quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Que eu busque a Ti, que buscas a mim!

Buscar a Deus é a razão mesma da nossa vida, o sentido fundamental da nossa existência.

Que é o homem? O ser que tem sede de Deus, o bicho esquisito e único, cujo coração não sossega com menos que o Infinito; o animalzinho tão limitado que tende, instintivamente para o Eterno, que não se resigna a morrer, pois sua sede de viver é insuprimível!

Que é o homem? O estranho e fascinante ser que não se satisfaz com menos que o Amor e a Verdade. Não qualquer amor, mas o Amor que enche de sentido, plenitude e definitivo o próprio coração; não qualquer verdade, parcial, provisória, científica, mas a Verdade que descortina a razão última da existência e da própria vida pessoal.

Que é o homem? Aquele bichinho minúsculo, ínfima partícula do universo, que não se satisfaz com menos que o Tudo!

Ora, tudo isto, toda essa complexa e admirável realidade aponta para uma busca fundamental, estrutural de Deus em nós. Não adianta tentar fugir dela! Não adianta afirmar, de modo ora louco ora presunçoso, que Deus não existe! O vazio, a ânsia, a necessidade, a pergunta, estão lá, como brecha teimosa para o Infinito, como marca de fogo que Alguém deixou no humano coração!

A Deus o homem busca quando busca o prazer, o poder, o dinheiro, o sucesso, o amor, o conhecimento, o reconhecimento, a realização, a autoafirmação, a vida... Busca consciente ou inconsciente, superficial ou profunda, mas sempre busca de Deus.
Aquele que crê busca conscientemente; aquele que é cristão sabe precisamente a Quem busca e tem consciência de que antes de buscar, foi buscado por Aquele Amor que é a fonte de todo amor e aquela Verdade que é raiz de toda verdade e no humano coração deixou Sua marca bendita.

No entanto, é necessário sempre que nos perguntemos pela qualidade da nossa busca de Deus, de nosso caminho com Ele, perguntando-nos simultaneamente por nosso desprendimento em relação às coisas que nos cercam, às realidades às quais nos apegamos. Desprender-se para ser livre e maduro em relação a Deus! Quem não se desprende de si e das realidades que o cercam não caminha e não é disponível!

O Autor da Carta aos Hebreus nos recomenda largar o fardo, os fardos de nossos tantos e tão variegados apegos – que se tornam fardos de pecado – e correr para o Cristo, nosso “lugar” de encontro com Deus e nossa meta: “Portanto, também nós, com tal nuvem de testemunhas ao nosso redor, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança para o certame que nos é proposto, com os olhos fixos Naquele que é o Autor e realizador da fé, Jesus... (Hb 12,1-2a)”. É a atitude daquele cego de Jericó, que, “deixando sua capa, levantou-se e foi até Jesus” (cf. Mc 10,50). Jesus, nosso Senhor! Jesus! Somente, unicamente, absolutamente, Jesus, Cristo de Deus! Que Nome doce, que Porto seguro, que Repouso verdadeiro, que Verdade repousante, que Amor plenificante!

Temos nós nossas capas, cheias de bens – esmolas, migalhas da vida... 
Sabemos deixá-las para ir ao encontro Daquele que nos chamou e nos espera?
Que coisas nos prendem? Que ideias, ideologias, medos, humanos respeitos, covardias, sentimentos, atitudes, pessoas, nos impedem de ser generosos e livres? Quais os meus fardos de pecado?

É preciso pensar nestas coisas com sinceridade, diante de Deus! É preciso sair de nós, é preciso ir largando os fardos, pesados ou leves, se quisermos, de verdade o Infinito, o Eterno, o Amor, a Verdade, o Tudo... É preciso coragem de nos deixar em tudo para caminhar para Jesus, nosso Senhor, nosso Bem, nosso Único Necessário, única garantia de que esta nossa vida vale mesmo a pena! Olhe, olhe, que para isto não há mágica, não há atalho, não há desvio, não há desconto! “Este é o caminho: andai por ele!” (Is 30,21)


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Urgências para a Igreja hoje

Fala-se tanto em missão – é um imperativo sempre presente, pois que mandato do próprio Senhor: “Ide e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei” (Mt 28,19s). O mandato é este, a ordem é clara, simples, direta, altiva, do Senhor nosso Deus, e ninguém pode mudá-la, silenciá-la, amaciá-la, adulterá-la, deformá-la!
Mas, atenção: a missão é algo muito mais amplo e profundo que um qualquer programa com tempo e método determinados. A missão é uma constante, uma tensão, uma tendência, uma consciência, uma disponibilidade a compartilhar a alegria, a felicidade, a plenitude, a certeza e experiência de crer e viver no Senhor Jesus Cristo.: “Anunciamo-vos a Vida eterna, que estava voltada para o Pai e que nos apareceu! O que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos para que estejais em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o Seu Filho Jesus Cristo. E isto vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa” (1Jo 1,2b-4).

Sendo assim, antes que de missão no sentido de ir em busca dos distantes, de recuperar perdidos ou de fazer novos cristãos na nossa sociedade descristianizada, deveríamos nos perguntar pelo nosso modo de aderir e viver o Cristo como Igreja.

Isto posto, a verdadeira urgência hoje não é ir atrás dos distantes com palavras pomposas e análises tão vistosas e empoladas quanto artificiais e inúteis, com piruetas e cambalhotas, mas sim fortalecer nossa vivência, aprofundar nossa identidade, recuperar nossa mística, tomar a sério o desafio de santidade, estreitar nossos laços fraternos, corrigir os abusos tremendos na nossa liturgia, formar nosso padres e seminaristas, fazer voltar ao verdadeiro e simples radicalismo evangélico os nossos religiosos.

Como poderíamos encantar alguém para Cristo quando nossas comunidades são desencantadas e desencantadoras? Como poderíamos aquecer corações e atrair se nossas homilias são manifestos ideológicos, eivados de politicamente correto e modismos mundanos? Como ousamos pensar seriamente em missão aos distantes quando até mesmo os que nos procuram saem de nós decepcionados e os que são dos nossos nos deixam escandalizados?

Eis a urgência:
paróquias mais vivas de Cristo,
paróquias mais comunidades em Cristo,
padres mais padres, religiosos mais religiosos,
uma fé mais levada a sério na doutrina e na vida concreta,
uma moral cristã mais assumida na amorosa radicalidade de Cristo, sem descontos ao mundo e ao pecado,
uma liturgia mais sacral, centrada em Deus e no Seu Cristo e não no homem,
uma vida cristã mais santa, segundo o Evangelho e não segundo o mundo,
cristãos que acreditam verdadeiramente no que creem, guardando intacto o precioso tesouro da doutrina católica e apostólica.

Daqui nascerá a missão, com força, juventude, vigor e entusiasmo contagiante:
porque será transbordamento de uma experiência e de uma vida vivida em comunidade com o Senhor,
porque outros sentir-se-ão atraídos pela beleza da vida cristã...


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Uma segunda homilia para ontem, XXVII Domingo Comum

A primeira leitura da Missa de hoje, apresenta, de modo dramático, toda a dor do Profeta Habacuc. Ele era um pobre, que viveu no final do século VII e início do século VI antes de Cristo, um tempo difícil, de impiedade, de descrença, de descaso para com o Senhor Deus e Sua santa Aliança e para com os irmãos. O Reino de Judá estava assolado pelo esquecimento do Senhor e suas consequências: a idolatria (adorava-se aos baals, a Moloc, a Astarte, enfim, aos ídolos dos pagãos, esquecendo-se que somente o Senhor é o verdadeiro Deus), a imoralidade (pois o esquecimento do Senhor dá caminho livre a todas as paixões desordenadas do coração humano), a injustiça social (já que, esquecendo o Senhor Deus, o povo deixa de se reconhecer como irmão; daí a opressão dos pequenos pelos grandes, o luxo em demasia, a falta de piedade para com a dor e o sofrimento dos próximos) e, finalmente, o falso culto (pois Deus não aceita uma adoração que brota de um coração desonesto e descomprometido com os Seus preceitos).
Diante desta situação, o Senhor advertiu os israelitas que eles seriam deportados para a Babilônia: viria o Rei de Babilônia, com todo o seu poderio militar, e levaria Judá para o exílio, destruindo tudo.
E aqui se colocam as palavras de Habacuc na leitura de hoje: o Profeta geme vendo tanto desmando, tanto pecado, tanta miséria, tanto sofrimento, tanta falta de rumo!
Como Deus pode permitir tudo isto?
Onde Ele está?
Por que não age?
E – pior ainda: Como pode permitir que os babilônios, que são mais ímpios que os israelitas, sejam os instrumentos que Ele usará para castigar o Reino de Judá?
“Senhor, até quando clamarei, sem me atenderes? Até quando devo gritar a Ti ‘violência!’, sem me socorreres? Por que me fazes ver a iniquidade, quando Tu mesmo vês a maldade?”
Eis aqui: a dor pelo silêncio de Deus, pelo triunfo da maldade e do pecado, por aquelas coisas na nossa vida, na vida da Igreja, na vida do mundo, que nós não compreendemos!
Onde está Deus? Por que não age? Por que permite? Por que Se cala?

A resposta que o Senhor Deus dá ao profeta é impressionante: “Escreve esta visão! Não falhará! Se demorar, espera, pois ela virá com certeza: Quem não é correto, vai morrer; mas o justo viverá por sua fé!” Que significam estas palavras?
O Senhor garante ao profeta: haverá um juízo de Deus! Ele está vendo tudo, Ele tudo toma nas Suas mãos benditas, Ele tudo conhece e tudo dirige. Seus tempos e modos não são os nossos! O Profeta deve permanecer firme e confiar. O julgamento do Senhor virá: quem foi ímpio morrerá para sempre; quem foi justo, isto é, piedoso, amigo do Senhor, viverá graças à sua fé, graças à sua fidelidade!

Eis, Irmãos: não são a mesma coisa ser ímpio e ser piedoso, ser reto e viver no pecado, lutar para ser amigo do Senhor e viver como se Deus não existisse! Haverá sim, um juízo de Deus, juízo de vida e de morte! Por isso, permaneçamos firmes! Diante dos desafios da vida, diante das escuridões da existência, supliquemos continuamente, ao Senhor, como os Apóstolos hoje: “Aumenta a nossa fé!”Mesmo diante das tribulações, dos empecilhos, das “amoreiras”, isto é, das dificuldades da vida, não percamos a confiança: sabendo que o Senhor nos vê, nos socorre no tempo oportuno, nós teremos força para jogarmos ao mar todas as dificuldades e provações!

Por fim, o Senhor Jesus conta uma misteriosa parábola, que nos ajuda a compreender as demoras de Deus: o Senhor somente nos servirá o Banquete do Reino, Banquete do repouso, Banquete da recompensa, Banquete da Eucaristia eterna, na Glória do Céu, na plenitude do Reino, no final dos tempos! Até lá é trabalho, é luta, é perseverar, é persistir, é teimar, de esperança em esperança! Até lá, é lutar e ir dizendo: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos ter feito!” Habacuc Profeta teve que aprender isto, os Apóstolos tiveram que aprendê-lo; também nós temos que aprender a cada dia! Não duvidemos do Senhor, não duvidemos da Sua presença santíssima e atuante na nossa vida, não façamos como Israel em Massa e Meriba, que duvidou da presença do Senhor, perguntando de modo blasfemo: “O Senhor está ou não no meio de nós?” (Ex 17,7)
Nunca nos esqueçamos, nunca duvidemos: aconteça o que acontecer, o Senhor está conosco, está em nossa vida, está presente e atuante na Sua Igreja! Assim, valha-nos a exortação do Apóstolo a Timóteo, na segunda leitura deste hoje: Reaviva “a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos!” Para Timóteo, esse dom foi o episcopado; para cada batizado, esse dom é a unção crismal, que, no Sacramento da Confirmação, confere o Espírito não de timidez, de covardia, de descrença, mas “de fortaleza, de amor e sobriedade”, para bem viver, perseverar e testemunhar a fé!
Nestes tempos de covarde relativismo por parte de tantos fieis e tantos pastores da Igreja, mantenhamos firme a nossa santa fé católica, com toda a sua pureza, simplicidade e limpidez, fugindo dos raciocínios mundanos e capciosos: “Não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor Jesus Cristo, mas sofre pelo Evangelho, fortificado no Poder de Deus”, que é o Espírito Santo do Cristo!

Por fim, irmãos, no combate da fé, testemunhemos a nossa santa fé, sobretudo aos nossos filhos, às nossas crianças e jovens e a todos quantos procuram de verdade o Senhor Jesus Cristo nosso Deus: “Usa um compêndio das palavras sadias em matéria de fé e amor em Jesus Cristo! Guarda o precioso depósito”, o depósito da fé, da verdadeira e contínua e imaculada doutrina, “com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós!”

Eis, caríssimos meus!
É assim que vigiamos,
é assim que perseveramos,
é assim que combatemos,
é assim que esperamos,
é assim que testemunhamos,
é assim que haveremos de nos sentar à Mesa do Banquete do Reino e seremos servidos pelo próprio Senhor, quando chegar a hora (cf. Lc 12,37),
é assim que seremos justos diante do Senhor e haveremos de viver por nossa fé, por nossa fidelidade!
A Cristo que nos sustenta, pela força do Seu Espírito, a glória, a honra e o poder, hoje, na Igreja, e pelos séculos dos séculos. Amém.


Algumas considerações sobre 2Tm 3,14 - 4,2

1. São Paulo exorta a Timóteo:
“Caríssimo, permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como verdade; tu sabes de quem o aprendeste”.
O que Timóteo aprendeu? A fé cristã no seio da Igreja. A fé não se descobre ou alimenta de modo individual e fechado em si mesmo. Se crer é um caminho pessoal, nunca é individual, fechado em si mesmo. É da Igreja que recebemos a fé e é a fé da Igreja que se faz nossa fé!
Esta fé é guardada e transmitida geração após geração por aquele órgão a que chamamos “Tradição” e, de modo especial, a “Tradição apostólica”, isto é, aquele núcleo, aquela semente que, desenvolvendo-se ao longo da história sob a guia do Espírito Santo e pelo ministério daqueles que receberam a Sucessão apostólica (os Bispos), vai-se explicitando a aprofundando cada vez mais, de modo coerente e orgânico.
Em muitas passagens do Novo Testamento podem-se encontrar referências a essa Tradição ou, como São Paulo gosta de dizer, a esse Depósito; trata-se do “Evangelho” ou “Palavra” que os Apóstolos pregaram oralmente sob a guia do Santo Espírito e permanece ininterrupta na vida e no sentir da Igreja de Cristo (cf. 1Ts 2,13; 2Ts 2,15; 2Tm 2,2). Ninguém é proprietário desta fé, deste “precioso Depósito” (cf. 2Tm 1,14), ninguém pode adulterá-lo, sequestrá-lo, deturpá-lo!

2. “Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras: elas têm o poder de te comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus”.
Quais são as “Escrituras” que Timóteo conhece desde criança? Os livros do Antigo Testamento.
Ainda não estava formado o cânon do Novo Testamento. São as Escrituras dos judeus que, lidas à luz da Tradição apostólica, revelam Jesus Cristo e abrem o caminho para o Evangelho! O Antigo Testamento lido em si mesmo não dá acesso a Jesus e não conduz à salvação pela fé em Jesus Cristo; somente lidas à luz do Cristo morto e ressuscitado, as Escrituras revelam seu sentido profundo e último: Jesus Cristo, nosso Senhor, único, necessário e absoluto Salvador, fora do Qual não há nem pode haver salvação ou esperança para a inteira humanidade e para cada pessoa!
Ainda hoje é assim: quem lê o Antigo Testamento em si mesmo, sem “re-lê-lo” à luz do Cristo, à luz da Nova Aliança, não passa da leitura judaica!
Por isso mesmo os fundamentalistas cristãos erram gravemente e fazem leituras tão descabidas dos livros sagrados, fora da Tradição apostólica da Igreja! Neste caso, é deixá-los falando sozinhos sobre imagens, transfusão de sangue, sábados, alimentos puros e impuros e outras "judaizadas" mais...

3. “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para argumentar, para corrigir e para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra”.
Aqui há afirmações importantíssimas:

(a) A Escritura Sagrada – Novo e Antigo Testamento – é inspirada por Deus. Se a forma da escrita é humana, seu Autor último é Deus. Nas palavras da Bíblia, nós encontramos realmente a Palavra de Deus! E, em última análise, esta Palavra é o próprio Cristo, o Verbo que Se fez carne. Por isso, podemos dizer que toda Escritura fala de Cristo e desconhecer a Escritura é desconhecer o Cristo, Palavra feita carne.

(b) A Escritura não tem como finalidade o simples estudo e, muito menos, a vã discussão. Sendo uma palavra que Deus nos dirige, ela espera e exige a nossa resposta – resposta na vida e com a vida, qualificando o homem de Deus para toda boa obra. Uma escuta da Escritura que não deságue em boas obras é vã e inútil – como já dizia São Tiago.

4. “Diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de vir a julgar os vivos e os mortos, e em virtude da Sua Manifestação gloriosa e do Seu Reino, eu te peço com insistência: proclama a Palavra, insiste oportuna ou importunamente, argumenta, repreende, aconselha, com toda a paciência e doutrina”.
Por último, com solenidade e firmeza, o Apóstolo, exorta a que Timóteo combata o combate da fé. Na Igreja não deve haver espaço para o relativismo doutrinal nem moral, seja sob que pretexto for! Somos discípulos do Cristo nosso Deus e Sua Palavra (a Escritura lida à luz de Cristo segundo a Tradição da Igreja) é sempre o critério para nossa fé e nossa vida. Nem mesmo o Magistério da Igreja está acima da Palavra de Deus: somente ela é a norma última que normatiza todas as outras normas de fé! Nunca se deve calar a verdade em nome do diálogo ou do respeito pelos outros. Sem a verdade não há diálogo nem tampouco há respeito! Verdade e caridade são um binômio que jamais deve ser decomposto! Caridade sim, respeito sim, mas sempre dentro da verdade! O grande desafio dos nossos tempos é dizer toda a verdade de Cristo, único Salvador, com a caridade e a jovialidade de quem é conduzido pelo Santo Espírito de Cristo! Verdade na caridade e caridade na verdade! O Senhor nos sustente e ilumine neste caminho!


sábado, 5 de outubro de 2019

Homilia para o XXVII Domingo Comum - ano c

Hab 1,2-3; 2,2-4
Sl 94
2Tm 1,6-8.13-14
Lc 17,5-10


Hoje, a Palavra de Deus nos coloca diante de um tema inquietante, o tema da fé. E o coloca com toda a dureza, nas palavras do profeta Habacuc. Ele viveu no final do século VII, início do século VI antes de Cristo. Reinava em Judá um rei iníquo, Joaquim; o povo já não cultivava amor pelo Senhor; imperava a injustiça, a impiedade, a imoralidade, a violência do grande contra o pequeno... O culto era vazio, pois não brotava do coração e as pessoas não procuravam uma verdadeira conversão de vida para o Senhor.
Diante desta situação tão triste, o profeta anunciava que os babilônios viriam e levariam todo o Reino de Judá para o exílio. Seria a correção de Deus. Sim, Irmãos meus: Deus corrige! Deus permite males e sofrimentos para nos educar, para nos afastar de situações de infidelidade à Sua Aliança, situações de pecado, que conduzem à morte...
Mas, precisamente aí, o profeta entrou em crise: está certo que Judá merecia castigo; mas, por que Deus iria usar para castigar os judeus pecadores exatamente os babilônios, que eram um povo mais pecador que os judeus? O profeta angustiou-se com esta incompreensível lógica do Senhor e, com dor e sinceridade sofrida, nas palavras da leitura de hoje, apresentou o seu protesto: “Senhor, até quando clamarei, sem me atenderes? Até quando devo gritar a Ti: ‘Violência!’, sem me socorreres? Por que me fazes ver iniquidades, quando Tu mesmo vês a maldade? Destruições e prepotência estão à minha frente”. “Senhor, Tu poderias resolver tudo! Tu poderias corrigir o Teu povo de um modo mais lógico, mais compreensível! Por que, Senhor, ages deste modo?”

Irmãos caríssimos, crer não é compreender tudo. O profeta, que falava em nome de Deus, nem mesmo ele compreendia totalmente o agir do Senhor, e se angustiava, e perguntava, e chorava: “Senhor, por que ages assim? Por que Teus caminhos nos escapam deste modo?” A verdade é que a fé não é uma realidade quieta e pacífica! O próprio Jesus nosso Senhor adverte que somente os violentos conquistam o Reino dos Céus (cf. Mt 11,12s); somente aqueles que lutam, que combatem a própria descrença, que vencem o próprio desânimo, que teimam em acreditar! A fé é uma realidade que sangra, sangra na dor de tantas perguntas sem resposta, sangra pelo sofrimento do inocente, pela vitória dos maus, pelo mal presente em tantas dimensões da nossa vida... E Deus parece calar-Se!
Um filósofo ateu do século passado chegou a dizer, escandalizado com o sofrimento no mundo: “Se Deus existe, o mundo é Sua reserva de caça!” Jó, usou palavras parecidas: “Também hoje minha queixa é uma revolta, porque Sua mão agrava os meus gemidos. Ele cobriu-me o rosto com a escuridão (23,2.17). E, pesaroso, se queixava de Deus: “Clamo por Ti, e não me respondes; insisto, e não Te importas comigo. Tu Te tornaste o meu carrasco e me atacas com Teu braço musculoso!” (30,20s).
Por que, Senhor? Por que Te calas? Por que Teus caminhos nos são escondidos? Por que parece que não Te importas conosco? Por que Teus desígnios nos são tão misteriosos? Por que a maldade, a impiedade parecem levar a melhor? Onde estás, ó Senhor sempre presente? Por que Tua presença parece ausência e Tua mão parece inerte? – Eis a dor que sangra das feridas dos crentes!
A resposta de Deus a Habacuc não explica, mas convida a crer novamente, a abandonar-se novamente, a teimar na perseverança:“Quem não é correto, vai morrer, mas o justo viverá por sua fé!’ Deus é assim: nunca nos explica, mas nos convida sempre à confiança renovada, ao abandono nas Suas mãos. Ainda tudo que tudo pareça torto, ainda que o Senhor pareça não ver e não Se importar, haverá um juízo de Deus: quem não é correto para com o Senhor, quem é ímpio, morrerá eternamente! Quem agora chora pelo Reino do Senhor, quem é correto, quem se mantém na piedade e na esperança, quem não desvia o seu olhar e o seu coração das mãos do Senhor, esse viverá, esse encontrará a salvação que vem de Deus! Que ninguém se iluda: o justo, isto é, o piedoso, o reto, o que guarda o seu coração para o Senhor, viverá por sua fidelidade, apesar de todas a provações e contradições da vida! O Senhor triunfará – que ninguém se iluda!
Irmãos amados, o justo vive da fé! É isto que é tão difícil para o homem de hoje, que tudo deseja enquadrar na sua razão e, quando não enquadra, se revolta e dá as costas a Deus e, assim, termina morrendo, porque viver sem Deus é a pior das mortes, o maior dos absurdos! O justo vive da fé, vive na fé, vive abandonado nas mãos do Senhor, como dizem as palavras da Antífona de Entrada, que o missal coloca para a liturgia de hoje, tirada do Livro de Ester: “Senhor, tudo está em Vosso poder, e ninguém pode resistir à Vossa vontade. Vós fizestes todas as coisas: o céu, a terra, e tudo o que eles contêm; sois o Deus do universo!” (Est 13,9.10-11). Não nos iludamos: o mundo está nas mãos do Senhor, a história humana está nas mãos do Senhor, a Igreja, nossa santíssima Mãe católica está nas mãos do Senhor, nossa vida está nas mãos do Senhor! O justo verá, o justo experimentará, o justo viverá por sua fidelidade!

Nunca esqueçamos: Deus não nos explica Seu modo de agir! Se o compreendêssemos, compreenderíamos o próprio Deus e, aí, já não seria o Deus verdadeiro, mas apenas um idolozinho! Contudo, isso não significa que Deus não liga para nossa dor e para o nosso destino. Pelo contrário! Ele veio a nós, fez-Se um de nós, viveu nossa vida, suportou nossas dores, experimentou nossa morte! Deus próximo, Deus de amor, Deus solidário! Por isso, podemos olhar para Ele e, suplicantes, insistentemente suplicantes, estender-Lhe as mãos, como os discípulos do Evangelho, que pediam: “Aumenta a nossa fé!” E Jesus respondeu – a eles e a nós – “Se vós tivésseis fé (em Mim), mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’ e ela vos obedeceria”. Ou seja: se crermos de verdade naquele amor que se manifestou até a Cruz, se crermos – aconteça o que acontecer – que Deus nos ama a ponto de entregar o Seu Filho, teremos a força de enfrentar todas as noites com a Sua luz, todas ad dúvidas com a Sua fidelidade, todos os pecados com a Sua graça, todas as mortes com a Sua Vida! Mas, se não crermos, pereceremos... O que o Senhor espera dos Seus servos é esta fé total, incondicional, pobre e amorosa! É o que o Senhor espera de nós.
Mas, o que fazemos? Queremos recompensas, provas, certezas lógicas, queremos seguranças, queremos compreender o modo de agir de Deus, engaiolar Seus modos e Seus tempos! E, os mais cultos, vamos atrás de filosofias e sabedorias humanas e os mais incultos e tolos, vamos atrás de seitas, de descarregos, de exorcismos feitos por missionários de araques e pastores de si próprios, falsos profetas de um deus falso, feito de dízimos que compram o céu, e gritarias...

O justo vive da fé, e viverá por sua fidelidade até o fim! Como nos exorta a segunda leitura, reavivemos a chama do dom de Deus que recebemos! “Deus não nos deu um espírito de timidez, de frouxidão, de covardia e incerteza, mas de fortaleza, de amor e sobriedade”.Não nos envergonhemos do testemunho de nosso Senhor! Guardemos aquilo que aprendemos de nossos antepassados, conservemos firmemente, sem nunca negociar, mundanizar, adulterar, relativizar ou corromper o precioso depósito” da nossa fé católica e apostólica, “com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós”. Não corramos atrás das ilusões, fruto das invenções humanas, não cedamos ao paganismo, ao mundanismo, às ideologias, crendices e modas de momento! É isto que o Senhor espera de nós, é este o nosso dever, é esta a nossa vocação, é esta a nossa glória. E, após termos agido assim, não achemos que temos algum direito diante de Deus. Humildemente, digamos com humilde mansidão: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer”.

Que o Senhor nos dê esta graça: a graça de viver e morrer na fé no Senhor, na nossa santa doutrina católica e apostólica. Que o Senhor nos conceda a recompensa dosa servos bons e fiéis! Amém!


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Os sacramentos - A Igreja, sacramento de Cristo

No texto anterior, apresentei o que é um sacramento: um sinal eficaz e atuante; sinal que torna presente a graça, a glória, a Vida de Deus. Expliquei, então, que o Cristo Jesus é o Sacramento de Deus: Nele, o Pai fez-Se presença pessoal, real, salvífica, no nosso meio. Assim, Cristo é o Sacramento primordial de Deus; Ele que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Demos agora um passo adiante. O Filho de Deus feito homem, Jesus, presença viva e pessoal de Deus entre nós para nos salvar, viveu num tempo e num espaço: viveu há dois mil anos na Terra Santa. Ele entrou uma só vez na nossa história, no nosso mundo, no nosso tempo. Mas, Ele veio para todos, em todos os tempos e lugares; Ele deseja tornar-Se presente a todo instante e estar bem perto de todos os corações: Seu desejo é entrar em contato conosco e que nós entremos em contato com Ele, com Sua palavra santa e com Sua Vida divina. Por isso ,Ele fundou a Igreja! Ela é sacramento (sinal eficaz, atuante, real) de presença de Cristo no mundo; ela é Cristo continuado, Corpo de Cristo crucificado e vivificado pelo Espírito na Ressurreição! No Concílio Vaticano II os Bispos do mundo inteiro, sucessores legítimos dos Apóstolos, ensinaram: “A Igreja é, unida a Cristo, como que um sacramento, isto é, um sinal e instrumento da íntima união com Deus e de todo o gênero humano” (Lumen Gentium 1). Isto quer dizer que a Igreja vive de Cristo. Na Sua Ressurreição, Ele derramou sobre a Sua Igreja o Seu Espírito Santo – o mesmo Espírito com o qual o Pai O ressuscitou dos mortos. Assim, a Igreja vive do Espírito de Cristo e no Espírito de Cristo, como o corpo, que vive da vida da cabeça, como os ramos que vivem da seiva do tronco: “Ele é a Cabeça da Igreja, que é Seu corpo” (Cl 1,18); “(O Pai) O pôs acima de tudo, como cabeça da Igreja, que é Seu corpo” (Ef 1,22); “Eu sou a verdadeira videira e Meu Pai é o agricultor. Eu sou a videira e vós sois os ramos. Aquele que permanece em Mim e Eu nele produz muito fruto porque sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15,1.5).

Estes textos são importantes porque nos mostram que há uma união real, concreta, verdadeira, efetiva, eficaz, entre Cristo e a comunidade de Seus discípulos, que é a Igreja. Ele realmente está presente na Sua Igreja, vivificando-a, sustentando-a, agindo nela! A Igreja está ligada ao seu Senhor Jesus como o corpo está ligado à cabeça, como os ramos estão enxertados à videira. E o Espírito de Cristo ressuscitado, o Espírito Santo é a seiva, é a Vida divina que vivifica, dirige e faz crescer este corpo, estes ramos! É assim que Cristo permanece vivo na Igreja, atuando nela na potência do Espírito: fala, age, santifica, ensina, exorta, salva pela Igreja! A Igreja é, portanto, um verdadeiro sacramento de Cristo, um sinal real da Sua presença! Ela, Igreja, não existe para si mesma, mas para anunciar Jesus, para provocar o encontro entre Jesus Salvador e a humanidade necessitada da salvação! Ela, a Igreja, não tem nenhuma salvação para dar à humanidade a não ser Jesus Cristo: é Ele quem a santifica e a torna instrumento de salvação. Santo Ambrósio, grande Bispo de Milão e Doutor da Igreja, dizia, no século IV: “A Igreja é a verdadeira lua. Da luz imorredoura do Sol, ela recebe o brilho da imortalidade e da graça. De fato, a Igreja não reluz com luz dela mesma, mas com a luz de Cristo. Ela busca Seu esplendor no Sol da justiça, que é Cristo, para depois dizer: Eu vivo, mas não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim!”

A Igreja é, portanto, o “ambiente”, o “clima”, o “espaço”, a “atmosfera” do nosso encontro com o Deus vivo, presente em Jesus Cristo. Ela é o sinal privilegiado através do qual Deus demonstra Suas atenções para conosco e Sua fidelidade a toda humanidade. Mas, como disseram os Bispo do Vaticano II, ela é também sacramento da íntima união de todo o gênero humano. Isto mesmo: reunidos pelo Pai através da Palavra do Senhor Jesus, reunidos no Santo Espírito do Ressuscitado nós somos um novo Povo – o Povo de Deus da nova e eterna Aliança, o Povo no qual toda a humanidade é chamada a entrar para ser filha do mesmo Pai, imagem do único Filho pela ação potente do único Espírito que nos une num só Corpo de Cristo! Por isso, a Igreja é já sacramento (sinal verdadeiro, eficaz, atuante) da união de toda a humanidade com Deus e dos homens entre si, como deverá ser um dia, na Glória do Pai.

Por tudo isso, um monge do século IV saudava assim a santa Igreja: “Que jamais te eclipses na escuridão da lua nova, ó Lua sempre irradiante! Ilumina-nos o caminho por entre a impenetrável escuridão divina das Escrituras! Que jamais deixes, ó esposa e companheira de viagem do Sol que é Cristo, o qual como Esposo da lua, te envolve em Sua luz! Sim, que jamais deixes de enviar-nos da parte Dele, nosso Salvador, os teus raios luminosos, a fim de que Ele, por Si mesmo e através de ti, santa Igreja de Cristo, transmita às estrelas a Sua luz, acendendo-as de ti e por ti!”

Pois bem, depois de termos visto que Cristo é o sacramento do Pai e que a Igreja é o sacramento de Cristo entre nós, continuaremos no próximo texto refletindo sobre esta belíssima realidade sacramental, que é a salvação em Cristo!


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Os sacramentos - Jesus Cristo, o Sacramento Primordial

Com este artigo vou iniciar uma série de meditações sobre os sacramentos. O que são? Quem os instituiu? Qual o sentido de cada um deles? Como são celebrados? Como bem participar deles? São questões que veremos nesta série de temas teológicos.

Antes de mais nada é importante compreender que não podemos falar corretamente dos sacramentos sem começar falando de Jesus Cristo, somente Nele e a partir Dele os sacramentos têm sentido e eficácia: é Ele o Sacramento primordial, a fonte de todos os sacramentos. Vejamos bem isso!

Que é um sacramento? É um sinal eficaz, transformador, da presença de Deus, de Sua Vida e plenitude no nosso meio.
Observe bem: é um sinal, ou seja, indica, recorda, comunica, exprime, evoca, torna-nos presente uma realidade que de outro modo poderia estar ausente;
este sinal é eficaz: não somente recorda, indica, não somente torna presente na lembrança, mas realmente faz acontecer realmente, faz agir aquilo que significa.
É por isso que dizemos que o sacramento é um sinal eficaz, atuante, transformador.
Tomemos como exemplo a Bandeira do Brasil: “a lembrança da Pátria nos traz!” A Bandeira é um sinal do Brasil; mas não é um sinal eficaz: a Bandeira é a Bandeira e o Brasil é o Brasil! Ela é um sinal meramente convencional, exterior. Já com os sacramentos a coisa é diversa: a Eucaristia, por exemplo: aquele pão representa Cristo, indica Cristo, é sinal de Cristo... Mas, não é somente um sinal; é, realmente, Cristo presente, amante, atuante, no Seu Corpo ressuscitado! Então, o sacramento sinaliza e faz acontecer o que foi sinalizado! “Re-presenta”, ou seja, torna realmente presente!
É esta a primeira ideia que devemos ter quando falamos em sacramento.

Como foi dito acima, o Sacramento primordial é Cristo Jesus: Ele é o Sacramento do Pai: “Ele é a imagem do Deus invisível” (Cl 1,15), “É Ele o resplendor da Sua Glória (do Pai), e a expressão da Sua Substância” (Hb 1,3), Ele é a presença real, eficaz, transformadora, verdadeira do Pai entre nós: “Quem Me vê, vê o Pai; Eu estou no Pai e o Pai está em Mim” (cf. Jo 14,9,10).

Nas palavras de Jesus, é o Pai Quem nos fala, nos Seus gestos é o Pai Quem nos estende a mão, no Seu carinho para com os pobres, os fracos, os pecadores, é o Pai Quem manifesta a Sua ternura... Em toda a Sua vida entre nós foi o Pai Quem nos reconciliou Consigo. Muitíssimas vezes a Escritura afirma isso: “No princípio era o Verbo e o Verbo era Deus... e o Verbo Se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a Sua glória. A graça e a verdade nos vieram por Jesus Cristo. Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está voltado para o seio do Pai, Este O deu a conhecer” (Jo 1,1.14.17-18).

Jesus é Deus como o Pai; Nele, Filho amado, é a própria Vida, a própria presença do Pai que nos é dada; por isso o Evangelista diz: a graça e a verdade do Pai nos vieram por Jesus Cristo! Outro exemplo desta realidade maravilhosa está na exclamação do próprio povo diante das ações de Jesus: “Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou o seu povo” (Lc 7,16). Quando Jesus curou o endemoninhado de Gerasa, deu a seguinte ordem ao homem curado: “Vai para tua casa e para os teus e anuncia-lhes o que fez por ti o Senhor na Sua misericórdia” (Mc 5,19). Em Jesus nosso Salvador é o Senhor Deus (o Pai) Quem age! Por isso mesmo o próprio Jesus, quando foi criticado porque acolhia os pecadores, justificou Sua atitude contando as três parábolas da misericórdia, mostrando que Ele era amigo dos pecadores porque o Seu Pai também o era (cf. Lc 15). Tantas frases de Jesus mostram que Ele é esta presença de Deus: “O Meu Pai trabalha sempre e Eu também trabalho” (Jo 5,17); “Eu falo o que vi de Meu Pai (Jo 8,38); “Eu estou no Pai e o Pai está em Mim. As palavras que vos digo, não as digo por Mim mesmo, mas o Pai, que permanece em Mim realiza Suas obras” (Jo 14,10-11).

Por tudo isso, Jesus Cristo é o Sacramento do Pai: Nele está a Vida que vem do Pai (cf. Jo 1,4). Entrar em contato com o Cristo morto e ressuscitado é entrar em contato com a Vida do próprio Deus, a Vida que o Pai derrama sobre o Seu Filho na potência do Espírito Santo. Já afirmei isto muitas vezes, em tantos dos meus escritos: o Filho Jesus morto e ressuscitado como homem, recebeu do Pai o Espírito Santo, Espírito de Vida divina, força e poder, e derramou sobre nós: “Exaltado pela Direita de Deus, Ele (Jesus) recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e O derramou” (At 2,33).

Então, o caminho pelo qual a humanidade pode caminhar para realmente encontrar Deus é Jesus Cristo, Sacramento (sinal eficaz, verdadeiro, potente, ativo) da presença divina entre nós. É por tudo isso que dissemos que Jesus é o Sacramente primordial de Deus! Não adianta pedir como Filipe: “Mostra-nos o Pai e isto nos basta!” (Jo 14,8) A resposta será sempre a mesma: “Quem Me vê, vê o Pai. Eu estou no Pai e o Pai está em Mim. Eu e o Pai somos um! (Jo 14,9-11)

No próximo texto continuarei, desenvolvendo este tema!