sexta-feira, 2 de agosto de 2019

A propósito de Mt 13: As parábolas do Reino dos Céus (VII)

E o nosso Jesus prossegue, continua, doce, empolgado, sereno, falando do Reino, deixando os Seus discípulos com saudades do Infinito, saudades de Deus: “O Reino dos Céus é ainda semelhante a um negociante que anda em busca de pérolas finas. Ao achar uma pérola de grande valor, vai, vende tudo o que possui e a compra”.
O Reino é como uma pérola.
Há tantas delas na vida: a pérola da saúde, de alguém que a gente ama, de ter uma família, a pérola de nossa profissão, de nossos bens, de nossos amigos e inteligência... Tantas pérolas, todas preciosas, todas amáveis...
Mas, quando se encontra de verdade o Reino, quando de verdade alguém sentiu o gostinho de deixar o Eterno invadir o coração com Sua doçura, com Sua paz, com Sua plenitude, com Sua graça amorosa e cheia de misericórdia, então, tudo muda para esse alguém, tudo ganha um novo sentido: as outras pérolas não deixam de ser pérolas, mas tornam-se relativas e seu valor, sua preciosidade passam a ser medidos em referência ao Reino: vale o que me aproxima do Reino; o que dele me afasta e o impede no meu coração já não tem valor!

Quem experimentou o Reino no seu coração tudo coloca em função desse Reino! É assim o Reino: vale a pena largar tudo, relativizar cada realidade por ele, a pérola de grande valor, a mais bela e preciosa de toda: “Formosura que excedeis a toda formosura, sem magoar dor fazeis e sem dor desfazeis o amor das criaturas!” Isto mesmo: por ele, pelo Reino, pelo Rei, um coração apaixonado, seduzido, deixa tudo: redes, barcos, pessoas, bens, sonhos, conquistas... Nenhuma pérola se iguala ao Reino!

Os discípulos sabiam do que Jesus estava falando: tinham encontrado o Reino, experimentavam o coração em festa, uma festa cheia de doçura e de paz; haviam deixado tudo por aquela pérola de grande valor. Jesus lhes mostrara, lhes dera aquela pérola. Por isso amavam-No tanto...


A propósito de Mt 13: As parábolas do Reino dos Céus (VI)

Levanta-Se; sai do barco, e, “deixando as multidões, entrou em casa”...
Agora, com os discípulos, continua a falar sobre o Reino dos Céus. O coração continua vibrando... O Mestre continua a revelar Seus segredos aos Seus íntimos, coração a coração:
“O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido no campo; um homem o acha e torna a esconder e, na sua alegria, vai e vende tudo o que possui e compra aquele campo”.Que comparação bela, que imagem fascinante, instigante!

O Reino é um tesouro, mas escondido. Pode ser que alguém passe por ele, pise nele e não o perceba... Pode-se passar pela vida, pode-se passar mil vezes por aquele campo sem se dar conta do tesouro! Que coisa! Nem todos encontrarão o Reino! Por quê?
A resposta pertence ao mistério insondável do encontro da providência de Deus com a liberdade do homem.

Assim é o Reino: um tesouro, o maior tesouro da existência: por ele, a vida vale realmente a pena! E quando alguém o encontra, quando deixa, ao menos um pouco, que Deus, o Pai de Jesus, nosso Senhor, invada a vida e reine na sua existência, então descobre, encantado, o tesouro de grande valor que encontrou! E o esconde com cuidado, como algo preciosíssimo, que não pode ser banalizado, não pode ser deixado à toa, não pode ser tomado como realidade de pouca conta! E vai, cheio de alegria, vende tudo, larga tudo, vende tudo quanto é, tudo quanto construiu, tudo relativizando, para conquistar aquele campo onde se acha o tesouro.

É muito bonito, nesta parábola, como Jesus associa a descoberta do Reino com a alegria: o Reino não é um fardo, não é uma obrigação, não é uma realidade que se suporta na marra: é um dom, uma graça, uma festa, uma alegria!


A propósito e Mt 13: As parábolas do Reino dos Céus (V)

“Contou-lhes outra parábola: ‘O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e pôs em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado’”. Mais uma parábola; tão curtinha, tão simples e óbvia... Tão desafiadora e consoladora...

O Reinado de Deus no mundo, o Reino dos Céus é pouquinho, pequenininho, imperceptível como uma pitada de fermento jogada em três medidas de farinha (o equivalente a 3 x 39,4 litros: tanta farinha – 120 litros para tão pouco fermento!). E, no entanto, pouco a pouco, tudo fica fermentado, pois que o fermento vai impregnando toda a massa.

Assim é o Reino: tão pouquinho, tão pequeno ante tanta farinha e, no entanto, está presente, está agindo, está impregnando o mundo, mas de um modo lento, cuja dinâmica nos escapa!
Note, Irmão, como nos custa tudo isso! Por um lado, Jesus, nosso Senhor, nos dá a certeza da força do Reino de Deus, nos garante que ele impregnará tudo... Mas, por outro lado, como nos é difícil aceitar os modos, os prazos, as demoras, as humildes aparências desse Reino...

“Jesus falou tudo isso às multidões por parábolas. E sem parábolas nada lhes falava, para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta: Abrirei a boca em parábolas; proclamarei coisas ocultas desde a formação do mundo”. Assim, Jesus sacia os ouvintes, que tinham sede de infinito, que tinham sede de compreender os caminhos de Deus, os tempos do Reino...


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

A propósito Mt 13: As parábolas do Reino (IV)

A brisa do mar trazia, uma a uma, as palavras de Jesus, suaves, doces e cortantes... E o povo escutando aquelas estórias tão bonitas... E Jesus, mansamente, falando com o coração, continuou: "O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Embora seja a menor de todas as sementes, quando cresce é maior do que qualquer hortaliça e torna-se árvore, a tal ponto que as aves do céu se abrigam nos seus ramos".

Então, é assim?
O Reino não é grande, vistoso, potente, como esperávamos, como gostaríamos? 
Quer dizer que ele é pequenininho como uma semente menor que o coentro? 
Quer dizer que ele não se mostra primeiro nos megaeventos, nas grandes realizações, nos shows de pirotecnia, nos nossos grandes projetos?

Ah, que Reino escandaloso, doloroso, difícil e aceitar! Ele se manifesta no que é pequeno, no que é simples, no dia-a-dia! Desde a Vinda do Cristo Jesus, ele está aí... E vai crescendo, e vai crescendo sempre, de modo que só Deus sabe...
Mas, que ninguém se iluda: no tempo certo – tempo de Deus, tempo oportuno! – ele estará tão grande, tão frondoso, que até as aves dos céus, isto é, toda a humanidade, poderá aninhar-se nele!

Essa sementinha é capaz de crescer, tem o vigor do Espírito de Deus e vai sim, ser uma árvore frondosa...

Veja, meu Irmão, como é difícil, porque escapa aos nossos cálculos, escapole de nossos prazos, extrapola e desmoraliza a nossa lógica!
Se o Senhor Jesus, nosso bendito Salvador, não nos converter, nós desistimos, nós não veremos nada, não compreenderemos a dinâmica do Reino que Ele implantou!


A propósito de Mt 13: As parábolas do Reino dos Céus (III)

E Jesus, continuou, sentado, revelando os segredos do Reino: "O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio o seu inimigo e semeou o joio no meio do trigo e foi-se embora. Quando o trigo cresceu e começou a granar, apareceu também o joio. Os servos do proprietário foram procurá-lo e lhe disseram: 'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Como, então, está cheio de joio?'”
Que escândalo esta parábola; como nos maltrata! Olhamos o mundo, campo de Deus, e vemos tantos sinais de joio, tanta maldade, tanta dor e sofrimento... 

- Senhor, por que fizeste o mundo assim?
Por que permites o mal?

E o nosso Jesus explica, docemente: “Um Inimigo é que fez isto”.
E nós, impacientes; nós, que nos julgamos sábios e temos vontade de dar conselhos a Deus, perguntamos, angustiados e impacientes: “Queres, então, que vamos arrancá-lo?”
Diante da nossa pressa, o Senhor nos responde: “Não, para não acontecer que, ao arrancar o joio, com ele arranqueis também o trigo. Tendes certeza realmente que sabeis distinguir o joio do trigo? Já vistes que também no vosso próprio coração há trigo e joio?”
Ah, Irmão! A escandalosa paciência de Deus! O modo misterioso que o Senhor tem de dirigir o mundo!

O campo deste mundo, a seara da vida, não estão perdidos. Ainda que apresente tanto joio, joio tão vistoso, o trigo do Reino está presente nele: Deus reina em tantos corações, está presente de tantos modos! O problema é que não podemos calcular, não podemos separar com um bisturi o trigo do joio... E nos impacientamos, nos amarguramos e, tanta vez nos revoltamos contra Deus e quase que descremos, porque Deus não cabe na nossa lógica, não faz como gostaríamos...

E o Senhor insiste: “Deixai-os crescer juntos até a colheita. No tempo da colheita, direi aos ceifeiros: Arrancai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; em seguida, recolhei o trigo no meu celeiro".
Compreende, Irmão, como é o Reino? Percebe que ele não obedece a nossos cálculos, não cede à nossa lógica, não liga para nossos prazos?

O Reinado é de Deus e não nosso! Como é preciso que eu e você nos convertamos para perceber isso e acolher a palavra desse Jesus tão independente, tão senhor de Si, tão mergulhado nos tempos e modos do Pai...


A propósito Mt 13: As parábolas do Reino dos Céus (II)

"Eis que o semeador saiu a semear”...
Não esqueça: a parábola do semeador é a primeira das sete sobre o Reino dos Céus... O Reino dos Céus é como o semeador que saiu a semear a semente, isto é, a Palavra do Reino... Esse semeador é, primeiramente, o próprio Jesus e depois, todo aquele que continua a obra do Salvador...

É assim: o Reinado de Deus foi semeado por Jesus... É ainda semeado por aqueles que em nome de Cristo, como Igreja, saem jogando a semente no campo dos corações... Esse Reino é vivo, fecundo como uma semente: pode crescer, pode abrigar as aves do céu, pode aconchegar toda a humanidade...
Mas (que escândalo!), o Reino é ao mesmo tempo frágil, quase que impotente, pois depende de mim, de você:
eu posso ser leviano e deixar que as aves de tantas futilidades devorem as sementes do Reino;
posso ser raso, superficial e sem profundidade interior, a ponto de queimar a Vida do Reino que foi jogada no meu coração;
posso ser tão apegado a tantas coisas que sufoco o Reino – aquele Reino que o Senhor Jesus disse estar dentro de nós e no meio de nós...
Posso, por fim, ter um coração que escuta, que acolhe e deixa germinar o Reino porque deixa Deus reinar de verdade na minha vida... E, então, a semente do Reino dará fruto em mim, o Reino de verdade acontecerá, e poderá dar trinta, sessenta, cem por um, dependendo da minha disponibilidade para acolhê-lo e fazer germinar...
Em Paulo de Tarso, em Agostinho de Hipona, em Bento de Núrcia, em Bernardo de Claraval, em Teresa d’Ávila, em Madre Teresa, em João Paulo II deu cem por um... Em outros dará sessenta, trinta... Em mim, quanto dará?

Uma coisa é certa – e é escandalosa, surpreendente: o Reino não acontecerá em mim se eu não me abrir para ele; eu não entrarei no Reino se não permitir que o Reino entre e frutifique no meu coração!


A propósito de Mt 13: As parábolas do Reino dos Céus (I)

Caro Irmão, gostaria de partilhar com você algumas meditações sobre um dos textos mais encantadores de todo o Evangelho. Trata-se do capítulo treze de São Mateus, que acabamos de escutar hoje, como leitura da Missa cotidiana. Aí Jesus diz o chamado “discurso das parábolas do Reino dos Céus”.
Se você observar, São Mateus, para mostrar que o nosso Salvador é o novo Moisés, resume a pregação de Jesus, nosso Senhor, em cinco discursos (como cinco são os livros da Torá, livros tradicionalmente atribuídos a Moisés): 

o Discurso da Montanha (Mt 5-7),
o Discurso Apostólico (Mt 10),
o Discurso das Parábolas do Reino (Mt 13),
o Discurso sobre a Igreja (Mt 18)
e o Discurso Escatológico (Mt 24-25).

Observe que o centro é o Discurso das Parábolas do Reino, bem no meio dos cinco! É que o Reino dos Céus (ou Reino de Deus – Mateus usa “céus” porque evita escrever ou pronunciar a palavra “Deus” por respeito e temor reverencial) é o centro da pregação do Cristo Jesus. Pois bem, neste discurso Ele vai abrir o coração e nos revelar traços, lampejos do mistério do Reinado de Deus. Mateus reúne sete parábolas porque sete significa completude, perfeição...

Acompanhe o texto: “Naquele dia, saindo Jesus de casa, sentou-Se junto ao mar. Em torno Dele reuniu-se uma grande multidão. Por isso, entrou num barco e sentou-Se, enquanto a multidão estava em pé na praia. E disse-lhes muitas coisas em parábolas”.
Observe bem a doçura, o encanto desta introdução. Jesus está em Cafarnaum, ao que tudo indica na casa de André e de Pedro. Saindo de casa, Ele foi à beira-mar e sentou-Se na praia... Imagine o Salvador tranquilamente sentado, contemplando o mar e o balanço da água, observando, pensativo o vai e vem dos barcos de pesca, fitando as montanhas do outro lado do mar, na Transjordânia, região da Decápole... Em que pensava? Em que se ocupavam Seus pensamentos? Qual era a sede do Seu Coração naquele dia, talvez naquele entardecer?

Sem que Ele percebesse, as pessoas foram se aproximando, foram cercando-O, sedentas da Palavra de Deus, mais que de pão... Elas queriam ouvir o Senhor, pois de Seus lábios saiam palavras do sabor de mel, com lampejos de infinito, com traços de Deus... Suas palavras enchiam o coração de paz, faziam quase que adivinhar o Coração de Deus – aquele Deus a Quem o nosso Salvador ousadamente chamava de Abbá-Pai...

Agora, já é tanta gente... Jesus levanta-se, entra num barco e pede que o empurrem um pouco, três, quatro metros talvez... Que cena tão bela: Ele abancado no barco e a multidão sentada – alguns em pé – escutando na praia... E o vento que vinha do mar trazia, com a aragem fria, as palavras do homem de Nazaré... E Jesus, sentado, como um Mestre, na barca, imagem da Igreja, contando-nos os segredos do Reino! - Fala, Senhor! Queremos Te escutar! Fala-nos do Reino que vieste trazer com a Tua santa Encarnação, com a Tua piedosa vinda...