quarta-feira, 20 de junho de 2018

Uma guerra surda: cristianismo x iluminismo ateu

Há uma guerra surda sendo travada, no Brasil e no mundo ocidental, entre os crentes e os herdeiros do iluminismo ateu e anticristão, nascido a partir do século XVIII.
A sociedade ocidental, século após século, foi sendo plasmada em grande parte pelo cristianismo: suas leis, suas expressões culturais, sua sensibilidade, tudo tem a marca dos discípulos de Cristo... O Ocidente foi parido pelo cristianismo. Agora, com a descristianização generalizada, os bem-pensantes iluministas querem criar um novo ordenamento, totalmente alheio e até contrário à cultura cristã. Querem também que os cristãos aceitem isto sem reagir... Se o Internauta quiser um exemplo, basta ler as revistas semanais brasileiras e os jornais de maior circulação no País, basta ver o que circula na internet... O argumento deles é o seguinte: a sociedade hoje é pluralista, o estado é laico, sem vínculo com qualquer religião; logo, a Igreja e os cristãos, de modo geral, não têm nada a dizer sobre as questões da atualidade: aborto, manipulação genética, uso de embriões humanos em experiências para adquirir células-tronco, união civil dos homossexuais, eutanásia, legalização da maconha... Nada disto compete aos cristãos. Aqui, cada um deve seguir sua consciência, sem querer impor ao conjunto da sociedade sua visão. Religião é questão privada, é questão de opinião e não deve ter nenhum influxo na construção do ordenamento social.

Aparentemente, o raciocínio dessa gente parece certo: cada um siga a sua consciência e pronto! Mas, aqui, há alguns pontos que precisam ser esclarecidos:

(1) É verdade que o estado é laico e, enquanto tal, não deve professar ou favorecer religião alguma. Mas também é verdade que o estado está a serviço do povo, deve respeitar e tutelar os valores do povo e o povo brasileiro é cristão, na sua grande maioria e na sua matriz cultural. O estado brasileiro não pode ser anticristão, não pode ignorar o cristianismo, não pode tratá-lo com desdém. Se o fizer, deve ser desautorizado e reformado pelo povo! O estado não é Deus e não está acima do bem e do mal! Então, quando se propõe arrancar o crucifixo do Supremo Tribunal Federal, se está agredindo a grande maioria do povo brasileiro: hoje arranca-se o crucifixo para amanhã se arrancar os valores cristãos que guiam nossa sociedade.

(2) É bobagem pensar que existam valores soltos, neutros e imparciais. Na verdade, o que os neoiluministas desejam é impor seus valores: valores laicistas, que apregoam a destruição da família e a adoção de uma ética ateia para decidir sobre o conceito de família, aborto, pesquisa genética, eutanásia, assassinato de embriões anencéfalos, etc. Note-se bem: não há uma ética neutra! Querem fazer o povo brasileiro engolir uma ética pagã, fundamentada numa razão meramente utilitarista e individualista.

(3) Os cristãos têm todo direito de gritar e defender seus valores. Se a sociedade é democrática e pluralista e a Igreja e outras denominações cristãs são membros dessa sociedade, têm direito sim de fazer pressão. É interessante: quando as minorias fazem barulho, todos elogiam; quando os cristãos o fazem, a turma iluminista reclama e mete o pau na Igreja católica (que é a bruxa velha) e nos outros cristãos! A Igreja deve gritar, deve organizar os que creem, deve se articular com as demais denominações cristãs e com as pessoas de boa vontade para defender que nossas leis exprimam valores cristãos. Todos devem ser respeitados, mas temos o direito de lutar por nossas ideias. 

(4) Isso não significa querer impor aos outros nosso modo de pensar. A questão é que uma sociedade permissiva, com leis em contradição com uma cultura cristã, marca toda a sociedade, marca as famílias, marca as escolas, marca nossos jovens e crianças. Temos o direito de lutar para defendê-los! Basta pensar no que uma ideia pagã de matrimônio e família, veiculada pelos meios de comunicação, tem gerado no Brasil: o conceito de família tem sido totalmente destruído na nossa cultura brasileira. Como seria interessante escutar os filhos de descasados e recasados, os filhos de mães solteiras e adolescentes, para vermos de perto o resultado desastroso de tudo isso! O que será dos jovens daqui a cinquenta anos, formados em famílias totalmente alheia a valores sólidos?

As coisas, como estão, encaminham-se para uma contraposição forte. Estamos chegando num ponto de fusão, no qual os cristãos terão de dizer claramente “basta”! É preciso perguntar se é correto promover a desconstrução do Ocidente como se está fazendo... O estado laico é uma conquista que deve ser mantida; a separação entre religião e governo é uma realidade sadia. O problema é quando grupos poderosos – os senhores dos meios de comunicação, por exemplo – fazem uma campanha bem orquestrada para arrancar as marcas cristãs de nossa cultura, transformando o estado laico em estado laicista, que desconsidera e despreza a dimensão religiosa do homem, reduzindo-a, quando muito, a experiência subjetiva e privada. Aí é necessário dizer “basta”, é necessário gritar, pressionar e mostrar que os cristãos não estão dormindo.

Devemos caminhar para a elaboração de uma ética civil, isto é, critérios éticos, fundamentados no princípio de respeito profundo pelos valores humanos mais nobres, que possam, de modo geral, ser por todos compartilhados. Todos – crentes ou não, cristãos ou não-cristãos – têm algo a dizer e têm em que colaborar. Sem diálogo cidadão, sem escuta recíproca, desarmada, leal, não se pode construir um país no qual todos sejam efetivamente cidadãos... Mas, não se pode esquecer que este país chamado Brasil ainda é majoritariamente cristão e católico e pelo cristianismo foi forjado. Não se pode esquecer de nossas raízes culturais e dos valores que plasmaram nossa sociedade. Não se pode aceitar a ditadura intelectual de uma prepotente minoria “iluminada” por uma razão ateia querendo simplesmente impor seus contra-valores disfarçados de tolerância... Uma guerra ideológica não faria bem a ninguém, pois provocaria somente exacerbações, extremismos e exageros... E isto é o que menos precisamos para o Brasil do nosso tempo...


segunda-feira, 18 de junho de 2018

O que move?!

Fizeram-me, hoje, esta pergunta:
"O que move a humanidade: Deus ou o homem?
A Igreja fala algo sobre isso?"

Dei esta resposta:
A Providência amorosa do Senhor Deus e, ao mesmo tempo, a liberdade humana.
Ao mesmo tempo, em sinergia, Providência e liberdade,
Deus e o homem; ao mesmo tempo,
mas não no mesmo nível...

A humanidade e cada ser humano são realmente livres:
suas escolhas, decisões e ações são reais, têm consistência e consequências;
mas, por trás de tudo, por trás das escolhas dos homens,
dos caminhos dos filhos de Adão,
misteriosamente,
está o Misterioso,
cheio de amor providente,
cheio de zelo amoroso...

E, discretamente, vai guiando tudo segundo o Seu desígnio,
fazendo escrita certa,
que leva direto ao Seu plano de nos salvar,
apesar das linhas tortas da nossa vida.

Quem crê percebe isto:
essa Mão, essa Providência, essa Presença misteriosa,
por trás de tudo,
mesmo quando dói,
quando machuca,
quando não compreendemos
e julgamos absurdo.

Quem não crê
vê somente à medida da própria razão humana:
vê a casca,
enxerga a superfície,
só divisa um monte de coincidências,
um acaso onipotente e onipresente,
nada mais que isso...
E a vida, então, para esse, torna-se fruto de um joguete de mau gosto,
que zomba da nossa liberdade,
humilha nossos projetos,
frustra nossos esforços,
ridiculariza nossa vida
e nos massacra na hora da morte...
Tudo sem sentido, tudo vazio, tudo mortal...

Com Deus, ao invés, tudo ganha sentido!
Sem Ele tudo termina sendo, no fundo, um triste absurdo,
um não-sentido, um correr atrás de nada,
uma paixão inútil...



A partícula de Deus e o Deus das partículas

Para recordar: em julho de 2012, o mundo da ciência exultou com a provável confirmação da existência do bóson de Higgs, a partícula subatômica que explicaria a formação da matéria no universo. Além do mais, a constatação da existência dessa partícula, confirmaria o chamado Modelo Padrão, um esquema lógico que procura explicar todos os fenômenos subatômicos até agora conhecidos pela ciência.

Do modo metafórico e grandiloquente, chamam a este bóson de Higgs de “partícula de Deus”, expressão forjada pelo cientista Leon Lederman, quase como uma brincadeira...
Não é bom fazer este tipo de mistura! De Deus são todas as partículas, de Deus é todo o universo com suas leis, interações e dinâmicas, de Deus é a maravilhosa inteligência humana, capaz de decifrar a incrível linguagem escrita no cosmos!

É necessário que se compreenda e se tenha sempre presente que a ciência jamais terá algo de novo a dizer sobre Deus, jamais poderá afirmar que Ele existe ou não existe. Esperar tal veredicto das ciências seria desconhecer a natureza do que chamamos “Deus” e a especificidade mesma do que chamamos ciência em sentido estrito. Deus – o Deus verdadeiro já vislumbrado pela teodiceia – é o Ser do qual tudo provém, que a tudo ultrapassa e a tudo perpassa, Nele tudo se sustenta e tudo para Ele se dirige. Deus É, não simplesmente existe! Ora, a ciência cuida de descrever e explicar as leis que regem o universo, este universo. Fora disso, que poderia ela dizer, se lhe escapa o “Objeto” de estudo?

Isto não quer dizer que o discurso sobre Deus não tenha lugar a partir das descobertas científicas ou da razão humana. Quanto mais se penetra no intricado maravilhoso que constitui a natureza, tanto mais somos forçados a perguntar: De onde provém tudo isto? Se o universo revela uma lógica (tão lógica a ponto de se antever fenômenos e elementos ainda desconhecidos empiricamente), não haveria um “Lógos”, uma Inteligência, um Pensamento que a tudo deu origem? Qual a finalidade de tudo quanto existe? Seria tudo somente fruto do acaso? E o homem, esta partícula ínfima da natureza, com uma subjetividade, uma sede, uma saudade de Infinito mais vasta que o próprio universo, a ponto de não sossegar na procura da resposta ao “por quê” e ao “para quê” de tudo? A natureza é somente natureza ou é também criação, obra de um Criador?

Lendo sobre a descoberta do bóson de Higgs, veio-me um pensamento engraçado: o tal bóson não pode ser detectado diretamente, mas apenas pelos sinais que deixa... E o bóson é algo deste mundo... Quanto mais Deus, o Outro, o Santo, o Eterno, o Insondável! Poderia Ele ser capturado pura e simplesmente pelos nossos sentidos? Não! Também Ele, pode ser vislumbrado apenas pelos sinais que deixa... E a Escritura diz isto o tempo todo: Ele é o Santo, o Outro, o Diferente, que habita em luz inacessível. Mas, como o famoso bóson e mais que ele, o Eterno deixa sinais na natureza e no coração humano, deixou sinais na história da salvação e deixa ainda nas nossas histórias. Por que seríamos tão animados a afirmar o bóson de Higgs, partícula deste mundo, que não pode ser detectada diretamente, e tão refratários a acolher aquela Realidade sem a qual nada teria sentido, explicação ou sustento?

Hoje a ciência acolhe a teoria do Big Bang, proposta primeiramente por um cientista belga, sacerdote católico, o Padre Georges Lamaitre, em 1927. Algo explodiu, algo tornou-se energia e depois massa... Mas, de onde vem esse algo? O que provocou sua explosão? Donde brota a misteriosa e poderosíssima gravidade que, no pensar teórico do genial Stephen Hawking, faz o universo contrair-se e expandir-se continuamente? Eis o que a ciência jamais responderá. Eis a misteriosa Realidade primeira a que o crente chama de Deus, que agiu no princípio e continua agindo discretamente em cada lei da natureza, em cada ser que vem a este mundo, em cada flor que brota, em cada criança que ri, em cada esperança que teima em povoar e animar os nossos sonhos.

Estejamos atentos: de afirmar ou não a existência de Deus dependerá radicalmente o nosso modo de interpretar o sentido do universo e, mais ainda, a história e, fundamentalmente, a nossa própria vida. Não é uma questão periférica nem descartável. Querendo ou não, Deus continuará a ser sempre a questão central do coração e da inteligência humana, será sempre espinho ou favo de mel no coração do homem e do mundo. Da afirmação ou não da Sua existência dependerá totalmente o modo de nos compreendermos e compreender a vida, muito mais ainda que o modo de compreendermos o universo como um todo. Deus – eis a aposta fundamental da qual é impossível fugir, mesmo quando se faz de conta que não se quer apostar!

"Deus disse: 'Haja luz!'
- E houve luz!" (Gn 1,3) 

sábado, 16 de junho de 2018

O Rei de um certo Reino...

Sobre o Reino de Cristo...
Seu Reino é o mesmo Reino do Pai. É no Filho amado que o Reino se manifesta, porque no Filho, no Seu modo de ser e viver o Pai Se manifestou plenamente! Quem vê Jesus, vê o Pai reinando. Assim, dizer Reino de Deus e Reino de Cristo é quase a mesma coisa.
Com uma diferença, apenas: o Reino de Deus inaugurado nos dias da carne do Senhor, manifesta-se plenamente em Cristo quando da Sua ressurreição e será consumado no final dos tempos, quando Cristo cristificar em Glória todas as coisas e tudo entregar ao Pai, para que Deus, o Pai, seja tudo em todos.

Quanto ao Reino de Cristo, ele é como a semente semeada no chão do mundo, mais precisamente, no chão do seu coração:
Pode cair na beira do caminho e ser levado pelos pássaros da sua distração, do seu pouco caso... E aí, então, esse Reino bendito será levado da sua vida... Você perderá o Reino...
Pode também cair num coração superficial, como a semente caída na terra rasa: neste caso, cresce logo, em tantos entusiasmos de doação, amém e aleluia... Mas, é um reinozinho de momento: logo cresce, logo seca...
Também, esse Reino, pode cair num coração preocupado com mil coisas, sobretudo consigo mesmo. Pobre Reino: crescerá e logo será sufocado! Pobre você, que matou o Reino...
Finalmente – tomara! –, pode num terreno fecundo de um coração bom! Aí vem o fruto: trinta, sessenta, cem por um! O Reino frutificou porque entrou em você! Feliz de você: se o Reino de Cristo entrou em você, você entrou no Reino de Cristo aqui e por toda a Eternidade!

O Reino de Cristo parece tão fraco, tão sufocado como o trigo plantado por Ele, perdido no meio do joio deste mundo...
Desanime não! Descreia não! Duvide não! Um dia – naquele Dia – esse joio vai ser juntado e jogado fora, queimado, eliminado para sempre! Só o trigo, fruto da boa semente caída e frutifica no bom coração, permanecerá por toda a Eternidade! Espere, confie! Você vai ver! É assim o Reino do Cristo: presente, potente, mas só no fim aparecerá sem ambiguidade alguma!
– Que venha o Teu Reino, Senhor Jesus!
Que se manifeste logo com toda a clareza!
Passe este mundo e venha a Tua graça!

O Reino de Cristo? Parece de nada, parece insignificante, parece tão pequenininho como um grão de mostarda! Mas, não se iluda: ele está presente no mundo: foi plantado naquela Cruz, naquele Sepulcro e começou a brotar naquela madrugada de Domingo.
Esse Reino vai crescendo, crescendo, não por minha força, não por sua força, pela força do próprio Espírito do Senhor... Crescendo, crescendo... E um dia será como uma ramagem tão frondosa que as aves todas, a humanidade inteira poderá abrigar-se nos seus ramos! Nós todos haveremos de ver! É esperar, é desejar, é caminhar para este Dia bendito!
Mas, tenha paciência, que a mostarda não cresce de vez, não se desenvolve de um dia para a noite! Paciência e certeza! O nome disto é esperança! Afinal, Quem prometeu é fiel!

Já viu alguém colocando um tiquinho de fermento na massa? Pois assim é o Reinado de Cristo! Pouquinho... Mas, penetra, impregna esse mundo massificado, este mundo cão! Ninguém pode contar, ninguém pode calcular, ninguém pode dizer “ei-lo aqui, ei-lo ali!”... Mas, está presente, atuante, potente, levedando a massa deste mundo! Preste atenção! Tenha cuidado: O Reino de Deus trazido por Cristo já está no meio de nós e age na potência do Espírito! É o Espírito a presença, é o Espírito a energia, é o Espírito a potência, é o Espírito o fermento! Dizer: Reino de Cristo presente é o mesmo que dizer Espírito de Cristo atuando! Dizer “venha o Teu Reino” é dizer “venha o Teu Espírito”!

Cristo reinando no seu coração é o tesouro da sua vida, é o tesouro escondido até que você tome consciência Dele e para Ele se abra sem medo nem reservas.
Até quando você demorará a descobrir, a experimentar que Ele é a pérola de grande valor, a mais bela de todas, daquelas de encher a vista e encantar o coração? Quem deixa o Senhor Jesus reinar na sua vida, encontra o tesouro escondido, compra a pérola mais valiosa de todas! Não tenha dúvida!

Ah, mas que demora, demora! Há dois mil anos esperamos!
E o mundo vai de mal a pior, vai se paganizando; parece até uma nau sem rumo, um mundo sem Deus, casa sem dono, reino sem rei!
E a Igreja? É cada tipo de cristão, é cada figura, cada escândalo! Não se iluda não! O Reino de Cristo é como rede jogada no mar: pega todo tipo de peixe: vem de tudo! Mas, a rede está sendo puxada! Pouco a pouco Alguém vai puxando a rede do mundo, da Igreja. Um Dia – Dia bendito, Dia santo, Dia sem fim! – essa rede chegará à praia do mar da vida. E então, os peixes bons serão recolhidos nos cestos do Coração do Rei... E – você verá! – o peixe ruim será jogado fora... Se você compreender esta coisas, será feliz! Cristo, o Rei, garante!


Homilia para o XI Domingo Comum - Ano B

Ez 17,22-24
Sl 91
2Cor 5,6-10
Mc 4,26-34

No Evangelho deste Domingo, o Senhor nosso Jesus Cristo fala-nos sobre o Reino de Deus que Ele mesmo veio inaugurar com Sua santa Encarnação, com Seu ministério público, com Sua Paixão, Morte e Ressurreição; Reino que Ele, efetivamente, nos deu com o dom do Seu Espírito Santo!

Observai, Irmãos, que sempre que fala do Reino, Jesus nosso Senhor usa imagens, fala-nos em parábolas. É que o Reino não pode ser descrito, não pode ser resumido num conceito; sequer esse Reino bendito pode ser totalmente compreendido por nós. Por isso o Evangelho fala em “mistério do Reino de Deus” (Mc 4,11)!
Esse Reino bendito de Deus Pai é o próprio Senhor Deus de Israel reinando no nosso coração, na nossa vida e, através de nós, na vida do mundo. Esse Reino foi trazido pelo Senhor Jesus porque Nele, o Filho feito obediente por nós até a morte e morte de cruz, o Pai reinou totalmente, até ressuscitá-Lo na potência do Santo Espírito. Assim, em Jesus, o Reinado do Pai manifesta-se de modo pleno, em Jesus, Deus reinou totalmente; em Jesus, aparece as dores do Reino, dores de cruz; em Jesus, aparece a glória do Reino, glória de ressurreição; em Jesus, aparece a fraqueza do Reino e a força do Reino! E tudo isto se dá na força, na energia, na ação potente do Santo Espírito que, dando-nos os sentimentos de Cristo, dá-nos a graça de deixar que o Reinado de Deus entre em nós nesta vida e nos faça dele herdeiros na Vida que há de vir, na plenitude do Reino, na Glória do Céu!

Caríssimos, o que diz o Senhor? Que parábolas nos conta para fazer-nos entrever algo do Seu Reino bendito?
Primeiro nos ensina que o “Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece... Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou!”

Que significa isto, Irmãos? O Reino é semeado por Jesus e por todos aqueles que em Seu Nome pregam o Reinado de Deus. A nós compete pregar, como Jesus pregou; mas, atenção: a Palavra do Reino tem sua força própria! Não depende de nós! Como a semente, uma vez lançada à terra, cresce com seu próprio vigor, assim o Reino! Confiemos: ele tem a força vinda do próprio Espírito do Senhor Deus! Como nos ensina o Senhor na primeira leitura de hoje, Ele mesmo sabe levar adiante o Seu plano a partir de instrumentos tão fracos, tão frágeis, tão pequenos... A lógica e a medida do Senhor não são as nossas...
Vede bem: às vezes, esse Reino parece tão frágil e nossa pregação e nosso esforço tão inúteis... Não, meus caros: o Reino tem seu próprio tempo, sua própria força, sua própria dinâmica! No tempo de Deus e no modo de Deus chegará o momento da colheita; então, todos e tudo seremos colocados diante do tremendo tribunal de Cristo, como nos diz o santo Apóstolo na segunda leitura de hoje! Aliás, é por esta certeza, por este inabalável esperança, que o Apóstolo não perde o ânimo: “Estamos sempre cheios de confiança e bem lembrados de que, enquanto moramos nos corpo, somos peregrinos longe do Senhor!”Sim, agora é o tempo do caminho, do trabalho, da semeadura. E devemos fazê-los com ânimo, com os olhos fixos no Senhor! Muitas vezes, semeando entre lágrimas (cf. Sl 126/125,5s); mas, certos de que haverá o tempo da colheita e, até lá, o Reino crescerá na força do Senhor, do modo do Senhor, nos tempos do Senhor, na lógica do Senhor! O Reino é Dele, não nosso!
A nós cabe acolher o Reino, a nós cabe testemunhá-lo, a nós cabe anunciá-lo onde quer que vivamos! Ao Senhor cabe o restante, Ele que é fiel, atuante e tudo pode... Somente recordemos: os tempos e modos do Senhor Deus não são os nossos! Ele é capaz de abater o soberbo e elevar os humildes e insignificantes, como faz com os cedros do Líbano na profecia de Ezequiel, que ouvimos hoje!

Depois, a outra parábola: “O Reino de Deus é como um grão de mostarda, menor de todas as sementes. Cresce e se torna maior que todas as hortaliças e os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra”.Compreendeis? O Reino parece tão pequeno, tão insignificante, tão frágil... No entanto, anunciado, semeado, ele crescerá e a humanidade toda, as nações, representadas pelos pássaros dos céus, poderão abrigar-se nele! 
Eis quão pequeno e quão grande é o Reino! Ei-lo, tão frágil e tão forte, tão dom de Deus e tão responsabilidade nossa como testemunhas, como anunciadores!

Um dia, meus caros, esse Reinado de Deus que deve por nós ser acolhido, acolhido na nossa existência, recebido em todos os aspectos da nossa vida, esse Reino será pleno em nós, no Dia de Cristo. Nossa vida neste mundo é caminho para a plenitude do Reino na Glória celeste.

Na segunda leitura desta Eucaristia sagrada, São Paulo recorda que “enquanto moramos no corpo, somos peregrinos, longe do Senhor”, caminhando na sombra do fé, não ainda na visão clara. Gostaríamos de ir morar logo com o Senhor, deixando a moradia deste corpo. A questão é que desejamos receber um corpo glorioso sem ter que passar pela desnudez da morte, quando este nosso corpo, separado da nossa alma, será destruído. Mas, não será assim: vamos ser desvestidos deste corpo e, no final dos tempos, receberemos um vestido de glória, este nosso corpo ressuscitado e glorioso! No Dia de Cristo, na plenitude do Reino, quer estejamos nus – isto é, já no Céu somente com nossa alma – ou vestidos – quer dizer, ainda aqui neste mundo, com este corpo -, todos nós seremos transfigurados, recebendo um corpo de Glória, um corpo para o Reino, um corpo pleno do mesmo Espírito Santo que ressuscitou Jesus dentre os mortos!

Então, caríssimos meus no Senhor, nosso compromisso neste mundo com o Reino do Pai, que o Senhor veio nos trazer no Espírito Santo, nosso empenho em acolhê-lo, em testemunhá-lo, em difundi-lo, será o critério para o nosso destino quando estivermos no tremendo tribunal de Cristo, no limiar da plenitude do Reino, na Glória imperecível!

Levemos a sério a advertência do Senhor! Não sejamos cristãos frios, descomprometidos, preguiçosos em relação ao que é do Senhor! Que lástima: quando se trata do trabalho do Reino tudo para nós é difícil, tudo é custoso! Que raça de cristãos somos nós, que deixamos Deus e o Seu Reino no último lugar! Atentos ao Juízo do Senhor! Convertamo-nos! Na família, no trabalho, na vida social, na vida paroquial, no nosso grupo, em tudo quanto fizermos e onde estivermos, sejamos testemunhas e semeadores do Reino! E que o Senhor, por compaixão nos conceda dele participar em plenitude na Glória eterna. Amém.


A missão de ser sal e luz

No evangelho, o Salvador nos diz – diz aos cristãos, somente aos cristãos, aqueles que se aproximaram Dele quando Se sentou no alto da montanha (cf. Mt 5,1): "Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo".

Para compreendermos bem o que o nosso Senhor nos afirma, recordemos a Lei dos judeus, a Torá: “Salgará toda oblação que ofereceres e não deixarás de pôr na tua oblação o sal da aliança do teu Deus” (Lv 2,13).
O sal era a pitada que tornava a oferenda agradável a Deus. Sem a pitada de sal, a oferenda não poderia ser aceita, pois o sal simbolizava a própria aliança de Deus com o Seu povo!
Atenção: o sal não era toda a oferenda, mas a pitada, o tiquinho que tornava a oferta agradável ao Senhor, o pouquinho que fazia a oferenda ser aceita como expressão da Aliança sagrada entre Israel e o seu Deus.

E agora Jesus nos diz: “Vós sois o sal da terra”, vós sois o pouquinho de sal que, presente no mundo, torna-o oferenda agradável a Deus! O sal não é toda a oferenda, como os cristãos nunca serão a humanidade toda!
Mas, somos nós o pequeno rebanho, o resto fiel, que torna o mundo todo, a humanidade inteira, a criação completa, agradáveis a Deus, salvos em Cristo Jesus que, por Sua Morte e Ressurreição, selou a Aliança nova, eterna e definitiva entre Deus e toda a humanidade!

Pense bem, que responsabilidade, a nossa: sermos no mundo a pitada de sal que conserva e dá sabor, sermos o pequeno resto fiel que se torna uma alternativa, um modo diferente de ser e de viver. Por isso, o Senhor diz também que somos luz: luz do mundo! Não seremos luz se não formos sal!

Em muitos cristãos existe uma ilusão de que a humanidade inteira será cristã e a Igreja será mais Igreja e os cristãos serão mais fortes quando todos foram cristãos. Para isso muitos pregam um cristianismo fácil, ao sabor da moda do momento. Aí teriam a ilusão, com um cristianismo de consumo, de que todo o mundo tornara-se cristão; quando, na verdade o cristianismo apenas teria se tornado pagão, mundano, infiel ao Senhor!
Um exemplo? A agenda de certos cristãos que sentem segundo o mundo, e pensam numa reforma na Igreja, para “salvá-la”, para torna-la palatável e atraente ao mundo, livrando-a, assim, na visão deles, da crise em que se encontra no Ocidente... Quais seriam as mudanças? As de sempre: fim do celibato obrigatório, aprovação da contracepção artificial, ordenação de mulheres, admissão do divórcio, bênção de pares homossexuais, etc! Com este programa mundano, as pessoas achariam a Igreja simpática, moderna, humana, atraente, e nela ficariam... Quanto engano; que pensamentos tão distantes da lógica do Cristo Senhor e do Reino que Ele anunciou e inaugurou! Nesta mentalidade mundana, a palavra “conversão” – central, basilar, primordial, no Evangelho – desaparece!

Primeiro, a Igreja nunca deve tomar decisões pensando em atrair as pessoas! O único critério que deve mover os cristãos e orientar as decisões na vida da Igreja é a fidelidade ao Senhor – e tal fidelidade supõe escuta da Palavra de Deus, fidelidade à perene Tradição e ao constante e orgânico Magistério eclesial.
Em segundo lugar, o que faz com que a Igreja esteja em crise é o afrouxamento da vida cristã, o acomodamento de grande parte do clero e de tantos cristãos à mentalidade do mundo. O que atrai é a fidelidade generosa ao Senhor, é a coragem de levar, pascalmente, a própria cruz por amor a Jesus, é a proclamação da fé católica sem meios termos e sem descontos – em outras palavras, o caminho diametralmente oposto ao que esses cristãos mais entusiasmados com o mundo que com Cristo propõem.

É sempre útil recordar os primeiros cristãos e os Padres da Igreja nunca pensaram numa humanidade totalmente cristã; pensavam sim, que em todo o mundo houvesse comunidades verdadeiramente cristãs, que anunciassem e testemunhassem com alegria, radicalidade e jovialidade a beleza da novidade de Cristo, do Seu amor e da resposta radical e corajosa que os cristãos procuram dar a tão grande amor.

Sois o sal, sois a luz!
Não sejamos insossos quanto tantos que desejam um cristianismo pela metade, que já não sabe no que crê, que tem medo de proclamar Jesus nosso Senhor como o único Salvador e a única Vida da humanidade!
Não temamos ser o pequeno rebanho, aberto a todos, capaz de amar, de compreender de acolher, mas sem esconder ou negar ou negociar o que quer que seja da nossa fé e da certeza que habita em nosso coração!


quinta-feira, 14 de junho de 2018

Diante de Ti, derramo o meu coração...

Senhor meu Deus!
Tu és grande, Tua sabedoria é infinita!

Tua Palavra santa diz que não deves satisfação de Tuas ações a ninguém:
“Pois não há, além de Ti, outro Deus que cuide de todas as coisas, e a quem devas mostrar que Teu julgamento não foi injusto.
Porque és justo, tudo dispões com justiça; e consideras incompatível com o Teu poder condenar a quem não mereça castigo” (Sb 12,13.15).

E, no entanto, Senhor, como nos são difíceis Teus caminhos,
Como nos são incompreensíveis os modos que tens de dirigir nossa vida - minha vida -, e a vida do mundo!
“Para mim, Tua sabedoria é grandiosa, alta demais, eu não a entendo.
Para onde irei, longe do Teu Espírito? Para onde fugirei da Tua presença?” (Sl 139/138,7)

Sei que és amor,
olho o Teu céu estrelado e ele me diz ao coração que és Beleza;
Sinto a brisa que toca minha face, e ela sussurra aos meus ouvidos que és Ternura;
Contemplo a majestosa altura das montanhas
e meu coração intui a Tua doce e serena majestade;
Ouço o rumor das ondas buliçosas do mar
e sinto algo da potência do Teu Espírito sempre presente e atuante!

E, então, o mundo todo, a vida toda, a criação toda, tornam-se uma canção
ao Teu amor criador e cheio de ternura,
à Tua providência sempre presente e cheia de cuidado por todos os seres!
Tudo canta Tua sabedoria imensa!

Senhor, por que Tua criação não é somente assim, não é somente isto:
beleza, providência, sentido luminoso, canto de louvor?
Por que olho, e vejo
também a dor, a solidão, a catástrofe, a injustiça, a frustração,
a inexprimível amargura de quem procura sentido e não o encontra, caça uma explicação e não a vê?

Como pode ser um Deus tão bom, tão grande, tão providente, tão amor
e, ao mesmo tempo, a existência de tantos escuros, tantos ais, tantas realidades que nos parecem absurdas e sombrias?
“Acaso não és o Senhor desde o princípio, o meu Deus, o meu Santo, que não morre?
Teus olhos são tão puros que não podem ver o mal;
Tu nem consegues olhar para a injustiça!
Por que, então, ficas olhando os velhacos e Te calas quando um patife engole alguém mais correto do que ele?
Por que nos tratas como peixes do mar ou bichos que não têm quem os governe?” (Hab 1,12a.13-14).

Senhor, plantador do bom trigo no mundo e no coração humano, por que o joio?
Por que tanto joio de dor, de sofrimento, de maldade, de solidão, de tristeza, de fracasso e de absurdo?

Pergunto, e não encontro as respostas, além da única que Tu me dás:
o Teu Santo, o Teu Predileto, o Filho amado, o Teu Único, tão Bom, tão Justo, Aquele em Quem colocas todo o Teu Bem-querer:
vejo-O silencioso, cabisbaixo, na cruz...
Contemplo-O de braços abertos para me acolher,
de coração trespassado e aberto para me abrigar e matar minha sede...

Tu és o Santo!
Tu é o Separado, o Outro,
Aquele a Quem o homem não pode compreender, abarcar, controlar, enquadrar na sua pobre e pequena lógica!
Teu Nome é impronunciável,
Tua Face não pode ser vista por nós,
a não ser na Face sofrida do Filho amado que, sem explicação e sem pedir minha permissão, toma silenciosamente sobre Si a dor minha e do mundo inteiro:
daquela criança órfã, daquele menino prostrado no leito, daquela jovem mãe agonizante, daquele pobre machucado pela vida e pisado pelos homens, daquele velhinho alquebrado pelos tantos anos e abandonado pelos filhos, daquele jovem envelhecido pela falta de sentido e pelo vício, daquela esposa deixada só com os filhos pelo marido egoísta e irresponsável...

Olho Tua Cruz,
a Cruz do Teu Filho amado e, então, sem compreender, compreendo; sem ver, enxergo...

E ainda assim, quantas vezes penso, sobretudo na situação da dor e da escuridão da alma, com o coração apertado:
Será mesmo que há um Sentido?
Será mesmo que existe um Amor eterno, um Sentido que a tudo reveste de sentido?
E minha mente não alcança, meu coração já não sente...

E se eu não mais acreditar?
E se eu viver como se Ele, Deus, não existisse?
E se eu, ainda que Ele exista, viver por minha conta, do meu modo, deixando pra lá, no canto, esse Deus que é rebelde demais, livre demais, imprevisível demais, exigente demais para a minha lógica e o meu gosto?

Aí, então, Tu me atormentas com o Vazio,
Tu me fazes sentir que sem Ti não há beleza nem alegria nem sentido nem razão alguma para viver!
Tu me fazes sentir na carne e na alma – e como dói! – que de nada vale
o rosário de anos, de dias,
de sonhos, de projetos, de amores,
se tudo acaba no nada da morte,
se tudo é somente viver e morrer,
se a existência humana é um caminhar somente diante de si própria,
sem um céu infinito e estrelado de amor benevolente acima de nós:
um céu para o qual olhar, pelo qual suspirar, no qual esperar, com o qual sonhar!

Senhor, não se pode fugir de Ti!
Não posso!
Sem Ti eu não sou!

Se não existes, eu sou nada
e o mundo inteiro não passa de um teatro sem graça pronto para uma tragicomédia!
Se minha vida não corre pra Ti e não é vida diante de Ti, não é vida de modo algum:
é morte o que eu vivo sem Ti, Vida minha!

Senhor Deus do pensamento impenetrável,
de luz tão intensa que me cega,
de altura tão infinita que me provoca vertigem,
de desígnio grande demais para mim,
de lógica que ultrapassa a minha lógica e a inunda como a onda bravia destrói o castelozinho que o menino peralta construiu na praia do mar...

Senhor, somente em Ti – Deus tão difícil! – repousa o meu coração,
pois somente a certeza da Tua Presença,
de que vivo sob o Teu olhar infinito e misterioso,
pode fazer que meus dias valham a pena!

Viver só quero, viver somente posso,
caminhar somente consigo
com esta certeza que levo no peito:
minha dor e minha exultação,
minha tristeza e minha alegria,
minha vitória e meu fracasso,
meu pecado e minha virtude,
meu deitar e meu levantar,
minha vida e minha morte,
tudo isto, aos Teus olhos tem sentido
e será a pobre matéria com a qual, no momento bendito e sagrado da minha partida deste mundo de peregrinos,
Tu plasmarás
a minha existência plena e feliz Contigo, por toda a Eternidade!
Eu sei - como o sabia o Teu Salmista:
"Contaste os passos da minha caminhada errante,
minhas lágrimas recolheste no Teu odre
e escreveste tudo isto no Teu livro!" (Sl 56,9).

Bendito sejas, Deus grande, Deus santo, Deus eterno!
Bendito sejas, pelo Teu Filho, no Santo Espírito, de Eternidade em Eternidade. Amém!