quinta-feira, 16 de abril de 2020

Cristo, nossa Páscoa eterna

Eis uma parte da belíssima e comovente Homilia de Páscoa do santo Bispo Melitão de Sardes, do século II:

Muitas coisas foram preditas pelos profetas sobre o mistério da Páscoa, que é Cristo, a Quem seja dada a glória pelos séculos dos séculos. Amém (cf. Gl 1,5). (Observação minha: Mais que uma festa, a Páscoa é uma Pessoa. No Antigo Testamento, chamava-se “Páscoa” ao cordeiro pascal, comer a Páscoa era comer o cordeiro pascal judaico. Agora, nossa Páscoa é Cristo, o Cordeiro imolado. É Ele quem nos faz passar deste mundo para o Pai).
Ele desceu dos Céus à terra para curar a enfermidade do homem; revestiu-Se da nossa natureza no seio da Virgem e Se fez homem; tomou sobre Si os sofrimentos do homem enfermo num corpo sujeito ao sofrimento, e destruiu as paixões da carne; Seu espírito, que não pode morrer, matou a morte homicida (Observação minha: Aqui, é necessário ter cuidado com a linguagem teológica. “Espírito”, neste contexto, não é a alma de Jesus nem o Espírito Santo, mas sim Sua Pessoa divina, a segunda da Santíssima Trindade, que assumiu nossa natureza humana).

Foi levado como cordeiro e morto como ovelha; libertou-nos das seduções do mundo, como outrora tirou os israelitas do Egito; salvou-nos da escravidão do demônio, como outrora fez sair Israel das mãos do faraó; marcou nossas almas com o sinal do Seu Espírito e os nossos corpos com Seu Sangue. Foi Ele que venceu a morte e confundiu o demônio, como outrora Moisés ao faraó. Foi Ele que destruiu a iniquidade e condenou a injustiça à esterilidade, como Moisés ao Egito. Foi Ele que nos fez passar da escravidão para a liberdade, das trevas para a Luz, da morte para a Vida, da tirania para o Reino sem fim, e fez de nós um sacerdócio novo, um Povo eleito para sempre. Ele é a Páscoa da nossa salvação (Observação minha: É importante notar como toda a Páscoa de Cristo é compreendida como sendo o cumprimento e plenitude da Páscoa dos judeus. Tudo, na Páscoa judaica, era preparação para a Páscoa de Cristo, que é causa e modelo da nossa Páscoa. Um cristão, se deseja compreender os textos e eventos da Antiga Aliança, tem que relê-los sempre à luz do Cristo nosso Deus e Páscoa definitiva. Aliás, esta é a miséria sem cura da leitura das Escrituras feita nas seitas pentecostais. É um caso sem solução, um desastre total!).

Foi Ele quem tomou sobre Si os sofrimentos de muitos: foi morto em Abel; amarrado de pés e mãos em Isaac; exilado de sua terra em Jacó; vendido em José; exposto em Moisés; sacrificado no cordeiro pascal; perseguido em Davi e ultrajado nos profetas. Foi Ele o cordeiro que não abriu a boca, o cordeiro que não abriu a boca, o cordeiro imolado, nascido de Maria, a bela ovelhina; retirado do rebanho, foi levado ao matadouro, imolado à tarde e sepultado à noite; ao ser crucificado, não Lhe quebraram osso algum, e ao ser sepultado, não experimentou a corrupção; mas ressuscitando dos mortos, ressuscitou também a humanidade das profundezas do sepulcro (Observação minha: Que beleza de leitura da Escritura! O Autor, inspirado na liturgia da Igreja e no modo cristão de ler a Bíblia, vê a prefiguração de Cristo em todo o Antigo testamento! Tudo preparava para Ele, tudo era profecia sobre Ele, tudo se cumpre Nele e, misteriosamente, Ele já estava presente, de certo modo, em tudo isto! Ele é a Palavra abreviada, que sintetiza tudo quanto Deus nos disse e fez por nós!).


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Ao Ressuscitado, Amigo dos Homens, com amor e admiração!

Para a sua oração, eis alguns belíssimos textos da Liturgia Bizantina.

Aquele que quis ser por nós crucificado na carne,
padeceu, foi sepultado e ressuscitou dentre os mortos.
A Ele cantamos e clamamos:
ó Cristo, firma a Tua Igreja na verdadeira fé
e, na Tua bondade e amor pelos homens,
pacifica a nossa vida!

Rei do Céu e da terra, Tu, que o universo não pode conter,
no Teu amor pelos homens quiseste sofrer a Cruz.
Quando desceste à Profundezas, o Inferno ficou desolado,
mas as almas dos justos Te receberam com alegria.
Ao ver-Te nos Infernos, ó Deus criador, Adão ressuscita!
Verdadeira maravilha!
Como pôde experimentar a morte, Aquele que é nossa Vida?
Mas Ele quis fazer Sua luz brilhar sobre o universo,
que eleva a voz para cantar:
Ressuscitado dentre os mortos, Senhor, glória a Ti!

Apesar dos selos colocados sobre a tumba
e dos soldados guardando Teu corpo imaculado,
Tu ressuscitaste ao Terceiro Dia,
dando a Vida ao mundo, ó Deus salvador,
e do alto do Céu, os Anjos Te cantam como à Fonte da Vida:
Glória à Tua Ressurreição, ó Cristo!
Glória ao Teu Reino!
Glória à Tua obra de salvação, Senhor, Amigo dos homens!

Cravado na Cruz, ó Caminho universal,
e contado entre os mortos, ó Senhor imortal,
ao Terceiro Dia Tu ressuscitaste, ó Salvador,
para erguer Adão da poeira do sepulcro.
Os poderes dos Céus também Te aclamam, ó fonte da Vida:
Glória a Tua divina Paixão, ó Cristo!
Glória à Tua Ressurreição!
Glória à Tua condescendência, ó único Amigo dos homens!


domingo, 12 de abril de 2020

Homilia para o Dia da Páscoa

Hoje é o dia mais solene do ano: é a Páscoa!

Aquele que vimos envolto em sangue, tomado pelas dores da morte na Sexta-feira, Aquele que velamos respeitosamente no silêncio da morte no Sábado, agora proclamamo-Lo Ressuscitado, Vivo, Vitorioso!

Hoje pela manhã, “quando ainda estava escuro”, nossas irmãs foram ao túmulo e encontraram-no aberto e vazio! Elas correram apavoradas: foram contar ao nosso líder, Simão Pedro. Ele foi também ao túmulo com o outro discípulo, aquele a quem Jesus amava: viram as faixas de linho no chão... O túmulo estava vazio... O que acontecera? Roubaram o corpo? Os judeus levaram-no? Que houve? Que ocorrera?

Na tarde de hoje, dois outros irmãos nossos estavam voltando para Emaús, sem esperança nenhuma: voltavam para sua vida de cada dia; estavam deixando a Comunidade dos discípulos, a Igreja que ia nascer: Jesus morrera, tudo acabara, a esperança fora embora... Mas, um Desconhecido começou a caminhar com eles, e lhes falava sobre tudo quanto a Escritura havia predito a respeito do Messias: Sua pregação, Suas dores, Sua derrota, Sua morte, Sua vitória final... E o coração daqueles dois começou a encher-se de nova esperança, a arder de alegria! Eles, agora, começavam a compreender: tudo quanto havia acontecido com Jesus não fora simplesmente um cego absurdo, uma loucura, um sinal de maldição! Tudo fazia parte de um incrível projeto de amor do Pai: “Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na Sua Glória?” E, o que é mais impressionante: ao sentarem-se à mesa, o Desconhecido tomou a iniciativa, não esperou o dono da casa: pegou o pão e deu graças, partiu-o.... Coisa impressionante, irmãos: os olhos daqueles dois se abriram, e eles o reconheceram: era Jesus! Jesus vivo! Jesus reconhecido nas Escrituras e no partir o pão! Como mais uma vez, acontecerá agora, nesta Missa! Os dois voltaram, imediatamente a Jerusalém e, lá, a alegria foi maior ainda: os apóstolos confirmaram: “Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão Pedro!”

Irmãos, por esta fé nós vivemos, por esta fé somos cristãos, por esta fé empenhamos a vida toda! Neste Dia santíssimo, Jesus entrou na Glória do Pai. Nós continuamos aqui; Ele já não mais está preso a dia algum, a tempo algum, a limitação alguma: Ele entrou na Eternidade de Deus, na plenitude do Seu Deus e Pai! Irmãos, escutai: a Morte, hoje, foi vencida! Jesus abriu o caminho, Jesus atravessou o tenebroso e doloroso mar da Morte, Jesus entrou no Pai! Jesus “passou”, fez Sua Páscoa!

Mas, não só: Ele fez isso por nós, por cada um de nós: “Vou preparar-vos um lugar... a fim de que, onde Eu estiver, estejais vós também” (Jo 14,2-3). Ele, que morrera da nossa Morte, tem agora o poder de nos dar a Sua vitória. Para isso, irmãos, Ele nos deu, no Batismo, o Seu Espírito de ressurreição, o mesmo no qual o Pai O ressuscitou na madrugada de hoje!

Irmãos, eis a Páscoa de Cristo e nossa! Na certeza desta Vida nova, renovemos nossa própria vida! “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos para alcançar as coisas do Alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus!” Vivamos uma Vida nova em Cristo! Crer na Sua Ressurreição, viver Sua Vida de ressuscitado é, já agora, viver numa perspectiva nova, viver com o olhar a partir da Eternidade. São Paulo nos diz, para a Festa de hoje: “Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Celebremos a Festa, não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade ou da perversidade, mas com os pães sem fermento de pureza e de verdade”. É o pão sem fermento, pão ázimo, da Eucaristia que vamos comer daqui a pouco; pão que é o próprio Cordeiro imolado, Cordeiro pascal, Cordeiro que tira o pecado do mundo! Nós vamos entrar em comunhão com Ele, vivo e vencedor!

Irmãos, Irmãs!

            Pelo dia de hoje, não mais tenhamos medo do pecado, da maldade e da morte!
            Pela festa deste hoje bendito, abramos nosso coração a Deus e aos irmãos!
            Pela Páscoa que estamos celebrando, perdoemo-nos, acolhamo-nos e demo-nos a paz!
            
            Terminemos com as comoventes palavras da Liturgia Bizantina:

Dia da Ressurreição,
resplandeçamos, ó povos!
Páscoa do Senhor! Páscoa!
Cristo Deus nos fez passar
da morte à Vida, da terra ao Céu,
entoando o hino de Sua vitória!
Purifiquemos os sentidos e veremos
a Luz inacessível da Ressurreição
a Cristo resplandecente
que diz: Alegrai-vos!

Exultem os Céus e a terra.
Exulte o universo inteiro, visível e invisível:
Cristo ressuscitou. Alegria eterna!
Exultem os Céus e exulte a terra,
faça festa todo o universo
visível e invisível.
Alegria eterna,
porque Cristo ressuscitou!

Dia da Ressurreição,
resplandeçamos, ó povos:
Cristo ressuscitou dentre os mortos,
ferindo com Sua Morte a própria morte
e dando a Vida aos mortos em seus túmulos.
Ressurgindo do túmulo,
como havia predito
Jesus nos deu a Vida eterna e a grande misericórdia!

Este é o Dia que o Senhor fez:
seja ele nossa alegria e nosso gozo!
Páscoa dulcíssima,
Páscoa do Senhor, Páscoa!
Uma Páscoa santíssima nos amanheceu.

Páscoa! Plenos de gozo,
abracemo-nos todos!
Ó Páscoa, que dissipas toda tristeza!
É o Dia da Ressurreição!
Irradiemos alegria por tal Festa,
abracemo-nos mutuamente
e chamemos de irmãos até àqueles que nos odeiam;
perdoemos-lhes tudo
por causa da Ressurreição,
e gritemos sem cessar dizendo:

Cristo ressuscitou dentre os mortos,
ferindo a morte com a Sua Morte
e dando a Vida aos mortos em seus túmulos!

Amados Irmãos, queridas Irmãs, Surrexit Dominus vere! O Senhor ressuscitou verdadeiramente! Aleluia! Feliz Páscoa!


sábado, 11 de abril de 2020

Homilia para a Vigília Pascal - ano a

Irmão caríssimos, Cristo, o nosso Senhor, o nosso Cordeiro pascal, suspenso na Cruz como homem de dores, feito nosso Sumo Sacerdote, nosso Salvador, Ele, Cristo, ressuscitou!
Ouçamos atentamente, nesta Noite santíssima - Noite testemunha do túmulo vazio, Noite bendita, clara como o dia -, ouçamos as santas palavras do Evangelho! Era após o sábado dos judeus, sábado da antiga criação, sábado da antiga Lei, da antiga Aliança. Era “após o sábado”... (v. 1). Era o raiar de um dia novo, “o primeiro dia” (v. 1), como na criação, quando o Senhor Deus disse: “Haja luz” (Gn 1,3) e houve luz e Deus viu que era bom (cf. Gn 1,2). Era o raiar, o despontar luminoso do primeiro dia do mundo, do mundo novo, mundo Daquele que veio para fazer novas todas as coisas (cf. 2Cor 5,17; Ap 21,5)!
E as mulheres, nossas irmãs, vieram ao jardim; vieram “para ver o sepulcro” (v. 1), para ver o lugar de um morto, Daquele que fora crucificado (cf. v. 5)!
E o Anjo do Senhor, poderoso, forte, fulgurante como um relâmpago (cf. v. 3), anunciou-lhes: “Ele não está aqui, pois ressuscitou, como havia dito!” (28,5) Eis a notícia, eis o Evangelho, eis a causa da nossa alegria, a razão da nossa esperança, eis a certeza da nossa vida: o nosso Salvador, Jesus Cristo, venceu a morte, saiu dela, levantou-Se dela, entrou na Glória do Pai: Cristo ressuscitou como havida dito! Ele é potente, Ele é verdadeiro, Ele é fiel, Ele é vitorioso, Ele ressuscitou do meio dos mortos! Ele, o mesmo que havia dito que ressuscitaria, dissera também que nos prepararia um lugar e onde Ele estivesse em Glória, estaríamos nós também (cf. Jo 14,1-3).
Alegrai-vos! Alegremo-nos! Alegre-se a Igreja! Rejubile a humanidade! Cristo ressuscitou e, Nele, nós ressuscitaremos! Cristo venceu a morte e, Nele, nós venceremos! Cristo entrou na plenitude da Vida divina e, Nele e com Ele, nós também entraremos! Páscoa de Cristo Jesus, nossa Páscoa, Páscoa do mundo!

Irmãos, observai o Evangelho que escutamos: tudo é surpresa, é alegria, é pressa, é colocar-se a caminho! Era necessário que as mulheres, nossas irmãs, corressem até os discípulos e lhes anunciassem a grande novidade: Ele ressuscitou! Venceu a morte! Ele os precederia na Galileia, na região mestiça, habitada por judeus e gentios, “Galileia das nações” (Mt 4,15) Seria lá, na Galileia que representa todos os povos, lá, no meio do mundo, não mais em Jerusalém, não mais nos limites do judaísmo, do Templo, da Lei de Moisés, a partir de agora será no meio das nações que o Ressuscitado espera os Seus; é lá que poderão vê-Lo! Ele os precede, vai adiante, os espera, os acompanha, os protege, estará sempre com eles, lá, no mundo! É assim que também nós poderemos encontrá-Lo, experimentar a Sua presença e Sua companhia. Lá poderemos comprovar a Sua palavra: “Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28,20).
Queridos irmãos, eis o que nos diz o Senhor: somente quando tivermos coragem de testemunhá-Lo diante dos outros, de irmos ao mundo, aos outros, é que poderemos vê-Lo, isto é, experimentá-Lo vivo, com toda a Sua força! Isto vale para cada discípulo, isto vale para toda a Igreja, sobretudo para os seus pastores! Vamos, pois, corramos “comovidos” (v. 8), como as mulheres, para anunciar que o Senhor ressuscitou! Porque elas foram, porque não receberam a notícia com medo, com dúvidas, com covardias e hesitações, mas com coragem e entusiasmo, Jesus veio ao encontro delas (cf. v. 9), o Senhor lhes deu a Sua alegria e entusiasmo pascal: “Alegrai-vos! Não temais” – Ele lhes disse (vv. 9s). E as confirmou na missão de toda a Igreja: “Ide anunciar aos Meus irmãos que se dirijam à Galileia; lá Me verão!” (v. 10).

Caríssimos, Cristo, por nós, foi crucificado; Cristo, por nós, morreu; Cristo ressuscitou! E, agora, chama-nos de “Meus irmãos”! Caríssimos, o nosso Irmão Jesus ressuscitou! Ele é o Vivente (cf. Ap 1,18), Ele é o Senhor (cf. Fl 2,11)! Ide, anunciai com a palavra e com a vida esta mensagem pascal ao mundo! E que a luz pascal ilumine todas as nossas trevas e as escuridões do mundo! Feliz Páscoa a todos! Surrexit Dominus vere! Alleluia!


quarta-feira, 8 de abril de 2020

Retiro Quaresmal 2020/38 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Quinta-feira Santa
Meditação XXXVII: Sem beleza nem formosura, não fizemos caso Dele

Reze o Salmo 119/113-120
Agora, medite e reze Is 52,13 – 53,12, tendo diante dos olhos Jesus Cristo, o Homem de Dores que nos salvou.

1. Este é o último e mais impressionante dos quatro cânticos do Servo Sofredor. De tão impressionante e de tanto nos recordar as dores do Senhor Jesus, muitos o chamam de “a Paixão segundo Isaías”. Na verdade, estes poemas – sobretudo este último – ajudaram sobremaneira os cristãos a compreenderem o sentido dos padecimentos e mortes do Senhor. Então, com veneração e religioso respeito, vamos acompanhar as palavras de Isaías que, em última análise, são palavras do próprio Deus!

2. Leia os vv. 13-15. Aí, o Senhor Deus apresenta o Seu Servo nas Suas dores. O cântico todo será uma longa explicação das dores e da morte do Servo: Sua paixão será motivo da realização do desígnio do Senhor: a salvação de Israel e de toda a humanidade. Por isso mesmo, este primeiro versículo é de triunfo e glória: o Servo vai prosperar, será elevado no mais alto. Compare com Fl 2,9-11. Observe o contraste extremo: do mesmo modo que os povos e os grandes deste mundo ficaram pasmos, sem compreender o sofrimento desse Servo desfigurado – “Ele não tinha mais figura humana e Sua aparência não era mais a de homem” –, do mesmo modo, o mundo permanecerá silencioso e estupefato diante da exaltação do Servo. Observe que é o caminho cristão: da maior humilhação à maior exaltação (cf. Ef 4,10). Veja, por exemplo, o Sl 22/21. Este foi o salmo que o Senhor rezou na Cruz. Observe como é uma oração de profunda dor, mas também de certíssima esperança no triunfo final: “Quanto a Mim, sou verme, não homem. Eu Me derramo como água e Meus ossos todos se desconjuntam” (vv. 7.15); “de Ti vem o Meu louvor na grande assembleia, cumprirei Meus votos frente àqueles que O temem. E Eu vivo para Ele, Minha descendência o servirá!” (vv. 23.26.30) É o mesmo espírito da pergunta do Eclesiástico: “Quem confiou no Senhor e ficou desiludido? Ou quem perseverou no Seu temor e foi abandonado? Ou quem clamou por Ele e Ele o desprezou?” (2,10/11). Eis! Nunca duvidemos: É bom confiar no Senhor! É bom esperar sempre no Senhor! O Nome Dele é Fidelidade, o Nome Dele é Amor que ressuscita!

3. Agora, entrando no capítulo 53, os vv. 1-11a descrevem de modo impressionante e comovente a dor do Servo. Logo de início, o v. 1 reconhece que foi o “Braço do Senhor” que agiu em toda esta dor e ignominia do Servo! Daí a tremenda admiração! Como é possível? Como Deus permitiu isto ao Seu Servo fiel? Como é possível que o Senhor permita deste modo o sofrimento, a humilhação, o abandono, a violência e a morte vergonhosa de Quem Lhe é fiel? Mais ainda: como é possível que o Senhor utilize tal caminho para o seu desígnio de salvação? Pensando bem, trata-se de questões que ainda hoje vêm ao nosso coração. Reze o Sl 10/9,22-39. Como é difícil enxergar a presença de Deus na dor! Como é penoso proclamar no sofrimento e na e humilhação que o Senhor Deus é presença de amor!

4. O cântico começa, então, a descrever os tremendos sofrimentos físicos e morais do Servo: 
=> Ele era pequeno e frágil aos olhos do mundo, mergulhado numa existência precária e sofrida (cf. vv. 2-3);
=> Sua situação humilhante tinha um sentido reparador e vicário, ou seja, de representar, tomar o lugar: “Eram nossos sofrimentos que Ele levava sobre Si, nossas dores que Ele carregava” (v. 4). Esta afirmação é importantíssima: pela primeira vez nas Escrituras se afirma de modo explícito a ideia de um sofrimento tomado para salvar a outros! Leia atentamente os vv. 5-7.8c! Esta será uma chave essencial para os cristãos compreenderem o sentido do que aconteceu com Jesus nosso Senhor!
=> O v. 5 afirma claramente que o castigo do Servo nos traz o shalom de Deus, isto é, a amizade como Senhor, a comunhão com o Eterno, em uma palavra, a salvação! Com Suas dores, o Servo nos reconciliou com Deus!
=> No v. 6 afirma-se de modo impressionante que “o Senhor fez cair sobre Ele a iniquidade de todos nós!” Veja os vv. 4.6.10-12. Observe que estas ideias são exatamente as mesmas presentes no Novo Testamento ao descrever o sentido da Paixão do Senhor! 
=> No v. 7 aparece, de modo comovente, a mansidão e paciência do Servo, comparado, agora, a um cordeiro pacífico. Aqui é necessário recordar que o cordeiro e a ovelha são animais típicos para os sacrifícios a Deus no Templo. O sofrimento do Servo é um sacrifício a Deus! Ainda neste versículo aparece a importante afirmação que o Servo entregou-Se livremente: “livremente humilhou-Se!” Leia Jo 10,17-18.
=> Vale a pena insistir na afirmação: “Ferido pela transgressão do Seu Povo!” (v. 8)
=> O v. 9 é impressionante: insiste na inocência radical do Servo e, ao mesmo tempo, na Sua solidariedade com os pecadores. Aqui aparecem os ímpios e os ricos, quase como sinônimos, enquanto tendem a ser descrentes, violentos, devassos, enganadores (cf. v 12). Leia 2Cor 5,21. Nesta solidariedade, assumindo os pecados do mundo, o Servo redime o mundo inteiro! (cf. ainda o v. 12)

5. Agora os vv. 10-12. Aqui aparece o triunfo final do Servo! Porque foi fiel ao Senhor Deus até a morte e para além da morte, o Eterno O glorificou e deu-Lhe uma posteridade! Vejamos:
=> Aparece claramente, com total transparência, a ideia do “sacrifício expiatório” (v. 10)! Nunca é demais repetir: esta ideia de alguém oferecer a vida para expiar os pecados de outros e, sobretudo, do Povo de Israel e até da humanidade, simplesmente não existia ideia no Antigo Testamento! É uma ideia central, vital, para o cristianismo!
=> Ainda no v. 10, duas ideias preciosas: (a) a oferta do Servo faz parte do misterioso desígnio do Senhor Deus! Leia Jo 3,16; Rm 8,31-34; 1Pd 2,21-25. (b) para além da entrega até a morte, o Servo terá uma descendência, uma multidão ser-lhe-á dada como herança e plenitude!
=> Finalmente, o triunfo, nos vv. 11-12: depois do fatigoso trabalho do sofrimento até a escura morte, o gozo pleno e farto da luz; depois do conhecimento de Deus, isto é, do reconhecimento do senhorio do Altíssimo, o fruto de ter salvo, justificado uma multidão! Outra ideia maravilhosa: o um que salva os muitos!
=> Por último, o Servo torna-Se o eterno intercessor, mais que Moisés, que Samuel, que Jeremias, os grandes intercessores de Israel! Pois somente o Servo entregou a própria vida numa doação total: “Tendo amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).

6. Para rezar, nada melhor que reler todo este canto com o conselho do Autor da Epístola aos Hebreus no coração: “Assim, meus santos irmãos e companheiros da vocação celeste, considerai atentamente Jesus, o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa profissão de fé!” (3,1).


Retiro Quaresmal 2020/39 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Tríduo Pascal
Meditação XXXVIII: Entregue, morto e ressuscitado!

Depois da Meditação desta Quinta-feira pela manhã, a Meditação XXXVI, ofereço-lhe aqui, ainda no âmbito deste Retiro Quaresmal, um esquema de leituras da Sagrada Escritura para os dias do Santo Tríduo Pascal. Seguindo-o, você estará unido ao Cristo na celebração solene dos mistérios de Sua Paixão, Morte e Ressurreição. A proposta que faço é exigente; requer fôlego, perseverança e amor ao Senhor! Mas, a recompensa será imensa: com as Escrituras nas mãos, você entrará no Coração do Cristo, naquilo que Ele sentiu e viveu nesses dias e, assim, poderá trazer os mesmos sentimentos do Cristo Jesus (cf. Fl 2,5). Coragem e bom proveito!
Lembre: este esquema é a continuação do Retiro Quaresmal... Vou colocá-lo por dia do Tríduo!
Uma observação: Os números dos salmos depois da barra são da Vulgata (e da Ave Maria). Os números antes da barra são da Bíblia hebraica (e da Bíblia da CNBB, de Jerusalém do Peregrino e da TEB).

Quinta-feira Santa

Neste dia toda a atenção da Igreja se volta para o Cristo que na Ceia celebrou ritualmente a Páscoa com Seus discípulos: “Desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de sofrer...” (Lc 22,15). Aquilo que o Senhor fizera nos gestos rituais (lavar os pés aos Seus, entregar-Se no pão e no vinho) na Quinta, Ele realizou realmente, como evento de salvação, na Sexta-feira. Recordemos que o Senhor fez Sua despedida no contexto da ceia pascal judaica, na qual os judeus faziam memorial da saída do Egito, libertação do povo de Israel. Jesus, agora, sairia do mundo, passando (fazendo a Páscoa) para o Pai, após atravessar o profundo e tenebroso mar da morte. Por tudo isso, para a Quinta-feira são recomendáveis os seguintes textos:

(A) Para serem lidos antes da Missa na Ceia do Senhor, preparando-se para a Celebração:

1. Jo 13,1 – 14,31
É a emocionante e solene narração da Ceia segundo João. Procure unir-se aos sentimentos de Cristo; procure entrar no clima de despedida e comoção daquela Ceia derradeira.

2. Sl 113/112 – Sl 118/117
Estes seis salmos formam o Hallel (Louvor: Hallelu-Iah: louvai o Senhor) que os judeus cantavam ao término da Ceia pascal judaica. Jesus cantou-os neste dia, recordando tudo quanto Deus fizera pelo Seu Povo ao tirá-lo do Egito: “Depois de terem cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras” (Mc 14,26). Se não for possível rezar estes salmos antes da Missa na Ceia do Senhor, que eles sejam rezados logo após.


(B) Para serem lidos após a Missa na Ceia do Senhor:

Depois da Missa na Ceia do Senhor, a Igreja leva muito a sério o convite que o Salvador nos faz: "Permanecei aqui e vigiai Comigo!" (Mt 26,38)... Você pode fazer as leituras seguintes na igreja, diante das Espécies eucarísticas, no altar da reposição... até a meia-noite...

3. Jo 15,1 – 17,26
Estes discursos de Jesus devem ser lidos após a Missa na Ceia do Senhor e dos Salmos do Hallel. Procure lê-los com o coração, devagar, curtindo, como que em câmara lenta, cada palavra do Senhor que Se entregou. É um discurso de despedida que termina com a Oração Sacerdotal de Jesus. Antes de ser entregue, Ele Se oferece livremente, conscientemente, amorosamente, por nós e por nós reza ao Pai. Foi assim, entregue, oferecido, imolado, que Ele Se deu na Eucaristia e na cruz.

4. Salmos 6, 32/31, 38/37, 51/50, 102/101, 130/129 e 143/142
Após a Ceia, Jesus entrou numa profunda agonia no Horto das Oliveiras. Seria ótimo terminar o dia com estes sete salmos. São os salmos penitenciais da Igreja. Reze-os por você, pela Igreja e pelo mundo inteiro, pelos quais o Cristo sofreu e Se entregou à morte. Reze-os como se fosse o próprio Cristo rezando pela sua voz. É verdade que Ele não teve nenhum pecado, mas nunca esqueça: Ele assumiu os nossos: "Aquele que não cometeu pecado, Deus O fez pecado por nós, para que Nele nos tornemos justiça de Deus" (2Cor 5,21).


Sexta-feira da Paixão do Senhor

Neste santíssimo dia de jejum e abstinência de carne, devemos manter um respeitoso recolhimento, unindo-nos piedosamente Àquele que por nós Se entregou até a morte. Nada de atividades inúteis, nada de músicas profanas, nada de televisão dispersiva, nada de conversas inúteis! O que proponho aqui é realmente pesado, tornado leve e suave somente pelo desejo de estar com o Senhor, de a Ele unir-se neste dia sagrado, de Dele não se apartar nem ao menos por um instante!

(A) Antes da Celebração da Paixão

Pela manhã, preparando-se para participar à tarde da Solene Ação Litúrgica da Paixão do Senhor, reze o seguinte:

1. Is 42,1-9; 49,1-7; 50,4-10; 52,13 – 53,12
São os quatro cânticos do Servo Sofredor. Eles prenunciam a Paixão do Senhor e revelam os sentimentos do Seu Coração bendito. Esses cânticos devem ser rezados com o “coração na mão”, com toda unção e devoção!

2. Salmos 21/22), 31/30 e 69/68
Destes três salmos, dois (o 21 e o 31) foram citados por Jesus na cruz. Os três revelam os Seus sentimentos, Ele, que tomou sobre Si todos os nossos pecados! Estes salmos devem ser rezados como que emprestando nossa voz ao próprio Cristo, reproduzindo em nós os Seus sentimentos benditos!

(B) Após a Celebração da Paixão do Senhor:

3. Salmos 3, 5, 7, 10, 13/12, 17/16, 25/24, 27/26, 28/27/, 35/34, 38/37, 42/41, 43/42, 54/53, 55/54, 56/55, 5756, 59/58, 61/60, 63/64, 70/69, 71/70, 86/85, 88/87, 120/119, 140/139, 141/140, 142/141, 143/142
Após a celebração da Paixão, ainda na Sexta-feira, procure rezar todos estes salmos. São muitos, mas recorde que este é um dia de penitência e oração. Estes salmos devem ser rezados em união com o Cristo, que assumindo nossos pecados, tomou toda nossa dor, todo nosso medo, toda nossa infidelidade, toda nossa fraqueza. Repito: se você rezar todos estes salmos, terá a graça imensa de compreender por dentro os sentimentos do Cristo na Sua Paixão e Morte... e irá dormir em paz, como Ele: “Em paz Me deito e logo adormeço, porque só Tu, Senhor, Me fazes viver em segurança” (Sl 4,9).


Sábado Santo

Neste dia tremendo, a Igreja permanece em profundo silêncio, unida a Maria no dia mais difícil de sua vida: dia de solidão imensa, de vazio sem fim.... Hoje, a Virgem é chamada de "Nossa Senhora da Soledade", da solidão... 
Mas, este é também dia de esperança. Os mais generosos devem jejuar. Deve-se manter um respeitoso recolhimento; nada de atividades mundanas e dispersivas!
Hoje, é proibida a comunhão eucarística até mesmo aos doentes. Somente os doentes moribundos, às portas da morte, podem comungar.
A Igreja une-se a Cristo na Sua descida aos infernos: Ele entrou de verdade na situação de cadáver, de defunto, de nada, Ele desceu aos Infernos, ao Sheol, ao Hades, à situação de morte... Durante todo o dia, vá distribuindo os seguintes textos (alguns deles poderiam ser rezados na igreja, diante da Cruz que ontem fora apresentada na Solene Celebração da Paixão e deverá estar exposta na igreja pelo menos até o meio da tarde):

1. Todo o Livro das Lamentações
Neste livro o Profeta canta a miséria e a esperança de Jerusalém e a sua própria. É Cristo e a Igreja, quem cantam sua miséria e esperança, bem como a dor e a esperança da humanidade toda e de cada um de nós! Reze as Lamentações durante todo o dia, repartindo-as em cinco partes, de acordo com os capítulos.

2. Salmos 4, 16/15 e 139/138
Estes três salmos devem ser rezados no Sábado à tardinha ou no início da noite, mas antes da Santa Vigília Pascal. Os três já prenunciam a Ressurreição... É Cristo falando neles: “Em paz Me deito e logo adormeço, porque só Tu, Senhor, Me fazes viver em segurança” (Sl 4,9), “Bendigo ao Senhor que Me aconselha, e mesmo à noite, Meus rins Me instruem. Meu Coração exulta e Minha carne repousa em segurança.. Ensinar-Me-ás o caminho da Vida” (Sl 16/15, 79) e “Senhor, Tu conheces quando Me deito (na Morte) e Me levanto (na Ressurreição)... sobre Mim Tu pões a Tua mão!” (Sl 139/138,2.5).


Domingo de Páscoa

Neste Dia santíssimo – o mais sagrado de todos, prenúncio do Dia sem fim, do Dia final – pode-se retomar os salmos da Santa Vigília Pascal!
Durante o dia todo, vá saboreando os textos que narram as aparições do Ressuscitado. Não tente compará-los nem fazer uma sequência histórica dos fatos. É impossível!
Aqui, cada texto tem sua mensagem, sua característica própria, sua vibração, seu encanto...
São textos para serem curtidos com pura emoção e gratidão, com pura louvação ao Deus fiel, que ressuscitou o seu Filho dentre os mortos, como primícias da ressurreição nossa e do mundo! Leia-os na ordem que eu coloquei:

Mt 28,1-20
Depois reze o Salmo Pascal por excelência: 118/117: "Este é o Dia que o Senhor fez para nós!"

Lc 24,1-53
Depois reze o Sl 30/29

Mc 16,1-20
Depois reze o Sl 96/95

Jo 20,1 – 21,25
Depois reze o Sl 98/97

Conclua tudo unindo-se à Igreja do Céu, que rejubila e rejubilar-se-á para sempre com estes hinos de louvor e pascal exultação:
Ap 4,11;  5,9-10.12.13;  6,10.12;  11,15.17-18;  12,10-12;  19,6-8...

E, se ainda tiver forças, leia Ap 21,1 - 22,5

E, desde já, uma feliz e santa Páscoa do Senhor!


Retiro Quaresmal 2020/37 - "Felizes os que se abrigam no Senhor!" (Sl 2,12)

Quarta-feira Santa
Meditação XXXVI: O Discípulo obediente e forte

Reze o Salmo 119/105-112
Agora, medite e reze Is 50,4-11, tendo diante dos olhos Jesus Cristo, o Senhor.

1. Este é o terceiro dos quatro cânticos do Servo Sofredor...  É o Servo Quem fala... Logo no início, no v. 4, uma afirmação surpreendente! O Servo afirma que o Senhor Lhe deu uma “língua de discípulo”. Discípulo é o que aprende, o que escuta, todo aberto ao que o mestre fala. O surpreendente aqui é que não diz que o Senhor deu um ouvido ou um coração de discípulo, mas uma língua! Em outras palavras: tudo quanto o Servo diz é porque assim ouviu do Senhor, do Santo de Israel! Como não pensar no nosso Salvador, que tantas vezes insistiu: “Minha doutrina não é Minha: Eu digo como o Pai Me ordenou! Meu alimento é fazer a vontade do Pai!” (cf. Jo 7,17; 12,49s) Assim, o Servo; assim Jesus nosso Senhor: totalmente aberto, totalmente disponível, totalmente pobre ante a vontade santíssima do Pai! Pense nisto... Pergunte ao seu próprio coração: você tem tido ouvidos abertos à vontade do Senhor Deus? Procura converter-se a vontade do Senhor ou, ao invés, com desculpas esfarrapadas, faz sempre a sua própria vontade? Leia Hb 10,5-7.

2. Jesus, nosso Senhor, nunca tomou ares de astro, de “pop star”! Não: tudo Nele remetia ao Pai. Era o Pai que importava, era a vontade do Pai, a glória do Pai, o interesse do Pai, o Reino do Pai que realmente contavam! E esta atitude do nosso Salvador foi a atitude fundamental de toda a Sua existência na nossa carne: “De manhã em manhã Ele Me desperta, sim, desperta o Meu ouvido para que Eu ouça como os discípulos!” (v. 4) O Senhor Jesus foi grande, foi livre precisamente porque nunca procurou Sua própria glória, Sua própria vontade, Seu próprio interesse, mas somente a vontade do Pai: “Eu vim, ó Deus, para fazer a Tua vontade!” Por isso mesmo, Ele teve que aprender a obedecer, conforme diz a própria Escritura (cf. Hb 5,8). E isto custou; foi um duro aprendizado, com as dolorosas circunstâncias da vida: a cada manhã, a cada nova ocasião, o Pai Lhe foi abrindo os ouvidos! Que mistério, este da obediência amorosa do Filho, do ajustamento contínuo da Sua vontade humana à vontade do Pai! Obediência por amor, obediência no amor, obediência que levou ao derramamento do próprio sangue! Por isso mesmo, pela Sua santíssima obediência, Seu ministério foi fecundo e tornou-se consolo, salvação e libertação para nós e para o mundo inteiro: “para que Eu soubesse trazer ao cansado uma palavra de conforto” (v. 4). Eis: foi para a nossa salvação, para nosso conforto no Coração do Santo de Israel que o Filho Se submeteu!
Adoremos este mistério! Imitemos o que adoramos! Recebamos a graça do que imitamos no concreto da nossa vida! Unido a Jesus nosso Senhor, reze o Salmo 40/39.

3. Agora, os tremendos vv. 5s... É caro, sempre foi, o preço da fidelidade, da obediência ao Senhor! Porque o Servo foi fiel, porque não recuou diante da missão que o Santo Lhe dera, teve como recompensa a rejeição, os flagelos, a abjeção e a ignomínia, a incompreensão e a solidão moral! Como não pensar em Jesus, o Servo Sofredor, inocente, manso e fiel ao Pai? Ainda hoje, todo aquele que Lhe quiser ser fiel, tem um preço a pagar, às vezes dentro da Sua própria Igreja (cf. Mt 10,34-36)! O preço que se paga pode ser a incompreensão, a solidão moral e afetiva, o velado desprezo dos demais, a crítica e a zombaria sob a capa de piedade e zelo pastoral... E tudo isto por parte dos próprios irmãos na fé... Leia e reze, pensando em Jesus nosso Senhor, rejeitado pelo Seu Povo, pensando nos que sofrem pela fidelidade ao Senhor e ao Seu Evangelho, Jr 15,10-11.15-18: aí, o Profeta aparece em crise, querendo mesmo deixar sua missão... Deus o responde repreendendo-o e exortando-o a deixar de lado o que é vil, o que é menos importante, indo adiante no essencial da sua missão... Leia Jr 15,19-21!

4. Leia agora os vv. 7-9... Impressionante, surpreendente! O Servo, mesmo sofrido, homem de dores, maltratado, flagelado, tem uma atitude triunfal! Loucura? Insanidade? Falta de realismo? Alienação maluca, provocada por alucinação e idiotice religiosa? Não! Capacidade de ver e avaliar com os olhos da fé, na perspectiva de Deus! Força, segurança, certeza fundada Naquele que é o Deus fiel, o Santo de Israel! “O Senhor virá em Meu socorro! O Senhor defenderá a Minha causa! Ainda que todos Me condenem, se o Senhor Me absolver, se Ele estiver ao Meu lado, por que temer? Por que vacilar? Por que duvidar do caminho que escolhi e para o qual fui escolhido?” Observe, no Servo, a profunda convicção do triunfo e da permanência em Deus por parte daquele que a Ele se confia e, por outro lado, a ilusão, a fugacidade, daqueles que se voltam contra o Senhor e Seu Servo. Pense no contraste entre a Sexta-feira e o Sábado Santo, por um lado, e o Domingo da Ressurreição, por outro! – Senhor, os que Te esperam não perecem, não se apagam na sua existência, mas brilham como o sol ao amanhecer! “Eu tranquilo vou deitar-Me e na paz logo adormeço, pois só Vós, ó Senhor Deus, dais segurança à minha vida!” (Sl 4). Você tem realmente confiado no Senhor?

5. Agora, leia os vv. 10s. O cântico termina com uma exortação que é também um desafio: Quem crê realmente no Deus de Israel? Quem é discípulo desse Servo feito trapo humano, homem de dores? Pois bem: que mesmo nas trevas da vida, o discípulo do Servo coloque, como o Mestre, a sua confiança no Senhor, Nele tome arrimo, Nele alicerce a sua vida! Que consolo, que exortação impressionante: venha o que vier na vida, estejamos na treva mais densa, se fixarmos os olhos nesse Servo bendito, se unirmos nosso coração ao Dele, não perderemos o rumo, não seremos tragados pelas ondas da morte e chegaremos nos braços do Deus Santo, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Mas, quanto aos que, de modo autossuficiente, fazem pouco do Santo de Israel e do Seu Servo, serão consumidos como palha inútil no próprio fogo de sua descrença e rebeldia de uma vida sem sentido, sem consistência e sem rumo. Pense nisto, meu Irmão! Pense nisto! Tome arrimo no Senhor, siga o Servo, Jesus nosso Senhor, e nada o derrubará, nada irá tirar o sentido da sua existência e o prumo da sua vida!

6. Louvando e bendizendo o Senhor que é fiel, reze, contemplando, Is 51,12-16...