sábado, 8 de dezembro de 2018

Homilia para a Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria

A Imaculada Conceição da Virgem Maria – é este o mistério que neste dia celebramos. Hoje, a Virgem foi concebida no ventre de Ana, sua mãe.
Mas, que tem isso de mistério? É verdade que toda vida que brota é um mistério; é verdade que todo feto, desde o primeiro momento de sua existência, seja são ou defeituoso, é já uma vida humana e, portanto, um milagre de Deus, um sorriso de Deus, um presente de Deus – apesar dos monstros de hoje, dessa humanidade desalmada e sem Deus, desejarem tanto negar a dignidade da vida humana desde o seu primeiro momento...
Se é assim, se cada concepção neste mundo é um mistério, o que tem de extraordinário a concepção daquela que será a Mãe do Cristo-Deus?
Eis o mistério, eis a novidade, eis o extraordinário: no momento mesmo em que Ana, idosa e estéril, concebeu a Virgem Santa, ela, por ser destinada a ser a Mãe do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, foi preservada da mancha do pecado original. Em outras palavras: a Virgem Maria, desde o primeiro momento de sua existência no ventre materno, foi preservada daquela marca negativa, de fechamento e desarmonia, que mancha e fere a nossa natureza humana. Portanto, a ela, e só a ela, o Senhor pode exclamar, com as palavras do Cântico dos Cânticos:“Como és bela, Minha amada, como és bela! És toda bela, Minha amada, e não tens um só defeito!” (4,1.7).
Que o Senhor Deus exclame assim! Que a Mãe Igreja cante assim! Que a humanidade exulte assim!

A Igreja desde muito cedo foi compreendendo sempre mais este mistério da Imaculada Concepção de Nossa Senhora: ela, a Virgem, fora preservada do pecado graças aos méritos do Cristo, que com Sua Paixão, Morte e Ressurreição nos libertou do pecado.
Como diz São Paulo aos Romanos: “Todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus e são justificados gratuitamente por Sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus” (3,23s).Com efeito, sem Jesus, sem a Cruz que Deus já sabia que aconteceria, a Virgem seria tão pecadora quanto todo o resto da humanidade! Mas, a mesma Cruz de Cristo que nos arrancou da lama, sequer permitiu que a Mãe do Cordeiro Imaculado pela lama fosse tocada! Que grande providência de Deus! Que amorosa sabedoria! Nossa Senhora, mais que todos nós, pode e deve cantar as palavras do Profeta: “Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas jóias!” (Is 61,10). Nossa Senhora, de sorriso escancarado, pode erguer o olhar para o Senhor e exclamar: “Eu Vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes, e não deixastes rir de mim meus inimigos!” (Sl 29,2)Em Maria começou a manifestar-se a vitória de Cristo contra o Inimigo da nossa raça humana...

Se pensarmos bem, veremos que este mistério deita suas raízes na antiguidade, nos primórdios do sonho de Deus. A primeira leitura, do Livro do Gênesis, nos diz que, quando toda a humanidade foi marcada pelo pecado, pelo “não” a Deus – esse “não” no qual todos nós já nascemos e que tantas e tantas vezes vamos dizendo e aprofundando -, o Senhor prometeu uma inimizade entre Satanás e a Mulher, entre a descendência de Satanás e a da Mulher: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. Eis, que mistério tão grande: uma queda, uma miséria, uma misericórdia, uma inimizade, uma promessa! E, desde então, toda a história da humanidade, todo o caminho de Israel, todo o Antigo Testamento, foram um correr para essa promessa, um esperar por esse cumprimento tão santo! Porque, desde o início, Deus tem um plano, e Seu plano é nos enviar o Salvador, de modo que tudo quanto o Pai bendito pensa e sonha para nós, é pensando em Cristo e em função de Cristo. Escutemos o Apóstolo: “Em Cristo, Deus nos escolheu antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o Seu olhar, no amor. Ele nos predestinou para sermos Seus filhos adotivos por intermédio de Jesus Cristo, conforme a decisão de Sua vontade!”Se Deus tudo pensou para nós em Cristo, se em Cristo nos predestinou, a Igreja crê firmemente que, desde o princípio, aquela Mulher anunciada no paraíso, fora predestinada para ser a Mãe do que esmaga a Serpente, a inimiga de Satanás, aquela que não tem nenhuma amizade com o pecado, nenhuma convivência descendência da Serpente! E tudo isso, por graça de Deus em Cristo!
Podemos, então, compreender o modo como Gabriel, no Evangelho, saúda Maria. Como a chama? Não diz o seu nome “Maria”, mas chama-a com um nome novo, aquele que somente Deus, que sonda os corações, poderia conhecer. Escutemos o Anjo, admiremos: “Alegra-te, ó Toda Agraciada! O Senhor é contigo!” Toda Agraciada, isto é, toda invadida, inundada pela graça, pelo favor de Deus! Na Virgem Maria não há lugar algum para a “des-graça” do pecado. Nela, em quem o Santo de Deus, o Cristo, o Santo Messias, deveria habitar, não pode, não pôde, não poderá nunca haver lugar para o pecado! Desde o primeiro momento de sua existência, a Virgem foi escolhida e predestinada para a Mãe do Salvador. Não esqueçamos a palavra da Escritura: “Em Cristo, Ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o Seu olhar, no amor.”É este mistério que celebramos!
Se Cristo é o Dia, a Virgem é a Aurora;
se Ele é o Sol, ela é a Estrela d’Alva;
se Ele é o Fruto, ela é a Flor bendita!
Como é bela a solenidade deste hoje: é aurora do santo Natal! Aquele que ilumina a noite de Belém e do mundo é prenunciado pela luminosidade da Virgem Imaculada!

Caríssimos, vivemos num mundo cada vez mais sem graça, um mundo literalmente “des-graçado”, isso, é fechado para a graça. Pois bem: neste mundo sem graça, celebrar a Imaculada Conceição da Mãe de Deus é proclamar a vitória da graça sobre o pecado, é renovar nossa certeza na força que vem da Cruz e Ressurreição do Senhor, que dissipa as trevas e vence o mal.

Ó Maria Santíssima, Virgem imaculada desde a Conceição, intercede por nós, intercede por toda a Igreja, intercede pela humanidade: que lutemos contra o pecado, do qual tu foste preservada desde o primeiro momento de tua existência!
Que a força do Cristo Salvador, que não deixou o pecado te atingir, não deixe que o pecado nos vença!
Ó Alegria do mundo, Estrela d’Alva,
nenhuma outra como tu nos guias!
És o braço do Deus Forte que nos salva,
Virgem Maria!

És um Raio de luz lançado à treva,
para aquecer a terra fria!
Imensa Aurora, a Vida em vós se encerra,
Virgem Maria!

Só o trono de Deus é mais sublime,
que o teu trono, à luz do eterno Dia!
Ó Santa Mãe da Paz que nos redime,
Virgem Maria!

Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!

Aurora que prenuncia o Dia

Encantadoramente Imaculada

Dentro do sagrado Advento, no 8 de dezembro, celebra-se a Concepção Imaculada de Maria, a Virgem.

Trata-se de uma solenidade que calha bem neste tempo de preparação para o Natal do Senhor.
Imaculada Concepção de Maria!
O Povo de Deus crê com todas as suas fibras que a Santa Virgem Maria, por ter sido escolhida por Deus para Mãe do Cordeiro Imaculado que tira o pecado do mundo, fora, por força da Paixão, Morte e Ressurreição do seu Filho, preservada desde o primeiro momento de sua existência humana, daquela solidariedade no pecado que envolve a nossa raça humana e a que chamamos “pecado original”.

Em Maria, a Virgem, não há aquela quebradura interior que todos nós experimentamos: aquele fechamento tão profundo para Deus, fechamento que aparece como desconfiança, às vezes como teimosia em fazer do nosso jeito, em descaso, falta de piedade, soberba, orgulho, e tantos outros vícios que sufocam a nossa liberdade e ferem o nosso coração.
Nela não há aquele fechamento para os outros, que se manifesta em tantas e tão diversificadas formas de egoísmo: falta de compaixão, orgulho, sensualidade, frieza, ganância, maledicência, ira, ciúme, inveja - a lista é deveras extensa...
Não! Na Mãe do Senhor não há sombra disso: Deus, o Pai, pelos méritos do Filho bendito, preservou-a de toda lama, de toda mácula! Da lama, Deus em Cristo nos arranca; pela lama, Deus em Cristo, sequer permitiu que a Virgem fosse tocada! Ela é aquela inimiga visceral da serpente: sem acordo, sem pacto sem trégua: ela é a Mulher do Gênesis, do Evangelho, do Apocalipse, em guerra de morte contra a antiga Serpente (cf. Gn 3,15; Jo 2,4; 19, 26; Ap 12,1.3s). Ela é aquela a quem Gabriel, chama com que com um nome novo, ao saudá-la:
“Alegra-te, Cheia de Graça!” ou
“Alegra-te, ó tu que tens o favor de Deus!”, ou
“Alegra-te, Muito Favorecida, Agraciada!” ou
“Alegra-te, tu que Foste e Permaneces Repleta da Graça Divina!”
– as palavras de Gabriel podem ser traduzidas com toda esta riqueza de expressões e sentidos, afirmando sempre a mesma realidade espantosa: na Virgem de Nazaré a graça de Deus, o favor de Deus, o amor de Deus habitou como em nenhuma criatura!
– Em ti, Virgem Maria, não há o menor espaço para a “des-graça” do pecado! Deus, o Pai, pode dizer de ti: “Como és bela, Minha amada, como és bela! És toda bela, Minha amada, e não tens um só defeito!” (Ct 4,1.7).

Desde a antiguidade, os Santos Padres e Doutores da Igreja, contemplando este mistério tão grande, chamam a Virgem de “Toda Santa” - Panaghia! Toda Santa, toda inundada da graça que Deus nos dá em Cristo, toda santificada pela santidade de Cristo Jesus!
Por isso, a Missa da Imaculada começa com as palavras de Isaías, colocadas pela Virgem Igreja na boca da Virgem Maria: “Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas jóias!” (Is 61,10).

A Imaculada! Que sonho! A Virgem Santíssima é imagem viva, sonho vivo, testemunho fiel daquilo que Cristo realiza em nós, pobre e frágil humanidade: Aquele que preservou Sua Mãe do pecado, do pecado miserável nos arranca; Aquele que fez de Sua Mãe a Primeira Redimida, primeira a ser salva (só Jesus salva, e salvou Sua Mãe de modo admirável!), salva toda a humanidade e tira o pecado do mundo!

Maria, a Virgem! Maria, a Imaculada!
Sonho lindo de Deus, sonho lindo do que deve ser a humanidade!
A Imaculada!
Quando a gente vê o mundo ferido, a humanidade angustiada, meio perdida...
quando ligamos a televisão e acessamos a internet e vemos a violência dos traficantes, os descaminhos de tantos jovens, a terrível solidão no seio das famílias...
quando vemos tanta feiúra: a guerra, a fome, a injustiça, as crises, a solidão, a morte...
quando a gente vê tudo isso... e pensa na Imaculada (beleza, candura, pureza, paz, ternura, sorriso e encanto de Deus), então tem a certeza que esse mundo tem jeito, que Deus não esquece de nós e, de tal modo nos purifica pelo Seu Filho, que seremos todos imaculados (cf. Ef 1,4).

Maria, a Virgem, a Imaculada desde a concepção!
Pensar em ti é tomar novo respiro e crer que Deus pode fazer em nós maravilhas:
pode nos renovar, pode revigorar este mundo cansado e purificar sempre de novo nosso coração manchado... 

Imaculada:
beleza de Deus,
ternura de Deus,
maravilha de Deus,
sorriso de Deus,
sonho lindo de Deus!

Imaculada desde a conceição,
doce aurora que anuncia o Dia – Jesus Cristo, nosso Deus, Aquele que celebraremos no Natal e acolheremos na Glória!

Imaculada!
Hoje e sempre, Imaculada!
Encantadoramente, Imaculada!



terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Meditação de Advento - Terça-feira da I Semana

Is 11,1-10

Texto conhecido, este do Profeta Isaías: fala do Ramo, do Rebento que viria da Casa de Davi.
Um brotinho pequeno, humilde, nascido do velho tronco da casa real de Judá.

Esse Rebento, seria o Ungido, o Meshia, o Cristo: Ele estaria cheio, repleno do Espírito do Senhor Deus, ungido com a Unção, que é o próprio Espírito que repousaria perenemente sobre Ele.

Porque pleno do Espírito e pelo Espírito conduzido, esse santo Messias tudo faria na temor do Senhor, isto é, na profunda obediência e reverência ao Deus de Israel, a Quem Ele mesmo chamaria de "Pai", "Meu Pai"!

Messias obediente, pobre, humilde... E, por isso, mesmo, portador de incontrastável poder: Sua palavra feriria, sacudiria, corrigiria; Seu sopro - Sopro que é o Espírito que O habita - mataria, eliminaria o ímpio e a impiedade!
Até que surgisse a paz, o shalom que o Senhor Deus nos promete, que o pecado afasta e que o Messias haverá de estabelecer na terra!

Lobo e cordeiro, leopardo e cabrito, novilho e leão, menino e víbora, vaca e urso serão amigos, reconciliados... No nosso coração e no coração do mundo!
Com o Reino do Messias não mais haveria o mal, não mais a destruição, porque a terra inteira e cada coração estariam cheios do conhecimento, do temor, do respeito do Senhor Deus, como as águas enchem o mar.
Mas, quando isto acontecerá?

O Messias veio, é Jesus!
Sim! E com Ele chegou o Reino, brilhou a salvação: Ele é a nossa paz, o nosso Shalom!
O coração, a comunidade, o povo que para Ele abre a existência encontram Nele o Shalom!
Mas, a bênção que Ele já trouxe, somente alcançará a plenitude no Fim, na Sua Manifestação final, no Dia da Sua Aparição: "Naquele Dia, a Raiz de Jessé, que Se ergue como um sinal para os povos, será procurada pelas nações, e a Sua morada se cobrirá de Glória".

Eis o Advento:
Alegra-se pela salvação prometida no Antigo Testamento e iniciada com a Vinda do Salvador na nossa carne.
Sim, Ele está conosco, na Sua Palavra, nos Seus sacramentos, na Sua Eucaristia.

Mas, atiça ainda mais no nosso coração a saudade, o desejo de que passe logo este mundo e venha a plenitude da salvação e da graça do Santo Messias: "Vinde, Senhor Jesus!"- a Igreja exclama em cada Eucaristia, logo após a consagração, quando, debaixo dos humildes sinais, encontra-Se escondido o Emanuel. Sim, ante da consagração, exclama: "Bendito o que vem em Nome do Senhor", em Nome do Pai. Depois da consagração, insiste: "Vinde, Senhor Jesus!" E, assim, deve a Igreja, devemos nós pedir, implorar constantemente, até o Dia Final: "Naquele Dia, o Senhor tornará a estender a Sua mão para resgatar o Resto do Seu Povo!" (Is 11,11).

Eis aí, Irmão!
Por Ele espere! o Seu Dia vem!
Tenha coragem, apesar de tudo!
Tenha coragem: Jesus, o Messias, já vem! Vem logo!
Viva neste certeza; viva por esta certeza!
Quem nos chamou é fiel! Quem prometeu é fidelíssimo!
Coragem: Jesus já vem!


sábado, 1 de dezembro de 2018

Homilia para o I Domingo do Advento - ano c

Jr 33,14-16
Sl 24
1Ts 3,12 – 4,2
Lc 21,25-28.34-36


“A Vós, meu Deus, elevo a minha alma. Confio em Vós, que eu não seja envergonhado!” Com a Eucaristia deste hoje estamos iniciando um novo Ano Litúrgico e também o Tempo do Advento, que nos coloca no estado de vigilância para o Senhor que, já presente neste mundo, vem a cada dia e virá como Juiz e Salvador no final dos tempos e nos prepara também para o Natal do Senhor. 
Durante este novo ano, aos domingos, escutaremos sempre trechos do Evangelho segundo Lucas. E nesta primeira Missa deste novo tempo, a Igreja, no missal, coloca as palavras do salmo 24, que foram lidas há pouco: “A Vós, meu Deus, elevo a minha alma”... A Igreja, nos seus verdadeiros filhos, naqueles que realmente creem e esperam, ergue os olhos, o coração, a alma para o Senhor, reconhecendo-se pobre, pequena e necessitada. “Confio em Vós, que eu não seja envergonhado!” Estas palavras, exprimem qual deva ser nossa atitude neste santo Advento: atitude de quem se reconhece necessitado de um Salvador; de quem se sabe pequeno e incapaz de caminhar sozinho! A humanidade, sozinha, não chega à plenitude, não encontra a felicidade: precisamos que Deus venha e nos estenda a mão, que Ele nos eleve e nos salve!

O Advento celebra primeiramente a Vinda do Senhor, aquela Sua vinda tremenda como Juiz Salvador, para colocar termo à história, para levar à plenitude a criação e introduzir toda a Sua obra na plenitude do Reino, na Glória sem fim. É impressionante: na Liturgia, o Futuro já nos é dado, já podemos verdadeiramente experimentar, como certeza e graça, os seus efeitos! Vigiai, o Senhor está às portas! Vigiai, Aquele que vem, virá sem falta! Vigiai, recobrai as forças e a esperança! Ponde somente no Senhor a vossa esperança! Levantai a cabeça! Ânimo! – Eis os sentimentos, eis o mistério do Advento!
Este tempo sagrado nos prepara também para o Natal, pois Aquele que vem é o que veio! Como foi fiel e salvador na Sua primeira Vinda, será também fiel e salvador na Sua Manifestação final.

Este é, portanto, um tempo de vigilância, de súplica, de alegre esperança no Senhor que vem: veio em Belém, vem no mistério celebrado no Natal, virá no final dos tempos e vem a cada dia, nos grandes e pequenos momentos, nos sorrisos e nas lágrimas. A liturgia nos ajuda a viver bem este tempo com símbolos próprios desta época: a cor roxa, que significa sobriedade e vigilância; o “Glória”, que não será rezado na Missa, para recordar que estamos em estado de espera e nos preparando para cantá-lo a plenos pulmões no Natal; a ornamentação sóbria da igreja; as leituras e cânticos tão comoventes, sempre pedindo a graça da Vinda do Senhor; a memória dos personagens que nos ensinam a esperar o Messias: Isaías, João Batista, Isabel e Zacarias, José e, sobretudo, a Virgem Maria.

Neste tempo, cuidemos de meditar mais na Palavra de Deus, tanto nas leituras da Missa diária quanto no livro do Profeta Isaías. Procuremos também o sacramento da confissão. Abramos nosso coração Àquele que vem!


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No Evangelho deste Domingo, o Senhor nos recorda a necessidade da vigilância: “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse Dia não caia de repente sobre vós; pois esse Dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes da terra. Portanto, ficai atentos!” Aquele cuja Vinda celebraremos no Natal, cuja Vinda esperamos no final dos tempos, Ele mesmo vem a nós constantemente! Somente numa atitude de oração e vigilância, de sobriedade e de expectativa amorosa, é que poderemos reconhecê-Lo e acolhê-Lo. É nossa atitude agora que determinará nossa sorte quando Ele vier no final dos tempos.

Com uma linguagem impressionante e simbólica, Jesus quer nos dizer hoje que Sua Manifestação final vai co-envolver todas as coisas: a criação toda, a história humana toda e cada um de nós. Nada nem ninguém escapará do Dia do Cristo; tudo será passado a limpo pelo Filho do Homem glorioso: “Verão o Filho do Homem vindo numa nuvem com grande poder e glória”.
Esta Vinda será discriminatória, será de separação, pois discriminará bons e maus: será manifestação da salvação para quem O acolheu e será perdição para quem O rejeitou! Daí, a advertência séria, o apelo quase que dramático que Jesus nos faz: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai a cabeça, porque a vossa libertação se aproxima”; “ficai atentos para terdes força de escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes de pé diante do Filho do Homem!”
Atenção, que os sinais que o Senhor nos dá, acontecem sempre, em cada geração, como um convite insistente à vigilância.

É preciso que compreendamos que este Dia final que o Senhor nos prepara – Dia da Sua Vinda, da Sua Manifestação, da Sua Aparição – será Dia de salvação: “Eis que virão dias em que farei cumprir as promessas de bens futuros... Naqueles dias, farei brotar de Davi a Semente de justiça... e Judá será salvo e Jerusalém terá uma população confiante”. Deus nunca pensou o mal para nós! Mas é necessário que nos abramos para o Bem que o Senhor nos prepara; este Bem é Aquele que veio em Belém, que nos vem em cada Eucaristia e que nos virá no Final de tudo: “este é o Nome com que será chamado: Senhor-Nossa-Justiça”. Este Bem é Jesus-Salvador! Por isso mesmo, na segunda leitura desta Missa, o Apóstolo nos convida a buscar a santidade aos olhos de Deus, nosso Pai, preparando-nos para “o Dia da Vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, com todos os Seus santos”e nos pede insistentemente que façamos “progressos ainda maiores”.

Tomemos consciência de que nosso caminho neste mundo passa, é apenas um caminho! Por que temos tanto medo de recordar que aqui estamos de passagem e que somente lá permaneceremos para sempre?
Pois bem: vivamos com intensidade o nosso Advento, vivamos bem os dias de nossa vida, à luz do Dia do Cristo que vem! Que caminhemos com os pés bem firmes neste mundo e os olhos voltados para o Alto. Que nossos sentimentos sejam os do salmo da Missa de hoje: “Mostrai-me, ó Senhor, Vossos caminhos, e fazei-me conhecer a Vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação!” Que nós, “acorrendo com nossas boas obras ao encontro do Cristo que vem, sejamos reunidos à Sua Direita na comunidade dos justos” no Dia da Sua Vinda! Vem, Senhor Jesus! Amém!


A Ti elevo os meus olhos


A Vós, meu Deus, elevo a minha alma.
Confio em Vós, que eu não seja envergonhado!
Não se riam de mim meus inimigos,
Pois não será desiludido quem em Vós espera! (Sl 24)

Caro Irmão, estas palavras do Sl 24 são a antífona de entrada da Missa do Primeiro Domingo do Advento. Ela revela bem o sentimento da humanidade e da Igreja neste tempo sagrado de expectativa pela Vinda do Senhor.

Primeiramente, o texto inicia com um “A Vós, meu Deus...” É toda a tensão, todo o desejo de uma humanidade que sai de si, que tem a coragem de ver sua radical insuficiência, sua visceral impotência de ser feliz sozinha, de providenciar por si mesma a vida plena que tanto deseja. “A vós, meu Deus, elevo a minha alma!” Enquanto o mundo atual dobra-se para o próprio umbigo, quase até quebrar o pescoço, o verdadeiro crente eleva o olhar ao Senhor. Dele vem a plenitude, Dele vem a vida, Dele vem a salvação, Nele o coração humano sossega e encontra a paz ante as tantíssimas incertezas da existência e as tristezas que ele encontra fora e dentro da Igreja! “Eu levanto os meus olhos para Vós, que habitais nos Céus! Eu levanto os meus olhos para os montes: De onde pode vir o meu socorro? Do Senhor é me vem o meu socorro, do Senhor que fez o céu e fez a terra!”

Ante as contradições da vida, ante os medos da existência, ante as inseguranças do caminho nesta terra, a antífona afirma, suplicante: “Confio em Vós, que eu não seja envergonhado!” Como não ouvir nestas palavras a voz da Igreja, dos verdadeiros filhos da Mãe católica, e a voz inconsciente e rouca da humanidade? “Senhor, confiamos em Ti e não em nós mesmos! Nas agruras da vida, em Ti colocamos a esperança, mantendo em Ti nossos olhos para que nossos passos não se desencaminhem. Em Ti confiamos, a Ti olhamos, a Ti nos voltamos, para que a vida não nos atropele e as trevas não nos engulam! Confiamos em Ti, nas Tuas mãos nos abandonamos! Não nos deixes envergonhados!”

E a afirmação final, ainda em prece: “Não se riam de mim meus inimigos, pois não será desiludido quem em Vós espera!” Estas palavras exprimem admiravelmente a certeza da Igreja, do crente, do cristão para o Advento: esperar no Senhor, esperar pelo Senhor, mesmo contra toda a humana esperança, com os olhos fixos Nele, porque Ele vem! Sua Vinda no santo Natal – tornada mistério presente na liturgia sagrada – é pregustação daquela outra, futura, final, definitiva, quando passará o aperto desta vida e louvaremos, e cantaremos, e gozaremos, e repousaremos, e estaremos para sempre com Aquele que é o anelo de nossa vida, a beleza de nossa alma, o sonho mais bonito do nosso coração... Quem eleva os olhos ao Senhor, quem Nele espera, não erra o caminho, não é confundido nem fica envergonhado na tortuosa estrada da vida!

Ao final, como versículo: o solista pede, como todo cristão: “Senhor, mostra-me os Teus caminhos; ensina-me as Tuas veredas!” Ah, liberdade de quem se deixa conduzir pelo Senhor! Ah, santa paz, santa leveza de existência, leve respirar de quem não se mete a autossuficiente diante do Senhor!


sábado, 24 de novembro de 2018

Homilia para a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo - ano b

Dn 7,13-14
Sl 92
Ap 1,5-8
Jo 18,33b-37


“O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A Ele a glória e poder através dos séculos” (Ap 5,12; 1,6). Estas palavras são da Antífona de Entrada da Solenidade de hoje e dão o sentido profundo desta celebração de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo.

Uma pergunta que pode vir – deveria vir! – ao nosso coração é esta: Jesus é Rei? Como pode ser Rei, num mundo paganizado, num mundo pós-cristão, num mundo que esqueceu Deus, num mundo que ridiculariza a Igreja por pregar o Evangelho e suas exigências? Pelo menos do Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo o mundo não quer saber... Todas as certezas, todas as esperanças parecem esfarelar-se diante de nós...

Como, então, Jesus pode ser Rei de um mundo que não aceita ser o Seu reinado? E, no entanto, hoje, no último Domingo deste ano litúrgico de 2018, ao final de um ciclo de tempo, voltamo-nos para o Cristo, e O proclamamos Rei: Rei de nossas vidas, Rei da história, Rei dos cosmo, Rei do universo. A Igreja canta, neste dia, na sua oração: “Cristo Rei, sois dos séculos Príncipe,/ Soberano e Senhor das nações!/ Ó Juiz, só a vós é devido/ julgar mentes, julgar corações”.

O texto do Apocalipse citado no início desta meditação dá o sentido da realeza de Jesus: Ele é o Cordeiro que foi imolado. É Rei não porque é prepotente, não porque manda em tudo, até suprimir nossa liberdade e nossa consciência. É Rei porque nos ama, Rei porque Se fez um de nós, Rei porque por nós sofreu, morreu e ressuscitou, Rei porque nos dá a Vida. Ele é aquele Filho do Homem da primeira leitura: “Foram-Lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviam: Seu poder é um poder eterno que não Lhe será tirado, e Seu Reino, um Reino que não se dissolverá”. Com efeito, o reinado de Cristo não tem as características dos reinados do mundo.

(1) Ele é Rei não porque Se distancia de nós, mas precisamente porque Se fez “Filho do homem”, solidário conosco em tudo. Ele experimentou nossas pobrezas e limitações; Ele caminhou pelas nossas estradas, derramou o nosso suor, angustiou-Se com nossas angústias e experimentou tantos dos nossos medos. Ele morreu como nós, de morte humana, tão igual à nossa. Ele reina pela solidariedade.

(2) Ele é Rei porque nos serviu: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10,45). Serviu com toda a Sua existência, serviu dando sempre e em tudo a vida por nós, por amor de nós. Ele reina pelo amor.

(3) Ele é Rei porque tudo foi criado pelo Pai “através Dele e para Ele” (Cl 1,15); tudo caminha para Ele e, Nele, tudo aparecerá na sua verdade: “Quem é da verdade, ouve a Minha voz”. É Nele que o mundo será julgado. A televisão, os sites e blogs, os canais da internet, os modismos, os sabichões de plantão podem dizer o que quiserem, ensinarem a verdade que lhes forem conveniente... Mas, ao final, somente o que passar pelo teste de Cruz do Senhor resistirá. O resto, é resto: não passa de palha. Ele reina pela verdade.

(4) Ele é Rei porque é o único que pode garantir nossa vida; pode fazer-nos felizes agora e pode nos dar a vitória sobre a morte por toda a eternidade: “Jesus Cristo é a testemunha fiel e verdadeira, o Primogênito dentre os mortos, o soberano dos reis da terra”. Ele reina pela vida.

Sim, Jesus é Rei: “Eu sou Rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo!”Mas Seu Reino nada tem a ver com o triunfalismo dos reinos humanos – de direita ou de esquerda! Nunca nos esqueçamos que Aquele que entrou em Jerusalém como Rei, veio num burrico, símbolo de mansidão e serviço. Como coroa teve os espinhos; como cetro, uma cana; como manto, um farrapo escarlate; como trono, a cruz. Se quisermos compreender a realeza de Cristo, é necessário não esquecer isso! A marca e o critério da realeza de Cristo é e será sempre, a Cruz!

Hoje, assistimos, impressionados, à paganização do mundo, e perguntamos: onde está a realeza do Cristo? – Onde sempre esteve: na Cruz: “O Meu Reino não é deste mundo. Se o Meu reino fosse deste mundo, os Meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas o Meu Reino não é daqui”. O Reino de Jesus não é segundo o modelo deste mundo, não se impõe por guardas, pela força, pelas armas: Meu Reino não é daqui! É um Reino que vem do mundo do amor e da misericórdia de Deus, não das loucuras megalomaníacas dos seres humanos. E, no entanto, o Reino está no mundo: “Cumpriu-se o tempo; o Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15); “Se é pelo Dedo de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou para vós” (Lc 11,20). O Reino que Jesus trouxe deve expandir-se no mundo! Onde ele está? Onde estiverem o amor, a verdade, a piedade, a justiça, a solidariedade, a paz. O Reino do Cristo deve penetrar todos os âmbitos de nossa existência: a economia, as relações comerciais, os mercados financeiros, as relações entre pessoas e povos, entre membros da família e vizinhos, nossa vida afetiva, nossa moral pessoal e comunitária.

Celebrar Jesus Cristo Rei do Universo é proclamar diante do mundo que somente Cristo é o sentido último de tudo e de todos, que somente Cristo é definitivo e absoluto. Proclamá-Lo Rei é dizer que não nos submetemos a nada nem a ninguém, a não ser ao Cristo; é afirmar que tudo o mais é relativo e menos importante quando confrontado com o único necessário, que é o Reino que Jesus veio trazer. Num mundo que deseja esvaziar o Evangelho, tornando Jesus alguém inofensivo e insípido, um deus de barro, vazio e sem utilidade, proclamar Jesus como Rei é rejeitar o projeto pagão do mundo atual e proclamar: “O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A Ele a glória e poder através dos séculos”. Amém (Ap 5,12; 1,6).


sábado, 17 de novembro de 2018

Homilia para o XXXIII Domingo Comum - ano b

Dn 12,1-3
Sl 15
Hb 10,11-14.18
Mc 13,24-32

Estamos no penúltimo Domingo do Ano Litúrgico. No Domingo próximo, a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo encerrará este ano da Igreja. Pois bem, hoje a Palavra de Deus, nos recorda que, como o ano, também a nossa vida passa, e passa veloz... Assim, o Senhor nos convida à vigilância e nos exorta a que não percamos de vista o nosso caminho neste mundo e o destino que nos espera.
Nossa vida tem um rumo, caríssimos; o mundo e a história humana têm uma direção, meus irmãos!

A fé cristã nos ensina, amados no Senhor, que toda a criação e toda a história humana caminham para um ponto final. Este fim não será simplesmente o término do caminho, mas a sua plenitude, a sua finalidade, sua bendita consumação.
O universo vai evoluindo, a história vai caminhando... Onde o caminho vai dar? Com palavras e ideias figuradas, a Escritura Sagrada nos ensina que tudo terminará em Jesus, o Cristo glorioso que, por Sua Morte e Ressurreição, tornou-Se Senhor e Juiz de todas as coisas.
Vede bem: a criação não vai para o nada; a história humana não caminha para o absurdo! Eis aqui o essencial, que o evangelho de hoje nos coloca com palavras impressionantes: “Então verão o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder e glória!” Ou seja: tudo quanto existe caminha para Cristo, Aquele que vem sobre as nuvens como Deus, Aquele que é nosso Juiz porque, como Filho do Homem, experimentou nossa fraqueza e Se ofereceu uma vez por todas em sacrifício por nós!
Vede, irmãos: o nosso Salvador será também o nosso Juiz! Aquele que está à Direita do Pai e de lá virá em Glória para levar à consumação todas as coisas é o mesmo que Se ofereceu todo ao Pai por nós para nos santificar e nos levar à perfeição!
Repito: nosso Juiz é o nosso Salvador!
Quanta esperança isso nos causa, mas também quanta responsabilidade! 
Que faremos diante do Seu amor?
Que diremos Àquele que por nós deu tudo, até entregar a própria vida para nossa salvação?
Que amor apresentaremos a Quem tanto e tanto nos amou? Pensai bem!

Hoje, a Palavra de Deus adverte: tudo estará debaixo do senhorio de Cristo! Por isso, numa linguagem de cores fortes e figuras impressionantes, Jesus diz que a criação será abalada pela Sua Vinda: “O sol vai escurecer e a lua não brilhará mais, as estrelas começarão a cair do céu e as forças do céu serão abaladas”. Que significa isso? Que toda a criação será palco dessa Revelação da Glória do Senhor, toda a criação será transfigurada e alcançará a Plenitude no parto de um novo céu e uma nova terra onde a Glória de Deus brilhará para sempre!
O Senhor afirma ainda que também a história chegará ao fim e será passada a limpo. Cristo fala disso usando a imagem da grande tribulação, isto é, as dores e contradições do tempo presente, que vão, em certo sentido se intensificando neste mundo. Por isso mesmo, a primeira leitura, do Profeta Daniel, fala em combate e em tempo de angústia... É o nosso tempo, este tempo presente, que se chama “hoje”.

Amados em Cristo, estas leituras são muito atuais e consoladoras, sobretudo nos dias correntes, quando vemos o Cristo enxovalhado, o cristianismo perseguido e desprezado, a santa Igreja católica caluniada e agredida externa e internamente... Pensem em tantos acontecimentos, em tantos atos e atitudes, pensem nas obras de arte blasfemas e sacrílegas frequentemente expostas sem nome de uma pérfida liberdade, pensem no ridículo a que os cristãos são expostos aqui e ali, com cínicas desculpas e camufladas intenções, pensem nos valores cristãos que vão sendo destruídos, nas famílias destruídas pelo divórcio, pela infidelidade, pela imoralidade, pela perversão brutal do sentido da sexualidade humana, pensem nos jovens desorientados pela falta de Deus, pela negação de todas as certezas e o desprezo de todos os valores, pensem, por fim, na vida humana desrespeitada pelo aborto, pela manipulação genética, pelas imorais e inaceitáveis experiências com células-tronco embrionárias com pretextos e desculpas absolutamente imorais, pensem no endeusamento do prazer, na manipulação do poder, na ganância pelo ter, por um consumo e desfrute da vida desenfreados, que somente levam ao vazio e à destruição do homem e da criação...
Não é de hoje, caríssimos, que a Igreja sofre e que os cristãos são perseguidos, ora aberta, ora veladamente... Já no longínquo século V, Santo Agostinho afirmava que a Igreja peregrina neste tempo avançando entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus... O perigo é a gente perder de vista o caminho, perder o sentido do nosso Destino, esfriar na vigilância, perder a esperança, abandonar a fé...

Caminhamos para o Senhor, caríssimos – tende certeza disto! O mudo vai terminar no Cristo, como um rio termina no mar; a história vai encontrar o Cristo, tão certo quanto a noite encontra o dia; nossa vida estará diante do Senhor, tão garantido quanto o vigia cada manhã está diante da aurora! Por isso mesmo, é indispensável vigiar e trazer sempre no coração a bendita memória do Salvador, a firme esperança nas suas promessas, a segura certeza da sua salvação! Vede bem: na Manifestação do nosso Senhor, Ele nos julgará! Na Sua luz, tudo será posto às claras: se é verdade que Sua Vinda é para a salvação, também é verdade que todos quantos se fecharam para Ele, perderão essa salvação.
Caríssimos, nosso destino é o Céu, mas estejamos atentos: o inferno, a condenação eterna, a danação sem fim, o fogo que devora para sempre, são uma real possibilidade para todos nós! Haverá um Juízo de Deus em Jesus Cristo, meus amados no Senhor: “Muitos dos que dormem no pó a terra despertarão, uns para a Vida eterna, outros para o opróbrio eterno. Nesse tempo, teu povo será salvo, todos os que se acharem escritos no Livro”.
Caríssimos, não brinquemos de viver, não vivamos em vão, não sejamos fúteis e levianos, não corramos à toa a corrida da vida! É o nosso modo de viver agora que decidirá nosso destino para sempre! Por isso mesmo, Jesus nos previne: “Em verdade vos digo: esta geração não passará até que tudo isto aconteça!” Em outras palavras: não importa quando Ele virá – Ele mesmo diz: “Quanto àquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do Céu, nem o Filho, mas somente o Pai”-; importa, sim, que estejamos atentos, importa que vivamos de tal modo que, quando Ele vier no momento de nossa morte, estejamos prontos para comparecer diante Dele e diante Dele estar no último Dia, quando tudo for julgado!
O juízo que nos espera é um processo: começa logo após a nossa morte, quando, em nossa alma, estaremos diante do Cristo e receberemos nossa recompensa: o Céu ou o inferno, que começarão, para cada um de nós, imediatamente! E no final dos tempos, quando Cristo Se manifestar em Sua Glória, nosso destino também será manifestado com toda a criação e o nosso corpo, ressuscitado no fim de tudo, receberá também a mesma recompensa de nossa alma: o Céu ou o inferno, de acordo com o nosso procedimento nesta vida!

Meus caros, quando a Escritura Sagrada nos fala do fim dos tempos não é para descrever como as coisas acontecerão. Isso seria impossível, pois aqui se trata de realidades que nos ultrapassam e que já não pertencem a este nosso mundo. Portanto, palavras deste mundo não podem descrever o que pertence ao mundo que há de vir... O que a Escritura deseja é nos alertar a que vivamos na verdade, vivamos na fé, vivamos na fidelidade ao Senhor... Vivamos de tal modo esta nossa vida, que possamos, de fé em fé, de esperança em esperança, alcançar a Vida eterna que o Senhor nos prepara, vida que já experimentamos hoje, agora, nesta santíssima Eucaristia, Sacrifício único e santo do nosso Salvador que, à Direita do Pai nos espera como Juiz e Santificador. A Ele a glória pelos séculos dos séculos. Amém.