmos, para uma vida centrada com Cristo em Deus.
É este, precisamente, o sentido do Evangelho deste Domingo: a mulher pecadora, renovada pelo perdão do único que poderia condená-la, porque o único Inocente: “Eu não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”. Diante do Cristo, o Inocente que por nós será entregue e por nós livremente entregar-Se-á, como não nos reconhecermos culpados? Como não termos vergonha de julgar e condenar os demais? Como não nos sentirmos amados, acolhidos e perdoados por Aquele que nos lavou com o Seu sangue, nos aliviou com Suas dores e nos revivificou com a Sua Ressurreição? Afinal, quem é essa mulher adúltera? Não é Israel, que se prostituiu? Não é a Igreja, quando nos seus filhos pecadores, trai o Evangelho; quando, nos seus pastores, pensam segundo o mundo e não segundo Cristo? Não somos nós, cada um de nós, com nossas infidelidades, covardias e incoerências? Todos pecadores, todos necessitados do perdão, todos perdoados e acolhidos por Aquele que não tem pecado!

Pensemos no Senhor Jesus, naquela Sua caridade, naquele Seu amor, que O levou a entregar-Se à morte no Seu amor pelo mundo! Pensemos com o comovente pensamento de São Paulo. É um testemunho comovente de um amor apaixonado: “Considero tudo como perda diante da vantagem suprema que consiste em conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor”.
Conhecer a Cristo significa unir-se a Ele, participar de Sua experiência, de Seu caminho, de Seu destino...“Por Ele eu perdi tudo. Considero tudo como lixo, para ganhar Cristo e ser encontrado unido a Ele... experimentar a força da Sua Ressurreição, ficar em comunhão com os Seus sofrimentos, tornando-me semelhante a Ele na Sua morte, para ver se alcanço a ressurreição dentre os mortos.” São palavras estupendas! Perder tudo por Cristo, perder-se em Cristo, tudo relativizar por Cristo e em relação a Cristo, ter na vida e fazer da vida uma única paixão: estar unido a Cristo no Seu sofrimento e na Sua Ressurreição, completando em mim o que falta de Suas dores e experimentando já agora - e um dia, de modo pleno -, o poder vitorioso da Sua Ressurreição.
O que São Paulo deseja? Viver na sua vida, na sua carne, nos seus dias, a Páscoa do Senhor. Deseja que seus sofrimentos e desafios estejam unidos aos de Cristo e sejam vividos em Cristo e no amor de Cristo para também experimentar na carne e na vida – na carne da vida! – a vitória de Cristo. Isto é conhecer Jesus Cristo! Não um conhecimento teórico, exterior, mas um conhecimento coração a coração, vida a vida, lágrima a lágrima, vitória a vitória! Este deve – deveria – ser o caminho normal de todo o cristão! Esta é a verdadeira ciência, que transcende qualquer outra ciência; esta, a verdadeira teologia, o verdadeiro conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo!

Está próxima a Páscoa, a Festa dos cristãos! Nestes dias santíssimos, unamo-nos intimamente ao Senhor Jesus Cristo, deixemos que o Santo Espírito reproduza em nós os Seus sentimentos de total confiança no Pai e total entrega amorosa aos irmãos, à humanidade. Sigamos o exemplo do Apóstolo: “Uma coisa eu faço: esquecendo o que ficou para trás, eu me lanço para o que está à frente. Corro direto para a meta, rumo ao prêmio, que do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus”.
Cristo Jesus! Que nome tão doce, que consolo tão grande, que esperança tão certa, que prêmio tão imperecível. A Ele – e só a Ele – toda a glória e toda a honra!

“Nós Vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos, porque pela Vossa santa Cruz remistes o mundo!”


sexta-feira, 5 de abril de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação XXVII - sábado da IV semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,41-48
Leia Gl 5,1-12

1. Este bloco de versículos é importantíssimo! Trata-se de uma dura e apaixonada advertência do Apóstolo aos seus amados filhos gálatas, que ele gerou para o Cristo sofrendo dores de parto (cf. Gl 4,19). Vamos seguir de perto as palavras de São Paulo, refletindo sobre elas... Hoje, ficaremos somente no v. 1! Vamos a ele!

2. Numa bela frase de efeito, o Apóstolo recorda aos gálatas: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (v. 1). Libertou-nos do quê? Aos judeus, libertou do peso das observâncias da Lei de Moisés e aos gentios, libertou das correntes da lei do pecado. Já vimos nas meditações passadas que, sem Cristo, todos os homens estão debaixo do fardo de uma pesada lei: a de Moisés ou a do pecado! O próprio Cristo afirmou que somente Ele nos poderia libertar. Leia com atenção Jo 8,31-45. Releia, medite, contemple... Suplique ao Filho que o liberte de suas estreitezas e infidelidades, que o liberte dos seus pecados... “Se o Filho vos libertar, sereis, realmente, livres!” (v. 36)

3. Libertou-nos para quê? O Apóstolo responde ousadamente: “para a liberdade” (Gl 5,1). Aqui, não se trata de uma liberdade qualquer, mas a liberdade para servir a Deus como filhos no Filho, impelidos pela doçura amorosa do Espírito do Filho que clama em nós Abbá, Pai (cf. Gl 4,4-7). A liberdade, aqui, não é liberdade para se fazer o que quer, não é liberdade para viver para si próprio, mas “para Aquele que morreu e ressuscitou por eles” (cf. 2Cor 5,14s). É a mesmíssima dinâmica do Êxodo: Deus liberta Israel não para fazer o que deseja, não para viver para si. Isto não seria liberdade! O Senhor liberta o Seu Povo para que O sirva e, servindo-O, seja verdadeiramente livre (cf. Ex 5,1; 7,16).
Pense um pouco: a liberdade para a qual Cristo nos libertou, prende-nos a Ele, faz-nos “escravos” do Seu amor. Leia com atenção o importante texto de Rm 6,15-23. Medite como é falso uma ideia de cristianismo que acha normal e natural que os cristãos pensem, falem, ajam e vivam como o mundo! Lembre do que disse o Senhor em Jo 15,18-21; 17,14-16! Como podem tantos cristãos, hoje em dia, viverem na ilusão de serem compreendidos, aceitos e aplaudidos pelo mundo e acharem que o mundo vai amar de verdade a Igreja e acolhê-la? Que tola ilusão! A Igreja e os cristãos nunca devem esperar serem amados pelo mundo por causa deles próprios, mas somente por causa de Cristo! Se o mundo quiser nos amar, que seja pelo Cristo que pregamos e testemunhamos, sem descontos, abatimentos nem concessões! Caso contrário, o amor e aplauso do mundo não devem nunca nos iludir e anestesiar ou alegrar! Pelo contrário: deve-nos pôr de sobreaviso, pois “a amizade com o mundo é inimizade com Deus... Assim, todo aquele que quer ser amigo do mundo torna-se inimigo de Deus” (Tg 4,4).

4. Ainda neste mesmo versículo 1, o Apóstolo exorta aos gálatas: “Permanecei firmes e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão”. Os cristãos da Galácia, agora libertos da escravidão do pecado da vida de pagãos, não deveriam deixar a liberdade do Espírito de Cristo para voltar à escravidão, desta vez aos preceitos da Lei de Moisés com os inúmeros mandamentos e normas da interpretação rabínica! Neste sentido, é triste ver como muitas seitas cristãs judaízam, voltando ao Israel segundo a carne! Já falamos sobre isto em meditações passadas! “Sois tão insensatos que, tendo começado com o Espírito, agora acabais na carne?” (Gl 3,3) Isto é o que dá ler as Escrituras fora da comunhão com a Igreja e distante da Tradição apostólica e da fé entregue uma vez por todas aos santos (cf. Jd 3) e maturada, geração após geração na vida da Igreja, guiada e guardada pelo Espírito Santo de Cristo (cf. Mt 28,19s; Jo 16,12-15)!

5. Reze o Sl 29/30. Louve e adore o Deus que, em Cristo, nos libertou da lei do pecado e da morte!


O caminho para a Páscoa na Liturgia da Palavra (V)

Jo 7,1-2.10.25-30

Este capítulo 7 vai revelando ainda mais as contradições que o Senhor nosso Jesus Cristo foi enfrentando no Seu ministério, que, no fundo, foi um caminho para a Cruz e a Ressurreição, caminho pascal. Somos cristãos, Seus discípulos; sigamos com Ele!

Os versículos que a Liturgia escolheu para hoje, dão conta de que os judeus desejavam matar o Senhor. Uma coisa importante: em João, judeus não significa automaticamente todo o Povo de Israel, mas os seus representantes, os seus líderes: sumos sacerdotes, escribas, anciãos do povo, fariseus. Um exemplo disto é o v. 13: “Ninguém falava Dele abertamente, por medo dos judeus”. Em outras palavras; ninguém dos israelitas, do Povo judeu, falava abertamente de Jesus com medo dos “judeus”, isto é, dos chefes.

Mas, também a família carnal de Cristo não acreditava Nele! Várias vezes os evangelhos deixam entrever isto! O Senhor não sobre para a Festa das Tendas com eles: os tempos e os modos de Cristo não são os nossos, não são segundo a carne. O Seu tempo e os Seus modos são os do Pai: somente Este determina a Sua Hora!

Se é verdade que “os judeus” adversários do Senhor foram sobretudo os chefes do povo, não é menos verdade que o povo, como um todo, não creu em Jesus, não O acolheu, não O tratou com a importância e seriedade que Lhe eram devidas! Observemos como as pessoas se incomodam que o Senhor pregue no Templo e ninguém O prenda e como boa parte dentre elas não acredita que Jesus seja o Messias: sabem de onde Ele vem... Pensam saber que Ele é de Nazaré, na Galileia... E o Messias viria de Belém, na Judeia... No entanto, não sabem que Jesus Cristo vem de Belém e, mais ainda, vem do Pai, vem da Eternidade, vem do Infinito, do Coração do Deus Santo de Israel, Seu Pai!

O Deus Tremendo, Santo, Infinito, que sequer pode ser imaginado, ninguém O conhece no Seu Ser mais profundo: “Não O conheceis”,diz Jesus aos judeus!“Mas Eu O conheço, porque venho da parte Dele, e Ele foi quem Me enviou!” Somente o Filho, que vem do seio do Pai, conhece realmente a Paternidade de Deus! Israel sabia que Deus É, que Deus é Santo, que Deus é o Inefável... Mas, Israel não sabia nem suspeitava que o Seu Deus é essencialmente Pai, Pai eterno do eterno Filho no Espírito eterno! Israel não conhece o Seu Deus no Seu Mistério mais profundo; mas, o Filho O conhece, revela-O e dá-nos a graça de participar da Sua própria Filiação! Mas, isto custará o sangue do Filho! Já agora, esta perícope finda dizendo que os judeus – chefes e alguns do povo – querem prendê-Lo!



quinta-feira, 4 de abril de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação XXVI - sexta-feira da IV semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,33-40
Leia Gl 4,21-31

1. O Apóstolo, na ânsia de salvar os seus queridos gálatas, volta à carga! Todos os argumentos que estiverem ao seu alcance, ele os utiliza para tirar os irmãos na fé das mãos dos cristãos judaizantes que estavam envenenando a Igreja da Galácia! Mais do que a lógica, aqui, é o coração que fala! Por isso, após exclamar, quase desolado, que não sabia que atitude tomar a respeito dos gálatas, São Paulo volta à carga com todo o vigor!

2. O que o Apóstolo deseja aqui é reforçar que a Lei, os preceitos e normas exteriores dos rabinos, o judaísmo, a descendência de Abraão simplesmente segundo a carne não garantem a bênção de viver na amizade com o Senhor Deus, não garante ter parte na Aliança e na Promessa! Para exortar os gálatas a não regredirem para o judaísmo, o Apóstolo utiliza várias imagens e argumentos do livro do Gênesis, que hoje nos parecem estranhos e até artificiais, mas, naquela época, tinham pleno sentido e força persuasiva.

a) Agora é necessário ler Gn 16,1-4; 21,9-10.

b) Paulo comprara Sara e Agar às duas alianças: Sara é livre, simboliza a Nova Aliança em Cristo, pois gera Isaac, o filho de Promessa; Agar é escrava e simboliza a Aliança do Sinai, pois este Monte ficaria próximo da terra dos ismaelitas, descendentes de Ismael, filho de Agar.

c) Os judeus, rejeitando o Cristo e apegando-se à Lei dada no Sinai, valorizam a Jerusalém de pedra, com seu Templo, seu apego à Lei de Moisés e os inúmeros preceitos dos rabinos. São escravos de um pesado fardo, como a escrava Agar.

d) Os cristãos, crendo em Jesus, o Cristo, novo Isaac, são livres, pois descendem da livre, de Sara, que personifica a verdadeira Jerusalém, a do Alto, a glória do céu, consumação do Reino de Deus! Leia Hb 11, 14-16.

3. Podemos, agora compreender a afirmação do Apóstolo: “Vós, irmãos, como Isaac, sois filhos da Promessa!” (v. 28). Por quê? Porque cremos e fomos batizados Naquele Cristo, novo Isaac, nascido de Sara e prometido a Abraão, que creu e se tornou pai de todos os crentes!

4. Dito isto, o Apóstolo sugere, com força aos gálatas, que cumpram o que a Lei de Moisés narra no Gênesis: “Expulsa a serva e o filho dela, pois o filho da serva não herdará com o filho da livre” (v. 30). Em outras palavras: os gálatas cumpram o que a Lei de Moisés sugere e expulsem esses judaizantes, cristãos falsos, filhos da Lei de Moisés, filhos da serva, que estão perturbando a Igreja da Galácia! Eles não podem herdar a promessa reservada aos cristãos que, em Jesus Cristo, são livres do fardo imenso da Lei de Moisés como os rabinos judeus a interpretam e impõem ao Povo de Israel e os judaizantes querem impor aos cristão, filhos da Jerusalém do Alto, que é a Igreja, que peregrina na terra e será plena no céu!

5. Leia Mt 23, 37-39. Veja também este texto tremendo: Jo 5,39-47. Leia também e reze Ap 21. Por fim, reze Lm 1: o pranto por Jerusalém, castigada por sua infidelidade! Ela caiu sob os romanos liderados por Tito, no ano 70 dC. Reze também pela Nova Jerusalém, a Igreja, ferida e sofrida pela infidelidade de tantos dos seus filhos, que se rendem ao mundo e suas ideologias e modas...