sábado, 9 de março de 2019

Homilia para o I Domingo da Quaresma - ano c

Dt 26,4-10
Sl 90
Rm 10,8-13
Lc 4,1-13

Neste início de Quaresma, a Liturgia faz-nos pensar na Páscoa. Isto porque o Tempo quaresmal não é um fim em si mesmo, mas é caminho de luta e combate espiritual para bem celebrarmos, com o coração dilatado, a Páscoa do Senhor, maior de todas as festas cristãs, unindo-nos ao Cristo Senhor no Seu mistério de Cruz e Ressurreição.

Na primeira leitura, o Deuteronômio apresenta-nos o rito de oferta das primícias da colheita: ao apresentar ao Senhor Deus o fruto da terra, o israelita piedoso confessava que pertencia a um povo de estrangeiros e peregrinos, vindos do Pai Jacó, que não passava de um arameu errante. O israelita fiel recordava diante de Deus a história de Israel, história de escravidão e de libertação: “Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egito... Ali se tornou um povo grande, forte e numeroso. Os egípcios nos oprimiram. Clamamos ao Senhor... e o Senhor ouviu a nossa voz e viu a nossa opressão... E o Senhor nos tirou do Egito... E conduziu-nos a este lugar e nos deu esta terra... Por isso eu trago os primeiros frutos da terra que Tu me deste, Senhor”. Éramos ninguém e o Senhor compadeceu-Se de nós e nos libertou; deu-nos uma vida nova – eis o resumo da história e da experiência de Israel!
Esta também é a nossa experiência, como Igreja, Novo Israel: “Se com a tua boca confessares Jesus como Senhor e, no teu coração creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo”. Também a nossa história é de libertação: éramos escravos, todos nós, do grande Faraó, o Pecado que nos destrói e destrói o mundo. Mas Deus enviou o Seu Filho numa carne de pecado (numa natureza sujeita às consequências do pecado): Ele desceu a este mundo e entrou na nossa miséria, até a morte, a nossa morte. Deus O arrancou da morte; ressuscitou-O e fez Dele Senhor e Cristo e quem Nele crê e confessá-Lo como Senhor na sua vida, encontrará Nele a salvação; encontrará Nele um novo modo de viver, encontrará Nele a paz, encontrará Nele, já agora, a comunhão com Deus e, depois, a Vida eterna!
Assim, Israel nasceu da Páscoa do deserto; a Igreja nasceu da Páscoa de Cristo.
Israel era escravo, atravessou o mar e o deserto e tornou-se um povo livre para o Senhor. Nós éramos escravos, éramos ninguém, atravessamos as águas do Batismo com Cristo, e ainda que caminhemos neste deserto da vida, somos um povo livre para o Senhor nosso Deus.

O tempo da Quaresma prepara-nos para celebrar este mistério tão grande! Recordemos que a Ressurreição de Cristo é causa da nossa ressurreição, é motivo da nossa comunhão com Deus é a razão da nossa fé cristã! Há apenas alguns domingos, São Paulo dizia abertamente: “Se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé, ainda estais em vossos pecados!” (1Cor 15,17). Pois bem, neste sagrado Tempo quaresmal, a Igreja nos quer preparar para a santa Páscoa, para que revivamos em nós, pessoal e comunitariamente, a libertação que Cristo nos trouxe com a Sua vitória. Por isso, a Quaresma é um tempo de combate espiritual e de luta contra o pecado. É um tempo de seríssimo exame de consciência e de reorientação de nossa adesão ao Cristo Jesus. Só assim, atravessaremos o deserto dos quarenta dias rumo à Terra Prometida da Páscoa de Cristo, que se torna nossa Páscoa.
Nosso caminho quaresmal recorda e celebra tantas quaresmas:
a do dilúvio, quando durante quarenta dias e quarenta noites o Senhor Deus purificou a terra e a humanidade;
a de Moisés, que durante quarenta dias e quarenta noites jejuou e orou sobre o Sinai para encontrar o Senhor que lhe daria a Lei;
a de Israel, que caminhou no deserto durante quarenta anos;
a de Elias profeta, que caminhou quarenta dias pelo deserto rumo ao Horeb, monte de Deus;
a quaresma de Jesus, nosso Senhor, que antes de iniciar publicamente Seu ministério, jejuou e orou quarenta dias e quarenta noites, recapitulando em Si todas estas outras quaresmas, dando-lhes o sentido de preparação para a nossa salvação!
Eis, pois, o caminho de Deus, eis o nosso caminho: caminho de combate espiritual, de busca de Deus, de luta interior, de conversão! Sem Quaresma ninguém celebra verdadeiramente a Páscoa do Senhor!

O Evangelho de hoje, apresentando-nos as tentações de Jesus, nos ensina a combater: Ele, o nosso Salvador, venceu Satanás ali, onde Israel fora vencido:
Israel pecou contra Deus murmurando por pão; Jesus abandonou-Se ao Pai e venceu, confiando que o homem vive de verdade não dos pães deste mundo, mas da Palavra de Deus, que é fiel;
Israel pecou adorando o bezerro de ouro; Jesus venceu recusando dobrar os joelhos diante da proposta de Satanás de tudo Lhe dar de poderio e prestígio segundo o mundo;
Israel pecou tentando a Deus em Massa e Meriba, duvidando da presença amorosa e providente do Senhor Deus na sua vida; Jesus rejeitou colocar Deus à prova, Nele confiando de modo absoluto e total.

Nas tentações de Cristo estão simbolizadas as nossas tentações, com uma diferença: nossas tentações nascem de nossa concupiscência, da ferida interior do nosso coração, fruto do pecado original. As tentações de Jesus Cristo eram exteriores, pois Ele não tinha nem poderia ter a concupiscência, já que a Sua humanidade é santíssima e sempre o foi. Assim, a tentação básica do nosso Salvador consistiu em seguir o caminho mais lógico segundo o mundo para cumprir a Sua missão; um caminho que não passasse pela Cruz! Nisto o Diabo sempre O tentou e Ele, na oração e na obediência ao Pai, refutou e venceu o Tentador, “fazendo-Se obediente até a morte e morte de cruz!” (Fl 2,8) Quanto a nós, vejamos: a concupiscência da carne (o prazer e a satisfação desregrada dos sentidos, procurando a vida naquilo que nos satisfaz), a concupiscência dos olhos (a riqueza e o apego aos bens materiais, como saciedade de prestígio, segurança, louvores) e a soberba da vida (o poder e o orgulho autossuficiente e dominador, que nos levam a pensar que somos deuses, esquecendo o Deus verdadeiro e impondo-nos sobre os outros).
Ora, Jesus foi tentado como nós, tentado por nossa causa, por amor de nós. Ele foi tentado como nós, para que nós vençamos como ele! Ele foi tentado não somente naqueles quarenta dias. O evangelho diz que “terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno”. A tentação de Jesus foi até a cruz, quando Ele, no combate final, colocou toda a vida nas mãos do Pai e pelo Pai foi ressuscitado, tornando-Se causa de Vida e Ressurreição para nós, que Nele cremos, que O seguimos, com Ele combatemos e O proclamamos Senhor ressuscitado (cf. Hb 5,9).

Irmãos caríssimos no Senhor, caminhemos neste santo tempo rumo à Páscoa; usemos como armas de combate no caminho quaresmal: a oração, a penitência e a esmola do amor fraterno para que, ao final do caminho, sejamos mais conformes à imagem bendita do Cristo Jesus ressuscitado, nosso Senhor e Deus, vencedor do Maligno e da morte, a quem seja a glória pelos séculos. Amém.


Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação III - Sábado depois das cinzas

Reze o Salmo 118/119,17-24
Leia novamente com atenção Gl 1,6-10

1. Já vimos que os gálatas, influenciados por cristãos judaizantes, colocaram em dúvida o Evangelho de Paulo, passando a um outro evangelho, isto é, a uma outra doutrina. Leia os vv. 6s. Mas, o Apóstolo adverte que não há outro Evangelho, não há outra doutrina (cf. vv. 8s). Sendo assim, observe que a fé não é simplesmente um ato de confiança em Jesus nosso Senhor, mas é a adesão à Sua Pessoa e a profissão correta das verdades a Seu respeito na Comunidade dos discípulos, chamada Igreja. Em outras palavras, crer exige que se professe a verdadeira doutrina! Para São Paulo, crer deturpando a doutrina do Evangelho é correr em vão (cf. Gl 2,2).

2. Qual é esta doutrina? Onde ela se encontra? Como reconhecê-la?

a) A doutrina cristã tem sua fonte e raiz na Pessoa, na vida e pregação de Jesus nosso Senhor: Ele mesmo é o Evangelho, de modo que ouvi-Lo, Nele crer e com Ele caminhar é acolher o Evangelho. É preciso ouvir a Sua Palavra (cf. Mt 11,28s; 7,24ss; Mc 13,37); é necessário não somente ouvir, mas pôr em prática a Palavra e imitar o Senhor (cf. 1Cor 11,1), caminhando com Ele e como Ele (cf. Jo 8,12; 1Jo 2,6).

b) Tudo quanto o Senhor Jesus disse, fez e ensinou, Ele entregou aos Doze, com autoridade, para que eles conservassem e proclamassem aos irmãos e ao mundo:

c) Os Apóstolos desde o princípio tiveram a consciência de serem os primeiros responsáveis pelo Evangelho, isto é, pelas palavras, gestos, obra do Senhor Jesus Cristo entregues à Sua Igreja. Veja estes textos seguintes: 1Cor 11,23; 15,1-4; 1Tm 4,6-7.16; 2Tm 1,13s; 2,14s.22-26; 2Tm 3,14-17; 2Tm 4,1-5; Tt 1,9s; 2,1.7.15. Existem ainda outros textos do Novo Testamento que mostram claramente que a fé em Cristo exige que se guarde, na Igreja, a reta doutrina do Evangelho de Cristo, sob a supervisão dos Apóstolos e seus colaboradores, colocados pelo próprio Espírito de Cristo à frente do rebanho.
Leia com atenção At 20,28-52 e 1Pd 5,1-4. Nestes textos aparece claro como (1) os pastores da Igreja, chamados presbíteros, isto é, anciãos, são colocados por Deus à frente do rebanho, (2) devem apascentá-lo com amor, fidelidade, decência e retidão (3) e o rebanho deve respeito e obediência aos pastores.

2. O Evangelho de Paulo e da Igreja é vivo: é pregado e mantido vivo na força do Santo Espírito de Cristo. Este Evangelho é o anúncio e a vivência concreta de uma existência em Cristo feito homem, morto e ressuscitado para a nossa salvação, doador do Santo Espírito, continuamente derramado na Igreja em virtude dos sacramentos. Este anúncio é mantido perenemente firme e dinamicamente vivo nos textos das Escrituras guardadas e interpretadas conforme a constante Tradição da Igreja sob a guia do Santo Espírito.
Leia Jo 14,26; 16,13. Nunca esqueça: a Igreja de Cristo guarda a verdadeira doutrina fielmente não porque repete de modo mecânico a doutrina a cada época ou porque seus estudiosos são espertos em descobrir conexões entre as verdades das Escrituras... Nada disto! A Igreja guarda a doutrina de modo vivo, crescente, progressivo, porque o Espírito Santo de Cristo a ilumina, a vivifica, fá-la conhecer cada vez mais profundamente as insondáveis riquezas do Mistério do Cristo Jesus (cf. Ef 3,3-21). É o Espírito de Cristo, presente e atuante na Igreja dos modos mais variados (na escuta da Palavra de Deus, nos sacramentos, na oração do Povo de Deus, na contemplação dos místicos, na prática do amor e da vida cristã por parte dos fieis, no estudo da teologia, etc), Quem faz com que a Igreja vá crescendo até “compreender com todos os santos qual é a largura e o comprimento e a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento” (Ef 3,18s) e “o pleno conhecimento do Filho de Deus, o estado do Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4,13).
O verdadeiro cristão sabe que Cristo prometeu estar sempre com a Sua Igreja na força do Seu Espírito, conduzindo-a sempre à verdade plena. Por isso sabe que a Igreja como um todo não poderá nunca trair a verdade do Evangelho e a reta doutrina. Leia novamente Jo 8,12; 1Jo 2,6 e também Mt 28,16-20.

3. O Evangelho tal como a Igreja o recebeu, o viveu e o guardou ao longo dos séculos, de modo progressivo, vivo e sem rupturas, hoje é condensado de modo autoritativo sobretudo no Catecismo da Igreja Católica. Principalmente as duas primeiras partes – o Credo e os Sacramentos – são de importância capital para quem deseje guardar de modo íntegro a doutrina do Evangelho!
Pense um pouco: Você procurado conhecer a doutrina da Igreja? Procura levar a sério os ensinamentos doutrinais da Igreja? Procura regular sua vida pela doutrina cristã? Lembre: absolutamente ninguém tem o direito de deturpar esse Depósito da fé confiado uma vez por todas aos santos de Cristo (cf. Jd 3).
Mais uma vez: Você procura, sinceramente, guardar integralmente a fé católica ou, ao invés, é católico de conveniência? Lembre-se de que o Senhor nos pedirá contas do modo com o como guardamos o bom depósito a nós confiado! É a Igreja toda que deve velar para guardar a fé; a Igreja como um todo e cada membro desse bendito Corpo de Cristo em particular...

4. Nunca esqueça: na história da Igreja, desde o tempo dos apóstolos, sempre haverá os que desejam “corromper o Evangelho de Cristo”. Faz-se isto falsificando a doutrina, desequilibrando-a, isto é, enfatizando-a determinadas verdades em detrimento de outras, acentuando certos aspectos em prejuízo do todo revelado pelo Senhor. Somente na Igreja como um todo, sob a ação do Espírito de Cristo, o equilíbrio e a fidelidade poderão ser mantidos! Nunca esqueçamos a sentença do Apóstolo para os que deturpam a verdade do Evangelho: estes sejam anátemas (cf. Gl 1,8s), isto é objeto de maldição, afastados e separados da Comunidade dos discípulos, que é a Igreja!

5. Finalmente, guarde sempre no coração a constatação do santo Apóstolo: “Se eu quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo!” (Gl 1,10b) O Evangelho, quando proclamado fielmente, na sua inteireza, nos colocará sempre em rota de colisão com o mundo: “Adúlteros! Não sabeis que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Assim, todo aquele que quer ser amigo do mundo torna-se inimigo de Deus” (Tg 4,4).

6. Reze o Sl 33/34


sexta-feira, 8 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação II - Sexta-feira depois da cinzas

Reze o Salmo 118/119,9-16
Leia com atenção Gl 1,6-10

1. De modo direto e franco, o Apóstolo queixa-se dos gálatas em tom de repreensão: eles haviam recebido o Evangelho pela pregação de Paulo. Do Apóstolo aprenderam que Jesus, o Cristo, fora enviado pelo Pai, que O entregara pelos nossos pecados e O ressuscitara dentre os mortos, de modo que Nele, o Salvador, estamos livres do mundo de pecado.
Um belo resumo do Evangelho, isto é, da pregação de Paulo, encontra-se em 1Cor 15,3s. Leia! É este o núcleo duro da nossa fé: Cristo morreu e ressuscitou por nós; Nele estamos salvos, por graça de Deus que O entregou!

a) Pense bem: A salvação é, fundamentalmente, graça de Deus através de Jesus Cristo. A Morte e Ressurreição do Senhor são eventos salvíficos, isto é, são gestos, atos salvadores de Deus. O homem precisa dessa salvação que nos vem pela Páscoa do Senhor. Sem entrar em contato com a Sua Morte e Ressurreição, é impossível receber a salvação (cf. At 4,8-12; Rm 8,1-4)

b) O modo ordinário de entrar em contato com a graça salvífica que o Senhor nos obteve com a Sua Páscoa é a participação nos Seus sacramentos, sobretudo e de modo especial na Eucaristia, memorial do Seu Sacrifício pascal. Esta consciência era bem presente e profunda na Igreja primitiva. Basta ver o quanto ela está presente nos escritos do Novo Testamento como algo já conhecido e praticado. Eis alguns exemplos. Vale a pena conferir:
1Cor 10,10-22 => o cálice abençoado e o pão repartido, comunhão com o Senhor ressuscitado;
1Cor 11,23-34 => a Ceia eucarística, memorial da Morte e Ressurreição do Senhor, sacramento da unidade e da comunhão na Igreja;
1Cor 12,13=> os cristãos, batizados no único Espírito do Cristo para formarem um só Corpo do Senhor na Eucaristia;
Jo 3,5s; 6,51-58 => O Batismo e a Eucaristia, que dão a Vida no Espírito de Cristo;
1Jo 5,5-13 => Cristo que venceu o mundo e Se faz presente na força do Seu Espírito pela água do Batismo e o Sangue da Eucaristia.

c) Atenção que estas afirmações são centrais para a nossa fé, fazem parte da essência mesma do cristianismo! É por isso mesmo que do lado do Cristo pascal saem a água do Batismo e o Sangue da Eucaristia, que jorram depois que o Senhor Jesus entregou o Seu Espírito como prenúncio da salvação que seria dada continuamente nos sacramentos celebrados pela Igreja para a Vida do mundo. Compare Jo 19,31-37 com 1Jo 5,5-8.
Aqui, vale a pena perguntar: Você tem consciência da centralidade da vida sacramental na nossa vivência cristã? Como vai a sua participação no Sacrifício eucarístico? Como vai a sua prática do sacramento da Confissão?

d) Pare um pouco. Medite, contemple, reze tão grandes mistérios de amor e salvação!

2. O que fizeram os gálatas? Depois que Paulo pregara o Evangelho e se fora, apareceram irmãos judeus-cristãos, isto é, cristãos de origem judaica, provavelmente antigos fariseus, vindos da Judeia, sem mandato dos Apóstolos, dizendo aos gálatas que Paulo não havia pregado o Evangelho com inteireza: seria preciso para os pagãos que abraçaram a fé em Jesus que eles também cumprissem a Lei de Moisés, a Torá dos judeus, a começar pela circuncisão! A questão era seríssima: se os pagãos convertidos tivessem que cumprir a Lei de Moisés, então, para que Cristo teria vindo? A humanidade é salva pelo Cristo ou pelas práticas da Lei que o Senhor Deus dera aos judeus? Quem salva é Cristo com Seu mistério pascal ou as práticas, as obras determinadas pela Torá?
Os gálatas de deixaram levar por esses irmãos vindos da Judeia! Começaram a duvidar se Paulo havia ou não pregado inteira e fielmente o Evangelho de Cristo! Daí a indignação de São Paulo!

3. O Apóstolo acusa esses irmãos de corromperem o Evangelho de Cristo. Atenção, que não se trata dos quatro escritos que hoje chamamos “evangelhos”, que nem existiam nesta época. “Evangelho”, aqui, é o anúncio do Cristo morto e ressuscitado para o perdão dos nossos pecados e nossa salvação!

4. Paremos por aqui. Na próxima meditação, continuaremos ainda a meditar sobre estes mesmos versículos. Por agora, com fé e devoção, escute o Evangelho e, novamente, acolha-o na fé: leia Mt 28,16-20; Mc 16,9-20; At 2,29-41; At 5,29-32; At 10,37-44; At 13,26-39.

5. Reze o Sl 96/95. Aí já aparece predito o anúncio da salvação a todos os povos, com o Evangelho que proclama o Reino de Deus que o Cristo veio anunciar e instaurar: “O Senhor é Rei” (v. 10).



quinta-feira, 7 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação I - Quinta-feira depois das Cinzas

Reze o Salmo 118/119,1-8
Leia com atenção Gl 1,1-5

1. Primeiramente, recorde que esta Epístola é Palavra de Deus. Nas palavras de São Paulo, escritas por ele de modo tão humano, o Senhor Deus nos instrui sobre o Seu Filho, na luz e na potência, no conhecimento e na profundidade do Santo Espírito. Procure, portanto, ler e reler este trechinho com o coração aberto; um coração que escute.
Peça como Salomão: “Dá ao Teu servo um coração que saiba escutar” (1Rs 3,9), que saiba ouvir a santa Palavra do Senhor como realmente ela é: Palavra de Deus.
Leia 1Ts 2,13.

2. São Paulo começa recordando aos gálatas que ele é apóstolo, isto é, “enviado”; enviado não por homens, não pelos Doze, não por Pedro, mas pelo próprio Jesus Cristo, o Enviado de Deus Pai!
Atenção: Paulo não era dos Doze, Paulo não conhecera Jesus neste mundo e, no entanto, livre e soberanamente, Jesus Cristo o chamou para ser apóstolo. Trata-se de uma escolha inesperada e graciosa do Senhor, por pura liberalidade.
Leia At 22,1-22. Aí, o próprio Apóstolo conta a sua vocação surpreendente e absolutamente gratuita por parte do Senhor. Paulo não se considera apóstolo contra os Doze nem desprezando os Doze, mas sabe que o seu chamado foi diretamente feito pelo Senhor. Se os pastores da Igreja devem ser sempre respeitados, no entanto não são os donos do rebanho nem proprietários da fé e da vocação dos discípulos. Só o Senhor é soberano absoluto da Igreja e ninguém mais: nem um Papa nem um Bispo nem um padre nem ninguém!

3. A palavra “apóstolo”, na Igreja, indica aquele que é enviado como representante do Cristo que envia. O apóstolo faz as vezes do próprio Cristo: “Quem vos ouve e Mim ouve; e quem vos rejeita, a Mim rejeita” (Lc 10,16) de modo que acolhê-lo ou rejeitá-lo equivale a acolher ou rejeitar o próprio Cristo.
Quem são os apóstolos?

a) Primeiramente e de modo todo especial os Doze primeiros que o Cristo chamou e enviou em Seu nome.

b) Depois, de modo absolutamente único, Paulo de Tarso, escolhido não por meio de homens, mas diretamente de Jesus Cristo.

c) Depois ainda homens que receberam dos Doze ou de Paulo, em geral pela imposição das mãos, isto é, o Sacramento da Ordem, a autoridade de enviados em nome de Cristo para ensinar e pastorear a Igreja.

d) Finalmente, todos aqueles que pelo Batismo, a Crisma e a Eucaristia são, neste mundo, sal e luz por ordem do próprio Cristo (cf. Mt 5,13).

4. Reflita:

a) Na Igreja, aqueles que sucedem a Pedro e aos Doze são o Bispo de Roma e os Bispos e seus cooperadores, os presbíteros. Eles devem ter o respeito e a obediência por parte dos fieis (cf. 1Cor 3,9; 1Ts 3,2; Hb 13,7) Mas, isto não é absoluto: “O que se exige do administrador é que cada um seja fiel” (1Cor 4,1s).
Sendo enviados pelo Cristo, os sucessores dos primeiros apóstolos devem ser fieis na doutrina católica e apostólica, no zelo pelo pastoreio do rebanho segundo o Coração de Cristo Bom Pastor e na santificação do rebanho pelo exemplo e pela celebração dos mistérios de Cristo.

b) Além dos pastores da Igreja, todos os batizados e crismados têm um dever de apostolado na Igreja, comunidade dos discípulos do Senhor Jesus. Atenção: esta missão não é dada por nenhum ministro ordenado, mas diretamente pelo Cristo, no Batismo e na Crisma e alimentada em cada Eucaristia! A missão deve ser vivida em comunhão com os pastores e sob a orientação deles, mas não vem deles! Só Cristo é a fonte absoluta e o critério absoluto da vida cristã e da missão!

c) Aqui cabe a pergunta: Você é um apóstolo do Senhor, isto é, você é alguém que se deixa enviar pelo Senhor como testemunha da Sua presença, do Seu amor, da Sua verdade, da Sua salvação? Leia com atenção Mt 5,13ss. É uma séria advertência do Senhor!
Recorde que seu primeiro apostolado é no ambiente em que você vive, no estado de vida em que o Senhor o colocou: família, esposo, pai, mãe, patrão, funcionário, empregado, namorado, estudante…

Leia Is 6,1-8. Pense rezando: Senhor, onde queres me enviar? Onde desejas que eu seja sinal de Ti, presença de Ti? Senhor, aqui estou! Ajuda-me a ser Teu apóstolo, Teu enviado, Teu embaixador nas várias situações e locais deste mundo e desta vida! Faz-me corajoso, faz-me disponível, faz-me fiel! A Ti a glória, Senhor, pelos séculos sem fim. Amém.

5. Agora observe: Quem chama Paulo ao apostolado? É Jesus Cristo! É Ele o Enviado do Pai, é Ele “que Se entregou a Si mesmo pelos nossos pecados a fim de nos livrar do presente mundo mau, segundo a vontade do nosso Deus e Pai” (v.4) e, tendo-Se entregado, foi ressuscitado dentre os mortos pelo Pai (cf. v. 1). Aqui há ideias muito importantes, centrais, para a nossa fé:

(a) Toda a Vida, toda salvação, toda vocação nasce do Pai e nos vem por Jesus Cristo nosso Senhor. Foi o Pai Quem“amou tanto o mundo, que entregou o Seu Filho único, para que todo o que Nele crê não pereça, mas tenha a Vida eterna” (Jo 3,16). A obra da salvação tem seu princípio no Pai, manifesta-se através do Filho feito homem de morte e ressurreição por toda a humanidade e se efetiva seja em Cristo seja na Igreja até o fim dos tempos na potência do Santo Espírito que o Ressuscitado derrama continuamente na Sua Igreja.

(b) A Vida divina que o Pai nos quer dar, a comunhão com Ele, isto é, a salvação, por vontade livre e soberana do Pai, vem-nos pela Morte e Ressurreição do Seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo. Ele Se entregou em perfeita obediência e comunhão com o Pai (cf. Jo 10, 17s) e pelo Pai foi ressuscitado na potência do Espírito Santo, que foi pelo Ressuscitado derramado sobre nós (cf. Rm 1,3s; At 2,32s).

(c) Esta salvação que o Senhor Jesus Cristo nos trouxe nos separa do “mundo mau”. O cristão é separado do mundo! O que isto significa? O cristão, iluminado pela luz do Cristo Jesus, sabe que o mundo foi marcado pelo pecado. Este mundo atual, bom em si mesmo, é ferido gravemente pelo mistério da iniquidade. Jesus fala de Satanás como o “Príncipe deste mundo” de pecado (cf. Jo 12,31; 16,11) e deixa claro que a Sua escolha nos separou do mundo (cf. Jo 17,14-16). São Paulo nos previne claramente de que aqueles que desejam agradar ao mundo não são amigos de Cristo (cf. Gl 1,10) e que a lógica da Cruz de Cristo é loucura para o mundo: ele não consegue compreender porque não tem o Espírito de Cristo (cf. 1Cor 2,14) São afirmações tremendas e de grande atualidade, sobretudo quando se vê na Igreja muitos que são tentados a mundanizar a Esposa de Cristo, a prostituí-la ao modo de ver, sentir, pensar e agir do mundo, inimigo de Cristo! O cristão verdadeiro, que se pauta por Cristo, jamais aceitará isto, pois vivemos na carne, mas não podemos militar segundo a carne! Leia com atenção 2Cor 10,3-6.

6. Pensando nos seus próprios sofrimentos, mas sobretudo, pensando na Igreja, novo Israel, e naqueles que, dentro e for a dela, querem destruí-la ou desfigurá-la, reze o Sl 94/93.


quarta-feira, 6 de março de 2019

Introdução ao Retiro Quaresmal de 2019

Retiro Quaresmal para 2019
A liberdade para qual Cristo nos libertou

Mais uma vez, chegado o sagrado Tempo da Quaresma, proponho-me a fazer um itinerário quaresmal com você, caro Irmão no Senhor. Este ano vou meditar trechos da Epístola de São Paulo aos gálatas.
Não é fácil afirmar com certeza quem eram estes gálatas, aos quais o Apóstolo escreveu nem a data em que escreveu. Para alguns, os gálatas seriam os cristãos das cidades visitadas por São Paulo quando da sua primeira viagem missionária: seriam os habitantes de Icônio, Listra e Derbe, cidades da Licaônia, que, desde 25 aC, os romanos consideravam também pertencendo à Província da Galácia (cf. At 18,23). São Paulo teria, então, escrito a estes irmãos na sua segunda ou terceira viagem missionária, lá pelo ano 48. Neste caso, esta Epístola seria a primeira epístola de São Paulo e o texto mais antigo no Novo Testamento. Segundo outros, a maioria, os gálatas a quem o Apóstolo escreveu seriam cristãos das tribos celtas que teriam chegado à Ásia Menor no século III aC e foram dominados pelos romanos em 189 aC. São Paulo visitou a região dessas tribos gálatas na sua segunda viagem; eles habitavam mais a noroeste (cf. At 16,6), na região onde se encontrava a cidade de Ancira, atual Ancara, capital da Turquia dos nossos dias. Nesta possibilidade, podemos dizer sem medo que os gálatas eram cristãos da Ásia Menor, atual Turquia, convertidos por São Paulo do paganismo durante a sua primeira ou segunda viagem. Neste caso, a Epístola teria sido escrita em torno do ano 56, em Éfeso.
Mais importante é compreender porque o Apóstolo escreveu aos cristãos da Galácia. São Paulo havia pregado o Evangelho de Cristo aos gálatas, que não conheciam o Deus verdadeiro. Eles acreditaram em Cristo Jesus e receberam o Batismo; fizeram a tremenda experiência de ser de Cristo, de viver uma vida nova, Vida no Espírito do Senhor. Nesta ocasião, São Paulo não se tinha detido em falar a Lei de Moisés ou do Antigo Testamento: o importante era conhecer Jesus como Salvador e Senhor e a Ele converter-se! Ora, posteriormente, passaram pela região da Galácia cristãos judaizantes, isto é, ligados aos que antes de se converterem tinham sido fariseus, e defendiam que os cristãos tinham que obedecer inteiramente aos preceitos da Lei de Moisés. Esses aí disseram aos gálatas que São Paulo não lhes havia pregado o Evangelho completo e que o Apóstolo nem era um dos Doze, pois havia se convertido depois. Confusos, os gálatas começaram a desconfiar do Apóstolo e começaram a pensar que era necessário sim cumprir a Lei de Moisés e os preceitos dos rabinos, como os judeus faziam.
Quando São Paulo teve conhecimento disto, ficou indignado, pois a questão era séria, de vida ou morte para o cristianismo:
Quem salva é Cristo ou é a prática de Lei de Moisés?
Se a Lei de Moisés salva, então para que Cristo tinha vindo? Bastaria abraçar o judaísmo!
O que Cristo Jesus trouxe é algo novo ou os discípulos de Jesus seriam apenas um puxadinho dentro do judaísmo?
Por isso o Apóstolo escreve: para defender e explicar que toda a salvação vem de Cristo, nosso Senhor. A Epístola aos Gálatas é uma defesa apaixonada da graça da salvação trazida por Jesus Cristo, por nós morto e ressuscitado e doador do Espírito! Quem Nele crê e Nele vive encontra a salvação, a Vida divina em plenitude, sem precisar recorrer à Lei de Moisés ou ao judaísmo!

Quanto ao nosso caminho quaresmal, eu pretendo tomar trechos da Carta e meditar sobre eles, fazendo que a Palavra do Senhor ilumine e transfigure em Cristo a nossa vida neste mundo até a Vida imperecível da Glória.
Que você, que fará comigo este caminho quaresmal, nunca esqueça que a Escritura Santa não é para simples estudo, mas para que creiamos e, crendo no coração e na vida, tenhamos a Vida eterna por meio de Jesus nosso Senhor!

Estas meditações irão até o sábado antes da IV semana. Depois, tomaremos os textos dos evangelhos de cada dia, já preparando para a Semana Santa e, finalmente, faremos uma leitura contemplativa da Paixão segundo São Lucas, que é o evangelista deste ano litúrgico. Que o Senhor nos conceda levar adiante este projeto! E você, que dele se beneficiar, reze por mim, para que eu seja fiel ao ministério que recebi do Senhor! Amém.



O Sacramento da Quaresma


Os antigos textos litúrgicos da Igreja costumavam chamar a Quaresma de sacramento. Falava-se “venerável sacramento”. É uma intuição belíssima de uma rica realidade!

Sacramental é toda a vida litúrgica da Igreja, porque nas palavras, ritos, gestos e símbolos é verdadeiramente anunciada e realmente dada ao Povo de Deus a graça da salvação trazida por Cristo nosso Senhor.

Tomemos a Quaresma.
Ela faz memória em Cristo dos quarenta dias do Dilúvio,
dos quarenta anos de travessia do Povo de Israel no deserto,
dos quarenta dias passados por Moisés sobre o Monte Sinai,
dos quarenta dias nos quais Golias flagelou Israel com insultos,
dos quarenta dias que Elias Profeta caminhou até o Horeb fortalecido pelo pão que o Senhor Deus lhe enviou,
dos quarenta dias em que Jonas exortou Nínive à conversão
e, finalmente, levando tudo isto à plenitude e em Si cumprindo todas estas realidades, dos quarenta dias nos quais o Senhor Jesus Cristo, no deserto enfrentou Satanás, o Maligno, e o venceu, antes de iniciar publicamente a Sua pregação do Reino de Deus.

Em Cristo, todas estas provações, todos estes combates, todos estes acontecimentos salvíficos chegaram à plenitudes e se cumpriram, isto é, alcançaram a sua finalidade: revelar e já em figuras, tornar presente a ação salvadora do Pai pelo Filho no Santo Espírito.
A Quaresma, tempo de oração, penitência e combate espiritual, torna continuamente presente na Igreja, ano após ano, esta dinâmica salvífica de luta e vitória em Cristo nosso Senhor.
Este tempo é realmente um sacramento, pois pela proclamação da Palavra do Senhor, pelos gestos e práticas penitenciais, pelos ritos da sagrada Liturgia, tudo centrado na Eucaristia e na Penitência, torna-se real e eficazmente presente na vida do Povo santo de Deus os gestos e ações salvíficas do Senhor nosso Cristo Jesus. A Palavra proclamada ricamente neste tempo e meditada nos corações fieis, iluminam o sentido da salvação trazida pelo Cristo e as ações sacramentais próprias deste tempo concedem realmente a salvação anunciada como convite à conversão, proclamação da misericórdia invencível de Deus, reconhecimento do pecado, exortação ao combate espiritual e à vitória sobre os vícios, a prática da caridade fraterna e da disciplina como fortalecimento em Cristo do corpo e da alma, preparando os cristãos para celebrarem na vida e no momento da morte a Páscoa do Senhor, certos de que “se com Ele morremos, com Ele viveremos. Se com Ele sofremos, com Ele reinaremos” (2Tm 2,11s).

Neste sagrado Tempo, o Cristo, Esposo e Senhor fidelíssimo de Sua Igreja, convida-a novamente ao amor e à conversão a Si e, por outro lado, a Igreja recebe a graça de renovar sua adesão amorosa ao Esposo, consumando na carne da sua vida, dia após dia, o grande mistério do Sacramento Pascal.

Cada filho da Igreja, membro do Corpo de Cristo, deve entrar neste mistério, abraçando o espírito e as práticas deste Tempo sagrado para celebrar na verdade os dias do Tríduo Pascal, que no unem sacramentalmente ao Senhor no Seu mistério de Paixão, Morte e Ressurreição, até que Ele, pleno do Espírito e desse Espírito nos plenificando, nos introduza no Reino eterno que Ele mesmo inaugurou com o Espírito Santo da parte do Pai.


Quaresma...

O nosso olhar se dirige a Jesus;
o nosso olhar se mantém no Senhor!