domingo, 22 de dezembro de 2019

As Antífonas Ó - Ó Rei das Nações

Ó Rei das nações

e objeto de seus desejos,

Pedra angular

que reunis em vós judeus e gentios:

vinde e salvai o homem que do limo formastes!


Rei das Nações, Rei das Gentes - assim a Antífona deste dia 22 aclama o Messias que virá nos santos mistérios litúrgicos. Várias vezes os profetas anunciaram que o Messias seria Rei, descendente de Davi. Mas, sobretudo com o Profeta Isaías (cf. 11,10) e com os Salmos (cf. 71/72) firmou-se profundamente a convicção de que o Seu reinado não se limitaria somente a Israel: Ele reinaria sobre todas as nações e nele toda a humanidade seria salva; Ele seria luz para iluminar as nações e glória do Povo de Deus, Israel (cf. Lc 2,29-32)! Eis alguns versículo do salmo 71/72 que ilustram bem a realeza universal do Messias:

Ó Deus, concede ao rei Teu julgamento
e a Tua justiça ao filho do rei;
que ele governe Teu povo com justiça,
e Teus pobres conforme o direito.

Com justiça 
ele julgue os pobres do povo, 
salve os filhos do indigente 
e esmague seus opressores.

Que ele dure sob o sol e a lua,
por geração de gerações;
que ele desça como chuva sobre a erva roçada, 
como chuvisco que irriga a terra.

Que em seus dias floresça a justiça 
e muita paz até ao fim das luas; 
que ele domine de mar a mar, 
desde o rio até aos confins da terra.

Os reis de Társis e das ilhas 
vão trazer-lhe ofertas;
todos os reis se prostrarão diante dele, 
as nações todas o servirão.

Que orem por ele continuamente!
Que o bendigam todo o dia!
Que seu nome permaneça para sempre, 
e sua fama dure sob o sol!
Nele sejam abençoadas as raças todas da terra,
e todas as nações o proclamem feliz!

Assim, Aquele que o ventre da Virgem gerou não somente realiza as profecias de Israel, mas é também o Desejado dos povos, Aquele que satisfaz os melhores desejos e sonhos da humanidade toda. A Ele todos os povos virão! São Mateus diz isso com a narrativa dos Magos, que vêm de longe seguindo a Estrela do Rei dos judeus (cf. Mt 2,1-12); São João exprime essa mesma ideia com os gregos que pedem para ver Jesus (cf. Jo 12,20ss); e São Paulo fala do Mistério escondido nos séculos e agora revelado (cf. Ef 3,1ss): em Cristo, os pagãos também são chamados à salvação. Por isso mesmo, o Apóstolo chama Jesus de Pedra Angular - a pedra que une as duas colunas do arco e as sustenta. Cristo é pedra angular porque une judeus e gentios num só novo povo: a Igreja, Israel da nova e eterna Aliança, cumprimento das profecias do Israel  antigo e dos desejos dos pagãos (cf. Ef 2,11ss).

Finalmente, ante tão grande Messias, a antífona termina com uma súplica surpreendente, bela e profunda: "Vinde e salvai o homem que do limo formastes". Que significa isso? Que esse Rei dos povos é também o criador e o modelo, a forma de todo homem: Ele nos formou do pó da terra, de modo que trazemos em nós a Sua imagem e quanto mais parecermos com Ele, mais seremos nós mesmos!


sábado, 21 de dezembro de 2019

As Antífonas Ó - Ó Oriente

 Ó Oriente,

Esplendor da luz eterna e Sol de justiça!

Vinde e iluminai

os que estão sentados nas trevas

e à sombra da morte!


Toda esta Antífona deste dia 21 de dezembro é inspirada no Benedictus, o Cântico de Zacarias (cf. Lc 1,68-79). Aí está dito que o Messias é o Astro das alturas que vem "iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte".

É um tema recorrente na Sagrada Escritura, aquele do Messias como portador da luz, iniciador do Dia eterno, sem fim, Sol nascente que dissipa a noite deste mundo. Baste recordar algumas passagens bíblicas:

1. Malaquias profeta, falando dos dias do Messias, afirma: "Para vós que temeis o Meu Nome, brilhará o Sol de justiça, que tem a cura em Seus raios" (Ml 3,20).

2. Também Balaão pensava no Messias referindo-se a um astro que surgiria em Israel: "Eu o vejo - mas não agora, eu o contemplo - mas não de perto: Um Astro procedente de Jacó Se torna Chefe, um cetro se levanta, procedente de Israel" (Nm 24,17).

3. Também a impressionante palavra de Isaías profeta: "O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz raiou para os que habitavam uma terra sombria como a da morte. Multiplicaste o povo, deste-lhe grande alegria; eles alegram-se na Tua presença como se alegram os ceifadores na ceifa, como se regozijam os que repartem os despojos. Porque o jugo que pesava sobre eles, a canga posta sobre seus ombros, o bastão do opressor, Tu os despedaçaste como no dia de Madiã. Com efeito, toda a bota que pisa ruidosamente no chão, toda a veste que se revolve no sangue serão queimadas, serão devoradas pelas chamas. Porque um Menino nos nasceu, um filho nos foi dado, Ele recebeu o poder sobre Seus ombros, e Lhe foi dado este nome: Conselheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-eterno, Príncipe-da-paz” (Is 9,1-5).

A antífona de hoje recorda também que Cristo, Sabedoria de Deus, é esplendor da luz divina: Ele traz em Si o brilho de Deus, pois é Deus como o Pai: A Sabedoria "é um eflúvio do poder de Deus, uma emanação puríssima da glória do Onipotente, pelo que nada de impuro Nela se introduz, pois Ela é um reflexo da luz eterna, um espelho nítido da atividade de Deus e uma imagem de Sua bondade. Sendo uma só, tudo pode; sem nada mudar, tudo renova e, entrando nas almas boas de cada geração, prepara os amigos de Deus e os profetas; pois Deus ama só quem habita com a Sabedoria. Ela é mais bela que o sol, supera todas as constelações: comparada à luz do dia, sai ganhando, pois a luz cede lugar à noite, ao passo que sobre a Sabedoria não prevalece o mal" (Sb 7,25-30).

Por tudo isso, é muito belo o título de Oriente, dado a Cristo. O oriente é a direção na qual nasce a luz, é o lado, o berço da luz, do início de um novo dia.

Chamar Cristo de Oriente é chamá-Lo de novo Dia, nova Luz, início e causa duma nova era. De fato, Ele é o Dia sem fim, Aquele que inicia um novo tempo, quando já não mais haverá trevas, pois Sua luz é divina, já que Ele vem do Pai e é puro reflexo da Sua divindade. Por isso mesmo, os primeiros cristãos tinham o costume de rezar voltados para o Oriente. Na Missa, tanto o sacerdote quanto o povo celebravam os santos mistérios voltados para o Oriente, como quem vai ao encontro do Cristo que vem como Sol de justiça, como Dia da glória sem fim, quando o tempo entrará na Eternidade, as trevas cederão à Luz e a história desembocará na Glória. Daí, também, o próprio verbo "orientar-se": voltar-se para o oriente, para o rumo correto, para Cristo!

Na vida, caminhar ao encontro de Cristo Sol nascente, é "orientar-se"; Dele afastar-se, dando-Lhe as costas, é perder a "orientação", é voltar-se para o ocidente, isto é, para as trevas. Na Igreja antiga, em algumas regiões, os catecúmenos adultos, antes do Batismo, voltavam-se para o ocidente - lado no qual o sol se põe e as trevas se originam - e diziam, depois de cuspirem: "Eu renuncio ao Diabo!" Em seguida, voltavam-se para o oriente, abriam os braços e exclamavam: "Eu adiro a Cristo!"

Oriente é também o "lugar" no qual o Senhor Deus plantou o jardim do paraíso e aí colocara o homem (cf. Gn 2,8). Nosso verdadeiro paraíso, nosso verdadeiro jardim, lugar da nossa salvação definitiva, no qual toda a humanidade pode ser colocada e plenificada - paraíso perdido pelo pecado e reencontrado na Encarnação do Verbo - é o Cristo nosso Senhor. O jardim definitivo, que o homem jamais perderá, é o próprio Cristo, que nos acolhe para as núpcias eternas e nos dá como fruto da árvore da Vida, árvore de Sua Cruz, Seu próprio Corpo e Sangue, por nós assumidos em Maria Virgem no mistério da Encarnação. Tudo isto é evocado nesta antífona. Por isso mesmo, o final tão confiante: que o Santo Messias ilumine com a graça da Sua divindade bendita as trevas de nossa existência!


Homilia para o IV Domingo do Advento - ano a

Is 7,10-14
Sl 23
Rm 1,1-7
Mt 1,18-24

Estamos às portas do Santo Natal; deste do dia 17, a liturgia nos faz celebrar e contemplar de modo intenso a Vinda do Senhor na nossa carne mortal, nascido de Maria, a Virgem. Eis, pois, o que vamos contemplar nos ritos, palavras e gestos da sagrada liturgia: o Verbo eterno do Pai, o Filho imenso, infinito, existente antes dos séculos, fez-Se homem, fez-Se criatura, fez-Se pequeno e veio habitar entre nós! Sua Vinda ao mundo salvou o mundo, elevou toda a natureza, toda a criação.
Mas, atenção: a Palavra de Deus hoje nos diz que este acontecimento imenso, fundamental para a humanidade e para toda a criação, passou pela vida simples e humilde de um jovem carpinteiro e de uma pobre menina moça prometida em casamento numa aldeia perdida das montanhas da Galileia. O Deus infinito dobrou-Se, inclinou-Se amorosamente sobre a pequena e pobre realidade humana para aí fazer irromper o Seu plano de amor.
Acompanhemos, pois, piedosamente o Evangelho deste Quarto Domingo do Advento.

São Mateus diz que a Mãe de Jesus “estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo”. As palavras usadas pelo Evangelista são simples, mas escondem uma realidade imensa, misteriosa, inaudita. Pensemos em José e Maria. Eles certamente se amavam; como todo casal piedoso daquela época pensavam em ter filhos – os filhos eram considerados uma bênção de Deus – e ainda hoje são uma bênção para quem os recebem com fé e generosidade. Mas, eis que antes de viverem juntos, a Virgem acha-se grávida por obra do Espírito Santo! Deus entra silenciosamente na vida daquele casal... Nós sabemos, pelo Evangelho de São Lucas, que Maria disse “sim”, que Maria acreditou, que Maria deixou que Deus fosse Deus em sua vida: “Eu sou a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38) De repente, eis que uma vida de família, que tinha tudo para ser pacata e serena, viu-se agitada por uma tempestade.
Por um lado, a Virgem diz “sim” a Deus e, sem saber o que explicar ou como explicar ao noivo, cala-se, abandonando-se confiantemente nas mãos do Senhor. Por outro lado, José sabe que o aquele filho não é seu; não compreende o que possa ter ocorrido com sua prometida, não imagina que Maria poderia ter-lhe sido infiel... Por isso, não ousa difamar a noiva. Resolve deixá-la secretamente, permitindo que ela mesma desse à sua gente de Nazaré a explicação e justificativa que desejasse...
Quanta dor, quanta dúvida, quanto silêncio: silêncio de Maria, que não tem o que dizer nem como explicar; silêncio de José que, na dor, não sabe o que perguntar à noiva; silêncio de Deus que, pacientemente, vai tecendo a Sua história de salvação na nossa pobre e, por vezes, confusa, história humana. E, então, como fizera antes com a Virgem, Deus agora dirige Sua palavra a José: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois Ele vai salvar o Seu povo de seus pecados”.
Atenção aos detalhes! O Anjo chama José de “filho de Davi”. É pelo humilde carpinteiro que Jesus será descendente de Davi. Se José dissesse “não”, Jesus não poderia ser o Messias, Filho de Davi! Note-se que é José quem deve dar o nome ao Menino, reconhecendo-o como seu filho. Note-se ainda o nome do Menino: Jesus, isto é, “o Senhor salva”! Deus, humildemente, revela Seu plano a José e, depois de pedir o “sim” de Maria, suplica e espera o “sim” de José. E, como Maria, José crê, José se abre para Deus em sua vida, José mostra-se disposto a abandonar seus planos para abraçar os de Deus, José aceita ser servo do Mistério, José diz “sim”: “Quando acordou, José fez conforme o Anjo do Senhor havia mandado, e aceitou sua esposa!”

Eis! Adeus, para aquele casal, o sonho de uma vida tranquila! Adeus filhos nascidos da união dos dois! Agora, iriam viver somente para aquele Presente que o Senhor lhes havia dado, para a missão que lhes tinha confiado... Irmãos, o plano de Deus passou pela vida humilde daquele casal! Para que São Paulo pudesse dizer hoje na Epístola aos Romanos que é “apóstolo por vocação, escolhido para o Evangelho... que diz respeito ao Filho de Deus, descendente de Davi segundo a carne”, foi necessária a coragem generosa da Virgem Maria e o sim pobre e cheio de solicitude do justo José. Para que a profecia de Isaías, que ouvimos na primeira leitura, fosse concretizada, foi necessário que aquele casal enxergasse Deus e Seu plano de amor nas vicissitudes de sua vida humilde e pobre!

Também conosco é assim! O Senhor está presente no mundo. Aquele que veio pela Sua bendita Encarnação, nunca mais nos deixou. Na potência do Seu Espírito Santo, Ele se nos faz presente nos irmãos, nos acontecimentos, na Sua Palavra e, sobretudo nos sacramentos. Sabemos reconhecê-Lo? Abrimo-nos aos Seus apelos? E na nossa vida, essa vida miúda, como a de José e Maria, será que reconhecemos que ela é cheia da presença e dos apelos do Senhor? No Advento, a Igreja não se cansa de repetir o apelo de Isaías profeta: “Céus, deixai cair o orvalho; nuvens, chovei o Justo; abra-se a terra e brote a Salvador!” (Is 45,8). É interessante este apelo: a salvação choverá do Céu, vem de Deus, é dom, é graça, mas, por outro lado, brota da terra, da terra deste mundo ferido e cansado, da terra da nossa vida, com suas lutas, desafios, vitórias, derrotas, alegrias e tristezas, luzes e sombras...

Supliquemos à Virgem Maria e a São José que intercedam por nós, para que sejamos atentos em reconhecer o Senhor nas estradas de nossa existência e generosos em corresponder aos Seus apelos, como o sagrado casal de Nazaré. Assim fazendo e assim vivendo, experimentaremos aquilo que o Carpinteiro e sua santa Esposa experimentaram: a presença de Jesus nas humildes vivências e rotinas da miúda vida cotidiana.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

As Antífonas Ó - Ó Chave de Davi

Ó Chave de Davi,

e Cetro da Casa de Israel,

que abris e ninguém fecha,

fechais e ninguém abre:

vinde e libertai da prisão o cativo

assentado nas trevas e à sombra da morte!


Este título dado ao Cristo que vem é inspirado em Is 22,22s, e refere-se, primeiramente, a Eliaquim, guardião da Casa de Davi: "Porei sobre os seus ombros a chave da Casa de Davi: quando ele abrir, ninguém fechará; quando ele fechar, ninguém abrirá. Cravá-lo-ei como uma cavilha em lugar firme: ele virá a ser um trono de glória para a casa de seu pai".

Jesus nosso Senhor é o verdadeiro Messias, descendente de Davi por excelência, honra da Casa de Davi. Com Ele, o trono da descendência real de Davi estará garantido para sempre, conforme a promessa do Senhor Deus (cf. 2Sm 7). Seu Reino é eterno, sem fim, Seu poder jamais passará, será firme como uma "cavilha em lugar firme".
A imagem de abrir e fechar são termos para indicar o poder de absolver e condenar, realçando a missão de juiz que o Rei-Messias possui: Seu juízo sobre nós e sobre a humana história é definitivo, verdadeiro e sem apelação, pois que é Ele o Senhor da história e a Ele o Pai concedeu todo o poder de julgar. Por isso a súplica final: que Ele nos absolva e nos liberte, a nós, pecadores cativos, sentados à sombra da morte!

A antífona também O chama "Cetro da Casa de Israel". Esta expressão corresponde à realeza do Messias filho de Davi e encontra-se já na antiga profecia que o velho Jacó fez sobre seu filho Judá, do qual surgiu a tribo que deu origem a Casa de Davi: "O cetro não se afastará de Judá, nem o bastão de comando de entre seus pés, até que o tributo lhe seja trazido e que lhe obedeçam os povos" (Gn 49,10). Neste texto impressionante já aparece claro que o Reinado trazido pelo Messias, da tribo de Judá, vai estender-se a todos os povos.

Há um outro texto, ainda mais impressionante, no qual a antífona se inspira. Trata-se do oráculo que Balaão, feiticeiro pagão, pronunciou sobre Israel no século XII aC: "Oráculo de Balaão, filho de Beor, oráculo do homem de visão penetrante, oráculo daquele que ouve as palavras de Deus, daquele que conhece a ciência do Altíssimo. Ele vê aquilo que o Altíssimo faz ver, alcança a resposta divina e os seus olhos se abrem. Eu o vejo - mas não agora, eu o contemplo - mas não de perto: Um Astro procedente de Jacó se torna chefe, um Cetro se levanta, procedente de Israel". (Nm 24,15-17). Esse Cetro que se levanta e domina os povos diz respeito à Casa de Davi, da qual o Messias é a personificação e plenitude! Impressiona como desde as origens o Santo Messias foi preparado! E a antífona reflete esta realidade... Como não recordar as insistentes palavras do Senhor Deus na profecia do Segundo Isaías? “Quem proclamou isto desde os tempos antigos? Quem o anunciou desde há muito tempo? Não fui Eu, o Senhor? Não há outro deus fora de Mim, Deus justo e salvador não existe, a não ser Eu” (Is 45,21). “Sim, Eu sou Deus e não há quem seja igual a Mim. Desde o princípio anunciei o futuro, desde a antiguidade, aquilo que ainda não acontecera. Eu digo: o Meu projeto será realizado, cumprirei aquilo que Me apraz! Eu o disse, Eu o executarei; eu o delineei, Eu o cumprirei. Dai-Me ouvidos, homens de coração empedernido, que estais longe da justiça! A Minha Justiça, Eu a trouxe para perto, ela não está longe; a Minha Salvação não há de tardar!” (Is 46,9-13)



quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

As Antífonas Ó - Ó Raiz de Jessé

Ó Raiz de Jessé,

erguida como estandarte dos povos,

em cuja presença os reis se calarão

e a Quem as nações invocarão;

vinde libertar-nos, não tardeis mais!


Hoje, Aquele que vem é saudado e invocado como Raiz de Jessé, aquela mesma de que fala Is 11,1, o Descendente prometido a Davi, filho de Jessé, o Rei eterno de Israel de que tanto falaram os salmos e os profetas:

"Naquele dia, a Raiz de Jessé, que Se ergue como um sinal para os povos, será procurada pelas nações, e a Sua morada se cobrirá de glória. Ele erguerá um sinal para as nações" (Is 11,10.12a).

Mas, misteriosamente, de modo profundo e cheio de sentido das coisas de Deus, a antífona mistura esse Messias Rei glorioso com o Servo Sofredor, humilhado e morto por nós pela salvação do mundo:

"Eis que o Meu Servo há de prosperar, Ele Se elevará, será exaltado, será posto nas alturas. Exatamente como multidões ficaram pasmadas à vista Dele - tão desfigurado estava o Seu aspecto - e a Sua forma não parecei a de um homem - assim agora nações numerosas ficarão estupefatas a Seu respeito, reis permanecerão silenciosos, ao verem coisas que não lhes haviam sido contadas e ao tomarem consciência de coisas que não tinham ouvido" (Is 52,13-15).

Eis o misterioso plano de Deus, a misteriosa lógica do Evangelho: o esperado Descendente de Davi não viria coberto de glória, mas pobre e humilde Servo sofredor, que reinaria pela Cruz e, por um ato de amor total e puro, até o fim, libertaria toda a humanidade que O acolhesse e triunfaria na glória por toda a eternidade. O estandarte levantado em sinal para todas as nações é, precisamente, a Cruz do Senhor Jesus, como Ele mesmo declarou: "Quando Eu for levantado da terra atrairei todos a Mim" (Jo 12,32). Este misterioso e admirável paradoxo já se anunciou na Noite Santa, quando o Anjo deu aos pastores um sinal desconcertante: "Um Recém-nascido, envolto em faixas, reclinado numa manjedoura" (Lc 2,11). Mas, quem pode aceitar um sinal assim? Os pobres, simples de coração, que aceitam as surpresas de Deus! Por isso o mundo não acolhe Jesus e desvirtua o Seu santíssimo Natal!

Este era o sonho de Deus, isto foi o que o nosso Salvador, Rei-Messias realizou, esta é a realidade da nossa fé e a causa da nossa esperança. Bendita seja a Raiz de Jessé, o Cristo nosso Deus!


quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

As antífonas Ó - Ó Adonai

Ó Adonai,

Guia da Casa de Israel,

que aparecestes a Moisés na chama de fogo,

no meio da sarça ardente

e lhe destes a Lei no Sinai;

vinde resgatar-nos pelo poder do Vosso braço!



Nesta Antífona de hoje, 18 de dezembro, toda atenção se volta para o Êxodo. “Adonai” é o nome com o qual os judeus chamam o Deus de Israel, evitando pronunciar “IHWH”, o Nome santíssimo revelado a Moisés no Sinai, de dentro da sarça ardente. Chamar Jesus Cristo de Adonai é chamá-Lo de Deus, o Deus Libertador de Israel, que arrancou Seu povo das trevas da escravidão no Egito e o guiou pelo deserto áspero e pavoroso por quarenta anos.

Pois bem, o Adonai, Guia da Casa de Israel, que Se fazia presente no meio do Seu Povo de modo misterioso é o próprio Filho eterno: Ele foi a Rocha da qual brotou a água, Ele foi o maná que alimentou o Povo, Ele guiou o Seu Povo pela nuvem luminosa... Foi Ele também quem falou a Moisés no meio da sarça ardente e lhe deu a Lei sobre o Monte Sinai.

Para os Santos Padres dos primeiros séculos cristãos tudo isso era muito claro. O Filho é a eterna revelação do Pai, Sua eterna e única Palavra, Seu Verbo, Sua comunicação. Sendo assim, desde o Antigo Testamento, de modo velado, o Pai vai falando à humanidade por Sua Palavra única e eterna: o Filho amado, que um dia haveria de fazer-Se carne. Por isso, a Igreja, unida à Virgem Maria, cheia de admiração, suplica que Ele venha para resgatar o Seu Povo pelo poder do Seu braço estendido, do mesmo modo que fez ao abrir o Mar Vermelho.


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Lições da genealogia de Jesus Cristo segundo Mateus

Hoje, 17 de dezembro, início da Semana Santa do Natal, como Evangelho, a liturgia apresentou-nos a genealogia deu Senhor Jesus. É um escrito a primeira vista árido, mas, olhado com mais atenção, aparece riquíssimo de significado. Eis algumas lições preciosas:

1. O texto começa afirmando que o Senhor é filho de Davi, filho de Abraão. Ele é verdadeiro homem, vindo do limo da terra, da raça dos filhos de Adão. O Evangelho segundo Lucas afirma claramente que Jesus nosso Senhor é "filho de Adão, filho de Deus" (cf. 3,38). Por outro lado, Ele é o cumprimento das promessas feitas a nosso Pai Abraão ("Por tua descendência todos os povos da terra serão abençoados" - Gn 12,3) e a Davi ("O teu trono se estabelecerá para sempre" - 2Sm 7,16).

2. Na genealogia aparecem santos como o rei Josias e ímpios como Manassés. O Cristo Jesus não vem de uma raça pura, imaculada, mas de uma humanidade marcada por grandezas e baixezas. É na trama da nossa vida, nos altos e baixos da existência, dia após dia, que Deus vai tecendo na nossa pobre vida o Seu desígnio de amor e salvação.

3. Na genealogia aparecem cinco mulheres, todas elas em situação peculiar e irregular: Tamar, que teve um filho do sogro Judá; Raab, que era uma prostituta cananeia; Rute, que era uma pagã moabita, a mulher de Urias, com quem Davi adulterou e da qual nasceu Salomão e, finalmente, Maria, que antes de casar e ainda virgem, concebeu... Diante do Senhor Deus tudo tem sentido, tudo vai se encaixando e até nossas debilidades e percalços servem ao Seu plano de amor!

4. Pense-se em quanta dor, quanta incerteza, quantas lágrimas em toda esta história de Israel... E Deus tecendo, e Deus conduzindo tudo à plenitude do Cristo, Santo Messias. Quantas recordações dolorosas na alusão que o texto faz ao Exílio de Babilônia: "Josias gerou Jeconias e seus irmãos, no tempo do exílio na Babilônia". Parecia o fim, parecia que tudo iria se acabar... Mas, não! Deus estava conduzindo a história, Deus estava levando tudo a bom termo!

5. Outro dado importante: se Jesus nosso Senhor vem da nossa raça, se vem dessa velha e sofrida humanidade, por outro lado, Ele é um novo Começo, vem de Deus e não do homem. Esta novidade aparece na própria estrutura da narrativa: Fulano gerou Beltrano, Beltrano gerou Sicrano... Mas quando chega em Jesus, quebra-se a estrutura: "Matã gerou Jacó. Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo". O normal seria: Mata gerou Jacó. Jacó gerou José, José gerou Jesus... Mas, não! Aqui se tem uma quebra, aqui Deus intervém! Aqui algo novo e inusitado iria começar!

6. Uma última observação: "Assim, as gerações desde Abraão até Davi são catorze; de Davi até o Exílio na Babilônia catorze; e do Exílio na Babilônia até Cristo, catorze". Veja: Jesus é o fruto maduro de um caminho: 3 vezes 2x7: 3 e 7 indicam perfeição. Jesus é fruto de uma linhagem de três vezes quatorze. Em outras palavras: na plenitude do tempo (não antes, não depois) Deus visitou a nossa terra e nos trouxe a Salvação!

Pois veja, meu caro Leitor, quando nos aproximamos da Palavra de Deus com um olhar mais atento, quanta riqueza, quanto de Eternidade ela nos oferece, quanto facho de luz nos dias da nossa vida ela projeta!

Gostaria somente ainda de recomendar um Natal vivido de modo verdadeiramente cristão:
além das luzes das casas, cuidemos de iluminar com Cristo a nossa vida;
além dos presentes, estejamos atentos ao que eles deveriam significar: o Presente estupendo, surpreendente que o Pai nos enviou: Seu Filho feito homem, do nosso barro, feito um de nós, companheiro de caminho, para nos salvar, para abrir-nos a eternidade!
Que a vestimenta nova de Natal que mais nos preocupe seja aquela, alva, do nosso Batismo, que deve ser branquejada pelo sacramento da Confissão!
E a ceia natalina ou o almoço do dia do Natal, que tanto evocam de sentimento e memória no aconchego de nossos lares? Que nos façam ter presente que toda ceia cristã é preparação, sinal e prolongamento da Ceia eucarística, na qual o Senhor, Menino que nos foi dado, continua a dar-Se como Cordeiro imolado e ressuscitado para nossa salvação.

Que estes pensamentos o ajudem a viver bem esta semana de preparação para o santo Natal do Senhor.
E desde já, feliz e abençoado Natal!