terça-feira, 17 de setembro de 2019

Ilumina as trevas do meu coração!

Do Primeiro Livro de Samuel (1Sm 24,3-21)

Naqueles dias, Saul tomou consigo três mil homens escolhidos em todo o Israel e saiu em busca de Davi e de seus homens, até os rochedos das cabras monteses. E chegou aos currais de ovelhas que encontrou no caminho.
Havia ali uma gruta, onde Saul entrou para satisfazer suas necessidades. Davi e seus homens achavam-se no fundo da gruta e os homens de Davi disseram-lhe: “Este certamente é o dia do qual o Senhor te falou: ‘Eu te entregarei o teu inimigo, para que faças dele o que quiseres’.
Então Davi aproximou-se de mansinho e cortou a ponta do manto de Saul. Mas logo o seu coração se encheu de remorsos por ter feito aquilo, e disse aos seus homens: “Que o Senhor me livre de fazer uma coisa dessas ao ungido do Senhor, levantando a minha mão contra ele, o ungido do Senhor”.
Com essas palavras, Davi conteve os seus homens, e não permitiu que se lançassem sobre Saul. Este deixou a gruta e seguiu seu caminho.
Davi levantou-se a seguir, saiu da gruta e gritou atrás dele: “Senhor, meu rei!” Saul voltou-se e Davi inclinou-se até o chão e prostrou-se. E disse a Saul: “Por que dás ouvidos às palavras dos que te dizem que Davi procura fazer-te mal? Viste hoje com teus próprios olhos que o Senhor te entregou em minhas mãos, na gruta. Renunciando a matar-te! Poupei-te a vida, porque pensei: Não levantarei a mão contra o meu senhor, pois ele é o ungido do Senhor, e meu pai.
Presta atenção, e vê em minha mão a ponta do teu manto. Se eu cortei este pedaço do teu manto e não te matei, reconhece que não há maldade nem crime em mim, que não pequei contra ti. Tu, porém, andas procurando tirar-me a vida. Que o Senhor seja nosso juiz e que Ele me vingue de ti. Mas eu nunca levantarei a minha mão contra ti.
‘Dos ímpios sairá a impiedade’, diz o antigo provérbio; por isso, a minha mão não te tocará. A quem persegues tu, ó rei de Israel? A quem persegues? Um cão morto! E uma pulga! Pois bem! O Senhor seja juiz e julgue entre mim e ti. Que Ele examine e defenda a minha causa, e me livre das tuas mãos”.
Quando Davi terminou de falar, Saul lhe disse: “É esta a tua voz, ó meu filho Davi? E começou a clamar e a chorar. Depois disse a Davi: “Tu és mais justo do que eu, porque me tens feito bem e eu só te tenho feito mal. Hoje me revelaste a tua bondade para comigo, pois o Senhor me entregou em tuas mãos e não me mataste. Qual é o homem que, encontrando o seu inimigo, o deixa ir embora tranquilamente? Que o Senhor te recompense pelo bem que hoje me fizeste. Agora, eu sei com certeza que tu serás rei, e que terás em tua mão o reino de Israel”.

Dois homens, dois corações.
Primeiro Saul, o atormentado, o homem carcomido pelo demônio da malignidade que provoca medo, inveja, ciúme, desconfiança... O rei de Israel é apenas uma sombra de homem, um poço de contradições. Persegue Davi covardemente, como uma fixação doentia, porque deixou os demônios dos maus sentimentos tomarem conta de seu coração! Nunca esqueçamos: é preciso cuidar do coração, não deixar que a maldade e os maus movimentos se aninhem nele, é necessário sempre cortar pela raiz, ao nascer, o que de ruim vai aparecendo em nós... Saul não fez isto e agora paga o preço de ser escravo de si mesmo... É um homem menor, um poço de contradições: persegue Davi e depois chora com remorso, vendo o papelão que está fazendo; chega mesmo a reconhecer: “Hoje me revelaste a tua bondade para comigo, pois o Senhor me entregou em tuas mãos e não me mataste. Qual é o homem que, encontrando o seu inimigo, o deixa ir embora tranquilamente? Que o Senhor te recompense pelo bem que hoje me fizeste. Agora, eu sei com certeza que tu serás rei, e que terás em tua mão o reino de Israel”. E, contudo, no seu desaprumo louco, continuará ainda a perseguir Davi, na tentativa de eliminá-lo...

Depois, Davi! É um homem grande, largo de coração. Homem benévolo. Será sempre assim, mesmo quando cair e pecar feio... O que encanta no futuro rei de Israel é a sua espontaneidade, a sua generosidade, a sua sinceridade cheia de simplicidade. Por um lado, é um homem esperto e astuto, mas isto não endurece seu coração. Mesmo sofrendo e tendo que viver feito bandido, sabe conservar a sensibilidade e reger-se por princípios fundados no temor de Deus. Poderia ter matado Saul e não o faz porque ele é o Ungido do Senhor. Mas, no entanto, não é tolo: sabe que está certo e Saul, errado, e entrega sua causa ao Senhor. Suas palavras são tremendas: “Presta atenção, e vê em minha mão a ponta do teu manto. Se eu cortei este pedaço do teu manto e não te matei, reconhece que não há maldade nem crime em mim, que não pequei contra ti. Tu, porém, andas procurando tirar-me a vida. Que o Senhor seja nosso juiz e que Ele me vingue de ti. O Senhor seja juiz e julgue entre mim e ti. Que Ele examine e defenda a minha causa, e me livre das tuas mãos”. Deveríamos aprender com Davi: ele coloca sua causa nas mãos do Senhor, confia-Lhe o julgamento e a vingança.

Não tenhamos medo de apresentar ao Senhor nossa causa; não temamos sequer em pedir-Lhe que nos faça justiça contra nossos inimigos, pois a justiça de Deus não é como a nossa: ela se manifesta em Cristo, que revela a justiça divina justificando o pecador.

Uma coisa é certa: nos embates e pelejas da vida é necessário cuidar do coração, colocando-o sempre diante do Senhor: somente na Sua luz nós veremos a luz e compreenderemos realmente as motivações e movimentos mais profundos, que inspiram nossas ações e reações. “Jesus, Tu és minha luz interior: não deixes que minha escuridão me fale! Jesus, Tu és minha luz interior: possa eu acolher Teu amor!”


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Um Deus presente e atuante

Do Primeiro Livro de Samuel (1Sm 9,1-4.17-19; 10,1a)

Havia um homem de Benjamin, chamado Cis, filho de Abiel, filho de Seror, filho de Becorat, filho de Afia, um benjaminita, homem forte e valente. Ele tinha um filho chamado Saul, de boa apresentação. Entre os filhos de Israel não havia outro melhor do que ele: dos ombros para cima sobressaía a todo o povo.
 Ora, aconteceu que se perderam umas jumentas de Cis, pai de Saul. E Cis disse a seu filho Saul: “Toma contigo um dos criados, põe-te a caminho e vai procurar as jumentas”. Eles atravessaram a montanha de Efraim e a região de Salisa, mas não as encontraram. Passaram também pela região de Salim, sem encontrar nada; e, ainda pela terra de Benjamin, sem resultado algum.
Quando Samuel avistou Saul, o Senhor lhe disse: “Este é o homem de quem te falei. Ele reinará sobre o Meu povo”. Saul aproximou-se de Samuel, na soleira da porta, e disse-lhe: “Peço-te que me informes onde é a casa do vidente”. Samuel respondeu a Saul: “Sou eu mesmo o vidente. Sobe na minha frente ao santuário da colina. Hoje comereis comigo, e amanhã de manhã te deixarei partir, depois de ter revelado tudo o que tens no coração”.
Na manhã seguinte, Samuel tomou um pequeno frasco de azeite, derramou-o sobre a cabeça de Saul e beijou-o dizendo: “Com isto o Senhor te ungiu como chefe do Seu povo, Israel. Tu governarás o povo do Senhor e o livrará das mãos de seus inimigos, que estão ao seu redor”.

Realmente, a Escritura é apaixonante: mostra-nos o Senhor como um Deus vivo, presente concretamente na vida do mundo, na vida das pessoas, na nossa vida. Eis o nosso Deus: Deus do dia-a-dia, Deus da vida cotidiana, Deus que entra nas contradições da vida; não um Deus teórico, distante, metafísico, exato, frio, previsível...

Lá vai Deus metido com Saul, que está medito com umas jumentas! Lá vai Deus, envolvido com o jovem Samuel, agora já velho, chamado de “vidente” pelo povo, porque falava em nome de Deus e discernia a vontade de Deus na vida das pessoas... Lá vai Deus, ungindo Saul como rei do seu povo. Lembra, caro Irmão? Essa unção é fruto de um pedido do povo, um pedido que desgostou o Senhor Deus... Pois bem: lá vai Deus escrevendo certo por linhas tortas, metendo-se com a complicada história dos homens...

Quem dera hoje soubéssemos escutar o Senhor, discernir Sua graciosa presença nos mil modos em que vem a nós de modo discreto, educado, elegante, velado! Ah! Se o povo de Deus acreditasse realmente no Senhor, se hoje ouvisse a Sua voz!

Mas, que pena, que somos gente de hoje, teimosa, que só escuta a própria razão, que só escuta a si mesma, que deseja meter o Senhor na gaiola da razão à nossa medida ou na distância da inutilidade, de um Deus frio e calculado, do nosso tamanho.

Ah, Senhor Deus, que Tu és livre e libertador! Ah, que ninguém pode medir Tua grandeza! Ah, que ninguém pode sondar Teus pensamentos! Deus vivo, Deus presente, Deus soberano, que elevas e abaixas, que fazes morrer e ressuscita! A Ti a glória, ó glória da nossa vida, por Cristo na Igreja, pelos séculos dos séculos. Amém.


domingo, 15 de setembro de 2019

Árvore admirável, de Fruto divino!

Ontem, a Igreja celebrou a Festa da Exaltação da Santa Cruz.

“Anunciamos Cristo crucificado” (1Cor 1,23) – afirmava São Paulo na leitura das Vésperas.

Cristo crucificado, Cristo fracassado, frágil, impotente, segundo a humana lógica; Cristo esquecido por Deus e pela humanidade, deixado só, feito homem de dores... Cristo morto até a morte por Sua fidelidade ao Pai, por Seu compromisso não com as modas de Sua época, não com os bem pensantes de plantão, mas unicamente com o Pai e o Seu Reinado, que deveria vir não segundo os modos, os tempos e a lógica dos homens, mas somente segundo o critério misterioso e oculto de Deus...

“Pregamos Cristo crucificado!” – Palavras tremendas para a Igreja de todas as épocas, porque não há outro Cristo a ser pregado (qualquer outro é falso, não é o Cristo, mas um anti-Cristo, obra de Satanás...).

E a Liturgia da Festa da Exaltação continuava, tomando as palavras do santo Apóstolo: “Escândalo para os judeus, e tolice para os gentios”... Pense bem, meu caro Irmão, porque nada mudou!
Cristo, com Sua Cruz, com Sua lógica, continua escândalo, continua tolice desprezível que não deve ser levada a sério... Sua lógica não é o sucesso, o poder, as ideias da moda, as ideologias de plantão, o que aparece nos meios de comunicação e aí faz sucesso.
Na verdade, Ele não Se deixa aprisionar nem mesmo pela lógica dos Seus discípulos! Para compreendê-Lo é necessário mesmo olhar e contemplar e sentir a Cruz do Senhor. Só ali o mistério do Crucificado deixa de ser loucura, tolice e escândalo...

“Mas para nós, chamados, judeus ou gentios, é Cristo, força e sabedoria de Deus”. Deve ser assim; deveria ser assim!
A Cruz do Senhor e o Senhor da Cruz – deveríamos ver aí a sabedoria e o poder do nosso Deus, que com força divina destroça o pecado e a morte com Seu amor até a Cruz e com sabedoria surpreendente revela a insensatez da pura lógica humana... 
Nós, cristãos, deveríamos compreender a linguagem da Cruz, inscrita no coração do mundo, no coração da história, no coração da nossa própria vida... E, no entanto, também a nós, a Cruz escandaliza e também nós tanta vez não conseguimos compreender sua lógica salvadora!

A Cruz, a Cruz!

Lembra, caro Irmão, do Paraíso? Recorda-se das duas árvores plantadas pelo Senhor Deus?
A primeira era aquela que dava ao homem o poder de ser como Deus, senhor do bem e do mal. O homem poderia decidir não simplesmente fazer o bem e o mal, mas, muito mais ainda, decidir o que é bem e o que é mal, transformar o mal em bem e o bem em mal! É a nossa tentação fundamental – e tantas vezes fazemos isto na nossa vida, quando optamos pelo mal e, disfarçadamente, chamamo-lo bem! A outra árvore era a da Vida. Atenção para esta árvore; seu sentido é profundo!

Mesmo tendo criado o homem perfeito, Deus ainda lhe daria Sua plenitude dando-lhe a Vida divina, a plenitude de uma Vida de eterna e plena bem-aventurança, aquela Vida que ainda hoje é o desejo e a saudade do nosso coração. Mas, esta Vida – como tudo na nossa existência – seria dom de Deus, não simples conquista humana, que pensa poder estender a mão e tudo pegar... O homem receberia essa Vida gratuitamente, como dom, se não tivesse tentado tomar o lugar de Deus, querendo ser senhor do bem e do mal... Mas tentou, teimou, quis, quer ser como Deus... Resultado: ao invés da Vida, a morte, o coração ferido, a vida capenga, medrosa, frágil, que experimentamos na nossa existência...

Quanto à árvore da Vida, o caminho foi fechado para que o homem não pudesse, presunçosamente, comer seu fruto – Deus fechou o caminho... E o homem procura a Vida: vai à lua, a Marte, ao fundo do mar, ao coração da matéria, vasculha as galáxias, penetra no inconsciente e nas camadas mais profundas do psiquismo e não encontra esta árvore e não pode comer do seu fruto, que lhe daria a Vida plena, beata, feliz, divina, pela qual tanta anseia, mesmo quando insiste em dizer que não a deseja...

Mas, Deus (bendita seja a Sua bondade, o Seu amor, a Sua misericórdia), livremente nos abriu o caminho para esta árvore de Vida, gratuitamente nos ofereceu o seu fruto! Quem comer dele vive da Vida divina, quem provar dele vence a Morte, quem dele se alimentar tem a Vida eterna.

Que árvore? Que fruto?

Tu, Jesus, és o Fruto de Vida eterna: quem comer de Ti viverá! E a árvore da Vida, a árvore que dá esse Fruto bendito, é a Tua cruz!
Eis o mistério que adoramos na Exaltação da Santa Cruz: a árvore da Vida é a Tua Cruz, Senhor!
Em Ti, temos a Vida, em Ti, somos saciados de eternidade, em Ti, a morte é vencida de modo definitivo!
A Ti a glória para sempre, ó Poder de Deus, ó Sabedoria do Pai, que desmoraliza o escândalo dos judeus e a tolice dos gentios!


sábado, 14 de setembro de 2019

A árvore da Vida é a Tua Cruz, ó Senhor!

Hoje, a Igreja celebra a Festa da Exaltação da Santa Cruz.
Segundo antigas crônicas eclesiásticas a Imperatriz Santa Helena, mãe de Constantino Magno, encontrou a Cruz do Senhor em 14 de setembro de 320 nas escavações do Monte Calvário em Jerusalém. No dia 13 de setembro de 355 foi solenemente consagrada a Basílica do Santo Sepulcro e, no dia seguinte, 14 de setembro, a Cruz que fora encontrada anos antes foi solenemente exposta à veneração dos fiéis. Daí por diante, todas as igrejas que posteriormente foram adquirindo uma relíquia da Cruz, neste dia expunham-na solenemente. Daí a Festa da Exaltação da Santa Cruz. A Cruz do Cristo deve perenemente recorda-nos três coisas:

(1) Até onde o homem caiu no seu desejo de ser como Deus, na sua pretensão de autossuficiência: o homem é capaz de matar Deus! Matá-Lo no seu coração, matá-Lo na sua vida pessoal e social. Ao mesmo tempo, aquele Desfigurado da Cruz é como que uma imagem do homem desfigurado no seu pecado.

(2) Mas, a Cruz nos revela também até onde Deus está disposto a ir para nos encontrar. Até onde o Senhor é capaz de descer em busca de Sua ovelha perdida: Deus amou tanto o mundo a ponto de entregar o Seu próprio Filho, o Amado, o Único! Não há sofrimento ou escuridão que sejam maior que o amor de Deus por nós! Mesmo na treva, mesmo na dor, o Senhor estará sempre presente com Seu amor.

(3) A Cruz nos revela o modo de agir de Deus. Ela é a chave para se compreender como Deus pensa, como Deus faz; e nos assusta, porque a lógica do Senhor é totalmente diversa da nossa! Na Cruz aparece claro o quanto os pensamentos do Senhor são diversos dos nossos... Neste sentido, ela é sempre um forte apelo à conversão, a que mudemos nosso modo de compreender a vida e os acontecimentos! Na Cruz, quando dizemos: “É o fim!”, Deus está dizendo: “É um novo começo!”

Uma última palavra. Recorde-se, caro Irmão, do livro do Gênesis: no paraíso havia duas árvores: a do conhecimento do bem e do mal e a árvore da Vida. O homem comeu o fruto da primeira, querendo ser como Deus, senhor do bem e do mal; assim, perdeu o fruto da segunda: foi privado da Vida plena. Nunca mais a humanidade encontrou o caminho para a árvore da Vida. Pois bem, ei-la: a árvore da Vida é a Cruz do Senhor; Ele, Jesus, é o Fruto bendito desta árvore: quem Dele comer terá a Vida eterna, Vida em abundância! E este Fruto bendito é-nos dado em cada Eucaristia! Seja louvado o Senhor por Seus desígnios maravilhosos!


Homilia para o XXIV Domingo Comum - ano c

Ex 32,7-11.13-14
Sl 50
1Tm 1,12-17
Lc 15,1-32

Na Solenidade do santo Natal, na segunda leitura da Missa da Aurora, a Igreja, olhando o Presépio, faz-nos escutar as palavras de São Paulo a Tito: “Manifestou-se a bondade de Deus nosso Salvador, e o Seu amor pelos homens. Ele salvou-nos, não por causa dos atos de justiça que tivéssemos praticado, mas por Sua misericórdia...” (Tt 3,4s). O Menino que veio viver entre nós, Jesus, nosso Senhor, é a bondade de Deus, é a Sua salvação misericordiosa...
Estas palavras são maravilhosamente ilustradas pela liturgia deste Domingo. Hoje, o Cristo nos é apresentado como a própria bondade, a própria ternura misericordiosa do Pai dos Céus, do nosso Deus.
Aquilo que já fora prefigurado por Moisés, intercedendo pelo povo pecador, na primeira leitura; aquilo que, na segunda leitura, São Paulo pregou e experimentou na própria vida: “Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores. E eu sou o primeiro deles!” – tudo isso nós tocamos nas três parábolas da misericórdia do capítulo XV do Evangelho de São Lucas.

Sigamos a narrativa. Por que Jesus contou essas parábolas? Porque “os publicanos e pecadores aproximavam-se Delepara O escutar. Os fariseus, porém, e os escribas criticavam Jesus: ‘Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles’.”
Aqui está: Jesus nosso Senhor era um fio de esperança para aqueles considerados perdidos, metidos no pecado, sem jeito nem solução... Os publicanos, as prostitutas, os ignorantes, os pequenos e desprezados, gente sem preparo e sem cultura teológica estavam aproximando-se de Jesus para escutá-Lo; viam Nele a ternura e a misericórdia de Deus. Os escribas e fariseus – homens praticantes e doutores da Lei – criticavam Jesus por isso. Ele Se misturava com os impuros, Ele acolhia a gentalha e os pecadores. Pois bem, foi para esses doutores que Jesus contou as parábolas, para mostrar-lhes que o Coração do Pai é ternura, é amor, é vida, é amplo como uma casa grande... Ora, o agir do Senhor nosso nada mais era que um reflexo, um sacramento do amor do próprio Deus de Israel, a Quem Jesus chamava de Pai: “Quem Me vê, vê o Pai; Eu estou no Pai e o Pai está em Mim! O Pai, que permanece em Mim, realiza Suas obras. Crede-Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim!” (Jo 14,9.10b-11)

O Pai Se alegra, porque Jesus, o Bom Pastor, era capaz de deixar noventa e nove ovelhas para ir atrás daquela que se perdera totalmente, até encontrá-la!
O convite que Jesus estava fazendo aos escribas e fariseus era claro: “Alegrai-vos Comigo! Encontrei a Minha ovelha que estava perdida!”Alegrai-vos, porque o Coração do Pai está feliz: Ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e tenha a Vida!
Do mesmo modo, na parábola da dracma perdida: Deus é como aquela mulher que acende a lâmpada e varre cuidadosamente a casa até encontrar sua moedinha. E não descansa até encontrá-la! Quando a encontra, como Deus, quando encontra o pecador, ela exclama: “Alegrai-vos comigo! Encontrei a moeda que havia perdido!”
O Deus que Jesus nos revela, o Deus a quem Ele chamava de Pai é assim: bom, compassivo, misericordioso, preocupado conosco e com cada um de nós, persistente, teimoso, perseverante no Seu amor por nós! Ele somente é glorificado quando estamos de pé, quando estamos bem, quando somos felizes. Mas, não há felicidade verdadeira para nós, a não ser juntinho Dele, que é o Pai de Jesus e nosso Pai. É isso que Jesus inculca com a terceira parábola, a mais bela de todas: o Pai e os dois filhos.

“Um homem tinha dois filhos”. Este homem é o Pai dos Céus. “O filho mais novo disse ao pai: ‘Dá-me a parte da herança que me cabe’”. Esse moço quer ser feliz, deseja ser livre, autônomo e imagina que somente vai sê-lo longe do olhar do pai. Assim, sem juízo, como que mata o pai, pedindo-lhe logo a herança. “e partiu para um lugar distante”. Quanto mais longe do pai, melhor, mais livre! E aí, dissipa tudo, numa terra pagã, longe do pai, longe de Deus. E termina na miséria, tendo esbanjado a vida, a felicidade, o futuro, o amor e o sexo... Vai pedir trabalho e dão-lhe o mais vergonhoso para um judeu: cuidar de porcos, animais impuros. E ele queria comer a lavagem dos porcos e não lha davam!
Em que deu o sonho de autonomia, de liberdade, de felicidade longe do pai! Tudo não passara de ilusão!
Mas, apesar de louco, o jovem era sincero: caiu em si, reconheceu que pecara. Não colocou a culpa no pai, nos outros, no mundo, no destino. Reconheceu-se culpado e recordou e confiou no amor do pai: “Vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti!” E volta! O jovem era corajoso, generoso, era sincero!
O que ele não sabia é o pai nunca o esquecera; esperava-o todos os dias, olhando ao longo do caminho. De longe, o avistou e o reconheceu, apesar da miséria e da fome e das roupas maltrapilhas. E, cheio de compaixão – como o Coração do Pai de Jesus – correu ao encontro do filho, cobriu-o de beijos e de vida, e restituiu-lhe a dignidade de filial. E deu uma festa!
O Pai é assim: não quer ninguém fora de Sua casa, de Seu coração, da festa do Seu amor, do banquete de Sua Eucaristia!

Mas, havia ainda o filho mais velho. Este, como os escribas e os fariseus, jamais havia desobedecido ao pai; cumprira todos os seus preceitos, os mandamentos da Lei. Por isso, ficou com raiva e não quis entrar na festa do pai: “O pai, saindo, insistia com ele...”
Notai que o mesmo pai que saíra ao encontro do filho mais novo, saiu agora ao encontro do mais velho, que estava perdido no seu egoísmo, na sua raiva, fora da festa e do aconchego do pai!
E o mais velho passou-lhe na cara: “Eu trabalho para ti há tantos anos e tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos...” O pai respondeu: “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu...”
É que aquele filho nunca amara o pai de verdade: cumpria tudo, de tudo fazendo conta e, um dia, iria pedir o pagamento, a recompensa por tudo... Por isso nunca se sentira íntimo do pai, por isso não sentira que tudo quanto era do pai era dele também! Atenção, irmãos, que se pode estar junto do pai e nunca o conhecê-lo de verdade! Não era esta a situação daqueles escribas e fariseus?
Interessante que Jesus não diz se o filho entrou na festa do pai e na alegria do irmão ou se, ao contrário, ficou fora, onde somente há choro e ranger de dentes.

Pois bem, o Senhor nos convida hoje a acolher no Cristo Jesus a misericórdia incansável de Deus para conosco, um Deus que não sossega até nos encontrar... Mas, nos convida também a ser misericordioso para com os outros.
É triste quando experimentamos que somos pecadores, experimentamos a bondade acolhedora de Deus para com nossos pecados e, depois, somos duros, insensíveis e exigentes em relação aos irmãos.
Que o Senhor nos dê um coração como o Coração de Cristo, imagem fidelíssima, sacramental, do Coração do Pai, capaz de acolher o perdão e a misericórdia de Deus e transbordar esse perdão e essa misericórdia para com os outros. Amém.


sexta-feira, 13 de setembro de 2019

O grande Mistério da Piedade

São Paulo Apóstolo, falando do Cristo Jesus, nosso único Senhor e Salvador:

"Grande é o Mistério da piedade:

Ele foi manifestado na carne,
(isto é, fez-Se homem)

justificado no Espírito,
(isto é, ressuscitado pelo Pai na potência do Espírito Santo)

aparecido aos anjos,
(isto é, os anjos, certamente maravilhados, contemplaram, surpresos, o tremendo Mistério: o Filho feito homem, agora crucificado e, como homem, ressuscitado em Glória)

proclamado às nações,
(isto é, o que os anjos contemplaram e acolhendo, humildemente, foram salvos, agora deverá ser proclamado e anunciado a todos os povos; a Igreja não poderá sossegar enquanto não anunciar a todos os homens o Evangelho da salvação e da graça)

crido no mundo,
(isto é, acolhido já pelo Resto de Israel, que é a Igreja, será também acolhido por todos aqueles inscritos no Livro da Vida),

exaltado na Glória,”
(isto é, o homem Jesus, feito Cristo, não somente ressuscitou glorioso, mas tornou-Se Senhor de todas as coisas no Céu e na terra e de toda a humanidade. Ele tem toda a autoridade sobre toda criatura, sobre vivos e mortos, sobre todas as coisas (1Tm 3,16).

Irmão, Irmã,
esta é a nossa fé!
Disto nunca duvidemos,
mais que isto jamais desejemos,
menos que isto em hipótese alguma aceitemos!

Esta é a fé que recebemos!
É este o Evangelho,
é esta a Verdade,
é nisto que tudo o mais deve ser lido, avaliado, julgado, interpretado, discernido como bom ou mal, verdadeiro ou falso, caminho de salvação ou de condenação!

Nesta fé perseveremos,
por esta fé demos a vida
e nesta fé seremos salvos neste mundo e no Mundo que há de vir! Amém.


quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Um Ocidente sem Deus

Basta olhar com atenção... Os sintomas estão em toda parte: o mundo ocidental não aceita o cristianismo; tornou-se uma civilização ateia, que julga a religião como fonte de alienação e atraso. Para os bem-pensantes da atualidade, é inaceitável que o homem precise de Deus para organizar sua vida e discernir o que é certo ou errado, bem ou mal. Valem, para esse pessoal, as palavras de Nietzsche: “Deus morreu! Deus está morto! E nós é que O matamos! Tudo o que havia de mais sagrado e de mais poderoso no mundo esvai-se em sangue sob o peso do nosso punhal... Não vos parece grande demais essa ação? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para pelo menos nos tornar dignos dela?” E, no entanto, muito mais que o filósofo prepotente, vale-nos a sabedoria da Palavra de Deus: "Os pensamentos dos mortais são tímidos e falíveis os nossos raciocínios. A custo conjecturamos o terrestre, com trabalho encontramos o que está à mão: mas quem rastreará o que há nos Céus?" (Sb 9,14.16)

Eis: a civilização ocidental, nascida no regaço da Mãe católica, alimentada com o leite do cristianismo, agora renega o Cristo e Sua Igreja. Pagará caro: o desprezo por sua matriz levará o Velho Continente à velhice cultural, à falta de identidade, à perda de tantas conquistas inspiradas também no cristianismo, como o respeito pela pessoa, o apreço à liberdade, o profundo sentido de solidariedade, a democracia, tudo isto, cedo ou tarde, desmoronará. A nossa civilização está se matando na loucura do imanentismo que renega toda Transcendência e na hipocrisia do politicamente correto, a serviço de uma ideologia sem Deus. Mas, quando o homem mata Deus, ele se mata também!

Os cristãos não devem ter medo de professar sua fé, de proclamar a moral e as exigências do Evangelho. Não devemos ter medo da pecha de obscurantistas, intolerantes ou anacrônicos...
Nosso critério é Cristo,
nossa Verdade é Cristo,
nossa Esperança é Cristo,
nossa Certeza é Cristo
e Cristo tal qual é crido, adorado, anunciado e testemunhado pela Igreja católica nestes vinte e um séculos, século após século, sem interrupção.
Não reconhecemos outro e de outro não queremos saber!

O diálogo com o mundo tem um só nome: amor! Amar é dizer a verdade, anunciar a verdade, sem meios termos nem meias medidas, com respeito, com compreensão, mas sem medos nem complexos.
A Verdade é Cristo e Cristo total, que nos convida à conversão. “Se não vos converterdes, perecereis todos!” (Lc 13,3.5). Não podemos converter Cristo ao homem. É o homem quem deve converter-se ao Senhor.
Que se converta a Cristo nosso Deus a sociedade atual, o homem do século XXI.