terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Lições da genealogia de Jesus Cristo segundo Mateus

Hoje, 17 de dezembro, início da Semana Santa do Natal, como Evangelho, a liturgia apresentou-nos a genealogia deu Senhor Jesus. É um escrito a primeira vista árido, mas, olhado com mais atenção, aparece riquíssimo de significado. Eis algumas lições preciosas:

1. O texto começa afirmando que o Senhor é filho de Davi, filho de Abraão. Ele é verdadeiro homem, vindo do limo da terra, da raça dos filhos de Adão. O Evangelho segundo Lucas afirma claramente que Jesus nosso Senhor é "filho de Adão, filho de Deus" (cf. 3,38). Por outro lado, Ele é o cumprimento das promessas feitas a nosso Pai Abraão ("Por tua descendência todos os povos da terra serão abençoados" - Gn 12,3) e a Davi ("O teu trono se estabelecerá para sempre" - 2Sm 7,16).

2. Na genealogia aparecem santos como o rei Josias e ímpios como Manassés. O Cristo Jesus não vem de uma raça pura, imaculada, mas de uma humanidade marcada por grandezas e baixezas. É na trama da nossa vida, nos altos e baixos da existência, dia após dia, que Deus vai tecendo na nossa pobre vida o Seu desígnio de amor e salvação.

3. Na genealogia aparecem cinco mulheres, todas elas em situação peculiar e irregular: Tamar, que teve um filho do sogro Judá; Raab, que era uma prostituta cananeia; Rute, que era uma pagã moabita, a mulher de Urias, com quem Davi adulterou e da qual nasceu Salomão e, finalmente, Maria, que antes de casar e ainda virgem, concebeu... Diante do Senhor Deus tudo tem sentido, tudo vai se encaixando e até nossas debilidades e percalços servem ao Seu plano de amor!

4. Pense-se em quanta dor, quanta incerteza, quantas lágrimas em toda esta história de Israel... E Deus tecendo, e Deus conduzindo tudo à plenitude do Cristo, Santo Messias. Quantas recordações dolorosas na alusão que o texto faz ao Exílio de Babilônia: "Josias gerou Jeconias e seus irmãos, no tempo do exílio na Babilônia". Parecia o fim, parecia que tudo iria se acabar... Mas, não! Deus estava conduzindo a história, Deus estava levando tudo a bom termo!

5. Outro dado importante: se Jesus nosso Senhor vem da nossa raça, se vem dessa velha e sofrida humanidade, por outro lado, Ele é um novo Começo, vem de Deus e não do homem. Esta novidade aparece na própria estrutura da narrativa: Fulano gerou Beltrano, Beltrano gerou Sicrano... Mas quando chega em Jesus, quebra-se a estrutura: "Matã gerou Jacó. Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo". O normal seria: Mata gerou Jacó. Jacó gerou José, José gerou Jesus... Mas, não! Aqui se tem uma quebra, aqui Deus intervém! Aqui algo novo e inusitado iria começar!

6. Uma última observação: "Assim, as gerações desde Abraão até Davi são catorze; de Davi até o Exílio na Babilônia catorze; e do Exílio na Babilônia até Cristo, catorze". Veja: Jesus é o fruto maduro de um caminho: 3 vezes 2x7: 3 e 7 indicam perfeição. Jesus é fruto de uma linhagem de três vezes quatorze. Em outras palavras: na plenitude do tempo (não antes, não depois) Deus visitou a nossa terra e nos trouxe a Salvação!

Pois veja, meu caro Leitor, quando nos aproximamos da Palavra de Deus com um olhar mais atento, quanta riqueza, quanto de Eternidade ela nos oferece, quanto facho de luz nos dias da nossa vida ela projeta!

Gostaria somente ainda de recomendar um Natal vivido de modo verdadeiramente cristão:
além das luzes das casas, cuidemos de iluminar com Cristo a nossa vida;
além dos presentes, estejamos atentos ao que eles deveriam significar: o Presente estupendo, surpreendente que o Pai nos enviou: Seu Filho feito homem, do nosso barro, feito um de nós, companheiro de caminho, para nos salvar, para abrir-nos a eternidade!
Que a vestimenta nova de Natal que mais nos preocupe seja aquela, alva, do nosso Batismo, que deve ser branquejada pelo sacramento da Confissão!
E a ceia natalina ou o almoço do dia do Natal, que tanto evocam de sentimento e memória no aconchego de nossos lares? Que nos façam ter presente que toda ceia cristã é preparação, sinal e prolongamento da Ceia eucarística, na qual o Senhor, Menino que nos foi dado, continua a dar-Se como Cordeiro imolado e ressuscitado para nossa salvação.

Que estes pensamentos o ajudem a viver bem esta semana de preparação para o santo Natal do Senhor.
E desde já, feliz e abençoado Natal!


As antífonas Ó - Ó Sabedoria

Ó Sabedoria,

que saístes da boca do Altíssimo,

 atingindo de uma a outra extremidade

e tudo dispondo com força e suavidade;

vinde ensinar-nos o caminho da prudência!


São Paulo afirma que Jesus Cristo é a Sabedoria de Deus (cf. 1Cor 1,24) e o próprio Senhor Jesus chegou a apresentar-Se como a Sabedoria que é reconhecida pelos Seus filhos (cf. Lc 7,35). De fato, toda esta antífona, de profunda teologia, parte desta certeza. 

Depois, desenvolve o tema inspirando-se nos livros sapienciais, que nos apresentam a Sabedoria criadora. Para os cristãos, Jesus, nosso Senhor, é esta Sabedoria, através da qual desde o princípio tudo foi criado e tudo é conduzido. 

Eis alguns textos da Escritura que serviram de inspiração para a nossa antífona. São textos referentes à Sabedoria que, para nós, cristãos, é o Cristo Jesus: 

"O Senhor me formou, primícias de Sua obra, de Seus feitos mais antigos. Desde a eternidade fui estabelecida, desde o princípio, antes da origem da terra. Quando os abismos não existiam, Eu fui gerada, quando não existiam os mananciais de água. Antes que as montanhas fossem implantadas, antes das colinas, Eu fui gerada; Ele ainda não havia feito a terra e a erva, nem os primeiros elementos do mundo. Quando firmava os céus, lá Eu estava, quando traçava a abóbada sobre a face do abismo... Eu estava junto com Ele como o mestre-de-obras, Eu era o Seu encanto todos os dias, todo o tempo brincava em Sua presença: brincava na superfície da terra, e Me alegrava com os homens" (Pr 8,22-31). 

"A Sabedoria faz Seu próprio elogio: 'Saí da boca do Altíssimo e como neblina cobria a terra. Só Eu rodeei a abóbada celeste, Eu percorri a profundeza dos abismos'" (Eclo 24,1-5). 

"Os ingênuos venham aqui; quero falar aos sem juízo: Vinde comer do Meu pão e beber do vinho que misturei. Deixai a ingenuidade e vivereis, segui o caminho da inteligência" (Pr 9,4-6). 

Pois bem, eis a surpresa! Eis o inesperado: esta Sabedoria infinita, inesgotável e eterna nascerá de Maria Virgem como uma criancinha que sequer pode falar! É por ela que a Igreja hoje suplica humildemente. Quem se abre para acolhê-La descobre o sentido da vida e vive uma existência na verdadeira prudência, sabendo chamar o certo de certo e o errado de errado, porque adquire a capacidade de ver e avaliar tudo com os olhos da Sabedoria de Deus, o Cristo Jesus! 

Vem, vem com Tua luz, ó Senhor Jesus!




sábado, 14 de dezembro de 2019

Homilia para o III Domingo do Advento - ano a

Is 35,1-6a.10
Sl 145
Tg 5,7-10
Mt 11,2-11

Caríssimos no Senhor, este terceiro Domingo do Advento é conhecido como Domingo Gaudete, isto é, Domingo “Alegrai-vos”. Com efeito, são as palavras do Apóstolo São Paulo (Fl 4,4s), colocadas no Missal para o início da Missa de hoje: “Alegrai-vos sempre no Senhor; o Senhor está perto!” Alegrar-se, mesmo nas lutas da vida e nas incertezas da existência, alegrar-se mesmo no duro combate deste mundo... Mas, alegrar-se não por uma alegria qualquer! Alegra-se verdadeiramente, alegra-se com a alegria que dura e edifica a vida, aquele que se alegra no Senhor! Ele sim, é a fonte da perfeita alegria, porque é o Deus que nunca nos abandona, Deus fiel, que nos ama e permanece conosco!

Dessa alegria fala o Profeta Isaías na primeira leitura de hoje: “Alegre-se a terra que era deserta e intransitável, exulte a solidão. Germine de alegria e louvores!” Que terra é essa, que deserto, que solidão? São o nosso mundo, o nosso coração, a nossa vida. Alegre-se o homem, espere cheio de esperança o nosso coração! Fortaleçamos nossas mãos enfraquecidas e nossos joelhos debilitados pelo duro caminho deste mundo! E por quê? Vivemos uma vida tão estressante, a luta pela sobrevivência é tão pesada, os conflitos nas nossas relações são tão presentes, o que vemos de desafios e loucuras no mundo atual é tão assustador, a impiedade da humanidade é sempre tão surpreendente, o esquecimento de Deus e do Seu Cristo, o menosprezo e vilipêndio por tudo quanto é sagrado são tão presentes e recorrentes!
Temos mesmo motivos para nos alegrar, para esperar, para fortalecer nossas mãos e continuar lutando, firmar nossos joelhos e prosseguir caminhando? Sim, temos: “Vede! É vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é Ele que vem para nos salvar!” Eis, meus caros! O Senhor vem para salvar, vem para vingar-se do pecado - e Sua vingança é o amor que salva, o amor que liberta, e dá Vida, Vida divina, Vida em abundância, Vida plena...

Mesmo que pareça o contrário, o mundo não é uma realidade sem sentido e sem rumo, a existência humana não é o um pesado fruto do acaso cego... Há um Senhor, há um Deus de Amor, há “um Trono nos Céus e, no Trono, Alguém sentado” (Ap 4,2) que tudo toma em Suas mãos e tudo dirige; um Deus que não está distante, mas nos conhece pelo nome e inclina-Se sobre cada um de nós! Há um Deus que não é frio e indiferente, mas nos visitou pessoalmente no Filho Jesus! Neste Jesus bendito, um dia o Senhor Deus tudo julgará, tudo colocará às claras, tudo vingará, tudo purificará, tudo salvará! É importante não esquecermos isto, pois um dos grandes motivos do esfriamento da fé por parte de tantos na Igreja é a perda da consciência de que o Senhor Jesus nos julgará e julgará toda a história humana: Ele virá, Ele julgará, Ele consolará, Ele colocará às claras, Ele salvará! Seu juízo terá como critério o amor, amor a Ele e, Nele e por Ele, amor e profundo respeito pelos irmãos... Portanto, “ficai firmes até a Vinda do Senhor!” Façamos como o agricultor que espera (espera porque cultivou!) e fica firme! Deve encher-nos de consolo a exortação de São Tiago Apóstolo: “Ficai firmes e fortalecei vossos corações, porque a Vinda do Senhor está próxima. Tomai por modelo de sofrimento e firmeza os profetas que falaram em nome do Senhor!”
Vede bem, meus caros: São Tiago nos exorta a permanecer firmes, nos avisa que o Senhor está próximo – e estará sempre próximo, desde quando partiu para os Céus, nunca deixou de estar próximo... Mas, também nos convida a recordar que os que servem a Deus não estão livres dos combates e sofrimentos da vida. Pelo contrário, devem suportar combates exteriores e interiores! Combates não nos devem desanimar; dificuldades não nos devem esfriar a fé, decepções não nos devem fazer duvidar da providente presença de Deus na nossa vida e na vida do mundo!

Um belo exemplo de combate e fidelidade a Deus é-nos dado no Evangelho de hoje. Pensai bem, meus amados no Senhor: um profeta tão grande, tão santo, tão fiel quanto João Batista! E aparece preso, abandonado, jogado numa masmorra, derrotado! – Senhor, por que permites? Senhor, por que diriges o mundo deste modo? Senhor, por que não defendes os Teus amigos? – João tem de suportar o combate exterior, tem de colocar no Senhor sua esperança, esperando na perseverança! Mas, há ainda um outro combate, pior, mais grave, mais doloroso: o combate interior. Onde aparece tal combate no Evangelho que escutamos? Recordai que João havia anunciado um Messias forte e vingador; havia apontado Jesus como o Messias: Ele viria para peneirar o trigo, viria para queimar a palha... E agora, na prisão, o Batista ouvira falar que Jesus era manso, misericordioso, compassivo... Jesus havia entrado na casa dos fariseus, sentado-Se à mesa com os publicanos, perdoado mulheres pecadoras... João fica confuso: “Mas, não era bem assim que eu tinha imaginado o Messias!”... Manda seus discípulos perguntarem ao Carpinteiro de Nazaré: “És Tu aquele que há de vir? És tu mesmo o Santo Messias tão esperado? Ou devemos ainda esperar um outro?”
Eita, meus caros, que muitas vezes também temos vontade de fazer tais perguntas! Quando vemos os acontecimentos da vida, as coisas do mundo, a situação da Igreja, o modo como vivemos, vem uma vontade de perguntar ao Senhor: “Mas, será que existes mesmo? Será que és fidelidade, que és amor, que Te preocupas conosco? És Tu mesmo a nossa esperança e a nossa vida? És Tu o Salvador que a tudo dá sentido? Tu estás ou não no nosso meio? Tu és ou não um Deus próximo?”

A resposta de Jesus a João é clara e desafiadora: Ele é o Messias anunciado pelos profetas, com Ele cumprem-se as palavras da primeira leitura de hoje: “Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo esse desatará a língua dos mudos!” Mas, Ele não é um Messias de encomenda, não um Messias como nós desejamos ou pensamos! Ele é o Messias vindo do Coração do Pai, um Messias surpreendente, um Messias que revela a própria ternura, a própria misericórdia de Deus! Para acolhê-Lo, para compreendê-Lo, para ver Sua beleza é necessário converter-se a Ele! Por isso, Jesus manda dizer a João: “Feliz aquele que não se escandalizar por causa de Mim!” E João faz sua última conversão: crê em Jesus, aceita o Messias Jesus como Ele é, como o Pai O enviou, e não como ele gostaria que fosse! Por isso João é grande, por isso é o maior dos profetas, por isso hoje se encontra na Glória de Deus e na gratidão da Igreja!
Também nós, irmãos, se esperarmos o Senhor, se acolhermos o Senhor, se não duvidarmos do Senhor, se no Senhor permanecermos firmes, veremos a sua Glória, Nele nos alegraremos e Dele experimentaremos a salvação. A cor deste Domingo, além do roxo, pode ser o rosa (mistura do roxo do Advento com o branco do Natal que se aproxima). Vamos, alegremo-nos! Que a espera e a vigilância deste santo Tempo já se misturam hoje com a alegre expectativa do Santo Natal! Alegrai-vos sempre no Senhor! O Senhor está próximo! Que Ele venha! Que Ele nos encontre vigilantes! Que Ele nos veja abertos de coração! Amém!


sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Uma espera...

De que espera falamos no Advento?
Não, primeiramente daquela do Natal. Esta já se deu há dois mil anos e torna-se memorial na liturgia santa do Sacrifício eucarístico; quem dela participa, verdadeiramente recebe a graça do Natal do Salvador...

A espera fundamental na qual esperamos é a consumação do Reino de Cristo, que plenamente será Reino de Deus-Pai, quando Ele aparecer em glória como Filho do Homem (glorioso filho do barro: Filho do Homem = Ben Adam - filho do bicho feito de adamah = terra).

Eis o Advento que celebramos, certos do Advento que acontecerá: o Salvador virá um dia, no Seu Dia. Passará a figura deste mundo marcado pelo pecado e a morte e manifestar-se-á para sempre o mundo que há de vir, anunciado na Antiga Aliança, inaugurado efetivamente na Nova Aliança e consumado um Dia, no Dia de Cristo, em glória sem fim!

Vamos! Adiante na vivência do santo Advento: vigia à espera do Cristo quem rejeita as obras das trevas!
Por Ele esperai, Seu Dia vem!
tende coragem: Jesus já vem!


sábado, 7 de dezembro de 2019

Homilia para a Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria

Gn 3,9-15.20
Sl 97
Ef 1,3-6.11-12
Lc 1,26-38

A Imaculada Conceição da Virgem Maria – é este o mistério que neste dia celebramos. Hoje, a Virgem foi concebida no ventre de Ana, sua mãe.
Mas, que tem isso de mistério? É verdade que toda vida que brota é um mistério; é verdade que todo feto, desde o primeiro momento de sua existência, seja desejado ou indesejado, esperado ou vindo de surpresa, são ou defeituoso, é já uma vida humana e, portanto, um milagre de Deus, um sorriso de Deus, um presente de Deus, imagem de Deus – apesar dos monstros de hoje, dessa humanidade desalmada e sem Deus, desejarem tanto negar a dignidade da vida humana desde o seu primeiro momento...

Repitamos a pergunta: Se é assim, se cada concepção neste mundo é um mistério, o que tem de extraordinário a concepção daquela que será a Mãe do Cristo-Deus?
Eis o mistério, eis a novidade, eis o extraordinário: no momento mesmo em que Ana, idosa e estéril, concebeu a Virgem Santa, ela, por ser destinada a ser a Mãe do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, foi preservada da mancha do pecado original. Em outras palavras: a Virgem Maria, desde o primeiro momento de sua existência no ventre materno, foi preservada daquela marca negativa, daquela solidariedade no mal, daquela situação de fechamento e desarmonia, que mancha e fere a nossa natureza humana. Portanto, a ela, e só a ela, o Senhor pode exclamar, com as palavras do Cântico dos Cânticos: “Como és bela, Minha amada, como és bela! És toda bela, Minha amada, e não tens um só defeito!” (4,1.7).
Que o Senhor Deus exclame assim! Que a Mãe Igreja cante assim! Que a humanidade exulte assim!

A Igreja, desde muito cedo, foi compreendendo sempre mais este mistério da Imaculada Concepção de Nossa Senhora: ela, a Virgem, fora preservada do pecado graças aos méritos do Cristo, que com Sua Paixão, Morte e Ressurreição nos libertou do pecado.
Como diz São Paulo aos Romanos: “Todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus e são justificados gratuitamente por Sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus” (3,23s). Com efeito, sem Jesus nosso Senhor, sem a Cruz redentora que Deus já antevira eternamente, a Virgem seria tão pecadora quanto todo o resto da humanidade! Mas, a mesma Cruz de Cristo que nos arrancou da lama do pecado, sequer permitiu que a Mãe do Cordeiro Imaculado pela lama do pecado fosse tocada! Que grande providência de Deus! Que amorosa sabedoria! Nossa Senhora, mais que todos nós, pode e deve cantar as palavras do Profeta: “Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas joias!” (Is 61,10). Nossa Senhora, de sorriso escancarado, pode erguer o olhar para o Senhor e exclamar: “Eu Vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes, e não deixastes rir de mim meus inimigos!” (Sl 29,2) Em Maria começou a manifestar-se a vitória de Cristo contra o Inimigo da nossa raça humana...

Se pensarmos bem, veremos que este mistério deita suas raízes na antiguidade, nos primórdios do sonho de Deus. A primeira leitura, do Livro do Gênesis, nos diz que, quando toda a humanidade foi marcada pelo pecado, pelo “não” a Deus – esse “não” no qual todos nós já nascemos e que tantas e tantas vezes vamos dizendo e aprofundando –, o Senhor prometeu uma inimizade entre Satanás e a Mulher, entre a descendência de Satanás e a da Mulher: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. Eis, que mistério tão grande: uma queda, uma miséria, uma misericórdia, uma inimizade, uma promessa! E, desde então, toda a história da humanidade, todo o caminho de Israel, todo o Antigo Testamento, foram um correr para essa promessa, um esperar por esse cumprimento tão santo! Porque, desde o início, Deus tem um plano, e Seu plano é nos enviar o Salvador, de modo que tudo quanto o Pai bendito pensou e sonhou para nós, é pensando em Cristo e em função de Cristo que o fez. Escutemos o Apóstolo: “Em Cristo, Deus nos escolheu antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o Seu olhar, no amor. Ele nos predestinou para sermos Seus filhos adotivos por intermédio de Jesus Cristo, conforme a decisão de Sua vontade!” Se Deus tudo pensou para nós em Cristo, se em Cristo nos predestinou, a Igreja crê firmemente que, desde o princípio, aquela Mulher anunciada no paraíso, fora predestinada para ser a Mãe do que esmaga a Serpente, fora marcada para ser a inimiga de Satanás, aquela que não tem nenhuma amizade com o pecado, nenhuma convivência com a descendência da Serpente! E tudo isso, por graça de Deus em Cristo!

Podemos, então, compreender o modo como Gabriel, no Evangelho, saúda Maria. Como a chama? Não diz o seu nome “Maria”, mas chama-a com um nome novo, aquele que somente Deus, que sonda os corações, poderia conhecer. Escutemos o Anjo, admiremos: “Alegra-te, ó Toda Agraciada! O Senhor é contigo!” Toda Agraciada, isto é, toda invadida, inundada pela graça, pelo favor de Deus! Na Virgem Maria não há lugar algum para a “des-graça” do pecado. Nela, em quem o Santo de Deus, o Cristo, o Santo Messias, deveria habitar, não pode, não pôde, não poderá nunca haver lugar para o pecado! Desde o primeiro momento de sua existência, a Virgem foi escolhida e predestinada para a Mãe do Salvador. Não esqueçamos a palavra da Escritura: “Em Cristo, Ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o Seu olhar, no amor.” É este mistério que celebramos!

Se Cristo é o Dia, a Virgem é a Aurora;
se Ele é o Sol, ela é a Estrela d’Alva;
se Ele é o Fruto, ela é a Flor bendita!
Como é bela a Solenidade deste hoje: é aurora do santo Natal! Aquele que ilumina a noite de Belém e do mundo é prenunciado pela luminosidade da Virgem Imaculada!

Caríssimos, vivemos num mundo cada vez mais sem graça, um mundo literalmente “des-graçado”, isso, é fechado para a graça. Pois bem: nesta realidade sem graça, celebrar a Imaculada Conceição da Mãe de Deus é proclamar a vitória da graça sobre o pecado, é renovar nossa certeza na força que vem da Cruz e Ressurreição do Senhor, que dissipa as trevas e vence o mal.

Ó Maria Santíssima, Virgem imaculada desde a Conceição,
intercede por nós, intercede por toda a Igreja, intercede pela humanidade:
que lutemos contra o pecado, do qual tu foste preservada desde o primeiro momento de tua existência!
Que a força do Cristo Salvador, que não deixou o pecado te atingir, não deixe que o pecado nos vença!

Ó Alegria do mundo, Estrela d’Alva,
nenhuma outra como tu nos guia!
És o braço do Deus Forte que nos salva,
Virgem Maria!

És um Raio de luz lançado à treva,
para aquecer a terra fria!
Imensa Aurora, a Vida em vós se encerra,
Virgem Maria!

Só o trono de Deus é mais sublime,
que o teu trono, à luz do eterno Dia!
Ó Santa Mãe da Paz que nos redime,
Virgem Maria!

Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Sobre o Livro de Daniel - Dn 3,31 – 4,15

Constantemente, o Livro de Daniel faz referências ao Reino de Deus, que subsistirá para sempre: “Seu Reino é Reino eterno e Seu domínio vai de geração em geração” (3,33).
Num tempo em que o Povo de Deus era massacrado pelos grandes reinos do mundo, este texto sagrado recordava constantemente a Israel que todos os reinos passam, que todos os magnatas e dominadores dos povos desaparecerão, que todas os poderes e ameaças ao Povo santo tornar-se-iam pó que o vento leva!
Trata-se, realmente, este Livro, de um texto de advertência, de consolação de esperança: só o Senhor é Deus, só o Senhor é Rei! É Ele quem enche Daniel “dos espíritos dos deuses santos” (Dn 4,6 - palavras estas de um gentio: Nabucodonosor). Na verdade, Daniel é cheio da plenitude do Espírito do Deus Santo. Impelido por este Espírito Santíssimo, Daniel proclama a todo o momento, com insistência, o Senhorio absoluto de Deus “a fim de que todo ser vivo saiba que o Altíssimo é quem domina sobre o reino dos homens” (4,14b).

Nos nossos dias, quando o homem, mais que nunca, pensa que pode construir sua vida pessoal e coletiva sem referência a Deus, nos nossos tempos de desprezo quase total pela soberania do Senhor, nesta época que corre, em que mesmo tantos e tantos e tantos que se dizem crentes, na verdade, mesmo dentro da Igreja, não creem a não ser num ídolo, feito à imagem e semelhança da conveniência dos pecados, dos vícios e patifarias humanas, deus moldado segundo o politicamente correto e pagãmente aceitável, deus que mima o pecado e o pecador e não o chama à conversão, deus aprovado pelos meios de comunicação, deus que não incomoda, não converte ao Absoluto, não impele para o Alto, deus sem transcendência, deus não segundo as Escrituras Santas, não segundo a fé da Igreja, deus que quase nada tem a ver com o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, numa época assim, o Livro de Daniel é sumamente atual e instigante. É preciso repetir diante de todos e de tudo, sem exceção ou descontos: “Seu Reino é Reino eterno e Seu domínio vai de geração em geração!” (3,33). Somente a Ele a honra, o temor, a glória, o amor, a adesão absoluta, pelo Filho Senhor no Santo Espírito, pelos séculos dos séculos. Amém.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

As Festas que se aproximam

O Natal não se resume a um dia nem celebra simplesmente o Nascimento de Jesus, o Salvador. Na verdade, trata-se de um tempo, formado por cinco festas que celebram no rito da Santa Liturgia o mistério da Manifestação do Filho de Deus em nossa natureza humana. Assumindo corpo e alma humanos, entrando no tempo e no mundo, assumindo uma história humana, Filho eterno do Pai manifestou-Se na nossa pobre humanidade para enriquecê-la com a Sua infinita Divindade; Ele veio para nos dar a graça da comunhão, da amizade com Ele – é isto a salvação, a comunhão de Vida divina com o Senhor feito homem por nós! Assim, o tempo do Natal é tempo de celebrar nos divinos mistérios litúrgicos a Manifestação do Senhor entre nós! Cinco festas; ei-las:

1) A Solenidade do Natal do Senhor, no dia 25 de dezembro. Na pobreza da gruta de Belém contemplaremos como frágil criança Aquele que é o Forte e eterno Deus: “Porque um Menino nos nasceu, um filho nos foi dado, Ele recebeu o poder sobre os Seus ombros e Lhe foi dado este Nome: Conselheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-eterno, Príncipe-da-Paz” (Is 9,5). Neste Dia santíssimo (que é celebrado durante oito dias), a Igreja dobra os joelhos diante do Salvador, juntamente com Maria Virgem, José e os pastores; a Igreja canta o “Glória a Deus nas alturas” juntamente com os anjos, a Igreja ilumina-se de alegria como o céu da noite santa de Belém. 

2) No Domingo entre os dias 25 e 1º de janeiro ou no 31, a Igreja celebra a Festa da Sagrada Família. O Filho de Deus assumiu em tudo a nossa condição humana: entrou numa família, na vida miudinha de cada dia; Ele veio verdadeiramente viver a nossa aventura. Assim, santificou as famílias de modo especial: “Desceu com eles para Nazaré e era-lhes submisso” (Lc 2,51). Esta festa nos recorda que o mistério da Encarnação não é uma realidade meramente ontológica, isto é, o fazer-Se homem do Filho divino, mas também uma realidade existencial: o Senhor veio viver em tudo a existência humana, a condição humana, menos o pecado, que é desumano...

3) Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, no dia 1º de janeiro, Oitava do Natal. “(Os pastores) foram, então, às pressas, e encontraram Maria, José e o Recém-nascido deitado na manjedoura” (Lc 2,16). A Igreja contempla o Menino que nasceu em Belém e Nele reconhece o Deus eterno, reclinado no colo de Maria. Por isso chama-a Mãe de Deus, quer dizer, Mãe do Filho de Deus feito homem! Dando este título à Virgem, a Igreja, desde suas origens, professa sua fé na divindade de Jesus Cristo. O 1º de Janeiro é uma das grandes festas marianas.

4) Solenidade da Epifania do Senhor, no Domingo entre 2 e 8 de janeiro. É a festa chamada Festa de Reis. Mas, é bem mais que isso: a palavra “epifania” significa “manifestação”. Os magos, vindos dos povos pagãos, representam toda a humanidade que vem adorar o Salvador e reconhecê-Lo como a Luz para iluminar as nações. Deus manifesta a Sua salvação a todos os povos: “O Senhor fez conhecer Sua Salvação, revelou Sua Justiça aos olhos das nações. Os confins da terra contemplaram a Salvação do nosso Deus” (Sl 97,2.3). A Solenidade da Epifania é importantíssima: ela nos revela já a salvação de Cristo para todos os povos da terra, simbolizados nos Magos, gentios, que vêm de longe para adorar o Rei nascido.

5) A Festa do Batismo do Senhor, no Domingo após a Epifania. Com ela termina o tempo do Natal. Jesus, Aquele que veio ser um de nós, Aquele que veio tomar sobre Si as nossas dores, humildemente, entra na fila dos pecadores para receber o batismo de João Batista. O Pai apresenta o Seu Filho: “Este é o Meu Filho amado, em Quem Eu Me comprazo!” (Mt 3,17). Com esta festa encerra-se o ciclo de festas da Manifestação do Senhor. A Igreja agora sabe, experimenta e anuncia ao mundo: “O Verbo Se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a Sua glória!” (Jo 1,14).

Que vivamos bem o tempo do Natal que se aproxima, tão rico e santo!