sexta-feira, 6 de março de 2015

Retiro quaresmal - sexta-feira da II semana

Leia Gn 15,1-15. Nesta pericote a Palavra de Deus apresenta-nos uma misteriosa quadra da vida de nosso Pai Abraão. Já idoso, cerca de vinte e cinco anos após tudo deixar por Deus, na esperança de uma descendência e uma terra para essa descendência, Abrão vê-se cansado de esperar, quase que enganado por esse Deus independente demais, misterioso demais, que sempre nos desconcerta...

E ele, em plena noite, no interior da sua tenda, sente-se oprimido e mergulhado numa medonha tristeza, daquelas que apertam o coração e acabam com o ânimo, fazem vacilar a esperança e ameaçam a fé...

O Senhor o consola. E ele desabafa: “Meu Senhor Deus, que me darás? Continuo sem filhos...” Há vinte e cinco anos Abrão esperava o cumprimento da promessa o Senhor... O tempo estava passando, nosso pai tinha já quase cem anos... Como ainda esperar um filho? Como crer em algo assim? Por que Deus tardava tanto em cumprir o que prometera?

Deus, então, tira o velho e cansado Abrão de sua tenda e de si próprio e mostra-lhe a amplidão do céu qualhado de estrelas: “Assim será tua descendência!”

A promessa é tão grande, mas a realidade é tão mesquinha e opaca: Abrão tem quase 100 anos, Sara é já muito idosa e estéril e, ao fim das contas, de promessa em promessa, Deus não cumprira nada até então... “Senhor, como saberei que vou ter tudo isto?”

Deus resolve, então fazer um pacto com nosso Pai, cortar com ele uma aliança, como se dizia no Oriente Médio de 4000 anos atrás. Abrão traz alguns animais, mata-os e parte-os ao meio. Para o contrato-aliança valer é necessário que as duas partes contratantes passem pelo meio das vítimas, como que augurando que tenham a mesma sorte de morte se não cumprirem o contrato...



Abrão espera... Vêm as aves de rapina, vem a escuridão, vem o cansaço, vem o terror de tristeza... E o Senhor não vem... O Senhor demora... O Senhor tarda e parece não ver a angústia do nosso Pai na fé.

- Por que, Senhor, és sempre assim, tão fugidio?

Por que Teus modos e Teus tempos são tão diferentes dos nossos?

És um Deus difícil, Senhor!

Ajuda-me a esperar por Ti, sustenta minha pobre fé, não deixe que se apague nunca a tênue lâmpada da minha esperança!



Mas, quando Abrão já está no limite, Deus irrompe no meio da noite, como uma tocha fumegante e, sozinho, passa pelo meio das vítimas, comprometendo-Se para sempre com nosso Pai na fé.



Que mistério! Também Abrão, sem saber e por antecipação, teve que participar da cruz do Senhor Jesus! Sim! Tudo na vida do crente, seja no Novo que no Antigo Testamento, é misteriosa participação na cruz do Senhor! Nele tudo encontra seu sentido último diante de Deus!




Difícil, para Abrão, não foi tanto deixar a casa paterna, a segurança do clã, a cultura e a paisagem de origem... Difícil mesmo foi ir se deixando, amoldando-se a Deus, esvaziando-se de si e permitindo que o Senhor o educasse! “Eu sou o Senhor teu Deus que te educo para o teu bem!”



Aqui também aparece o sentido da Quaresma: um período de educação que nos faz aprender a compreender os modos de Deus e a deixarmo-nos plasmar por Ele! Se perseverarmos, se confiarmos, veremos a luz pascal, como nosso Pai que, no meio da noite, experimentou a fidelidade do Senhor, luminosa como uma tocha ardente...




Como vai sua confiança no Senhor Deus?

Você tem sabido suportar as demoras de Deus?

Pense nos momentos de noite na sua vida? Como você age nessas ocasiões?




Reze o Salmo 138/139

quinta-feira, 5 de março de 2015

Retiro quaresmal - quinta-feira da II semana

Comecemos nossa meditação com a 1Cor 10,1-6.10-12. Por favor, leia com atenção e espírito de fé este trecho...
Recorde que é a Palavra do Senhor Deus; escute-a com temor é tremor!

Aí, o Apóstolo nos exorta a tomar a sério a experiência de nossos pais, os israelitas.
Recorde, caro Irmão, que nós somos o novo Israel, atravessando agora o deserto da Quaresma e da vida neste mundo rumo à Páscoa de 2015 e do Céu...

Eles, nossos antepassados do Povo de Deus da Antiga Aliança, estiveram debaixo da nuvem e debaixo do mar – foram “batizados”, mergulhados, na nuvem e no mar; eles beberam da Rocha espiritual que os acompanhava deserto afora...
E, no entanto, mesmo experimentando as maravilhas de Deus, pecaram, foram infieis, romperam a Aliança e toda aquela geração morreu no deserto, sem entrar na Terra Prometida...

Também nós, fomos batizados, não em Moisés, mas no Espírito do Cristo; estamos debaixo da Nuvem da Glória de Deus, que é o próprio Espírito do Ressuscitado, alimentamo-nos do verdadeiro maná, que é a Eucaristia e bebemos não mais da água de uma rocha prefigurativa, mas bebemos do precioso Sangue do Cristo, cujo coração foi rasgado na cruz...

- Obrigado, Senhor, Deus de nossos pais Abraão, Isaac e Jacó, Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo!
Obrigado por nos teres libertado em Cristo das garras do Egito do pecado, do tremendo Faraó, o Sedutor, Pai da mentira, Satanás, Príncipe deste mundo!
Obrigado por nos teres feito atravessar as águas do santo Batismo, verdadeiro Mar dos Juncos, que se abriram para nós não mais com o vento siroco, mas com o sopro do Teu Espírito!
Obrigado porque agora somos o Teu Povo santo, povo sacerdotal, raça escolhida, nação santa!
"Também sou Teu Povo, Senhor, e estou nesta estrada, cada dia mais perto da Terra esperada!"

Mas, depois de tudo isto, será que somos melhores que os israelitas?
Também nós não somos infieis, tanta vez?
Também nós, tanta vez, frios; tanta vez, indiferentes?
Somos mesmo mais fieis, mais apegados ao Senhor, mais gratos e sinceros que nossos pais, os descendentes de Abraão, Isaac e Jacó segundo a carne?
Eles viram o mar se abrindo;
Nós vimos o Filho na cruz!
Eles viram os egípcios afogsdos;
Nós vimos Satanás subjugado!
Eles viram a Glória do Senhor;
Nós fomos batizados no Espírito da Glória de Cristo!
Eles caminharam na esperança da Terra Prometida;
Nós caminhamos na certeza do Céu!
Eles viram grandes coisas;
Nós experiementamos e testemunhamos coisas estupendas!

“Esses fatos aconteceram para nos servirem de exemplos, a fim de que não desejemos coisas más, como fizeram aqueles, no deserto. Não murmureis, como alguns deles murmuraram e, por isso, foram mortos pelo anjo exterminador. Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair!”

Um dos grandes pecados dos cristãos de nossos tempos, caro Irmão meu, é um certo cinismo, que nos faz fugir da ira de Deus – “Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?”

Declaramo-nos cristãos, mas com jeito e desfaçatez, vamos fazendo a vida do nosso modo, criando uma moral do nosso jeito, sendo conivente com nossos vícios e manhas... Assim sendo, criamos um cristianismo tão distante de Cristo, tão alheio às exigências do Evangelho, tão desfigurado e sem gosto...
A esta situação de cristãos frios e santos de faz-de-conta, santinhos politicamente corretos, o Senhor, no Evangelho responde com um sonoro “se não vos converterdes, morrereis todos!” Palavra inquietante! Ameaça que deveria calar fundo na nossa consciência!

- Fala-nos, Senhor! Inquieta-nos, ó Cristo! Converte o nosso coração!

Quanto a você, Irmão, façamos hoje um sério exame de consciência a respeito de nossas infidelidades... Ofereçamos ao Senhor um sério propósito de conversão, de emenda de vida.

Reze o Salmo 77/78

quarta-feira, 4 de março de 2015

Ainda para este hoje de Quaresma...

Ainda para este hoje quaresmal.
Dos Discursos de Santo Isaac, o Sírio (século VII), monge:

"Irmão, recomendo-te isto: que a compaixão tenha sempre a supremacia na tua balança, até que sintas em ti a compaixão que Deus demonstra para com o mundo.

Que este estado se torne o espelho no qual vemos em nós a verdadeira «imagem e semelhança» da natureza e do ser de Deus (cf. Gn 1,26). É por estas coisas e por outras idênticas que recebemos a luz, e que uma clara resolução nos leva a imitar Deus.

Um coração duro e sem piedade não será nunca puro (cf. Mt 5,8). Mas o homem compassivo é o médico da sua alma; como que por um vento violento, ele afasta para fora de si as trevas da sua mágoa".

Retiro quaresmal - quarta-feira da II semana

Hoje, o texto do nosso retiro quaresmal serão as palavras do Sermão de São Pedro Crisólogo, Bispo de  Ravena e Doutor da Igreja do século IV. Elas devem servir de avaliação das nossas observâncias quaresmais. Eis:


Há três coisas, meus irmãos, três coisas que mantêm a fé, dão firmeza à devoção e perseverança à virtude. São elas a oração, o jejum e a misericórdia. O que a oração pede, o jejum alcança e a misericórdia recebe. Oração, misericórdia, jejum: três coisas que são uma só e se vivificam reciprocamente.

O jejum é a alma da oração e a misericórdia dá vida ao jejum. Ninguém queira separar estas três coisas, pois são inseparáveis. Quem pratica somente uma delas ou não pratica todas simultaneamente, é como se nada fizesse. Por conseguinte, quem ora também jejue; e quem jejua pratique a misericórdia. Quem deseja ser atendido nas suas orações, atenda as súplicas de quem lhe pede; pois aquele que não fecha seus ouvidos às súplicas alheias, abre os ouvidos de Deus às suas próprias súplicas.

Quem jejua, pense no sentido do jejum; seja sensível à fome dos outros quem deseja que Deus seja sensível à sua; seja misericordioso quem espera alcançar misericórdia; quem pede compaixão, também se compadeça; quem quer ser ajudado, ajude os outros. Muito mal suplica quem nega aos outros aquilo que pede para si.

Homem, sê para ti mesmo a medida da misericórdia; deste modo alcançarás misericórdia como quiseres, quanto quiseres e com a rapidez que quiseres; basta que te compadeças dos outros com generosidade e presteza.

Peçamos, portanto, destas três virtudes – oração, jejum, misericórdia – uma única força mediadora junto de Deus em nosso favor; sejam para nós uma única defesa, uma única oração sob três formas distintas.

Reconquistemos pelo jejum o que perdemos por não saber apreciá-lo; imolemos nossas almas pelo jejum, pois nada melhor podemos oferecer a Deus, como ensina o Profeta: “O sacrifício agradável a Deus é um espírito penitente; Deus não despreza um coração arrependido e humilhado” (Sl 50,19).

Ó homem, oferece a Deus a tua alma, oferece a oblação do jejum, para que seja uma oferenda pura, um sacrifício santo, uma vítima viva que ao mesmo tempo permanece em ti e é oferecida a Deus. Quem não dá isto a Deus não tem desculpa, porque todos podem se oferecer a si mesmos.

Mas, para que esta oferta seja aceita por Deus, a misericórdia deve acompanhá-la; o jejum só dá frutos se for regado pela misericórdia, pois a aridez da misericórdia faz secar o jejum. O que a chuva é para a terra, é a misericórdia para o jejum. Por mais que cultive o coração, purifique o corpo, extirpe os maus costumes e semeie as virtudes, o que jejua não colherá frutos se não abrir as torrentes da misericórdia.

Tu que jejuas, não esqueças que fica em jejum o teu campo se jejua a tua misericórdia; pelo contrário, a liberalidade da tua misericórdia encherá de bens os teus celeiros. Portanto, ó homem, para que não venhas a perder por ter guardado para ti, distribui aos outros,para que venhas a recolher; dá a ti mesmo, dando aos pobres, porque o que deixares de dar aos outros, também tu não o possuirás.

terça-feira, 3 de março de 2015

Retiro quaresmal - terça-feira da II semana

No Domingo passado, a Igreja nos apresentou-nos Jesus transfigurado. Releia o texto do Evangelho da Missa...

Na sobriedade quaresmal, a luz do Tabor, todo iluminado pela luz que emana da face divinizada de Jesus de Nazaré, recorda-nos qual o destino do caminho quaresmal: a nossa divinização, a nossa transfiguração em Cristo. Como trouxemos a imagem do homem velho, deformado pelo pecado, è medida em que formos nos deixando para nos encher de Cristo-Deus, traremos a imagem do Novo Adão, o Homem Novo, todo resplandecente de Glória.

Pense bem, que esta a mais difícil é desafiadora viagem de cada um de nós: sair de nós conformados ao velho Adão para chegarmos ao Novo Adão, Jesus Cristo ressuscitado, sendo a Ele conformados!

Engana-se redondamente, portanto, quem pensa que o cristianismo é um caminho masoquista, de auto-punição, de exacerbação do sentido de culpa, de pessimismo e certo desprezo do que é humano. Nada mais distante da intuição cristã!
Já Santo Irineu recordava com palavras lapidares que “a glória de Deus é o homem vivo”.

Mas, o homem é ferido – somos assim! Profundamente contraditórios, machucados e tiranizados pela busca doentia do nosso próprio eu: queremos sempre nos colocar no centro, vemos e avaliamos tudo a partir de nós mesmos, temos a tremenda tentação de tudo relativizar a nós! Em uma palavra: temos a ilusão e a pretensão de sermos deuses! Tudo isso inferniza nossa vida, tira o brilho de nossa existência e nos faz viver na ilusão, numa grande mentira!

Todo o caminho de ascese, de disciplina e exercício espiritual do cristianismo visa nos libertar dessa situação desumanizadora, dessa terrível auto-escravidão em que o pecado nos meteu!

O caminho cristão consiste em caminhar seguindo Jesus, Ele o Homem Livre, pleno de Si, porque nunca Se buscou a Si, mas sempre viveu inteiramente para o Pai. Nosso caminho é não fazer a nossa vontade, mas a vontade de Jesus, que nunca buscou Sua própria vontade, mas a vontade do Pai!


Aqui, vale a pena perguntar: quem é o centro que define a minha vida: o Senhor Jesus Cristo ou eu mesmo? Quem é o critério da verdade das Minhas escolhas e decisões: eu ou o Senhor?
Procure responder pensando na sua vida concreta...

Por isso, no Tabor, Jesus, transfigurado de Glória, aparece falando com Moisés e Elias sobre Sua paixão que se daria em Jerusalém.
Sua glória não é a glória chocha do mundo, a glória enganosa e passageira a que tanto nos apegamos e que tanto nos ilude!
Sua glória brota precisamente do fato de ter-Se esvaziado totalmente de Si na plena adesão amorosa ao Pai. “Por isso Deus O exaltou e deu-Lhe o Nome acima de todo o nome, para que toda língua proclame que Jesus é Senhor para o glória do Pai!”

Este processo de deixar-se para encontrar-se em Jesus é cruz para nós porque somos apegados a nós e a tantas bugigangas.
A cruz aparece como cruz e nos crucifica precisamente porque somos apegados a nós, a nossos critérios e vontades.
Quanto mais livres formos para o Senhor e com o Senhor, mais saberemos vivenciar as cruzes da vida com liberdade, serenidade, paz e até mesmo alegria...


Pense no que ensina São João da Cruz: "Quem não ama a Cruz de Cristo, não verá a glória de Cristo!" Eis: somente abrançando a Cruz do Senhor, esvaziando-se de nós mesmos, poderemos dar espaço à ação do Espírito de Cristo que nos glorifica.

Sendo assim, usemos com afinco as armas do combate quaresmal: oração, penitência, esmola, escuta da Palavra de Deus, leitura espiritual, combate aos vícios e confissão sacramental. Tudo para ser mais livres em Cristo, tudo para parecer mais com Cristo e ter Seus mesmos sentimentos!
Assim, quando chegar a Páscoa deste 2015 e resplandecer a Páscoa da Glória, na Eterna visão, seremos, também nós, inundados da Glória de Deus que refulgiu na Face do Cristo naquele Tabor!

Reze o Salmo 23/24, suplicando ao Senhor a graça de abrir-Lhe as portas do seu coração.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Retiro quaresmal - segunda-feira da II semana

Assim fala o Senhor: 21“Se o ímpio se arrepender de todos os pecados cometidos, e guardar todas as Minhas leis, e praticar o direito e a justiça, viverá com certeza e não morrerá. 22Nenhum dos pecados que cometeu será lembrado contra ele. Viverá por causa da justiça que praticou.

24Mas, se o justo desviar de sua justiça e praticar o mal, imitando todas as práticas detestáveis feitas pelo ímpio, poderá fazer isso e viver? Da justiça que ele praticou, nada mais será lembrado. Por causa da infidelidade e do pecado que cometeu, por causa disso morrerá (Ez 18,21-22.24).

Palavras tão antigas, estas o Profeta Ezequiel!

Podem parecer óbvias, mas trazem alguns importantes aspectos para nosso caminho quaresmal.

Primeiro, aparece claramente que nossa vida é sempre aberta diante do Senhor: podemos sempre confirmar ou não a nossa opção fundamental! Dito de outro mod: ser cristão é uma decisão que se toma uma vez por todas e, ao mesmo tempo, deve ser renovada a cada dia, em cada nova situação!

Eu posso pendurar num quadro de parede meu certificado de Batismo, mas não posso garantir que serei um fiel discípulo de Cristo até a morte! A cada dia, em cada escolha, do modo como me posiciono concretamente ante situações, pessoas, gestos, confirmo e fortaleço ou obscureço e nego, até renegar minha adesão ao Senhor!

Olhando seu modo de viver, observando suas atitudes e escolhas, ações e reações, procure responder sinceramente: você tem avançado ou regredido na sua adesão e seguimento ao Cristo Senhor nosso?

Segundo. A palavra que o Senhor nascido por meio de Ezequiel deixa claro que, diante de Deus, ninguém fica preso ao seu passado, muito menos a um erro ou pecado que tenha cometido. Seja qual for nossa história, poderemos sempre dizer: "Senhor da minha vida, o Teu amor faz-me recomeçar! Tu não me prendes ao meu passado, mas me apelas no presente e convida-me a construir um futuro Contigo!"

Pense bem: você continua disposto a recomeçar mais uma vez seu caminho com o Senhor? Ele não se cansa nunca de você! "Eis o que recordarei ao meu coração e por que eu espero: as misericórdias do Senhor não terminaram, suas compaixões não se esgotaram; elas se renovam todas as manhãs: grande é a Sua fidelidade!" (Lm 3)

Terceiro. Nossa relação com o Senhor não é um acúmulo de méritos e benfeitorias! É uma relação pessoal, dinâmica e viva! Sou sempre desafiado a amá-Lo, a ter para com Ele um coração aberto, disponível, generoso, encantado, piedoso, obediente! Se a relação amorosa morrer, todas as obras ficam mortas, são um esqueleto sem vida: quem ama não calcula; o amor supera o cálculo!

Pense: Como é sua relação com o Senhor: generosa, amorosa, intima, fecunda ou, ao invés, formal, contábil, fria, interesseira?

Reze o Salmo 102/103

Retiro Quaresmal - sexta-feira da I semana

Sobretudo as sexta-feiras quaresmais são dias de meditação sobre a Paixão do Salvador. 

Hoje lhe proponho uma meditação sobre o sangue de Cristo nosso Senhor. Contemplemos o Salvador no mistério da Sua cruz: ali, na cruz, todo o Seu sangue Ele derramou por nós e pelo mundo inteiro!
Tantas vezes já escutamos falar do sangue de Jesus e do seu poder salvador!

A Primeira Epístola de São João afirma claramente que “o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado” (1,7) e a Primeira Epístola de São Pedro ensina claramente que “fostes resgatados da vida fútil que herdastes dos vossos pais pelo sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeitos” (1,19).

Em suma, é doutrina do Novo Testamento todo, é fé da Igreja que pelo sangue de Cristo fomos salvos e libertos. Saudando o Cristo morto e ressuscitado, o Apocalipse assim se exprime:
“Foste imolado e, por Teu sangue, resgataste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação” (5,9).

Mas, por que esta verdadeira fixação no sangue? Por que a sua importância? Não parece algo mágico, que um líquido biológico possa salvar, dando vida à humanidade? Não estamos diante de algo repulsivo à razão humana, algo meio ridículo e primitivo, próprio de uma religião tribal, inaceitável e incompreensível para nós hoje? Não estaríamos ainda às voltas com a imagem de um deus sádico, mau, vingativo, que provoca o sofrimento e somente se compraz e se sacia com sangue, com vingança? São perguntas sérias, que podem colocar em xeque a seriedade do cristianismo...
Para compreendermos tudo isto, é necessário primeiro entender o que significa o sangue na Sagrada Escritura, de modo particular no Antigo Testamento.

O Pentateuco explica: A vida da carne está no sangue. E este sangue Eu vo-lo tenho dado para fazer o rito de expiação sobre o altar, pelas vossas vidas; pois é o sangue que faz expiação pela vida” (Lv 17,11).

Compreendamos: Deus é vida e a vida do homem é estar em comunhão com Deus, aberto a Ele, amando-O e buscando na vida concreta a Sua santa vontade.
Quando o homem peca, rebela-se contra Deus, fecha-se para Ele. Na raiz de todo pecado está a ilusão de que a vida é nossa e podemos fazer dela aquilo que queremos.
Ora, quando o homem peca, afastando-se de Deus, ele perde o sentido da vida, perde a vida, cai numa situação de morte. Claro que, aqui, não se trata de uma morte física, mas da morte da alma, morte porque a vida perde o sentido e, passando pela morte física, pode resultar na morte eterna, que é a perda de Deus para sempre. Por isso mesmo, nos ritos do antigo Israel, o pecado somente poderia ser remido com um sacrifício no qual o sangue (a vida) da vítima fosse derramado: “Segundo a Lei, quase todas as coisas se purificam com sangue; e sem efusão de sangue não há remissão” (Hb 9,22).
E o autor sagrado afirma também: “Nem mesmo a primeira aliança foi inaugurada sem efusão de sangue” (Hb 9,18). Quando o pecador oferecia um animal como vítima pelo pecado, estava reconhecendo (1) o seu pecado, (2) o senhorio absoluto de Deus sobre toda a sua vida, (3) e que seu pecado leva a uma situação de morte, representada na morte da vítima, que tinha seu sangue derramado. É como se a vítima substituísse o pecador que, pecando, afastou-se do Deus da vida e aproximou-se da morte. Podemos afirmar, então, que o sangue derramado significa a vida doada, a vida perdida, a vida tirada... Não esqueçamos: “A vida da carne (a vida de todo ser vivente) está no sangue” (Lv 17,11): perder este é perder aquela!

Mas, há um problema sério com esses sacrifícios: os animais oferecidos como vítimas não tinham nenhuma consciência do que estava acontecendo, não podiam oferecer sua própria vida como um ato de amor e louvor a Deus. Eles apenas representavam o pecador e eram oferecidos no lugar dele. Por isso, a Escritura constata que “é impossível que o sangue de touros e bodes elimine os pecados” (Hb 10,4).

Agora, vamos a Jesus.
Toda a Sua vida, desde momento da Encarnação, foi um ato de amor e obediência ao Pai em nosso favor:
“Tu não quiseste sacrifício e oferenda. Tu, porém, formaste-Me um corpo. Holocausto e sacrifício pelo pecado não foram do Teu agrado. Por isso Eu digo: Eis-Me aqui! Eu vim, ó Deus, para fazer a Tua vontade!” (Hb 10,5-7).


O Filho eterno fez-Se homem para gastar toda a Sua vida fazendo a vontade do Pai. E esta vontade é salvar a humanidade, dando-lhe a Vida eterna (cf. Jo 6,37-39). Assim, Jesus foi derramando Sua vida, num amor infinito ao Pai por nós: na pobreza de Belém, na vida miúda de Nazaré, nas andanças pelas estradas da Galiléia, nas curas, ensinamentos, nas contradições, nas noites inteiras em oração ao Pai... Jesus foi Se dando, Se gastando, como uma vida vivida para Deus em benefício da humanidade. Esta doação de toda uma existência, chegou ao máximo na cruz.
O sangue que Ele iria derramar até a morte nada mais é que o símbolo de uma vida – a vida do Filho de Deus feito homem – entregue em favor da humanidade!
O sangue derramado significa, então, a vida dada amorosamente em nosso favor, como vítima de reparação pelo nosso pecado. Porque o homem pecou e caiu numa triste situação de perdição, de desencontro, desaprumo e morte, o Filho de Deus deu sua vida até a morte para da morte nos arrancar: Isto é o Meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado por muitos para a remissão dos pecados” (Mt 26,28). Cristo Jesus, dando sua vida em total obediência amorosa ao Pai por nós, apaga o nosso pecado, restitui-nos a vida e faz de nós um povo nascido de uma nova aliança com Deus no Seu sangue.

Dizer que o sangue de Cristo nos salva é dizer com Sua vida dada em obediência amorosa ao Pai nos alcançou a salvação: “Eis que Eu vim, ó Deus, para fazer a Tua vontade. – é graças a esta vontade que nós somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo” (Hb 10,8.10).

Olhar o sangue de Jesus, ser banhado no sangue de Jesus, beber o sangue de Jesus, significa unir-se a Jesus, fazendo da nossa vida uma participação na Sua entrega de toda a existência ao Pai. Por isso mesmo são Pedro que nós participamos da “bênção da aspersão do Seu sangue” (1Pd 1,2).

Então, olhemos o Cristo que Se gastou, que Se derramou amorosamente a vida toda até a cruz; sejamos-Lhe gratos porque Seu sangue, Sua vida derramado por amor nos salvou.
Como cristãos, somos unidos a ele pelo Batismo e a Eucaristia, para fazer de nossa vida uma entrega com Ele, por Ele e como Ele. Assim viveremos uma vida nova já agora, vida liberta da morte e que será ressurreição para a Vida eterna.


“Àquele que nos ama, e que nos lavou de nossos pecados com o Seu sangue, e fez de nós uma Realeza e Sacerdotes para Deus, Seu Pai, a Ele pertencem a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém. (Ap 1,5s).

Reze o Salmo 39/40 - É o Salmo que o Senhor rezou ao Se encarnar e resume toda a Sua existência humana. Una seus sentimentos aos do Cristo Jesus.