sexta-feira, 5 de junho de 2020

Teu nome? É esperança!

"Eu espero no Senhor! Sim, espero!
A minha alma espera no Senhor! Mais que o vigia espera pela aurora,
Israel espera no Senhor!" (Sl 121/120)

Olhando bem, auscultando nossos coração e desejos, não há como fazer de conta que não percebemos: o homem é um ser aberto, fundamentalmente desejoso, necessitado, à procura de algo mais, algo além, algo mais adiante... 
A existência humana é eterna, visceral, estrutural insatisfação, desejo, espera - espera que, fundamentalmente, significa esperança, porque espera grávida de anseio de realização... Não se trata somente de esperar, mas de esperar com esperança, com desejo constante, com firme anelo de que o esperado se realize, trazendo um banho de satisfação e plenitude para o coração.
Mas, por que esperamos? O que esperamos mesmo? Alguém nos prometeu alguma coisa, para esperarmos assim?
Ora, precisamente nesta esperança teimosa e inevitável, aparece a estrutura mais profunda do nosso ser humano, a essência do que somos: efetivamente, somos todos uma espera, um desejo, uma sensação de incompletude, um grito, um anelo pela saciedade, pelo descanso do coração, pela plenitude da vida... Somos prisioneiros da esperança, peregrinos do mais adiante!
Nós esperamos porque está na origem mesma da nossa criação, no âmago da nossa estrutura, na nossa raiz fundamental: Quem fez o homem? Terá sido Alguém? Terão sido simples e autômatos dinamismos que os astrofísicos descobrem aqui e acolá? Terá sido só isto: uma natureza cega, que não pensa, não ama, não espera nada? Insisto: Quem fez o homem, fê-lo como visceral abertura, promessa, como saudade, como constante espera que teima em ser esperança!
Assim, no mais nuclear da sua estrutura, o homem é "esperante", é um esperançoso, um mendigo de Algo que o complete, que o leve a si mesmo de modo pleno e, finalmente, faça descansar o seu coração!
Bicho homem! Animal estranho, que somente se sente ele mesmo de modo total se se superar a si próprio em direção ao Infinito! Homem, homem, olha que teu nome é saudade, teu sobrenome é esperança, tua herança é uma contínua espera; espera ativa, que deseja e, ansioso, vai ao encontro!
Olha bem, que não podes arrancar de ti esta espera - ela faz parte da estrutura da tua natureza! Não esperar é não mais ter horizonte, ter razão de viver e caminhar na vida. Não é esperar é a radical renúncia de existir humanamente!
Não foste tu que decidiste esperar, que te fizeste assim! Tu esperas e pronto! Esperas porque és humano e, sem espera, sem esperança, sem saudade e procura do mais adiante, do mais além, deixarias de ser humano!
Esperança, espera! Não podemos suprimi-la de nós - quando o fazemos, adoecemos, fenecemos, morremos, ainda que biologicamente vivos!
Olha, que podemos acolher a vida como espera - e, então, abrir-nos para o que nos foi prometido: a Plenitude-Que-Vem, que nos será dada, da qual já pregustamos algo neste mundo e nesta vida. Podemos também contrariar a esperança, odiá-la e, enganosamente, covardemente, entreter a vida em miudezas, em bugigangas insignificantes, dizendo para nós mesmos: "Ah, isto é importante, isto é minha vida, isto me faz feliz!" - E o coração, e a vida, e a espera danada, teimosa, dizendo baixinho, incomodando-nos: "Mentiroso! Mentiroso! Tu não és feliz, tu não és pleno! Tu foges, alienado de ti e da verdadeira natureza tua! Criado para voar como águia, rastejas como um réptil visguento!"
Pronto! Não há como correr, como fugir: ou assumo que minha vida é uma espera por um Definitivo que sacie toda minha esperança ou meus dias serão vividos como esforço covarde para fugir da natureza mais profunda do meu coração, negando-me, contentando-me com migalhas!
Assumo, pois; admito, pois: "Eu espero no Senhor!/ Sim, espero!/ A minha alma espera no Senhor!/ Mais que o vigia espera pela aurora,/ Israel espera no Senhor!" (Sl 121/120)


sábado, 30 de maio de 2020

O Espírito Santo e Sua ação multiforme

Neste Domingo, a Igreja encerra o tempo pascal com a Solenidade de Pentecostes, que faz memorial do dom do Espírito Santo feito pelo Cristo ressuscitado à Sua Igreja.

Cremos com firme certeza que Cristo ressuscitou, isto é, atravessou o mar da Morte e entrou na Glória e na plenitude de Deus, Seu Pai. Cremos que Ele está totalmente transfigurado, plenificado, glorificado, da própria Vida divina, tanto no Seu corpo quanto na Sua alma humana. Ele, feito totalmente humano como nós, agora Se encontra totalmente divinizado na Sua humanidade. Com toda convicção, cremos que essa Ressurreição e Transfiguração do nosso salvador Jesus foram realizadas pelo Pai, que derramou sobre Ele o Espírito Santo. Esse Espírito Santo é principio de Vida divina, de divina Energia e de Dinamismo do próprio Deus. Assim, como o fogo pode impregnar e transfigurar uma barra de ferro, deixando-a totalmente reluzente, também o Santo Espírito impregnou a transfigurou a santíssima humanidade de Jesus, de modo que ela agora é plena, totalmente desabrochada, plenamente glorificada! Aquilo que, para nós, ainda é desejo e sonho - Vida eterna, felicidade sem limites, vigor pleno, vitória sobre nossas mazelas, realização do nosso coração carente – para o Senhor Jesus é uma eterna e resplendente realidade. Tudo isso o Pai realizou nele ao ressuscitá-Lo no Espírito Santo.

Cheio desse Espírito, o Senhor Jesus O derramou sobre nós. Os apóstolos experimentaram a ação potente e transformadora desse Espírito do Cristo Jesus já na mesma tarde da Páscoa, quando o Ressuscitado soprou sobre eles e lhes disse: “Recebei o Espírito Santo!” Depois, em Pentecostes, novamente experimentaram a ação do Espírito, como força do Ressuscitado que os impelia para a missão de anunciar Jesus como Salvador universal. Nós também, confiados na promessa de Cristo, acreditamos e sabemos e experimentamos que tal ação do Espírito não se restringiu aos Apóstolos ou aos primeiros cristãos. O dom do Espírito é feito a todos os discípulos do Cristo através de sete sacramentos que o Senhor entregou à Sua Igreja para fazê-la sempre mais de novo um só corpo, Corpo de Cristo. Em cada um desses santos mistérios, o cristão faz uma experiência viva e real do Espírito do Senhor, que nos une ao Cristo, vai nos transfigurando Nele e nos dá acesso a Deus, nosso Pai. Assim, a vida cristã é um misterioso dinamismo de união real com Cristo Cabeça e o Seu Corpo, a Igreja, no Espírito, até sermos totalmente impregnados da vida Daquele que por nós morreu e ressuscitou. Os cristãos são homens e mulheres que devem ser impregnados e conduzidos pelo Espírito. Não somos simples admiradores de Jesus ou Seus “seguidores”. Somos aqueles impregnados realmente pela Sua Vida que faz o Senhor Jesus viver gloriosamente, isto é, pelo Espírito do Cristo Jesus, entronizado à Direita do Pai. Ou isso, ou não somos cristãos de modo algum! 
A relação entre o Senhor Jesus e os cristãos não é simplesmente de um sentimento, mas há algo de concreto, misterioso, sacramental: nós Nele e Ele em nós, nós membros de Seu corpo e Ele nossa Cabeça, nós somos os ramos, Ele é a Videira verdadeira!

Nós cremos, conforme as promessas do Senhor, que o Seu Espírito impregna toda a vida da Igreja, de um modo profundo, visceral, tantas e tantas vezes imperceptível... É pelo Espírito do Ressuscitado que a Igreja é Santa, porque santificada por Ele; por Ele, ela permanecerá viva até o fim dos tempos, por Ele não trairá nunca a fé apostólica recebida uma vez para sempre, por Ele também essa doutrina não fica presa de modo esclerosado a um passado, mas vai sempre progredindo e aprofundando a compreensão do mistério de Cristo nas várias mudanças dos tempos. Também por obra e presença desse Espírito, os cristãos experimentam o Cristo Jesus como alguém vivo, os cristãos “veem” Jesus, nosso Senhor, na Sua Palavra, nos sacramentos, na vida da Comunidade dos discípulos, nos acontecimentos e circunstâncias da vida e do mundo. Esta experiência faz com que os cristãos interpretem as realidades do mundo de modo diferente dos não-cristãos. Jesus Cristo afirmou claramente que nós haveríamos de vê-Lo novamente e o mundo não mais O veria. Isso não é brincadeira! Nós fazemos sim essa experiência incrível: fazemos a experiência real e profunda do Senhor Jesus vivo e a nós presente na potência do Seu Espírito Santo. Eis a inspiração para o nosso modo de pensar e agir... Claro que o mundo não poderá nos compreender, porque não tem essa experiência fundamental que condiciona o nosso modo de ser e viver...
Daqui derivam as diferenças de opções – às vezes clamorosas – entre a Igreja e o mundo. E quanto mais o mundo fechar-se numa razão autossuficiente e imanentista, tanto mais essas diferenças vão aparecer de modo exasperado, até, às vezes, à contraposição e ao conflito. Jamais poderemos impor a ninguém nossa experiência e devemos sempre respeitar as convicções dos outros, que não creem como nós, mas, doutra parte, jamais poderemos negar ou esconder aquilo que para sempre transfigurou nosso coração e mudou nossa vida. É que a ação desse Espírito, além de nos fazer testemunhar Jesus sem medo, enche-nos de um vigor e um consolo tais, que espantam toda dúvida e infundem em nós a mais doce e profunda e suave certeza. Na força do Espírito é que os mártires de ontem e de hoje deram a vida para testemunhar seu Senhor! Eis, alguns dos frutos do Espírito do Ressuscitado... Eis o Espírito Santo, Vida da nossa vida, esse ilustre Desconhecido...


Outra Homilia para a Solenidade de Pentecostes - ano a

At 2,1-11
Sl 103
1Cor 12,3b-7.12-13
Jo 20,19-23

“Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava”. Que Espírito é este, que encheu hoje os Apóstolos e a inteira Igreja de Cristo?

Ele é o Espírito do Ressuscitado, soprado pelo Cristo Senhor: “Jesus disse: ‘Como o Pai Me enviou (no Espírito Santo), Eu também vos envio (neste mesmo Espírito)!’ Depois soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo!’”

Nele, tudo fora criado desde o princípio: “O Espírito do Senhor encheu o universo; Ele mantém unidas todas as coisas e conhece todas as línguas” (Sb 1,7). Somente no Santo Espírito podemos compreender que toda a criação e toda a história são penetradas pela vida de Deus que nos vem pelo Cristo; somente no Santo Espírito podemos perceber a unidade e bondade radicais da criação que nos cerca, mesmo com tantas trevas e contradições. É o Santo Espírito, doce Consolador, que nos livra do desespero e da falta de sentido!

Nele tudo se mantém, tudo tem consistência, tudo é precioso: “Encheu-se a terra com as Vossas criaturas: se tirais o seu respiro, elas perecem e voltam para o pó de onde vieram. Enviais o Vosso Espírito e renascem e da terra toda a face renovais”. É por Sua ação constante que tudo existe e persiste no ser. Sem Ele, tudo voltaria ao nada e nada teria consistência real. Nele, tudo tem valor, até a mais simples das criaturas...

Sem Ele, nada, absolutamente, podemos nós: “Sem a Luz que acode, nada o homem pode, nenhum bem há nele!” Por isso Jesus disse: “Sem Mim, nada podeis fazer (Jo 15,5)”, porque sem o Seu Espírito Santo que nos sustenta e age no mais íntimo de nós, tudo quanto fizéssemos não teria valor para o Reino dos Céus. Jesus, o Cristo, é a Videira verdadeira, definitiva, nós, os ramos, o Espírito é a seiva que, vinda do tronco, nos faz frutificar...

Ele, divino Paráclito, é a nova Lei – não aquela inscrita sobre tábuas de pedra, mas inscrita no nosso coração (cf. Ez 11,19; Jr 31,31-34), pois “o Amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito que nos foi dado” (Rm 5,5). A Lei de Moisés, em tábuas de pedra, fora dada no Sinai em meio a relâmpagos, trovões, fogo, vento e terremotos (cf. Ex 19); agora, a Nova Lei, o Santo Espírito nos vem em línguas de fogo e vento barulhento e impetuoso, para marcar o início da Nova Aliança, do Amor derramado no íntimo de nós!

Ele tudo perdoa e renova e, Cristo, pois é Espírito para a remissão dos pecados: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados!” É, pois, no Espírito que a Santa Igreja anuncia a paz do Evangelho do perdão de Deus para a humanidade em Cristo Jesus!

Ele nos une no Corpo de Cristo, que é a Igreja, pois “fomos batizados num único Espírito para formarmos um só corpo...” – Neste Corpo, Ele nos enche de dons, carismas e ministérios, pois 
“a cada um é dada a manifestação do Espírito para o bem comum”. É no Espírito que a Igreja é uma na diversidade de tantos dons e carismas; uma nas diferenças de seus membros...

Ele faz a Igreja falar todas as línguas, fá-la abrir-se ao mundo, procurar o mundo com “santa inquietude”, não para render-se ao mundo ou imitá-lo ou perder-se nele, mas para “anunciar as maravilhas de Deus” em Cristo Jesus, chamando o mundo à conversão e à Vida nova em Cristo!

Enfim, Ele torna Jesus, nosso Salvador, sempre presente no nosso coração e no coração da Igreja e no testemunha incessantemente, sempre e em tudo que Jesus é o Senhor, pois “ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo!” – para a glória de Deus Pai. Amém.


A graça do Pentecostes

Pentecostes encerra solenemente o Tempo Pascal. Cristo ressuscitado deu à Sua Igreja o grande Dom, o grande Penhor da Sua presença: o Seu Espírito Santo.

No Domingo da Ressurreição, o Pai derramou sobre o Filho morto, cadavérico na Sua natureza humana, o Espírito, que é Senhor que dá a Vida. Este Espírito transformou, transfigurou o homem Jesus, ressuscitando-O para a Vida plena de Deus. Assim, morto na carne, Jesus foi vivificado no Espírito Santo!

Este mesmo Espírito, Ele, agora glorioso, Cordeiro de pé como que imolado, derramou sobre toda a Igreja e sobre toda a criação. No Dia mesmo da Ressurreição, o Senhor Jesus soprou sobre os Onze, representantes da Igreja: “Recebei o Espírito Santo!” Este Dom, fruto da Ressurreição, o Cristo ressuscitado manifestou publicamente na festa judaica de Pentecostes e, fiel à Sua promessa, continua a derramá-Lo constantemente sobre a Igreja. Para cada um de nós, este Espírito do Cristo ressuscitado foi derramado no momento do nosso Batismo: aquela água é símbolo do Espírito!

Alegremo-nos, portanto! No Espírito do Ressuscitado, já participamos da Vida de Cristo glorioso, já temos o penhor da nossa ressurreição, já vivemos verdadeiramente uma Vida nova!

Este Espírito do Cristo enche o universo, vivifica a Igreja e nos sustenta no caminho. Por isso, podemos dizer, com um Autor contemporâneo:

         Sem o Espírito o cosmo seria um caos;
com Ele, toma sentido, tem razão de ser e é a expressão da bondade, da sabedoria e do amor do Criador.

Sem o Espírito o Verbo eterno não teria sido enviado pelo Pai;
com Ele, Se tornou o Salvador e Redentor que possibilita a felicidade eterna a todos que O recebem e aceitam.

Sem o Espírito Cristo continuaria sendo um ser histórico do passado; com Ele‚ é o Messias entronizado ao lado do Pai para derramar de lá o Espírito Santo.

Sem o Espírito o Evangelho seria letra morta, fixada num livro entregue ao capricho de cada leitor;
com Ele, se torna poder de Vida espiritual e alimento diário para a alma cristã.

Sem o Espírito a Igreja seria uma simples organização humana;
com Ele‚ é o sinal. e instrumento para a dilatação do Reino de Deus.

Sem o Espírito a Autoridade seria dominação e arbítrio;
com Ele, é serviço que garante a autenticidade e integridade da Revelação divina.

Sem o Espírito a Liturgia seria simples evocação de eventos passados;
com Ele‚ é presença viva do mistério celebrado.

Sem o Espírito a Missão seria propaganda e proselitismo;
com Ele‚ é o Pentecostes atuando.

Sem o Espírito a Conduta humana seria uma moral de escravos,
com Ele, se transforma em caridade cristã que nos faz crescer no amor a Deus e na consagração ao próximo.

Sem o Espírito eu seria capaz de entrar num estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus, num verdadeiro inferno;
com Ele, abre-se a esperança para a Vida eterna com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.


Homilia para a Solenidade de Pentecostes - ano a

At 2,1-11
Sl 103
1Cor 12,3b-7.12-13
Jo 20,19-23

A Igreja conclui hoje o Tempo Pascal com a Solenidade de Pentecostes. Não poderia ser diferente, pois o Espírito Santo é o fruto maduro da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus.
Ele morreu entregando na Cruz, amorosamente, o Espírito ao Pai e, no mesmo Espírito, foi ressuscitado pelo Pai. Agora, plenificado por esse Espírito, derramou-O e derrama-O sobre a Igreja e sobre toda a criação (cf. At 2,33). Sim: derramou-O e derrama-O porque o Espírito é como “um rio de água viva” (Jo 4,13s), brotado do Coração aberto do Cordeiro de pé como que imolado (cf. Jo 7,37ss; Ap 5,6), que corre continuamente, sempre o mesmo e sempre novo, tudo renovando, tudo vitalizando, tudo sustentando. Por isso, a Igreja suplica e suplicará sempre de novo: “Vinde, ó Santo Espírito!” 

Vejamos alguns aspectos da ação do Espírito:

(1) Primeiramente, por ser Espírito do Cristo, Ele nos une ao Senhor Jesus, dando-nos a Sua própria Vida, como a cabeça dá vida ao corpo e o tronco dá vida aos ramos.
É no Espírito que Cristo habita realmente em nós desde o nosso Batismo, e faz crescer Sua presença em nós em cada Eucaristia, quando comungamos o Corpo e o Sangue Daquele Senhor, que é pleno do Espírito, tão pleno que a Escritura chega a exclamar, sobre o Ressuscitado: “O Senhor é o Espírito” (2Cor 3,17).
Só no Espírito podemos dizer que Cristo permanece em nós e nós permanecemos Nele; só no Espírito podemos dizer que já não somos nós que vivemos, mas Cristo vive em nós (cf. Gl 2,20), com Seus sentimentos, Suas atitudes e Sua entrega ao Pai (cf. Fl 2,5-8). Por isso, somente no Santo Espírito nossa vida pode ser vida em Cristo, vida de santidade.

(2) Mas, o Espírito, além de agir em cada cristão, age na Comunidade como um todo, edificando a Igreja, fazendo-a sempre Corpo de Cristo.
Antes de tudo, Ele vivifica a Igreja com a Vida do Ressuscitado, incorporando sempre nela novos membros, fazendo-a crescer mais na plenitude de Cristo. Depois, Ele suscita incontáveis ministérios, carismas e dons, desde os mais simples até aqueles mais vistosos ou mais estáveis, como os ministérios ordenados: os Bispos, padres e diáconos.
É o Espírito que mantém esta variedade em harmonia e unidade, para que tudo e todos contribuam para a edificação do Corpo de Cristo, que é a Igreja, em liberdade interior, a liberdade dos filhos de Deus, pois “onde Se acha o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2Cor 3,17).
Assim, é no Espírito que surge e ressurge sempre a vida consagrada, com tantas expressões, tantos modelos e tantos carismas diferentes,
é no Espírito que os mártires testemunham Cristo até a morte,
é no Espírito que se exerce a caridade, se visitam os enfermos, se consolam os sofredores, se aconselha, se socorrem os pobres, se prega o Evangelho...
Enfim, é no Espírito que a Igreja vive, cresce e respira!

(3) É no Espírito que os santos sacramentos são celebrados com eficácia, pois que o Espírito é a própria Energia, a própria Graça, a própria Força de Vida e Ressurreição que o Cristo recebe do Pai e derrama sobre a Igreja. Sendo assim, é no Espírito que a Igreja é continuamente edificada e renovada, num Pentecostes constante, continuado, no todo do Corpo e em cada um dos membros que a ele está unido, até a Vida eterna.

(4) É no Espírito que os cristãos podem rezar, proclamando do fundo do coração que Jesus é Senhor e que Deus é nosso Pai de verdade.
Somente porque temos o Espírito recebido no Batismo é que somos realmente filhos de Deus, já que recebemos o Espírito do Filho que clama em nós “Abbá” – Pai.
O Espírito une a nossa oração à oração de Jesus, dando-lhe valor e eficácia e colocando-nos na Vida da própria Trindade Santa. Sem o Espírito, não poderíamos chamar a Deus de Pai, sem o Espírito nossa oração não seria a de Jesus, nosso Senhor, e nosso louvor, nossa adoração e nossa intercessão não estariam unidas e inseridas na própria união do Cristo Jesus com o Pai. Sem o Espírito, a Igreja não estaria inserida em Cristo e jamais seria povo sacerdotal!

(5) É o Espírito quem recorda sempre à Igreja a verdade do Evangelho, conduzindo-a sempre mais adiante no conhecimento de Cristo. Por isso, assistida pelo Espírito da Verdade, a Igreja jamais poderá separar-se da memória do seu Senhor, jamais poderá contradizer sua herança, a fé católica e apostólica, jamais poderá adulterar ou ceder na sua firme profissão de fé com o intuito maléfico e enganador de agradar ao mundo, e jamais poderá errar na sua profissão de fé; enfim, jamais poderá afastar-se da verdade católica que recebeu dos Apóstolos.
Assim, somente no Espírito é que cremos com fé certa na fé da Igreja e sabemos com certeza que a fé da Igreja é a fé católica e apostólica!

(6) É ainda o Espírito quem fala ao coração da Igreja das coisas futuras (cf. Jo 16,13), isto é, do Mundo que há de vir, daquilo que o Senhor nos preparou e para que nós fomos criados; por isso, é no Santo Paráclito que a Igreja, ansiosa, olha para a frente, para o futuro e, inquieta, clama que o Esposo venha logo para consumar todas as coisas (cf. Ap 22,17). Por isso, na força do Espírito, a Igreja deverá ser sempre fiel a cada época, sem saudosismos nem medos, acolhendo, vivendo e testemunhando e difundindo com humildade o Reino de Deus, até que venha o seu Esposo e leve tudo à consumação.
É no Espírito que os cristãos devem viver como profetas do Reino dos Céus que está por vir, denunciando com doçura e vigor tudo quanto se oponha à manifestação desse Reino, a começar por seus próprios pecados e infidelidades, presentes em cada coração.
No Espírito, a Igreja anunciará sempre o Evangelho, superando todo medo de falar de modo novo a constante e imutável verdade do Evangelho, que interpela, transforma e converte o coração.

(7) Mas, o Espírito não está restrito à Igreja. Dado à Igreja, Ele, que a habita e a impregna, a partir do Corpo da Igreja, que é Corpo de Cristo, enche também, impregna e renova o universo inteiro e toda a humanidade. Onde menos esperamos, onde ainda não chegamos, lá já podemos encontrar a ação do Espírito do Senhor, que Se derrama, que age, suave e fortemente, cristificando toda a humanidade e todas as coisas.

(8) É o Espírito que vai, com força e discrição, guiando a história humana para a plenitude de Cristo - e isto por mais que, tantas vezes, o mundo pareça perdido e sem rumo, em meio a guerras, injustiças, hipocrisias, violências, tristezas e mortes. Cabe aos cristãos, saber discernir e interpretar os sinais dos tempos, que o Santo Espírito faz brotar por toda parte, tendo ouvidos para ouvir o que o Ele diz à Igreja.

(9) Finalmente, é no Espírito, que um dia, no Dia de Cristo, quando Ele, nossa Vida, aparecer em Glória, tudo será glorificado, a história será passada a limpo, a criação inteira será transfigurada, o pecado será destruído para sempre, a Morte será vencida e nossos corpos mortais ressuscitarão, transfigurados como o corpo do Cristo Jesus ressuscitado.
Então, plena do Espírito, toda criação será plenamente Corpo de Cristo, Igreja plena, universo glorificado. O Ressuscitado será Cabeça dessa nova criação e entregará tudo ao Pai, para que o Pai, pelo Filho, no Espírito, seja tudo em todas as coisas.

É esta a nossa esperança, a nossa certeza e a plenitude da nossa salvação. É esta realidade estupenda que se iniciou com o dom do Espírito e continuará sempre e permanecerá sempre, celebrado na Festa de hoje.
Só nos resta implorar novamente o que cantamos antes do “aleluia” da Missa hodierna:

“Espírito de Deus,/ enviai dos Céus/ um raio de luz!
Vinde, Pai dos pobres,/ dai aos corações/ Vossos sete dons.
Consolo que acalma,/ Hóspede da alma,/ doce Alívio, vinde!
No labor, Descanso,/ na aflição, Remanso, / no calor, Aragem.
Enchei, Luz bendita,/ Chama que crepita,/ o íntimo de nós.
Sem a Luz que acode,/ nada o homem pode,/ nenhum bem há nele.
Ao sujo lavai,/ ao seco regai,/ curai o doente.
Dobrai o que é duro,/ guiai-nos no escuro, /o frio aquecei.
Dai à Vossa Igreja,/ que espera e deseja,/ Vossos sete dons.
Dai em prêmio ao forte/ uma santa morte,/ alegria eterna./ Amém.


terça-feira, 26 de maio de 2020

Bendito Espírito Santo

Estamos na semana que precede o Domingo de Pentecostes, soleníssimo encerramento do Tempo Pascal.

Que Espírito é este, que encheu a inteira Igreja de Cristo? Que Força, que Energia, que Vida divina é esta que, qual rio de Água viva, jamais parada, sempre antiga, sempre nova, sempre vinda, sempre vindo, sempre vindoura novamente, fresca, vital vivificante, inunda a Igreja inteira, Corpo do Ressuscitado, fazendo-a sempre nova, sempre recém-nascida, sempre unida e dependente do Seu Senhor, “Cordeiro de pé como que imolado” (Ap 5,6)?

Ele é o Espírito do Ressuscitado, soprado pelo Cristo Senhor, como fruto bendito da Sua Ressurreição: “Exaltado pela Direita de Deus, Ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou!” (At 2,33).
Nele, tudo fora criado desde o princípio (cf. Gn 1,2; Sb 1,7; Sl 104/103,30). Somente no Santo Espírito podemos compreender que toda a criação e toda a história são penetradas pela Vida de Deus que nos vem pelo Cristo; somente no Santo Espírito podemos perceber a unidade e bondade radicais da criação que nos cerca, mesmo com tantas trevas e contradições (cf. Eclo 42,24s/25s). É o Santo Espírito, doce Consolador, que nos livra do desespero e da falta de sentido! Nele tudo se mantém, tudo tem consistência, tudo é precioso, superado e extinguido o pecado, tudo é conduzido à uma harmonia superior, que desaguará no Reino de Deus Uno e Trino. É por Sua ação constante que tudo existe e persiste no ser. Sem Ele, tudo voltaria ao nada e nada teria consistência real. Nele, tudo tem valor, até a mais simples das criaturas, por Ele continuamente penetrada, pois “Nele – Energia do Pai pelo Filho – vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28).

Sem Ele, nada, absolutamente, podemos nós. Se Jesus, nosso Senhor, disse “Sem Mim, nada podeis fazer (Jo 15,5)”, é porque sem o Seu Espírito Santo que nos sustenta e age no mais íntimo de nós, tudo quanto fizéssemos não teria valor para o Reino dos Céus, não passando de carne que “para nada serve” (Jo 6,63). O Cristo Jesus é a “Videira verdadeira” (cf. Jo 15,1), consumador e plenificador de Israel a antiga videira (cf. Is 5,7); nós, os ramos a Ele unidos como nova videira, novo Povo, Igreja Sua; o Espírito é a Seiva bendita e vital, que, vinda do Tronco, nos faz frutificar frutos de Vida eterna, salvífica e divina...

Ele é a nova Lei, não mais escrita sobre tábuas de pedra, mas inscrita pelo Dedo de Deus (cf. Mt 12,28; Lc 11,20) no nosso coração (cf. Ez 11,19; Jr 31,31-34). A lei de Moisés, em tábuas de pedra, fora dada no Sinai em meio a relâmpagos, trovões, fogo, vento e terremotos (cf. Ex 19); agora, a Nova Lei, o Santo Espírito nos vem em línguas de fogo e vento barulhento e impetuoso (cf. At 2,1-4; 4,31), para marcar o início da Nova Aliança, do Amor derramado no íntimo de nós!

Ele tudo perdoa e renova, pois é Espírito dado por Cristo para a remissão dos pecados (cf. Jo 20 22s; At 2,38). É, pois, no Espírito que a Santa Igreja anuncia a paz do Evangelho do perdão de Deus para a humanidade em Cristo Jesus!
Ele nos une no Corpo de Cristo, que é a Igreja, una na diversidade de tantos dons e carismas; una nas diferenças de seus membros... Ele faz a Igreja falar todas as línguas, fá-la abrir-se ao mundo, procurar o mundo com “santa inquietude”, não para render-se ao mundo num falso diálogo pecaminoso e maligno, ou imitá-lo, presa em ideologias e pensamentos segundo a estreita razão humana, ou perder-se nele, dissolvendo a perene novidade do Cristo, mas para “anunciar as maravilhas de Deus” em Cristo Jesus, chamando o mundo à conversão e à Vida nova em Cristo!

Enfim, Ele torna Jesus, o nosso Cristo bendito, sempre presente no nosso coração e no coração da Igreja e no testemunha incessantemente, sempre e em tudo que Jesus é o Senhor, pois “ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser no Espírito Santo!”– para a glória de Deus Pai.


segunda-feira, 25 de maio de 2020

Se creres... Se confessares...

Meu caros Amigos e Irmãos no Senhor, na semana entre a Ascensão e Pentecostes, a liturgia insiste no papel indispensável do Espírito Santo como Aquele que ressuscitou Jesus nosso Senhor e O torna contemporâneo a cada geração humana, presente em cada lugar do universo e presente no mais íntimo de nós. Durante toda esta semana espero ter tempo para colocar aqui alguns textos litúrgicos e comentá-los.

Leitura breve de Laudes, no Ofício Divino desta segunda-feira:

“A Palavra está perto de ti, em tua boca e em teu coração”. Essa palavra é a Palavra da fé que pregamos. Se, pois, com tua boca confessares que Jesus é Senhor e, no teu coração, creres que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo. É crendo no coração que se alcança a justiça, e é confessando com a boca que se consegue a salvação (Rm 10,8b-10).

Quem pode verdadeiramente confessar que Jesus é o Senhor? Quem pode realmente crer de todo o coração que Ele ressuscitou dos mortos? Somente aquele que tem o Santo Espírito do Cristo Jesus: “Ninguém será capaz de dizer: ‘Jesus é Senhor’, a não ser sob a ação do Espírito Santo” (1Cor 12,3).

Assim, neste contexto pascal e de preparação para o santo Pentecostes, abramo-nos à ação do Espírito: Ele nos convence de que Jesus está vivo, ressuscitado e é Senhor, Ele nos convence, fazendo-nos proclamar, confessando com o coração e com a boca que Jesus é o Senhor, no Céu e na terra!