sábado, 5 de outubro de 2019

Homilia para o XXVII Domingo Comum - ano c

Hab 1,2-3; 2,2-4
Sl 94
2Tm 1,6-8.13-14
Lc 17,5-10


Hoje, a Palavra de Deus nos coloca diante de um tema inquietante, o tema da fé. E o coloca com toda a dureza, nas palavras do profeta Habacuc. Ele viveu no final do século VII, início do século VI antes de Cristo. Reinava em Judá um rei iníquo, Joaquim; o povo já não cultivava amor pelo Senhor; imperava a injustiça, a impiedade, a imoralidade, a violência do grande contra o pequeno... O culto era vazio, pois não brotava do coração e as pessoas não procuravam uma verdadeira conversão de vida para o Senhor.
Diante desta situação tão triste, o profeta anunciava que os babilônios viriam e levariam todo o Reino de Judá para o exílio. Seria a correção de Deus. Sim, Irmãos meus: Deus corrige! Deus permite males e sofrimentos para nos educar, para nos afastar de situações de infidelidade à Sua Aliança, situações de pecado, que conduzem à morte...
Mas, precisamente aí, o profeta entrou em crise: está certo que Judá merecia castigo; mas, por que Deus iria usar para castigar os judeus pecadores exatamente os babilônios, que eram um povo mais pecador que os judeus? O profeta angustiou-se com esta incompreensível lógica do Senhor e, com dor e sinceridade sofrida, nas palavras da leitura de hoje, apresentou o seu protesto: “Senhor, até quando clamarei, sem me atenderes? Até quando devo gritar a Ti: ‘Violência!’, sem me socorreres? Por que me fazes ver iniquidades, quando Tu mesmo vês a maldade? Destruições e prepotência estão à minha frente”. “Senhor, Tu poderias resolver tudo! Tu poderias corrigir o Teu povo de um modo mais lógico, mais compreensível! Por que, Senhor, ages deste modo?”

Irmãos caríssimos, crer não é compreender tudo. O profeta, que falava em nome de Deus, nem mesmo ele compreendia totalmente o agir do Senhor, e se angustiava, e perguntava, e chorava: “Senhor, por que ages assim? Por que Teus caminhos nos escapam deste modo?” A verdade é que a fé não é uma realidade quieta e pacífica! O próprio Jesus nosso Senhor adverte que somente os violentos conquistam o Reino dos Céus (cf. Mt 11,12s); somente aqueles que lutam, que combatem a própria descrença, que vencem o próprio desânimo, que teimam em acreditar! A fé é uma realidade que sangra, sangra na dor de tantas perguntas sem resposta, sangra pelo sofrimento do inocente, pela vitória dos maus, pelo mal presente em tantas dimensões da nossa vida... E Deus parece calar-Se!
Um filósofo ateu do século passado chegou a dizer, escandalizado com o sofrimento no mundo: “Se Deus existe, o mundo é Sua reserva de caça!” Jó, usou palavras parecidas: “Também hoje minha queixa é uma revolta, porque Sua mão agrava os meus gemidos. Ele cobriu-me o rosto com a escuridão (23,2.17). E, pesaroso, se queixava de Deus: “Clamo por Ti, e não me respondes; insisto, e não Te importas comigo. Tu Te tornaste o meu carrasco e me atacas com Teu braço musculoso!” (30,20s).
Por que, Senhor? Por que Te calas? Por que Teus caminhos nos são escondidos? Por que parece que não Te importas conosco? Por que Teus desígnios nos são tão misteriosos? Por que a maldade, a impiedade parecem levar a melhor? Onde estás, ó Senhor sempre presente? Por que Tua presença parece ausência e Tua mão parece inerte? – Eis a dor que sangra das feridas dos crentes!
A resposta de Deus a Habacuc não explica, mas convida a crer novamente, a abandonar-se novamente, a teimar na perseverança:“Quem não é correto, vai morrer, mas o justo viverá por sua fé!’ Deus é assim: nunca nos explica, mas nos convida sempre à confiança renovada, ao abandono nas Suas mãos. Ainda tudo que tudo pareça torto, ainda que o Senhor pareça não ver e não Se importar, haverá um juízo de Deus: quem não é correto para com o Senhor, quem é ímpio, morrerá eternamente! Quem agora chora pelo Reino do Senhor, quem é correto, quem se mantém na piedade e na esperança, quem não desvia o seu olhar e o seu coração das mãos do Senhor, esse viverá, esse encontrará a salvação que vem de Deus! Que ninguém se iluda: o justo, isto é, o piedoso, o reto, o que guarda o seu coração para o Senhor, viverá por sua fidelidade, apesar de todas a provações e contradições da vida! O Senhor triunfará – que ninguém se iluda!
Irmãos amados, o justo vive da fé! É isto que é tão difícil para o homem de hoje, que tudo deseja enquadrar na sua razão e, quando não enquadra, se revolta e dá as costas a Deus e, assim, termina morrendo, porque viver sem Deus é a pior das mortes, o maior dos absurdos! O justo vive da fé, vive na fé, vive abandonado nas mãos do Senhor, como dizem as palavras da Antífona de Entrada, que o missal coloca para a liturgia de hoje, tirada do Livro de Ester: “Senhor, tudo está em Vosso poder, e ninguém pode resistir à Vossa vontade. Vós fizestes todas as coisas: o céu, a terra, e tudo o que eles contêm; sois o Deus do universo!” (Est 13,9.10-11). Não nos iludamos: o mundo está nas mãos do Senhor, a história humana está nas mãos do Senhor, a Igreja, nossa santíssima Mãe católica está nas mãos do Senhor, nossa vida está nas mãos do Senhor! O justo verá, o justo experimentará, o justo viverá por sua fidelidade!

Nunca esqueçamos: Deus não nos explica Seu modo de agir! Se o compreendêssemos, compreenderíamos o próprio Deus e, aí, já não seria o Deus verdadeiro, mas apenas um idolozinho! Contudo, isso não significa que Deus não liga para nossa dor e para o nosso destino. Pelo contrário! Ele veio a nós, fez-Se um de nós, viveu nossa vida, suportou nossas dores, experimentou nossa morte! Deus próximo, Deus de amor, Deus solidário! Por isso, podemos olhar para Ele e, suplicantes, insistentemente suplicantes, estender-Lhe as mãos, como os discípulos do Evangelho, que pediam: “Aumenta a nossa fé!” E Jesus respondeu – a eles e a nós – “Se vós tivésseis fé (em Mim), mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’ e ela vos obedeceria”. Ou seja: se crermos de verdade naquele amor que se manifestou até a Cruz, se crermos – aconteça o que acontecer – que Deus nos ama a ponto de entregar o Seu Filho, teremos a força de enfrentar todas as noites com a Sua luz, todas ad dúvidas com a Sua fidelidade, todos os pecados com a Sua graça, todas as mortes com a Sua Vida! Mas, se não crermos, pereceremos... O que o Senhor espera dos Seus servos é esta fé total, incondicional, pobre e amorosa! É o que o Senhor espera de nós.
Mas, o que fazemos? Queremos recompensas, provas, certezas lógicas, queremos seguranças, queremos compreender o modo de agir de Deus, engaiolar Seus modos e Seus tempos! E, os mais cultos, vamos atrás de filosofias e sabedorias humanas e os mais incultos e tolos, vamos atrás de seitas, de descarregos, de exorcismos feitos por missionários de araques e pastores de si próprios, falsos profetas de um deus falso, feito de dízimos que compram o céu, e gritarias...

O justo vive da fé, e viverá por sua fidelidade até o fim! Como nos exorta a segunda leitura, reavivemos a chama do dom de Deus que recebemos! “Deus não nos deu um espírito de timidez, de frouxidão, de covardia e incerteza, mas de fortaleza, de amor e sobriedade”.Não nos envergonhemos do testemunho de nosso Senhor! Guardemos aquilo que aprendemos de nossos antepassados, conservemos firmemente, sem nunca negociar, mundanizar, adulterar, relativizar ou corromper o precioso depósito” da nossa fé católica e apostólica, “com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós”. Não corramos atrás das ilusões, fruto das invenções humanas, não cedamos ao paganismo, ao mundanismo, às ideologias, crendices e modas de momento! É isto que o Senhor espera de nós, é este o nosso dever, é esta a nossa vocação, é esta a nossa glória. E, após termos agido assim, não achemos que temos algum direito diante de Deus. Humildemente, digamos com humilde mansidão: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer”.

Que o Senhor nos dê esta graça: a graça de viver e morrer na fé no Senhor, na nossa santa doutrina católica e apostólica. Que o Senhor nos conceda a recompensa dosa servos bons e fiéis! Amém!


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Os sacramentos - A Igreja, sacramento de Cristo

No texto anterior, apresentei o que é um sacramento: um sinal eficaz e atuante; sinal que torna presente a graça, a glória, a Vida de Deus. Expliquei, então, que o Cristo Jesus é o Sacramento de Deus: Nele, o Pai fez-Se presença pessoal, real, salvífica, no nosso meio. Assim, Cristo é o Sacramento primordial de Deus; Ele que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Demos agora um passo adiante. O Filho de Deus feito homem, Jesus, presença viva e pessoal de Deus entre nós para nos salvar, viveu num tempo e num espaço: viveu há dois mil anos na Terra Santa. Ele entrou uma só vez na nossa história, no nosso mundo, no nosso tempo. Mas, Ele veio para todos, em todos os tempos e lugares; Ele deseja tornar-Se presente a todo instante e estar bem perto de todos os corações: Seu desejo é entrar em contato conosco e que nós entremos em contato com Ele, com Sua palavra santa e com Sua Vida divina. Por isso ,Ele fundou a Igreja! Ela é sacramento (sinal eficaz, atuante, real) de presença de Cristo no mundo; ela é Cristo continuado, Corpo de Cristo crucificado e vivificado pelo Espírito na Ressurreição! No Concílio Vaticano II os Bispos do mundo inteiro, sucessores legítimos dos Apóstolos, ensinaram: “A Igreja é, unida a Cristo, como que um sacramento, isto é, um sinal e instrumento da íntima união com Deus e de todo o gênero humano” (Lumen Gentium 1). Isto quer dizer que a Igreja vive de Cristo. Na Sua Ressurreição, Ele derramou sobre a Sua Igreja o Seu Espírito Santo – o mesmo Espírito com o qual o Pai O ressuscitou dos mortos. Assim, a Igreja vive do Espírito de Cristo e no Espírito de Cristo, como o corpo, que vive da vida da cabeça, como os ramos que vivem da seiva do tronco: “Ele é a Cabeça da Igreja, que é Seu corpo” (Cl 1,18); “(O Pai) O pôs acima de tudo, como cabeça da Igreja, que é Seu corpo” (Ef 1,22); “Eu sou a verdadeira videira e Meu Pai é o agricultor. Eu sou a videira e vós sois os ramos. Aquele que permanece em Mim e Eu nele produz muito fruto porque sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15,1.5).

Estes textos são importantes porque nos mostram que há uma união real, concreta, verdadeira, efetiva, eficaz, entre Cristo e a comunidade de Seus discípulos, que é a Igreja. Ele realmente está presente na Sua Igreja, vivificando-a, sustentando-a, agindo nela! A Igreja está ligada ao seu Senhor Jesus como o corpo está ligado à cabeça, como os ramos estão enxertados à videira. E o Espírito de Cristo ressuscitado, o Espírito Santo é a seiva, é a Vida divina que vivifica, dirige e faz crescer este corpo, estes ramos! É assim que Cristo permanece vivo na Igreja, atuando nela na potência do Espírito: fala, age, santifica, ensina, exorta, salva pela Igreja! A Igreja é, portanto, um verdadeiro sacramento de Cristo, um sinal real da Sua presença! Ela, Igreja, não existe para si mesma, mas para anunciar Jesus, para provocar o encontro entre Jesus Salvador e a humanidade necessitada da salvação! Ela, a Igreja, não tem nenhuma salvação para dar à humanidade a não ser Jesus Cristo: é Ele quem a santifica e a torna instrumento de salvação. Santo Ambrósio, grande Bispo de Milão e Doutor da Igreja, dizia, no século IV: “A Igreja é a verdadeira lua. Da luz imorredoura do Sol, ela recebe o brilho da imortalidade e da graça. De fato, a Igreja não reluz com luz dela mesma, mas com a luz de Cristo. Ela busca Seu esplendor no Sol da justiça, que é Cristo, para depois dizer: Eu vivo, mas não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim!”

A Igreja é, portanto, o “ambiente”, o “clima”, o “espaço”, a “atmosfera” do nosso encontro com o Deus vivo, presente em Jesus Cristo. Ela é o sinal privilegiado através do qual Deus demonstra Suas atenções para conosco e Sua fidelidade a toda humanidade. Mas, como disseram os Bispo do Vaticano II, ela é também sacramento da íntima união de todo o gênero humano. Isto mesmo: reunidos pelo Pai através da Palavra do Senhor Jesus, reunidos no Santo Espírito do Ressuscitado nós somos um novo Povo – o Povo de Deus da nova e eterna Aliança, o Povo no qual toda a humanidade é chamada a entrar para ser filha do mesmo Pai, imagem do único Filho pela ação potente do único Espírito que nos une num só Corpo de Cristo! Por isso, a Igreja é já sacramento (sinal verdadeiro, eficaz, atuante) da união de toda a humanidade com Deus e dos homens entre si, como deverá ser um dia, na Glória do Pai.

Por tudo isso, um monge do século IV saudava assim a santa Igreja: “Que jamais te eclipses na escuridão da lua nova, ó Lua sempre irradiante! Ilumina-nos o caminho por entre a impenetrável escuridão divina das Escrituras! Que jamais deixes, ó esposa e companheira de viagem do Sol que é Cristo, o qual como Esposo da lua, te envolve em Sua luz! Sim, que jamais deixes de enviar-nos da parte Dele, nosso Salvador, os teus raios luminosos, a fim de que Ele, por Si mesmo e através de ti, santa Igreja de Cristo, transmita às estrelas a Sua luz, acendendo-as de ti e por ti!”

Pois bem, depois de termos visto que Cristo é o sacramento do Pai e que a Igreja é o sacramento de Cristo entre nós, continuaremos no próximo texto refletindo sobre esta belíssima realidade sacramental, que é a salvação em Cristo!


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Os sacramentos - Jesus Cristo, o Sacramento Primordial

Com este artigo vou iniciar uma série de meditações sobre os sacramentos. O que são? Quem os instituiu? Qual o sentido de cada um deles? Como são celebrados? Como bem participar deles? São questões que veremos nesta série de temas teológicos.

Antes de mais nada é importante compreender que não podemos falar corretamente dos sacramentos sem começar falando de Jesus Cristo, somente Nele e a partir Dele os sacramentos têm sentido e eficácia: é Ele o Sacramento primordial, a fonte de todos os sacramentos. Vejamos bem isso!

Que é um sacramento? É um sinal eficaz, transformador, da presença de Deus, de Sua Vida e plenitude no nosso meio.
Observe bem: é um sinal, ou seja, indica, recorda, comunica, exprime, evoca, torna-nos presente uma realidade que de outro modo poderia estar ausente;
este sinal é eficaz: não somente recorda, indica, não somente torna presente na lembrança, mas realmente faz acontecer realmente, faz agir aquilo que significa.
É por isso que dizemos que o sacramento é um sinal eficaz, atuante, transformador.
Tomemos como exemplo a Bandeira do Brasil: “a lembrança da Pátria nos traz!” A Bandeira é um sinal do Brasil; mas não é um sinal eficaz: a Bandeira é a Bandeira e o Brasil é o Brasil! Ela é um sinal meramente convencional, exterior. Já com os sacramentos a coisa é diversa: a Eucaristia, por exemplo: aquele pão representa Cristo, indica Cristo, é sinal de Cristo... Mas, não é somente um sinal; é, realmente, Cristo presente, amante, atuante, no Seu Corpo ressuscitado! Então, o sacramento sinaliza e faz acontecer o que foi sinalizado! “Re-presenta”, ou seja, torna realmente presente!
É esta a primeira ideia que devemos ter quando falamos em sacramento.

Como foi dito acima, o Sacramento primordial é Cristo Jesus: Ele é o Sacramento do Pai: “Ele é a imagem do Deus invisível” (Cl 1,15), “É Ele o resplendor da Sua Glória (do Pai), e a expressão da Sua Substância” (Hb 1,3), Ele é a presença real, eficaz, transformadora, verdadeira do Pai entre nós: “Quem Me vê, vê o Pai; Eu estou no Pai e o Pai está em Mim” (cf. Jo 14,9,10).

Nas palavras de Jesus, é o Pai Quem nos fala, nos Seus gestos é o Pai Quem nos estende a mão, no Seu carinho para com os pobres, os fracos, os pecadores, é o Pai Quem manifesta a Sua ternura... Em toda a Sua vida entre nós foi o Pai Quem nos reconciliou Consigo. Muitíssimas vezes a Escritura afirma isso: “No princípio era o Verbo e o Verbo era Deus... e o Verbo Se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a Sua glória. A graça e a verdade nos vieram por Jesus Cristo. Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está voltado para o seio do Pai, Este O deu a conhecer” (Jo 1,1.14.17-18).

Jesus é Deus como o Pai; Nele, Filho amado, é a própria Vida, a própria presença do Pai que nos é dada; por isso o Evangelista diz: a graça e a verdade do Pai nos vieram por Jesus Cristo! Outro exemplo desta realidade maravilhosa está na exclamação do próprio povo diante das ações de Jesus: “Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou o seu povo” (Lc 7,16). Quando Jesus curou o endemoninhado de Gerasa, deu a seguinte ordem ao homem curado: “Vai para tua casa e para os teus e anuncia-lhes o que fez por ti o Senhor na Sua misericórdia” (Mc 5,19). Em Jesus nosso Salvador é o Senhor Deus (o Pai) Quem age! Por isso mesmo o próprio Jesus, quando foi criticado porque acolhia os pecadores, justificou Sua atitude contando as três parábolas da misericórdia, mostrando que Ele era amigo dos pecadores porque o Seu Pai também o era (cf. Lc 15). Tantas frases de Jesus mostram que Ele é esta presença de Deus: “O Meu Pai trabalha sempre e Eu também trabalho” (Jo 5,17); “Eu falo o que vi de Meu Pai (Jo 8,38); “Eu estou no Pai e o Pai está em Mim. As palavras que vos digo, não as digo por Mim mesmo, mas o Pai, que permanece em Mim realiza Suas obras” (Jo 14,10-11).

Por tudo isso, Jesus Cristo é o Sacramento do Pai: Nele está a Vida que vem do Pai (cf. Jo 1,4). Entrar em contato com o Cristo morto e ressuscitado é entrar em contato com a Vida do próprio Deus, a Vida que o Pai derrama sobre o Seu Filho na potência do Espírito Santo. Já afirmei isto muitas vezes, em tantos dos meus escritos: o Filho Jesus morto e ressuscitado como homem, recebeu do Pai o Espírito Santo, Espírito de Vida divina, força e poder, e derramou sobre nós: “Exaltado pela Direita de Deus, Ele (Jesus) recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e O derramou” (At 2,33).

Então, o caminho pelo qual a humanidade pode caminhar para realmente encontrar Deus é Jesus Cristo, Sacramento (sinal eficaz, verdadeiro, potente, ativo) da presença divina entre nós. É por tudo isso que dissemos que Jesus é o Sacramente primordial de Deus! Não adianta pedir como Filipe: “Mostra-nos o Pai e isto nos basta!” (Jo 14,8) A resposta será sempre a mesma: “Quem Me vê, vê o Pai. Eu estou no Pai e o Pai está em Mim. Eu e o Pai somos um! (Jo 14,9-11)

No próximo texto continuarei, desenvolvendo este tema!


sábado, 28 de setembro de 2019

Homilia para o XXVI Domingo Comum - ano c

Am 6,1a.4-7
Sl 145
1Tm 6,11-16
Lc 16,19-31

Antes de entrar no tema próprio da Palavra de Deus deste Domingo, convém chamar atenção para três idéias do Evangelho que desmentem três erros que se pregam por aí a fora:

(1) Jesus hoje desmente e corrige os que afirmam que os mortos estão dormindo. É verdade que, antes do Exílio de Babilônia, quando ainda não se sabia em Israel que havia ressurreição, os judeus e seus textos bíblicos diziam que quem morria ia dormir junto com os pais no sheol. Tal ideia foi superada já no próprio Antigo Testamento, quando Israel compreendeu que o Senhor nos reserva a ressurreição. Então, na época do Segundo Templo, desde a volta do Exílio da babilônia até os tempos de Jesus nosso Senhor, até os dias de hoje, a grande maioria dos judeus pensava que quem morresse, ficava bem vivo, na mansão dos mortos, à espera do Julgamento Final. Já aí, havia uma mansão dos mortos de refrigério e paz e uma mansão dos mortos de tormento. É esta crença que Jesus supõe ao contar a parábola do mau rico e do pobre Lázaro. Assim sendo, nem mesmo para os judeus, que não conheciam o Messias, os mortos ficavam dormindo; dormiam nos seus corpos, não nas suas almas! Quanto mais para nós, cristãos, que sabemos que “nem a morte nem a vida nos poderão separar do amor de Cristo” (Rm 8,38-39). Afirmar que os mortos em Cristo ficam dormindo é desconhecer o poder da Ressurreição de Nosso Senhor. Muito pelo contrário, como para São Paulo, o desejo do cristão é “partir para estar com Cristo” (Fl 1,23). Deus nos livre da miséria de pensar que os mortos em Cristo ficam presos no sono da morte: na Jerusalém celeste, já desde agora, pela fé e a Eucaristia, podemos nos aproximar da Igreja celeste, isto é, “do Monte Sião e da Cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, e dos espíritos dos justos que já chegaram a perfeição, e de Jesus, o Mediador de Nova Aliança” (Hb 12,22ss)!

(2) Outro erro que a parábola que ouvimos dos lábios do Senhor Jesus corrige é o de quem prega que o inferno não é eterno. Muitas vezes nas Escrituras – e aqui também – Jesus deixou claro que o Céu e o inferno são por toda a eternidade. Na parábola, aparece claro que “há um grande abismo” entre um e outro! Assim, cuidemos bem de viver unidos ao Senhor nesta única vida que temos, pois “é um fato que os homens devem morrer uma só vez, depois do que vem um julgamento” (Hb 9,27). Que ninguém se iluda com falsas esperanças e vãs ilusões, como a reencarnação! Com nossa única vida neste mundo, construímos a nossa eternidade!

(3) Note-se também como os mortos não podem voltar, para se comunicarem com os vivos. O cristão deve viver orientado pela Palavra de Deus e não pela doutrina dos mortos! Morto não tem doutrina, morto não volta, morto não se comunica com os vivos! Além do mais, os judeus não pensavam que os espíritos ordinariamente se comunicassem com os vivos. Observe-se que o que o rico pede é que Lázaro ressuscite, não que apareça aos vivos como um espírito desencarnado. Daí, a resposta de Jesus: “Eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”!

Com estes esclarecimentos, vamos à mensagem da Palavra para este hoje. Jesus continua o tema de Domingo passado, quando nos exortou a fazer amigos com o dinheiro injusto. Este é o pecado do rico do Evangelho de hoje: não fez amigos com suas riquezas. Se tivesse aberto o coração para Lázaro, teria um amigo a recebê-lo no Céu! É importante notar que esse rico não roubou, não ganhou seu dinheiro matando ou fazendo mal aos outros. Seu pecado foi unicamente viver somente para si: “se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias”. Ele foi incapaz de enxergar o “pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, queestava no chão”, à sua porta. “Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas”. O rico nunca se incomodou com aquele pobre, nunca perguntou o seu nome, nunca procurou saber sua história, nunca abriu a mão para ajudá-lo, nunca lhe deu um pouco de seu tempo. O rico jamais pensou que aquele pobre, cujo nome ninguém importante conhecia, era conhecido e amado por Deus. Não deixa de ser impressionante que Jesus nosso Senhor chama o miserável pelo nome, mas ignora o nome do rico! É que o Senhor se inclina para o pobre, mas olha o rico de longe! Afinal, os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos!

É esta falta de compaixão e de solidariedade que o nosso Jesus não suporta, sobretudo nos Seus discípulos; não suporta em nós! Já no Antigo Testamento, Deus recrimina duramente os ricos de Israel: “Ai dos que vivem despreocupadamente em Sião, os que se sentem seguros nas alturas de Samaria! Os que dormem em camas de marfim, deitam-se em almofadas, comendo cordeiros do rebanho; os que cantam ao som da harpa, bebem vinho em taças, se perfumam com os mais finos ungüentos e não se preocupam com a ruína de José”. É necessário que compreendamos isso: não podemos ser cristãos sem nos dar conta da dor dos irmãos, seja em âmbito pessoal seja em âmbito social. Olhemos em volta: a enorme parábola do mau rico e do pobre Lázaro se repetindo nos tantos e tantos pobres do nosso País, do nosso Estado, da nossa Cidade, muitas vezes bem ao lado da nossa indiferença. Como o mau rico, estamos nos acostumando com os meninos de rua, com os cheira-colas, com os miseráveis e os favelados, com o assassinato dos moradores de rua, com as drogas que circulam livres nos mais variados ambientes da nossa sociedade... A advertência do Senhor é duríssima: “Ai dos que vivem despreocupadamente em Sião... e não se preocupam com a ruína de José!”

Talvez, ouvindo essas palavras, alguém pergunte: mas, que posso eu fazer? Pois eu digo: comece por votar com vergonha! Não vote nos ladrões, não vote por interesse, não vote nos corruptos, não vote nos descomprometidos com a população, sobretudo com os mais fracos, não vote em que não tem nada além de palavras e promessas vazias! Vote com sua consciência, vote buscando o bem comum. Dê-se ao trabalho de escolher com cuidado seus candidatos, dê-se ao trabalho, por amor aos pobres, de pensar bem em quem votar! Só isso? Não! Olhe quem está ao seu lado: no trabalho, na rua, no sinal de trânsito, no seu caminho. Olhe quem precisa de você: abra o coração, abra os olhos, abras as mãos, faça-se próximo do seu irmão e ele o receberá nas moradas eternas.

Irmãos caríssimos, durante dois domingos seguidos o Senhor nos alertou para nosso modo de usar nossos bens. Fomos avisados! Um dia – no Dia final –, Ele nos pedirá contas! Que pela Sua graça, nós tenhamos, naquele solene e tremendo Dia, amigos que nos recebam nas Moradas Eternas. Amém.


segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Necroses de um tecido

A sociedade ocidental está se decompondo, desfigurando-se rapidamente. Sua matriz geradora foi a tradição judeu-cristã, que pariu nossa cultura do Ocidente. Foi o cristianismo, com sua crença de que cada indivíduo é imagem e semelhança de Deus em Cristo, quem possibilitou que essa cultura desenvolvesse conceitos como pessoa, direitos humanos, democracia, dignidade do indivíduo, etc. Foi o judeu-cristianismo, ao afirmar que a história é aberta e caminha para uma plenitude e que o homem tem a função de “dominar” a terra, quem inspirou e possibilitou o desenvolvimento tecnológico que fez com que o Ocidente se afirmasse hegemonicamente frente a outras culturas. Sem o cristianismo, o Ocidente não existiria. Até mesmo correntes de pensamento que se mostraram visceralmente antirreligiosas e anticristãs, beberam no cristianismo as bases de suas afirmações...

Desde o século XVIII, no entanto, com o iluminismo racionalista, o homem ocidental deu as costas a Deus, a Cristo, à Igreja e engendrou um projeto suicida: conservar e aprimorar os valores de nossa sociedade negando Deus. Tal projeto continua de pé; vai de vento em popa: a ilusão de um humanismo sem Deus e o Seu Cristo, um plano de fraternidade universal escondendo Jesus Cristo, nosso Senhor... Só há um problema, grave, urgente, inevitável: sem a sua seiva cristã, a grande árvore ocidental vai murchar, morrer e secar. Renegando a cosmovisão cristã que os inspirou, nossa sociedade não poderá conservar os valores admiráveis que construiu.

Atualmente, é moda criticar o cristianismo, avacalhar a Igreja e seu passado, relativizar Cristo, destruir a moral cristã, desfigurando-a. Fazem isso nas universidades, promovem isso nos meios de comunicação, levam adiante essa política nos vários programas de governos... O preço será alto, as consequências serão tremendas, porque o homem não pode matar Deus e continuar sendo humano, vivendo uma vida humana. Seremos lobos de nós mesmos, de nós mesmos desiludidos, por nós mesmos desgostosos. Exemplos dessa necrose? A destruição do conceito de família e de sua realidade mesma, o desencanto e falta de ideal de nossos jovens, a banalização e aviltamento da sexualidade, a exaltação da homossexualidade como ideologia, a corrupção deslavada na política, a violência nas suas mais diversas manifestações, a droga e a guerrilha urbana nas nossas cidades, o desprezo pela vida: aborto, experimentos imorais com embriões humanos, a promoção da eutanásia.

O Ocidente está matando Deus. O Ocidente, por isso mesmo, morrerá! A continuar assim, nosso destino não muito distante serão a barbárie e a tirania. Ao fim das contas, valem para toda a nossa sociedade as palavras que o ateu Miguel de Unamuno dizia ao Deus em Quem não conseguia crer: “Que pena que Tu não existas. Se existisses, eu também existiria de verdade”.


sábado, 21 de setembro de 2019

Homilia para o XXV Domingo Comum - ano c

Am 8,4-7
Sl 112
1Tm 2,1-8
Lc 16,1-13


O sentido do Evangelho de hoje encontra-se numa constatação e num conselho de Jesus, nosso Senhor.
Primeiro, a constatação: “Os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios que os filhos da luz”.
Depois, o conselho, que, na verdade, é uma exortação: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas”. Que significam estas palavras?

A constatação do Senhor Jesus é tristemente real: os pecadores são mais espertos e mais dispostos para o mal, que os cristãos para o bem. Pecadores entusiasmados com o pecado, apóstolos do pecado, divulgadores do pecado... Cristãos sem entusiasmo pelo Evangelho, sem ânimo para a virtude, sem criatividade para crescer no caminho de Deus! Pecadores motivados, cristãos cansados e preguiçosos! Que vergonha! Hoje, como ontem, a constatação do Cristo Jesus é verdadeira. Olhemo-nos, olhemos uns para os outros, olhemos para esta Comunidade que, dominicalmente, se reúne para escutar a Palavra e nutrir-se do Corpo do Senhor... Somos dignos da Eucaristia? Sê-lo-emos se nos tornamos testemunhas entusiasmadas e convictas Daquele que aqui escutamos, Daquele por quem aqui somos alimentados!

Da constatação triste do Senhor, brota a Sua exortação grave: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas”. Palavras estranhas; à primeira vista, escandalosas... Que significam?
Jesus chama o dinheiro de “injusto”. Dinheiro, aqui, é tudo quanto tenhamos de precioso, de bom, de desejável, de agradável, tudo quanto, para nós, seja uma riqueza... E este dinheiro é “injusto” porque o dinheiro, a riqueza, os bens materiais e os bens da inteligência, do sucesso, da fama, ainda que adquiridos com honestidade, são sempre ambíguos: sempre traiçoeiros, sempre perigosos, sempre na iminência de escravizar nosso coração e nos fazer seus prisioneiros. Dinheiro injusto porque sempre nos tenta à injustiça de dar-lhe a honra que é devida somente a Deus e de buscar nele a segurança que somente o Senhor nos pode garantir. Por isso, o Senhor nosso chama os bens deste mundo de “dinheiro injusto”... Sempre injusto, porque sempre traiçoeiro, sempre traiçoeiro, porque sempre sedutor! Constantemente corremos o risco de nos embebedar com ele, fazendo dele o fim de nossa existência, nossa segurança e nosso deus... Mas, os bens materiais, em geral, e o dinheiro, em particular, não são maus de modo absolutos... 
No entanto, eles podem ser usados para o bem. Por isso Jesus nos exorta a fazer amigos com eles... Fazemos amigos com nossos bens materiais ou espirituais quando os colocamos não somente ao nosso serviço, mas também ao serviço do crescimento dos irmãos, sobretudo dos mais necessitados. Aí, o dinheiro se torna motivo de libertação, de alegria e de vida para os outros... Então, assim procedendo, tornamo-nos amigos dos pobres, que nos receberão de braços abertos na Casa do Pai!
Bendito dinheiro, quando nos faz amigos dos pobres e, por meio deles, amigos de Deus! Que o digam os cristãos que foram ricos e se fizeram amigos de Deus porque foram amigos dos pobres! Que o digam Santa Brígida da Suécia, Santo Henrique da Baviera, São Luís de França, os Santos Isabel e Estevão, reis da Hungria... e tantos outros, que souberam colocar seus bens a serviço de Deus e dos irmãos! Uma coisa é certa: é impossível ser amigo de Deus não sendo amigo dos pobres deste mundo! Sobre isso o Senhor nos adverte duramente na primeira leitura: ai dos que celebram as festas religiosas dos sábados e das luas novas em honra do Senhor com o pensamento de, no dia seguinte, roubar, explorar o pobre e pisar o fraco! Maldita prática religiosa, esta! A queixa do Senhor é profunda, Sua sentença é terrível. Ouçamos o que Ele diz, e tremamos: “Por causa da soberba de Jacó, o Senhor jurou: ‘Nunca mais esquecerei o que eles fizeram!’” A verdade é que não podemos usar nossos bens como se Deus não existisse e não nos mostrasse os irmãos necessitados, como também não podemos adorar a Deus como se não tivéssemos dinheiro e outros bens materiais ou da inteligência, bens que devem ser colocados debaixo do senhorio de Cristo! Não se pode separar nossa relação com Deus do modo como usamos os nossos bens! Ou as duas vão juntas, ou a nossa religião é falsa! Por isso, perguntemo-nos hoje: Como uso os bens materiais, como uso meus talentos, como uso minha inteligência? Somente para mim? Ou sei colocar-me a serviço, fazendo de minha vida uma partilha, tornando outros felizes e o nome de Deus honrado?

Os bens deste mundo são pouco, em relação com os bens eternos que o Senhor nos promete para sempre. Pois bem, escutemos o que diz o nosso Salvador: “Quem é fiel nas pequenas coisas, também é fiel nas grandes. Se vós não sois fiéis no uso do dinheiro injusto, quem vos confiará o verdadeiro bem? E se não sois fiéis no que é dos outros, quem vos dará aquilo que é vosso?" Em outras palavras, para que ninguém tenha a desculpa de dizer que não compreendeu o que o Senhor quis dizer: Quem é fiel nas coisas pequenas deste mundo, será fiel nas coisas grandes que o Pai dará no Céu. Se vós não sois fiéis no uso dos bens desta vida, como Deus vos confiará a Vida eterna, que é o verdadeiro bem? E se não sois fiéis nos bens que não são vossos para sempre, como Deus vos confiará aquilo que é o verdadeiro bem, a Vida eterna, que será vossa para sempre?

Olhemos nós, que o modo de nos relacionarmos com o dinheiro e demais bens diz muito do que nós somos, afinal o nosso tesouro está onde está nosso coração! Dizei-me onde anda o vosso coração, o vosso apego, a vossa preocupação, e eu vos direi qual é o tesouro da vossa vida! Tristes de nós quando o nosso tesouro não for unicamente Deus! Tristes de nós quando, por amor ao que passa, perdemos a Deus, o único Bem que não passa! Uma coisa é certa: a advertência duríssima de Jesus: “Ninguém pode servir a dois senhores. Vós não podereis servir a Deus e ao dinheiro!”

Que nos converta a misericórdia de Deus, que sendo tão bom, quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). A Ele a glória para sempre. Amém.


terça-feira, 17 de setembro de 2019

Ilumina as trevas do meu coração!

Do Primeiro Livro de Samuel (1Sm 24,3-21)

Naqueles dias, Saul tomou consigo três mil homens escolhidos em todo o Israel e saiu em busca de Davi e de seus homens, até os rochedos das cabras monteses. E chegou aos currais de ovelhas que encontrou no caminho.
Havia ali uma gruta, onde Saul entrou para satisfazer suas necessidades. Davi e seus homens achavam-se no fundo da gruta e os homens de Davi disseram-lhe: “Este certamente é o dia do qual o Senhor te falou: ‘Eu te entregarei o teu inimigo, para que faças dele o que quiseres’.
Então Davi aproximou-se de mansinho e cortou a ponta do manto de Saul. Mas logo o seu coração se encheu de remorsos por ter feito aquilo, e disse aos seus homens: “Que o Senhor me livre de fazer uma coisa dessas ao ungido do Senhor, levantando a minha mão contra ele, o ungido do Senhor”.
Com essas palavras, Davi conteve os seus homens, e não permitiu que se lançassem sobre Saul. Este deixou a gruta e seguiu seu caminho.
Davi levantou-se a seguir, saiu da gruta e gritou atrás dele: “Senhor, meu rei!” Saul voltou-se e Davi inclinou-se até o chão e prostrou-se. E disse a Saul: “Por que dás ouvidos às palavras dos que te dizem que Davi procura fazer-te mal? Viste hoje com teus próprios olhos que o Senhor te entregou em minhas mãos, na gruta. Renunciando a matar-te! Poupei-te a vida, porque pensei: Não levantarei a mão contra o meu senhor, pois ele é o ungido do Senhor, e meu pai.
Presta atenção, e vê em minha mão a ponta do teu manto. Se eu cortei este pedaço do teu manto e não te matei, reconhece que não há maldade nem crime em mim, que não pequei contra ti. Tu, porém, andas procurando tirar-me a vida. Que o Senhor seja nosso juiz e que Ele me vingue de ti. Mas eu nunca levantarei a minha mão contra ti.
‘Dos ímpios sairá a impiedade’, diz o antigo provérbio; por isso, a minha mão não te tocará. A quem persegues tu, ó rei de Israel? A quem persegues? Um cão morto! E uma pulga! Pois bem! O Senhor seja juiz e julgue entre mim e ti. Que Ele examine e defenda a minha causa, e me livre das tuas mãos”.
Quando Davi terminou de falar, Saul lhe disse: “É esta a tua voz, ó meu filho Davi? E começou a clamar e a chorar. Depois disse a Davi: “Tu és mais justo do que eu, porque me tens feito bem e eu só te tenho feito mal. Hoje me revelaste a tua bondade para comigo, pois o Senhor me entregou em tuas mãos e não me mataste. Qual é o homem que, encontrando o seu inimigo, o deixa ir embora tranquilamente? Que o Senhor te recompense pelo bem que hoje me fizeste. Agora, eu sei com certeza que tu serás rei, e que terás em tua mão o reino de Israel”.

Dois homens, dois corações.
Primeiro Saul, o atormentado, o homem carcomido pelo demônio da malignidade que provoca medo, inveja, ciúme, desconfiança... O rei de Israel é apenas uma sombra de homem, um poço de contradições. Persegue Davi covardemente, como uma fixação doentia, porque deixou os demônios dos maus sentimentos tomarem conta de seu coração! Nunca esqueçamos: é preciso cuidar do coração, não deixar que a maldade e os maus movimentos se aninhem nele, é necessário sempre cortar pela raiz, ao nascer, o que de ruim vai aparecendo em nós... Saul não fez isto e agora paga o preço de ser escravo de si mesmo... É um homem menor, um poço de contradições: persegue Davi e depois chora com remorso, vendo o papelão que está fazendo; chega mesmo a reconhecer: “Hoje me revelaste a tua bondade para comigo, pois o Senhor me entregou em tuas mãos e não me mataste. Qual é o homem que, encontrando o seu inimigo, o deixa ir embora tranquilamente? Que o Senhor te recompense pelo bem que hoje me fizeste. Agora, eu sei com certeza que tu serás rei, e que terás em tua mão o reino de Israel”. E, contudo, no seu desaprumo louco, continuará ainda a perseguir Davi, na tentativa de eliminá-lo...

Depois, Davi! É um homem grande, largo de coração. Homem benévolo. Será sempre assim, mesmo quando cair e pecar feio... O que encanta no futuro rei de Israel é a sua espontaneidade, a sua generosidade, a sua sinceridade cheia de simplicidade. Por um lado, é um homem esperto e astuto, mas isto não endurece seu coração. Mesmo sofrendo e tendo que viver feito bandido, sabe conservar a sensibilidade e reger-se por princípios fundados no temor de Deus. Poderia ter matado Saul e não o faz porque ele é o Ungido do Senhor. Mas, no entanto, não é tolo: sabe que está certo e Saul, errado, e entrega sua causa ao Senhor. Suas palavras são tremendas: “Presta atenção, e vê em minha mão a ponta do teu manto. Se eu cortei este pedaço do teu manto e não te matei, reconhece que não há maldade nem crime em mim, que não pequei contra ti. Tu, porém, andas procurando tirar-me a vida. Que o Senhor seja nosso juiz e que Ele me vingue de ti. O Senhor seja juiz e julgue entre mim e ti. Que Ele examine e defenda a minha causa, e me livre das tuas mãos”. Deveríamos aprender com Davi: ele coloca sua causa nas mãos do Senhor, confia-Lhe o julgamento e a vingança.

Não tenhamos medo de apresentar ao Senhor nossa causa; não temamos sequer em pedir-Lhe que nos faça justiça contra nossos inimigos, pois a justiça de Deus não é como a nossa: ela se manifesta em Cristo, que revela a justiça divina justificando o pecador.

Uma coisa é certa: nos embates e pelejas da vida é necessário cuidar do coração, colocando-o sempre diante do Senhor: somente na Sua luz nós veremos a luz e compreenderemos realmente as motivações e movimentos mais profundos, que inspiram nossas ações e reações. “Jesus, Tu és minha luz interior: não deixes que minha escuridão me fale! Jesus, Tu és minha luz interior: possa eu acolher Teu amor!”