sexta-feira, 20 de março de 2020

Retiro Quaresmal 2020/22 - "Felizes aqueles que se abrigam no Senhor" (Sl 2,12)

Sábado da III semana da Quaresma
Meditação XXI: Os demônios sob o Senhorio de Cristo

Reze o Salmo 119/118,161-168
É necessário ler agora mais uma vez Tb 6. Leia também o capítulo 8.

1. Veja Tb 6,14-19 e 8,1-4. Aí, misturam-se as convicções de fé provindas da divina Revelação, como a existência dos anjos e demônios e sua ação no mundo, como também as narrativas de colorido folclórico presentes em todas as culturas. Nestes casos, é muito importante saber distinguir entre a verdade de fé que a Palavra de Deus deseja transmitir e a roupagem cultural da qual elas se revestem. Observe, por exemplo: a Escritura não diz que Asmodeu era apaixonado por Sara, mas que se comentava: “ouvi dizer...” – é o que Tobias afirma a Azarias (cf. 6,15), fruto de concepções populares do mundo antigo. Também é de cunho folclórico que o cheiro do peixe afugente o demônio, bem como a luta quase física entre Asmodeu e Rafael... Claro que a expressão “acorrentado” (cf. Tb 8,3) é metafórica... Estas figuras ilustram verdades bem concretas: o valor da oração e de ritos sagrados realizados em nome do Senhor na luta contra os demônios, o combate que se deve combater contra esses seres perversos, o socorro dos anjos, a possibilidade real de vencer e afugentar os demônios com a piedade e a obediência ao Senhor. Leia 1Pd 5,8-9.

2. Sobre os demônios, concretamente, é importante acrescentar o seguinte ao que já foi dito numa meditação anterior (cf. Meditação XVI: Os anjos: ministros da nossa salvação): eles existem, são anjos decaídos, são completamente submissos a Deus em Cristo (cf. Cl 1,15s); como os homens interagem uns com os outros e uns sobre os outros, também os anjos bons e maus interagem conosco. No mundo atual, é forte a tentação de banalizar e fazer pouco caso dessas realidades. Mas, tal atitude é equivocada e contrária aos ensinamentos das Escrituras e da Igreja de Cristo! A Palavra de Deus fala de seres invisíveis, anjos decaídos expulsos da presença de Deus (cf. Ap 12,7-9). Popularmente, seu chefe é denominado Lúcifer, o querubim prepotente (cf. Ez 28,14), que foi tomado pela soberba e autossuficiência diante de Deus. Com razão e acuidade, a Tradição viu na prepotência de alguns grandes deste mundo um reflexo desta atitude soberba e arrogante (cf. Ez 28,11-19; Is 14,12-15), que levou Lúcifer e seus demônios à perdição. Já no Livro de Jó aparece um misterioso ser, Satã, adversário do homem, que tem inveja do amor de Deus em relação à humanidade, identificado depois com o Diabo, a Antiga Serpente (cf. Jó 1,6-12; 2,1-7; 1Cr 21,1; Gn 3; Sb 2,24). No Novo Testamento, afirma-se claramente a existência desses seres misteriosos que tentam e prejudicam o homem no seu caminho para o Senhor. Aí se fala, por exemplo, na libertação de possessos (cf. At 8,7; 19,11-17), na luta contra a magia, as superstições de todo tipo como luta contra os demônios (cf. At 13,8ss; 19,8s; 16,16); também na luta contra a idolatria pela qual os demônios se fazem adorar (cf. Ap 9,20) e convidam os homens à sua mesa, isto é, à maléfica convivência com esses seres (cf. 1Cor 10,20s); os demônios estão também por trás da falsa sabedoria (cf. Tg 3,15), que engendra as doutrinas demoníacas que procuram enganar o homem (cf. 1Tm 4,1); do mesmo modo, encontram-se por trás dos fazedores de prodígios mentirosos a serviço da Besta (cf. Ap 16,13s). Satanás e seus anjos estão por trás de todas estas realidades malignas e peversoras. Graças ao Santo Espírito de Cristo, os cristãos podem discernir os espíritos (cf. 1Cor 12,10) e já não se deixam iludir pelas seduções do poder diabólico (cf. 1Cor 12,1ss). Assim, desde a idade apostólica e através dos séculos, a Igreja deveu continuar a luta de Cristo Jesus contra Satanás e seus anjos e sabe com firme e pascal certeza que testemunhará a vitória final do Cristo contra essas potências diabólicas (cf. Ap 20,1ss.7-10).

3. Quanto ao nosso Salvador, Jesus Cristo, Sua vida neste mundo foi uma contínua luta contra Satanás e seus demônios. Basta pensar nas narrativas das tentações (cf. Mt 4,11; Jo 12,31). Durante todo o Seu ministério público, Ele enfrentou os maus espíritos e os venceu. Leia somente a título de exemplo Mc 1,23-27; 5,1-20; 7,25-30; Lc 8,2. O Senhor deu a entender que além das possessões, havia certas situações de doenças, cujas características pareciam naturais, mas, na verdade, eram provocadas por forças preternaturais. Leia, por exemplo, Mt 17,15.18; Lc 13,11, de modo que, enfrentando a doença, o Senhor enfrentou Satanás e seus demônios. Era pela força do Espírito do Senhor Deus, que Nele habitava e agia, que Ele expulsava os demônios, como sinal do triunfo do Reino de Deus e destruição do reino de Satanás. Leia Mt 12,25-28. Ele mesmo, deu aos Seus discípulos o poder de expulsar os demônios (cf. Mc 6,7.13) e ordenou aos Seus que os exorcismos fossem feitos em Seu Nome (cf. Mt 7,22; Mc 9,38s), como sinal do Seu poder pelos séculos afora (cf. Mc 16,17).

4. As Escrituras e a Tradição da Igreja apontam para a ação maléfica dos demônios. Podemos indicar, numa classificação bem simples e despretenciosa, alguns tipos, mais comuns, conhecidos e reconhecidos na vida eclesial:
a) a tentação, quando os demônios, aproveitando-se das nossas debilidades físicas ou psíquicas e dos desequilíbrios que o pecado original deixou em nós, utilizando-se dos nossos impulsos e tendências físicas ou mentais, nos sugerem pensamentos, palavras, atos ou atitudes contrárias à nossa vocação de amor abertura e obediência em relação ao Cristo Senhor.

b) a obsessão, quando os demônios não somente sugerem, mas também provocam desequilíbrios psíquicos ou físicos nas pessoas. Mesmo que a aparência seja de uma doença ou um tormento natural e venham misturados com causas e características naturais, quando se trata realmente da obsessão, os motivos são, fundamentalmente, preternaturais.

c) a infestação, que é a presença ou ação dos demônios em determinados ambientes.

d) e a possessão, que se dá, basicamente, quando um ou mais demônios tomam o controle do corpo das pessoas. Atenção, que o controle pode ser do corpo, mas jamais da alma!

5. Como vencer a ação dos demônios? Com a oração, sobretudo a invocação do santo Nome de Jesus e do mistério da Imaculada Conceição da Virgem Maria, com a prática dos sacramentos e com a sincera busca de uma vida santa. Cumprindo o preceito do Senhor (cf. Mc 3,15; 16,15-17), a Igreja sempre lutou contra os demônios, procurando libertar os seus filhos de possíveis ações nefastas destes. Esta libertação dá-se por orações chamadas de exorcismos, que nada tem a ver com atos espetaculosos que aparecem nos filmes. Os exorcismos são simplesmente orações de súplica ao Senhor pela pessoa que sofre algum tipo de ação demoníaca. Neste caso, chama-se exorcismo menor. Quando se trata de libertar uma pessoa de uma possessão propriamente dita, é necessário que o exorcismo seja realizado por alguém que recebeu da Igreja tal autoridade. Este tipo de exorcismo é chamado de exorcismo maior e é realizado segundo um ritual devidamente aprovado pela Igreja e nas condições por ela determinadas. Mas, não dramatizemos os exorcismos e orações contra o Maligno! Eis alguns exemplos de exorcismos: na preparação para o Batismo de adultos, o catequista exorciza várias vezes os catecúmenos; no Batismo, o ministro sagrado exorciza o que será batizado, ungindo-lhe o peito com o óleo; depois, ele mesmo ou seus padrinhos, renunciam ao Diabo e, finalmente, o nosso próprio Salvador, Jesus Cristo, ensinou-nos a pedir ao Pai que nos livre do Maligno (cf. Mt 6,13; Jo 17,15). Leia Ef 6,10-18.

6. Uma coisa devemos ter bem presente: o centro da nossa fé não é a existência ou a ação dos demônios. Na verdade, tudo isto é periférico! O centro, o essencial da nossa fé e esperança é Jesus Cristo, o Filho eterno do Pai, que veio a este mundo, feito homem, para nos salvar. E fê-lo entregando-Se por amor até a morte e morte de Cruz, de modo que, ressuscitando dentre os mortos, libertou-nos para sempre da Morte e, cheio do Espírito Santo, derramou a vida sobre nós! (cf. At 2,32-33) Ele sim, é nossa glória, nossa esperança, nossa salvação; Ele - e somente Ele! - é o Senhor de todas as coisas e a Ele tudo, absolutamente - até Satanás e seus demônios -, está submisso (cf. Ef 1,20-23; Ap 11,15)! Diante Dele, todo joelho se dobra no Céu, na terra e sob a terra. Leia, rezando Fl 2,6-11 e Ap 1,9-20. Quanto a nós, o sentido da nossa existência é vivermos em comunhão com o Cristo (cf. 1Ts 5,9s), alicerçados na Sua palavra, unindo-nos a Ele pelos sacramentos, que nos dão o Seu Espírito Santo, sendo-Lhe fiel por uma vida no amor a Deus e ao próximo, “a todos, sobretudo os irmãos na fé” (cf. Gl 6,10). Vivendo assim, não temos que ter medo algum do Diabo e seus demônios; basta mantermos, serenamente, a vigilância que as Escrituras nos recomendam. Leia novamente 1Pd 5,8-10.

7. Veja algumas orações de exorcismo que a liturgia da Igreja prevê para serem rezadas sobre os catecúmenos. Reze-as você também, pensando em você, que já é batizado, e naqueles que se preparam para o santo Batismo.

“Deus todo-poderoso e eterno, que nos prometestes o Espírito Santo por meio do Vosso Filho Unigênito, atendei a oração que Vos dirigimos por estes catecúmenos que em Vós confiam. Afastai deles todo o espírito do mal, todo erro e todo o pecado, para que possam tornar-se templos do Espírito Santo. Fazei que a palavra que procede da nossa fé não seja dita em vão, mas confirmai-a com aquele poder e graça com que o Vosso Filho Unigênito libertou do mal este mundo. Por Cristo, nosso Senhor.”

“Senhor nosso Deus, que revelais a verdadeira vida, destruís o pecado e fortaleceis a fé, dais impulso à esperança e ardor à caridade, nós Vos rogamos em Nome de Vosso Filho amado, nosso Senhor Jesus Cristo, e pelo poder do Espírito Santo: Afastai estes Vossos servos da incredulidade e da dúvida, do culto aos ídolos, da magia, da superstição, da macumba e do espiritismo, da cobiça do dinheiro e da sedução das paixões, das inimizades e discórdias e de qualquer forma de mal. E porque os chamastes para serem santos e irrepreensíveis diante de Vós, renovai-os no espírito de fé e piedade, paciência e pureza, caridade e paz. Por Cristo, nosso Senhor.”

“Senhor Deus onipotente, criastes o ser humano à Vossa imagem e semelhança, em santidade e justiça e quando ele se tornou pecador, não o abandonastes, mas pela Encarnação do Vosso Filho lhe providenciastes a salvação. Salvai estes Vossos servos, livrai-os de todo mal e da servidão do Inimigo e deles expulsai o espírito de mentira, cobiça e maldade. Recebei-os no Vosso Reino e abri seus corações à compreensão do Vosso Evangelho para que sejam filhos da luz e membros da Vossa santa Igreja, deem testemunho da verdade e pratiquem a caridade segundo os Vossos mandamentos. Por Cristo, nosso Senhor”. 


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