segunda-feira, 23 de março de 2020

Retiro quaresmal 2020/23 - "Felizes aqueles que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Segunda-feira da IV semana da Quaresma
Meditação XXII: Demônios na vida conjugal e familiar

Reze o Salmo 119/118,169-176
Como lectio divina, tome Tb 8-9.

1. Na meditação VI, vimos que o nome Asmodeu significaria “aquele que faz perecer”, na tradição judaica, ele é considerado como inimigo da união conjugal e, na tradição posterior, seja no judaísmo como no cristianismo, tem a ver com tudo quanto se liga à luxúria, sensualidade, infidelidades conjugais, ou seja, tudo quanto deturpe o sentido que o Senhor Deus pensou para a sexualidade, para o amor conjugal e familiar, para a geração da vida no seio do casal humano.
É importante recordar que, para além de seres espirituais pessoais meléficos, a tradição cristã, sobretudo nos antigos padres do deserto, os primitivos monges cristãos, chama “demônios” aos nossos vícios, isto é aos nossos maus hábitos, que nos escravizam, tiranizam e nos afastam da vocação em Cristo, o Homem novo, modelo de todo ser humano (cf. Ef 2,15). É assim que os padres do deserto falavam nos nossos demônios, referindo-se aos nossos vícios, sobretudo aqueles sete principais: o demônio da soberba, o da avareza, o da ira, o da preguiça, o da tristeza ou inveja, o da luxúria e o demônio da gula. Na tradição espiritual cristã, estes sete demônios são os principais, que geram e fortificam muitos outros. Estes são os cabeças (em latim, caput), daí chamados de demônios ou vícios capitais. É necessário identificá-los, chamá-los pelo nome com coragem e combatê-los com determinação, como foi já explicado na meditação anterior: com oração, vigilância, fuga das ocasiões de pecado, prática sacramental frequente, fiel e piedosa...
Aqui, vale a pena um exame de consciência sobre quais são seus demônios mais fortes e dominantes. Em nome de Jesus e com a prática da disciplina e da oração, podemos expulsá-los, pois “foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).

2. Vejamos o caso de Tobias e Sara. O que os fez vencer o demônio Asmodeu? Na versão da Vulgata, a tradução de São Jerônimo, que foi usada largamente durante séculos pela Igreja latina, o texto é mais longo e em Tb 6,16-22 aparecem assim as palavras de Rafael a Tobias: “Então o Anjo lhe disse: ‘Ouve-me, eu te mostrarei quais são aqueles sobre quem o demônio tem poder. São os que se casam com tais disposições, que lançam a Deus fora e si e se entregam à sua paixão, a tal ponto que não têm maior entendimento que o cavalo e o jumento; a esses o demônio vence. Mas tu, quando a tiveres recebido por esposa, viverás com ela em continência durante três dias e não cuidarás de outra coisa senão de fazer oração com ela. Na primeira noite, o demônio será expulso pela fumaça do fígado do peixe. Na segunda noite, serás admitido na sociedade dos santos patriarcas. E na terceira noite conseguirás a bênção, para que vos nasçam filhos sadios. Passada a terceira noite, no temor do Senhor, tomarás a donzela, levado menos pelo instinto do que pelo desejo de ter filhos, a fim de obteres sobre teus filhos a bênção da raça de Abraão”’.
Aqui, aparecem algumas respostas: (i) o amor a Deus, (ii) o desejo sincero de fazer do matrimônio um serviço ao Senhor, colocando o amor conjugal a serviço da geração da vida, (iii) a sexualidade vivida debaixo do senhorio de Deus, Senhor da vida e do amor, (iv) a piedade conjugal. Tudo aquilo que será sintetizado para os cristãos na exortação do Autor da Epístola aos Hebreus: “O matrimônio seja honrado por todos, e o leito conjugal sem mancha; porque Deus julgará os fornicadores e adúlteros” (13,4).

3. Com estas palavras, as Escrituras desejam ensinar que o matrimônio faz parte do plano de Deus e é sagrado. Leia o que Jesus disse em Mt 19,1-9. Se o amor entre um homem e uma mulher envolve atração, sedução, encanto e até paixão, tudo isto é em vista de algo muito mais sublime e profundo: a celebração do amor e a geração da vida. Mas, de que amor estamos falando? Não se trata de pura paixão ou sentimento meio cego e meio meloso! Eis o amor: 1Cor 13,1-8a! Este amor é dom de Deus, derramado no coração dos esposos pelo Santo Espírito que nos foi dado (cf. Rm 5,5) no sacramento do Matrimônio. Aos que se casam “no Senhor” (cf. 1Cor 7,39), é concedido o Espírito Santo de amor para que se amem como Cristo ama a Igreja e a Igreja, com a graça do Santo Espírito, ama a Cristo. Leia Ef 5,21-33. É o amor que faz com que, no matrimônio, um seja submisso ao outro: “Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo” (Ef 5,1). Na visão cristã, jamais a vida conjugal é um vale tudo, jamais a sexualidade é uma desenfreada concessão aos instintos, que escraviza, animaliza e transforma o cônjuge em mero objeto de prazer! Toda deturpação na relação de amor entre esposo e esposa - transformada em relação de hipocrisia, de mentira, de paixão cega e de mera concessão aos instintos, sem real compromisso de amor na vida concreta -, é personificada em Asmodeu, um poderoso demônio que mata e torna estéril! Somente o bom odor de Cristo (cf. 2Cor 2,15), exalado por um coração unido ao Senhor, fervente e abrasado no fogo do Espírito, pode exorcizar e aprisionar para sempre este demônio, deixando-nos viver na verdadeira liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8,21). Nunca esqueçamos que a liberdade cristã jamais consiste em se fazer o que quer ou dar largas aos instintos e paixões, mas em deixar-se conduzir pelo Espírito de Amor, Espírito de Cristo. Veja quais os frutos que o Espírito produz em nós: Gl 5,22-24. O contrário de uma vida aberta e dócil ao Espírito é uma vida fechada em si mesma, como se fôssemos os donos da nossa existência. Trata-se de uma vida na carne. Eis os seus frutos malignos, demoníacos: Gl 5,19-21.
Aqui, é necessário parar e fazer um sério exame de consciência. No caso de já ser casado ou desejar casar-se, pense seriamente no sentido do amor e da sexualidade conjugal... Veja como a vida sexual do casal cristão vai muito além da busca do prazer e da autossatisfação: leia 1Cor 7,3-7. Não é um amor fechado em dois que se procuram e se bastam, mas um amor que se realiza em Deus, abre para Deus e transborda na geração da vida e na abertura aos demais! Observe como numa vida conjugal que não seja regulada pelo amor, Satanás pode tentar pela incontinência, ou seja, pela imoralidade de uma vida sexual afastada dos desígnios do Altíssimo! Pense bem o quanto a sexualidade vivida segundo Cristo é diferente e até contrária à sexualidade como é pensada, difundida e vivida no mundo atual por aqueles que “não conhecem a Deus” (cf. 2Ts 1,8).

4. Penso que vale a pena voltar um pouco às palavras de Azarias a Tobias, segundo a tradução da Vulgata: “Tu, quando a tiveres recebido por esposa, viverás com ela em continência durante três dias e não cuidarás de outra coisa senão de fazer oração com ela. Na primeira noite, o demônio será expulso pela fumaça do fígado do peixe. Na segunda noite, serás admitido na sociedade dos santos patriarcas. E na terceira noite conseguirás a bênção, para que vos nasçam filhos sadios. Passada a terceira noite, no temor do Senhor, tomarás a donzela, levado menos pelo instinto do que pelo desejo de ter filhos, a fim de obteres sobre teus filhos a bênção da raça de Abraão”.
Observe: (1) A vida de oração, isto é, a abertura de coração e vida para Deus expulsa o demônio, pois faz exalar o bom odor de Cristo do braseiro do nosso coração (cf. 2,15). (2) Um matrimônio vivido como oração e serviço de louvor a Deus faz com que o casal abençoado viva verdadeiramente na sociedade dos filhos de Deus em Cristo, que é a Igreja; eles mesmo serão, no seu amor, sacramento do amor entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5,22-32). (3) De um matrimônio assim abençoado e vivido, nascerão filhos sadios sobretudo de alma, de caráter, que serão benditos filhos da Igreja, pelo Batismo e a posterior educação cristã. Eis o ideal para o qual todos os casados no Senhor devem tender! É um caminho; o importante é caminhar sempre mais rumo à meta, que é realizar neste mundo o sonho do Senhor para o amor conjugal e a família dele nascida!

5. Agora veja Tb 8,4-5a. Na noite de núpcias, Tobias e Sara rezam, colocando sua vida conjugal debaixo do senhorio do Eterno, fonte do amor e da vida! Amor e vida são o sentido do matrimônio, nunca esqueçamos isto! Ora, fonte e lastro de todo amor e de toda vida é o Senhor! Feliz o matrimônio dos que verdadeiramente se casam abertos ao Senhor! Feliz o lar que tem como horizonte o Cristo e Seus preceitos!
Agora, leia a oração de Tobias (cf. 8,5b-8/7-10)! Observe: (a) ele bendiz a Deus, certo de ser ouvido na sua oração; (b) veja o que ele diz sobre Adão e Eva, isto é, sobre o homem e a mulher: sua relação é por amor (sustento e amparo um para o outro) e para gerar vida (a raça humana). (c) Também aparece muito bonito a palavra do Gênesis: Deus deseja o matrimônio para o ser humano: ele é santo e agradável aos olhos do Altíssimo (cf. Gn 2,18). (d) Finalmente, no v. 7/9, a ideia de que a mera satisfação sexual não deve ser o único ou o principal objetivo do matrimônio. A comunhão no amor a ser construída durante toda a vida, até a “idade avançada”, e a geração da vida e seu cuidado devem ser a motivação principal da união conjugal.

6. Reflita sobre todas estas coisas e reze, mais uma vez, o Sl 128/127.


sábado, 21 de março de 2020

Homilia para o IV Domingo da Quaresma - ano a

1Sm 16,1b.6-7.10-13a
Sl 22
Ef 5,8-14
Jo 9,1-41

O Evangelho de hoje é mais uma belíssima catequese batismal que nos prepara para a santa Páscoa. Não esqueçamos que em muitas paróquias adultos estão terminando seus preparativos para o Batismo. Ao menos deveriam estar, não fosse esta dura prova do coronavírus, um verdadeiro teste para a nossa fé, para a nossa confiança no Senhor e para o exercício da nossa responsabilidade pela saúde própria e a dos demais. Para estes tempos: oração e confiança no Senhor, entrega em Suas mãos e, ao mesmo tempo, obediência às orientações daqueles a quem o Senhor concedeu o dom de estudar e desenvolver ações em prol da saúde de todos! Ai daqueles que, em Nome do Senhor, desprezam os que do Senhor receberam competência para nos orientar quanto à saúde neste momento!

Voltemos ao nosso tema! No Domingo passado, no Evangelho da Samaritana, vimos que Jesus é o Messias que dá a verdadeira água do Espírito Santo, água que jorra para a Vida eterna.

Neste hoje, “ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença”. Esse homem simboliza os judeus; pode simbolizar também a humanidade toda: enquanto não somos dados à luz no Batismo, somos cegos, nascemos cegos, “por natureza, filhos da ira” (Ef 2,3)! Nunca esqueçamos que cristãos nos tornamos pela fé e o Batismo! Ninguém nasce cristão!
Os discípulos, apegados a uma crença popular antiga, tão combatida por Jeremias (cf. 31,29s) e Ezequiel (cf. 18,1-32), pensavam que o cego estava pagando pelos pecados seus ou dos seus antepassados. É a uma crença errada, semelhante à superstição da reencarnação: “Quem pecou para que nascesse cego: ele ou seus pais?” Não há resposta, não há explicação! Os segredos da vida pertencem a Deus! Se crermos no Seu amor, se nos abandonarmos nas Suas mãos, a maior dor, o mais inexplicável sofrimento pode ser confortado pela certeza de que Deus está conosco e nos fortalece: “Nem ele nem seus pais pecaram: isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele!” Até na dor e no sofrimento Deus está presente quando somos abertos à sua presença. Pena que nosso mundo superficial e incrédulo não compreenda isso... Se se abrisse para Jesus, o Inocente crucificado e morto... Na Sua luz, contemplamos a luz da Vida: “Enquanto estou no mundo, Eu sou a Luz do mundo!” Mas, o nosso mundo se fecha na sua racionalidade cega e orgulhosa... Eis, agora, este momento de crise mundial: um belo momento para dobrar os joelhos, para olhar para os Céus, para implorar a misericórdia e o socorro divino! O que o Senhor nos está dizendo com esta tremenda pandemia? Será que conseguimos discernir os sinais dos tempos?

Jesus, cospe no chão e faz lama. A saliva, para os judeus, continha o espírito; simboliza, então, como a água, o dom do Espírito Santo do Cristo Senhor. Ao colocar a lama de Sua saliva infundida no barro, Jesus como que repete o gesto do Senhor Deus no Gênesis, criando o homem do pó da terra e insuflando em suas narinas o Sopro da vida! Depois, Jesus ordena: “Vai lavar-te na piscina de Siloé!” É a piscina do Enviado de Deus, do Messias, imagem da piscina do nosso Batismo, na qual somos iluminados pelo Senhor que é Luz do mundo! Por isso o homem vai e retorna vendo.
Eis o que é o cristão, o discípulo de Cristo: aquele que era cego, foi lavado na piscina batismal e voltou vendo. Porque ele vê, vê que Jesus é o Messias, os judeus o expulsam da sinagoga, como o mundo também nos expulsa de sua amizade a apreço! Não somos do mundo, como o Senhor nosso não é do mundo; Ele nos separou do mundo! Agora, curado da cegueira, aquele que foi iluminado pode ver Jesus; ver com a fé, ver a realidade mais profunda, ver que Ele é o Senhor, Filho de Deus: “’Acreditas no Filho do Homem?’ ‘Quem é, Senhor para que eu creia Nele?’ Jesus disse: ‘Tu O estás vendo; é Aquele que está falando contigo!’” Para isso te curei, para isso fiz-te enxergar! “’Eu creio, Senhor!’ E prostrou-se diante de Jesus!”

Também nós, fomos iluminados pelo Cristo no Batismo. Na Igreja Antiga, um dos nomes do sacramento batismal era “photismós”, iluminação, porque, renascidos em Cristo, os cristãos, curados da cegueira do pecado e da morte, passam a ver a Luz verdadeira! Para nós valem as palavras de São Paulo: “Outrora éreis treva, mas agora sois luz no Senhor! Vivei como filhos da Luz! Não vos associeis às obras das trevas!”
Eis, caros irmãos: iluminados por Cristo não podemos pensar como o mundo, sentir como o mundo, agir como o mundo! Devemos viver na Luz e ser luz para o mundo!
Mas, não é fácil; não basta querer! Sem a graça do Senhor, nada conseguiremos, a não ser sermos infiéis! Por isso, a necessidade dos exercícios quaresmais; por isso a oração, a penitência e a  caridade fraterna, por isso a necessidade da confissão de nossos pecados! Não nos esqueçamos: não poderemos zombar de Cristo: seremos julgados na Sua Luz: “Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos!” – Eu vim para revelar a Luz aos humildes, aos que se abrem à Minha Palavra e à Minha Presença, e vim revelar a cegueira do mundo confiado na sua própria razão, na prepotência de seus próprios caminhos! Porque este mundo diz que vê, que sabe, que está certo, seu pecado permanece! – Somente se abrir-se para a Luz do Cristo, caminhará na luz e enxergará de verdade!

E nós, caminhamos na Luz ou permanecemos nas trevas? Que o Senhor ilumine a nossa vida e nos faça, na Sua Luz, vermos a Luz. Amém!


sexta-feira, 20 de março de 2020

Retiro Quaresmal 2020/22 - "Felizes aqueles que se abrigam no Senhor" (Sl 2,12)

Sábado da III semana da Quaresma
Meditação XXI: Os demônios sob o Senhorio de Cristo

Reze o Salmo 119/118,161-168
É necessário ler agora mais uma vez Tb 6. Leia também o capítulo 8.

1. Veja Tb 6,14-19 e 8,1-4. Aí, misturam-se as convicções de fé provindas da divina Revelação, como a existência dos anjos e demônios e sua ação no mundo, como também as narrativas de colorido folclórico presentes em todas as culturas. Nestes casos, é muito importante saber distinguir entre a verdade de fé que a Palavra de Deus deseja transmitir e a roupagem cultural da qual elas se revestem. Observe, por exemplo: a Escritura não diz que Asmodeu era apaixonado por Sara, mas que se comentava: “ouvi dizer...” – é o que Tobias afirma a Azarias (cf. 6,15), fruto de concepções populares do mundo antigo. Também é de cunho folclórico que o cheiro do peixe afugente o demônio, bem como a luta quase física entre Asmodeu e Rafael... Claro que a expressão “acorrentado” (cf. Tb 8,3) é metafórica... Estas figuras ilustram verdades bem concretas: o valor da oração e de ritos sagrados realizados em nome do Senhor na luta contra os demônios, o combate que se deve combater contra esses seres perversos, o socorro dos anjos, a possibilidade real de vencer e afugentar os demônios com a piedade e a obediência ao Senhor. Leia 1Pd 5,8-9.

2. Sobre os demônios, concretamente, é importante acrescentar o seguinte ao que já foi dito numa meditação anterior (cf. Meditação XVI: Os anjos: ministros da nossa salvação): eles existem, são anjos decaídos, são completamente submissos a Deus em Cristo (cf. Cl 1,15s); como os homens interagem uns com os outros e uns sobre os outros, também os anjos bons e maus interagem conosco. No mundo atual, é forte a tentação de banalizar e fazer pouco caso dessas realidades. Mas, tal atitude é equivocada e contrária aos ensinamentos das Escrituras e da Igreja de Cristo! A Palavra de Deus fala de seres invisíveis, anjos decaídos expulsos da presença de Deus (cf. Ap 12,7-9). Popularmente, seu chefe é denominado Lúcifer, o querubim prepotente (cf. Ez 28,14), que foi tomado pela soberba e autossuficiência diante de Deus. Com razão e acuidade, a Tradição viu na prepotência de alguns grandes deste mundo um reflexo desta atitude soberba e arrogante (cf. Ez 28,11-19; Is 14,12-15), que levou Lúcifer e seus demônios à perdição. Já no Livro de Jó aparece um misterioso ser, Satã, adversário do homem, que tem inveja do amor de Deus em relação à humanidade, identificado depois com o Diabo, a Antiga Serpente (cf. Jó 1,6-12; 2,1-7; 1Cr 21,1; Gn 3; Sb 2,24). No Novo Testamento, afirma-se claramente a existência desses seres misteriosos que tentam e prejudicam o homem no seu caminho para o Senhor. Aí se fala, por exemplo, na libertação de possessos (cf. At 8,7; 19,11-17), na luta contra a magia, as superstições de todo tipo como luta contra os demônios (cf. At 13,8ss; 19,8s; 16,16); também na luta contra a idolatria pela qual os demônios se fazem adorar (cf. Ap 9,20) e convidam os homens à sua mesa, isto é, à maléfica convivência com esses seres (cf. 1Cor 10,20s); os demônios estão também por trás da falsa sabedoria (cf. Tg 3,15), que engendra as doutrinas demoníacas que procuram enganar o homem (cf. 1Tm 4,1); do mesmo modo, encontram-se por trás dos fazedores de prodígios mentirosos a serviço da Besta (cf. Ap 16,13s). Satanás e seus anjos estão por trás de todas estas realidades malignas e peversoras. Graças ao Santo Espírito de Cristo, os cristãos podem discernir os espíritos (cf. 1Cor 12,10) e já não se deixam iludir pelas seduções do poder diabólico (cf. 1Cor 12,1ss). Assim, desde a idade apostólica e através dos séculos, a Igreja deveu continuar a luta de Cristo Jesus contra Satanás e seus anjos e sabe com firme e pascal certeza que testemunhará a vitória final do Cristo contra essas potências diabólicas (cf. Ap 20,1ss.7-10).

3. Quanto ao nosso Salvador, Jesus Cristo, Sua vida neste mundo foi uma contínua luta contra Satanás e seus demônios. Basta pensar nas narrativas das tentações (cf. Mt 4,11; Jo 12,31). Durante todo o Seu ministério público, Ele enfrentou os maus espíritos e os venceu. Leia somente a título de exemplo Mc 1,23-27; 5,1-20; 7,25-30; Lc 8,2. O Senhor deu a entender que além das possessões, havia certas situações de doenças, cujas características pareciam naturais, mas, na verdade, eram provocadas por forças preternaturais. Leia, por exemplo, Mt 17,15.18; Lc 13,11, de modo que, enfrentando a doença, o Senhor enfrentou Satanás e seus demônios. Era pela força do Espírito do Senhor Deus, que Nele habitava e agia, que Ele expulsava os demônios, como sinal do triunfo do Reino de Deus e destruição do reino de Satanás. Leia Mt 12,25-28. Ele mesmo, deu aos Seus discípulos o poder de expulsar os demônios (cf. Mc 6,7.13) e ordenou aos Seus que os exorcismos fossem feitos em Seu Nome (cf. Mt 7,22; Mc 9,38s), como sinal do Seu poder pelos séculos afora (cf. Mc 16,17).

4. As Escrituras e a Tradição da Igreja apontam para a ação maléfica dos demônios. Podemos indicar, numa classificação bem simples e despretenciosa, alguns tipos, mais comuns, conhecidos e reconhecidos na vida eclesial:
a) a tentação, quando os demônios, aproveitando-se das nossas debilidades físicas ou psíquicas e dos desequilíbrios que o pecado original deixou em nós, utilizando-se dos nossos impulsos e tendências físicas ou mentais, nos sugerem pensamentos, palavras, atos ou atitudes contrárias à nossa vocação de amor abertura e obediência em relação ao Cristo Senhor.

b) a obsessão, quando os demônios não somente sugerem, mas também provocam desequilíbrios psíquicos ou físicos nas pessoas. Mesmo que a aparência seja de uma doença ou um tormento natural e venham misturados com causas e características naturais, quando se trata realmente da obsessão, os motivos são, fundamentalmente, preternaturais.

c) a infestação, que é a presença ou ação dos demônios em determinados ambientes.

d) e a possessão, que se dá, basicamente, quando um ou mais demônios tomam o controle do corpo das pessoas. Atenção, que o controle pode ser do corpo, mas jamais da alma!

5. Como vencer a ação dos demônios? Com a oração, sobretudo a invocação do santo Nome de Jesus e do mistério da Imaculada Conceição da Virgem Maria, com a prática dos sacramentos e com a sincera busca de uma vida santa. Cumprindo o preceito do Senhor (cf. Mc 3,15; 16,15-17), a Igreja sempre lutou contra os demônios, procurando libertar os seus filhos de possíveis ações nefastas destes. Esta libertação dá-se por orações chamadas de exorcismos, que nada tem a ver com atos espetaculosos que aparecem nos filmes. Os exorcismos são simplesmente orações de súplica ao Senhor pela pessoa que sofre algum tipo de ação demoníaca. Neste caso, chama-se exorcismo menor. Quando se trata de libertar uma pessoa de uma possessão propriamente dita, é necessário que o exorcismo seja realizado por alguém que recebeu da Igreja tal autoridade. Este tipo de exorcismo é chamado de exorcismo maior e é realizado segundo um ritual devidamente aprovado pela Igreja e nas condições por ela determinadas. Mas, não dramatizemos os exorcismos e orações contra o Maligno! Eis alguns exemplos de exorcismos: na preparação para o Batismo de adultos, o catequista exorciza várias vezes os catecúmenos; no Batismo, o ministro sagrado exorciza o que será batizado, ungindo-lhe o peito com o óleo; depois, ele mesmo ou seus padrinhos, renunciam ao Diabo e, finalmente, o nosso próprio Salvador, Jesus Cristo, ensinou-nos a pedir ao Pai que nos livre do Maligno (cf. Mt 6,13; Jo 17,15). Leia Ef 6,10-18.

6. Uma coisa devemos ter bem presente: o centro da nossa fé não é a existência ou a ação dos demônios. Na verdade, tudo isto é periférico! O centro, o essencial da nossa fé e esperança é Jesus Cristo, o Filho eterno do Pai, que veio a este mundo, feito homem, para nos salvar. E fê-lo entregando-Se por amor até a morte e morte de Cruz, de modo que, ressuscitando dentre os mortos, libertou-nos para sempre da Morte e, cheio do Espírito Santo, derramou a vida sobre nós! (cf. At 2,32-33) Ele sim, é nossa glória, nossa esperança, nossa salvação; Ele - e somente Ele! - é o Senhor de todas as coisas e a Ele tudo, absolutamente - até Satanás e seus demônios -, está submisso (cf. Ef 1,20-23; Ap 11,15)! Diante Dele, todo joelho se dobra no Céu, na terra e sob a terra. Leia, rezando Fl 2,6-11 e Ap 1,9-20. Quanto a nós, o sentido da nossa existência é vivermos em comunhão com o Cristo (cf. 1Ts 5,9s), alicerçados na Sua palavra, unindo-nos a Ele pelos sacramentos, que nos dão o Seu Espírito Santo, sendo-Lhe fiel por uma vida no amor a Deus e ao próximo, “a todos, sobretudo os irmãos na fé” (cf. Gl 6,10). Vivendo assim, não temos que ter medo algum do Diabo e seus demônios; basta mantermos, serenamente, a vigilância que as Escrituras nos recomendam. Leia novamente 1Pd 5,8-10.

7. Veja algumas orações de exorcismo que a liturgia da Igreja prevê para serem rezadas sobre os catecúmenos. Reze-as você também, pensando em você, que já é batizado, e naqueles que se preparam para o santo Batismo.

“Deus todo-poderoso e eterno, que nos prometestes o Espírito Santo por meio do Vosso Filho Unigênito, atendei a oração que Vos dirigimos por estes catecúmenos que em Vós confiam. Afastai deles todo o espírito do mal, todo erro e todo o pecado, para que possam tornar-se templos do Espírito Santo. Fazei que a palavra que procede da nossa fé não seja dita em vão, mas confirmai-a com aquele poder e graça com que o Vosso Filho Unigênito libertou do mal este mundo. Por Cristo, nosso Senhor.”

“Senhor nosso Deus, que revelais a verdadeira vida, destruís o pecado e fortaleceis a fé, dais impulso à esperança e ardor à caridade, nós Vos rogamos em Nome de Vosso Filho amado, nosso Senhor Jesus Cristo, e pelo poder do Espírito Santo: Afastai estes Vossos servos da incredulidade e da dúvida, do culto aos ídolos, da magia, da superstição, da macumba e do espiritismo, da cobiça do dinheiro e da sedução das paixões, das inimizades e discórdias e de qualquer forma de mal. E porque os chamastes para serem santos e irrepreensíveis diante de Vós, renovai-os no espírito de fé e piedade, paciência e pureza, caridade e paz. Por Cristo, nosso Senhor.”

“Senhor Deus onipotente, criastes o ser humano à Vossa imagem e semelhança, em santidade e justiça e quando ele se tornou pecador, não o abandonastes, mas pela Encarnação do Vosso Filho lhe providenciastes a salvação. Salvai estes Vossos servos, livrai-os de todo mal e da servidão do Inimigo e deles expulsai o espírito de mentira, cobiça e maldade. Recebei-os no Vosso Reino e abri seus corações à compreensão do Vosso Evangelho para que sejam filhos da luz e membros da Vossa santa Igreja, deem testemunho da verdade e pratiquem a caridade segundo os Vossos mandamentos. Por Cristo, nosso Senhor”. 


Retiro Quaresmal 2020/21 - "Felizes aqueles que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Sexta-feira da III semana da Quaresma
Meditação XX: Um amor forte como a morte

Reze o Salmo 119/118,153-160
Agora leia mais uma vez Tb 6 e 7.

1. Nestes dois capítulos, gostaria de chamar atenção para dois temas: o matrimônio e os demônios. Comecemos com alguns aspectos do matrimônio. Na próxima meditação direi algo sobre os demônios...

2. Em Tb 6,20 está dito que o coração de Tobias enamorou-se de Sara de tal modo que já não podia separar-se dela. Este é, sem dúvida, um belíssimo aspecto da realidade conjugal: o amor; e amor aqui compreendido em todas as suas dimensões: afeto, admiração, encantamento, atração física, sentimento de recíproca e exclusiva pertença. A relação conjugal, como pensada por Deus, comporta todos estes elementos, todos destinados a uma comunhão de vida que é expressa maximamente na comunhão de corpos: “eles se tornam uma só carne” (Gn 2,24; Ef 5,30; cf. Mt 19,3-9). A própria Sagrada Escritura canta de modo intenso e poético o amor entre o homem e a mulher. Leia Ct 1,1-4; 2,8-17; 5,9-16; 1,9-11; 4,1-7.9-16. E mais: a Palavra de Deus pensa a aliança de amor entre o amado e a amada como imagem da aliança entre o Senhor e Israel, Sua esposa. Compare a fórmula da aliança (cf. Jr 30,22; 32,38) com a aliança de amor dos amantes dos Cantares (cf. 2,16; 6,3).
Observe como nestes textos sagrados o amor humano é cantado com toda a força, incluindo o sadio erotismo da atração entre os sexos, tal como o Senhor criou o ser humano. Pode parecer estranho que as Escrituras Santas tenham textos assim. No entanto, referindo-se ao Cântico dos Cânticos, os rabinos judeus diziam que o mundo não é digno do dia em que o Eterno deu a Israel esse livro! O amor humano, se é autêntico amor, vem de Deus e exprime algo do amor de Deus: “Pois o amor é forte, é como a morte. Suas chamas são chamas de fogo, uma faísca do Senhor. As águas da torrente jamais poderão apagar o amor, nem os rios afogá-lo. Quisesse alguém dar tudo o que tem para comprar o amor... Seria tratado com desprezo” (Ct 8,6-7). Infelizmente, a nossa cultura pós-cristã e neopagã, incitada pela concupiscência que povoa o coração humano ferido de pecado, deturpou e tem deturpado mais ainda o sentido da sexualidade, da diferença e complementaridade entre os sexos e do próprio ato sexual. Leia Rm 1,18-32. Não é esta a situação de uma cultura e uma sociedade fechadas para Deus, que tomam o homem como medida de todas as coisas? Desvincula-se cada vez mais três realidades que devem estar unidas e ordenadas uma à outra: amor, sexo e procriação. Quando se desvinculam totalmente estes três polos, desestrutura-se gravemente o amor, desfigura-se totalmente a sexualidade e abdica-se de participar da obra criadora de Deus na geração e educação dos filhos, novos membros da sociedade e filhos da Igreja, destinados à Glória celeste.
Pense um pouco: Qual a sua visão sobre estes temas? Você vê segundo Cristo ou segundo o mundo? Que papel a fé desempenha na sua sexualidade?

3. Agora veja: se o matrimônio tem a dimensão do amor erótico e oblativo entre um homem e uma mulher, se tem o aspecto da comunhão íntima e saborosa entre os dois cônjuges que se amam e se desejam, ele também tem uma dimensão social. No plano de Deus, o amor conjugal, gerando a vida, gera a humanidade, cria sociedade, suscita aqueles que serão os cidadãos do mundo e os filhos de Deus, na Igreja, comunidade dos discípulos de Cristo. Assim, em todas as culturas, o matrimônio é regulamentado, não ficando nunca no estrito âmbito fechado dos dois que se amam. Pense um pouco: nas várias culturas, a celebração do matrimônio é sempre um ato social, que envolve familiares, convidados e um reconhecimento oficial por parte da sociedade e das leis que a regem, implicando direitos e deveres. Leia Tb 6,10 – 7,14. Aí aparecem os vários costumes, direitos, obrigações e ritos próprios do matrimônio judaico da diáspora daquela época. Também entre os cristãos, o matrimônio tem uma grande dignidade e está longe de ser uma realidade que envolve somente os dois cônjuges. Leia Mt 19,3-9; Ef 5,21-33; Cl 3,18s.
Para os cristãos, os discípulos de Cristo casam-se apenas “no Senhor” (cf. 1Cor 7,39), de modo que o matrimônio cristão é um sacramento, isto é, um sinal eficaz do amor entre o Esposo-Cristo e a Esposa-Igreja, desposados no vinho do Espírito da Nova e Eterna Aliança (cf. Ef 5,21-33). Agora leia Jo 2,1-11: o Evangelista narra as bodas de Caná querendo mostrar aí uma realidade: sobrenatural:
(1) “No terceiro dia, houve um casamento” (v. 1). Para um cristão, o casamento no terceiro dia, dia da Ressurreição, são as bodas entre Cristo e a Igreja (cf. Ap 19,7-9); neste casamento místico, o Noivo é o Cristo Jesus e a Noiva é a Mulher (cf. v. 4), símbolo da Igreja.
(2) No terceiro dia, houve bodas e o Senhor transformou a água da Antiga Aliança no vinho bom do Espírito Santo da Nova e Eterna Aliança. Eis o sentido profundo: “No terceiro dia houve um casamento... Jesus manifestou a Sua glória... e os Seus discípulos creram Nele” (vv. 1.11). Como se pode observar, para os cristãos, o matrimônio em Cristo é sinal sacramental do amor entre Cristo e a Igreja. Releia Ef 5,21-33.

4. Pense um pouco diante do Senhor: Você tem consciência do sentido do matrimônio cristão? Tem consciência de que, como a relação de aliança de amor entre Cristo e a Igreja, também a aliança de amor entre um cristão e uma cristã devem ser na fidelidade, indissolubilidade e fecundidade? Sua visão do matrimônio e da vida conjugal é segundo o Cristo ou segundo o mundo? Seria muito bom estudar, no Catecismo da Igreja Católica, a fé da Igreja sobre o matrimônio. Veja lá os números 1601-1666.

5. Fique, portanto, claro: na fé cristã, o matrimônio, que nasce do amor e da livre escolha dos cônjuges, não é uma realidade meramente privada, mas, por vontade do Senhor, tem relação com a sociedade e a comunidade dos crentes, que é a Igreja. Esta última, a Igreja, tem o direito e o dever de dar normas sobre a realização e vivência do matrimônio dos seus filhos, sempre seguindo os preceitos do Senhor para esta realidade tão importante e santa. Também os estados laicos têm direito de dar normas para o contrato matrimonial dos cidadãos e os compromissos que daí decorrem. Este direito é reconhecido e legítimo, desde que não viole a natureza mesma das coisas, o bom senso e o respeito pela dignidade e liberdade dos cidadãos.

5. Reze o Salmo 128/127.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Retiro Quaresmal 2020/20 - "Felizes aqueles que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Quinta-feira da III semana da Quaresma
Meditação XIX: O que é precioso e o que é vil
Reze o Salmo 119/118,145-152
Como eu orientei na meditação passada, leia mais uma vez Tb 5 e avance mais, lendo até Tb 7.

1. Veja o v. 10: “Estou mergulhado nas trevas como os mortos que não contemplam mais luz; vivo como um morto...”Mais uma vez, aparece aqui a dor e o sofrimento do velho Tobit. Nós vivemos num mundo que endeusa o sucesso, que, nos meios de comunicação social, quer nos fazer ver somente a alegria, o divertimento, a realização dos desejos e o lado feliz da vida... O que aparece, geralmente, é gente bonita, com saúde, de bem com a vida; mas, não é assim a vida concreta: esta é feita de alegrias e tristezas, de luzes e sombras, consolações e desolações... A vida é um caminho aberto: não nos é garantido que tudo andará bem para nós, que nossa vida será um sucesso, como diz o Profeta Jeremias: “Eu sei, Senhor, que não pertence ao homem o seu caminho, que não é dado ao homem que caminha dirigir seus passos” (10,23). Quão incerta é a vida minha, a sua, a de todo ser humano! Sem Deus, que absurdo, que escuridão, que medo, que angústia! Mas, para aquele que crê, que é pobre diante do Altíssimo, mesmo no pranto e na dor, o sentimento é de confiante abandono, ainda que sofrendo, ainda que sem compreender... É comovente ver a situação do velho Tobit: ele não reclama de Deus, ele não exige, ele não diz: “Eu Te servi e Tu me maltrataste; Tu não me recompensaste...” Tobit aceita com paciência a sua situação, intui que o Senhor tem sua vida nas Suas mãos benditas e santas. Ora, para quem se coloca assim nas mãos do Senhor, venha o que vier, tudo correrá bem: “Tem confiança, que Deus em breve te curará. Tem confiança!”
E você: confia no Senhor? Coloca sua vida nas mãos Dele ou pensa que pode controlar o seu futuro? Como você enfrenta as incertezas e dificuldades da vida? Lembre: o velho Tobit ainda não conhecia o Cristo; mas você O conhece; sabe que o cristão está unido ao seu Senhor no gozo e na dor, na vida e na morte. Leia Rm 8,35-39; 14,7-9; 2Cor 1,4-5; Fl 1,21.29. Agora, reze o Sl 90/89.

2. Um outro ponto para nossa meditação: depois que Azarias, apresenta-se, Tobit afirma que seu novo conhecido é de “ilustre estirpe” (v. 14). Por que o ancião avalia assim a família de Azarias: pelo dinheiro? pela fama? pela elevada posição social? Não! Para o homem piedoso, para um verdadeiro amigo de Deus todas estas coisas contam pouco! Veja quais as virtudes que Tobit vê nos ancestrais de Azarias, que os torna uma estirpe ilustre: “Eles iam comigo a Jerusalém, juntos lá adorávamos, e eles não se desviaram do bom caminho! Teus irmãos são homens de bem!” (v. 14) E para você: quem é ilustre? Que tipo de pessoas você valoriza, admira, frequenta? Quais os seus critérios? Quais os seus valores? Reze o Sl 1.

3. Observe o modo judaico de usar a palavra “irmão”: todos os membros de um clã e de um povo (cf. 4,13; 5,5.9.11; 7,1-9); amigos que se tornam íntimos (cf. 6,7.10.13.14); esposo e esposa (cf. 5,21; 7,11) e até pais e filhos (cf. 6,19). Há mais: tio e sobrinho (Gn 13,8); primos e primas (1Cr 23,22).
Agora reflita um pouco: a Tradição constante da Igreja - seja a Igreja de Roma, como as Igrejas que romperam com Roma ainda no primeiro milênio: nestorianos, monofisitas, ortodoxos -, afirma que a Virgem Maria somente teve um filho: Jesus nosso Senhor e que os chamados “irmãos de Jesus” são, na verdade, Seus parentes próximos (cf. Mt 12,46-49; 13,55; Mc 3,31ss; Lc 8,19ss; Jo 7,3; At 1,14; 1Cor 9,5; Gl 1,19). É importante recordar que jamais as Escrituras dizem que os “irmãos de Jesus” eram filhos de Maria! Ainda mais: se Jesus tivesse irmãos filhos de Maria Virgem, não teria sentido algum Ele deixar Sua mãe aos cuidados de um estranho, João, filho de Zebedeu (cf. Jo 19,26s)! Sustentar que a Virgem santíssima teve outros filhos além do Senhor é uma afirmação gratuita, um erro grave e uma heresia superficial e leviana, resultado de uma leitura das Escrituras Sagradas fora da reta Tradição apostólica. Nunca esqueça: fora da Igreja, fora do ambiente da Tradição apostólica, sustentada e vivificada pelo Espírito, as Escrituras levarão muitas vezes a engano e confusão! Exemplos disto temos aos montes atualmente!

4. Agora, tome o v. 9, com a comovente palavra de Ana, esposa de Tobit: “Que não seja o dinheiro o mais importante; que ele não tenha valor ao lado do nosso filho”. É uma palavra cheia de amor, pronunciado por uma mãe aflita. Dinheiro, bens materiais, não é tudo... Há realidades muito mais valiosas: a fé e a amizade com Deus em Cristo, as relações pessoais, sobretudo as familiares, a vida das pessoas e o respeito que se deve a elas. Pense um pouco: Qual a sua hierarquia de valores? O que é realmente importante para você? Pense em situações concretas da sua vida, em atitudes concretas que comprovem quais são seus valores. Leia Mt 6,19-21.

5. Terminemos esta meditação com a partida de Tobias e Azarias. Pense nas partidas e chegadas da sua vida! Cada projeto, cada viagem, cada realização, cada recomeço... Vivemos partindo e chegando... Releia o v. 17. Pensando na sua vida e nas suas partidas e chegadas, reze o Sl 121/120.


terça-feira, 17 de março de 2020

Retiro Quaresmal 2020/19 - "Felizes aqueles que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Quarta-feira da III semana da Quaresma
Meditação XVIII: Uma fonte inesgotável
Reze o Salmo 119/118,137-144
Leia mais uma vez Tb 5 e avance mais, lendo até Tb 7.

1. Estamos nos demorando neste capítulo 5. Quanta coisa temos aí para meditar! Como a Palavra de Deus nos provoca! Quantas intuições, quantas advertências, quantas palavras de Vida eterna na santa Palavra de Deus!: palavras na Palavra! Por isso mesmo, nunca devemos tomar um texto das Escrituras de modo apressando, sem fé, sem amorosa atenção, achando que já sabemos de tudo! A Palavra do Senhor é um tesouro inesgotável, sempre surpreendente; é fonte de Vida, é fruto da ação do Espírito, que inspirou o texto sagrado e continua inspirando todo aquele que desse Texto se aproxima com fé e humildade, como um sedento à fonte.
Leia com atenção estas palavras seguintes do Diácono Santo Efrém, no século IV, retiradas do seu Comentário sobre o Diatéssaron, 1,18-19:

2. “Que inteligência poderá penetrar uma só de Vossas palavras, Senhor? Como sedentos bebendo de uma fonte, ali deixamos sempre mais do que aproveitamos. A Palavra de Deus, diante das diversas percepções dos discípulos, oferece múltiplas facetas. O Senhor coloriu com muitos tons Sua Palavra. Assim, quem quiser conhecê-la, pode nela contemplar aquilo que lhe agrada. Nela escondeu inúmeros tesouros, para que neles se enriqueçam todos os que a eles se aplicarem”. – Veja: a Palavra de Deus é inesgotável, “oferece múltiplas facetas”. E isto nada tem de invenção humana, de sentimentalismo, de raciocínios aleatórios, à toa. Não! Cada vez que nos aproximamos da Santa Palavra, o Espírito nos inspira, ilumina, desperta pensamentos e afetos, suscita apelos à nossa vida! Trata-se de uma Palavra viva que requer uma leitura viva, isto é, vivificada pelo Espírito e sustentada pela fé!

3. “A palavra de Deus é a Árvore da Vida a oferecer-te por todos os lados o fruto abençoado, à semelhança do Rochedo fendido no deserto que, por todos os lados, jorrou a bebida espiritual. ‘Comiam, diz o Apóstolo, do alimento espiritual e bebiam da bebida espiritual’”. – Observe que imagem tão bela: a Palavra é a Árvore da Vida, plantada no meio do Paraíso. Ela nos alimenta, ela nos dá a Vida divina porque nos dá Cristo, e Cristo pleno do Espírito Santo, Espírito Vivo e vivificante! Se o Cristo tem um Corpo pessoal, totalmente cheio do Espírito Santo, na Glória dos Céus, e tem um Corpo místico, que é a Igreja, e um Corpo sacramental, que é a Eucaristia, podemos dizer que Ele também tem um Corpo verbal: a Palavras de Deus, contida nas palavras das Escrituras. E este Corpo, como o místico e o sacramental, é cheio do Santo Espírito, de modo que podemos afirmar sem medo que a Palavra é inspirada pelo Espírito e inspira o Espírito nos seus ouvintes!

4. “Se, portanto, alguém alcançar uma parcela desse tesouro, não pense que este seja o único conteúdo desta Palavra, mas considere que encontrou apenas uma porção do muito nela contido. Se só esta parcela esteve ao seu alcance, não diga que essa Palavra seja pobre e estéril, nem a despreze. Pelo contrário, visto que não pode abraçá-la totalmente, dê graças por sua riqueza. Alegra-te por seres vencido, não te entristeças por te ultrapassar. O sedento enche-se de gozo ao beber e não se aborrece por não poder esgotar a fonte. Vença a fonte a tua sede, mas não vença a tua sede a fonte. Pois, se tua sede se sacia sem que a fonte se esgote, quando estiveres novamente sedento, dela poderás beber. Se, porém, saciada tua sede também se secasse a fonte, tua vitória redundaria em mal.
Dá graças, então, pelo que recebeste. Pelo que ainda restou e transbordou não te entristeças. Aquilo que recebeste e a que chegaste é a tua parte. O que sobrou é tua herança. Se, por tua fraqueza, em uma hora não consegues entender, em outras horas, se perseverares, poderás recebê-lo. Não te esforces, com maligna intenção, por beber de um só trago aquilo que não pode ser tomado de uma vez. Não desistas, por indolência, de tomá-lo aos poucos”. – Que palavras fantásticas, estas de Santo Efrém! Primeiramente: nunca, ninguém, por mais douto ou sábio que seja, poderá esgotar o sentido da Palavra de Deus. E aqui atenção: todo soberbo que, lendo as Escrituras, pensa que as dominou, as esgotou, que lhe captou todo o sentido e explorou-lhe toda a riqueza, somente mostra que não compreendeu nada! Quando meditamos nas Sagradas Letras, alcançamos apenas “uma parcela do tesouro”; e graças a Deus, porque, voltando ali, encontrará mais água de Vida, mais alimento, numa novidade inesgotável! Uma coisa devemos todos nós colocar na cabeça e no coração: as Escrituras são vivas e seu sentido somente vai se revelando quando teimamos em perseverar com amor e assiduidade na sua leitura e na sua escuta! Eu lhe peço: nunca escute de modo leviano a Santa Escritura! A leitura sagrada deve ser sempre feita com profundo espírito de fé, com reverência diante do mistério de Deus, com um coração humilde que deseja escutar o Senhor e Nele encontrar o sentido da vida. Nunca leia as Escrituras por simples e vã curiosidade, por espírito de vaidade ou disputa, por soberba intelectual!
Que coisa linda o que Santo Efrém afirma: “Dá graças, então, pelo que recebeste. Pelo que ainda restou e transbordou não te entristeças. Aquilo que recebeste e a que chegaste é a tua parte. O que sobrou é tua herança”. – Admirável! Agradeça ao Senhor por estas meditações, pelo tanto que delas temos tirado para a nossa vida! Bendiga ao Senhor porque muito mais foi o que ficou para ser dito, pois esta é sua herança: o Senhor haverá de dar-lha quando chegar a hora!

5. Leia Jr 15,16 e reze o Sl 19/18.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Retiro Quaresmal 2020/16 - "Felizes aqueles que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Sábado da II semana da Quaresma
Meditação XV: Temer a Deus é o princípio da sabedoria

Reze o Salmo 119/118,113-120
Como lectio divina, releia ainda esta vez o capítulo 4, sobretudo o longo v. 19 e o comovente v. 21.

1. Aqui, se fala no temor do Senhor, isto é, o profundo espírito de adoração, confiança, respeito e senso da santidade e da grandeza de Deus. Esta é a maior e mais definitiva riqueza da vida: “Não te preocupes, filho, se ficamos pobres. Tens uma grande riqueza se temes a Deus, se evitas toda espécie de pecado e se fazes o que agrada ao Senhor teu Deus!” Que palavras edificantes, que verdade tão certa, que pode alicerçar, sem temor, toda uma existência! Teme a Deus de verdade quem não brinca com Deus nem com as coisas que a Ele dizem respeito. Quem teme ao Senhor verdadeiramente torna-se sábio, pois seu coração e seu entendimento começam a exprimir-se segundo o Espírito do Senhor.

2. Tome Eclo 1,11-21. Leia estes versículos rezando, com o coração. Mais do que parar para analisar cada versículo, aqui se trata de saborear o espírito, a atmosfera que o Autor sagrado deseja nos incutir.

3. O temor do Senhor é um dom que se deve suplicar sempre ao Espírito de Deus! Hoje é muito comum ver-se em cristãos uma familiaridade com Deus que não é fruto do amor, da intimidade delicada e amorosa, do santo temor, mas simplesmente de uma falta de percepção da grandeza e da santidade de Deus! Toma-se Deus por parceiro, por compadre! Deste modo, não se leva a sérios os Seus preceitos, não se alimenta o temor pelo Seu Juízo tremendo e tudo se joga, de modo banal, vulgar e ilusório, na conta da misericórdia e do amor! Por falta do verdadeiro temor de Deus, não se percebe que em Deus nosso Senhor, “Amor e Verdade se encontram” (Sl 85/84,11); não se recorda do significado misterioso do Nome santíssimo de Deus: Nele, misericórdia e perdão não contradizem a justiça e o castigo. Leia com muita atenção o profundo texto de Ex 34,5-9. Observe: de modo misterioso, que nos escapa e é sabido somente por Deus, o Santo, Nele a misericórdia não contradiz a justiça e o amor não elimina o juízo que pode levar à punição! E atenção: que ninguém venha dizer que isto é próprio do Antigo Testamento! Basta ler Mt 7,13-14.21-27; Gl 6,7; 2Pd 2,9-22. Não se zomba nem se trata com leviandade as coisas de Deus! Se o Senhor merecia todo o amor de Israel pelo que fizera com o Seu Povo na Antiga Aliança, muito mais merece o nosso amor, pois “Deus amou tanto o mundo que entregou o Seu Filho único, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a Vida eterna. Quem Nele crê, não é julgado; quem não crê, já está julgado!” (Jo 3,16.18).

4. Como fugir dessa leviandade religiosa, dessa frieza, desse pouco caso para com o Senhor e o que Lhe concerne? Qual o caminho para o temor de Deus, que leva à Vida? Primeiramente, como foi dito acima, suplicar ao Senhor que encha o nosso coração com o Espírito do temor de Deus. É o Santo Espírito quem nos faz experimentar algo da grandeza, da santidade, da bondade e da justiça do Senhor, dando-nos a virtude de religião, isto é, de atenciosa e piedosa atenção ao Senhor e ao que a Ele se relaciona. Depois, é importante as boas leituras espirituais e, sobretudo a meditação constante das Escrituras Santas. Por fim, o exercício da prática dos sacramentos com o esforço exterior e interior de piedade. Uma coisa que parece simples, mas mina em muito o temor do Senhor é o modo despreocupado e pouco respeitoso como nos comportamos diante do Senhor: o modo de sentar-se na igreja, o modo de vestir-se para as ações litúrgicas, o silêncio nos locais sagrados, a posição que assumimos ao rezar, mesmo em casa. Nunca esqueça: somos corpo e alma; nossa atitude corporal condiciona o nosso interior e diz muito sobre o que vai no nosso coração.
Releia este tópico e reflita sobre ele fazendo um exame de consciência sobre a sua vida...

4. Agora, por fim, releia os vv. 18s e reze o Sl 111/110