sábado, 30 de novembro de 2019

Um tempo, uma saudade...

Estamos começando hoje um novo Ano Litúrgico; é o princípio de mais um ciclo de tempo sagrado para celebrar na liturgia o santo mistério do Deus que nos salvou em Cristo Jesus. É isto o ano litúrgico: o arco de tempo no qual a Igreja celebra nos ritos, nas palavras, nos gestos da liturgia os próprios gestos salvadores do Redentor nosso!
Deste modo, celebramos o mistério de Cristo na sagrada liturgia e, com ela, enchemos nossa vida do bom odor de Cristo e do gosto das coisas do Céu! Cuidemos de viver piedosamente este novo ano que ora começa!

E o primeiro mistério que se celebra no arco do ano da Igreja é, precisamente, o santo Tempo do Advento, que, primeiramente, faz memória da Vinda do Cristo Senhor no final dos tempos para levar à plenitude a obra da salvação, iniciada na Sua piedosa Vinda entre nós na Sua Encarnação. Enquanto o Senhor não vier em Glória, o lobo não morará com o cordeiro e o leopardo não se deitará com o cabrito. O bezerro, o leãozinho e o gordo novilho não andarão juntos e um menino pequeno não os poderá guiá-los; enquanto o Senhor não vier sobre as nuvens, a vaca e o urso não pastarão juntos nem juntas se deitarão as suas crias. O leão não comerá forragem como o boi. A criança de peito não poderá brincar junto à cova da áspide... Ainda se fará mal e se destruirá e a terra não estará cheia do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o fundo do mar (cf. Is 11,6-9). Por isso, é preciso pedir esta Vinda, por ela é preciso rezar, para ela é preciso preparar-se! É necessário exclamar sempre: “Venha o Teu Reino”; e suplicar: “Maran atha!” – Vem, Senhor! É desta Vinda que fazemos memorial litúrgico na primeira parte do Advento!

Mas, como podemos celebrar o memorial do que ainda não ocorreu? No rito bizantino, após a consagração dos dons, o celebrante reza: “Recordando, pois, este preceito salvífico e de tudo aquilo que foi realizado por nós: da Cruz, da Sepultura, da Ressurreição ao terceiro dia, da Ascensão aos Céus, do trono à Direita, da Segunda e gloriosa Vinda, os dons que de Ti recebemos, a Ti oferecemos em tudo e por tudo”. É belíssimo: na Eucaristia, a Igreja já celebra a Vinda final do Senhor, pois, na força do Santo Espírito, já experimenta o mundo que há de vir, ali presente no Altar, nas aparências do pão e do vinho, Corpo e Sangue do Imolado-Ressuscitado! Ora, celebrar esta Vinda gloriosa nos impele a que nos preparemos para ela! Na primeira parte do Advento – do I Domingo ao 16 de dezembro – a Igreja nos recorda que estamos caminhando para o encontro do nosso Salvador, que nos haverá de julgar! Ele vem e nós devemos vigiar pela oração, pela escuta da Palavra, pela prática dos sacramentos, pelo amor fraterno...

Nunca esqueçamos: somos filhos da Luz, filhos do Dia que vem! Feliz daquele que o Senhor, ao chegar, encontrar vigilante!

Além deste aspecto de preparação para a Vinda gloriosa do Senhor, no Advento, a Igreja faz memorial da longa espera do povo de Israel e de toda a humanidade. Espera? Que espera?

Pensemos no coração humano, recordemos a história humana e veremos que toda a nossa existência é uma saudade, uma espera, uma ânsia. O homem é cativo da esperança! Espera a paz, espera a felicidade, espera a plenitude, espera a Vida, espera vencer a morte! Os pagãos, sem saber bem o que esperavam, ainda assim, esperavam... Esperavam e esperam!

Por sua vez, os judeus, o Povo da antiga aliança, esperava sabendo o que esperava... Sabia porque Deus prometera um Messias, um Salvador. Com esse bendito Enviado de Deus, toda graça e toda bênção seriam dadas a Israel e a toda a humanidade. Nos dias do Messias, o Senhor iria derramar o Seu Espírito sobre toda carne e Israel seria salvo e a humanidade descansaria em paz...

Pois bem, o Tempo do Advento celebra essa espera e coloca diante dos nossos olhos as promessas que Deus fez ao Seu Povo e a toda a humanidade. Ele começou a cumpri-la quando enviou o Seu Filho, nascido de Maria, a Virgem, fazendo Dele o nosso Salvador, morto e ressuscitado, doador do Espírito! Por tudo isto, celebramos e esperamos, na certeza da fé, na firmeza da esperança que não decepciona, porque suscitada e sustentada pelo Espírito (cf. Rm 5,5), aquela Vinda gloriosa do nosso Salvador, que levará à plenitude a obra iniciada com Sua Encarnação e piedoso Natal.
Exatamente porque é tempo de espera vigilante e teimosa, a cor deste período é o roxo, de quem vigia e aguarda; por isso também a ornamentação das igrejas deve ser simples, despojada, com a sobriedade de quem vai a caminho, ao encontro Daquele que vem...

É tempo de esperar, como o vigia espera pela aurora, como a amada espera pelo amado, como a flor espera pelo orvalho...

Um bom Domingo a todos, um santo Advento, um fecundo e agraciado Ano Litúrgico!


Por Ele esperem: Seu Dia vem!
Tenham coragem: Jesus já vem!

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