segunda-feira, 23 de março de 2015

Retiro Quaresmal - Terça-feira da V semana

Meditemos ainda sobre os versículos do I Cântico do Servo Sofredor:

“Eu sou o Senhor; este é o Meu Nome!
Não cederei a outrem a Minha glória,
Nem a Minha honra aos ídolos.
As primeiras coisas já se realizaram,
Agora vos anuncio
Outras, novas;
Antes que elas surjam,
Eu vo-las anuncio!” (Is 42,8-9).


Trata-se da conclusão soleníssima! deste primeiro poema!

O Senhor Deus empenha o Seu Nome, a Sua glória, a Sua grandeza na missão do Servo!

O verdadeiro Deus – não os ídolos! – Se revela no Servo manso e humilhado. O Deus de Israel nada tem a ver com a “teologia da prosperidade”, com o pensamento de um Messias poderoso, guerreiro, triunfante dos triunfos deste mundo! Tudo isto é idolatria, é imagem de um falso deus! O Deus único e verdadeiro é o que Se manifesta na pobreza humilde do Servo sofredor!
A lógica de Deus é impressionante; dá um nó na nossa lógica! Somente nos convertendo poderemos acolhê-la!

O Senhor termina recordando a Sua fidelidade: o que Ele afirmou no passado cumpriu-se: Ele fez Israel sair do Egito, Ele deu a terra ao Seu povo, Ele o libertou dos seus inimigos, Ele castigou Israel por sua infidelidade... Tudo cumpriu-se...

Que ninguém duvide: o que Ele agora anuncia, tão misterioso, tão inesperado, tão escandaloso (Seu Servo pobre e humilde, que vai triunfar trazendo a salvação) acontecerá sem dúvida alguma! É, realmente, uma coisa nova, inesperada, nunca imaginada pela humanidade!

Reflita: os pensamentos do Senhor, os Seus modos, não são os nossos... Você está disposto a se converter aos modos, aos tempos, à lógica do Senhor?

Reze o Salmo 30/31, unindo-se a Cristo no mistério da Sua paixão.

Retiro quaresmal - segunda-feira da V semana

Ainda estamos meditando sobre o I Cântico do Servo Sofredor:

"Não vacilará nem desacorçoará
até que estabeleça o direito na terra;
e as ilhas aguardem Seu ensinamento” (Is 42,4).

Se o Servo é humilde e manso, mas que ninguém se iluda: Ele não desiste! 
Confiando no Senhor Deus, persistirá na Sua missão de levar o direito de Deus, a adoração, o serviço e a verdade amorosa do único Deus até os confina da terra. As ilhas, no Antigo Testamento, significam as nações mais distantes, os extremos da terra.

É impressionante como já o Antigo Testamento previa sua própria superação. Quando viesse o Servo-Messias, o Deus de Israel seria o Deus de toda a humanidade, graças a obra do Ungido, Daquele sobre quem o Senhor Deus derramara o Seu Espírito!
Vá observando, caro Amigo, como tudo isto se cumpriu de modo impressionante no Senhor nosso Jesus Cristo!

Continuemos ainda escutando a Escritura:

"Assim diz Deus, o Senhor,
que criou os céus e os estendeu,
que firmou a terra e o que ela produz,
que deu o alento aos que a povoam
e o sopro de vida aos que se movem sobre ela:
‘Eu, o Senhor, Te chamei para o serviço da justiça,
Tomei-te pela mão e Te modelei,
Eu Te constitui como aliança do povo,
como luz das nações,
a fim de abrires os olhos aos cegos,
a fim de soltares do cárcere os presos,
e da prisão os que habitam nas trevas!’” (Is 42,6-7).

O Senhor Deus agora, de modo soleníssimo, faz uma declaração ao Seu Servo. Observe: Deus recorda que Ele é o Altíssimo, o Senhor de tudo, Senhor de Israel, mas ainda mais: Senhor de toda a terra, de todo o ser vivente!
O Servo não terá uma missão simplesmente circunscrita a Israel, o povo da antiga Aliança. Sua missão atingirá todos os seres e toda a humanidade, que vive porque o Senhor Deus a todos criou e a todos dá o sopro de vida.

Que diz o Senhor Deus ao Seu Servo?

(1) “Eu Te modelei!” Que mistério! O Filho eterno, Deus igual ao Pai, foi realmente criado na Sua humanidade igual à nossa! Sendo Deus, fez-Se homem; sendo Senhor, fez-Se servo; sendo rico, fez-Se pobre; sendo eterno, fez-Se criança; sendo infinito, fez-Se mortal limitado! Estas palavras impressionantes encontram eco nas palavras do próprio Cristo Jesus ao entrar no mundo: “Tu não quiseste sacrifícios e oferenda. Tu, porém, formaste-Me um corpo. Holocausto e sacrifícios pelo pecado não foram do Teu agrado. Por isso Eu digo: Eis-Me aqui – no rolo do Livro está escrito a Meu respeito – Eu vim, ó Deus, para fazer Tua vontade!” (Hb 10,5-7). O Filho toma a forma de Servo e vem para obedecer, para humanamente entregar-Se de modo total ao Pai em nosso favor. Vem corrigir com o seu “sim” o “não” que Adão (e Adão somos todos nós!) disse a Deus, perdendo o rumo de sua existência e o caminho da salvação.

(2) “Eu Te chamei para o serviço da justiça!” Não se trata aqui de qualquer justiça. A justiça, nas Escrituras Sagradas, é, sobretudo, e radicalmente a obediência ao Senhor Deus. O justo é o obediente ao Senhor, o que cumpre Sua santa vontade. É esta a justiça que é raiz de toda outra justiça. A justiça humana que não brota da justiça (retidão) para com Deus é capenga, tem pernas curtas! O Servo vem para levar a vontade de Deus a toda a humanidade e chamar todos à obediência da fé!

(3) “Eu Te constitui como aliança do povo, como luz das nações”. Impressionante! O Servo primeiro vem para o povo de Israel. A nova e eterna Aliança que Ele traz é primeiro ofertada aos judeus (cf. Mt 10,5-6). Se o povo de Israel desejar realmente fazer a vontade do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, deve acolher Jesus como Messias e entrar na nova Aliança no Seu sangue. Mas, Jesus veio também para todos os povos: “Eu sou a luz do mundo!” Como profetizou o Velho Simeão: “Luz para iluminar as nações e glória de Teu povo, Israel” (Lc 2,32).

(4) “A fim de abrires os olhos aos cegos, a fim de soltares do cárcere os presos, e da prisão os que habitam nas trevas”. Eis aqui: o Servo vem para salvar, para libertar uma humanidade presa em tantos cárceres, cega de tantas cegueiras, privada de luz, porque confia em suas próprias trevas. Ainda hoje é esta a missão do Senhor. Aquele que Nele crê e o acolhe, aquele que cumprindo Seu desejo, recebe o Batismo e ingressa na Sua santa Igreja, aquele que comunga Seu Corpo e Sangue na Eucaristia e vive na Sua vontade, livra-se das cadeias da morte, do poder das trevas e vive na luz!

Reze o Salmo 71/72, pensando no Cristo humilhado e glorioso: é Ele o Rei verdadeiro nosso e do mundo.

domingo, 22 de março de 2015

V Domingo da Quaresma: Elevado para atrair e salvar!

Caríssimos, às portas da Semana Santa, concentremos, neste Domingo, todo o nosso olhar no Senhor nosso, Jesus Cristo, e na Sua missão salvadora.

Para isto, comecemos pelo belíssimo evangelho deste hoje. Contemplemos o Senhor! Contemplemo-Lo com os olhos, contemplemo-Lo com a fé, contemplemo-Lo com o coração!

Jesus estava no interior do Templo de Jerusalém, no pátio interno, chamado Pátio de Israel. Ali, nenhum pagão podia entrar, sob pena de morte. Pois bem, dois gregos, dois pagãos que certamente habitavam na Terra Santa, provavelmente na Gelileia, aproximaram-se de Filipe, que certamente estava na parte mais externa, no chamado Pátio dos Gentios, até onde qualquer pessoa podia chegar.

Dois gentios, chamados “tementes a Deus”, que procuravam com fervor o Deus de Israel, tanto que “tinham subido a Jerusalém para adorar durante a festa”.

Com humildade, eles pedem: “Gostaríamos de ver Jesus!” Eles não podiam entrar no Templo, não poderiam ver Jesus, a não ser que Este saísse e viesse aonde eles estavam.

Filipe, então, foi a Jesus e Lhe relatou o pedido dos gregos.

O Senhor não responde de modo direto; com palavras misteriosas, afirmou: “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado!”

Que mistério, caríssimos: para que os pagãos vejam Jesus, isto é, para que O contemplem com os olhos da fé, para que Nele creiam e Nele tenham a Vida eterna, é necessário que Jesus seja glorificado pela cruz e pela ressurreição! É necessário que Jesus, grão de trigo, que se faz Eucaristia, morra e dê fruto – e este fruto é toda a humanidade, judeus e gentios que Nele acreditarão e Nele serão o novo Povo, da Nova Aliança e por causa Dele terão a Vida eterna: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz fruto”.

Jesus entregará ao Pai a Sua vida, para frutificar em salvação para nós, para que possamos vê-Lo, contemplá-Lo e experimentá-Lo como nossa Luz e nossa Vida! Quanto custosa foi a nossa redenção! Quão doloroso o sim de Deus à humanidade: entregou o Seu Filho, glorificando-O na cruz e na ressurreição, para que Nele tivéssemos Vida divina!

Como não pode ser banal a nossa resposta a um amor assim!

Como não podemos brincar de ser cristãos!

Como não podemos crer de faz de conta e de seguir a Jesus nosso Senhor sem renunciar ao pecado por Ele!

Irmãos, não foi fácil a Sua missão! A vida de Nosso Senhor foi toda ela uma entrega de amor, que culminou com a entrega mais absoluta na cruz. E isso custou!

Como não nos impressionar com as misteriosas palavras da Epístola aos Hebreus? “Cristo, nos dias de Sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas com forte clamor e lágrimas, Àquele que era capaz de salvá-Lo da morte. Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que Ele sofreu. Mas, na consumação de Sua vida, tornou-Se causa de salvação eterna para todos os que Lhe obedecem!”

Que mistério tão grande, tão adorável!

O Filho foi se consumindo durante toda a vida, fazendo-Se, por nós, obediente ao Pai, até a morte e morte de cruz! O Filho amado, durante toda a sua existência humana foi, humildemente, buscando a vontade do Pai e a ela Se entregando, mesmo quando foi percebendo que a vontade do Pai querido apontava para a cruz! Assim, tornou-Se causa de salvação para todos nós, para os judeus e para os pagãos! Quanto tudo isso custou: “Agora sinto-Me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-Me desta hora?’ Mas foi precisamente para esta hora que Eu vim. Pai, glorifica o Teu Nome!” 

Em Cristo, caríssimos, vai cumprir-se a promessa que o Senhor fizera pelo Profeta Jeremias: “Eis que virão dias em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança: imprimirei minha lei em suas entranhas e hei de inscrevê-la em seu coração. Todos Me reconhecerão, pois perdoarei sua maldade e não mais lembrarei o seu pecado”.

Eis, irmãos e irmãs: é na glorificação de Cristo – Sua morte e ressurreição - que judeus e gentios entrarão para a nova e eterna Aliança no sangue do Senhor!

Quanto somos valiosos, quanto custamos em dores e sacrifício, em doação e trabalhos ao Senhor! 

Quanto deveríamos amar Àquele que nos amou até a morte e morte de cruz!

Por isso mesmo São Pedro exclamará: “Sabeis que não foi com coisas perecíveis, com prata ou com ouro, que fostes resgatados da vida fútil que herdastes dos vossos pais, mas pelo sangue precioso de Cristo” (1Pd 1,18).

E, no entanto, caríssimos em Cristo, é a cruz do Senhor, é Seu sacrifício amoroso ao Pai por nós, o critério do julgamento do mundo.

Não são os grandes, os crucificadores, que salvam, mas o pobre e impotente Crucificado: “É agora o julgamento deste mundo. Agora o Chefe deste mundo vai ser expulso, e Eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a Mim”.

Compreendeis, meus caros, o que o Senhor está dizendo?

Sua cruz é o critério do julgamento do mundo: tudo aquilo que não couber na cruz, tudo aquilo que fugir da lógica da cruz, é lixo, é palha para ser queimada!

É o amor manifestado e derramado na cruz que vence Satanás, que vence o pecado, que vence a morte e nos dá a Vida plena.

Não são a força, o sucesso, as razões humanas, o prestígio que salvam!

Eis a loucura de Deus: é Cristo elevado na cruz Quem libertará os gregos que estavam do lado de fora, sem poder entrar no povo da antiga aliança.

Cristo morrerá por eles, por nós, para que todos, atraídos a Ele, formemos um novo povo, a Igreja, povo da Nova e Eterna Aliança, selada no sacrifício do Senhor, neste mesmo Sacrifício Eucarístico que neste Domingo sagrado estamos celebrando nos ritos da sagrada liturgia!

Quanta bondade, quanta misericórdia! Que dom tão grande recebemos do Senhor! Na cruz, de braços abertos, o Salvador nosso une judeus e pagãos num só povo, o novo Povo, a Igreja, Sua amada esposa una, santa, católica e apostólica!

É este, caríssimos, o mistério que a Palavra do Senhor nos convida a contemplar neste último Domingo antes do início da Grande Semana. Mas, do alto da contemplação, o Senhor nos surpreende com um convite, um desafio, quase que uma ordem inesperada: “Se alguém Me quer servir, siga-Me, onde Eu estou estará também o Meu servo”.

– Nós queremos, sim, Te servir, Senhor nosso!

Dá-nos a força de Te seguir até onde estás: estás na cruz e estás na Glória.

Jamais chegaremos a esta sem passar por aquela, porque quem não ama a Tua cruz não verá a Tua luz, a luz da Tua Glória!

Senhor, concede-nos, como fruto da santa Quaresma, um coração generoso para ir Contigo, fazendo, como Tu, a vontade do Pai na nossa vida!

Senhor, dá-nos a graça de unirmo-nos mais intensamente a Ti nestes benditos e santos dias que se aproximam, nos quais faremos memorial nos santos mistérios, da Tua Paixão, Morte e Ressurreição, pelas quais fomos salvos e libertos! “Dai-nos caminhar com alegria na mesma caridade que Te levou a entregar-Te à morte no Teu amor pelo mundo”.

A ti a Glória, ó Cristo Deus Bendito e Santo, Santo e Santificador, hoje e para sempre! Amém.

sábado, 21 de março de 2015

Retiro quaresmal - sábado da IV semana

"Ele não clamará, não levantará a voz,
não fará ouvir a voz nas ruas;
não quebrará a cana rachada,
não apagará a mecha bruxuleante,
com fidelidade trará o direito (Is 42,2-3).


O Santo de Israel, o Deus vivo de Abraão, de Isaac e de Jacó, vai apresentando o Seu Servo, vai traçando Seu perfil.

Nestes versículos aparece clara a Sua mansidão: Ele não vem de modo vistoso, imponente, mas humilde, brando, manso: não grita, não aterroriza, não ameaça.
Mais ainda: é misericordioso, pois vem para sarar, para recompor: não quebra a cana que já está rachada ou a chama que ainda fumega.

Foi assim que o nosso Jesus se comportou: acolheu publicanos, prostitutas, pecadores de toda espécie...
Nunca justificou o pecado, mas sempre procurou acolher e perdoar os pecadores, já feridos, já rachados, titubeantes pelos pesos, erros e ferimentos da vida...
Com toda fidelidade, Jesus defendeu o direito de Deus: Sua santidade, Sua exigência de um amor verdadeiro, total e absoluto, Sua misericórdia e desejo de dar vida ao pecador...

Medite, contemple o Senhor Jesus!
Reze o Salmo 31/32, um dos salmos penitenciais da Igreja.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Retiro quaresmal - sexta-feira da IV semana

Aproximamo-nos da Grande Semana. A Liturgia da Igreja começa agora a colocar toda a sua atenção em Jesus, o nosso Salvador, que por nós e pela nossa salvação, sofreu tão grande contradição, até a morte e morte de cruz.

Assim, meu caro Amigo, como continuação do nosso Retiro Quaresmal apresentarei por estes dias vários textos para sua meditação. Sobretudo, colocarei os quatro cânticos do Servo Sofredor, procurando comentá-los. Hoje, o Primeiro Cântico (Is 42,1-9), lido como primeira leitura da Missa da Segunda-feira Santa. Que o nosso olhar se dirija a Jesus; que o nosso coração se fixe no Senhor!

"Eis o Meu Servo que Eu sustento,
o Meu Eleito, em quem tenho prazer.
pus sobre Ele o Meu Espírito,
Ele trará o direito às nações" (Is 42,1).

Assim começa o primeiro dos quatro cânticos do Servo sofredor.
Aqui o Deus de Israel apresenta o Seu Servo.

Observe, meu Leitor, que são as mesmas palavras ditas no batismo de Jesus: “Este é o Meu Filho amado, em quem Me comprazo” (Mt 3,17).
E enquanto diz isto, o Pai derrama sobre Ele o Seu Espírito. É o cumprimento desta profecia. E mais: aqui o Pai revela ao Filho que tipo de Messias Ele deve ser: o Messias Servo, apresentado no Livro de Isaías profeta.
Por isso mesmo a Igreja, durante toda esta Semana Santa, na Missa cotidiana, apresenta a figura do Servo sofredor. Toda a missão do nosso Salvador foi vivida como Servo sofredor e é assim que O contemplamos nestes dias santíssimos.

Ele é o Ungido ( = Messias) pelo Espírito Santo para ser o Servo salvador de Israel e do mundo inteiro.
Observe como já aqui está anunciado o alcance universal da Sua missão: “Ele trará o direito às nações”. Qual direito? O direito de Deus, do Deus Santo de Israel. Este direito que nossa sociedade ocidental agora rejeita e joga no lixo de sua existência e muitas vezes também nós, que trazemos o nome santo de cristãos, quando queremos viver do nosso modo, à margem ou contra a vontade do Senhor...

Pense nisto!
Reze o Salmo 6, o primeiro dos salmos penitenciais

Preparando a Grande Semana

Meu caro Amigo, uma das características essenciais do cristão é o constante processo de identificação com Jesus nosso Senhor. Não se trate de algo sentimental, psicológico, digamos assim. Desde o Batismo e passando por todos os sacramentos, tendo como cume a Eucaristia, por obra do Espírito Santo do Senhor imolado e ressuscitado, o cristão vai se tornando uma só coisa com o seu Senhor, a ponto de exclamar com toda verdade “Já não sou eu quem vive; é Cristo que vive em mim!”.

Mas este processo que se dá no nível do ser, deve invadir todos os âmbitos da nossa existência: também o nosso psiquismo, nossa imaginação, nossa memória, nossos afetos e sentimentos. “Tende em vós os mesmos sentimentos do Cristo Jesus!”


Pois bem, nestes dias que antecedem a Grande Semana ou Semana Santa, convido-o insistentemente a deixar-se inundar pelos sentimentos do nosso Salvador no Seu caminho para o Calvário e a Ressurreição. Convido-o a viver a Páscoa por dentro, tanto nos ritos sagrados da Liturgia, que nos fazem contemporâneos dos gestos salvíficos de Cristo, como também tornando seus o sentimentos e atitudes interiores do Salvador. Para isto, eis o que deve ser feito:

1. Procure ler e meditar os textos evangélicos da Missa de cada dia, começando pelos da segunda-feira passada: segunda-feira da IV semana da Quaresma. Eles são todos do Evangelho segundo João e vão mostrando a forte disputa entre Jesus e os judeus; disputa que terminará no teibunal de Pilatos.

2. Leia, meditando e tendo sempre o Cristo diante dos olhos e no coração, os quatro cânticos do Servo Sofredor: eles falam do Senhor nosso Jesus Cristo: Is 42,1-9; 49,1-7; 50,4-11; 52,13 – 53,12.

3. Reze os Salmos de súplica individual do Saltério. Reze-os emprestando a sua voz a Cristo; deixe que Cristo fale por você; reviva em você os sentimentos Dele. Eis os Salmos: 5; 6; 7; 13; 17; 22; 25; 26; 28; 31; 35; 36; 38; 39; 42; 43; 51; 54; 55; 56; 57; 59; 61; 63; 64; 69; 70; 71; 86; 88; 102; 109; 120; 130; 140; 141; 142; 143. A numeração dada aqui é a hebraica; isto quer dizer que, por exemplo, o Salmo 51 é o Salmo 50 da “Ave Maria”. Importante: quando o salmista reconhecer seus pecados, tal afirmação deve ser compreendida como Cristo que toma sobre Si as consequências dos pecados do mundo inteiro, pois o nosso Salvado nunca teve pecado: é santíssimo e Deus perfeito.

Bom exercício de oração! Boa preparação para a Semana Santa. Depois darei outras sugestões!

quarta-feira, 18 de março de 2015

Retiro quaresmal - quarta-feira da IV semana

Comecemos com a Palavra de Deus:

"Naqueles dias, 4um grupo de pessoas que estava no meio deles foi atacado de um desejo desordenado, e os filhos de Israel começaram a lamentar-se, dizendo: “Quem nos dará carne para comer? 5Vêm-nos à memória os peixes que comíamos de graça no Egito, os pepinos e os melões, as verduras, as cebolas e os alhos. 6Aqui nada tem gosto ao nosso paladar, não vemos outra coisa a não ser o maná" (Nm 11,4-6).


Israel foi atacado de desejo desordenado. Já tinha o maná, o Senhor o sustentava, tinha a água do rochedo...

Mas, Israel é guloso: nunca está satisfeito; corre atrás de suas mil vontades, de seus mil interesses contraditórios e mortais. Na sua gula por satisfazer seus desejos, por seguir sua lógica, por ir atrás de seus apetites, o povo recorda a antiga escravidão e, seduzido pelo diabo e por suas próprias paixões, tem a ilusão de que o tempo do Egito fora um paraíso! Eis: a obra do Diabo é seduzir, mentir, enganar o homem!
O pecado nos faz isto: o mal parece bem, o feio parece belo, o errado parece louvável, o que leva à morte parece nos realizar a vida!

Repito: o pecado é, primeiramente, um mistério de sedução, é uma maldita miragem que nos afasta de ver e avaliar a realidade como ela é.

O resultado é sempre trágico: a morte, afastamento de Deus! Israel comeu carne, como desejava... A carne lhe trouxe náuseas e morte!

Aqui, a nossa meditação deste hoje quaresmal:

1. Você tem vigiado seus impulsos e desejos? Não se trata de sufocá-los simplesmente, mas procurar compreender donde vêm e orientá-los, disciplinando-os e rejeitando tudo quanto possa ferir sua opção por Cristo nosso Senhor.

2. Você tem procurado educar sua imaginação, sua memória, seus pensamentos, evitando "castelar", isto é, entregar-se a pensamentos e sentimentos inúteis?

3. Você tem um diretor espiritual, alguém que o ajude no caminho do Senhor?

4. Você tem procurado educar sua vontade e tem se esforçado para ser aquele que dirige a própria vida sob a luz do Senhor? Lembre: somente somos verdadeiramente livres quando todos os aspectos da nossa vida são ordenados de acordo com a nossa opção fundamental e somente somos plenos diante de Deus quando nossa opção fundamental é radicada no Cristo que o Pai nos enviou. Nisto, somos unificados, fora disto, somos quebrados em mil vontades contraditórias!

5. Deixo-lhe dois pensamentos:
Um é da Regra de São Bento: "Afasta-te de tuas vontades!" - assim, no plural, pois nossas vontades são muitas, desagregadoras e contraditórias. Quem vive na única vontade de Deus unifica o coração e a vida.

Outro, dos Provérbios, também citado pela Santa Regra: "Há caminhos que parecem bons aos homens e vão terminar no fundo dos infernos". Qual o modo de evitar essa tragédia? Viver na obediência aos preceitos do Senhor!

Reze o Salmo 69/70 - é um salmo para quem se sente e se sabe envelhecido pelo pecado...