terça-feira, 7 de abril de 2020

Retiro Quaresmal 2020/36 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Terça-feira Santa
Meditação XXXV: O Senhor Me chamou; fez-Me luz das nações

Reze o Salmo 119/118,97-104
Agora, medite e reze, pensando em Jesus Nosso Senhor, em Is 49,1-9.

1. Este é o segundo cântico do Servo Sofredor. Se no primeiro, o Deus de Israel apresentava o Seu Servo, agora, neste, é o próprio Servo Quem toma a palavra. Já vimos: o Servo é o Messias, e Ele personifica em Si, concentra em Si, recapitula em Si todo o Israel do Antigo Testamento. Veja Os 11,1: “Quando Israel era um menino, Eu o amei e do Egito chamei Meu filho” ; compare com Mt 2,13-15, que fala de Jesus nosso Senhor: “Ali ficou até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que dissera o Senhor por meio do profeta: ‘Do Egito chamei o Meu Filho!’” Vê? Em Jesus, Israel é cumprido, é realizado! É assim: em Jesus nosso Senhor todo Israel é assumido e salvo; e não somente Israel, mas também toda a humanidade, já que Ele é também o Novo Adão, o Homem Novo (cf. 1Cor 15,20-22), imolado e ressuscitado, plenificado em Sua santa humanidade, Ele é o Adão celeste, o Homem que vem do Céu e enche de Espírito de Glória eterna todo aquele que Nele crê e Nele é batizado (cf. 1Cor 15,45-49)! Tudo quanto o Senhor nosso viveu, fê-lo por Israel e por toda a humanidade. Ele é o Salvador de todos, o Redentor do mundo!

2. Agora, neste segundo cântico, o Servo dirige-Se a todos os povos da terra; Ele não veio somente para Israel; sua missão é universal! Veja os vv. 1.6! “Ilhas!”, nas Escrituras, significa muitas vezes as nações mais distantes, os lugares mais recônditos da terá. Observe bem o v. 6. Compare com Lc 2,29-32! Jesus é o Servo! Nos vv. 1b e 5, Ele Se apresenta como Aquele que foi chamado pelo Senhor desde o seio materno. Nos evangelhos, Jesus nosso Senhor apresenta-Se muitas vezes como o Enviado do Pai e refere-Se ao Pai como “Aquele que Me enviou” (cf. Mc 9,37; Mt 10,40, Jo 16,5.27s). O que impressiona muito, nestes cânticos, é o alcance da missão do Servo: é universal; atinge as ilhas e os povos distantes! O Senhor Deus de Israel tem, agora, uma palavra para toda a humanidade, uma palavra de salvação, de perdão dos pecados, de Vida divina! Isto é impressionante e mostra o quanto o cristianismo finca suas raízes no Antigo Testamento! Reze o Sl 47/46.

3. Veja como no v. 2 o Servo, tão manso e humilde no primeiro cântico, é também forte, é uma verdadeira arma do Senhor Deus, arma de salvação: Ele é uma espada cortante, uma seta afiada escondida na aljava do Senhor Deus! Mas, toda esta força não está isenta de sofrimentos, lutas e tentação de desânimo. A vocação do Servo é vivida numa luta constante, renovando sempre a confiança em Deus! Leia os impressionantes vv. 3-5. No v. 3, o Servo recorda a Sua vocação: o Senhor Deus, que O escolhera pelo nome desde o seio materno e fizera Dele uma arma potente, agora, confirma a Sua vocação: “Tu és o Meu Servo, em Quem serei glorificado!” Toda vocação, toda vida de um verdadeiro servo do Senhor é para a glória de Deus! Leia Rm 14,7-8. No v. 4, o Servo abre o Seu Coração ao Deus vivo: derrama diante do Senhor a Sua luta, o Seu cansaço, a tremenda sensação de estar trabalhando em vão, gastando sonhos, energias e forças para nada! No entanto, observe como este Servo bendito, para além de todo sentimento e sensação, continua a colocar a confiança no Senhor, sabendo que pode contar com a Sua proteção e Sua recompensa! No v. 5, o Senhor Deus confirma a vocação do Servo em toda a sua extensão: para além de Israel, Ele levará a salvação de Deus até os confins da terra! Reze o Sl 98/97.
Tomando tudo isto em consideração, pense bem e reze: o Servo foi fiel, o Servo combateu o combate do Senhor... A Igreja, no tempo da Quaresma, repete sempre: “Cristo por nós foi tentado, sofreu e na Cruz morreu...” A Liturgia repete também, muitas vezes, as palavras de Fl 2,8: “Cristo por nós Se fez obediente até a morte e morte de Cruz”... E eu? E você? Escute: “Não te envergonhes de dar testemunho de nosso Senhor! Participa do meu sofrimento pelo Evangelho, confiando no poder de Deus! Assume a tua parte de sofrimento como bom soldado de Cristo!” (2Tm 1,8; 2,3)... Aprendamos com o Senhor Jesus a colocar nas mãos do Pai as nossas lutas, os nossos momentos de desânimo e de medo! O Filho eterno do Pai sofreu tudo isto! Quando confiamos no Senhor e Nele nos abandonamos, retomamos a força com vigor renovado e cumprimos a missão que o Senhor nos confia. Leia Is 40,40,28-31 e Hb 5,7-10! Quão alto foi o preço da nossa salvação!

4. Já aqui, neste segundo cântico, aparece o quanto o Servo irá sofrer e ser desprezado (cf. vv. 4.7) e, depois, precisamente pela Sua fidelidade ao Senhor Deus, mesmo na dor e na provação, será exaltado, salvando Israel e toda a humanidade (cf. vv. 6-9)... Não existe caminho fácil na obra de Deus! Como dizem os Atos dos Apóstolos, “é preciso passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus” (At 14,22). A grande novidade nestes cânticos é que começa a surgir a ideia de um sofrimento e de uma provação que se tornam bênção, luz e salvação para uma multidão! Esta é uma ideia nova nas Escrituras de Israel e chegou ao máximo no quarto cântico do Servo, como veremos adiante!

5. Que dizer mais? Releia o cântico todo, pensando em Jesus: “Assim, meus santos irmãos e companheiros de vocação celestial, considerai atentamente a Jesus, o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa profissão de fé!” (Hb 3,1).Compare estes vv. 6-9 com Lc 4,18s. Agora leia Is 49,8-12: aí está toda a bênção, toda a graça, toda a Vida trazidas pelo Servo, graças à Sua fidelidade, ao Seu sofrimento até a morte!
Agora louve e bendiga a Deus pelo Seu Servo, com Israel e com as Escrituras. Reze Is 49,13-26! Atenção: aqui é o Antigo Israel e a Igreja, Novo Israel, que cantam e cantarão sempre o fruto da obra de salvação pelo sofrimento do Servo fiel! Este cântico durará para sempre, até o Dia de Cristo, na Glória! Cante você também!


domingo, 5 de abril de 2020

Retiro Quaresmal 2020/35 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Segunda-feira Santa
Meditação XXXIV: Eis o Meu Servo!

Reze o Salmo 119/118,89-96
Vamos, agora, ler, meditar e contemplar Is 42,1-9. Leia este texto sagrado com os olhos fixos em Jesus nosso Senhor e o coração unido ao Dele!

1. Este é o primeiro dos quatro cânticos do Servo Sofredor, o misterioso personagem apresentado na segunda parte da profecia de Isaías... Quem é ele? Do que se trata nestes misteriosos poemas?
Às vezes, parece que é o Servo é todo o Povo de Israel: “Tu és o Meu Servo, Israel, em quem Me gloriarei” (Is 49,3);outras vezes, aparece claro que é Alguém que, em nome de todo o Israel, personificando e representando todo o Povo eleito, sofrerá, tomando sobre Si os pecados do Povo santo e até mesmo de toda a humanidade: “Eu Te constituí como Aliança do Povo, como luz das nações” (Is 42,6b).
Então, o Servo é Israel, mas o Israel que é assumido e levado à perfeição por Alguém que representa todo o Povo sacerdotal do Antigo Testamento e que tomará sobre Si a sorte de Israel e realizará a expiação pelo pecado do Povo da Aliança e de toda a humanidade. Nele, no Servo, Israel alcançará o máximo do seu ser “um Reino de sacerdotes, uma Nação santa” (Ex 19,6). Em última palavra, esse Servo é Jesus nosso Senhor, personificação máxima e perfeita do Israel da Antiga Aliança! Várias vezes o Novo Testamento interpretou assim. Basta, como exemplo, ler Mt 12,15-21... Lendo e meditando esses cânticos impressionantes vemos de que modo o Pai determinou que o Senhor Jesus cumprisse a Sua missão e, verdadeiramente admirados, constatamos o quanto o Filho foi realmente o Servo, obediente ao desígnio misterioso do Pai... Não foi por acaso que o nosso Salvador bendito resumiu toda a Sua missão como um serviço. Atenção, que não se trata de modo algum de um serviço qualquer, mas do serviço do Servo: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar Sua vida como resgaste por muitos” (Mt 20,28). Este é o admirável resumo dos quatro poemas do Servo Sofredor e de toda a existência humana do nosso Salvador Jesus Cristo!
Contemplemos, pois, e aprendamos com Jesus, o Servo, nosso Salvador bendito e santo!

2. Neste primeiro cântico, é o Pai, o Deus de Israel, Quem fala, apresentando-nos o Seu Servo. Leia com atenção o v. 1. O Servo é o Escolhido de Deus, o Amado, o Preferido, o Eleito. Ele é o Ungido com o Espírito: “Pus sobre Ele o Meu Espírito!” (v. 1). Lembre que “ungido”, em hebraico, se diz “messias”!
Pense: Este início deste Primeiro Cântico do Servo recorda-lhe algum texto dos evangelhos? Agora leia Mt 3,16s. Veja o paralelismo impressionante:
=> “Eis o Meu Servo que Eu sustento // Este é o Meu Filho amado, em Quem Me comprazo!”
=> “Pus sobre Ele o Meu Espírito” // ... e ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre Ele”...
A mensagem é clara: o Pai revela que Jesus é o Filho amado, mas esse Filho, no Qual Ele derramou toda a Sua complacência, isto é o Seu Amor (cf. Mt 3,17), agora, uma vez ungido, cheio do Santo Espírito para a missão pública, deverá cumprir essa missão como Servo sofredor! Ele é o Filho-Servo! Aqui, temos uma surpresa total! Jamais Israel imaginara que o Messias fosse Filho de Deus no sentido estrito e forte (cf. Jo 10,31-33); e muito menos ainda pensara que o Messias fosse o Servo Sofredor! Israel sempre imaginara num Messias misterioso e glorioso (cf. Jo 7,27). Eis o caminho do Senhor Jesus, que vai levá-Lo à Paixão, à Cruz, à Morte! Isto custou tanto ao Senhor! Mas, por nós, Ele obedeceu ao Pai, por nós rejeitou um caminho de facilidades e de glória mundana, por nós, venceu a tentação diabólica de seguir uma lógica segundo o mundo (cf. Mt 4,1-11)! Como os caminhos do Senhor Deus são misteriosos! Reze o Salmo 139/138...

3. Leia os vv. 2-3. O Servo deverá cumprir Sua missão em mansidão, em humildade, procurando salvar o que está perdido, sem quebrar a cana já rachada ou apagar a mecha que ainda fumega... Isto significa que o Senhor Jesus Cristo escolheu o caminho da mansidão: não impôs, mas propôs, não demonstrou poder para amedrontar, mas potência de amor para salvar, não se impôs pelo temor, mas desejou conquistar pelo amor! Mesmo quando advertiu severamente e ameaçou, fê-lo sem impor, fê-lo como um grito de amor apaixonado, que deseja salvar quem está perdido! Agora, leia Mt 11,28-30. Peça um coração como o Coração de Jesus! “Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus!” (Fl 2,5) – Que programa de vida cristã! Que bênção tão grande seguir este conselho, esta exortação! Leia e reze 1Pd 2,21-25.
Pense um pouco: É cristão anunciar o Evangelho, mas não é cristão querer impor a própria fé! É cristão advertir sobre a gravidade do pecado, mas não é cristão julgar as pessoas e condená-la. É cristão falar da possibilidade do inferno, mas não é cristão dizer que as pessoas estão lá. É cristão proclamar que Cristo é a Verdade e somente Nele há salvação, mas não é cristão desrespeitar a consciência e a religião dos demais. Examine-se nestes pontos, pensando no Cristo manso e humilde!

4. Leia os vv. 1b.2-4.6s. O Servo vem para salvar, para libertar Israel e a humanidade de todas as suas misérias! A libertação que Ele trará não é simplesmente de cunho político, social, material... É muito mais radical e profunda: Ele vem libertar o homem de seu próprio fechamento em si mesmo, da sua situação de alienação em relação a Deus, da sua autossuficiência, que faz perder a Deus e faz da própria vida e da vida dos demais um inferno! Quando o homem acolhe o Servo como Messias Salvador e se deixa reconciliar com o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, tudo muda na sua vida pessoal e social! Como “todos pecaram e estão privados da Glória de Deus” (Rm 3,23), o Servo veio para todos, para salvar a todos, israelitas e gentios. Ora, uma missão assim, não é fácil, porque não se trata de impor, mas de propor, não se trata simplesmente de manipular, mas de convencer, não se trata de conquistar massas, mas de encontrar e convencer pessoas, conquistando corações, estabelecendo o direito de Deus, na terra. Onde encontrar força para não desanimar? Somente no Senhor, na certeza da Sua fidelidade! Ele, o Deus que tudo criou, que tudo sustenta, Ele que concede o sopro de vida a toda criatura, sustentará fielmente o Seu Servo. Leia os vv. 5-7. Leia agora Lc 2,29-32; 4,16-21.

5. Um outro aspecto importante: a missão do Servo é para a manifestação da glória do Senhor Deus, para a realização do Seu plano de salvar a todos, a todas as nações, a toda a humanidade e a toda a criação! Em Cristo Jesus aparece, de modo surpreendente, a glória de Deus: uma glória feita de amor que salva, de cuidado que procura o ser humano e toda a criação. Leia os vv. 5.8. Nunca esqueça: Cristo veio ao mundo, Cristo viveu entre nós, Cristo sofreu e padeceu até a morte por nossa salvação, pela salvação sua, minha e do mundo inteiro! Tudo isto, dentro de um misterioso desígnio do Senhor Deus. Leia o v. 9. O que significam estas palavras? Indicam que o plano de Deus é constante, firme, coerente e dinâmico: vai de etapa em etapa, do mais escondido para o mais claro, das imagens para a realidade, das profecias para a realização, mas sempre dentro de uma lógica sábia, bendita, coerente, santa, fiel: o Senhor promete, anuncia e cumpre! E tudo com um só propósito: a salvação de Israel, da humanidade, da criação para a glória de Deus, do Pai, através do Filho-Servo, no Espírito! Leia 1Cor 10,1-4.11; Gl 3,23-26.

6. Como responder a um amor tão grande, a um desígnio tão impressionante? Como Israel respondeu: com o cântico de admiração e júbilo de Is 42,10-17! Louve o Senhor! Ele é bom! Ele é grande! Ele é Santo!


sábado, 4 de abril de 2020

Homilia para o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor - ano a

Para a Procissão de Ramos:

Mt 21,1-11

“Dizei à filha de Sião: ‘Eis que o teu Rei vem a ti, manso e montado num jumento, num jumentinho, num potro de jumenta!” – Assim, caríssimos irmãos, o nosso Jesus entra hoje em Jerusalém para sofrer Sua paixão e fazer Sua Páscoa deste mundo para o Pai.

Jerusalém é a cidade do Messias; aí deveria manifestar-se o Reino de Deus.
O Senhor Jesus, ao entrar nesta Cidade santa de modo solene, realiza a esperança de Israel. Por isso o povo grita: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em Nome do Senhor! Hosana no mais alto dos Céus!” Hoje, com nossos ramos levados em procissão, fazemos solene memória deste acontecimento e proclamamos com nossos cânticos que Jesus é o Messias prometido! Também nós cantaremos daqui a pouco: Hosana ao Filho de Davi!

Mas, atenção! Este Messias não vem como rei potente, num majestoso cavalo de guerra, símbolo de força e poder! Ele vem num burrico, usado pelos servos nos seus duros trabalhos; Ele vem como manso e humilde servo! Eis o escândalo que Israel não suporta! Esperava-se um Messias que fosse rei potente e Deus envia um servo humilde e frágil! Que lógica, a de Deus! E, misteriosamente, Israel não consegue compreendê-la e terminou por refutar Jesus!
Mas, e nós, compreendemos de verdade esta lógica?
Hoje, seguir o Cristo em procissão é estar dispostos a aceitá-Lo como Messias que tem como trono a Cruz e como coroa os espinhos! Segui-Lo pela rua é comprometer-se a segui-Lo pela vida! Caso contrário, nossa liturgia não passará de um teatro vazio...

Vamos com Jesus, o Filho de Davi! Aclamemos Jesus, o Senhor! E quando na vida, a cruz vier, a dor vier, os espinhos vierem, tomemos nas mãos os ramos que levaremos hoje para nossas casas e recordemos que nos comprometemos a seguir o Cristo até a morte e morte de Cruz, para chegarmos à Páscoa da Ressurreição!


Para a Missa da Paixão:

Is 50,4-7
Sl 21
Fl 2,6-11
Mt 26,14 – 27,66

O mistério que hoje estamos celebrando – a Paixão e Morte do Senhor – e vamos celebrar de modo mais pausado e contemplativo nesses dias da Grande Semana, foi resumido de modo admirável na segunda leitura desta Eucaristia: o Filho, sendo Deus, tomou a forma de servo e fez-Se obediente ao Pai por nós até a morte de Cruz. E o Pai O exaltou e deu-Lhe um Nome acima de todo nome, para nossa salvação! Eis o mistério! Eis a salvação que nos foi dada!

Mas isto custou ao Senhor! É sempre assim: os ideais são lindos; colocá-los na vida, na carne de nossa existência, requer renúncia, lágrimas, sangue!
O Filho, para nos salvar, teve que aprender como um discípulo, teve que oferecer as costas aos verdugos e o rosto às bofetadas! Que ideal tão alto; que caminho tão baixo! Que ideal tão sublime, que meios tão trágicos!

Foi assim com o nosso Jesus; é assim conosco! É na dor da carne da vida que o Senhor nos convida a participar da Sua Cruz e caminhar com Ele para a Ressurreição. Infelizmente, nós, que aqui nos sentamos à Mesa com Ele, tantas vezes deixamo-Lo de lado: “Quem vai Me trair é aquele que Comigo põe a mão no prato!” – Eis! É para nós esta palavra! Comemos o Seu Pão ao redor deste Altar sagrado e, no entanto, o abandonamos nas horas de cruz: “Esta noite vós ficareis decepcionados por Minha causa!” – Que pena! Queríamos um Messias fácil, um Messias que nos protegesse contra as intempéries da vida, que fosse bonzinho para o mundo atual. Como seria bom um Messias que de acordo com o aborto, com a destruição da família, com a ideologia de gênero, com a permissividade sexual, com a libertinagem reinante, com o homem no lugar de Deus, colocado como medida de todas as coisas... Mas, não! Este Messias prefere morrer a matar, este Messias exige que O sigamos radicalmente, este Messias nos convida a receber a mesma rejeição que Ele recebe do mundo: “Minha alma está triste até à morte. Ficai aqui e vigiai Comigo!”

Irmãos, que vos preparais para celebrar estes dias sagrados, não vos acovardeis, não renegueis o nosso Senhor, não O deixeis padecer sozinho, crucificado por um mundo cada vez mais infiel e ateu, um mundo que denigre o Nome de Cristo e de Sua Igreja católica!
Cuidado, irmãos! Não é fácil, não será fácil a luta: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca!” Que nos sustente a força Daquele que por nós Se fez fraco! Que nos socorra a divina intercessão Daquele que orou por Pedro para que sua fé não desfalecesse! E se, como Pedro cairmos, ao menos, como Pedro, arrependamo-nos e choremos!

Nós Vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos porque pela Vossa santa Cruz remistes o mundo!


Retiro Quaresmal 2020/34 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Sábado da V semana da Quaresma
Meditação XXXIII: Bendito o Senhor pelos séculos eternos!

Reze o Salmo 119/118,81-88
Leia e reze ainda uma vez, para concluirmos, Tb 14.

1. Com este capítulo, chegamos ao fim do Livro de Tobias. Nestes versículos aparece como transcorre a vida e a morte do justo, segundo o Antigo Testamento na sua mentalidade mais antiga. Aquele que é amigo de Deus tem vida longa, fartura de bens e descendência duradoura neste mundo. O texto de Tobias reflete um período quando ainda não havia a esperança na ressurreição. Esta certeza somente apareceria mais tarde, tendo seus primeiros lampejos no período imediatamente anterior ao Exílio de Babilônia (cf. Sl 16/15,10s; 49/48,16; Jó 19,25-27; Ez 37,10; 73/72,23-26) e desenvolvendo-se bem no tempo da dominação grega. Aparecem os primeiros textos sobre a ressurreição nos livros de Daniel, dos Macabeus e da Sabedoria. Vale a pena ler 2Mc 7,9; 12,43-45; Dn 12,2s; Sb 3,1-9. É que a revelação de Deus ao Seu Povo foi progressiva: como um pai educa o seu Filho, o Senhor Deus foi educando Israel e conduzindo-o ao Cristo (cf. Sl 103/102; Dt 8,5).
Observe os elementos da morte do justo, isto é, do amigo de Deus: morre em paz e na paz vive; morre na abundância de bens e de muitos anos; pratica a esmola, morre cercado de estima, honrado pelos conhecidos, sempre bendizendo o Senhor e proclamando Sua grandeza (cf. vv. 1s.14). Note como este Livro santo insistiu sobre a prática da oração, do jejum, da esmola, da caridade para com os mortos, do respeito e veneração para com os pais, da constante oração de bênção e louvor a Deus. É sempre válida a constatação neste final de escrito: a iniquidade conduz à morte! (cf. v.11) Nunca devemos esquecer isto! E lembre-se: a pior morte é a morte da alma, aquela que o Apocalipse chama de “segunda morte” (20,14s).

2. Leia os vv. 1-7. Volta aqui uma ideia maravilhosa e profunda, presente em todas as Escrituras Santas: o Senhor tem nas mãos a história e o destino dos povos! Mesmo no meio de toda escuridão, de todas as crises, de todas as lágrimas, o Senhor tudo guia, tudo orienta, tudo dirige e, no Seu amor infinito, conduz tudo à salvação de um modo misterioso e no tempo oportuno: “Tudo sucederá a seu tempo!” (v. 4). Pense nisto! Quanto de esperança, de serenidade, de força para caminhar esta certeza nos dá! (cf. vv. 4-5b) A Assíria, tão poderosa, a seu tempo cairia, os grandes do mundo, no tempo que o Eterno assinalou, tornar-se-iam pó: Assíria, Babilônia, Pérsia, gregos, Romanos... É assim! Permanecem o Senhor e o Seus desígnios! Reze o Sl 33/32. Repita, com fé e confiança no Senhor da história, as santas palavras de Tobit: “Sei e creio que se cumprirá tudo o que Deus disse; acontecerá, e não há de falhar nem uma palavra!” (v. 4) Reze os salmos 46/45 e 33/32.

3. Também aparece com força a firme esperança na restauração final do Povo de Deus. Leia os vv. 4-5. Depois da provação, que será ainda maior e mais devastadora, destruindo Jerusalém e o Templo santo de Deus (cf. 2Rs 25,1-21), Israel será reunido novamente e voltará à terra que Deus lhe dera! Todos os profetas anunciaram isto: depois dos castigos de Deus, depois de todas as lágrimas e exílios, o Povo de Deus seria restaurado! Só um exemplo: leia Jr 31,35-40: apesar de todo pecado e de todo castigo, o Eterno nunca deixará Israel, jamais irá abandonar o seu Povo. Mas, nos últimos tempos, estabelecerá no Messias, “uma Aliança nova” (cf. Jr 31,31-34). Esta fidelidade do Senhor Deus ao Seu Povo alcançará sua plenitude na Nova Aliança com o novo e definitivo Israel, que é a Igreja, o Povo nascido do sangue do Cristo, sangue de uma nova e eterna Aliança (cf. Mt 26,27s; Mc 14,24; Lc 22,20). Mas, também para o Israel segundo a carne, a fidelidade amorosa do Senhor não se esgotou. Depois do feio e gravíssimo tropeço por rejeitar o Messias de Deus, no final dos tempos, Israel haverá de contemplar o seu Messias esperado e amado, constatando, pasmo e admirado, que ele é Jesus, nosso Senhor! Leia com atenção Rm 9 – 11. Nunca esqueça: tanto o antigo Israel quanto o novo, que é a Igreja, espera o Messias. Nós já sabemos quem é Ele; Israel não o sabe! Mas, no final de tudo, com a graça de Deus nosso Senhor, o antigo e o novo Povo cantarão juntos o louvor e adoração do Pai e do Filho e do Espírito Santo!

4. Um traço surpreendente do Livro de Tobias é o seu universalismo, isto é, a convicção de que o amor e a salvação do Senhor Deus, a Sua bênção fecunda, são para todos os povos da terra e os povos haverão de converter-se ao Deus de Israel. Já vimos, na meditação passada, que isto foi anunciado por vários profetas, sobretudo por Isaías. Veja como termina o Escrito de Isaías: 66,18-23. Pois vem, Tb 14,6s alude à conversão de todos os povos ao Deus de Israel. Tal conversão dar-se-á em Cristo nosso Senhor! Nele, todos os povos da terra, cada ser humano, terá a possibilidade de conhecer o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó e o Seu Cristo, que nos faz um novo Povo para o Senhor. Leia Ef 3,1-6. Aí, o Apóstolo fala do Mistério escondido no antigo Testamento e revelado plenamente com a Ressurreição do Senhor e o envio do Espírito Santo: todos os povos são chamados à salvação. Observe como o cristianismo realmente nasce de dentro do judaísmo! A Nova Aliança não é um acréscimo externo à Antiga, mas o seu cumprimento, a sua realização, a sua plenitude! Por isso, Jesus dizia que Nele toda a Lei se cumpre (cf. Mt 5,17s) e São Paulo afirmava que o nosso Cristo é o “Sim”, o “Amém” de Deus (cf. 2Cor 1,20): tudo quanto o Eterno prometera se cumpre abundantemente no Seu Filho Jesus Cristo, Messias e Salvador do mundo inteiro! Reze o Sl 117/116.

5. Um outro aspecto para a nossa meditação e edificação, é o belo exemplo de piedade filial de Tobias: como cuidou dos seus pais e sogros, como foi-lhes amparo até o fim da sua existência, amparando-os na velhice e sepultando-os com veneração (vv. 11-13). Leia Eclo 3,1-16/2-18. Veja também Ef 6,1-3. É necessário aqui um exame de consciência de como tratamos nossos idosos: o cuidado, a atenção, o respeito, a veneração, o tempo dado a eles, a atenção ao que falam e aos conselhos e exemplos que podem nos dar. Nas culturas antigas, o ancião era o sábio da comunidade, era a memória vida do povo, era o guardião da história e da identidade de uma comunidade. Nos anciãos os mais jovens encontravam a experiência e a inspiração para caminharem adiante, construindo um futuro com segurança. Com a escrita, com os livros, com a comunicação digital, com a exaltação da juventude, da saúde, da curtição da vida, do bem-estar, a velhice tornou-se um mal do qual se deve fugir e no qual não se deve pensar – basta pensar na tolice de disfarçar a velhice, chamando-a de “melhor idade”. É uma coisa boba, ridícula! A velhice é bela quando é vivida com sabedoria, com a capacidade de tirar proveito das alegrias e tristezas dessa fase da vida. Alegrias como a satisfação do dever cumprido, de ver os frutos da vida que se viveu, do tempo para rezar, para conviver, para estar com os mais jovens; tristezas como as limitações, os achaques, as enfermidades, a debilidade. Tudo isto deve ser vivido diante de Deus, na ação de graças e como preparação feliz e serena para o momento do encontro com o Senhor. Portanto, é necessário que os cristãos perguntem como tratam os seus idosos! Cuidado para não deixá-los deslocados, sem ter o que conversar, cuidado para não deixá-los solitários, cuidado para não deixá-los sem atividades, cuidado para não deixá-los sem assistência religiosa! Lembre: “Honra a teu pai e tua a mãe – é o primeiro mandamento com promessa – para seres feliz e teres longa vida sobre a terra” (Ef 6,2s). Reze o Sl 71/70.

6. Ainda um último tema relevante: o juízo de Deus! Nos vv. 4-7, aparece claramente a diferença de destinos para os que são fieis ao Senhor e para os que não o são. Em nenhum lugar das Escrituras Santas aparece que todos serão salvos! A salvação é para todos (cf. 1Tm 2,4), o amor de Deus envolve a todos (cf. Mt 5,45), o convite à salvação é para todos (Cf. Mc 13,37), mas o Senhor manso e humilde de Coração (cf. Mt 11,28-30) sentar-Se-á no trono para julgar e separar bons e maus, dizendo “vinde!” aos bons e “apartai-vos de Mim” aos perversos (cf. Mt 25,34.41) Nunca esqueçamos disto! Levemos muito a sério a nossa vida: ela é semente de Eternidade!
Terminando este Livrinho precioso, faça um exame de consciência sobre este ponto específico e tão abrangente: como você está construindo sua vida? Como um “sim” ou como um “não” ao Senhor Deus? Reze o Sl 1. Agora, agradecendo ao Senhor por tudo quanto meditamos aqui e pedindo-Lhe a graça de colocar em prática o que Ele inspirou ao seu coração, reze o Sl 138/137. E termine louvando e agradecendo a Deus com o Sl 150! Que, como Tobit, Tobias e todos os personagens deste Livro, você possa, nesta vida, e depois, bendizer o Senhor Deus pelos séculos dos séculos. Amém (cf. Tb 14,15).


sexta-feira, 3 de abril de 2020

Retiro Quaresmal 2020/33 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Sexta-feira da V semana da Quaresma
Meditação XXXII: Purificada e convertida, uma bênção para o mundo

Reze o Salmo 119/118,73-80
Leia e reze ainda, como lectio divina, Tb 13 e avance até Tb 14.

1. Observe, agora, os vv. 5-7.9s. Nestes versículos aparece claramente o tema do castigo, isto é, da correção que o Senhor Deus provoca para fazer cair em si aos que Ele ama e convidá-los ao arrependimento e à conversão. Talvez pensemos, com nossa mentalidade atual: que amor é este, de Deus, que provoca, ou pelo menos permite, sofrimentos, dores e mortes? Não temos a resposta! Deus é Amor – isto sabemos com certeza (cf. 1Jo 4,7s); o Amor de Deus é real, verdadeiro, concreto, efetivo: Ele amou tanto o mundo que entregou o Seu Filho por nós (cf. Jo 3,16; Rm 8,38s). Mas o modo como Deus ama e atua o Seu amor nos ultrapassa de muito. Afirmar o Amor de Deus exige fé: nós cremos no amor de Deus! (cf. 1Jo 4,16) Os castigos corretivos do Senhor são por amor! Em tudo, na vida e na morte, Ele nos ama! Leia Rm 8,31-39.
A Dispersão de Israel é um fato histórico doloroso, que pode até ser explicado pelas condições históricas daquela época em que se deu; as Escrituras Santas, no entanto, à luz da fé, vão mais a fundo, e o interpretam como consequência do pecado de Israel, da sua infidelidade à Aliança. Leia Dt 28,47-68 e Jr 5,18s. Veja também o impressionante texto de Ez 16! É esta séria realidade que aparece aqui, nas palavras do velho Tobit: Israel perde tudo como castigo por suas iniquidades, mas, se se arrepender e voltar para o Eterno, Ele fará Seu Povo voltar, irá reuni-lo novamente na Terra Santa, em Jerusalém! Tome para você os vv. 6-7 e os reze agora!

2. Vamos adiante! Jamais, nas Escrituras e na fé da Igreja, fala-se de um amor de Deus ou de uma misericórdia do Senhor que sejam coniventes e tolerantes com o pecado! Chega-se até mesmo a afirmar que o Eterno “tolera a falta, a transgressão e o pecado”, mas no sentido de ter paciência com os faltosos, pois, logo após se afirma que Ele “a ninguém deixa impune o pecado” (Ex 34,7)! Numa reta compreensão do amor misericordioso de Deus nas Escrituras, é claro que o Senhor tem paciência e mostra-Se sempre disposto a perdoar, com a condição imprescindível que o pecador reconheça o seu pecado, chame de mal à sua situação de pecaminosidade, arrependa-se e volte ao Senhor pela luta sincera e firme para mudar sua situação de pecado! Leia Is 5,20-24 e Eclo 15,11-20/21. Não é por acaso nem de pouca importância que a primeira palavra do Senhor Jesus Cristo ao anunciar o Evangelho é o seríssimo chamado à conversão (cf. Mc 1,14s). Também não é à toa que o Senhor nos previne gravemente: “Eu vos digo: se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo!” (cf. Lc 13,5). Lembre: a conversão é um processo que dura toda a nossa vida: trata-se de deixar-se a si próprio e voltar-se para o Senhor, trata-se de sair do centro e colocar o Senhor no centro da própria existência, trata-se de ver, compreender, sentir, falar e agir segundo Cristo e não segundo os próprios critérios! Leia Rm 1,18-32 e Ef 4,17-24. Reze o Sl 32/31.

3. Mais um aspecto importante! Esta necessidade de constante conversão valia para o antigo Povo de Deus e foi sempre recordada pelos profetas de Israel. O mesmo vale para cada um de nós, para mim, para você, ainda hoje. Mas, é necessário afirmar claramente que o mesmo vale para a Igreja, Novo Israel. E aqui, é necessária uma explicação bem clara!
Sendo Corpo de Cristo imolado e ressuscitado e Templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 12,12s; Ef 4,14-16), a Igreja é indefectivelmente santa (cf. 1Pd 2,9s)! Ela não é santa e pecadora, mas somente santa, pois é habitação do Espírito Santo do Cristo! Ela, em si mesma, jamais será infiel e a Aliança nova e eterna jamais perecerá, pois é Aliança em Cristo, no Corpo de Cristo entregue na Cruz e glorificado na Ressurreição (cf. Ef 2,13-16). Porém, nos seus filhos, pastores e fieis, a Igreja experimenta o mistério do pecado, chegando a sofrer gravemente, sobretudo nos tempos como os atuais, de frieza na fé, arrefecimento na piedade, falta de visão sobrenatural e mundanismo. Ainda que o Senhor a ame e lhe continue fiel, “pois não pode renegar-Se a Si mesmo” (2Tm 2,13), no entanto, as consequências virão sempre: apostasia, perdição, empecilhos à ação evangelizadora, blasfêmia contra o Nome santíssimo de Deus e do Seu Cristo... E tudo isto, um dia será gravemente cobrado (cf. Mt 13,41; 18,7; Lc 17,1-3; ) Daqui, o dever sagrado de viver retamente e testemunhar com santa coerência o Evangelho da graça (cf. Tt 2,11-14)! Não se trata de procurar aplauso ou aprovação do mundo, dos meios de comunicação ou dos inimigos do Evangelho, mas de seguir o ensinamento do Senhor. Leia Mt 5,13-16 e 1Pd 2,11-17. 
Pense nestas coisas... Pense nas situações e fatos da Igreja de hoje, da sua Diocese, sua paróquia, da sua comunidade, sua família; pense nos fatos da sua vida... Leia Ez 36,19-21. Reze o Sl 46/45.

4. Há ainda um tema importante nesta bênção de Tobit: Jerusalém, a Cidade santa (cf. vv. 9-17)! O “shalem” do nome da Cidade foi associado ao “shalom” e muitos interpretam o nome de Jerusalém como sendo visão de “shalom”, visão de paz, isto é, um sonho, um ideal, uma promessa da paz de Deus no meio de Israel e da humanidade, um caminho para aquela paz prometida pelo Senhor Deus ao Seu Povo e a toda a todas os povos da terra (cf. Sl 122/121,6-9)! Sendo assim, Jerusalém seria a concretização simbólica de toda bênção, de toda graça do Senhor para o Seu Povo santo e a humanidade, a realização de todas as promessas do Eterno.
No Antigo Testamento, ela é considerada a cidade de Melquisedec, o Rei da Paz (cf. Gn 14,18), portanto a cidade do “sacerdote do Deus Altíssimo”, imagem do próprio Filho de Deus (cf. Hb 7,1-2). Nos primeiros tempos de Israel em Canaã, era uma pequena fortaleza dos jebuseus, situada no Monte Sião, e foi conquistada por Davi, que fez dela a sua capital (cf. 2Sm 5,6ss). Originariamente, ocupando o Monte Sião, estendeu-se também até o Monte Moriá, onde Abraão, séculos antes, oferecera o sacrifício do filho Isaac a Deus. Também isto imagem do próprio Cristo no Seu Sacrifício e na Sua Ressurreição (cf. Hb 11,17-19). Aí, foi construído o Templo de Salomão (cf. 2Cr 3,1). Pense, meu caro Irmão, que simbologia bela: nos sacrifícios oferecidos no Templo estaria sempre implicado o sacrifício de Isaac, imagem do sacrifício verdadeiro, perene e santo: o Sacrifício redentor do Cristo Jesus, o Filho amado, perfeição e cumprimento de todos os sacrifícios! Leia Hb 10,1-10.
No Templo estava a Arca de Deus, a Arca da Aliança. Na verdade, ela era o coração do Templo, expressão da presença constante e fiel de Deus no meio do Seu Povo. Assim, Jerusalém tornara-se a Cidade da Arca e do Templo de Deus (cf. 1Rs 6 – 8), coração espiritual de todo o Povo Santo, habitação do Nome do Senhor (cf. 2Rs 23,26S; Sl 78/77,68s; 132/131,13-18; Sl 46/45; 48/47). Jerusalém foi se tornando imagem e personificação de todo o Povo de Israel. Dizer Israel, Sião e Jerusalém muitas vezes significa dizer a mesma coisa. Como Israel, ela é herança do Senhor (cf. Sl 79/78). Como Israel, a Cidade Santa prostituiu-se (cf. Is 1,21) e por isso, foi destruída (cf. Jr 7,14; Ez 11,1-12; 23; 24,1-14) em 587 aC e seus filhos levados para o Exílio na Babilônia para voltar a reconhecer o Senhor, convertendo-se novamente ao seu divino Esposo. Leia Os 2,4-22 e reze Lm 1 – 2.
Então, convertida, Jerusalém, como um sonho lindo de Deus, seria de modo perfeito Cidade da Justiça, seria fiel ao seu Deus (cf. Is 1,26ss) e Israel voltaria a adorar nela (Jr 31,6.12); nela Senhor estaria para sempre (Ez 48,35) e ela, como noiva desposada novamente (Is 54,4-10), vestiria novamente vestes festivas para o seu Senhor (Is 51,15 – 52,2). Desposada numa aliança de amor com o Senhor, a Cidade Santa veria seus filhos se multiplicaram (Is 54,1ss; 49,14-26) e tornar-se-ia, para a glória do seu Deus o centro religioso do universo (Ag 2,6-9; Is 60; 62). Numa visão que, sem dúvida, cumpre as promessas a Abraão de ser bênção para todos os povos (cf. Gn 12,1ss), Jerusalém seria mãe de todas as nações (Sl 87/86) e dela sairia um novo Povo (Is 66,6-14). Por fim, cumprindo seu último destino e finalidade, Jerusalém tornar-se-ia o lugar do julgamento final de todos os povos (Jl 4,9-17) e do Banquete do fim dos tempos, no qual o Senhor Deus encherá de vida plena toda a humanidade, consumando a obra da Sua salvação (Zc 12; 14)! Tudo isto é Jerusalém: mais que uma cidade, mais que pedra talhada, trata-se de uma promessa, um desejo, um sonho, uma certeza, uma esperança no Deus de Israel!
Compare as palavras do Senhor a Abraão com as palavras de Tobit a Jerusalém: Gn 12,3a: “Abençoarei os que te abençoarem, amaldiçoarei os que te amaldiçoarem” = Tb 13,12s. Gn 12,3b: “Por ti serão benditos todos os clãs da terra” = Tb 13,11.

5. Atualmente, para os judeus piedosos, ela é a Cidade sagrada, de cujo pó Adão, o primeiro homem fora plasmado. Além do sacrifício de Abraão, os rabinos judeus ensinam que fora no Monte do Templo que Jacó dormira e teve o sonho com a escada que ligava a terra ao Céu. Para o judaísmo, Jerusalém fora formada no início da criação do mundo e é o coração do universo. A Cidade tinha qualidades milagrosas, de modo que sua área parecia expandir-se para acomodar todos aqueles que entravam pelas suas doze portas. Os judeus recitam suas orações voltados para Jerusalém e acreditam que é de lá, a partir dela, que toda oração sobre aos Céus, pois ela é portão de entrada da Morada do Altíssimo. Para Jerusalém se sobe sempre porque ela é o lugar mais elevado espiritualmente. No tempo do Messias – que os judeus ainda esperam –, Jerusalém será reconstruída com fogo divino, quando descer a perfeita e completa Jerusalém celeste, modelo da terrena. Esta Jerusalém que descerá dos Céus é objeto de ardente esperança de Israel!
Tudo isto está expresso, de certo modo neste cântico de Tobit.

6. Para nós, cristãos, todos estes desejos, esperanças, promessas e sonhos, realizam-se na nova, definitiva e verdadeira Jerusalém, que é a Igreja do Cristo, o Messias de Deus (cf. Gl 4,26s). A Igreja, novo e definitivo Israel, formado de todos os povos, é a Cidade Santa, a Jerusalém definitiva, Esposa do Cordeiro (cf. Ap 21,9), alicerçada sobre os Apóstolos de Cristo (cf. Ap 21,14). Esta Jerusalém é católica, acolhedora constantemente de todos os povos, com suas portas abertas em todas as direções (cf. Ap 21,12s). Ainda peregrina na terra, ela caminha para a plenitude da Glória e será para sempre iluminada pelo Cordeiro, regada pelo rio de água viva, que é o Espírito, e habitação da Glória de Deus, Tenda de Deus entre os homens, realização plena da humanidade. Leia, rezando, Ap 21,1 – 22,15. Reze o Sl 121/122.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Retiro Quaresmal 2020/32 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Quinta-feira da V semana da Quaresma
Meditação XXXI: A certeza de chegar

Reze o Salmo 119/118,65-72
Leia e reze ainda, como lectio divina, Tb 13.

1. Comecemos esta meditação com uma observação. Veja como no v. 4, Tobit afirma: “Exaltai-O na presença dos seres vivos, pois Ele é nosso Senhor, Ele é nosso Deus, Ele é nosso Pai...” No Antigo Testamento, é muito raro que se chame a Deus de Pai. Certamente você já ouviu dizer que é próprio, é original do Senhor Jesus Cristo chamar a Deus de “Abbá”, Pai.
Com efeito, há uma diferença enorme entre o modo de o Antigo Testamento referir-se ao Eterno como “pai” e o modo de Cristo. Nas Escrituras e orações dos judeus, o Senhor nunca é chamado de “meu Pai”, mas sempre “nosso Pai”, Pai de todo o Povo de Israel. E, aqui, é Pai porque plasmou Israel com Abraão, Isaac e Jacó, gerou o Seu Povo ao tirá-lo do Egito, educou com o a Lei, guiou-o pelo deserto, orientou-o e corrigiu-o pelos profetas, apascentou-o através da Casa de Davi. Leia Dt 32,6-12. É importante saber também que os judeus não apreciam muito chamar a Deus de “pai”, pois isto pode dar ideia de uma familiaridade inconveniente em relação ao Deus Santo!
Com o Cristo Jesus, o sentido muda, aprofundando-se enormemente. Primeiramente, Cristo nunca usa a expressão “Pai nosso”. Deus é o “Meu Pai”, de um modo único, misterioso e irrepetível. É muito forte a expressão do Ressuscitado: “Meu Pai e vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). O Senhor Jesus Cristo usa a palavre Abbápara exprimir uma relação única, irrepetível, original, particular com o Deus Santo de Israel. Ele é O Filho, O Filho Amado, o Filho Único! (cf. Mt 3,17; 21,37s) Quando o Senhor Jesus ensina aos Seus a oração própria do discípulo, afirma: “Quando orardes, dizei: Pai nosso...” (Lc 11,2). Observe bem: quando vós orardes. Ele Se exclui, porque é Filho num sentido único e, portanto, Deus é Seu Pai de modo absolutamente singular! Ele é Filho porque o é eternamente, “antes que o mundo existisse” (Jo 17,5). Ele é igual ao Pai, conhece o Pai, vem do Pai, é do Alto (cf. Jo 9,23). O Pai é Seu Pai porque O gera eternamente. Leia Hb 1,1-14. Por isso, somente Ele pode revelar o verdadeiro Nome do Deus de Israel: “Pai, manifestei o Teu Nome (nome de Pai) aos homens” (Jo 17,6).
Então, enquanto para os judeus “pai”, aplicado ao Senhor Deus, é apenas mais um dos títulos do Eterno, para o Senhor Jesus, “Abbá” é a expressão que determina e exprime de modo pleno a relação entre Ele e o Deus de Israel: “Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11,27); “Eu estou no Pai e o Pai está em Mim!” (Jo 14,10) Meditando, pensando com o coração sobre tudo isto, reze o Sl 2. Os cristãos sempre rezaram este salmo pensando em Jesus nosso Senhor: Ele é o Messias, o Ungido a Quem o Pai tudo entregou. Todo o Seu poderio é de Filho, é para proclamar a glória amorosa e o poder do Pai que Lhe disse eternamente: “Tu és Meu Filho, eu hoje Te gerei!” (Lc 3,33; cf. Mc 1,11; Mt 3,17)

2. Esta relação única do Salvador com o Pai, Jesus compartilha conosco após a Ressurreição. Uma vez vitorioso sobre a morte, Ele nos chama irmãos: “Ide anunciar aos Meus irmãos...” (Mt 28,10). É a primeira vez que Ele fazia isto! Mas, não se trata apenas de uma palavra. Aqui se exprime uma realidade muito mais profunda: tendo sido ressuscitado pelo Pai no Espírito dado em plenitude (cf. Rm 1,4), o Filho agora, derrama sobre os Seus, pelo Batismo, o Seu Espírito de Filho (cf. Jo 3,5), de modo que, com Cristo, por Cristo e em Cristo, somos tornados filhos no Filho Jesus! Leia 1Jo 3,1; Rm 8,14-17; Gl 4,4. Sendo assim, tornamo-nos filhos de Deus verdadeiramente quando cremos e somos batizados no Nome de Jesus, recebendo o Seu Espírito de Filho, que nos faz filhos. Aí, então, podemos rezar o Pai-nosso, ousando chamar de “Pai” o nosso Deus! Atenção a isto: se é verdade que qualquer pessoa pode dizer que Deus é seu pai no modo como os judeus O consideram – criador, provedor, sustentador, defensor –, somente os cristãos, batizados no Espírito do Filho, podem chamar o Senhor Deus de Pai no sentido pleno e único que o Senhor Jesus Cristo chamava! O único modo de receber tal filiação é pelo Sacramento do Batismo, que nos mergulha no Espírito do Filho!
Então, somos filhos porque temos o Espírito Santo do Filho, pois, no Batismo, nascemos de uma “Semente incorruptível” (1Pd 1,23). Nascidos “por natureza, como os demais, filhos da ira” (Ef 2,3), fomos “re-generados”, gerados de novo para a Vida eterna, Vida no Espírito do Filho, Vida divina dos filhos de Deus (cf. 1Pd 1,3s), Vida recebida no Batismo, fortalecida e amadurecida na Crisma e alimentada sempre de novo na Eucaristia. Esta filiação bendita e santa nos coloca, já nesta vida terrena, no seio da Trindade Santa: crendo no Filho, somos batizados no Seu Espírito e, tornando-nos habitação desse Espírito filial, somos inseridos no Corpo do Filho, que é a Igreja e, nesse Corpo, peregrino na terra e glorioso no Céu, temos acesso ao Pai de Jesus e, por Ele com Ele e Nele, podemos verdadeiramente clamar “Abbá” neste mundo e, plenamente, no mundo que há de vir! Neste sentido, veja com muita atenção a afirmação de São Paulo aos Gálatas: leia 4,4-7. Observe como o Apóstolo resume toda a história da salvação e coloca como finalidade última de todo a plano de Deus, dar aos homens a filiação adotiva em Cristo!
Ainda uma observação: a expressão “filiação adotiva” precisa ser bem compreendida! É preciso aqui levar em conta a mentalidade judaica. Filiação adotiva não quer dizer filiação de qualidade menor, mas, ao contrário, filiação real, efetiva, eficaz, transformadora. Em Israel, quando um homem adotava alguém como filho, reconhecendo-o, este tinha todos os direitos, tinha a vida do próprio pai. A ênfase, aqui, está exatamente neste aspecto: somos filhos, e o somos realmente (cf. 1Jo 3,1), de modo que somos co-herdeiros com Cristo e herdeiros da Glória do mundo que há de vir (cf. Rm 8,15s; 1Jo 3,2).

3. Voltemos, agora, ao Israel na Diáspora, o Israel do Antigo Testamento e à Igreja do Novo Testamento. Lembre sempre que “testamento” significa “aliança”.
Leia os vv.5s.9s. Vimos, na meditação passada, o sentido espiritual de viver na Diáspora, no Exílio. Para o Israel do Antigo Testamento, estar longe da Terra Santa, distante de Jerusalém, afastado do Templo, era uma dor enorme. Permanecia sempre vivo o desejo e a esperança de voltar. O Povo de Deus da Antiga Aliança, tem consciência de que as promessas de Deus ainda não se realizaram plenamente: os judeus ainda estão em Diáspora, Jerusalém ainda não vive o shalom que seu nome significa (Yeru-shalem), o Templo não foi reconstruído e, sobre o Altar do Senhor, os sacrifícios da Lei de Moisés não foram retomados... Israel vive de esperança, caminha rumo à realização das promessas do Eterno. Todos os anos, na Páscoa judaica, ainda atualmente, o rito termina com uma palavra de desejo e esperança: “Tem piedade, Senhor nosso Deus, de Israel, Teu Povo, e de Jerusalém, Tua Cidade, e de Sião, a sede de Tua Glória, e do Teu Altar e do Teu Templo. Reconstrói Jerusalém, a Cidade Santa, rapidamente em nossos dias...” Finalmente, a ceia pascal é concluída com as palavras: “No próximo ano, em Jerusalém!” A Terra de Israel, lugar da bênção, do louvor a Deus, lugar do repouso no Senhor, continua sendo o desejo de todo judeu piedoso. Reze o Sl 137/136. Observe bem, neste salmo, a saudade de Sião, o monte sobre o qual Jerusalém começou, presente no coração do salmista. Os israelitas esperavam e esperam ainda que, um dia, no dia final, todo Israel será reunido em Jerusalém, a Cidade Santa.

4. Pois bem, esta mesma mística passou para os cristãos! Sabemos que as promessas a Israel alcançaram o seu cumprimento em Cristo nosso Senhor. Leia 2Cor 1,19s. Ele é e será sempre o “Amém” do Pai para nós! Leia Ap 3,14. Mas, o cumprimento que foi iniciado com a piedosa vinda do Salvador na nossa carne, somente no final dos tempos, quando Cristo nossa Vida aparecer em Glória (cf. Cl 3,4), será levado à consumação. Assim, também nós, Novo Povo de Deus, Povo da Nova e Eterna Aliança, também esperamos; ainda não vemos o que esperamos (cf. Rm 8,24s), ainda vivemos de fé (cf. 2Cor 5,7; Hb 11,1). O lobo e o cordeiro ainda não moram juntos (cf. Is 11,6), as lanças de guerra ainda não foram transformadas em relhas de arado (cf. Is 2,4), ainda há males e danos no coração da humanidade e a terra ainda não está repleta da ciência do Senhor (cf. Is 11,9). Pelo contrário, os homens continuam a fechar-se para Deus e o Seu Cristo (cf. Sl 2,1-3). Por isso, os cristãos gemem em dores de parto (cf. Rm 8,22-25; Ap 12,2) e rezam, no Céu e na terra: “Até quando, ó Senhor Santo e Verdadeiro, tardarás a fazer justiça, vingando o nosso sangue contra os habitantes da terra?” (Ap 6,10). Até que tudo se cumpra, “vivemos no exílio, longe do Senhor” (2Cor 5,6) e clamamos: “Maranatha! Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,17.20). Nunca esqueçamos, nunca descuidemos: a nossa certeza deve ser maior que a de Israel, pois sabemos que o Cordeiro que foi imolado venceu e tem nas Suas mãos o Livro da história do mundo e da nossa história (cf. Ap 5,6-10). Em cada Eucaristia, Páscoa da Nova Aliança, celebramos e experimentamos esta vitória que Cristo nos obteve e que ainda se manifestará em plena Glória (cf. Hb 2,8; 1Cor 15,25-28).

5. Pense um pouco: Você tem consciência de que os acontecimentos da história humana e da sua história correm para o Cristo, Princípio e Fim de tudo, como as águas do rio correm para o mar? Você sabe colocar nas mãos do Senhor todos os acontecimentos da vida? Como você reage ao que acontece à sua volta: com desdém, com desespero, com ansiedade ou, ao invés, procurando compreender as coisas à luz de Cristo e da Sua salvação? Nunca esqueça: tudo é dirigido por um desígnio de amor: o amor do Pai pelo Filho no Santo Espírito! Leia como dirigidas a você as palavras do Ap 5,1-5.


quarta-feira, 1 de abril de 2020

Retiro Quaresmal 2020/31 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Quarta-feira da V semana da Quaresma
Meditação XXX: Um Reino pelos séculos dos séculos

Reze o Salmo 119/118,57-64
Leia e reze ainda, como lectio divina, Tb 13.

1. Ainda no rastro da última meditação: Se Deus é Rei, se o Senhor nosso Jesus Cristo, com Sua Pessoa, Sua missão, Sua Páscoa de dor e glória, trouxe o Reinado de Deus a este mundo na força potente do Espírito, então, aquele que se abre para acolher esse Reino bendito, nunca teme, nunca se desespera. Isto não quer dizer que o cristão está isento das dores e reveses da vida. Não! “Não peço que os tires do mundo” (Jo 17,15) - disse Jesus! Mas, abrindo-nos ao Reino, tendo o Reino no nosso coração, seremos guardados do Maligno, como o Salvador pediu para nós. E são do Maligno, do Príncipe deste mundo, toda descrença, todo desespero, toda amargura, toda autossuficiência, todo fechamento para a presença de Deus e Sua ação neste mundo. Então: nunca temamos, nunca percamos a esperança: “há um Deus nos Céus” (Dn 2,28), “há um Trono e, no Trono, Alguém sentado” (Ap 4,2), há um Cordeiro imolado que venceu e está de pé (cf. Ap 5,6) com um livro que traz em suas páginas todos os acontecimentos, sorrisos e prantos da nossa história (cf. Ap 5,6-10)! Deus reina! Tudo está nas benditas mãos do Senhor! Nem mesmo a Morte e o Abismo escapam das Suas mãos (cf. Ap 1,17b-18): “É Ele quem castiga e tem piedade, faz descer às profundezas dos infernos e retira da grande Perdição: nada escapa da Sua mão!” (Tb 13,2)Deixemos o Reino entrar na nossa vida e impregnar a nossa existência! Teremos, então, um modo diferente, divino, de viver, de ver, de agir e reagir! Aí, então, o Reino de Deus em nós – Reino do Pai e do Filho e do Espírito Santo: Reino do Pai pelo Filho no Espírito Santo! – será também Reino nosso, que somos os Santos de Deus! Sim! O Reino de Deus será o nosso reinado quando nos deixarmos tomar totalmente pelo Deus uno e trino reinando em nós: será o Reino dos Santos de Deus! (cf. Dn 7,18.22; 1Pd 2,5.9)

2. Abertos ao Reino, neste mundo seremos uma alternativa: não ideológica, não sociológica, não técnica, não segundo as coordenadas mundanas, mas na perspectiva de Deus: seremos sal num mundo insípido e sem verdadeira esperança, seremos luz nas trevas de um mundo fechado em si mesmo, na sua prepotência, na sua autossuficiência. Não teremos soluções técnicas para o mundo, não ficaremos nos metendo em todos os assuntos seculares, dando em tudo nossa opinião, como se este fosse o nosso serviço e o nosso dever, como se tivéssemos as soluções, mas teremos sim, aquela atitude, aquela palavra, aquela doçura, aquela humildade, aquele recato que vêm de Deus e iluminam e portam paz! Leia Mt 5,13-16. Leia também, rezando, Is 60,1-11; Ap 21,9-27.

3. Agora, guiado pelo Espírito, louve e adore o Cordeiro, o Filho eterno do Pai, rezando Ap 5,9-14. Bendito o Reino do Pai e do Filho e do Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre, e por todos os séculos dos séculos. Amém! Bendito seja o Reino do Deus uno e trino! Bendito seja em nós e no mundo, no nosso coração e no coração do mundo! Amém!

4. Releia, agora, os vv. 3-4. Tobit recorda Israel espalhado pelo mundo, na Diápora... Em 722 aC, as tribos do antigo Reino de Israel, ao norte da Terra Santa, foram levadas embora pelos assírios e espalhadas pelo seu império... Tobit e sua família estavam entre os desterrados. Depois, em 587 aC, foi a vez do Reino de Judá, ao sul: os babilônios deportaram os judaítas. Desde esta época, a maioria dos filhos de Israel vive, até os nossos dias, espalhada pelo mundo, distante da Terra Santa, distante de Jerusalém, distante do Templo. Por que o Senhor permitiu a Diáspora do Seu Povo? Releia Tb 13,3s. Israel não existe para si, não vive para si! A tragédia da sua Diáspora, quando perdeu tudo, misteriosamente, seria também uma bênção para a humanidade: os judeus dariam testemunho do verdadeiro Deus entre as nações; entre os povos, rezariam pela humanidade. Como é misteriosa a providência divina! Como Deus sabe tirar do mal o bem e fazer na maior escuridão brilhar a luz (cf. Sl 139/138,11-12)! Leia ainda Tb 13,7s.

5. Agora, leia At 8,1-4. Veja como os cristãos, duramente perseguidos em Jerusalém, fugiram entre dores e lágrimas. Quanta dor, quantas perguntas, quanto sofrimento, quantas famílias tendo que fugir, quantas pessoas fisicamente agredidas e até mortas... Os discípulos de Cristo Senhor, nesta perseguição, foram obrigados a se espalhar pelas várias regiões e, espalhando-se, levaram o Evangelho e testemunharam Jesus nosso Senhor. Assim, da dolorosa e absurda perseguição, nasceu a Igreja mais fecunda e dinâmica da antiguidade: a de Antioquia. Leia At 11,19-26. Dali sairiam Barnabé e Paulo para a missão! É impressionante! Deus não muda! Ele guia os acontecimentos!
Pense na sua vida! Você sabe realmente confiar no Senhor? Sabe esperar Nele? Confia que Ele tem tudo nas Suas mãos benditas? Nas situações de incerteza, dor e escuridão, você sabe bendizer a Deus, sabe ser testemunha do Seu amor?

6. Vamos adiante... Nós, a Igreja, somos os Novo Israel, o “Israel de Deus” (Gl 6,16). Somos hoje, como Igreja, o que Tobit diz de Israel: dispersos no meio das nações. Leia 1Pd 1,1s. Neste mundo, somos estrangeiros da Dispersão: “Igreja dispersa pelo mundo inteiro” – era assim que dizia de modo belo o Missal Romano na sua versão interior a esta, atual! Estamos no mundo, caminhamos com a humanidade, compartilhando so bons e maus momentos, as alegrias, tristezas, desafios e esperanças. Mas, somos um Povo diferente: sabemos que estamos a caminho, que, neste mundo, somos estrangeiros; nossa Pátria verdadeira, perene e definitiva, é o Céu, na plenitude do Reino. Leia Hb 13,14 e 2Cor 5,6-7. Neste mundo, “diante das nações”, dispersos entre elas (cf. v. 3), devemos ser um Povo de testemunhas (cf. v. 4) e um Povo sacerdotal, que louva e adora a Deus em nome das nações pagãs e testemunha diante delas o Nome do Senhor (cf. vv. 4.11), sendo sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13-16), sendo o bom fermento do Reino que leveda toda a imensa massa da humanidade (cf. Mt 13, 33). Mas, atenção: somente seremos tudo isto se nossas raízes estiverem em Cristo, se nossa certeza provir Dele, se nosso anúncio for sobre Ele, se a contribuição que dermos ao mundo for nada mais nada menos que o próprio Jesus nosso Senhor! Devemos vencer a tentação de ser um Povo que procura agradar ao mundo; devemos vencer a tendência atual de sermos simpáticos, úteis, bonzinhos, modernos. É Cristo o nosso compromisso, é Cristo a nossa identidade, é Cristo a Quem servimos, é Cristo que temos para dar ao mundo como Salvação, Luz e Vida! (cf. 1Cor 3,11) Nosso dever é enorme, nossa missão é tremenda! Mas, não temamos, porque o Senhor está conosco: no meio dos candelabros, que são as Igrejas diocesanas com seus anjos, os Bispos, (cf. Ap 1,12s.20) caminha o Senhor, Cordeiro imolado e ressuscitado, vencedor do pecado e da Morte (cf. Ap 5,6; 1,17s)! Reze o Sl 46/45