sábado, 16 de março de 2019

Homilia para o II Domingo da Quaresma - ano c

Gn 15,5-12.17-18
Sl 26
Fl 3,17 – 4,1
Lc 9,28b-36

Antes de tudo, duas observações:

(1) A Palavra de Deus, neste Domingo, apresenta-nos um contraste muito forte entre escuridão e luz: escuridão da noite do Pai Abraão e luz do Cristo transfigurado;

(2) Chama atenção, num tempo tão austero como a Quaresma um evangelho tão esfuziante como o da Transfiguração.
Não cairia melhor na Páscoa, este texto? Por que a Igreja o coloca aqui, no início do tempo quaresmal?

Comecemos pela primeira leitura. Aí, Abraão nos é apresentado numa profunda crise; Deus tinha lhe prometido uma descendência e uma terra e, quase vinte e cinco anos após sua saída de sua pátria e de sua família, o Senhor ainda não lhe dera nada, absolutamente nada! Numa noite escura, noite da alma, Abraão, não mais se conteve e perguntou: “Meu Senhor Deus, que me darás?” (Gn 15,2) Deus, então, “conduziu Abrão para fora e disse-lhe: ‘Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! Assim será a tua descendência!”
Deus tira Abraão do seu mundozinho, de seu modo de ver estreito, da sua angústia, e convida-o a ver e sentir com os olhos e o coração do próprio Deus. “Abrão teve fé no Senhor”. Abraão esperou contra toda esperança, creu contra toda probabilidade, apostando tudo no Senhor, apoiando Nele todo seu futuro, todo o sentido de sua existência! Abraão creu! Por isso Deus o considerou Seu amigo, “considerou isso como justiça!” E, como recompensa Deus selou uma aliança com nosso Pai na fé: “'Traze-Me uma novilha, uma cabra, um carneiro, além de uma rola e uma pombinha’. Abrão trouxe tudo e dividiu os animais ao meio. Aves de rapina se precipitaram sobre os cadáveres, mas Abrão as enxotou. Quando o sol ia se pondo, caiu um sono profundo sobre Abrão e ele foi tomado de grande e misterioso terror”.
Abrão entra em crise: no meio da noite – noite cronológica, atmosférica; noite no coração de Abrão – no meio da noite, as aves de rapina ameaçam, e o sono provocado pelo desânimo e a tristeza, rondam nosso Pai na fé... Deus demora, Deus parece ausente, Deus parece brincar com Abraão! Tudo é noite, como muitas vezes na nossa vida e na vida do mundo! Mas, ele persevera, vigia, luta contra as aves rapineiras e o torpor... E, no meio da noite e da desolação, Deus passa, como uma tocha luminosa:“quando o sol se pôs e escureceu, apareceu um braseiro fumegante e uma tocha de fogo... Naquele dia, o Senhor fez aliança com Abrão”.
Observemos o mistério: Deus passou, iluminou a noite; a noite fez-se dia: “Naquele dia, Deus fez aliança com Abrão!” Abraão, nosso Pai, esperou, creu, combateu, vigiou e a escuridão fez-se luz, profecia da luz que é Cristo, cumprimento da aliança prometido pelo Senhor! “O Senhor é minha luz e salvação; de quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida; perante quem tremerei?” Eis o cumprimento da Aliança com Abraão: Cristo, que é luz, Cristo que hoje aparece transfigurado sobre o Tabor!

Fixemos a atenção no Evangelho, sejamos atentos aos detalhes: Jesus estava rezando – “subiu à montanha para rezar” - e, portanto, aberto para o Pai, disponível, todo orientado para o Senhor Deus: Cristo subiu para encontrar Seu Deus e Pai! E o Pai O transfigura. Sim, o Pai! Recordemos que é a voz do Pai que sai da Nuvem e apresenta Aquele que brilha em luz puríssima: “Este é o meu Filho, o Escolhido!” E a Nuvem que O envolve é sinal do Espírito de Deus, aquela mesma glória de Deus que desceu sobre a Montanha do Sinai (cf. Ex Ex 19,16), sobre a Tenda de Reunião no deserto (cf. Ex 40,34-38), sobre o Templo, quando foi consagrado (cf. 1Rs 8,10-13) e sobre Maria, a Virgem (cf. Lc 1,35). É no Espírito Santo que o Pai transfigura o Filho! Na voz, temos o Pai; no Transfigurado, o Filho; na Nuvem luminosa, o Espírito! E aparecem Moisés e Elias, simbolizando a Lei e os Profetas.
Aqui, não nos percamos em loucas divagações e ignóbeis conclusões, como os espiritualistas e esotéricos, que de modo louco, querem provar com este texto que os mortos se comunicam com os vivos!
Trata-se, aqui, de uma visão sobrenatural, não de uma aparição fantasmagórica e natural! Moisés e Elias, que “estavam conversando com Jesus... sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém”. Aqui é preciso compreender! Um pouco antes – Lucas diz que oito dias antes (cf. 9,28) – Jesus tinha avisado que iria sofrer muito e morrer; os discípulos não compreendiam tal linguagem! Agora, sobre o monte, eles veem que a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) davam testemunho da Morte de Jesus, de Sua Páscoa! Sua Paixão e Morte vão conduzi-Lo à glória da Ressurreição, glória que Jesus revela agora, de modo maravilhoso! Assim, a fé dos discípulos, que dormiam como Abraão, é fortalecida, como o foi a de Abraão, ao passar a glória do Senhor na tocha de fogo! A verdadeira tocha, a verdadeira luz que ilumina nossas noites sombrias e nossas dúvidas tão persistentes é Jesus!

Mas, por que este Evangelho logo no início da Quaresma? Precisamente porque estamos caminhando para a Páscoa: a deste ano e a da Eternidade. Atravessando a noite desta vida e o combate quaresmal, estamos em tempo de oração, vigilância e penitência! A Igreja, como Mãe, carinhosa e sábia, nos anima, revelando-nos qual o nosso objetivo, qual a nossa meta, o nosso destino: trazer em nós a imagem viva do Cristo ressuscitado, transfigurado pelo Espírito Santo do Pai. Escutemos São Paulo: “Nós somos cidadãos do céu. De lá esperamos o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao Seu corpo glorioso. Assim, meus irmãos, continuai firmes no Senhor!”
Compreendem? Se mantivermos o olhar firme naquilo que nos aguarda – a Glória de Cristo –, teremos força para atravessar a noite desta vida e o combate da Quaresma. Somos convidados à perseverança de Abraão, ao seu combate na noite, à vigilância e à esperança, somos convidados a não sermos “inimigos da Cruz de Cristo, que só pensam nas coisas terrenas”, somos convidados a viver de fé, a combater na fé! Este é o combate da Quaresma, este é o combate da vida: passar da imagem do homem velho, com seus velhos raciocínios e sentimentos, ao homem novo, imagem do Cristo glorioso! Se formos fieis, poderemos celebrar a Páscoa deste ano mais assemelhados ao Cristo transfigurado pela Glória da Ressurreição e, um dia, seremos totalmente transfigurados à imagem bendita do Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina na Glória imperecível. Amém!


Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação IX - Sábado da I semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,65-72
Agora leia Gl 3,1-5

1. Impressiona o modo como Paulo reprova os gálatas: “Insensatos!” Por que insensatos? Porque se deixaram fascinar, seduzir por pessoas que, chegando com novidades doutrinais, com doutrinas estranhas, facilmente afastaram os cristãos da Galácia da verdade do Evangelho. Ainda hoje vemos isto de modo tão repetido: qualquer um que passe pelas portas alheias, ensinando doutrinas exóticas, falsas, novidadeiras, fundamentalistas ou prometendo milagres, benefícios materiais e curas em programas pagos de televisão, arrasta um sem número de insensatos!
Sim, merecem bem este adjetivo “insensatos” porque são daqueles que “não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, segundo seus próprios desejos, como que sentindo comichão nos ouvidos, se rodearão de mestres. Desviarão os ouvidos da verdade, orientando-os para as fábulas” (2Tm 4,3-4).
E você, procura realmente aprofundar seu conhecimento da fé católica e apostólica? Sabe fundamentar com firmeza a fé católica nas Escrituras Santas, nos Santos Padres da Igreja antiga e no Catecismo da Igreja? Sabe se manter firme na doutrina perene da Igreja ou corre atrás de teólogos e mestres novidadeiros, que se afastam e afastam outros da perene e exigente verdade de Cristo com a desculpa de diálogo com o mundo, compreensão e caridade e outras armadilhas vazias? Cuidado: “Vede cuidadosamente como andais: não como tolos, mas como sábios, tirando bom proveito do período presente, porque os dias são maus. Por isso, não sejais insensatos, mas procurai conhecer a vontade do Senhor!” (Ef 5,15-17).

2. São Paulo, com zelo, delineou aos gálatas os traços de Jesus Cristo crucificado: Sua Morte e Ressurreição pelos judeus e pelos gentios, incluindo os gálatas, é o centro da fé e da esperança dos cristãos: Ele, livre e amorosamente, se entregou pela humanidade, se entregou por nós até a morte e morte de Cruz (cf. Fl 2,8).
Leia com calma e piedade estes textos: 1Cor 15,1-8; 2Cor 5,14-21; Ef 2,11-22
Jesus nosso Senhor, com Sua Paixão, Morte e Ressurreição salvou a humanidade inteira! Ele é o sim de Deus ao homem (cf. 2Cor 1,19-20; Ap 3,14) e, feito homem, tornou-Se o sim do homem a Deus; verdadeiro (cf. 2Cor 1,20), suficiente e único instrumento da nossa salvação!
Leia ainda: 2Tm 2,8-13. Como puderam os gálatas esquecer toda esta grandeza de amor, de misericórdia, de doação gratuita e salvífica do Senhor para, deixando de lado a obra salvadora de Cristo irem se apegar à Lei de Moisés? Por isso a indignação de Paulo; a mesma que ele sentiria vendo cristãos de Bíblia debaixo do braço, apegados de modo fundamentalístico ao Antigo Testamento, deturpar a verdade de Cristo, cujos traços foram-nos delineados pela Igreja nestes dois mil anos de história e evangelização!

3. Para chamar os gálatas à razão, o Apóstolo recorda a experiência do Espírito que eles fizeram logo quando abraçaram o Evangelho, resultado da pregação de Paulo. Fruto imediato da fé em Cristo Jesus é o dom do Espírito, que pode ocorrer de dois modos: o primeiro é a recepção do próprio Espírito de Cristo que passa a habitar no discípulo como Vida do próprio Senhor Jesus Cristo, unindo o cristão ao seu Senhor. Isto se dá ordinariamente com todos os cristãos, sem exceção, nos sacramentos, na água do Batismo e no Sangue da Eucaristia (cf. Jo 3,6s; 6,56-68.63; 19,19,33ss; 1Jo 5,5-13; 1Cor 12,13; 2Cor 1,21s), de modo que o cristão fica enxertado em Cristo como a os ramos à Videira e os membros ao Corpo, numa união vital, dinâmica, real, transformadora com o Senhor (cf. Jo 15,1-8; 1Cor 12,12-13). Mas, pode acontecer também de modo livre, extraordinário, inesperado e carismático em várias experiências visíveis e extáticas provocadas pela presença do Espírito (cf. 1Cor 12-13) com o objetivo de convencer interiormente os discípulos de que Jesus Cristo é o Senhor e proclamá-Lo diante do mundo no Seu senhorio de Ressuscitado e glorificado pelo Pai no Espírito.
Uma pergunta: Você e sua comunidade são abertos à surpreendente ação do Espírito, que suscita continuamente na Igreja dons e carismas, ministérios e talentos para a edificação do Corpo de Cristo que é a Igreja e a glorificação do Senhor? Pense bem: é um pecado grave querer uma Igreja do nosso tamanho, da qual sejamos os donos! Há tantos que caem neste erro, sobretudo pastores da Igreja...

4. Paulo acusa os gálatas de tendo começado com a experiência do Espírito terminarem apegados à carne, isto é, aos preceitos legais do Antigo Testamento... Há muitos que fazem isto: apegam-se ao Antigo Testamento ou de modo fundamentalístico, para ficar falando em imagens, dietas de alimentos impuros, proibição de transfusão de sangue e outras insensatezes... Mas, há também aqueles que ficam presos a uma leitura sócio-política do Antigo Testamento para defender no cristianismo luta política e social e movimentos revolucionários. No fundo, sonham com uma teocracia, só que sem Deus, meramente humana e ideologizada! Tudo isto é volta à carne, é deturpação da Palavra de Deus! No primeiro caso, por ignorância e ingenuidade; no segundo caso por esperteza e desonestidade intelectual e teológica. Mas, há ainda um terceiro modo de começar no Espírito e terminar na carne: é começar a vida cristã inebriados na alegria e na generosidade pelo fervor do Espírito, procurando uma vida santa, de amor ao Senhor e perseverança na oração, nas virtudes, nas boas obras, no amor fraterno, na prática dos sacramentos e, aos poucos, ir se tornando um cristão morno, simplesmente de cumprir o mínimo de suas obrigações, sem entusiasmo nem amor, muitas vezes até sem romper com os pecados e vícios...
Façamos um exame de consciência: vivemos realmente na alegria e doçura e simplicidade do Espírito do Cristo que foi delineado diante de nós com Seus traços de amor imolado e ressuscitado?

5. Nunca esqueçamos que poderemos tornar vã a obra de Deus, inutilizando-a com nosso pecado e infidelidade (cf. v. 4; Ef 4,30). Há pessoas que fazem tão bela e profunda experiência do Espírito, experimentam a presença e ação do Senhor de modo tão intenso em suas vidas e, depois, por falta de generosidade, por preguiça, por condescendência para com os antigos vícios e pecados, terminam por perder tudo isto (cf. Mt 13,18-23). A Escritura tem palavras duras para estes, comparando-os a cães que voltam ao vômito (cf. 2Pd 2,20-22). Não esqueçamos: nenhum de nós tem a salvação e a perseverança assegurada! O Reino de Deus sofre violência em nós (cf. Mt 11,12); é necessário vigiar e lutar pela oração (cf. Mt 26,41), pois somente será salvo quem perseverar até o fim (cf. Mt 24,13)!

6. Finalmente, o Apóstolo desafia os gálatas com uma questão: o Espírito é dado pela Lei de Moisés ou pela fé em Cristo Jesus, como já expliquei logo acima? A Lei previu o tempo da efusão do Espírito (cf. Jr 31,31ss; Ez 37; Jl 3), mas ela mesma não dá o Espírito! Somente o Ungido com o Espírito, o Cristo, pode dar o Espírito em abundância, pois “Aquele que Deus enviou... dá o Espírito sem medida” (Jo 3,34).

7. Medite e reze Jl 3. Reze também o Sl 103/104


sexta-feira, 15 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação VIII - Sexta-feira da I semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,57-64
Agora leia mais uma vez, com atenção, como se fosse a primeira vez, Gl 2,15-21

1. Vamos responder a algumas questões para que fiquem bem claras as ideias de São Paulo. Atenção, que não se trata aqui de um simples estudo, mas de uma leitura orante, de uma contemplação da obra salvífica de Deus em favor de mim, de você e de toda a humanidade! A finalidade deste retiro é fazer-nos rezar, é nos levar a contemplar a maravilhosa obra do amor salvador de Deus! Então:

2. Qual a vantagem de ser judeu?
Os judeus têm todas as vantagens diante de Deus: são membros do Povo amado, do Povo escolhido em Abraão, Povo que recebeu a Lei no Sinai e com o qual o Senhor Deus selou a Aliança. Basta ler estes textos: Is 44,1-5; Is 41,8-2-; Br 3,36 – 4,4; Rm 9,1-5.
Enquanto Israel conhecia o Deus verdadeiro, os pagãos, caminhavam nas trevas da idolatria. Leia Dt 4,32-40; 7,6-11; 1Cr 1626s; Sl 113B/115.

2. A que Lei o judeu estava submetido?
Desde a Aliança no Sinai, o Povo de Israel estava submetido à Lei de Moisés, à Torá, com seus preceitos e suas normas. Da obediência a esta santíssima Lei de Deus e suas obras dependeria a vida e a morte de Israel. Leia Dt 5,32 – 6,9; Ex 24,1-18; Dt 30,15-20.
Nunca esqueça: a Lei que o Senhor Deus dera ao Seu Povo é santa e é boa! Israel nela encontrou sempre o caminho, a força, a inspiração para viver com o seu Deus. Mas, esta Lei é toda baseada, estruturada em preceitos; preceitos e normas que o Povo de Deus violou muitas vezes. Para completar, os rabinos acrescentaram ainda mais preceitos e fardos à Lei originária dada por Moisés. Se fosse olhar a prática de Lei, Israel estaria sujeito à condenação e não à vida!

3. A que Lei o gentio, isto é, o não-judeu, estava submetido?
Também os pagãos, os não-judeus tinham uma lei. Não uma lei escrita e dada explicitamente por Deus, como Israel! Era uma lei de outra natureza: a lei que Deus inscrevera no íntimo da consciência, no coração de todo homem que vem a este mundo. Esta lei dá ao homem de boa vontade uma noção de que existe um Deus bom, que criou tudo com bondade e sabedoria; essa lei nos impele a fazer o bem e evitar o mal, nos convida a sermos bons, retos, solidários. Por exemplo: fazer o bem e evitar o mal; não fazer aos outros o que não quer que nos seja feito, proteger os fracos, buscar a justiça e a verdade, são preceitos colocados por Deus no íntimo de todo ser humano que vem a este mundo... Leia Sb 13,1-9; Eclo 17,1-14.

4. Por que judeus e gentios não se salvam, não são justificados diante do Senhor Deus simplesmente pelas leis a que estão submetidos?
Os judeus falharam no cumprimento da Lei do Senhor: conhecendo o Senhor Deus, tantas vezes caíram na infidelidade, na injustiça, na imoralidade, na ganância, num culto somente exterior, na desconfiança e até mesmo na idolatria.
Os gentios, mesmo sem ter uma lei como a de Moisés, tinham a lei da consciência, inscrita no seu coração. Falharam do mesmo modo: idolatria, injustiça, violência, imoralidade, etc. O homem, por si só, é um fracasso.
Leia com atenção a situação da humanidade, judeus e gentios, tal como descrita por São Paulo: a infidelidade e deficiência grave dos gentios, a promiscuidade, as aberrações, como ainda hoje constatamos, com gritante atualidade! Veja Rm 1,18-32!
Quanto aos judeus, a situação não é melhor! Sendo o Povo escolhido e santo, tendo a luz e orientação da Lei de Deus, esse Povo foi infiel. É mesmo impressionante o número de ateus no atual Povo de Israel e a secularização em que vive a maioria dos judeus! Leia Rm 2,17-29.
E a conclusão do Apóstolo é tremenda. Leia Rm 2,1-16.
Resumo triste: “Todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus!” (Rm 3,23). Em outras palavras: o ser humano somente com suas forças, sua boa intenção e sua bondade, não alcança a salvação, não é justo diante de Deus! O estrago na humanidade é tremendo! O ser humano foi criado bom, mas não é bonzinho e nem merece a salvação. Ponto e basta! Esta é a revelação e a sentença de Deus; e qualquer outra é falsidade, engano e vã esperança! Cuidado com os cristãos que querem justificar o pecado e vivem proclamando que o homem é bonzinho! É mentira! Somente em Cristo somos justificados, Nele crendo e a Ele nos convertendo!
Olhe para você mesmo. Leia Rm 7,14-25. Reze. Reze o Sl 50/51.

5. Quem liberta judeus e gentios do jugo da Lei? Como faz isto?

a) O homem não pode se libertar sozinho do atoleiro do seu pecado. O pecado é uma realidade profunda, que não eliminou a imagem de Deus no homem, mas o danificou seriamente.
Leia Gn 6,5-6: de modo poético e trágico o Autor sagrado mostra o desmantelo do homem e o desgosto de Deus! Nunca esqueça: o pecado não é uma brincadeira. O mundo de hoje – e até muitos cristãos – não levam a sério esta realidade tremenda chamada pecado! O pecado mata o corpo e a alma no inferno, o pecado nos traz a Morte eterna, fazendo-nos perder para sempre a Vida de Deus!

b) Ora, o homem sozinho não pode se libertar desta situação: “Deus amou tanto o mundo que entregou o Seu Filho para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a Vida eterna”, a Vida divina (Jo 3,16). Ao invés das obras da Lei de Moisés, que preparavam para o Cristo, há agora uma obra só: “A obra de Deus é que creiais Naquele que Ele enviou!” (Jo 6,29).
Esta será a luta de São Paulo: explicar aos judeus e aos cristãos vindos do judaísmo que a Lei de Moisés cumprira a sua missão de levar o Povo de Israel a Cristo e que agora é o acolhimento de Jesus como o Cristo do Pai que traz o perdão dos pecados e a salvação! E isto vale para os judeus e os gentios! Com Sua Morte e Ressurreição em amor obediente ao Pai, em nosso nome, o Senhor Jesus eliminou nossa situação de pecado e nos reconciliou com Deus, o Pai, no Espírito!
Leia com atenção Rm 1,21-31. Reze! Louve e agradeça ao Pai por nos ter dado Jesus, o Seu Filho! Louve, adore e agradeça ao Senhor Jesus Cristo que por nós e pelo mundo inteiro Se entregou!

6. Voltemos ao texto de Gálatas. O que São Paulo quer dizer com esta afirmação: “Pela Lei eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus” (v. 19)? Paulo afirma que morreu para a Lei por dois motivos:

a) Ele morreu para a Lei de Moisés porque a própria Lei de Moisés, Leia da Antiga Aliança, anunciava uma Nova Aliança e uma Nova Lei, no Espírito de Deus, Espírito do Messias. Vale a pena ler estes textos, como exemplos: Jr 31,31-34; 3,14-17; Ez 36,25-38; 37,11-14.21-28; Is 59,21; 55,1-5. Assim, seguindo o que a própria Lei anunciava, pela Lei, Paulo superou a Lei, morreu para a Lei de Moisés! Em outras palavras: para cumprir a Lei, que previa a superação da Lei, eu morri para a Lei; em obediência à Lei, eu superei a Lei!

b) Mas, há mais ainda; muito mais! Crendo em Jesus como Senhor e Messias, o cristão é Nele batizado, recebendo o Seu Espírito. Assim, é mergulhado em Cristo: ele morre e ressuscita com Cristo, ele vive realmente com Cristo, pois o Espírito do Cristo morto e ressuscitado habita realmente nele, fazendo dele uma nova criatura!
Paulo morreu para a letra da Lei, Paulo morreu para os preceitos da Lei; Paulo morreu para a observância da Lei! A vida de Paulo agora não é mais a vida psicofísica que ele tinha. Ele agora, no seu corpo e na sua alma, vive da misteriosa e potente Vida divina de Cristo morto e ressuscitado, vive do próprio Espírito de Cristo. Por isso, pelo Batismo e a Eucaristia, ele pode dizer: “Fui crucificado com Cristo. Já não sou eu que. Vivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que Me amou e Se entregou a Si mesmo por mim”.
Atenção: aqui não se trata de uma experiência psicológica, emocional! Nada disto! Crendo em Jesus como Senhor e Messias, o cristão é inserido Nele pelo Batismo e cresce nesta inserção em cada Eucaristia, “batizados num só Espírito para formarmos um só Corpo” (2Cor 12,13), de modo que, pelo Espírito de Cristo, o cristão vive já realmente em Cristo Jesus, vida que começa realmente agora e será plena na Glória celeste, plenitude do Reino de Deus!
Que diferença entre viver dos preceitos da Lei, preceitos exteriores, e viver imerso, incorporado, mergulhado em Cristo Jesus, em Alguém, no próprio Filho eterno feito homem, pleno do Espírito de Vida e Ressurreição! Era isto que os gálatas e nós deveríamos compreender!
Por isso, o desabafo, o desafio final, triunfante e indignado de São Paulo: “Não invalido a graça de Deus; porque se é pela Lei que vem a justiça, a salvação, então Cristo morreu em vão!”

7. Pensando no Cristo que Se entregou por nós, reze Is 53


quinta-feira, 14 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação VII - Quinta-feira da I semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,49-56
Agora leia Gl 2,15-21

1. Atenção à afirmação de São Paulo: “Nós somos judeus de nascimento e não pecadores da gentilidade” (v. 15). Paulo nunca negou o privilégio, a graça de ser judeu, membro do antigo Povo de Deus. Os judeus são o povo querido de Deus (cf. Rm 11,28s); o povo que teve a graça de receber a Lei de Deus (cf. Br 4,4); o próprio Jesus nosso Senhor foi claro ao dizer que “a salvação vem dos judeus” (Jo 4,22). Então, compreendamos bem: ser judeu é uma graça, um privilégio, um dom! Enquanto os povos caminhavam nas trevas, na noite da idolatria, Israel caminhava na luz do Senhor (cf. Is 60,2).
Pense bem: Deus não é politicamente correto nem trata a todos igualmente! Ele ama; basta! Ama a quem quer e como quer. Amou Israel mais que a todos e fez dele o Seu filho primogênito, com ele fez uma aliança de amor, desse povo fez Sua posse, sua herança (cf. Os 11,1; Is 17,6; Jr 7,3; Ez 8,4;Am 7,8; Is 44,21;Os 2,4).

2. Ao lado de todo este amor de Deus pelo Seu povo, São Paulo afirma que “sabendo que o homem não se justifica pelas obras da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo, nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras de Lei, porque pelas obras da Lei ninguém é justificado”. 
Esta é uma das afirmações centrais na pregação de São Paulo. Compreendamo-la bem!

a) Os judeus do tempo de Jesus e de São Paulo julgavam-se justos, isto é, piedosos, amigos de Deus, em dia com Deus, cumprindo todos os preceitos da Lei de Moisés. Essa Lei era não somente composta pelos cinco primeiros livros da Bíblica, o nosso Pentateuco, como também pela Lei oral, as tradições dos antigos, as interpretações inumeráveis que os rabinos foram dando da Lei. O próprio Jesus respeitou e venerou a Lei de Moisés, mas nunca aceitou que este monte de preceitos fosse a essência da Aliança entre Deus e os Seu Povo. Para Ele, o coração da Lei era o amor; era o amor a Deus e ao próximo por amor de Deus que dava sentido a toda a Lei. Leia Mt 22,37-40.
Aqui uma pergunta: Qual a essência do cristianismo? Qual a atitude fundamental que o Senhor espera do seu discípulo e que faz de nós cristãos de verdade? Leia Mc 1,16-20; 8,34-38; Mt 10,37-39; Jo 13,12-15.35; Rm 13,8-10. Agora confronte com a sua vida!

b) São Paulo havia sido fariseu; colocava na prática da Lei de Moisés seus orgulho, sua segurança e sua esperança. Tendo sido alcançado por Cristo, ele agora percebe, descobre com o brilho de um raio, que não é a Lei de Moisés que salva, que não são as suas práticas que tornam o homem justo, agradável a Deus, mas unicamente crer em Jesus como o Cristo, o Messias de Deus, acolhendo-O na fé, entrando no Seu seguimento. Agora há uma outra Lei, a Lei de Cristo, fundada no próprio Espírito de Amor (cf. Gl 6,2).

c) Para São Paulo, tornar-se cristão não era trair a Lei de Moisés, mas cumpri-la, pois a Lei anunciava o Messias, a Lei preparava o Messias! Para o santo Apóstolo, a Lei era apenas uma preparação, um pedagogo que deveria guiar Israel até o Messias. Agora que o Messias chegara, o pedagogo perdera sua utilidade. Veja Gl 3,23-24. 
Isto vale para a Lei com suas práticas e vale para todo o Antigo Testamento! Imagine que pensa quando vemos as seitas apegadas ao Antigo Testamento, cavando nele preceitos e normas caducas e gritando, espumando de raiva e prepotência ignorante: “Está na Palavra, está na Palavra!”
Mais adiante, vamos ver como e porque o Antigo Testamento continua valendo para os cristãos.

d) Por agora, é importantíssimo compreender isto: o verdadeiro judeu deve passar da Lei para Cristo para cumprir o que a própria Lei havia anunciado: uma Aliança nova e eterna no Espírito do Messias e não mais na letra da Lei de Moisés.

3. Nunca esqueça: ninguém pode se considerar justo diante de Deus simplesmente pela sua força, pela sua prática religiosa. Leia o Sal 142/143,12. Assim, para São Paulo, é preciso em Cristo superar a mera prática da Lei de Moisés para cumprir e receber o que a Lei de Moisés anunciara e prometera! Imagine a confusão que isto daria! Releia com atenção os vv. 15-16.

3. Agora leia os vv. 17-21! Siga o seguinte raciocínio:

a) Os judeus piedosos, sobretudo os fariseus, esforçavam-se para cumprir integralmente a Lei escrita e a Lei oral, a tradição dos antigos. Pensando em cumprir tudo, eles se julgavam justos diante de Deus, merecedores da salvação. A salvação nem parecia um dom, mas o pagamento obrigatório pelo merecimento da justiça, da religiosidade dos piedosos. Ora, a questão não é somente cumprir preceitos, mas o amor com que se os cumpre, o amor a Deus, sem medida, sem cálculo! Esse amor aparece em Cristo, que se entregou por nós, para nos salvar, já que ninguém cumpre totalmente os preceitos da Lei! Leia Mt 23. Aí está um bom exemplo do apego exterior à tradição dos antigos, procurando nelas a justificação, isto é, garantir como direito a salvação!

b) Um judeu poderia pensar: “Então esse Cristo é ministro do pecado! Esse Cristo encobre e justifica, acoberta o pecado, o desleixo!” São Paulo responde: Não! Vendo o amor de Cristo, Nele crendo, Nele sendo batizado, Nele vivendo uma vida nova, vida no amor a Deus e aos irmãos, somos uma nova criatura! Lembre: “Se alguém está em Cristo é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas, eis que se fez realidade nova” (2Cor 5,17). Na verdade, a fé em Cristo, a adesão a Cristo não encobre o pecado: ela revela o pecado, pois mostra o quanto não amamos o suficiente e o quanto o nosso pecado é tão profundo a ponto de necessitar da entrega do Salvador. Mais ainda: a fé em Cristo destrói o pecado no Espírito de Amor de Cristo! Não somos mais escravos do pecado, mas “escravos” do amor de Cristo e, portanto, livres para amar! Então, passa-se de uma Lei de preceitos para a Lei do Amor – e este Amor é o Espírito de Cristo em nós! Veja um belo exemplo de tudo isto em Jo 8,1-11. O perdão exige não mais pecar!

4. O cristão, judeu ou gentio, agora é morto, isto é, livre para a dinâmica da Lei de Moisés – no caso do judeu – e da Lei do pecado – no caso do gentio -, morto para os preceitos da Lei, vivo agora para Cristo: a união total com Ele por amor (cf. 1Cor 6,17), união à Sua Morte e Ressurreição de amor é o cumprimento da Lei:, pois no plano de Deus, era isto que a Lei deveria preparar: para Cristo, para a união com Ele, tanto dos judeus quanto dos gentios (cf. Ef 1,3-14)! Nele tudo se realiza e se cumpre em plenitude; a Lei não é eliminada, mas realizada cumprida superada, realizando no objetivo final de Deus!

5. Dante disto, fica para São Paulo uma questão: quem salva: os preceitos da Lei de Moisés ou o Preceito do Amor de Cristo? O judeu deve parar na Lei de Moisés ou ser fiel ao que a Lei prometera e profetizara e preparara e crer, agora em Jesus como Messias, abraçando a Lei do Espírito Santo que dá Vida divina? Esta é a questão! Se o judeu for salvo pela Lei, não é necessário Cristo! Bastariam as obras da Lei! Se a Lei está em pleno vigor, não seria necessário pregar Cristo aos pagãos; basta fazê-los se tornar judeus, circuncidando-os e fazendo-os cumprir os preceitos legais dos judeus... E aí, Cristo e o cristianismo seriam totalmente dispensáveis. Agora releia os vv. 15-21.

6. Lembre: Nós, cristãos, podemos cair na mesma armadilha dos judeus quando colocamos preceitos, normas, observâncias, tradições no lugar da adesão apaixonada e amorosa por Cristo! É Cristo doador do Espírito de Amor que nos salva. Tudo quanto leva a Cristo é bom; tudo quanto toma o lugar de Cristo deve ser descartado! Pense nisto!
Imagine a aberração de litigar e agredir por causa de Cristo! Por causa de Cristo negar Cristo!

6. Reze o Sl 65/66


quarta-feira, 13 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação VI - I Quarta-feira da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,41-48
Agora leia Gl 2,11-14

1. Primeiramente, observemos que Cefas, Barnabé e Paulo estavam em Antioquia, provavelmente após a Assembleia de Jerusalém (cf. At 15). Certamente, Pedro estava lá para reforçar os laços fraternos entre essa jovem Igreja cristã e a Igreja Mãe de Jerusalém. Não esqueçamos o importante papel de Cefas na Igreja: ele foi colocado por Cristo como cabeça dos Doze e Pedra da Igreja. A ele cabia apascentar todo o rebanho do Senhor (cf. Jo 21,15-17).
Pense bem: A Igreja é comunhão no Espírito de Cristo: comunhão entre as Igrejas diocesanas, comunhão entre os irmãos, comunhão de amor em Cristo na fé, nos sacramentos, no modo de vida, na caridade fraterna. Um cristão e uma comunidade cristã têm sempre o dever de não se isolar mas permanecerem ativamente inseridos na Comunhão da Igreja que nasce e reflete a comunhão do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Tal comunhão é sempre precioso dom de Deus (cf. 1Cor 1,3; 2Cor 1,2; Ef 1,2, etc), mas também trabalho dos irmãos (cf. Fl 2,1-5)

2. Qual foi a atitude de Pedro censurada por Paulo tão duramente? No judaísmo, os judeus piedosos não comiam à mesma mesa que os pagãos, pois estes não praticavam os ritos de pureza dos judeus, como a lavagem de mãos e vasilhas; também comiam alimentos impuros segundo a Lei de Moisés.
Pedro já sabia que em Cristo todas estas distinções haviam sido superadas; ele aprendera isto do próprio Cristo! Leia, por exemplo, At 10-11.
Por isso mesmo, em Antioquia, o Chefe dos Apóstolos comia normalmente à mesa com cristãos vindos do paganismo. Não importava quem era judeu de nascimento ou não, quem era circuncidado ou não, não importava quem guardasse a Lei de Moisés ou não, quem comesse comida pura ou não! O importante era que ali todos acreditavam em Cristo e Nele haviam sido batizados e comungavam à Mesa eucarística: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas, eis que se fez realidade nova!” (2Cor 5,17)
Ora, com a chegada em Antioquia de irmãos vindos de Jerusalém, da parte de Tiago, Irmão do Senhor, membros de um grupo mais rigorista, judeu-cristão, que guardava a Lei de Moisés, Pedro começou a evitar comer com os cristãos vindos do paganismo para não melindrar ou escandalizar esses irmãos rigoristas. Paulo tomou isto como hipocrisia e censurou Pedro diante de todos!
Pense: Pedro é a maior autoridade na Igreja, mas não está acima da Igreja nem acima da verdade do Evangelho e pode e deve ser corrigido e criticado com caridade e respeito quando for necessário! Sobretudo aqueles que têm, como ele, autoridade apostólica, devem ser francos e honestos, respeitosos e diretos na correção fraterna para o bem da Igreja. Fugir disto é covardia e espírito de conveniência segundo o mundo! A crítica sincera e caridosa, a correção fraterna, é determinada pelo Senhor na Sua Igreja e ninguém está isento dela! Leia Mt 18,15-20.

3. Pedro estava realmente errado? Sim e não.
Sua intenção era boa e correta: ele queria evitar tensões e escândalos entre os dois grupos de cristãos. O próprio Paulo recomendou e fez isto em outras vezes! Veja, por exemplo:
At 16,3: circuncida Timóteo para evitar complicações com os judeus;
At 21,23-26: leva judeus cristãos com ele ao Templo para deixar claro que ele mesmo era judeu observante da Lei;
1Cor 8,13: recomenda que os cristãos que não se importam de comer carne sacrificada aos ídolos, que são nada, não comam diante de cristãos que se escandalizariam com isto;
Rm 14,20-23: recomenda que os cristãos gentios se abstenham de certos alimentos para não escandalizarem os cristãos judeus, que não usavam tais alimentos;
1Cor 9,19-23: estabelece a bela regra de se fazer tudo para todos para ganhar para Cristo o maior número possível!

O erro de Pedro foi no modo de proceder. Ele, de repente mudou o comportamento em relação aos cristãos gentios, evitando a mesa deles diante dos cristãos judeus. Isto pareceu mais medo que convicção, mais dissimulação que caridade, mais medo que busca da paz! Um comportamento que poderia escandalizar gravemente os irmãos vindos do paganismo, que se sentiriam marginalizados, como cristãos de segunda classe.
Além do mais, estava em jogo também a Mesa eucarística: se uma separação na mesa comum fosse correta ou permitida, como ficaria a celebração do Sacramento mesmo da comunhão, a participação na Mesa do Senhor? Teríamos uma Eucaristia para os cristãos judeus e outra para os cristãos pagãos? Ora, a Eucaristia é sacramento da unidade da Igreja! Seria inadmissível duas eucaristias separadas!
Portanto, entre o que Paulo sempre recomendou e o que Pedro fez em Antioquia, a diferença está no modo: sempre com clareza no agir e na compreensão dos motivos porque se faz tal coisa e em vista da caridade! Faltou a Pedro a clareza nas suas intenções, a coragem de proceder com retidão e às claras!

3. Aqui verdade do Evangelho estava em jogo, verdade segundo a qual em Cristo somos irmãos, independente de quaisquer diferença: “Não há distinção entre judeu e grego, pois Ele é Senhor de todos, rico para todos que O invocam” (Rm 10,12s); “Aí não há mais grego ou judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro cita, escravo, livre, mas Cristo é tudo em todos (Cl 3,11)!É impressionante: o que conta é crer em Cristo e Nele ser inserido pelo Batismo e Nele viver na comunhão pela Eucaristia! Ainda hoje é difícil compreender e viver isto! Por isso o grito de Paulo Apóstolo!
Pense: Na Igreja, na Diocese, na paróquia, na comunidade ou grupo: ser de Cristo, está Nele inserido, ser por Ele apaixonado deveria ser o critério fundamental da nossa comunhão... É assim para você? E as disputas ideológicas nos mais variados campos de batalha? Parece que Cristo fica por último! – Perdão, Senhor!

4. Releia o v. 14: Fingir é coisa de quem não conhece a Deus, coisa de pagão; não coisa de um judeu verdadeiro e muito menos de um cristão! As atitudes na Igreja devem ser caridosas sempre, mas também sinceras e transparentes! Nada justifica encobrir o Evangelho seja na doutrina seja no procedimento com desculpas esfarrapadas de prudência e de manter a unidade a qualquer custo!

5. Note: A correção fraterna é um bem e ninguém dela está isento, nem mesmo Cefas nem seus sucessores! Não se pode deixá-la em nome da prudência, da unidade ou do respeito pela autoridade! Respeito não é covardia e omissão e obediência não é bajulação e medo! O Papa, os Bispos, os padres merecem todo o nosso respeito, mas não são intocáveis, não são irrepreensíveis sempre e podem e devem ser corrigidos quando necessário, sobretudo no tocante à doutrina verdadeiramente católica e apostólica! Na Igreja não há lugar para cortes de bajuladores e aduladores!“Entre vós, não deverá ser assim!” (Mc 10,41ss)

6. Medite rezando 1Cor 9,16-23. Agora reze o Sl 91/92.



terça-feira, 12 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação V - Terça-feira da I Semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,33-40
Agora leia Gl 2,1-10

1. Esta perícope não é muito fácil de ser explicada. Vamos compreendê-la bem:

a) Quatorze anos após o encontro com Pedro-Cefas (a Pedra), logo após a conversão, Paulo subiu novamente até Jerusalém com Barnabé, seu companheiro de evangelização, e Tito, um cristão provindo do paganismo, que foi fiel colaborador de São Paulo. O Apóstolo foi à Igreja-Mãe para ver membros do grupo dos Doze, sobretudo Cefas, o primeiro dentre os Doze, João, o Discípulo Amado, e Tiago, o Irmão do Senhor, Bispo da Igreja de Jerusalém, a Igreja-Mãe.
Aqui temos uma indicação importante: o próprio Espírito do Senhor revela que Paulo deve ir ver aqueles que são apóstolos antes dele, sobretudo os Doze. Na Igreja há uma ordem, uma hierarquia, que deve velar pela conservação da unidade na verdade do Evangelho e na vida de comunhão fraterna.
Observe como Paulo vai a Jerusalém para conferir o Evangelho dele com o testemunho dos Doze e demais Apóstolos (cf. v. 2). Na Igreja, é indispensável a comunhão constante na mesma doutrina apostólica!
Observe ainda como os líderes da Igreja estendem a mão a Paulo em sinal de comunhão na fé e na caridade (cf. v. 9). Na Igreja, é indispensável a comunhão na disciplina, nos costumes, na vida.
Veja ainda como esta comunhão de fé e amor deve ser concretizada na solidariedade fraterna e na ajuda aos mais necessitados (cf. v .10). Na Igreja, é indispensável a comunhão de bens, de partilha material com os que mais necessitam: dioceses mais favorecidas deveriam ajudar às menos favorecidas, paróquias mais favorecidas deveriam ajudar às menos favorecidas, comunidades mais carentes deveriam receber ajuda das mais abastadas, irmãos em dificuldades materiais devereis ser ajudados de algum modo pelos irmãos na fé!
Pense um pouco: Sua fé e a da sua comunidade ou paróquia é atenta a estes três aspectos acima mencionados?

b) Em Jerusalém, Paulo se detém mais com Pedro (cita aqui três vezes o seu nome: Pedro-Pedro-Cefas), Tiago e João. Com eles, o Apóstolo confere o Evangelho que ele anuncia aos gentios, isto é, aos não judeus, recebendo daqueles que são as colunas a confirmação da sua pregação.
Atenção: mesmo recebendo o Evangelho diretamente de Cristo (cf. Gl 1,1.15-17) e com a autoridade de Cristo, Paulo não se coloca acima ou contra os Apóstolos, mas vai à procura deles, cultivando a comunhão (cf. 2,9) para que o seu trabalho não seja correr em vão (cf. 2,2).
Será sempre um grande desafio para cada um na Igreja conjugar e conciliar a autoridade com a espontaneidade e liberdade, frutos do Santo Espírito de Cristo. Nem a autoridade dos ministros sagrados deve sufocar as iniciativas e dons provindos do Espírito nem os que são inspirados pelo Espírito devem se colocar à margem da autoridade dos ministros sagrados... Quando todos procuram compreender que a Igreja não é propriedade de ninguém, mas pertence unicamente ao Senhor, as coisas ficam mais fáceis e tudo caminha para a edificação do Corpo de Cristo.
Leia 1Cor 12,12 – 12,13.
Observe que o Apóstolo enumera os carismas e ministérios, colocando em primeiro lugar os apóstolos (hierarquia, autoridade pela unção do Espírito) e logo em seguida os profetas (criatividade e liberdade do Espírito): apóstolos e profetas, diversos e harmonizados no Espírito do Ressuscitado, que dirige e vivifica a Igreja (cf. Ef 4,11)!
Que ninguém se julgue superior, pois “Deus não faz acepção de pessoas” (v. 6b): Ele chama a quem quer e como quer, para o bem da Igreja e a edificação do Corpo de Cristo. É péssimo quando qualquer grupo ou classe julga-se superior e autossuficiente na Igreja!
Pense: Se a Igreja fosse somente hierarquia, disciplina, ordem, seria uma realidade seca e morta, estática e fossilizada. Se a Igreja fosse somente uma realidade carismática e de inspirados, seria uma balbúrdia tão desordenada que levaria à dilacerações e delírios, terminando por destruir a unidade na fé e na caridade! Como o Corpo de Cristo, a Igreja é visível e ordenada, mas vivificada pela energia dinâmica e surpreendente do Santo Espírito.

2. Paulo insiste em afirmar que Tito, apesar de batizado, não era circuncidado nem foi obrigado a sê-lo pela Igreja de Jerusalém. Em outras palavras: os cristãos estão livres das obras da Lei de Moisés! É Cristo quem salva e não as obras das práticas legais de Moisés! O cristão está livre dessas práticas do judaísmo!
O Apóstolo defende isto com tanta força, que chama de intrusos e falsos irmãos àqueles que, sendo cristãos, querem obrigar os demais cristãos a observarem as obras da Lei de Moisés! Ora, a Antiga Aliança foi superada pela Nova: “o Antigo Testamento (ou seja, a Antiga Aliança) deu ao Novo (isto é, à Nova Aliança) o seu lugar!”
Pense um pouco em tantos cristãos fundamentalistas que ainda hoje, sob a capa de piedade e conhecimento das Escrituras lidas de modo fundamentalista, nos querem fazer voltar à escravidão da Lei de Moisés:
- implicam por causa de imagens sacras,
- implicam por causa do sábado,
- implicam por causa de transfusão de sangue,
- inventam a bizarrice tola do “templo de Salomão”,
- insistem em batizar nas águas,
- vão benzer óleo no Monte Sinai,
- imitam a arca da aliança e vestimentas dos levitas do Antigo Testamento e outras bizarrices sem pé nem cabeça!
Coitados! Não conseguem compreender que estas coisas não contam mais: a Antiga Aliança passou! Leia Mt 9,14-17; Cl 2,8.11-12.16-17.

3. Paulo insiste em proclamar e defender “a liberdade que temos em Cristo... para que a verdade do Evangelho permanecesse entre vós”... Esta liberdade é em relação à prática das obras e observâncias da Lei de Moisés; a verdade do Evangelho é que Cristo, fazendo-Se homem, debaixo da lei da natureza humana pecadora e fazendo-Se judeu, debaixo da Lei de Moisés, nos libertou da lei do pecado humano e da Lei de Moisés! Leia Rm 8,1-4.

4. Interessante como São Paulo se compreende a si próprio como Apóstolo dos Gentios, isto é, enviado sobretudo aos não-judeus para anunciar-lhes Jesus Cristo. Ele faz uma distinção interessante, mais emotiva que realmente sistemática: “A mim fora confiado o Evangelho dos incircuncisos, como a Pedro o dos circuncisos – pois Aquele que operava em Pedro para missão dos circuncisos, operou também em mim em favor dos gentios” (vv. 7s). Lendo somente estas afirmações poderíamos pensar que Paulo e sua equipe pregariam aos gentios, isto é, aos não-judeus, e Pedro e os demais Apóstolos pregariam aos judeus. Na verdade, isto nunca foi assim: Pedro foi o primeiro a introduzir um grupo de pagãos na Igreja.
Leia At 10,1-11,18. O Apóstolo não somente pregou a um grupo de pagãos, como também os batizou e os introduziu na Igreja. Depois, ainda defendeu sua iniciativa diante da comunidade de Jerusalém.
Também São Paulo, nunca pregou primeiramente aos pagãos: em qualquer cidade aonde ia, sempre se dirigia a uma sinagoga e falava primeiro aos judeus. Leia At 13,13-52. Somente depois ele se dirigia aos gentios, sobretudo àqueles chamados “tementes a Deus”, isto é, gentios simpatizantes do judaísmo. Muito raramente Paulo pregava diretamente aos gentios não tementes a Deus. Neste caso, a pregação era muito mais difícil, como no caso de Atenas (cf. 17,16-34) ou de Listra (cf. At 14,8-20).
Que lição podemos aprender? A Igreja nem é de Pedro nem é de Paulo! A Igreja é de Cristo; só de Cristo, vivificada, guiada e sustentada pelo Seu Espírito! Os Apóstolos planejam, agem, mas o Senhor é sempre livre para dirigir a missão, suscitar pessoas com dons e carismas que levem adiante a obra do Evangelho! Nunca esqueçamos disto!
Pense um pouco no enorme número de leigos, de jovens, de grupos, de novas comunidades que o Espírito do Senhor tem suscitado para a evangelização e o testemunho de Cristo! Às vezes quem mais deveria discernir e apoiar e alegrar-se, fecha-se, critica reprova, porque não cabe na sua lógica... Outras vezes, estes “carismáticos” suscitados, suscitados pelo Senhor, querem fazer as coisas prescindindo da Igreja, como se Cristo não tivesse edificado a Sua Igreja e nela suscitado pastores... As duas atitudes estão muito erradas e ferem o desígnio do Senhor para a Sua Igreja. 

5. Leia e reze 1Cor 13. Agora reze com devoção e fé o Sl 144/145


segunda-feira, 11 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação IV - Segunda-feira da I semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,25-32
Agora leia Gl 1,11-24

1. “O Evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, pois eu não o aprendi de algum homem, mas por revelação de Jesus Cristo”. Afirmação impressionante, esta! O Evangelho, isto é, o anúncio de Cristo e a doutrina que daí decorre não é segundo a lógica humana, segundo a medida humana. O Evangelho não é sob medida para “agradar os homens”.
Pense: Qual a lógica do Evangelho? É a lógica da Cruz de Cristo, Cruz que é sinal de total obediência amorosa ao Pai e total amor aos irmãos. Esta Cruz é loucura, é falta de sentido para o mundo. Leia e reze 1Cor 1,17-31.

2. Agora, reflita nos seguintes pontos:

a) O Evangelho não é contra a lógica humana ou a sabedoria humana, mas as ultrapassa; não se deixa limitar ou julgar por elas. Preste bem atenção: é o Evangelho que julga o mundo e o transfigura, não é o mundo que julga e rebaixa o Evangelho. Quem adequa o Evangelho ao mundo “não é amigo de Cristo”.
Responda com sinceridade diante de Cristo e da sua consciência: na sua vida, qual é o critério: o Evangelho ou o mundo? Seu coração adequa o mundo ao Evangelho para converter sua vida ou o Evangelho é rebaixado ao mundo?

b) O mundo, simplesmente pela medida da sua lógica, da sua sabedoria, jamais poderá acolher de verdade a lógica do Evangelho e suas exigências. A sabedoria humana, para chegar à medida do Cristo, tem que abrir-se verdadeiramente à loucura de Cruz! Isto exige de todos nós, o tempo todo, conversão! Nunca esqueça: você somente poderá compreender o pensamento do Senhor Deus se se deixar conduzir pelo Cristo, deixando-se a você mesmo: seus pensamentos, sua lógica, sua medida, seu cálculo humano... E isto é um processo que dura a vida toda!

3. É indispensável que compreendamos que o Evangelho, isto é, o anúncio cristão e suas consequências, não é obra humana, mas vem de Deus e deve ser acolhido na “obediência da fé” (Rm 1,1-5).Isto: a fé exige a obediência amorosa! Crer é entregar-se ao Senhor, é deixar-se por Ele conduzir, a Ele convertendo-se continuamente (cf. Jo 8,12).

4. Nos vv. 13-14, o Apóstolo recorda sua situação passada: era inimigo visceral da Igreja de Deus! Não esqueçamos: ser inimigo da Igreja de Deus é ser inimigo de Cristo: “Saulo, Saulo, por que Me persegues?” (At 9,4s)Quando falamos Igreja, o que queremos dizer? A comunidade dos discípulos do Cristo, na qual se entra pelo Batismo e na qual se mantém e se cresce pela Eucaristia, sacramentos da comunhão com o Senhor e os irmãos. Isto é a Igreja, com seus vários carismas e ministérios, seus pastores legítimos e seus inúmeros profetas, homens e mulheres cheios do Espírito de Deus, sempre suscitados e sustentados por este mesmo Santo Espírito de Cristo.

5. Observe ainda a situação de Paulo no judaísmo: mesmo com reta intenção e com zelo, ele estava nas trevas! Havia escamas no olhar do seu coração e, por isso, nos seus olhos; somente quando a luz de Cristo brilhou para ele, as escamas da cegueira caíram dos seus olhos e do seu coração. Leia At 9,10-19; 2Cor 3,12-17.
Pense bem: Cristo é necessário a todo homem que vem a este mundo! Anunciá-Lo, falar Dele, proclamá-Lo sem medo nem meios termos é dever de amor de todo cristão, pois “não há, debaixo do céu, outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4,12).

6. Releia agora os vv. 15-24. Observe:

a) São Paulo sabe que foi chamado por Deus, o Pai, desde o seio materno. Mais que chamado: foi separado, consagrado para o Evangelho de Deus (cf. Rm 1,1). Isto é um trabalho, uma luta e, ao mesmo tempo, uma graça! Também cada cristão, em certo sentido, de acordo com sua vocação e seu estado de vida, tem um compromisso em relação ao Evangelho: pode ser testemunhá-lo em família, sobretudo na educação dos filhos, no trabalho, na paróquia... Qual o seu compromisso com o Evangelho? Você o tem assumido ou se coloca como alguém por fora?
Leia Jr 1,1,5.

b) Estar comprometido com o Evangelho de Deus leva-nos a fazer da nossa vida um espaço, um instrumento de revelação do Filho Jesus Cristo. Paulo diz que Deus quis “revelar em mim o Seu Filho” (v. 16). É uma expressão linda! Peça ao Senhor a graça de fazer da sua vida – pensamentos, atos, gestos, palavras – uma revelação de Jesus, nosso Senhor!

c) É sempre muito belo como Paulo conjuga o respeito pelos Doze, aqueles aos quais Cristo Jesus desde o princípio confiou o pastoreio da Sua Igreja, sobretudo para com Cefas-Pedro, o primeiro dentre os Doze e, por outro lado, tem consciência que a Igreja não tem dono e recebeu uma missão diretamente do Senhor ressuscitado, que lhe aparecera no caminho de Damasco.

d) Também Tiago tem uma vocação similar: ele não era dos Doze. O Senhor o chamou com uma aparição privilegiada após a Ressurreição (cf. 1Cor 15,7). É muito significativo que Paulo e Tiago tenham sido chamados após a Ressurreição. Provavelmente, este Tiago, “irmão do Senhor”, isto é, parente de Jesus, não fazia parte do grupo dos Doze. E, no entanto, ele foi o chefe da Igreja de Jerusalém. Veja a importância dele no chamado Concílio de Jerusalém (cf. At 15,5-29. A mensagem é claríssima: o respeito pelos legítimos pastores e a liberdade dos filhos da Igreja devem caminhar juntos! Que coisa: Paulo e Tiago, dois grandes apóstolos da Igreja nascente, não eram do grupo dos Doze! O Senhor é livre e ninguém é dono da Igreja! O Espírito do Senhor suscita uma incrível diversidade de vocações, carismas e ministérios, que não devem ser sufocados pelos ministros sagrados e, por outro lado, os que recebem carismas e dons devem caminhar procurando estar em comunhão com os ministros ordenados. Só o Espírito de Cristo pode conjugar e harmonizar estas realidades diversas!

e) Uma última coisa: O Apóstolo diz que “por minha causa glorificavam a Deus”.
Pense na sua vida: As pessoas glorificam a Deus por sua causa ou, ao invés, você foi ou tem sido pedra de tropeço e sofrimento para os irmãos? O que precisa ser mudado na sua vida para que as pessoas glorifiquem a Deus por sua causa?

7. Pensando na sua Igreja diocesana, na sua paróquia, no seu grupo ou comunidade, reze com o Senhor Jesus Jo 17,20-26. Reze também o Sl 132/133.