sábado, 20 de dezembro de 2014

IV Domingo do Advento: Um Deus que nos apela no dia a dia

1Sm 7,1-5.8b-12.14a.16
Sl 88
Rm 16,25-27
Lc 1,26-38

Eis! Estamos no último dos quatro Domingos do santo Advento! Estamos já em plena Semana Santa do Natal, iniciada no dia 17 de dezembro passado.
A Igreja, agora, é toda atenção, toda contemplação do mistério da Encarnação, preparando-se para celebrar o Natal do Senhor.
Sua vinda é a nossa salvação,
Sua chegada é o anúncio da esperança a todos os povos, a toda a humanidade,
a anual celebração do Seu Natal recorda-nos que nosso Deus não é de longe, mas de perto, de pertinho da humanidade toda e de cada um de nós.

O Filho eterno de Pai fez-Se homem para encher de Vida divina a nossa existência humana. É esta o Mistério de que fala São Paulo na segunda leitura da Missa deste Domingo: “Mistério mantido em sigilo desde sempre. Agora, este Mistério foi manifestado e conforme determinação do Deus eterno, foi levado ao conhecimento de todas as nações, para trazê-las à obediência da fé!”

Antes, parecia que Deus era Deus somente de Israel, esquecendo os outros povos, a grande massa da humanidade. Agora, não! Com a aproximação do Santo Natal, contemplamos a benevolência de Deus para toda a humanidade: no segredo do Seu coração havia um amoroso e misterioso projeto: salvar toda a humanidade pelo Fruto que haveria de vir da raça de Israel, da tribo de Judá, da Casa de Davi.

Mas, atenção: aqui não há nada de um sonho adocicado, de uma boa nova sem exigência de uma resposta generosa de nossa parte: as nações e cada um de nós devemos abrir-nos à “obediência da fé”, isto é, à conversão de toda a nossa vida ao Cristo-Deus que o Pai nos enviou! Em outras palavras: Natal sem conversão não é Natal! Louvação ao Messias que vem sem o esforço da conversão a Ele, é falsa louvação, que honra com os lábios e não com o coração!

O que nos deve encantar neste Domingo, caríssimos, não é somente a grandiosidade desse Mistério, dessa surpresa de um Deus que, desde sempre, preocupou-Se com todos, com toda a humanidade e não só com Israel...
O que nos deve encantar é também o modo como o Senhor realiza o Seu desígnio: Ele age no escondido da história humana, no pequenininho de nossas vidas, nas humildes decisões de nossa existência. Ah! Deus do dia a dia, é o nosso Deus; Deus das coisas pequenas, das humildes sementes, dos acontecimentos corriqueiros!

Pensemos bem! Primeiro, o rei Davi, humilde pastor de Belém, mais novo dos muitos filhos do velho Jessé. E Deus o escolheu: para rei e para dele fazer uma dinastia da qual nasceria o Santo Messias. Davi, que desejava humildemente construir uma Casa, um Templo para o Senhor, fica sabendo que é Deus quem lhe construirá uma Casa, isto é, uma Dinastia, uma descendência, da qual nascerá Aquele bendito Descendente que enche de alegria o nosso coração: “O Senhor te anuncia que te fará uma casa. Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então, suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei a sua realiza. Eu serei para ele um pai e ele será para Mim um filho. Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de Mim, e teu trono será firme para sempre!”

Eis a bondade do Senhor, que de um simples pastorzinho fará nascer o Salvador, o Eterno Rei-Pastor, que reina para sempre.
Depois, podemos pensar em José, naquele que tinha recebido como prometida em casamento uma Virgem mocinha chamada Maria... José, homem simples, moço de Deus. Membro pobre da família real de Davi, simples artesão. Moço de Deus, que vivia na justiça do Senhor, praticando a Lei do Deus de Israel. E o Senhor, misteriosamente o escolhe para ser o esposo daquela na qual se cumprirá a palavra do Senhor.
Recordemo-nos do Evangelho segundo São Mateus: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu o chamarás com o nome de Jesus, pois Ele salvará o Seu povo de seus pecados” (Mt 1,20-21). Pobre José! Bendito José! Jamais esperaria tal coisa, tal gesto imprevisto do Santo de Israel! Ele, um simples carpinteiro, cuidador, tutor, guardador, de um filho que não seria seu filho! Ele escutaria, doravante, o Filho eterno do eterno Pai, chamá-lo de “pai”!

Finalmente, pensemos em Maria!
Aqui a surpresa de Deus chega ao máximo! Uma jovenzinha pobre, uma virgem sem nome importante, perdida nas montanhas do norte da Terra Santa, em Nazaré da Galiléia... E o Senhor Deus lhe dirige a palavra, faz-lhe a mais estonteante proposta que um pobre filho de Eva jamais escutara:
ser, virginalmente, a Mãe do Messias, a Mãe do Filho de Deus, a Terra bendita e santa da qual brotaria a Raiz de Jessé, o Rebento prometido;
ser a doce Aurora do Dia sem fim, ser a Estrela d’Alva que prenuncia o Sol eterno!
“Alegra-te, Cheia de Graça! O Senhor é contigo, Virgem Maria! Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus!”

São Bernardo de Claraval, no século XII, imaginando este encontro inaudito, entre a Virgem e o Anjo, diz a Nossa Senhora: “Ouviste, ó Virgem, que vais conceber e dar à luz um filho, não por obra de homem, mas do Espírito Santo. O Anjo espera tua resposta. Também nós, Senhora, miseravelmente esmagados por uma sentença de condenação, esperamos tua palavra de misericórdia. Eis que te é oferecido o preço de nossa salvação; se consentes, seremos livres; com uma breve resposta tua seremos chamados à vida! Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, Davi a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés. E não é sem razão, pois de tua palavra depende o alívio dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, enfim, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a tua raça. Apressa-te, ó virgem, em dar a tua resposta! Por que demoras? Por que hesitas? Crê, consente, recebe! Abre, Virgem santa, teu coração à fé, teus lábios ao consentimento, teu seio ao Criador. Levanta-te pela fé, corre pela entrega a Deus, abre pelo consentimento. ‘Eis aqui a serva do Senhor, diz a Virgem; faça-se e mim segundo a tua palavra’!”

Eis, caríssimos, irmãos! Tão grande plano de Deus, tão grande salvação, deu-se na simplicidade de vidas humanas que foram dizendo sim ao Senhor, que foram se abrindo para Ele nas pequenas e escondidas ocasiões da vida:
Maria, a Virgem, santa prometida ao Carpinteiro,
José, o pobre descendente de Davi,
Davi, o pastor que se tornou rei...
E agora – ainda agora – o Senhor vem e nos convida a nós – a mim e a você – a que abramos nossa vida, nosso pequeno cotidiano, para a Sua presença.
Através de cada um de nós Ele deseja continuar a obra de Sua salvação, a marca da Sua presença neste mundo enfermo e cansado.


Virgem Maria, Mãe de Deus, São José, esposo da Virgem, São Davi, rei e profeta, intercedei por nós, para que sejamos dóceis e úteis instrumentos da salvação que Deus hoje quer revelar e atuar no coração dos homens e do mundo. Que através de nossa pobre vida, vivida com disponibilidade, o Senhor Jesus seja visto no nosso mundo tão confuso, tão disperso, tão superficial e ameaçado por tantas trevas. Amém.

sábado, 13 de dezembro de 2014

III Domingo do Advento: Vem, Jesus tão esperado!

Is 61,1-2a.10-11
Salmo: Lc 1,46-54
1Ts 5,16-24
Jo 1,6-8.19-28
           
A tradição litúrgica da Igreja chama este Terceiro Domingo do Advento de Gaudete, isto é “Alegrai-vos!” No Missal Romano, a antífona de entrada exclama: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto!” (Fl 4,4.5). Como expressão dessa alegria, pode-se usar no lugar do roxo, o cor-de-rosa, no tom conhecido como “rosa antigo”. É um roxo suavizado, mistura do roxo do Advento com o branco do Natal que já está às portas. Assim, a Liturgia exprime a exultação pela aproximação da Santa Natividade do Salvador, o Cristo nosso Deus. Alegrai-vos, pois! Alegremo-nos! O Senhor está perto! Está próximo o Natal; está próxima a Vinda do Senhor; está próximo de nós o Salvador nosso nos diversos momentos de nossa existência! Ele não é Deus de longe; é Deus de perto: Seu Nome será para sempre Emanuel, Deus-conosco!

Alegrai-vos! Há quem se alegre no pecado, há quem se alegre em futilidades, há quem, mesmo alegrando-se com coisas que valem a pena, esquece que toda alegria é passageira. Há os que de tantas pequenas, miúdas, passageiras alegria, se esquecem da alegria verdadeira, aquela única que sacia o coração e faz a vida valer a pena!

Quanto a vós, caríssimos, alegrai-vos com tudo quanto é bom e louvável, mas colocai vossa maior e definitiva alegria no Senhor! Isto mesmo, com o Apóstolo, eu repito: “Alegrai-vos no Senhor! Alegrai-vos sempre no Senhor!” Somente Nele o coração repousa plenamente, somente Nele encontra-se a paz que dura mesmo em meio à tribulação mais dura, somente Nele o anseio mais profundo de nossa alma. Alegrai-vos! Mas seja o Senhor o fundamento da vossa alegria, a causa última da vossa exultação!

Mas, quem é esse Senhor em Quem nos mandam que nos alegremos? O Batista, neste hoje, nos adverte: “No meio de vós está Aquele que vós não conheceis!” Quem é ele? Quem é este “Aquele”? João Batista, como bom mensageiro faz questão de desaparecer: “Não sou o Messias, não sou Elias (coitados dos que imaginam que João é Elias reencarnado!), não sou o Profeta anunciado por Moisés! Sou apenas a voz que grita no deserto: ‘Aplainai o caminho do Senhor!’” Insistimos: quem é esse que está no nosso meio e que é preciso conhecer e reconhecer sempre de novo para ter a alegria verdadeira? Ele é o Messias, Jesus de Nazaré, o Ungido de Deus, o Enviado para trazer a salvação, a alegria e a paz para todos os pobres de todas as pobrezas do mundo. Ouçamo-Lo, deixemos que Ele Se nos apresente: “O Espírito do Senhor Deus está sobre Mim, porque o Senhor Me ungiu; enviou-Me para dar a Boa-nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção aos cativos e a liberdade para os que estão presos; para proclamar o tempo da graça do Senhor!” Eis, caríssimos, o Messias que esperamos, o Salvador que Deus nos concedeu. Ele, que veio em Belém, que virá no final dos tempos, Ele mesmo vem a cada dia de nossa atribulada existência! - Vem, Senhor Jesus! Vem, santo Messias! Teu povo suspira por Ti, Tua Igreja sofrida e caminheira precisa de Ti! Não nos abandones, não nos deixes sozinhos! Vem, Ungido de Deus, prometido aos nossos pais, anunciado pelos profetas, apontado pelo Batista, colocado sob a guarda do carpinteiro José, concebido e dado à luz pela Virgem Mãe! Vem, e a Mãe Igreja exclamará (e nosso coração exclamará  com ela): “Exulto de alegria no Senhor e minha alma regozija-se no meu Deus; Ele me vestiu com vestes de salvação; adornou-me como um noivo com sua coroa ou uma noiva com suas joias!”

Caríssimos, eis a causa da nossa alegria. Nós, os cristãos, temos direito de nos alegrar, mesmo diante das tristezas do mundo; temos o dever de manter a esperança, mesmo quando as possibilidades humanas fracassam; temos a oportunidade de continuar esperando ainda quando os nossos cálculos mostrem-se errados. Porque nossa esperança e certeza não se fundam em nós nem em nossas possibilidades, mas Naquele que vem, Naquele que o Pai do céu nos envia, Naquele que nunca conseguiremos conhecer totalmente, o Santo Messias do Pai, Jesus, nosso Deus-Salvador!

Resta-nos, então, escutar com atenção o conselho do Apóstolo: estar sempre alegre em Cristo; com os olhos fixos Nele; orar sem cessar, buscando realmente ser amigo íntimo do Senhor, dando graças em todas as circunstâncias, sabendo que Ele está próximo de nós, nunca longe de nossas aflições e desafios. E mais: afastarmo-nos de toda maldade, procurando viver segundo Cristo e não segundo o mundo, santificando no Senhor nosso corpo, nossa alma e nosso espírito ou, em outras palavras, nossa dimensão física, nossa vida inteligente e nossa sede de Deus, nossa saudade de Infinito.

Caríssimos, num mundo que nos despreza porque somos cristãos, numa sociedade pagã, que nos ridiculariza e nos olha com indiferença, tenhamos esta certeza: “Quem vos chamou é fiel; Ele mesmo realizará isso!” Ele nunca nos deixará!


Que a escuta da Palavra santa do Senhor e a participação no mistério do Seu Corpo e do seu Sangue nos preparem não somente para as festas que se aproximam – a Natividade, a Sagrada Família, Santa Maria Mãe de Deus, a Epifania, o Batismo do Senhor - mas, sobretudo para o Dia da Vinda do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo! Amém.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A Imaculada: "Eu Te exalto, Senhor! Não deixaste rir de mim meus inimigos!"

“Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça, como a noiva ornada de suas joias” (Is 61,10).
– Estas palavras do Profeta Isaías, com toda razão a Igreja as coloca hoje na boca da Virgem Maria.
De fato, estas elas exprimem bem o mistério da Festa de hoje, a Imaculada Conceição da Toda Santa Mãe de Deus!

Hoje, caríssimos, no ventre da velha Ana foi concebida a Virgem Maria. Que há de maravilhoso nisso?
Dizem as antigas fontes cristãs que Ana era já idosa e estéril como Sara, a esposa de nosso pai Abraão, como Isabel, a esposa do velho Zacarias. Pois bem, idosa e estéril, também Ana gerou no seu ventre uma filha!
É obra de Deus: onde não há vida Ele faz a vida brotar; onde já não há mais futuro, Ele faz o futuro acontecer! Bendito seja o Nome do Senhor, Deus criador perene da vida, Senhor que nos abre a porta da esperança!

Mas, o mistério da Festa de hoje, a alegria da Igreja neste dia, é por um acontecimento ainda maior, um mistério ainda mais admirável! Eis a surpresa, eis a obra estupenda do nosso Deus, escondida por trás da concepção da velha Ana: essa filhinha concebida hoje no ventre da anciã estéril, desde o primeiro momento de sua conceição, foi preservada por Deus de todo vínculo do pecado que pesa sobre a nossa raça!
O salmista diz: “Minha mãe já concebeu-me pecador!” (Sl 50/51,7). Estas palavras não se aplicam à Virgem Maria!
Desde o primeiro instante de nossa existência, todos somos marcados pela quebradura provocada pelo pecado de nossos antepassados... Não assim a Virgem Maria! Ela, desde o primeiro instante de sua existência, por pura graça de Deus, foi preservada do pecado original!
O mesmo Deus que “antes da fundação do mundo no escolheu em Cristo para que fôssemos santos e irrepreensíveis sob Seu olhar, no amor”, o mesmo Senhor Santo que “nos predestinou para sermos Seus filhos adotivos por intermédio de Jesus Cristo, conforme a decisão de Sua vontade”, Ele mesmo, por causa do Filho Jesus e pelos méritos do Filho Jesus, o “Cordeiro sem defeitos e sem mácula, conhecido antes da fundação do mundo” (1Pd 1,19s), predestinou e preservou de toda mancha do pecado a Virgem Maria, futura mãe escolhida para o Seu Filho! Assim, desde o primeiro momento de sua existência, a Virgem Maria foi revestida da justiça de Deus, foi justificada em Jesus Cristo, foi ornada de santidade como uma noiva ornada com suas joias pelo Noivo divino! Por isso mesmo, a liturgia da Igreja coloca na boca da Virgem Santíssima as palavras do salmo 29: “Eu Vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes e não deixastes rir de mim meus inimigos!”.
Com efeito, caríssimos, a todos nós o Senhor arrancou da lama do pecado pela graça da Sua Páscoa. Mas, à Virgem Maria, Ele sequer deixou que a lama do pecado nela tocasse! Por isso, o Arcanjo Gabriel a saúda como “Toda Agraciada”, por isso também, a própria Virgem exulta dizendo: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor!” (Lc 1,48)
Meus caros em Cristo, hoje nós estamos reunidos em torno do Altar sagrado para proclamar todas essas grandes coisas que o Senhor realizou em nosso favor na vida da Virgem Maria!

É tão belo, tão significativo, agora que estamos cheios de santa ansiedade na preparação para o próximo Natal do Senhor, celebrar a Conceição Imaculada da Virgem Maria!
Ela já aparece como a doce Aurora do Dia da Salvação. A sua Imaculada Conceição, o dom imenso da sua vitória sobre o pecado já prenuncia Aquele que, vindo dela, esmagará a cabeça da antiga Serpente, do inimigo da nossa raça!
É por causa do Salvador, por causa Daquele que tira o pecado do mundo, que a Virgem foi preservada do pecado. Deus, “a fim de preparar para o Seu Filho mãe que fosse digna Dele, preservou Nossa Senhora da mancha original, enriquecendo-a com a plenitude da Sua graça. Puríssima, na verdade, devia ser a Virgem que nos daria o Salvador, o Cordeiro sem mancha que tira os nossos pecados!”

Caríssimos, vivemos atualmente num mundo em que o pecado parece ter mais força que nunca! Nossa civilização cada vez mais vai voltando as costas para a luz do Cristo: descrença, humana soberba, impiedade, imoralidade, orgulho, violência, materialismo, consumismo, relativismo moral, egoísmo, falta de solidariedade e compaixão, desrespeito pela vida humana e pelas leis de Deus – eis as marcas da nossa cultura, mais e mais transformada em “cultura de morte”.
E, no entanto, não temos o direito de perder a esperança! A Festa deste hoje nos mostra e nos faz experimentar na solene Liturgia o quanto o Cristo vence a treva do pecado, vence os laços da antiga Serpente, vence as marcas da morte!
A Imaculada Conceição de Maria é Aurora que nos garante que jamais as trevas vencerão o Cristo que, saído do ventre da Virgem, brilhou como luz para o mundo! Como afirmava Santo Efrém, o grande doutor da Igreja síria, Maria é o “santuário imaculado no qual Deus habitou. Maria gerou Deus, que enche o mundo de bênção e trouxe a vida ao mundo!” Por isso mesmo, diz o santo Doutor que “é grande o mistério da Virgem puríssima e supera toda língua, pois ela acolheu no seu seio o Rio da Vida que com as Suas águas irrigou o mundo e vivificou todos os mortos!”

Meus caros, o cristão não deve ser um iludido, um tolo ingênuo, um otimista bobo!
Sabemos que os sinais de treva, de dor, de pecado com todas as suas tristes consequências marcam ainda o nosso tempo e até mesmo o nosso coração. Mas, sabemos também que o Deus nascido da Virgem é o mesmo que vence o pecado e a morte, o mesmo em Quem já experimentamos a graça da salvação, o mesmo em Quem nos sabemos mais que vencedores!

Voltemo-nos, então, para aquela que hoje foi concebida sem pecado e, do fundo de nossa humana miséria, clamemos, com as intensas palavras da Liturgia oriental:
“Bendita Mãe de Deus, abre-nos a porta da tua benevolência!
Não fique desiludida a nossa confiança, que espera em ti!
Livra-nos das nossas adversidades!
Tu és a salvação do gênero humano!
É tão grande o número dos meus pecados, ó Mãe de Deus!
A ti recorro, ó Imaculada, à procura de salvação!
Consola a minha alma desolada e pede ao teu Filho nosso Deus, que me conceda o perdão dos meus pecados, ó única Imaculada, única bendita!
Deposito em ti toda a minha esperança, ó Mãe da Luz! Acolhe-me sob a tua proteção!”


Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!

Pensando em tempo de Advento...

Na Antiguidade, quando nasceu o cristianismo, vivíamos num mundo hostil:
Por um lado, os judeus, que nos tinham como hereges, perseguiam-nos e, nas suas dezoito bênçãos, nos amaldiçoavam: "Que não haja esperança para os apóstatas e que o reino do orgulho seja prontamente erradicado em nossos dias; os Nazarenos e os hereges morram subitamente, e sejam cancelados do livro dos vivos e não sejam contados no número dos justos. Bendito sejas Tu, ó Senhor, que abaixas os orgulhosos!"
Por outro lado, os pagãos, que nos acusavam de ateus, inimigos do Estado e da sociedade, depravados e molestadores de crianças...
Éramos minoria e tínhamos forte convicção de sermos estrangeiros e peregrinos neste mundo.
Não nos lamentávamos por isso, pois tínhamos firme a esperança e o desejo da Parusia do Senhor, da Sua Manifestação gloriosa que traria o Juízo e plenitude da salvação para os eleitos de Deus em Cristo. Seria, pois, a plenitude da obra salvífica iniciada com a Sua piedosa Vinda em nossa carne mortal...
Era comum, na Liturgia, ouvir-se a exclamação: Maran atha! Vem, Senhor! Ou Maranatha! O Senhor vem!
O tempo passou...
Constantino deu liberdade de culto aos cristãos....
Teodósio fez do cristianismo a religião oficial do Império Romano e ser cristão tornou- se moda...
Clóvis, Rei dos francos, recebeu o Batismo, abrindo as portas para a conversão em massa dos bárbaros ocidentais...
Carlos Magno tornou seu Império cristão: o Sacro Império Romano Germânico...
Nascia a cristandade: ser europeu, ser ocidental e ser cristão foram-se tornando sinônimos, algo natural, dado por descontado...
Os cristãos foram se sentindo sempre mais à vontade neste mundo, foram perdendo a expectativa, a ânsia pela Vinda gloriosa do Senhor... Fomos nos tornando protagonistas, sedentos sempre de dar a palavra final sobre os grandes temas... Sentíamo-nos - e nos sentimos ainda em grande parte - responsáveis pelos destinos do Ocidente! no fundo no fundo, como os romanos chamavam o Mar Mediterrâneo de "Mare Nostrum" (Nosso Mar), um pouquinho nós pensávamos - e muitos ainda pensam - no "Nosso Ocidente" e até o confundimos com o "Nosso Mundo"...
Numa situação assim, em que todos parecem cristãos, mas sem real conversão pesssoal, é tão perigoso achar que o pensamento e todos, canonizado pela sociedade, ou mesmo da maioria, é o pensamento do cristão... E não é!
Entre nós e Cristo haverá sempre o mistério da pobreza da Sua Encarnação, o doloroso escândalo da Sua Cruz, o Seu incômodo e antipático e exigente convite à conversão!
Somente aí, neste ponto de crise do nosso coração teimoso que encontra o Coração de Cristo, começa o verdadeiro cristianismo. Somente aí a Igreja pode se colocar e viver... É preciso recordar que, enquanto a história fluir como um rio, rumo ao mar da Eternidade, a Igreja será sempre neste mundo, mas nunca poderá ser deste mundo!
Hoje, o Senhor da História, o Alfa e Ômega da nossa vida e da vida do mundo, dá-nos novamente a graça de sermos minoria - e minoria perseguida ou, ao menos, ignorada ou antipatizada...
Hoje, mais uma vez, ser cristão exige conversão contínua, exige romper com o mundo, exige uma adesão clara ao Senhor! Não dá mais para se dizer cristão, para se pensar realmente católico pensando, falando, vivendo e agindo segundo os cânones imperantes na sociedade atual!
Ainda há muitos de nós que vivem a ilusão de um mundo todo cristão ou que o mundo nos vê com simpatia....
Esquecem-se esses da exigência da conversão, fazem de conta de que no meio do caminho não há a pobreza de Belém e o escândalo da Cruz, que o homem não é quebrado pelo pecado...
Na verdade, têm uma saudade louca de uma cristandade que nunca mais voltará, graças a Deus! Seremos sempre mais minoria: pobre, sem poder político, sem grandes influências no mundo... Mas com profunda identidade radicalmente firmada em Cristo Jesus e com serena e doce capacidade de diálogo, mas sem em nada ceder na Verdade de Cristo e no Seu amor exigente...
Eis o nosso futuro: seremos a Igreja das pequenas comunidades espalhadas por toda a terra "estrangeiros da Diáspora" (cf. 1Pd 1,1); mas Igreja convicta, serena e profundamente ciosa da sua identidade radicada em Cristo: Igreja dos diferentes na diferença de Cristo, que nos separou do mundo. Por outro lado, deveremos sempre ser a Igreja do diálogo com todo aquele que conosco desejar dialogar: sem impor a ninguém que não seja dos nossos, mas com a coragem de serenamente, com um tranquilo e convicto sorriso, propor, sem descontos, ocultamentos ou falsificações a inteira verdade de Cristo e Suas exigências, que prometem o Céu, a Vida Eterna!
Seremos cada vez mais uma Igreja com a consciência de peregrinos, de estrangeiros... Uma Igreja que novamente não terá vergonha de sentir saudade do Céu e de exclamar, sendenta, ansiosa, amorosa, pressurosa: Vem, vem com Tua luz, ó Senhor Jesus! Maran atua!

Amigo, que este tempo santo do Advento nos faça recordar estas coisas e desperte em nós esta saudade!

II Domingo do Advento: Ele vem para nós, os pobres

Is 40,1-5.9-11
Sl 84
2Pd 3,8-14
Mc 1,1-8

O tempo do Advento coloca-nos diante da miséria da humanidade, da pobreza e aperto da Igreja, da nossa própria miséria.
Pobre humanidade: por mais que se julgue autossuficiente, é tão insuficiente, por mais que deseje ser seu próprio deus, não passa de pó que o vento leva!
Pobre Igreja, tão santa pela santidade de Cristo, o Santo de Deus, mas tão envergonhada pelos pecados de seus filhos e até de seus pastores, que deveriam ser exemplo e orgulho do rebanho; tão difamada, tão vilipendiada, tão humilhada nos dias atuais!
Pobres de nós, que vivemos uma vida tão cheia de percalços e angústias, de lutas e lágrimas, de desafios que, às vezes, pararem mais fortes que nós!
Eis a humanidade! Como no passado, ainda hoje precisamos de um Salvador, como Israel que esperou, nós, Igreja de Cristo, suplicamos: Vem, Senhor! Manifesta o Teu poder! Que passe logo este mundo de tanta ambiguidade e provação; que venha a plenitude do Teu Reino, que venha o Teu Dia, que venha logo a plenitude da Tua graça!
É este o horizonte para contemplarmos a Palavra de Deus deste II Domingo do Advento.

No Missal romano, as palavras de entrada da Missa, tiradas do Profeta Isaías, já nos são de tanto consolo: “Povo de Sião – somos nós, meus irmãos, somos nós! – o Senhor vem para salvar as nações! E, na alegria do vosso coração, soará majestosa a Sua voz!” (Is 30,19.30).
Sim! O Senhor vem!
Aquele que nunca nos deixou e vem sempre nas pequenas coisas e ocasiões da vida, Ele mesmo virá, um dia, naquele Dia, no fulgor da Sua Glória: Ele, nossa justiça, Ele, nossa esperança, Ele, nosso Salvador!

Escutemos o Profeta, falando em nome de Deus! Escutemos as palavras que Ele manda dizer à Sua Igreja sofredora e humilhada, tentada pelo desânimo: “Consolai, consolai o Meu povo! Falai ao coração de Jerusalém e dizei em alta voz que a sua servidão acabou!”
O Senhor vem, cheio de mansidão e misericórdia, de bondade e compaixão!

No Natal nós veremos que Deus é amor, veremos do que Ele é capaz por nós: capaz de fazer-Se pequeno, capaz de fazer-Se criança, capaz de fazer-Se pobre entre os pobres do mundo! “Sobe a um alto monte, tu que trazes a boa-nova a Sião, levanta com força a tua voz; dize às cidades de Judá: ‘Eis o vosso Deus! Como um pastor, Ele apascenta o rebanho, reúne com a força dos braços os cordeiros e carrega-os ao colo; Ele mesmo tange as ovelhas que amamentam”.

Caríssimos, não desanimemos, não temamos, não percamos o rumo da nossa vida, não esfriemos na nossa fé e na nossa esperança: tudo caminha para esse encontro com Aquele que vem!
O Senhor não Se esqueceu de nós, não virou as costas para o mundo, não abandonou a Sua Igreja! Recobremos o ânimo, renovemos as nossas forças, colocando no nosso Deus a nossa esperança e a nossa certeza!

Mas, a Vinda do Senhor, vinda salvadora, será também uma Vinda de julgamento: na Sua luz, bem e mal, santidade e pecado, retidão e maldade, fidelidade e infidelidade aparecerão.
Na Sua Vinda, tudo será queimado, purificado no fogo devorador do Seu Espírito Santo, Aquele que arguirá o mundo quanto à justiça, quanto ao julgamento e quanto ao pecado (cf. Jo 16,8-11).

A Palavra de Deus hoje nos adverte severa e insistentemente sobre isso: “Eis o vosso Deus, eis que o Senhor Deus vem com poder, Seu braço tudo domina: eis, com Ele, Sua conquista, eis à Sua frente a vitória! O Dia do Senhor chegará como um ladrão, e então os elementos, devorados pelas chamas, se dissolverão, e a terra será consumida com tudo o que nela se fez. O que nós esperamos são novos céus e nova terra, onde habitará a justiça!”
O Senhor, portanto, julgará tudo: na luz, do Seu Espírito Santo, tudo será colocado às claras; no fogo do Seu Espírito Santo, tudo será purificado, e aquilo que não foi de acordo com o Seu Evangelho, com a Sua Verdade, com a Sua Cruz, será consumido no nada, no pó, no choro e ranger de dentes.

Por isso mesmo, a insistente exortação que a Palavra nos faz hoje à vigilância.
São Pedro, na segunda leitura, recorda-nos que este tempo de nossa vida é tempo da paciência de Deus, tempo de aproveitar para trabalhar para a nossa conversão: “O Senhor está usando de paciência para convosco. Pois não deseja que alguém se perca. Ao contrário, quer que todos venham a converter-se!’

Bispos e padres, convertamo-nos! Mudemos nossa vida, abramos nosso coração!
Não vos iludamos, pensando que podemos nos acostumar com o Senhor: pregamos a Palavra Dele e seremos julgados pela Palavra que pregamos!

Religiosos e religiosas, convertei-vos ou morrereis eternamente no fogo que não acaba! Não podeis fingir, não podeis enganar o Senhor!

Povo todo de Deus: jovens e adultos, idosos e crianças, solteiros e pais e mães de família, convertei-vos, mudai vosso procedimento! Vivei de acordo com o que sois: sois a Igreja santa, sois o Povo santo de Deus, sois a herança de Cristo! Convertei-vos todos, pois o Senhor a todos examinará!

Com a nossa  vida e o nosso procedimento, preparemos no deserto de nossa vida o caminho do Senhor!
Nivelem-se todos os vales de nossas baixezas e pecados, rebaixem-se todos os montes e colinas do nosso orgulho, soberba e prepotência; endireite-se o que é torto no nosso pensamento e no nosso procedimento e alisem-se as asperezas de nosso modo de tratar os irmãos. Então, a Glória do Senhor se manifestará na nossa vida e nós seremos luz para a humanidade em trevas!
Irmãos, não somos da noite, não somos das trevas! Somos filhos da Luz de Cristo, somos filhos do Dia do Senhor!

A figura de João Batista, com toda a sua austeridade e com suas palavras de advertência são um sério convite a que revisemos nosso modo de viver.
Hoje, caríssimos, o mundo é todo paganizado, nosso país está se tornando cada vez mais pagão. Mas, isso não é o mais triste!
O mais triste, o que nos corta o coração, é ver os cristãos vivendo como os pagãos, pensando como os pagãos, falando como os pagãos, agindo como os pagãos, gostando das coisas que agradam os pagãos!
Nós, que vimos a luz; nós, que temos a consolação de Cristo; nós que temos o Seu Espírito; nós, que nos alimentamos com o pão da Sua Palavra e do Seu Corpo e Sangue! Não fugiremos à ira, caríssimos! Não escaparemos do tremendo tribunal de Cristo! João Batista é claro: “Depois de mim virá Alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar Suas sandálias. Eu vos batizei com água, mas Ele vos batizará com o Espírito Santo!”
Não se brinca com Cristo, não se domestica o Evangelho, não se falsifica o Salvador: se João - austero, piedoso e coerente - não se sentia digno de desamarrar Suas sandálias, que será de nós? Ele nos batizará, nos mergulhará no fogo do Seu Espírito... E, então, ai do infiel, ai do que fez pouco caso da Sua Palavra, das Suas exigências, do Seu amor!

Caríssimos, o Senhor está próximo: convertamo-nos! Amém.