Temas relacionados à fé católica. Opiniões e análises sempre a partir de uma perspectiva de visão cristã.
segunda-feira, 15 de junho de 2020
A Eucaristia - XIV
A Eucaristia - XIII
sábado, 13 de junho de 2020
A Eucaristia XII
Exploremos, agora, mais um tópico, desta riquíssima realidade que é a Eucaristia. Veremos agora como toda a missão da Igreja deriva da Eucaristia.
Um dos nomes dados à Celebração eucarística é o de “Missa”, “porque a liturgia na qual se realizou o mistério da salvação termina com o envio (missio) dos fieis para que cumpram a vontade de Deus na sua vida cotidiana” (Catecismo, 1332). “Ide!” – é a última palavra de Missa. Ide para testemunhar o que vivestes, o que celebrastes! Acabastes de escutar o Senhor que vos falou nas Escrituras; acabastes de comer e beber com Ele e O reconhecestes ao partir o pão (cf. Lc 24,35). Agora, deveis levantar-vos e ir adiante, testemunhando que o Senhor está vivo, que Ele caminha conosco! Eis o sentido do termo “missa”. A Missa termina com o envio à missão de testemunhar o Cristo com nossa palavra e com nossa vida. Em certo sentido, ao participarmos da santa Missa e terminarmos a Celebração, os nossos sentimentos e atitudes devem ser os mesmos dos primeiros cristãos dando testemunho do Ressuscitado: “Deus o ressuscitou ao terceiro dia e concedeu-Lhe que Se tornasse visível, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, isto é, a nós, que comemos e bebemos com Ele, após Sua Ressurreição dentre os mortos. E ordenou-nos que proclamássemos ao povo e déssemos testemunho de que Ele é o Juiz dos vivos e dos mortos, como tal constituído por Deus” (At 10,40-42). Ou seja: participar da Eucaristia, ouvindo o Ressuscitado, comendo e bebendo com Ele, faz de cada cristão e de cada comunidade cristã testemunhas e anunciadores do Cristo pascal diante do mundo! É precisamente a convivência com o Senhor no Banquete eucarístico que faz sempre de novo a Igreja uma comunidade de missionários, de testemunhas, de anunciadores!
Mais ainda: encontrar na Eucaristia o Senhor imolado e ressuscitado, como Se encontra na Glória e como a Igreja inteira e cada um de nós irá encontrá-Lo no Dia final, compromete os cristãos a consagrarem todo o mundo ao Senhor para que tudo seja santificado e transfigurado no mundo que há de vir. A Encíclica Ecclesia de Eucharistia afirma: “Consequência significativa da tensão escatológica presente na Eucaristia é o estímulo que dá à nossa caminhada na história, lançando uma semente de ativa esperança na dedicação diária de cada um aos seus próprios deveres. De fato, se a visão cristã leva a olhar para o ‘novo céu’ e a ‘nova terra (Ap 21,1), isso não enfraquece, antes estimula o nosso sentido de responsabilidade pela terra presente. Desejo reafirmá-lo com vigor (...) para que os cristãos se sintam ainda mais decididos a não descurar os seus deveres de cidadãos terrenos. Têm o dever de contribuir com a luz do Evangelho para a edificação de um mundo à medida do homem e plenamente conforme ao desígnio de Deus” (n. 20). Ao participar do Banquete eucarístico, no qual Cristo entrega-Se pelo mundo inteiro, no qual as realidades deste mundo, pão e vinho, são transfiguradas no Corpo e no Sangue do Senhor, o cristão, como membro do Povo sacerdotal, tem o dever sagrado de consagrar o mundo para o Senhor. Isto se realiza assumindo com amor e responsabilidade as tarefas e desafios de cada dia, procurando, nas realidades temporais, testemunhar e edificar o Reino de Deus que Cristo pregou e inaugurou pela Sua existência humana, até a Morte e Ressurreição.
O anúncio missionário de Jesus Cristo não se faz somente com a palavra e a pregação, mas também com o sereno e perseverante testemunho concreto dos cristãos nos grandes desafios e problemas do mundo atual: “Muitos são os problemas que obscurecem o horizonte do nosso tempo. Basta pensar quanto seja urgente trabalhar pela paz, colocar sólidas premissas de justiça e solidariedade nas relações entre os povos, defender a vida humana desde a concepção até ao seu termo natural. E também que dizer das mil contradições dum mundo ‘globalizado’, onde parece que os mais débeis, os mais pequenos e os mais pobres pouco podem esperar? É neste mundo que tem de brilhar a esperança cristã! Foi também para isto que o Senhor quis ficar conosco na Eucaristia, inserindo nesta Sua presença sacrificial e comensal a promessa duma humanidade renovada pelo Seu amor. É significativo que, no lugar onde os sinóticos narram a instituição da Eucaristia, o evangelho de João proponha, ilustrando assim o seu profundo significado, a narração do lava-pés, gesto este que faz de Jesus mestre de comunhão e de serviço (cf. Jo 13,1-20). O apóstolo Paulo, por sua vez, qualifica como ‘indigna’ duma comunidade cristã a participação na Ceia do Senhor que se verifique num contexto de discórdia e de indiferença pelos pobres (cf. 1Cor 11,17-22.27-34). Anunciar a Morte do Senhor ‘até que Ele venha’ (1Cor 11,26) inclui, para os que participam na Eucaristia, o compromisso de transformarem a vida, de tal forma que esta se torne, de certo modo, toda eucarística. São precisamente este fruto de transfiguração da existência e o empenho de transformar o mundo segundo o Evangelho que fazem brilhar a tensão escatológica da Celebração eucarística e de toda a vida cristã: ‘Vinde, Senhor Jesus!’ (cf. Ap 22,20)” (Ecclesia de Eucharistia, 20).
Uma comunidade que celebrasse a Eucaristia fechada em si mesma, sem se preocupar com o anúncio e testemunho do Cristo Jesus ao mundo, sobretudo no serviço aos mais pobres, na defesa da justiça e da paz, na proclamação do Evangelho da vida e na denúncia de tudo quanto fira e contrarie o plano de Deus para a humanidade, seria uma comunidade infiel à Eucaristia e indigna de participar dela. O Sacramento eucarístico, portanto, compromete profundamente com a missão, abrindo a Comunidade que celebra os santos Mistérios para o mundo, que espera o nosso testemunho e ao qual nós somos enviados (missi, em latim). Claro que isto deve ser feito sem a pretensão de sermos melhores que os demais e sem motivações ideológicas quais sejam, mas simplesmente por puro e desinteressado amor ao Senhor que escutamos e encontramos na Eucaristia.
Alimentando-se desse Sacramento, os cristãos nutrem a sua vida e tornam-se vida que sustenta o mundo, dando, assim, sentido cristão à vida, que é sentido sacramental, isto é, uma vida vivida em Cristo, por Cristo e com Cristo para a vida do mundo. Esta missão e responsabilidade são tanto mais urgentes no mundo atual, sufocado pela perda do sentido de Deus e do sagrado; mundo atolado no seu próprio fechamento, que já não consegue perceber a existência à luz do desígnio de Deus. Pois bem, é deste Sacramento que provém, para o cristão a experiência mais forte de um sentido da vida como dom de Deus e parceria com o Senhor. Também da Eucaristia brota o dom da caridade e da solidariedade em relação ao mundo, pois o Sacramento do Altar não pode separar-se do mandamento novo do amor recíproco. No Altar experimentamos como o Senhor deu-Se totalmente. Ora, comungar com Ele é colocar-se num estado de doação total para que, em Cristo, a humanidade tenha a Vida divina!
Seria um grande erro pensar no compromisso eucarístico somente em relação à nossa santificação e à nossa comunhão fraterna no interior da Comunidade eclesial que é a Igreja. Esse Sacramento bendito nos impele para o mundo, no testemunho daquele Senhor a quem vimos e ouvimos. Eis por que a Eucaristia é a força que nos transforma, enche de santa certeza e entusiasmo, e fortalece as nossas virtudes; estimula a nossa caminhada na história, lançando uma semente de ativa esperança na dedicação diária de cada um aos seus próprios deveres, na família, no trabalho, na economia, nas artes, no empenho político, enfim, na cultura em geral. Desta nota social da Eucaristia, a missão de cada um na Igreja recebe força e confiança.
Já desde o início do segundo século, Santo Inácio de Antioquia definia os cristãos como aqueles que “vivem de acordo com o Domingo”, pela fé na Ressurreição do Senhor e da Sua presença na Celebração eucarística. Viver “de acordo com o Domingo”, dia de Eucaristia, é viver na esperança da presença e da Vinda do Senhor, o que faz do cristão um construtor do mundo novo a ser consagrado a Cristo Jesus e com Ele ofertado ao Pai no Santo Espírito (cf. 1Cor 15,23s). São Justino, nesta mesma perspectiva, na conclusão da Eucaristia dominical evidenciava a urgência ética de uma vida coerente com a comunhão com o Senhor: “Aqueles, portanto, que vivem na abundância e querem dar, dão conforme cada um entende, e o que se recolhe é deposto junto de quem preside; é este mesmo que socorre os órfãos e as viúvas, e quantos são esquecidos por motivo de doença ou por qualquer outro motivo, os encarcerados, os estrangeiros; em poucas palavras, torna-se provedor de quantos passam por necessidade”. Desde a Antiguidade, portanto, é clara a consciência das exigências que a celebração do Sacrifício eucarístico comporta em termo de compromisso com o mundo. Nada mais estranho ao espírito eucarístico que uma espiritualidade de alheamento em relação ao mundo e de descompromisso com os problemas da humanidade, sobretudo no âmbito concreta daqueles que vivem conosco e em torno a nós.
Outro aspecto importante é que a Eucaristia fundamenta e aperfeiçoa a missão entre aqueles que não creem em Cristo, seja nos países de missão, seja nas nossas cidades, nas nossas famílias e nos ambientes onde Cristo já não é conhecido, vivido nem amado. O sentido da missão é urgente; o anúncio de Jesus Cristo morto e ressuscitado, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Vida e esperança da humanidade, é um imperativo para todo e cada cristão. Se “não podemos calar o que vimos e ouvimos” do Verbo da Vida que em cada Eucaristia Se manifesta na Sua Palavra e no Seu Corpo e no Seu Sangue, então da Celebração eucarística nasce para todo o cristão o dever de colaborar na dilatação do corpo de Cristo, que é a Igreja. A atividade missionária, de fato, pela palavra da pregação e pela celebração dos sacramentos, cujo centro e ápice é a Sagrada Eucaristia, torna presente a Cristo, autor da salvação no coração do mundo. O mandamento missionário, que levou, não poucas vezes, ao martírio, sofrido até aos nossos dias por pastores e fieis, precisamente durante a celebração da Eucaristia, tende a levar à multidão dos homens a salvação dada no Sacramento do pão e do vinho. Por conseguinte, a Sagrada Comunhão produz todos os seus frutos: aumenta a nossa união com Cristo, separa-nos do pecado, consolida a comunhão eclesial, empenha-nos em favor dos pobres, dá-nos ânimo e vigor missionário, aumenta a graça e dá o penhor da Vida eterna.
Uma bela e eloquente ilustração de tudo quanto aqui foi dito é a narrativa do encontro do Senhor Jesus com os discípulos de Emaús. Desanimados e abatidos pela dura realidade da vida, eles se renovam e sentem o coração arder quando o Senhor caminha com eles e, na estrada da vida, explica-lhes nas Escrituras o sentido dos acontecimentos. Ouvindo o Senhor, a dura realidade vai tomando nova feição e novo sentido. Este itinerário se completa quando o Ressuscitado senta-Se com eles para a Fração do Pão. Então, seus olhos se abrem e eles reconhecem o Senhor. Detalhe importantíssimo é que os dois discípulos já não conseguem ficar parados e inativos, mesmo o dia já tendo declinado e já sendo noite: “Naquela mesma hora, levantaram-se... e narraram os acontecimentos do caminho e como o haviam reconhecido na Fração do Pão” (Lc 24,33.35).Também a Comunidade celebrante não pode ficar parada, inerte, ante tão profunda experiência de escutar o Senhor nas Escrituras e com Ele partir o Pão e repartir o Cálice. Deve levantar-se, deve correr ao mundo, deve anunciar o Senhor, com o entusiasmo e a convicção de quem viu, ouviu e experimentou, de quem é testemunha! Essa sede missionária é uma medida muito importante da fecundidade e da verdade das eucaristias de nossas comunidades. Sem esse compromisso, seremos julgados pelo talento que recebemos e preguiçosamente enterramos...
Homilia para o XI Domingo Comum - ano a
Ex 19,2-6a
Sl 99
Rm 5,6-11
Mt 9,36 – 10,8
Caríssimos no Senhor, a Palavra que ouvimos neste Domingo sagrado convida-nos a olhar com os olhos da fé para a Igreja, Povo santo de Deus. Mas, atenção: olhar a Igreja não significa pensar no Vaticano ou nas dioceses ou na hierarquia ou no aparato visível da instituição histórica! Nada disso! Esta seria uma visão pobre, superficial! A alma da Igreja, sua essência está bem mais escondida no Coração e no desígnio do Senhor! A Igreja é mistério de fé e somente à luz da fé pode ser compreendida, ainda que sua realidade mais profunda nunca possa ser esgotada pelo nosso entendimento.
Contemplar a Esposa de Cristo, nossa Mãe católica, significa, primeiramente, olhar para nós mesmos, para o Povo reunido na Unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, aquele Povo de quem diz a Escritura, na Primeira Epístola de São Pedro: “Vós sois uma raça eleita, um sacerdócio real, isto é, um sacerdócio do Reino de Deus, uma nação santa, o Povo de Sua propriedade, a fim de que proclameis as excelências Daquele que vos chamou das trevas para a Sua luz maravilhosa; vós, que outrora não éreis povo, mas, agora, sois o Povo de Deus, vós, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia” (2,9s).
Comecemos com a primeira leitura: Israel, o Povo da Antiga Aliança, imagem e princípio da Igreja, Povo que é a raiz santa de onde viemos! Tudo que as Escrituras dizem do antigo Israel servem para nós, Igreja de Cristo, novo “Israel de Deus” (Gl 6,16). Saídos do Egito de modo maravilhoso, libertados pela benevolência e o poder do Senhor Deus, os israelitas chegaram aos pés do Monte Sinai. Ali, o Senhor Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó iria fazer um pacto, uma aliança com o Seu Povo. Vede, Irmãos, saídos do Egito na Páscoa, cinquenta dias depois chegaram aos pés do Sinai para o Pentecostes, a festa da Aliança, do dom da Lei! Então, o Senhor Deus, através de Moisés, recordou aos israelitas todo o bem que lhes fizera. E resumiu tudo em palavras cheias de ternura, que ouvimos na primeira leitura: “Eu vos levei sobre asas de águia e vos trouxe a Mim!” Em outras palavras: Eu vos atraí, Eu cuidei de vós, Eu vos protegi, vos guardei! Eu vos escolhi! Compreendeis, Irmãos? Israel foi um Povo amado, escolhido, atraído, cuidado gratuitamente pelo Senhor! Israel não fizera nada para merecer tão grande graça, tão singular dom!
O Senhor escolhera Israel por puro amor. E revela que tem um plano, um desígnio para esse Povo: “Se ouvirdes a Minha voz e guardardes a Minha Aliança, sereis para Mim a porção escolhida dentre todos os povos porque Minha é toda a terra. E vós sereis para Mim um Reino de sacerdotes e uma Nação santa!” Em outras palavras: Israel deveria ser propriedade exclusiva do Senhor no meio dos outros povos; Israel deveria ter somente o Senhor por seu Deus; Israel deverá ter por lei, vida e norma somente os preceitos do Senhor. E por quê? Para quê? Porque toda a terra é do Senhor e Ele deseja que Israel seja um Povo separado, um Povo escolhido, consagrado, um Povo sacerdotal, um Povo que, em nome dos outros povos da terra, louve, sirva e adore o Senhor e diante dos outros povos dê testemunho do verdadeiro e único Deus! Israel deveria ser um Reino de servidores do Senhor em nome de toda a criação e de todos os povos. Eis o seu sacerdócio! Israel viveria no meio dos povos, mas seria um Povo diferente, em benefício de todos os povos! A resposta do Povo não apareceu no trecho da liturgia de hoje, mas está lá, nas Escrituras: “O Povo exclamou: ‘Tudo o que o Senhor disse, nós o faremos’” (Ex 19,8).
Agora, pensemos no Evangelho que escutamos: o mundo, os povos são descritos por São Mateus como “multidões cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”, isto é, uma multidão sem rumo de sentido e de pensamento, uma humanidade desiludida, sem uma orientação, um propósito global que dê verdadeira razão para viver, sonhar, ser bom e verdadeiramente empenhar a vida como um todo. O homem é assim: tem sede de um sentido para a existência e, no entanto, não o encontra, contentando-se com migalhas de pequenos projetos e e realização e nelas cansando o coração.
Compadecido, penalizado, o Senhor Jesus olha para estas multidões de ontem e de hoje... O que faz? Como o Senhor Deus, na antiga Aliança, forma um Povo. Chama os Doze, como alicerce do Seu novo Israel, um Povo que seja também Povo sacerdotal a serviço de todos os povos, de todas as multidões do mundo! Esse Povo é a Igreja; esse Povo somos nós, novo e definitivo Israel, do qual o antigo era imagem e profecia! Observai, caríssimos, que não será um Povo forte da sua própria força: será sempre formado por uns poucos operários! Sim, operários, aqui, são todos os cristãos, são todos os membros desse Povo! Observai que é o Senhor quem chama os operários, membros desse Povo, e, por isso, é preciso suplicar ao Senhor da messe do mundo que Ele mesmo chame, que Ele mesmo atraia, que Ele mesmo envie operários à Sua messe. Nunca esqueçamos: o Povo é do Senhor, os operários são chamados pelo Senhor e a colheita também pertence ao Senhor! Tudo é Dele; tudo é para Ele! Irmãos, o destino da Igreja não é ser maioria, não é se encher de poder e prestígio, não é sua própria glória, não é ser aplaudida pelo mundo! A Igreja não existe para si mesma, mas para ser ministra, testemunha e mensageira do Reino de Deus! Quantas vezes nos enganamos com estas coisas, ontem e hoje ainda!
Observai bem o significado das recomendações que o Senhor dá aos Seus operários, aos cristãos, a nós, à Igreja: Ele mesmo é o Senhor da obra de evangelização, Ele mesmo diz o traçado, o ritmo, o caminho. Não são nossos projetos, nossas técnicas, nossas medidas! Nós somos o Seu Povo, o Povo que Cristo veio reunir com o Seu sangue, com a Sua Morte amorosa e Ressurreição poderosa! Por isso o Pai entregou o Seu Filho: para que, salvos da ira, isto é, da situação miserável de pecado e perdição em que se encontra toda a humanidade, nós vivamos agora “por Sua Vida”, isto é, pela Vida divina, o Espírito divino do Cristo ressuscitado! É este o serviço sacerdotal do novo Povo de Deus, a Igreja de Cristo: levar ao mundo, a todos os povos, a todas a multidões “cansadas e abatidas” a Boa Notícia de que “Deus amou tanto o mundo, que entregou o Seu Filho único, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a Vida eterna” (Jo 3,16), como São Paulo nos disse com outras palavras na Epístola desta Missa.
Éramos pecadores, vivíamos segundo nossos pecados, seguindo e elogiando a índole deste mundo, “por natureza, como os demais, filhos da ira” (Ef 2,3), éramos fracos, éramos ímpios e Cristo foi entregue por nós, lavou-nos no Seu amor feito sangue e nos justificou, isto é, tornou-nos justos, amigos, diante de Deus, o Pai! Queridos no Senhor, o pecado, a dispersão humana não são uma brincadeira: “éramos inimigos de Deus”, diz-nos hoje o Apóstolo! É esta a realidade da humanidade sem Cristo! Não há escapatória! As Escrituras nos advertem todo o tempo sobre isto! Aqui não há apelo, não há disfarces, não há politicamente correto que mascare esta triste realidade! Se o fizermos, trairemos a Palavra de Deus, a Sua divina Revelação! É em Cristo que somos reconciliados, salvos, reunidos como novo Povo de Deus, que é a Igreja.
Mas, atenção: ser membro desse Povo santo, que é uma graça enorme, não nos confere privilégios ou superioridades diante dos demais! Somos, primeiramente, um Povo consagrado: pertencemos ao Senhor, não a nós mesmos, a ponto de o Apóstolo afirmar claramente: “Ninguém de nós vive e ninguém de nós morre para si mesmo, porque se vivemos, é para o Senhor que vivemos, e se morremos, é para o Senhor que morremos. Portanto, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,7s); somos o Povo sacerdotal, que tem como dever e missão proclamar o Reino que não é nosso, mas do Senhor; e fazê-lo não dos nossos modos, mas segundo aqueles modos e tempos e pensamentos do Senhor, que têm como critério o amor manifestado na Cruz e na Ressurreição. O anúncio é do Senhor, na força do Senhor e nos critérios do Senhor! Eis que enormes desafios para a Igreja atual! Como o Israel do Antigo Testamento, somos nós um Povo que vive da misericórdia de Deus e não deveria ter outro compromisso a não ser levar Deus ao mundo e o mundo a Deus, trazer a Vida divina e plena do Pai através do Filho, no Espírito e levar tudo ao Pai, pelo Filho no Espírito até que Deus seja tudo em todos! A missão da Igreja são as coisas de Deus, a voz da Igreja deve ser eco da Palavra de Deus, os gestos da Igreja devem ser os sacramentos da graça de Deus, os critérios da Igreja devem ser os critérios do Reino de Deus, tais como aparecem no Evangelho! Eis aí o Povo santo, o Povo escolhido, o Povo separado, o Povo sacerdotal, o Povo enviado, o Povo que traz em si a Vida da eternidade! É desta Vida que o Senhor fala, é esta Vida que Ele nos dá para reparti-la com o mundo, é com esta Vida divina e eterna o nosso compromisso!
Eis, pois, caríssimos Irmãos, o mistério da Igreja, da sua missão sagrada, o nosso mistério! Sim, porque a Igreja que é tudo isso, realiza-se concretamente nas nossas comunidades, nas nossas assembleias eucarísticas e em cada um de nós, na sua vida e nos seus desafios, enquanto caminhamos para a Pátria eterna. Que o Senhor nos dê a graça de sermos fieis, nós a Igreja deste atribulado e incerto terceiro milênio, a Igreja peregrina no mundo, sempre em situações tão mutáveis e, no entanto, a mesma Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica. Ao Senhor que nos chamou e jamais nos deixará, a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
sexta-feira, 12 de junho de 2020
A Eucaristia XI
A Eucaristia faz a Igreja ser corpo de Cristo. Neste corpo, formado por muitos membros, nem todos fazem a mesma coisa, mas cada um tem sua função, seu dom, seu modo específico de enriquecer e fazer crescer o corpo até a plenitude do Cristo Jesus. Assim, aqueles que, celebrando o Banquete eucarístico, formam um só corpo, assumem seu lugar de serviço no corpo de Cristo que é a Igreja. Quem não sabe e não quer servir, não serve para ser Igreja e não pode participar do Corpo do Senhor!
O número 34 da Ecclesia de Eucharistia afirma: “Enquanto durar a sua peregrinação aqui na terra, a Igreja é chamada a conservar e promover tanto a comunhão com a Trindade divina como a comunhão entre os fieis. Para isso, possui a Palavra e os sacramentos, sobretudo a Eucaristia; desta vive e cresce e ao mesmo tempo exprime-se nela. Não foi sem razão que o termo comunhão se tornou um dos nomes específicos deste Sacramento excelso”. A Celebração eucarística é o lugar, o momento, a ocasião em que a Igreja aparece de modo mais completo e verdadeiro porque ali, ela é unida ao Seu Senhor imolado e ressuscitado, ali, alimenta-se com o Maná espirituado, isto é, Alimento cheio de Espírito Santo, que a conforma sempre mais, sempre de novo ao Cristo, sua Cabeça, ali, os fieis crescem cada vez mais na conformação ao corpo eclesial e na união uns com os outros, como membros diversos do corpo único; ali, ainda, o Povo de Deus, reunido para escutar a Palavra e com fé responder o “Amém”, oferece ao Pai com Cristo, por Cristo e em Cristo, o Sacrifício perfeito e santo e, comungando no mesmo Corpo do Senhor, torna-se também ele corpo do Senhor e corpo no Senhor. Portanto, na Celebração, este corpo de Cristo que é a Igreja aparece todo unido e todo articulado num só Espírito Santo, mas também diversificado nos seus vários membros, com seus carismas e ministérios. Desse modo, unir-se na comunhão com o Corpo eucarístico de Cristo nos compromete a construir o Seu corpo que é a Igreja, cada um segundo o dom que a graça de Cristo Deus lhe concedeu. Da Eucaristia, portanto, brotam e na Eucaristia encontram lugar e sentido os diversos carismas e ministérios, todos para a edificação do corpo de Cristo.
É verdade que na sua realidade mais fundamental, a Igreja é um corpo de iguais, pois, pelo Batismo, todos têm a comum dignidade de filhos de Deus, chamados a viver o Evangelho na caridade e a testemunhá-lo diante do mundo pela palavra e pela vida. Mas, também é verdade que, no interior desse corpo, há diversidade de ministérios e carismas. A primeira grande diferenciação que aparece na Celebração é aquela entre os ministros ordenados, marcados pelo sacramento da Ordem e os demais membros do Povo de Deus. “Como ensina o Concílio Vaticano II, os fieis por sua parte concorrem para a oblação da Eucaristia, em virtude do seu sacerdócio real, mas é o sacerdote ministerial que realiza o Sacrifício eucarístico fazendo as vezes de Cristo e oferece-o a Deus em nome de todo o Povo. Por isso se prescreve no Missal Romano que seja unicamente o sacerdote a recitar a Oração eucarística, enquanto o Povo se lhe associa com fé e em silêncio. A afirmação, várias vezes feita no Concílio Vaticano II, de que o sacerdote ministerial realiza o Sacrifício eucarístico fazendo as vezes de Cristo (in persona Christi), estava já bem radicada no magistério pontifício. (...) A expressão in persona Christi quer dizer algo mais do que em nome, ou então “nas vezes” de Cristo. “In persona”, isto é, na específica e sacramental identificação com o Sumo e Eterno Sacerdote, que é o Autor e o principal Sujeito deste Seu próprio sacrifício, no que verdadeiramente não pode ser substituído por ninguém. Na economia de salvação escolhida por Cristo, o ministério dos sacerdotes que receberam o sacramento da Ordem manifesta que a Eucaristia, por eles celebrada, é um dom que supera radicalmente o poder da assembleia e, em todo o caso, é insubstituível para ligar validamente a consagração eucarística ao Sacrifício da Cruz e à Última Ceia” (Ecclesia de Eucharistia, 28s). É todo o Povo de Deus reunido para a Eucaristia quem celebra, como Povo sacerdotal, inserido no corpo eclesial de Cristo. Mas, é o sacerdócio ministerial que coloca o Povo sacerdotal em condição efetiva de oferecer o santo Sacrifício. Assim, com a unção do Espírito recebida não da assembleia, mas do próprio Senhor, pelo sacramento da Ordem, os ministros sagrados têm a capacidade de oferecer a Eucaristia com a Igreja e pela Igreja e, através dela, Povo sacerdotal, pelo mundo inteiro. Já esse Povo sacerdotal, sacerdócio do Reino, corpo do Senhor, que é a Igreja, participa dessa oferta trazendo ao Altar o seu sacrifício espiritual, isto é, uma existência vivida na potência do Santo Espírito, feita de lutas, lágrimas, alegrias e tristezas, de virtudes e esperanças. Tudo isso é oferecido com Cristo, através de Cristo e em Cristo em benefício do mundo inteiro.
Ora, esta participação de todos a todos compromete na edificação da Igreja e na construção do Reino de Deus neste mundo. Seja como ministro ordenado, leigo no mundo nas suas verias profissões, estados de vida ou ocupações, religiosos consagrados pelos votos, todos devemos com nossa vida e ação edificar o corpo do Senhor. Como todos participam da Eucaristia, todos têm o dever sagrado de assumir seu papel de batizado e crismado, abraçando amorosamente sua parte de responsabilidade na edificação do Reino de Deus. Seja solteiro, seja casado, seja religioso, seja secular, ninguém está dispensado de assumir seu serviço, isto é, seu ministério, na Igreja em favor do mundo.
Assim, a partir da Eucaristia celebrada por todos, aparece claramente que a Igreja é uma comunidade toda ministerial, isto é, toda formada por gente chamada a servir, como Cristo, que veio para servir, e na Eucaristia torna sempre presente o memorial de Sua vida dada por nós e pelo mundo inteiro como serviço de amor. Esta realidade é muito bem expressa nos próprios textos litúrgicos, quando se reza pelo Papa, o Bispo local, o Episcopado em geral, os ministros ordenados, todo o Povo de Deus “e todos aqueles que vos procuram de coração sincero” (Oração Eucarística IV).
Eis as consequências de tal realidade:
(1) Todo o modo de viver e de agir dos que participam da Eucaristia deve ter como objetivo a edificação do corpo do Senhor. Participando do Corpo eucarístico eles assumem o compromisso de tudo realizarem na vida para edificar o corpo eclesial do Senhor. Seria uma Eucaristia mentirosa participar do mesmo Pão e do mesmo Cálice e fechar-se em si mesmo, buscando seus próprios interesses e não a edificação comum da comunidade dos irmãos em Cristo, que é a Igreja. A este respeito, diz o Apóstolo que Cristo suprimiu na Sua carne (a da Cruz e a do Altar) a inimizade “a fim de criar em si mesmo um só Homem Novo, estabelecendo a paz e de reconciliar a ambos com Deus em um só Corpo por meio da Cruz, na qual Ele matou a inimizade” (Ef 2,15s). São Paulo fala na reconciliação que judeus e pagãos podem encontrar no Corpo do Senhor. Mais ainda: esta reconciliação, que é compreensão, partilha, amor fraterno, deve ser vivida e testemunhada pelos que já pertencem a este corpo, que é a Igreja e dele comungam na Eucaristia!
(2) A comunhão no mesmo Corpo eucarístico e a vivência no corpo que é a Igreja, fazem-nos experimentar a diversidade de dons e ministérios que o Espírito do Cristo suscita na Comunidade. O mesmo Espírito Santo que consagra o pão e o vinho eucarísticos – “Por isso, nós Vos pedimos que o mesmo Espírito Santo santifique estas oferendas, a fim de que se tornem o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, Vosso Filho e Senhor nosso” (Oração Eucarística IV), – consagra a Comunidade para que seja corpo de Cristo – “O Espírito nos uma num só corpo (Oração Eucarística II). É esse Espírito Santo quem suscita inúmeros carismas e ministérios na Igreja para a edificação do corpo do Senhor: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo... Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos. Com efeito, o corpo é um e, não obstante, tem muitos membros, mas todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, formam um só corpo. Assim também acontece com Cristo. Pois fomos todos batizados num só Espírito para ser um só corpo e todos bebemos de um só Espírito” (1Cor 12,4.7.12-13). É na Eucaristia que a Igreja aparece como comunidade toda articulada em ministérios e carismas para a edificação do corpo de Cristo. A Eucaristia deve ser o centro e o motivo da Comunidade viva, toda atuante, na qual todos sabem que são responsáveis pela Igreja e pela evangelização no ambiente e no modo que é próprio de cada um.
(3) Sendo assim, toda a atividade na Igreja, todo ministério, todo carisma, deve estar orientado não para a própria satisfação ou, o que é pior, para interesses e vaidades pessoais, mas unicamente para o crescimento do corpo de Cristo. Como o Cristo que Se imola no Altar para que todos tenham a Vida divina, e assim presta ao Pai o verdadeiro louvor, também os membros da Igreja devem imolar-se, deixando de lado seus interesses particulares em benefício da Comunidade dos irmãos. Este é o espírito verdadeiramente eucarístico de se viver como Igreja, comunhão na diversidade. Assim, todos se valorizam, todos se respeitam, mesmo com carismas diversos, ministérios variados e modos de pensar diferentes. Como no Corpo eucarístico, os vários grãos formam um só pão e os vários cachos de uva formam um só vinho, também a Comunidade que celebra o santo Mistério, é unida no Espírito Santo, respeitando toda a riqueza da diversidade, buscando sempre o crescimento do corpo do Senhor, que é a Igreja: “Há um só corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos. E Ele é que concedeu a uns ser apóstolos, a outros profetas, a outros evangelistas, a outros pastores e mestres, para aperfeiçoar os santos em vista do ministério, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4,4s.11-13).
(4) Se participando do mistério da Eucaristia, descobrimos e vivenciamos que somos membros de um só corpo, cada qual com seu carisma próprio e seu lugar na Comunidade, então compreendemos também que a Igreja é mistério, isto é, uma Comunidade reunida não por nossa vontade ou capricho, mas pelo Espírito do Filho para realizar o Reino do Pai. Esta consciência nos faz assumir nosso papel na Comunidade com santo temor e espírito de fé. Quem canta no coral, quem varre a igreja, quem visita os doentes, quem participa do conselho paroquial, quem coordena um grupo, quem prepara a celebração litúrgica, deve saber que faz isso como uma realização de sua vocação e batizado e crismado, membro ativo do corpo do Senhor porque participado Corpo eucarístico de Cristo no Altar da missa. Sem esta visão de fé, a Igreja não passaria de um clube, uma agremiação fundada na simpatia dos membros ou em interesses comuns. Mas não: o amor de Cristo, dado e recebido em comunhão, nos uniu no Santo Espírito!
(5) A Celebração eucarística, unindo-nos na variedade em torno do Corpo do Senhor e como corpo do Senhor, é sempre celebrada em comunhão com os ministros da unidade: o Papa, Bispo de Roma, como cabeça do Colégio dos Bispos, primeiro responsável pela unidade de toda a Igreja na fé e na caridade, e o Bispo local vigário de Cristo na sua Igreja diocesana. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, 26 exprimiu isso muito bem: “Em toda a comunidade de Altar unida para o Sacrifício, sob o ministério sagrado do Bispo, manifesta-se o símbolo daquela caridade e unidade do corpo místico, sem a qual não pode haver salvação. Nestas comunidades, embora muitas vezes pequenas e pobres, ou vivendo na dispersão, está presente Cristo, por cuja virtude se consocia a Igreja una, santa católica e apostólica”. Jamais haveria uma Celebração eucarística lícita sem a comunhão na fé e na caridade com o Sucessor de Pedro e com o Bispo local. Tinha razão Santo Agostinho, ao afirmar que a Eucaristia é “Sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade”.
Se levarmos a sério esta riqueza, toda a nossa vivência de Igreja, toda a nossa atividade na Comunidade tornam-se meio união com o Senhor morto e ressuscitado e com os irmãos no mistério do Corpo do Senhor, unidos num só Espírito, para a glória do Pai: “Há um só corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4,4s).
A Eucaristia X
Continuemos a pensar a eucaristia como mistério de comunhão...
Estas exigências de comunhão provocadas pela Comunhão eucarística fazem com que aqueles que não estão em comunhão com o Senhor e com a Igreja no âmbito da vida não possam comungar no âmbito sacramental: “Que cada um examine a si mesmo antes de comer desse Pão e beber desse Cálice” (1Cor 11,28).
O que rompe a comunhão? Basicamente, o pecado, pois fratura a união com Cristo e com a Igreja, Seu Corpo.
Assim, quem se encontra em pecado grave contra o Senhor e contra os irmãos, deve, portanto, aproximar-se antes do sacramento da Reconciliação para poder participar do Corpo do Senhor. Nunca esqueçamos de que o pecado, como acabamos de afirmar, é ruptura de comunhão com Deus em Cristo e com o Seu Corpo, que é a Igreja: “Nesta linha, o Catecismo da Igreja Católica estabelece justamente: ‘Aquele que tiver consciência dum pecado grave, deve receber o sacramento da Reconciliação antes de se aproximar da Comunhão’. Desejo, por conseguinte, reafirmar que vigora ainda e sempre há de vigorar na Igreja a norma do Concílio de Trento que concretiza a severa advertência do apóstolo Paulo, ao afirmar que, para uma digna recepção da Eucaristia, ‘se deve fazer antes a confissão dos pecados, quando alguém está consciente de pecado mortal’. A Eucaristia e a Penitência são dois sacramentos intimamente unidos. Se a Eucaristia torna presente o sacrifício redentor da cruz, perpetuando-o sacramentalmente, isso significa que deriva dela uma contínua exigência de conversão, de resposta pessoal à exortação que São Paulo dirigia aos cristãos de Corinto: ‘Suplicamo-vos em Nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus’ (2Cor 5,20). Se, para além disso, o cristão tem na consciência o peso dum pecado grave, então o itinerário da penitência através do sacramento da Reconciliação torna-se caminho obrigatório para se abeirar e participar plenamente do sacrifício eucarístico” (Ecclesia de Eucharistia, 36-37). É sempre útil recordar que os pecados graves dizem respeito também à vida da comunidade cristã: quem divide a comunidade, quem não aceita construí-la com seus dons e talentos, quem se fecha sobre si mesmo, desprezando a comunidade, que é corpo do Senhor, torna-se inapto para participar do Corpo do Senhor. Do mesmo modo, aquele que rompe gravemente com o irmão, a ponto de não mais reconhecê-lo como tal, também não deve participar do Corpo eucarístico de Cristo.
Um outro nível de comunhão, exigido pela Eucaristia, é o da comunhão na mesma doutrina recebida dos Apóstolos e a comunhão com os legítimos pastores da Igreja, de modo particular com o Bispo de Roma, sucessor de Pedro e os Bispos em comunhão com ele. A quebra dos vínculos visíveis de comunhão torna impossível a comunhão no mesmo Corpo eucarístico do Senhor. A este propósito, assim se exprime a Encíclica de São João Paulo II: “A Eucaristia, como suprema manifestação sacramental da comunhão na Igreja, exige, para ser celebrada, um contexto de integridade dos laços, inclusive externos, de comunhão. De modo especial, sendo ela como que a perfeição da vida espiritual e o fim para que tendem todos os sacramentos requer que sejam reais os laços de comunhão nos sacramentos, particularmente no Batismo e na Ordem sacerdotal. Não é possível dar a comunhão a uma pessoa que não esteja batizada ou que rejeite a verdade integral de fé sobre o Mistério eucarístico. Cristo é a Verdade, e dá testemunho da verdade (cf. Jo 14,6; 18,37); o sacramento do Seu Corpo e Sangue não consente ficções” (Ecclesia de Eucharistia, 38). Já no longínquo século I, Santo Inácio de Antioquia dizia: “Vós vos reunis numa única fé e em Jesus Cristo, ao partirdes um único pão, que é remédio de imortalidade”. Para São João Crisóstomo, “esta é a unidade da fé: quando todos formamos uma só coisa, quando todos juntos reconhecemos o que nos une”. A unidade da fé recebida no Batismo é o pressuposto para sermos admitidos na unidade da divina Eucaristia, porque através dela entramos em comunhão com Aquele que acreditamos ser consubstancial ao Pai, segundo a fé que temos Nele. Como se poderia, portanto, comungar Cristo juntamente com pessoas que sobre Ele têm um credo diferente? Tornar-nos-íamos réus do Corpo e Sangue do Senhor (cf. 1Cor 11,27). A Igreja, que é mãe, sente dor e amor por todos os homens, pelos não crentes, os catecúmenos, os que andam longe da fé, mas não tem o poder de dar a comunhão aos não batizados, nem aos que não professam a fé católica e apostólica bem como aos que se encontram objetivamente numa situação contrária à moral cristã. Recebendo o único Pão, entramos nesta única vida em Cristo e entre nós e tornamo-nos assim um único Corpo do Senhor. Fruto da Eucaristia é a união dos cristãos, antes dispersos, na unidade do único Pão e do único corpo eclesial. É por esse mesmo motivo, que a comunhão eucarística só pode ser recebida na unidade com toda a Igreja, superando toda a separação religiosa ou moral. Nunca se deve esquecer de que a Eucaristia não é simplesmente uma experiência pessoal, mas de cada cristão como membro do único Corpo eclesial do Senhor, unido à Cabeça, que é Cristo Senhor, e aos demais membros, todos vivificados e unidos na comunhão do Espírito Santo.
É preciso, pois, ainda dizer com toda franqueza que não vale o raciocínio dos que querem que nossos irmãos separados comunguem da nossa Eucaristia, dizendo que nós já temos certa comunhão ou ainda que a Eucaristia ajuda a fazer a comunhão e a superar as divisões. Tudo isso é verdadeiro, mas não é argumentação válida para permitir a intercomunhão. São João Paulo II adverte: “Acelebração da Eucaristia não pode ser o ponto de partida da comunhão, visando a sua consolidação e perfeição. O Sacramento exprime esse vínculo de comunhão quer na dimensão invisível, quer na dimensão visível que implica a comunhão com a doutrina dos Apóstolos, os sacramentos e a ordem hierárquica. A relação íntima entre os elementos invisíveis e os elementos visíveis da comunhão eclesial é constitutiva da Igreja enquanto sacramento de salvação. Somente neste contexto, tem lugar a celebração legítima da Eucaristia e a autêntica participação nela. Por isso, uma exigência intrínseca da Eucaristia é que seja celebrada na comunhão e, concretamente, na integridade dos seus vínculos” (Ecclesia de Eucharistia, 35).
Nos primeiros séculos de difusão do cristianismo, dava-se a máxima importância ao fato de em cada cidade existir um só Bispo e um só Altar, como expressão da unidade do único Senhor. Cristo dá-Se na Eucaristia todo inteiro e em todo o lugar e, por isso, em toda a parte onde for celebrada, ela torna presente plenamente o mistério de Cristo e da Igreja como mistério de Comunhão com o Senhor e entre os irmãos, membros do mesmo corpo. De fato, Cristo, que forma em todo o lugar um único corpo com a Igreja, não pode ser recebido na discórdia. Precisamente porque Cristo é inseparado e inseparável dos Seus membros, a Eucaristia só tem sentido se celebrada com toda a Igreja e num ambiente de caridade fraterna, de comum profissão da mesma fé católica, de participação ativa de todos e cada membro na vida da comunidade, de cuidado com os fracos e necessitados, de respeito para com os que caíram e estão sofrendo. São exigências da comunhão, exigências da Eucaristia!
Esta Sacramento deve encher os cristãos de saudades: saudade da comunhão íntima com o Senhor na vida de cada dia, saudade da comunhão com os irmãos na comunidade eucarística e com os irmãos que, por toda a terra, formam um só corpo, na comunhão do Corpo de Cristo, saudade dos irmãos que, por um motivo ou outro, não podem comungar eucaristicamente, saudade dos irmãos separados por não estarem conosco na profissão de fé integral, saudade, enfim, de que toda a humanidade possa, um dia, reconhecer a Cristo como Pão que alimenta nosso corpo e nossa alma, o seu Pai como nosso Deus e Pai, o seu Espírito como vida da nossa vida que nos reúne ao redor da mesma Mesa na qual toda a humanidade se reconheça como uma só família. E esta saudade deve tornar-se compromisso de oração, de comportamentos e ações que nos impilam concretamente àquela unidade do Corpo de Cristo que o Senhor tanto quer para a Sua Igreja.
Ainda continuaremos...
A Eucaristia IX
Entramos, com este tópico, em mais um aspecto do mistério da Eucaristia. Ela é sacramento de comunhão. Vejamos.
Assim se exprime São João Paulo II: “O Concílio Vaticano II veio recordar que a Celebração eucarística está no centro do processo de crescimento da Igreja. De fato, depois de afirmar que ‘a Igreja, ou seja, o Reino de Cristo já presente em mistério, cresce visivelmente no mundo pelo poder de Deus’, querendo de algum modo responder à questão sobre o modo como cresce, acrescenta: ‘Sempre que no Altar se celebra o Sacrifício da Cruz, no qual Cristo, nossa Páscoa, foi imolado (1Cor 5, 7), realiza-se também a obra da nossa redenção. Pelo sacramento do Pão eucarístico, ao mesmo tempo é representada e se realiza a unidade dos fieis, que constituem um só Corpo em Cristo (cf. 1Cor 10, 17)” (Ecclesia de Eucharistia, 21). Eis: comungando no mesmo pão e no mesmo cálice, Corpo e Sangue do Senhor, pleno do Espírito Santo, nós somos misteriosa e realmente unidos a Cristo e, no Seu Espírito, unidos uns aos outros. É esta contínua união de todos os comungantes com o Senhor e entre si que faz a Igreja manter-se unida e crescer no único Espírito. Eis o motivo pelo qual podemos dizer que a Eucaristia faz a Igreja. Por isso, o celebrante suplica ao Pai que “o Espírito nos uma num só Corpo” (Oração Eucarística II). De que corpo se fala aqui? Do Corpo eucarístico do Senhor e, ao mesmo tempo do corpo eclesial do Senhor: comungando o Corpo eucarístico, tornamo-nos corpo de Cristo, que é a Igreja. De tal modo este Sacramento é sinal e instrumento de unidade, que o Papa São Leão Magno exortava: “Comei deste Pão e não vos separareis; bebei deste Cálice e não vos desagregareis”. A Eucaristia é, portanto, sacramento, isto é, sinal eficaz, da comunhão da Igreja.
Há, então, duas direções nesta comunhão que a Eucaristia cria. Primeiro, uma direção vertical: comungando, somos unidos a Cristo, entramos numa íntima, misteriosa e realíssima comunhão com Ele: “A incorporação em Cristo, realizada pelo Batismo, renova-se e consolida-se continuamente através da participação no Sacrifício eucarístico, sobretudo na sua forma plena que é a comunhão sacramental. Podemos dizer não só que cada um de nós recebe Cristo, mas também que Cristo recebe cada um de nós. Ele intensifica a Sua amizade conosco: ‘Chamei-vos amigos’ (Jo 15,14). Mais ainda, nós vivemos por Ele: ‘O que come de Mim viverá por Mim’ (Jo 6,57). Na comunhão eucarística, realiza-se de modo sublime a inabitação mútua de Cristo e do discípulo: ‘Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós’ (Jo 15,4)” (Ecclesia de Eucharistia, 22). Esta comunhão misteriosa e real com o Senhor, que é Cabeça da Igreja, gera uma segunda comunhão, numa direção horizontal: comunhão profunda com os outros, isto é, os irmãos que comungando do mesmo Corpo e Sangue tornam-se “con-corpóreos” e “con-sanguíneos” em Cristo: “Pela comunhão eucarística, a Igreja é consolidada igualmente na sua unidade de corpo de Cristo. A este efeito unificador que tem a participação no Banquete eucarístico, alude São Paulo quando diz aos coríntios: ‘O pão que partimos não é a comunhão do Corpo de Cristo? Uma vez que há um só pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão’ (1Cor 10,16-17). Concreto e profundo, São João Crisóstomo comenta: ‘Com efeito, o que é o pão? É o Corpo de Cristo. E em que se transformam aqueles que o recebem? No Corpo de Cristo; não muitos corpos, mas um só Corpo. De fato, tal como o pão é um só apesar de constituído por muitos grãos, e estes, embora não se vejam, todavia estão no pão, de tal modo que a sua diferença desapareceu devido à sua perfeita e recíproca fusão, assim também nós estamos unidos reciprocamente entre nós e, todos juntos, com Cristo’. A argumentação é linear: a nossa união com Cristo, que é dom e graça para cada um, faz com que, Nele, sejamos parte também do Seu corpo total que é a Igreja. A Eucaristia consolida a incorporação em Cristo operada no Batismo pelo dom do Espírito (cf. 1Cor 12,13.27)” (Ecclesia de Eucharistia, 23).
Por tudo isso, a Igreja, desde a Antiguidade, foi chamada Comunhão dos Santos, porque nasce da comunhão daqueles que participam das Coisas santas, isto é, do Corpo e Sangue de Cristo. O Catecismo da Igreja Católica afirma que a Eucaristia é chamada também de “comunhão, porque é por este sacramento que nos unimos a Cristo, que nos torna participantes do Seu Corpo e do Seu Sangue para formarmos um só corpo denomina-se ainda ‘as Coisas Santas’ – este é o sentido primeiro da ‘comunhão dos santos’ de que fala o Símbolo dos Apóstolos – Pão dos anjos, Pão do Céus, remédio de imortalidade, viático...” (n. 1331).
Esta comunhão é real, primeiro porque cria e desenvolve em todos os comungantes a mesma Vida do Cristo Senhor, morto e ressuscitado, de modo que a Igreja é o Corpo do Senhor todo vivificado pelo Santo Espírito. É real também porque estimula, pela graça mesma do Senhor, a que vivamos na concórdia, na compreensão, no respeito mútuo, no serviço fraterno e na paz. Além do mais, a co-participação na mesma Eucaristia, exige de nós a solidariedade, em repartir os bens espirituais e materiais com os irmãos. É no contexto eucarístico que devem ser entendidas as palavras dos Atos dos Apóstolos, que são a discrição ideal da Igreja de todos os tempos: “Eles se mostravam assíduos ao ensinamento dos apóstolos, e à comunhão fraterna, è fração do pão e às orações. Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-nos entre todos, segundo a necessidade de cada um” (2,42.44). A comum Fração do Pão eucarístico estava ligada à comunhão na mesma doutrina dos apóstolos e exigia, como consequência, a partilha dos bens, de modo que, em qualquer tempo, uma comunidade que parta e reparta o Pão eucarístico, mas se negue a colocar em comum talentos, ideias e bens, procurando suprir, o quanto possível, os mais fracos e carentes, é uma comunidade indigna de celebrar a Eucaristia. Este Sacramento santíssimo, exige a coerência de procurar construir sempre a vida de comunhão nos seus mais diversos aspectos: comunhão de pensamentos, comunhão de oração, comunhão de talentos, comunhão de bens... Eis algumas das lições e exigências da Eucaristia. Comungar no Altar e não comungar na vida seria uma mentira sacrílega! Ora, como a comunhão é sempre ameaçada pelo pecado que gera o egoísmo, raiz de toda divisão, a Eucaristia vai nos dando a misteriosa força do Espírito de unidade e diversidade para que cresçamos nesta comunhão, que é a Igreja: “Nós vos suplicamos que, participando do Corpo e Sangue de Cristo, sejamos reunidos pelo Espírito Santo num só corpo” (Oração Eucarística II).
Continuaremos ainda em outros textos seguintes.






