sábado, 15 de fevereiro de 2020

Um coração para conhecer-Te

“Que é necessário fazer para ser salvo?” – perguntou um monge.
E o ancião respondeu: “Tem um coração e serás salvo!” 

O coração é o homem em suas raízes mais profundas, é aquele núcleo da personalidade, a sede dos pensamentos, da consciência, dos afetos mais profundos, ali, onde se pode dizer “eu” e “sim”, porém também dizer “tu”.
O coração é aquele lugar onde o homem desarticulado e dividido pode, por fim, habitar consigo mesmo, reconhecer-se, reconhecer o Senhor, os irmãos e orar de verdade: “Volta ao teu coração; observa o que sentes, e verás que és imagem de Deus”, dizia Santo Agostinho.

O primeiro passo para caminhar para Deus é conhecer-se, reconhecendo que temos um coração doente: dúbio, dividido, múltiplo, petrificado, necessitado de ser unificado na paz e na lembrança do Senhor, que o encherá de ternura e quebrá-lo-á com o arrependimento até que se converta num coração de carne, trabalhado pela Palavra de Deus, regado e semeado pelo Seus Espírito dado continuamente nos sacramentos da Igreja.

É necessário rezar como o Salmista: “Ensina-me Teus caminhos, Senhor, e caminharei segundo a Tua verdade; unifica meu coração para temer o Teu Nome. Eu Te agradeço de todo o coração, Senhor meu Deus, vou dar glória ao Teu Nome para sempre” (Sl 85,11s). Só um coração unificado no caminho do Senhor pode temê-Lo, isto é, amá-Lo de verdade, com delicadeza, humildade, reverência, fazendo da vida um louvor de glória para o Senhor.
Então, sim, de um coração assim, brotarão também a paz e o bom odor de Cristo (cf.2Cor 2,15), que o homem redimido pelo Cristo, transfigurado pelo Seu Espírito e renovado à Sua imagem bendita, levará aos seus irmãos!


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A Igreja, nas mãos do Senhor

A Igreja não é uma empresa e a obra de evangelização não é a oferta eficiente de um produto à venda... O que sustenta a Igreja santa de Cristo não somos nós com nossas peripécias e piruetas pastorais, com nossas novidades pouco fieis ao Senhor, com nossa genialidade religiosa e inventiva. Nada disso!

É a graça de Deus, é a potência do Espírito do Ressuscitado que nos guia, que sustenta os discípulos do Senhor, que conduz pelos caminhos da história a Esposa do Cordeiro.

Muitas vezes, diante das dificuldades pastorais, diante da descristianização de nossa sociedade, diante da secularização ateia que vemos alastrar-se, preocupamo-nos tanto e esquecemos que há Alguém sentado no Trono dos Céus, que o Cordeiro venceu e tem nas mãos o livro da história, que o Espírito do Ressuscitado está presente no coração do mundo...

Não somos nós, os cristãos, os senhores da história; não somos nós os que dão um rumo à Igreja... É o Senhor, somente o Senhor!

Certamente, que devemos anunciar o Evangelho, certamente que devemos nos empenhar de modo inteligente e dedicado para que o mais possível de pessoas conheçam o Cristo que o Pai nos enviou e Nele encontrem a Vida em abundância, a Vida eterna... Mas, tudo isto sem estresse, sem a angústia de pensar que somos nós quem salvaremos o mundo...

Sempre me impressiona e inspira a visão dos antigos Padres da Igreja, aqueles santos doutores que viveram nas primeiras gerações do cristianismo. Eles não pensavam que um dia o mundo todo seria cristão ou que toda a humanidade haveria de crer em Jesus, o Cristo de Deus. O que eles queriam era anunciar o Senhor, fazer com que o Seu Nome ecoasse por toda a terra e que em todos os lugares houvesse uma pequena comunidade de cristãos - a Santa Igreja - que anunciassem a Palavra, dela vivessem, celebrassem os santos sacramentos por eles mesmos e pelo mundo inteiro e fossem, onde estivessem, sal e luz. Somente isto!

Várias vezes tenho insistido nesta ideia e cada vez sou mais convicto disto! Quando penso no esforço enorme para enchermos nossas igrejas a qualquer custo, quando vejo certas inculturações e certos diálogos com o mundo que não passam de traição à fé disfarçada de boa vontade, quando testemunho padres fazendo absurdos e dizendo que essas coisas são válidas porque enchem as igrejas, quando observo a secularização em nosso clero e nos nossos religiosos com o pretexto de estarmos mais próximos do povo, quando constato os tantos projetos e escritos e o tão pouco de abandono humilde, orante e silencioso nas mãos do Senhor, penso o quanto estamos fora do foco...

É quando silenciamos diante do Senhor, quando olhamos, com o coração na mão, a Sua Cruz, quando celebramos os Seus mistérios na sagrada liturgia, que, então, com suave alegria, compreendemos que entendemos pouco, que podemos quase nada e que não passamos de amados e simples instrumentos nas mãos do Senhor. Não sabemos por onde o nosso bendito e santo Salvador vai guiar a Sua Igreja, não sabemos quantos serão os filhos da Igreja daqui a cem anos... O que sabemos é que Ele estará lá, conosco, guiando-nos, fidelíssimo, consolando-nos e enchendo-nos da doce certeza da Sua Ressurreição!

Era a manhã do Sábado Santo de 1980, logo após o café, quando disse à minha família que iria entrar no seminário. Naquela ocasião, meu pai conversou comigo quase até a hora do almoço. Deu-me, então, um conselho do qual nunca esqueci, nunca esquecerei: que eu fizesse o melhor que estivesse ao meu alcance como padre, que eu não poupasse minhas forças, energias e talentos no serviço do Senhor; mas, que nunca me preocupasse com o resultado, que não me impressionasse com ele, que deixasse tudo nas mãos do Senhor... Tenho certeza de que meu pai não recorda de nada disso que me disse... Mas, eu recordo e sei, com certeza certa, que, naquela manhã, o Senhor falou por ele...

Hoje, passados tantos anos, quando escuto os debates, quando leio as análises, quando vejo as iniciativas pela evangelização, quando constato as soluções artificiais e pouco piedosas e fieis, recordo, sereno, daquelas palavras... Olho o Senhor, o Crucificado, que fracassou na Cruz e venceu, porque foi fiel e obediente ao Pai até o fim... Lembro, então, daquelas palavras do meu pai e daquelas outras, do cântico de nossas comunidades: “Lança a semente na terra, não será em vão; não te preocupe a colheita: plantas para o irmão”. Respiro fundo, olho para o meu Senhor, e cheio de paz, sorrio dos desafios e, feito menino meio despreocupado, sigo adiante... A verdade é que ainda hoje, como Bispo, guardo no coração a mesma esperança e a mesma certeza dos dias da minha juventude, quando disse aos meus pais que iria abraçar o sacerdócio, entregando minha vida ao meu Senhor e Salvador...
Eis os sentimentos que levo no coração constantemente e confio, com a graça de Deus, que os levarei sempre...


domingo, 2 de fevereiro de 2020

Homilia para o V Domingo Comum - ano a

Is 58,7-10
Sl 111
1Cor 2,1-5
Mt 5,13-16

Hoje, no Evangelho, escutamos umas frases de Jesus que nos são velhas conhecidas, tão velhas, que é arriscado não significarem muita coisa: “Vós sois o sal da terra; vós sois a luz do mundo” – diz-nos o Senhor! Pois bem, com unção e humildade, como se as ouvíssemos pela primeira vez, escutemos, procuremos compreender e acolhamos estas afirmações, para encontrarmos nelas a Vida e vivermos de verdade!

“Vós sois o sal da terra!” O sal, na Escritura, aparece como o elemento que dá sabor, purifica e conserva, tornando perenes e duradouros os alimentos... Daí a expressão “aliança de sal”, isto é, “uma aliança perene aos olhos do Senhor” (Nm 18,19). Por causa dessa pureza e perenidade, é que Israel deveria ajuntar o sal a toda oferta que fizesse ao Senhor Deus: “Salgarás toda a oblação que ofereceres, e não deixarás de pôr na tua oblação sal da aliança de teu Deus; a toda a oferenda juntarás uma oferenda de sal a teu Deus” (Lv 2,13).
Pois bem, irmãos caríssimos, vós sois o sal que dá sabor, pureza e conservação ao mundo diante de Deus! Sois a pitadinha de sal que torna o mundo uma oferenda agradável e aceitável ao Senhor! Sois tão pequenos, tão poucos, tão frágeis, tão impotentes, tão tolos, tão fundamentalistas, tão anacrônicos, aos olhos do mundo! Lembrai-vos da palavra do Apóstolo: “Entre vós não há muitos sábios de sabedoria humana nem muitos poderosos nem muitos nobres... Deus escolheu o que o mundo considera como estúpido, para assim confundir o que é forte; Deus escolheu o que o mundo considera sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para, assim, mostrar a inutilidade do que é considerado importante... É graças a Ele que vós sois em Cristo..” (1Cor 1,26-31).
Sim, sois essa pitadinha de nada, esse tico desprezível de sal... E, no entanto, sois o sabor, a purificação, a conservação da aliança entre Deus e o mundo! Sois, em Cristo Jesus, o Povo sacerdotal! Por isso, a nós, o Senhor ordena: “Tende sal em vós mesmos” (Mc 9,50); em outras palavras: uni-vos a Mim, ao Meu sacerdócio, à Minha vida entregue ao Pai como amor que se entrega para a Vida do mundo!
Lembremo-nos do conselho de São Paulo: “Exorto-vos, portanto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: esse é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12,1-2). Era este o significado daquela pitadinha de sal que o sacerdote colocou nos nossos lábios no momento do nosso Batismo, quando nos tornamos membros do Povo da aliança, povo sacerdotal. Colocando-nos o sal, ele recordou as palavras de Jesus: “Vós sois o sal da terra!” No entanto, não nos iludamos: somente seremos sal, se permanecermos unidos a Cristo! Sem Ele, seremos insípidos, seremos como o mundo, sem sabor e para nada serviremos, “senão para sermos jogados fora e pisados pelos homens”.

“Vós sois a luz do mundo!” – Que afirmação impressionante! Um só é a luz: Aquele que disse de Si próprio: “Eu sou a Luz do mundo!” (Jo 8,12). Como pode, então, dizer agora que nós somos luz? Escutemos: “Eu sou a Luz do mundo; quem Me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da Vida!” (Jo 8,12). Eis: se em Cristo – e somente Nele – somos sal da Aliança selada na Cruz, também somente na Sua luz, seguindo Seus passos, tornamo-nos luz. É isso que nos afirma o Apóstolo: “Outrora éreis treva! Agora, sois luz no Senhor! Andai como filhos da Luz!” (Ef 5,8). Por nós mesmos não somos sal, mas insípidos; por nós mesmos não somos luz, mas trevas tenebrosas! Mas, em Cristo, damos sabor ao mundo e somos reflexos da Luz do Senhor! Não somos luz, mas iluminados pela Luz de Cristo, refletiremos a Luz sobre o mundo tenebroso, como a lua que, sem ter luz própria, mas iluminada pela luz do sol, ilumina de modo belíssimo a noite escura...

Portanto, meus caros, tenhamos cuidado: somente seremos sal se nos deixarmos salgar pelo Senhor no cadinho da provação e da participação na Sua Cruz; somente seremos luz se nos deixarmos iluminar pela Luz fulgurante que brota da Sua Cruz! Que o cristão não busque outro sal ou outra luz, a não ser o Cristo e Cristo na Sua humildade, na Sua pobreza, no Seu serviço, na Sua disponibilidade total em relação ao Pai: “Não julguei saber coisa alguma entre vós, a não ser Jesus Cristo, e Este, crucificado!” Aquilo que passa da Cruz do Senhor, que foge da Cruz do Senhor, que procura outro caminho e outra lógica, que não a da cruz que conduz à ressurreição, não salga e não ilumina! Então, que brilhe a Luz de Cristo em nossa vida e em nossas obras! Que o nosso modo de viver dê novo sabor a este mundo tão insosso pelo pecado. Se no nosso modo de viver formos sal e luz, cumprir-se-á em nós a palavra do Profeta: “Então, brilhará tua luz como a aurora e a Glória do Senhor te seguirá!”

Eis a nossa missão, eis a nossa vocação, eis a ordem que o Senhor nos dá! Agora, compete a nós! Como nos perguntava Paul Claudel, poeta francês, convertido a Cristo na metade do século XX: “Ó vós, cristãos, que tendes a Luz, que fazeis com essa Luz?” Ó irmãos, ó irmãs! “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos Céus!” Que o Senhor no-lo conceda por Sua graça. Amém!


sábado, 1 de fevereiro de 2020

Homilia para a Festa da Apresentação do Senhor

Ml 3,1-4
Sl 23
Hb 2,14-18
Lc 2,22-40

Irmãos caríssimos, neste ano, o 2 de fevereiro, exatos quarenta dias após o Santo Natal, está ocorrendo num Domingo. Assim, a Festa da Apresentação do Senhor Jesus Cristo no Templo torna-se solenidade e substitui a liturgia do Domingo, por tratar-se de uma festa do Senhor...
Ora, a Apresentação do Deus nascido da Virgem no Templo é um mistério; isto é, trata-se de uma realidade querida pelo Pai do Céu e cheia de significado e graça para a nossa salvação. Vejamos cinco aspectos deste evento salvífico:

Primeiramente, hoje, o Messias, Filho de Davi, entrou pela primeira vez na Cidade Santa, a Cidade de Davi, cidade messiânica por excelência: é o encontro do Messias com a Sua Cidade. Neste sentido, esta Festa é como que uma antecipação do Domingo de Ramos!
Nas antífonas do Ofício das Leituras, rezado pela Igreja, este aspecto é recordado: “Radiante de esplendor, põe-te de pé: despontou a tua Luz, Jerusalém, e a glória do Senhor te iluminou!” ou ainda: “De alegria exulta, ó nova Sião! Eis que vem o teu Rei, humilde e bondoso, salvar o Seu Povo”. É importante recordar que Jerusalém é imagem da Igreja, a nova Sião, que acolhe o Messias, seu Rei, seu Senhor, seu Esposo. A liturgia convida: “Sião, enfeita o teu quarto nupcial e recebe o teu Rei, Cristo Jesus, que a Virgem concebeu e deu à luz, e, conservando a virgindade após o parto, adorou Aquele mesmo a Quem gerou!”
Que a inteira Igreja, que cada Igreja diocesana, que cada paróquia, que esta nossa Assembleia litúrgica sejam Cidade do Messias, cidade que O acolhe, tendo acesas as lâmpadas da fé e do amor!

Um segundo aspecto: Se o Messias entra em Jerusalém pela primeira vez, esta visita concentra-se no Templo, também imagem da Igreja. E este é o aspecto mais presente na liturgia: “O Senhor vem a Seu Templo: vinde, adoremos!”; “Recordamos, Senhor Deus, vossa bondade, em meio ao Vosso Templo!” – diz a Liturgia das Horas. A primeira leitura da Missa, tirada do profeta Malaquias, recorda-nos que o Messias deveria visitar aquele Templo de Jerusalém, suntuoso no tempo de Salomão e reconstruído tão modesto logo após o Exílio de Babilônia: nele deveria entrar o Dominador, o Anjo da Aliança; por isso esse Templo é cheio de glória! Na entrada de Jesus no Templo, dois mistérios se cumprem: Deus realiza o que havia prometido pelos profetas: enviar o Messias a Israel – e agora Ele é apresentado oficialmente no Templo, centro da religião judaica; por outro lado, esse Templo é imagem da Igreja; para ela, Novo Povo de Deus, veio o Salvador; o Esposo veio até a Esposa.
Eis um dos motivos da procissão com velas, que pode ser realizada no início da Missa: a Igreja, como virgem prudente, vigia para acolher o seu Esposo com lâmpadas acesas: lâmpadas do amor, da fé, da esperança! E Este que vem é “luz para iluminar as nações” – como dirá Simeão -, as nações chamadas, pelo Batismo a entrarem na Igreja Esposa de Cristo, verdadeira Jerusalém, nossa Mãe.

Mais um aspecto, o terceiro. Hoje, o Menino, como primogênito, é apresentado a Deus, cumprindo a Lei de Moisés – “Todo macho que abre o útero materno será consagrado ao Senhor” (Ex 13,2). O Filho eterno, Autor da Lei, humildemente, submete-Se à Lei para nos libertar do julgo da Lei! É o mistério da humilhação e da obediência de Cristo, sempre presente no Seu caminho, e que culminará na Cruz, Morte e Sepultura. Queridos irmãos, aprendamos com o nosso Salvador a cumprir a vontade do Pai a nosso respeito! Aprendamos a Sua obediência!

Um quarto aspecto tocante nesta Festa: Simeão e Ana representam o Antigo Testamento: idosos, eles esperam a promessa do Senhor; eles vivem da Esperança de Israel. Pois bem, não foram desiludidos na sua certeza. Deus é fiel; não trai jamais! Podemos imaginar o velho Simeão tomando o Menino; podemos quase ver seu rosto iluminando-se; podemos vislumbrar sua emoção e gratidão a Deus: “Podes deixar, Senhor, o Teu servo partir em paz! Meus olhos viram a Tua Salvação!” É quase como se o Antigo Testamento dissesse: “Pronto! Cumpri minha missão; tudo quanto trazia em mim de promessa agora se realiza!”

Mais um aspecto: O Menino-Messias que Simeão toma nos braços é glória de Israel, é o cumprimento das promessas feitas aos Pais. Mas é também luz para iluminar todas as nações da terra: Ele veio para a humanidade toda, Ele veio abrir o Antigo Israel para o mistério do Novo Israel, que é a Igreja, Novo Povo de Deus – este é o outro motivo das velas na procissão que antecede a Missa de hoje: o Menino é Luz; a Virgem traz nos braços a Luz do mundo! No entanto, isto não acontecerá sem dor, sem a Cruz. Por isso, o mistério da contradição e a espada que traspassará o coração da Mãe! Não há salvação sem participação na Cruz, não há remissão dos pecados sem efusão de sangue, como diz a Epístola aos Hebreus (cf. Hb 9,22)!

Um sexto aspecto refere-se à sempre Virgem Maria. Com José, ela traz tudo quanto possui, seu Tesouro, o Filho primogênito, para consagrá-lo ao Senhor Deus. E Simeão avisa: o Senhor aceitou a oferta! Este Menino hoje apresentado a Deus no Monte Moriá – o Monte do Templo – um dia, seria imolado no Monte Calvário! Como não recordar aqui o dramático sacrifício de Abraão: ali mesmo, no Monte Moriá, o Senhor Deus poupou o filho de Abraão! É que no seu lugar, Deus estava preparando o Seu próprio Filho, filho de Maria, para ser sacrificado no lugar da descendência de Abraão! “Deus providenciará a vítima para o sacrifício!” – dizia Abraão à Isaac (cf. Gn 22,8) Hoje, se cumpriu esta palavra... E o Deus que poupou o filho de Abraão, não poupou o seu Filho, não poupou o filho de Maria! E quando chegar a hora do Monte Calvário, ela estará ali, com uma fé maior que a de Abraão, de pé, como Virgem Fiel, como Torre de Davi, como “terra bendita e sacerdotal”!

Caríssimos irmãos no Senhor, estes são alguns dos aspectos desta Festa riquíssima de significado. Haveria outros ainda... Admiremos e adoremos a sabedoria do Senhor, que com admirável sabedoria, conduz a humanidade à graça da salvação! E que hoje, interceda por nós a Virgem oferente sem igual, que apresentou ao Pai, como Luz para iluminar as nações, o Menino que chegou no Natal! A Ele, Deus nascido da Virgem, a glória, pelos séculos dos séculos. Amém.


domingo, 26 de janeiro de 2020

Mais uma meditação para este Domingo

Irmãos caríssimos no Senhor, durante o Tempo Comum, a Liturgia vai nos fazendo repassar o ministério do Cristo nosso Salvador: Suas palavras, Seus gestos, Seu modo de viver... Pensai que realidade maravilhosa nos é dada: vamos ouvindo na liturgia da Palavra, proclamada do ambão, tudo quanto diz respeito ao nosso Senhor, e vamos celebrando na liturgia eucarística, no Altar sagrado, a salvação que Ele nos trouxe e nos é continuamente oferecida, dada, no ministério da Igreja ao celebrar a sagrada Eucaristia!

Chamo-vos atenção para esta realidade porque estamos no início do Tempo Comum. Nestes primeiros domingos, o Evangelho nos mostra o início do ministério público do Senhor. O que aparece hoje? O que nos diz a Palavra de Deus? Seja a primeira leitura como o escrito de São Mateus, fala-nos da Galileia das nações, região que representa aqui todos os povos, os gentios, aqueles que não conheciam o Deus de Israel. Ainda hoje, Galileia das nações significa todos aqueles que vivem sem Deus e sem Cristo neste mundo, naquela situação tão triste de que nos fala São Paulo na Epístola aos Efésios: “Vós estáveis mortos em vossos delitos e pecados. Neles vivíeis outrora, conforme a índole deste mundo, conforme o Príncipe do poder do ar, o espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Com eles, nós também andávamos outrora nos desejos de nossa carne, satisfazendo as vontades da carne e os seus impulsos e éramos, por natureza, filhos da ira” (2,1-3).
Amados no Senhor, não nos iludamos: é esta a triste situação do homem sem Cristo! Não há apelo, não há mágica, não há politicamente correto, não há humanismo fofinho, docinho segundo a ilusão do mundo! Sem Cristo, estamos nas trevas, sem Cristo, somos filhos da ira! Eis a Galileia das nações, eis a nossa natureza humana entregue a si mesma, eis o mundo que desconhece o Salvador, o Emmanuel que nasceu para nós!

Pois bem: “O povo que vivia nas trevas viu uma grande Luz e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma Luz!” O Evangelho nos diz que a chegada do Cristo Jesus cumpre esta profecia de Isaías! Sim, meus caros, Ele é a Luz! Jesus é luz que ilumina com o conhecimento de Deus, com a Vida divina a nossa existência e a existência do mundo inteiro! Recordai sempre: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o Seu Filho único, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a Vida eterna, tenha a luz da Vida” (Jo 3,16; 8,12). Toda vez que alguém se deixa habitar pelo Senhor, sua vida se ilumina, as trevas se dissipam e esta profecia se cumpre mais uma vez!

Mas, atenção, esta Luz não vem à toa, de modo impessoal. Ela vem para ti, para mim, para nós todos! Esta Luz bendita, que é Jesus, nos apela, nos interpela, chama-nos, como fez com Pedro e André, com Tiago e João! Esta Luz espera de nós uma resposta! Pedro e André deixaram as redes, Tiago e João deixaram a barca e o pai... Atenção, caríssimos no Senhor: não é possível sermos iluminados pelo Senhor, não é possível sair da humana treva sem que nos deixemos, sem que saiamos de nós mesmos para seguir o Senhor, para colocar nossos passos nos Seus passos e modelar nossa vida pela Sua santa vontade!

Por isso mesmo, vede qual o anúncio que o Senhor nos faz: “O Reino de Deus está próximo!” Sim, com Jesus, o Reino aproximou-se: Deus está às portas, pedindo  para invadir com o Seu amor a nossa vida, inundando-a de luz! Mas, que fazer para que esse Reino bendito formate a minha existência e, através de mim, o mundo ao meu redor? Escutai o apelo, escutai a exortação, prestai atenção na ordem urgente: “Convertei-vos!” Somente assim, meus caros, seremos libertados das trevas e sairemos dos nossos mesquinhos horizontes meramente humanos! Deixar, deixar-se... Abrir-se para a luz do Senhor, abandonar o nosso modo tenebroso de viver... Eis o Reino de Deus, eis a luz do Cristo, eis o Evangelho, eis a salvação!

Na segunda leitura desta santa Missa, São Paulo procura educar a Igreja de Corinto para que viva como realmente iluminada pelo Senhor! Que ela, que nós, possamos dizer com a boca e o modo de proceder: “Eu sou de Cristo!” Nada de ser de Paulo, nada de ser de Pedro, nada de ser de Apolo! “Eu sou de Cristo!” Somente Ele é nossa luz e quando formos fieis a isto, toda divisão, toda disputa, toda incompreensão, toda intolerância recíproca, toda falta de concórdia são superadas no Senhor único! Sem Cristo, sem voltar sempre a Ele, nossa Luz, dividimo-nos interiormente, de coração quebrado em mil paixões, e exteriormente, em tantos senhores, líderes, guias e partidos! Não vemos isto, hoje, na Igreja? Será que, verdadeiramente, estamos deixando que o Senhor nos ilumine, estamos fazendo Dele a nossa luz ou, ao invés estamos procurando outras lâmpadas, outros critérios, outros guias, outros absolutos?

“Outrora éreis treva, mas agora sois luz no Senhor: andai como filhos da Luz!” (Ef 5,8) Eis, caríssimos o apelo do Senhor, Luz de Deus que brilhou e deseja brilhar sempre na nossa vida e na existência do mundo! Escutemo-Lo, abramos-Lhe o nosso coração, acolhamos de verdade o Reino que Ele nos traz e que comungaremos, daqui a pouco, no Altar da santa Eucaristia. A Ele a glória e o louvor pelos séculos dos séculos. Amém.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Homilia para o III Domingo Comum - ano a

Is 8,23b – 9,3
Sl 26
1Cor 1,10-13.17
Mt 4,12-23

A primeira leitura da Missa de hoje é, em parte, a mesma da Noite do Natal: "O povo que andava na escuridão viu uma grande Luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma Luz resplandeceu! Fizeste crescer a alegria e aumentaste a felicidade! Todos se regozijam em Tua presença". Irmãos, esta Luz que ilumina as trevas, que dissipa as sombras da morte, que traz a felicidade, que ilumina todo homem que vem a este mundo (cf. Jo 1,9), é Jesus, nosso Senhor. O texto do Evangelho que escutamos no-lo confirma: Cristo Jesus é a bendita luz de Deus que brilhou neste mundo! Ele mesmo afirmou: "Eu sou a luz do mundo! Quem Me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da Vida!" (Jo 8,12). Já escutamos tanto afirmações assim, que corremos o risco de não perceber o quanto são revolucionárias, o quanto nos comprometem, o quanto são capazes de transformar a nossa vida!

A Palavra de Deus nos ensina que o mundo é marcado pelas trevas: trevas na natureza (como as catástrofes naturais ou a violência que nela encontramos), trevas na história, trevas no coração da humanidade e de cada um de nós. Olhemos em volta! O mundo não é bonzinho: há forças destrutivas, caóticas, desagregadoras, forças diabólicas, que destroem a alegria de viver e ameaçam devorar o sentido da nossa existência... Em nossos dias, tantos e tantos há que julgam poder passar sem Deus, avaliam que a religião é uma bobagem e uma humilhação para a razão do homem... Há tantos que zombam de Deus, do Cristo Jesus, da Igreja, de quem é católico piedoso e deseja levar a sério a prática da sua fé... Há marcas de trevas no mundo, na humanidade, na Igreja... Basta pensar nas divisões e partidos da Igreja de Corinto, na segunda leitura da Missa de hoje...
Pensemos bem: O que vale no mundo atual? O que é importante? O que conta realmente? Eis: o sucesso, os bens materiais, a aparência de poder, de bens, de felicidade, o prazer e a curtição da vida ao máximo, sem limites, sem peias... Será que não nos demos conta ainda de que vivemos num mundo novamente paganizado, novamente bárbaro, novamente entregue ao seu próprio pensar tenebroso? Será que não percebemos que o que vemos e lemos e ouvimos dos meios de comunicação, de modo geral, é a defesa de uma humanidade sem Deus e sem fé, de uma humanidade que tenha somente a si própria como deus? O Ocidente atual rejeita o Reino de Deus e proclama o absoluto reino do homem! Num mundo assim, Jesus nos diz, Jesus proclama, Jesus insiste a todos: "Eu sou a Luz!" A verdadeira luz não está nas universidades, a luz que ilumina os corações não está nos famosos deste mundo, a luz que esclarece o sentido da vida e dos acontecimentos não está nos que têm o poder político, econômico ou social! A Luz é Cristo! Só Ele nos ilumina, só Ele nos revela o sentido da existência, só Ele nos mostra o caminho por onde caminhar! Ser cristão é crer nisto, é viver disto, é colocar-se verdadeiramente no seguimento do Cristo Senhor como Pedro e André, como os filhos de Zebedeu...

Pois bem: este Jesus, Cristo de Deus, hoje, no Evangelho, nos convida a convertermo-nos a Ele, a segui-Lo de verdade, a colocar os passos de nossa vida no Seu caminho: "Convertei-vos! O Reino dos Céus está próximo!" Eis o apelo que o Salvador nos faz - far-nos-á sempre! Converter-se significa deixar-nos a nós mesmos, significa mudar totalmente o rumo de nossa existência, alicerçando-a no Salvador e não em nós, abraçando o Seu modo de pensar e deixando o nosso, seguindo a Sua Palavra e não nossa razão estreita, nossas ideias, nossa cabeça dura, nosso entendimento curto! Quem vai arriscar? Quem vai caminhar com Ele? Quem vai abraçar Sua Palavra, tão diferente do que o mundo quer, do que o mundo prega, do que o mundo valoriza? Quem vai deixar as redes, a barca, os laços da carne?

"Convertei-vos!" O nosso Jesus nos exorta porque sabe que também nós andamos em trevas, quando caminhamos na nossa própria luz; também nós, simplesmente entregues à nossa vontade e aos nossos pensamentos, jamais poderemos acolher o Reino dos Céus! Não nos iludamos! Não pensemos que somos sábios, centrados e imunes! Somos, nós também – todos nós! –, cegos, curtos de entendimento, pecadores duros e teimosos! Nosso coração é embotado por tantas paixões e por tantas cegueiras!
"Convertei-vos!" Os programas dos governos, os projetos da ONU, o pensamento dos formadores de opinião, de modo geral, tomam suas decisões e apresentam seus objetivos sem levar em conta Deus e o Seu Cristo. Para eles, o homem é o critério, o homem é o absoluto, o homem é o dono da verdade, o senhor dos planos... Compreendeis, irmãos? O mundo vai caminhando para um lado; Jesus, nosso Senhor, convida-nos a ir para o outro, para aquele do Reino dos Céus, aquele em que o critério é a Palavra do Cristo, o caminho do Cristo, o exemplo do Cristo, a obediência até a Cruz e a Ressurreição como o nosso Jesus as viveu! Converter-se é pensar diferente de nós mesmos e do mundo; é andar na contramão para caminhar com Cristo! Converter-se é deixar-se, como aqueles quatro primeiros do Evangelho de hoje que, "imediatamente deixaram as redes... deixaram a barca e o pai" e seguiram o Senhor!

Caríssimos, como não recordar a exortação do Apóstolo? "Não andeis como andam os pagãos, na futilidade de seus pensamentos, com entendimento entenebrecido, alienados da Vida de Deus!" (Ef 4,17) Quando aceitamos este desafio, este convite, o sentido de nossa existência muda, porque começamos a enxergar e avaliar as coisas de um modo novo, um modo diferente: o modo de Cristo Jesus! Aí se realiza em nós a palavra da Escritura: "Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor! Andai como filhos da luz!" (Ef 5,8). Sim! Viveremos na verdade, caminharemos na luz!

Caríssimos, deixar-se iluminar pelo Senhor, permitir que Ele dissipe nossas trevas, é um trabalho, um processo que dura toda a nossa peregrinação neste mundo. Jamais estaremos totalmente convertidos, totalmente iluminados. Na segunda leitura da Missa, São Paulo convidava os cristãos de Corinto à conversão para uma vida de união e de amor. É assim: a Igreja toda inteira e cada um de nós, pessoalmente, seremos sempre chamados a essa mudança, a esse deixar que a luz de Cristo invada a nossa existência tenebrosa!
Nunca esqueçais, caríssimos, porque é verdade: "Outrora, sem Cristo, éreis trevas, mas, agora, sois luz no Senhor! Andai, pois, como filhos da Luz!" Seja este o nosso trabalho, seja essa a nossa identidade, seja essa a nossa herança, seja essa a nossa recompensa! E que o Senhor nos socorra com a força da Sua graça, Ele que é fiel e bendito para sempre! Amém.


sábado, 18 de janeiro de 2020

Homilia para o II Domingo Comum - ano a

Is 49,3.5-6
Sl 39
1Cor 1,1-3
Jo 1,29-34

Na segunda-feira passada, entramos no Tempo Comum. Hoje, com este Domingo, estamos iniciando a segunda semana deste Tempo verde; verde de quem caminha no pequeno dia-a-dia cheio de esperança, porque sabe que o Filho de Deus veio habitar entre nós, entrou nos nossos tempos para santificar os pequenos e aparentemente insignificantes momentos de nossa vida: “O Verbo Se fez carne e armou Sua tenda entre nós” (Jo 1,14). Para nós, nunca mais o tempo, a vida e a história humana serão a mesma coisa! Agora, tudo tem o gosto da presença de Deus, nossos tempos têm sabor de eternidade, perfume da Vida de Deus, do companheirismo misericordioso de Deus. Recordais o nome do Menino? “Emanuel, que significa Deus está conosco” (Mt 1,23). Então, que este Tempo Comum seja, para todos quantos, tempo de graça, tempo de vigilância amorosa, tempo de esperança invencível, tempo de generosa e operante disponibilidade para com o Senhor Emanuel, pois Emanuel Ele nunca deixará de ser! Até mesmo no momento de voltar para o Pai, na Ascensão, Ele afirmou: “Eis que Eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos!” (Mt 28,20). Vedes que fidelidade em estar conosco? Imitemos, portanto, tamanho amor, e estejamos com Ele nos dias da nossa vida, especialmente nos tempos deste Tempo Comum, este período de trinta e quatro semanas verdes!

Neste segundo Domingo Comum, a Palavra de Deus ainda nos liga ao Batismo do Senhor, celebrado no Domingo passado. Recordemo-nos do que vimos na Festa que encerrou o santo Tempo do Natal: Jesus, nosso Senhor, fora batizado por João Batista e ungido pelo Pai com o Espírito Santo como Messias de Israel: “Este é o Meu Filho amado, no qual Eu pus o Meu Bem-querer!” (Mt 3,17). Recordemos que o Pai Lhe revelou o caminho pelo qual Ele deveria passar para cumprir sua missão:
o caminho do Servo Sofredor de Isaías, pobre e humilde: “Ele não clama nem levanta a voz, nem Se faz ouvir pelas ruas”.
Servo manso e misericordioso: “Não quebra a cana rachada nem apaga o pavio que ainda fumega”.
Servo perseverante no serviço de Deus: “Não esmorecerá nem Se deixará abater”.
Servo que será redenção para o Povo de Israel e para todas as nações, dando-lhes a luz, o perdão e a paz: “Eu o Senhor, Te chamei para a justiça e Te tomei pela mão; Eu Te formei e Te constitui como Aliança do Povo, luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, tirar os cativos das prisões, livrar do cárcere os que viviam nas trevas!” (Is 42,2-4.6-7)

Pois bem, o Evangelho de hoje aprofunda ainda mais este quadro impressionante, que nos revela a missão de Cristo Jesus: “João viu Jesus aproximar-se dele e disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” Em aramaico, língua que João e Jesus falavam, “cordeiro” diz-se talya, que significa, ao mesmo tempo “servo” e “cordeiro”. Então, “eis o Cordeiro-Servo de Deus, que tira o pecado do mundo!”
Mas, que Cordeiro? Aquele, expiatório, que segundo Levítico 14, era mandado para o deserto, colocado fora da cidade, carregando os pecados de Israel... Como o nosso Jesus, que “para santificar o Povo por Seu próprio sangue, sofreu do lado de fora da porta” (Hb 13,12) de Jerusalém, como um rejeitado, um condenado, um renegado.
Repitamos a pergunta: Que Cordeiro? Aquele cordeiro pascal de Ex 12, cujos ossos não poderiam ser quebrados (cf. Jo 19,36); cordeiro comido como Aliança de Deus com Israel!
Que Cordeiro? – insistamos na pergunta! Aquele, cujo sangue, aspergido sobre o Povo, selara a nova e eterna Aliança entre Deus e o Povo santo (cf. Ex 24,8; Mt 26,27).
Jesus Cristo é esse Cordeiro de Deus, que tira todo o pecado do mundo, tomando-o sobre si!
E que Servo? O Servo sofredor anunciado pelo Profeta Isaías. Já ouvimos falar Dele no Domingo passado; fala-nos dele novamente a liturgia deste Domingo hodierno:
Servo predestinado desde o nascimento: o Senhor “Me preparou desde o nascimento para ser Seu Servo”;
Servo destinado a recuperar e salvar Israel: “que Eu recupere Jacó para Ele e faça Israel unir-se a Ele; aos olhos do Senhor esta é a Minha glória”;
Servo destinado não só a Israel, mas a todas as nações: “Não basta seres Meu Servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os remanescentes de Israel: Eu Te farei luz das nações, para que Minha salvação chegue aos confins da terra”.
Eis, portanto, quem é o nosso Jesus: o Cordeiro, o Servo, o Cordeiro feito Servo, o Servo feito Cordeiro! Nele, feito homem, Nele, sofrido como nós, Nele, morto e ressuscitado, no Seu corpo macerado e transfigurado em Glória, Deus reuniu e formou um novo Povo, o verdadeiro Israel, a Igreja, ambiente ungido pelo Espírito Santo, onde encontramos a verdadeira paz com Deus através de Cristo(cf. Ef 2,14-16) – esta que aqui está reunida em torno do Altar e esta mesma, reunida em toda a terra e, como diz São Paulo hoje, “em qualquer lugar” onde o Nome do Senhor Jesus é invocado! Eis: este Povo que Cristo veio reunir, esta Igreja que o Senhor veio formar, somos nós, já santificados no Batismo e chamados a ser santos por nosso procedimento, por nosso seguimento ao Senhor! (cf. 1Cor 1,2)

João reconheceu em Jesus este Messias, tão humilde e tão grande: Ele é o próprio Deus: “passou à minha frente porque existia antes de mim!” E como Deus feito homem, Ele é o único e absoluto Salvador de todos – e não há salvação sem Ele ou fora Dele! Qualquer filho de Adão, qualquer filha de Eva que sejam salvos, somente por Ele e Nele podem alcançar esta salvação! O Batista reconhece Nele o Ungido, Aquele sobre Quem o Espírito “desceu e permaneceu”. O próprio Senhor Jesus daria testemunho desta realidade: “O Espírito do Senhor repousa sobre Mim, porque Ele Me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-Me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). João reconhece Nele ainda Aquele que, cheio do Espírito Santo, batizaria no Espírito Santo: “Aquele sobre Quem vires o Espírito descer e permanecer, Este é o que batiza com o Espírito Santo”. Batizando-nos no Espírito, este Santíssimo Jesus-Messias dá-nos o perdão dos pecados, concede-nos o dom inestimável da Sua própria Vida divina e a graça de, um dia, ressuscitar dos mortos!

Enfim, João dá testemunho de que esse Jesus bendito é mais que um Servo, mais que um Cordeiro, mais que um Profeta: Ele é o Filho de Deus: “Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!” Eis: Ele é o Filho amado que, no credo da Igreja católica e apostólica, proclamamos Deus vindo de Deus, Luz vinda da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, Filho unigênito do Pai!

Que mais dizer, ante um Messias tão humilde e tão grande?
– Senhor Jesus Cristo, Santo Messias, Servo e Cordeiro de Deus,
cremos em Ti, a Ti seguimos, em Ti colocamos nossa vida e nossa morte!
Sustenta-nos, pois em Ti esperamos:
Tu és o sentido de nossa existência, a razão de nossa vida e o rumo da nossa estrada!
Queremos seguir-Te, a Ti, tão pequeno e tão grande;
queremos morrer Contigo e Contigo ressuscitar para a Vida eterna;
queremos ser testemunhas do Reino do Pai que verdadeiramente inauguraste com Tua bendita Vinda.
Senhor Jesus, Ungido, Messias, de Deus, a Ti amamos, em Ti esperamos, em Ti vivemos!
Sê bendito para sempre, de eternidade em eternidade. Amém.