domingo, 1 de setembro de 2019

Crise de fé, resposta na fé

Crise de fé. Dela se fala tanto hoje, sobretudo no interior da Igreja.

Sejamos sinceros: com a secularização generalizada e globalizada, com a intrusão das ideologias no âmago mesmo da fé cristã, com a fartura invasiva e tentadora dos bens de consumo que cegam nosso coração para o Infinito, para o que não se vê, para o Eterno, com a ilusão de que o homem se basta a si mesmo e sua cultura e sua subjetividade são o critério do certo e do errado, do bem de do mal – velha tentação da antiga Serpente, que é o Diabo e Satanás -, torna-se cada vez mais difícil crer de verdade, de modo límpido, simples, transparente, também dentro da Igreja, no meio dos cristãos.
Parece que, para muitos, dentro mesmo da Igreja, o critério já não é o Cristo, mas o mundo, já não é o Evangelho, mas as ideologias, já não é a Tradição apostólica, mas as opiniões humanas...

Ora, crer cristãmente não é professar teoricamente o cristianismo, mas primeiro que tudo, ser encontrado existencialmente por Jesus, nosso Senhor, ter Dele uma experiência viva, amorosa, transformadora, contagiante. Não falo primeiramente em contagiante no sentido de contagiar outros, mas primeiramente contagiante no sentido de contagiar todos os aspectos da nossa própria vida: tudo é colocado debaixo do senhorio de Cristo, tudo é vivido Nele e por Ele, de modo que Ele seja o critério do certo e do errado, do bem e do mal, do luminoso e do tenebroso, da vida e da morte. Só alguém contagiado assim pode contagiar outros, pode convencer, arrastar outros, porque se torna uma testemunha viva de Jesus, o Cristo.

E aqui, precisamente, está o problema, o nascedouro da crise de fé: tantos e tantos na Igreja já não creem de verdade! Professam uma fé como ideologia, falam o tempo todo num tal de “reino”, nuns “valores do reino” que, na verdade, são os ditames do politicamente correto e de certos modismos ideológicos do mundo de hoje. Chega desse “reino”, chega desses “valores”!

Crer é aderir a Jesus nosso Senhor, Aquele anunciado e testemunhado no Novo Testamento, Aquele pelo qual os Apóstolos deram a vida, Aquele que os santos de todos os tempos amaram profundamente e Dele fizeram o sentido de suas vidas; crer de verdade no Senhor Jesus Cristo é amá-Lo, servi-Lo, adorá-Lo, permanecer encantado por Ele, na escuta de Sua santa Palavra e do palpitar do Seu Coração. Quando vivemos assim, então, experimentamos em nós, no íntimo da nossa vida e das nossas atitudes e atividades, o Reino (com R maiúsculo) que Ele trouxe na Sua santa Pessoa, o Reinado do Pai, que é amor, justiça, verdade, paz, doação, comunhão, vida e ressurreição...
O Reino de Deus é o Pai de Jesus Cristo reinando em nós, em mim, como reinou em Jesus e por Jesus; o Reino somente vem a nós na potência do Espírito Santo do Cristo Jesus, pois sem Ele ninguém jamais conseguirá deixar efetivamente que Deus reine nas nossas estruturas pessoais ou nas estruturas da sociedade, âmbito da nossa convivência e das nossas relações.

Ora, crer, então, é deixar que Deus reine na nossa vida! É o diametralmente oposto a dizer e pensar que a vida é minha e eu faço dela o que quero! Deixar o Reino acontecer é dizer, como Santa Teresa, por amor de Jesus e ardendo nele: “Vossa sou, por Vós nasci; que quereis fazer de mim?”

Acolher, viver, testemunhar e anunciar o Reino é missão perene da Igreja. Mas, atenção: acolhe-se o Reino acolhendo-se Jesus Cristo como único e suficiente e total e absoluto Salvador da humanidade e de toda a criação, vive-se o Reino vivendo-se Jesus nosso Senhor, testemunha-se o Reino testemunhando-se Jesus como único Caminho, Verdade e Vida do mundo, anuncia-se o Reino anunciando-se Jesus, o Cristo de Deus, o Redentor do universo. Mais uma vez: o Reino é Jesus Cristo presente em nós e no mundo pela bendita potência do Seu Santo Espírito; tanto que uma antiga variante do Pai-Nosso segundo Lucas, pedia, no lugar do tradicional “Venha o Teu Reino”, “Venha o Teu Espírito”! Não tenha dúvida, meu Leitor: os dois pedidos se equivalem plenamente! Deus reina onde há abertura ao Espírito que Jesus Cristo nos dá; sem o Espírito não há nem pode haver manifestação do Reino de Deus!

Senhor Jesus Cristo,
Tu és a Imagem plena e definitiva do Deus invisível!
Tu és a única Salvação da humanidade,
Só Tu és o Santo, só Tu és o Senhor, só Tu és o Altíssimo!

Tu és o único Caminho de salvação para a humanidade
E todos aqueles que vieram, vêm e virão fora de Ti “são ladrões e assaltantes” (Jo 10,8)!

Senhor Jesus Cristo, Filho de Deu, somente em Ti cremos,
Somente em Ti esperamos,
Somente na Tua luz colocamos os nossos passos!

Nosso compromisso não é com ideias ou ideologias,
Mas somente Contigo, com a Tua adorável e bendita Pessoa!
Tu és o nosso Deus, Tu és o nosso Salvador,
A Ti aderimos com toda a nossa existência e de todo o nosso coração nesta vida e por toda a eternidade,
Ó nosso Deus, bendito e eterno com o Pai e o Santo Espírito
Pelos séculos dos séculos. Amém.


sábado, 31 de agosto de 2019

Homilia para o XXII Domingo Comum - ano c

Eclo 3,19-21.30-31
Sl 67
Hb 12,18-19.22-24a
Lc 14,1.7-14

Engana-se quem pensa que o Evangelho de hoje é um guia de etiqueta e de boas maneiras em banquetes e recepções. Nada disso! Jesus, nosso Senhor, pensa, aqui, no Banquete do Reino, no final dos tempos, que é preparado pelo banquete da vida, desta vida nossa de cada dia; sim, porque somente participará do Banquete do Reino quem souber portar-se no banquete da vida!

E neste banquete, no daqui, no desta vida, o Senhor hoje nos estimula a duas atitudes, dois comportamentos profundamente evangélicos.

Primeiramente, a humildade: “Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar... Vai sentar-te no último... Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’”.
O que é ser humilde? Humildade deriva de húmus, pó, lama, barro...
Ser humilde é reconhecer-se dependente diante de Deus, é saber-se pobre, limitado diante do Senhor. Quem é assim, sabe avaliar-se na justa medida porque sabe ver-se à luz do Senhor!
O humilde tem diante de si a sua própria verdade: é pobre, é indigente, mas infinitamente agraciado e amado por Deus. Por isso, o humilde é livre e, porque livre, manso. Tinha razão Santa Teresa de Jesus quando afirmava que a humildade é a verdade.
O humilde vê-se na sua verdade porque vê-se como Deus o vê, vê-se com os olhos de Deus! Então, o humilde é aberto para o Senhor, Dele reconhece que é dependente, e a Ele se confia. Podemos, assim, compreender as palavras do Eclesiástico: Filho, realiza teus trabalhos com mansidão; na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás graça diante do Senhor. O Senhor é glorificado nos humildes”. É assim, porque somente o humilde, que reconhece que depende de Deus, pode ser aberto, e acolher como uma criança o Reino que Jesus veio trazer.

A segunda atitude que o Cristo hoje nos ensina é a gratuidade: “Quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos”. A gratuidade é a virtude que dá sem esperar nada em troca, dá e sente-se feliz, sente-se realizada no próprio dar. Se prestarmos bem atenção, a gratuidade é filha da humildade. Só quem sabe de coração que em tudo depende de Deus e de Deus tudo recebeu gratuitamente (humilde), também sente-se impelido a imitar a atitude de Deus: dar gratuitamente! “De graça recebestes, de graça dai!” (Mt 10,8) ou, como dizia Santa Teresinha do Menino Jesus: “Viver de amor é dar sem medida, sem nesta terra salário reclamar; sem fazer conta eu dou, pois convencida de que quem ama já não sabe calcular!” Pois bem, quem faz crescer em si a humildade e cultiva a gratuidade, experimenta a Deus e Seu Reino, pois aprende a sentir o coração do próprio Deus, que tudo nos deu gratuitamente. Quem cultiva a humildade e a gratuidade, deixa o Reino ir entrando em si e entrará, um dia, no Reino de Deus!

Mas, se pensarmos bem, nada disso é fácil, pois vivemos no mundo da autossuficiência e dos resultados. O homem já não mais se sente dependente de Deus; deseja ele mesmo fazer a vida do seu modo. Assim, se fecha para Deus e, para Ele se fechando, já não mais reconhece no outro um irmão e, não experimentando a misericórdia gratuita de Deus, já não sabe mais dar gratuitamente: tudo tem que ter retorno, tudo tem que apresentar contrapartida, tudo tem que, cedo ou tarde, dar lucro, tudo é pensado na lógica do custo-benefício. Como é triste a vida, quando é vivida assim... Mas, não será o nosso caso? Pensemos bem, porque se assim o for, jamais experimentaremos Deus de verdade, jamais conhecê-Lo-emos de verdade. Nunca é demais recordar a advertência da Escritura: “Quem não ama não conhece a Deus!” (1Jo 4,8)

Caríssimos, aproximemo-nos de “Jesus, mediador da nova Aliança”, e supliquemos a graça de um coração renovado, um coração convertido, um coração de pensamentos novos e novas atitudes! Que durante toda esta semana tenhamos a coragem de analisar e revisar nossas atitudes em casa, com os amigos e próximos, com os companheiros de trabalho e de estudo e examinemo-nos diante do Cristo nosso Deus, no que diz respeito à humildade e à gratuidade.
Recordemos que se tratam de duas atitudes de farão nosso coração pulsar em sintonia com o Coração de Deus. Recordemos, como dizia São Bento, que pela humildade se sobe e pela soberba se desce! Para onde se sobe? Para o Banquete do Reino de Deus. Para onde se desce? Para a penúria do anti-Reino, do reino de Satanás! Peçamos, suplicando, ao Senhor, a graça da conversão, que somente com nossas forças somos incapazes e impotentes para encetar! Que Deus no-la conceda. Amém!


quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Que eu busque a Ti, que buscaste a mim!

Buscar a Deus é a razão mesma da nossa vida, o sentido fundamental da nossa existência.
Que é o homem? O ser que tem sede de Deus, o bicho esquisito e único, cujo coração não sossega com menos que o Infinito; o animalzinho tão limitado que tende, instintivamente para o Eterno, que não se resigna a morrer, pois sua sede de viver é insuprimível!
Que é o homem? O estranho e fascinante ser que não se satisfaz com menos que o Amor e a Verdade.
Que é o homem? Aquele bichinho minúsculo, ínfima partícula do universo, que não se satisfaz com menos que o Tudo! Ora, tudo isto, toda esta complexa e admirável realidade aponta para uma busca fundamental, estrutural de Deus em nós. Não adianta tentar fugir dela!

A Deus o homem busca quando busca o prazer, o poder, o dinheiro, o sucesso, o amor, o reconhecimento, a autoafirmação, a vida... Busca consciente ou inconsciente, mas sempre busca de Deus. Aquele que crê busca conscientemente;
aquele que é cristão sabe precisamente a Quem busca e tem consciência que antes de buscar, foi buscado por Aquele Amor que é a fonte de todo amor e aquela Verdade que é raiz de toda verdade.

No entanto, é necessário sempre que nos perguntemos pela qualidade da nossa busca de Deus, de nosso caminho com Ele, perguntando-nos simultaneamente por nosso desprendimento em relação às coisas que nos cercam, às realidades às quais nos apegamos. Desprender-se para ser livre e maduro em relação a Deus! Quem não se desprende de si e das realidades que o cercam não caminha e não é disponível!

O Autor da Carta aos Hebreus nos recomenda largar o fardo, os fardos de nossos apegos – que se tornam fardos de pecado – e correr para o Cristo, nosso “lugar” de encontro com Deus e nossa meta: “Portanto, também nós, com tal nuvem de testemunhas ao nosso redor, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança para o certame que nos é proposto, com os olhos fixos naquele que é o Autor e realizador da fé, Jesus... (Hb 12,1-2a)”. É a atitude daquele cego de Jericó, que, “deixando sua capa, levantou-se e foi até Jesus” (cf. Mc 10,50). 

Temos nós nossas capas, cheias de bens – esmolas, migalhas da vida... 
Sabemos deixá-las para ir ao encontro Daquele que nos chamou e nos espera?
Que coisas me prendem? Que ideias, sentimentos, atitudes, pessoas, me impedem de ser generoso e livre? Quais os meus fardos de pecado?

É preciso pensar nestas coisas com sinceridade, diante de Deus! É preciso sair de nós, é preciso ir largando os fardos, pesados e leves, se quisermos, de verdade o Infinito, o Eterno, o Amor, a Verdade, o Tudo... Olhe, olhe, que para isto não há mágica, não há atalho, não há desvio, não há desconto! Este é o caminho: andai por ele!


sábado, 24 de agosto de 2019

Homilia para o XXI Domingo Comum - ano c

Is 66,18-21
Sl 116
Hb 12,5-7.11-13
Lc 13,22-30

No Evangelho deste Domingo, Jesus continua Seu caminho para Jerusalém, rumo à Sua Paixão, Morte e Ressurreição. Seu caminho é o dos cristãos. Pois bem, no caminho, fazem-Lhe uma pergunta: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” É daquelas perguntas que Jesus não responde, porque se fundam na curiosidade inútil e não naquilo que Ele veio revelar e inaugurar: o Reino de Deus, que exige de nós uma total e contínua abertura de coração e uma resposta de amor para segui-Lo no caminho. 

Hoje, é tão comum apresentarem um cristianismo de curiosidade sobre o fim dos tempos, sobre milagres, sobre curas; um cristianismo interesseiro, que busca somente emoção e solução de problemas... Tudo isso é um falso cristianismo: vazio, anti-evangélico (mesmo quando se diz “evangélico”) e sem sentido algum... Um cristianismo que trai o Cristo!

Ao invés de responder a pergunta que Lhe fizeram, o Senhor vai direto ao ponto que realmente interessa... Por isso, responde com uma advertência: Não é da nossa conta se são muitos ou poucos os que se salvam. Interessa, isso sim, que tenhamos uma tal atitude hoje, no presente de nossa vida, em relação ao Seu Evangelho, que possamos herdar a salvação: “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão”. Portanto, o Senhor chama nossa atenção para o presente, para o concreto da nossa vida aqui e agora, como estamos nos posicionando agora em relação a Ele.

Mas, por que afirmar que a porta é estreita e que muitos tentarão e não conseguirão? Será que Deus nos preparou uma armadilha? Será que o Senhor pensou a salvação para uma elite espiritual, para uns poucos eleitos? De modo algum! Deus “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade!” (1Tm 2,4) A porta é estreita não porque o Coração de Deus é estreito, mas porque nos tornamos grandes demais, autossuficientes demais, prepotentes demais, demasiadamente cheios de nós mesmos! A porta é estreita porque nossas manhas sãos largas... Portanto, há um combate a ser travado em nós, para nos adequarmos ao Reino de Deus. Seguindo nossa lógica, nossos instintos, nossas paixões, não entraremos! Não entrará no Reino quem primeiro não deixar o Reino entrar em si, no seu coração e na sua vida!

E há ainda mais dois aspectos importantes para os quais o Senhor chama a nossa atenção:

(1) Haverá um momento final, definitivo, decisivo e irremediável: “Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vós, do lado de fora, começareis a bater, dizendo: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele responderá: ‘Não sei de onde sois’”. Cuidemos, portanto, porque haverá um momento final, um julgamento definitivo, um Céu ou um Inferno que nunca passarão! Não nos esqueçamos disso; não brinquemos com isso!

(2) Há ainda um segundo aspecto: Seremos julgados por nossa relação com Ele, o Cristo Senhor. Se hoje O amarmos, se hoje vivermos o Seu Evangelho, se hoje praticamos a justiça do Reino que Ele trouxe, seremos reconhecidos por Ele; caso contrário, seremos rejeitados: “Começareis a bater, dizendo: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele responderá: ‘Não sei de onde sois. Afastai-vos de Mim todos vós que praticais a injustiça’”. Nosso futuro está ligado à nossa atitude concreta em relação ao Senhor Jesus hoje! Por isso mesmo, hoje escutemos a advertência do Autor da Carta aos Hebreus: “Meu filho, não desprezes a educação do Senhor; pois o Senhor corrige a quem ama e castiga a quem aceita como filho. Portanto, firmais as mãos cansadas e os joelhos enfraquecidos, acertai os passos dos vossos pés”. É no hoje da vida que o Senhor nos espera; é no nosso presente que o nosso futuro eterno é decidido. Como tenho vivido meu hoje, meu presente em relação ao Senhor? Vou construindo meu céu ou meu inferno?

E, uma última advertência seríssima da Palavra de Deus deste Domingo: que ninguém se iluda pensando ser membro da Igreja, ser batizado, ser filho de Deus, pois o Senhor olha o coração. Sermos batizados não é somente uma honra, mas é também um dever, uma responsabilidade imensa. Quantos pagãos, quantos ateus, quantos não-católicos, são mais generosos que nós! Quantos seriam melhores cristãos e melhores católicos que nós! Por isso mesmo, Jesus, nosso Senhor, nos previne: Virão muitos do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos”. Como os judeus, que eram primeiros e perderam a prioridade para nós, cristãos, assim também nós, apesar de cristãos, podemos perder a prioridade para os pagãos. Recordemos que ser cristão não é nunca mera questão de tradição, de costume, mas é, antes de tudo, uma relação viva de amor e empenho sempre renovado em relação ao Senhor que nos chamou a segui-Lo! Esse amor vivo e sempre renovado é a única garantia de receber a salvação, de encontrar a porta aberta – e a porta é o próprio Cristo!

Que Ele, na Sua misericórdia, nos faça encontrar Seu Coração aberto, para que Nele vivamos por toda a Eternidade. Amém.


terça-feira, 20 de agosto de 2019

A resposta para todas as perguntas

Meu caro Leitor, permita-me partilhar com você alguns pensamentos que brotam do meu coração nestes dias.

Realmente, o modo de agir de Deus nos surpreende totalmente: primeiro, Ele Se revela Se escondendo. É assim na criação, é assim na história, é assim na Igreja, é assim na vida de cada um de nós...
Depois, vem a nós de modo pessoal, concreto, visível, palpável, no Seu Filho, o Amado. Mas, Jesus nosso Senhor, ao revelar-Se nos desconcerta, Se esconde, em certo sentido, porque nos cega o entendimento!
Como assim? - pergunta-me você.

Não é Se esconder, não é dar um nó no nosso juízo revelar-Se frágil, pobre, derrotado numa cruz, incapaz de salvar-Se? Vimo-Lo sofredor, vimo-Lo homem de dores, vimo-Lo cravado na Cruz, vimo-Lo morto, deixamo-Lo, cadáver, no túmulo... Mas vivo, ressuscitado, glorioso, triunfante, não O vimos diretamente, não O tocamos em primeira mão!
– Senhor, por que é sempre assim? Por que és como a água: quando vamos prender-Te em nossas mãos, Tu nos escapas e exiges que creiamos? Deixas rastros, atrás de Ti deixar marcas, sinais... Mas, és assim: revela-Te escondendo-Te, dá-Te retendo-Te para Te dares plenamente somente na Glória final!

Eis por que o Apóstolo não hesita em afirmar já há dois mil anos o que hoje sentimos tão forte (cf. 1Cor 1,22-25): “Os judeus pedem sinais, os gregos procuram sabedoria; nós, porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e insensatez para os pagãos”.
O sinal que Deus apresenta para Israel, o remédio que Deus preparou para curar a violação da Lei é o Seu Filho crucificado, morto e ressuscitado! E mais: a explicação, a resposta que Deus continua a contrapor à humana soberba, à uma razão que pensa que se basta a si mesma, é o Filho, que somente pode ser visto agora e agora apreendido na fé, por quem dobra os joelhos e cala o coração!

Meu Leitor paciente e amigo, olhemos para nós, o novo Povo de Deus, Igreja santa, Mãe católica, o Povo nascido da Morte e Ressurreição de Cristo. Não somos mais obrigados a cumprir os detalhados preceitos da Lei de Moisés, mas somos convidados a olhar o Crucificado, cujo corpo macerado é o lugar do perdão e do encontro com Deus, o lugar da nova e eterna Aliança... Olhando o Crucificado, ouçamos, mais uma vez, como Israel: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te fez sair da casa da escravidão, da miséria do pecado e da morte, da escuridão de uma vida sem sentido! Eu te dei o Meu Filho amado! Não terás outros deuses diante de Mim!”

Compreende, Irmão? Os preceitos do Antigo Testamento passaram; não, porém, a exigência de um coração todo de Deus, um coração que O ame, um coração sem divisão! E, para nós, a exigência é ainda maior, porque Israel não tinha ainda visto até onde iria o amor de Deus; quanto a nós, sabemos: “Deus amou tanto o mundo que entregou o Seu Filho para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a Vida eterna” (Jo 3,16).

Meu caro em Cristo, convertamo-nos! Você e eu ergamos os olhos para o Crucificado, “Poder de Deus e Sabedoria de Deus”, e mudemos de vida! Que nossa fé não seja fingida, superficial, descomprometida, mundana; que nossa religião não seja simplesmente uma prática fria e sem desejo de real conversão ao Senhor nosso! Que nunca caiamos na ilusão de deixar que nossa fé, nossa adesão a Cristo seja medida pelo mundo, pelo politicamente correto, pelas ideologias da moda! Cristo crucificado e ressuscitado interpreta a julga o mundo, não o contrário!

Crer de verdade exige que nos coloquemos debaixo do preceito de amor do Senhor! Estejamos atentos à advertência tremenda do Evangelho: “Vendo os sinais que Jesus realizava, muitos creram no Seu Nome. Mas Jesus não lhes dava crédito, pois conhecia a todos... conhecia o homem por dentro” (Jo 2,24).
- Ah, Senhor Jesus! Tem piedade de nós!
Converte-nos a Ti e, depois, olha o nosso coração convertido e dá-nos a Tua salvação!
Piedade, Senhor! Livra-nos de ser um desses, que creem, mas não merecem a Tua confiança, porque mantêm o coração longe de Ti e apegado ao mundo!
Na Tua misericórdia infinita, converte-nos e conduze-nos às alegrias da Glória eterna!
A Ti a glória, Cristo-Deus, pelos séculos dos séculos! Amém.



terça-feira, 13 de agosto de 2019

Homilia para a Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus

Hoje celebramos a maior de todas as solenidades da Mãe de Deus: a sua Assunção gloriosa ao Céu.

A oração inicial da Missa hodierna pediu: “Deus eterno e todo-poderoso, que elevastes à glória do Céu em corpo e alma a imaculada Virgem Maria, Mãe do Vosso Filho, dai-nos viver atentos às coisas do Alto, a fim de participarmos da sua glória”. A Liturgia da Igreja, sempre tão sábia e tão sóbria, resumiu aqui o essencial desta solenidade santíssima.
Com efeito, Deus elevou à glória do Céu em corpo e alma a imaculada Virgem Maria! Ela, uma simples criatura, ela, tão pequena, tão humilde, foi elevada a Deus, ao Céu, à plenitude em todo o seu ser, corpo e alma!
Como isso é possível? Não é a morte o destino comum e final de tudo quanto vive? Isto dizem os pagãos, isto dizem os descrentes, os sábios segundo o mundo, aqueles que não têm esperança em Cristo Jesus, os que se conformam com a morte...
Mas, nós, nós sabemos que não é assim! Nosso destino é a Vida, nosso ponto final é a Glória no Coração de Deus: glória no corpo, glória na alma, glória em tudo que somos! Foi isto que Deus nos preparou por meio de Cristo Jesus, nosso Senhor – bendito seja Ele para sempre!

Mas, repetimos, insistimos: como isso é possível?
A Palavra de Deus deste hoje no-lo afirma, de modo admirável. Escutai, irmãos, escutai, irmãs, consolai-vos todos vós: “Cristo ressuscitou dos mortos, primícia dos que morreram. Em Cristo todos reviverão, cada qual segundo uma ordem determinada; em primeiro lugar Cristo, como primícia!”
Eis por que ressuscitaremos: porque Cristo, primícias dos que ressuscitam, ressuscitou! Eis como ressuscitaremos: como Cristo, primícias e modelo dos que ressuscitam, ressuscitou!
Jesus de Nazaré, feito humano como nós, caríssimos, imolado por nós e, por nossa causa, ressuscitado, agora é o Senhor!
O nosso Jesus é Deus bendito e foi ressuscitado pela Glória do Pai!
O nosso Senhor Jesus venceu e nos faz participantes da Sua vitória, dando-nos o Seu Espírito Santo!

Credes nisto, meus caros? Neste mundo que só crê no que vê, que só leva a sério o que toca, que só dá valor ao que cai no âmbito dos sentidos, credes que Cristo está vivo e é Senhor, primícia, princípio de todos os que morrem unidos a Ele?
Pois bem, escutai: o Cristo que ressuscitou, que venceu, concedeu plenamente a Sua vitória à Sua Mãe, à Santíssima Virgem Maria, que esteve sempre unida a Ele.
Ela, totalmente imaculada, nunca se afastou do Filho: nem na longa espera do parto, nem na pobreza de Belém, nem na fuga para o Egito, nem no período de exílio, nem na angústia de procurá-Lo no Templo, nem nos anos obscuros de Nazaré, nem nos tempos dolorosos da pregação do Reino, nem no desastre da Cruz, nem na solidão do sepulcro no Sábado Santo... Nem mesmo após, nos dias da Igreja, quando discretamente, ela permanecia em oração com os irmãos do Senhor... Sempre imaculada, sempre discípula perfeita, sempre perfeitamente unida ao Senhor! Assim, após a sua preciosa morte, que chamamos devotamente de “dormição”, ela foi elevada à glória do Céu, isto é, à glória de Cristo que ressuscitou e é primícia da nossa ressurreição!

A presente Solenidade é, então, primeiramente, exaltação da glória do Cristo: Nele está a Vida e a ressurreição; Nele, a esperança de libertação definitiva! Por isso, todo aquele que crê em Jesus nosso Senhor e é batizado no Seu Espírito Santo no sacramento do Batismo, morrerá com Cristo e com Cristo ressuscitará. Imediatamente após a morte, nossa alma será glorificada e estaremos para sempre com o Senhor. Quanto ao nosso corpo, será destruído e, no final dos tempos, quando Cristo nossa vida aparecer, será também ressuscitado em glória e unido à nossa alma. Será assim com todos nós.
Mas, não foi assim com a Virgem Maria! Aquela que não teve pecado também não foi tocada pela corrupção da morte! Imediatamente após a sua passagem para Deus, ela foi ressuscitada, glorificada em corpo e alma, foi elevada ao Céu! Podemos, portanto, exclamar como Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres! Bendito é o Fruto do teu ventre! Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu!”
Inundada da Glória do Cristo Jesus, cumpre-se em Maria Virgem, de modo admirável, a palavra da Escritura Santa: “Fiel é esta palavra: se com Ele morremos, com Ele viveremos; se com Ele sofremos, com Ele reinaremos!” (2Tm 2,11) Quem mais plenamente morreu com Cristo naquela Cruz? Que mais perfeitamente sofreu com o Senhor naquela Paixão? Pedro, crucificado de cabeça para baixo? Paulo, decapitado? Lourenço, queimado vivo? Inácio de Antioquia, devorado pelas feras? Benditos todos esses e todos quantos morreram pelo Senhor! Mas, somente a Virgem sofreu com Ele como mãe: Mãe do Condenado, Mãe do Crucificado, Mãe do Homem de Dores, Mãe Daquele que pendeu na dura Cruz! A Ele perfeitamente unida na dor – Virgem das Dores na Paixão, Virgem da Piedade com o filho morto nos braços, Virgem da Soledade no tremendo Sábado Santo -, ela é, agora, Virgem da Glória, totalmente transfigurada na Glória do seu filho glorificado! A Palavra do Senhor não engana, não mente: “Se com Ele sofrermos, com Ele reinaremos; se com Ele morrermos, com Ele viveremos!” Reina com Ele a Virgem que com Ele sofreu! Vive com Ele a Mãe santíssima que com Ele morreu na sua maternidade naquele Calvário tremendo! Nela, cumpre-se em plenitude, em completude, perfeitamente, a santíssima promessa do Senhor: “A morte foi absorvida pela vitória! Morte, onde está a tua vitória? Morte, onde está o teu aguilhão?” (1Cor 15,54s)

Esta é, portanto, a festa de plenitude de Nossa Senhora, a sua chegada a Glória, no seu destino pleno de criatura. Nela aparece claro a obra da salvação que Cristo realizou! Ela é aquela Mulher vestida do sol, que é Cristo, pisando a instabilidade deste mundo, representada pela lua inconstante, toda coroada de doze estrelas, número da Israel e da Igreja! A leitura do Apocalipse mostra-nos tudo isso; mas, termina afirmando: “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus e o poder do Seu Cristo!” Eis: a plenitude da Virgem é realização da obra de Cristo, da vitória de Cristo nela!

Caríssimos, quanto nos diz esta solenidade! A oração inicial, citada no início desta homilia, pedia a Deus: “Dai-nos viver atentos às coisas do Alto, a fim de participarmos da sua glória”. Eis aqui qual deve ser o nosso modo de viver: atentos às coisas do Alto, onde está Cristo, onde contemplamos a Virgem já totalmente glorificada em Cristo.
Caminhar neste mundo sem no prendermos a ele... Aqui somos estrangeiros, aqui estamos de passagem, aqui somos peregrinos; lá é que permaneceremos para sempre: nossa pátria é o Céu, onde está Cristo, nossa Vida!
O grande mal do mundo atual é entreter-se com suas malditas ideologias, com seu consumismo, com sua tecnologia, com seu bem-estar, com seu divertimento excessivo e esquecer de viver atento às coisas do Alto. Mas, pior ainda, os cristãos também muitas vezes são infectados por essa doença! Nós, que deveríamos ser as testemunhas do Mundo que há de vir, quantas vezes vivemos imersos, metidos somente nas ocupações deste mundo – muitos até com o pretexto de que estão trabalhando pelos irmãos e por uma sociedade melhor. Nada disso! Os pés devem estar na terra, mas o coração deve estar sempre voltado para o Alto! Não esqueçamos: nosso destino é o Céu, participando da Glória de Cristo, da qual a Virgem Maria já participa plenamente! Aí, sim, poderemos cantar com ela e como ela: “A minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito exulta em Deus meu Salvador: o poderoso fez em mim maravilhas!” Ele, que glorificou a Virgem Imaculada e haverá de nos glorificar, seja bendito agora e para sempre. Amém.


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Neste último Domingo, o que nos falou o Senhor... (II)

Ao pequenino rebanho, o Senhor Jesus promete o Reino! Mas, o que significa tal promessa? O Senhor Deus somente reina em nós quando nos esvaziamos de nós mesmos e dos nossos apegos. Deus não pode reinar num coração cheio de si. Não pode porque respeita totalmente a nossa liberdade! Alguns versículos depois, o nosso Salvador exorta: “Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não fiquem velhas, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Pois onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lc 12,33s). Em resumo: esvaziai-vos de vós mesmos, deixai de endeusar coisas, pessoas, situações... Tudo passa, tudo é fugaz, tudo se consome...

Como poderemos, verdadeiramente, esvaziarmo-nos de nós mesmos? O Senhor indica um caminho: ter diante dos olhos, ter no coração que nossa vida aqui é passageira, que o definitivo é somente o Reino e no Reino: “Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede semelhantes a homens que esperam seu senhor voltar das núpcias, a fim de lhe abrir, logo que ele vier e bater” (Lc 12,35s). Rins cingidos, lâmpadas acesas: vigilância no meio da noite deste mundo; o coração fixo na bendita e fiel memória do Senhor que virá! É isto que dá ânimo, é isto que nos faz relativizar as coisas e situações deste mundo, mantendo-nos na viva consciência de que o Senhor vem ao nosso encontro!
É disto que trata a comovente primeira leitura deste Domingo, quando recorda os nossos pais quando da escravidão no Egito: “Aquela noite fora de antemão conhecida por nossos pais, para que tivessem ânimo, sabendo com certeza em que promessa haviam crido. Teu povo esperava já a salvação dos justos e a ruína dos inimigos... De comum acordo, estabeleceram esta lei divina: que os santos compartilhassem igualmente bens e perigos, e começaram a entoar os hinos dos Pais” (Sb 18,6s.9b). A firme certeza de que o Senhor viria e libertaria os justos, isto é, os Seus fieis, e puniria os ímpios, já fazia Israel cantar os louvores de Deus e caminhar unido, numa comunidade de irmãos, no caminho da vida!

Não esqueçamos: aqui estamos de passagem; lá, na plenitude do Reino, permaneceremos para sempre! Aqui semeamos, lá colheremos; aqui, as sementes, lá, os frutos; aqui, a penumbra da fé, lá a claridade da visão, aqui, os primeiros tímidos raios da aurora, lá o dia pleno... E, no entanto, ainda vivendo aqui, na penumbra, na aurora de luz ainda indecisa, nunca esqueçamos: “Vós, meus irmãos, não andais em trevas, de modo que esse Dia vos surpreenda como um ladrão; pois todos vós sois filhos da luz, filhos do Dia. Não somos da noite nem das trevas” (1Ts 5,4s).