quarta-feira, 12 de junho de 2019

O único Salvador e Sua única Igreja

Caro Amigo, gostaria, de recordar uma declaração da Santa Sé, da Congregação para a Doutrina da Fé, publicada por ordem de São João Paulo II, a Declaração Dominus Iesus. O objetivo do documento era, na verdade, “recordar aos Bispos, aos teólogos e a todos os fiéis católicos alguns conteúdos doutrinais imprescindíveis” para a nossa fé católica e apostólica.

Primeiramente o texto critica uma ideia muito difundida hoje em dia que afirma que todas as religiões têm o mesmo valor, pois cada uma ensina uma parte da verdade. A verdade divina é tão grande – dizem alguns – que nenhuma religião por si só pode exprimi-la totalmente. Assim, Jesus Cristo seria apenas parte da verdade de Deus. Mas esta verdade precisaria ser completada pelo que outras religiões apresentam: Buda, Confúcio, Maomé, etc, seriam outras manifestações da única verdade divina. Jesus poderia até ser a manifestação mais completa desta verdade, mas Ele não seria a verdade absoluta e universal.

Que pensar de tal opinião? O Documento insiste que é necessário “reafirmar, antes de mais, o caráter definitivo e completo da revelação de Jesus Cristo. Deve, de fato, crer-se firmemente na afirmação que no mistério de Jesus Cristo, Filho de Deus encarnado, que é o Caminho, a Verdade e a Vida (cf. Jo 14,6), dá-se a revelação da plenitude da verdade divina. (...) A verdade profunda, tanto a respeito de Deus como da salvação dos homens, manifesta-se a nós por esta revelação na Pessoa de Jesus Cristo que é simultaneamente o mediador e a plenitude da revelação”.
Em outras palavras, “é contrária à fé da Igreja a tese que defende o caráter limitado, incompleto e imperfeito da revelação de Jesus Cristo, que seria complementar da que é presente nas outras religiões. (...) Temos em Jesus Cristo a revelação plena e completa do mistério salvífico de Deus!” Assim, Jesus é a revelação plena do Pai e tudo quanto contradiga Sua revelação não está de acordo com a verdade divina. Isso não significa que as religiões não-cristãs sejam más: elas têm elementos da verdade e até podem ajudar o homem na sua busca de Deus, que “não deixa de Se tornar presente sob variadas formas quer aos indivíduos, quer aos povos, através de suas riquezas espirituais, das quais a principal e essencial expressão são as religiões, mesmo se contêm lacunas, insuficiências e erros”. Contudo tais religiões não são fruto da revelação divina e sim da busca de verdade que, por vontade de Deus, reside no coração do homem.
Quanto aos textos “sagrados” dessas religiões (o Corão, o Veda, etc), são expressão dessa busca que se encontra no íntimo de cada ser humano e, neste sentido, merecem nosso respeito. Contudo não são inspirados pelo Espírito Santo no sentido da inspiração bíblica.

O Documento afirma também que “a ação salvífica de Jesus Cristo, com e pelo Seu Espírito, estende-se, para além dos confins visíveis da Igreja, a toda a humanidade”. Isto significa que mesmo um não-cristão pode salvar-se pois, seguindo sua consciência orientada para o bem, ele está seguindo os impulsos do Espírito do Cristo morto e ressuscitado. Todos podem salvar-se, mas toda salvação vem através do Espírito do Cristo, único Senhor e Salvador da humanidade: “os homens só poderão entrar em comunhão com Deus através de Cristo e sob a ação do Espírito”, quer eles tenham quer não tenham consciência disso. Assim, ao mesmo tempo em que afirma que Jesus é o único Salvador, o Documento deixa claro que, em Jesus todos poderão encontrar a salvação, mesmo aqueles que não o conhecem nem reconhecem explicitamente.

Depois disto, o texto da Santa Sé trata da questão da Igreja. O raciocínio é decorrente do que foi dito sobre Jesus Cristo. Vejamos. “O Senhor Jesus, único Salvador, não formou uma simples comunidade de discípulos, mas constituiu a Igreja como mistério de salvação: Ele mesmo está na Igreja e a Igreja Nele (cf. Jo 15,1ss; Gl 3,28; Ef 4,15s; At 9,5); por isso, a plenitude do mistério salvífico de Cristo pertence também à Igreja, unida de modo inseparável ao seu Senhor”. Em outras palavras: Cristo uniu a Igreja à Sua missão salvífica, de modo que Ele mesmo opera a salvação “na Igreja e através da Igreja”, que é Seu Corpo (cf. 1Cor 12,12s.27; Cl 1,18). Por isso mesmo, “em relação com a unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus Cristo, deve-se crer firmemente  como verdade de fé católica a unicidade da Igreja por Ele fundada. Como existe um só Cristo, também existe um só Seu Corpo e uma só Esposa: uma só Igreja católica e apostólica”. Assim, “segundo a fé católica, a unicidade e unidade, bem como tudo o que concerne a integridade da Igreja jamais virão a faltar. Os fieis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica – radicada na sucessão apostólica – entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica”. Esta Igreja de Cristo, como sociedade constituída neste mundo subsiste ( = mantém-se, permanece no que tem de essencial) na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele. Com isso o Documento quer afirmar claramente que “a Igreja de Cristo, apesar das divisões dos cristãos, continua a existir plenamente na Igreja Católica”. Somente a Igreja católica conservou a plenitude daqueles elementos próprios da Igreja de Cristo. Quais seriam estes elementos? Vejamos alguns: a Palavra de Deus escrita e transmitida oralmente, a Eucaristia e os demais sacramentos, a sucessão apostólica presente sobretudo no Episcopado, o ministério petrino, a vida de fé, esperança e caridade, a ação de anunciar o Evangelho da graça, o martírio de tantos membros da Igreja, a presença materna da Virgem Maria e dos santos, etc. Todos estes elementos pertencem à Igreja de Cristo. E as outras Igrejas (as Igrejas chamadas ortodoxas) e Comunidades cristãs (as comunidades protestantes e pentecostais?) Elas, graças a Deus, possuem tantos elementos da Igreja de Cristo: no caso dos irmãos católicos ortodoxos, falta-lhes somente o ministério petrino; no caso das comunidades nascidas da Reforma protestante, apesar de graves lacunas, há tantos elementos que nos unem: o amor à Palavra de Deus escrita, o testemunho de Cristo e da Trindade Santa, a vida de fé, esperança e caridade, o martírio de tantos irmãos pelo Nome de Jesus. Todos estes são elementos da Igreja de Cristo que, graças a Deus, estão presentes nestas Comunidades eclesiais e nos impelem à unidade da única Igreja de Cristo. Uma coisa é certa, no entanto: “os fieis não podem imaginar a Igreja de Cristo como se fosse uma soma das Igrejas e Comunidades eclesiais; nem lhes é permitido pensar que a Igreja de Cristo hoje não exista em parte alguma, tornando-se, assim, um mero objeto de procura por parte de todas as Igrejas e Comunidades”. Com isto não se quer dizer de modo algum que quem está fora da Igreja católica não se salve ou não pertença à Igreja: “as próprias Igrejas e Comunidades separadas, embora tendo faltas, não se pode dizer que não tenham importância no mistério da salvação ou sejam vazias de significado, já que o Espírito não Se recusa a servir-Se delas como instrumentos de salvação, cujo valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi dada à Igreja de Cristo”.

Finalmente o Documento explica que a Igreja não é o Reino, mas é sinal do Reino, “é o Reino já presente em mistério”. Este Reino de Deus foi inaugurado por Cristo e somente Nele pode acontecer em plenitude. A Igreja, como sinal deste Reino e como Corpo do Cristo, único Salvador, é necessária para a salvação. “Só Cristo é o mediador e caminho da salvação; ora, Sle torna-Se presente no Seu Corpo, que é a Igreja. (...) Esta doutrina não se contrapõe à vontade salvífica universal de Deus (cf. 1Tm 2,4); daí a necessidade de manter unidas as duas verdades: a real possibilidade de salvação em Cristo para todos os homens e a necessidade da Igreja para essa salvação”.
Em outras palavras: todo aquele que, sem culpa não (re)conhece a Cristo ou não (re)conhece a Igreja católica, seguindo retamente sua consciência pode ser salvo. Mas esta salvação vem do Cristo que é Cabeça da Igreja, que subsiste plenamente na Igreja católica. Toda salvação vem de Cristo; toda salvação passa, de modo que só Deus conhece, pela Igreja católica, Corpo do Salvador.

Estes pontos aqui elencados exprimem elementos muito importantes da nossa fé e devem ser sempre e em toda parte sustentados com firmeza firmeza e serenidade. O Senhor nos ajude a fazê-lo!



sábado, 8 de junho de 2019

Palavras difíceis, mas profundamente verdadeiras

Eu vos digo a verdade: “É bom para vós que Eu parta; se Eu não for, não virá até vós o Paráclito; mas, se Eu Me for, Eu vo-lo mandarei. E quando vier, Ele demonstrará ao mundo em que consistem o pecado, a justiça e o julgamento: o pecado, porque não acreditaram em Mim; a justiça, porque vou para o Pai, de modo que não mais Me vereis; e o julgamento, porque o Chefe deste mundo já está condenado” (Jo 16,7-11).

Que significam estas palavras de Jesus Nosso Senhor? São daquelas que escutamos, não compreendemos direito e, geralmente, deixamos para lá. No entanto, as palavras do Senhor são sempre densas de sentido e devemos procurar compreendê-las.

Uma primeira afirmação: “Eu vos digo a verdade: ‘É bom para vós que Eu parta; se Eu não for, não virá até vós o Paráclito; mas, se Eu Me for, Eu vo-Lo mandarei’”. Por que é bom que Jesus Se vá? Por que é melhor que venha o Espírito Santo, o Paráclito, Defensor, Advogado?

Vejamos. Jesus é o Filho eterno do Pai feito homem. Ele é um Eu divino (Aquele da segunda Pessoa da Trindade) numa natureza humana, isto é com corpo e alma verdadeiramente humanos.
Imagine o Nosso Senhor no nosso meio: nós poderíamos vê-Lo, tocá-Lo, ouvi-Lo... Mas, Jesus Cristo é Jesus e nós somos nós... Cristo jamais poderia estar em nós e nós Nele! Jesus não é nem pode ser Deus-em-nós; Ele é Deus-conosco, em meio a nós, não Deus dentro de nós!
O Senhor nosso morreu; Seus discípulos continuaram vivos; o Senhor ressuscitou; Seus discípulos continuaram nesta vida mortal. Quando o Salvador estava aqui, conosco, nossa união com Ele poderia ser somente de sentimentos: admiração, obediência, amor... Mas, nunca Ele estaria realmente em nós e nós Nele, nunca Sua Vida divina poderia ser nossa, mesmo porque Sua natureza humana igual à nossa era simplesmente humana...

Na Cruz o Cristo Jesus esvaziou-Se totalmente de Si; Sua vida humana acabou-se para sempre: o cérebro morreu, o coração parou, Sua vida psicofísica esvaiu-se... Agora, na morte, totalmente pobre – o Pobre por excelência -, entregue nas mãos do Pai, Este, o Deus fidelíssimo, ressuscitou dos mortos o Seu Filho feito homem, derramando sobre Ele o Espírito Santo em plenitude, de um modo totalmente novo. 

Como assim? O Senhor Jesus agora não tem mais, no Seu corpo e na Sua alma humanos, uma vida como antes. Ele agora vive no Espírito Santo: a Vida que vivifica Seu corpo e Sua alma não é mais o que os gregos chamam de bios (vida biológica) ou psiché (vida racional simplesmente humana), mas zoé (Vida plena, divina, Vida que só Deus pode conceder como participação na Sua própria Vida; uma Vida que não é deste mundo).
O corpo humano de Nosso Senhor Jesus e Sua alma humana não mais têm uma vida como a nossa! A humanidade santíssima do Cristo agora é plena de Espírito Santo, Espírito que o vivifica totalmente. O Senhor, como homem, agora vive do Espírito, vive no Espírito Santo!
Compreenda: é a humanidade de Jesus Cristo (igual à nossa) que foi totalmente divinizada, plenificada de Vida divina pela Ressurreição, a ponto de São Paulo exclamar, referindo-se ao Senhor ressuscitado: “O Senhor é Espírito” (2Cor 3,17). Isto mesmo: o Senhor Jesus agora é pleno do Santo Espírito, Espírito que é a plenitude da própria Divindade. Por isso em Cl 2,9, São Paulo afirma ousadamente que “Nele habita corporalmente a plenitude da Divindade”, isto é, na humanidade do Ressuscitado habita a plenitude do Espírito Santo.

Mas, vamos ao nosso ponto: agora pleno de Vida divina na Sua humanidade igual à nossa, o Senhor Jesus pode nos comunicar o Seu Espírito Santo, Espírito que Ele recebeu do Pai na Sua humanidade pela Ressurreição! Como no-Lo comunica? Pelos sacramentos, sobretudo no Batismo, na Crisma e na Eucaristia!

Agora, a Vida de Jesus nosso Senhor está em nós e nós, porque temos o Seu Espírito, somos uma só coisa com Ele! Estamos enxertados Nele como os ramos na videira; estamos incorporados Nele como os membros no único corpo! E a seiva que une o tronco aos ramos, e a vida que une a Cabeça aos membros do corpo é o Espírito Santo! Se Ele não Se fosse, se não tivesse Se esvaziado na Cruz para que o Pai O preenchesse com o Espírito na Ressurreição, Ele não teria como nos dá Sua vida, isto é, Seu Espírito!
Agora sim, nós temos em nós a Vida divina, nós fomos santificados, nós poderemos ressuscitar no corpo e na alma (o corpo, no Último Dia e a alma, transfigurada, na hora da morte: de alma psíquica à alma transfigurada em Glória pelo Espírito). Assim, a nossa salvação, a nossa ressurreição, é consequência do Espírito do Ressuscitado habitar em nós; Espírito que Ele nos dá nos sacramentos da Igreja, por Ele instituídos. Basta recordar o Seu diálogo com Nicodemos e o discurso sobre o Pão da vida.... Pense nisto... Mais adiante, logo abaixo, explico a segunda parte da afirmação de Jesus...

O Espírito do Ressuscitado: Fogo que revela

Falando do Espírito que Ele, Ressuscitado, nos dará nos sacramentos, Jesus afirma: “Quando vier, Ele demonstrará ao mundo em que consistem o pecado, a justiça e o julgamento: o pecado, porque não acreditaram em Mim; a justiça, porque vou para o Pai, de modo que não mais Me vereis; e o julgamento, porque o Chefe deste mundo já está condenado” (Jo 16,8-11). Que significam, precisamente, tais palavras?

Antes, permita-me, meu caro Irmão, utilizar uma imagem que meus alunos, nos tempos em que era professor de teologia, conheciam bem – e riam de mim: Jesus é Aquele glorificado que é todo fogo, que tem os olhos de fogo (cf. Ap 1,14s). O Espírito que, desde a Ressurreição, diviniza a humanidade glorificada de Jesus é esse Fogo devorador.
Que faz o fogo? Ilumina, purifica, transfigura. É isto que Jesus afirma que o Espírito fará em nós e no mundo:
Ele iluminará o que somos: nós e o mundo todo veremos o que foi verdade e o que foi mentira em nós e na nossa existência, o que foi precioso como o metal ou inconsistente como a palha.
Ele também purificará: o que foi impureza, o que foi pecado, fechamento para Deus e para os outros, será queimado como palha seca.
Ele transfigurará: o que foi precioso (o amor a Deus e aos irmãos), será tornado resplandecente, como o ferro impregnado pelo fogo. Em outras palavras: Ele glorificará para sempre.
Assim, prezado Irmão, note que o julgamento será feito pelo Cristo no Espírito!

É a isto que Nosso Senhor Se refere nesta passagem: no final dos tempos, quando Ele Se manifestar em Glória, isto é, na plenitude do Espírito Santo, e Seus olhos de Fogo se projetarem em toda a criação e em toda a história humana (atenção, que estou utilizando uma imagem para que você compreenda melhor!), então, no Espírito que é fogo, tudo será “demonstrado”, isto é, revelado na sua verdade ou, numa tradução ainda mais fiel, “arguido”!

Vejamos os três elementos da afirmação de Jesus:

(1) Quanto ao pecado: na Vinda final do nosso Salvador, o Espírito vai demonstrar - permita-me a expressão grosseira: vai “passar na cara” do mundo, vai fazer o mundo (“mundo”, aqui significa a humanidade entregue ao pecado) compreender sem apelação - que ele pecou porque não creu em Jesus, o Cristo enviado pelo Pai, mas fechou-se para Ele e, assim, perdeu a Vida que o Pai ofereceu. Esta cultura que agora se fecha para o Senhor verá claramente que, por isso, caiu na Morte!

(2) Fará também o mundo compreender a justiça do Pai, que deu razão ao Seu Filho Jesus, ressuscitando-O e glorificando-O. Ressuscitado, Jesus não mais pode ser visto e experimentado pelo mundo, que O tem como o personagem do passado... Entretanto, no final de tudo, a Glória do Senhor, isto é, o fulgor do Seu Espírito, aparecerá a toda a criação, sem véus nem ambiguidades. Todos experimentarão a fidelidade do Pai, que não abandonou o Seu Filho, mas com toda a justiça O glorificou e O constituiu Senhor e Cristo! Na glória de Cristo o Espírito fará resplandecer a justiça de Deus!

(3) Finalmente, o Espírito, queimando para sempre o pecado do mundo como palha inútil e tudo de bom acrisolando como fogo devorador, revelará, de modo inapelável, a derrota, isto é, o julgamento de Satanás e de todos os seus: o Príncipe deste mundo está julgado e derrotado. O Mal não terá nunca a última palavra, não levará jamais a melhor! O Príncipe deste mundo está julgado! Mas tal situação somente naquele então aparecerá com toda clareza na luz do Espírito e toda a ambiguidade da história e da criação desaparecerá.

Só mais uma coisa. Isto que o Espírito revelará no Final, já nos revela agora, no íntimo do coração de cada batizado que se deixa guiar realmente por Ele:

(1) É o Espírito Quem nos faz crer, dando-nos a certeza de que Jesus é o Messias prometido, nosso Salvador, pois ninguém pode proclamar com certeza que Jesus é o Senhor a não ser no Espírito (cf. 1Cor 12,3).

(2) É também o Espírito Quem nos faz experimentar realmente Jesus vivo e ressuscitado como Senhor.

(3) Finalmente, é o Espírito Quem nos mostra o nosso pecado e nos dá a compunção para dele nos arrependermos, julgando em nós e destruindo o Príncipe deste mundo, desmascarando-o nas várias ocasiões da vida. Sem o Espírito, tomaríamos o mal por bem e o bem por mal; sem o Espírito, pensaríamos que o Maligno é forte e triunfa no mundo, na Igreja e em nós!

Eis, portanto, a profunda verdade e verdadeira beleza das palavras do nosso Salvador!


quinta-feira, 6 de junho de 2019

Salmos para a Vigília de Pentecostes


Após a Primeira Leitura: A torre de Babel

Salmo 32


RefrãoFeliz o povo que Deus escolheu por sua herança.

O Senhor desfaz os planos das nações*
e os projetos que os povos se propõem.
Mas os desígnios do Senhor são para sempre,+
e os pensamentos que ele traz no coração,*
de geração em geração vão perdurar.

Feliz o povo cujo Deus é o Senhor,*
e a nação que escolheu por sua herança!
Dos altos céus o Senhor olha e observa;*
ele se inclina para olhar todos os homens.

Ele contempla do lugar onde reside*
E vê a todos os que habitam sobre a terra.
Ele formou o coração de cada um*
e por todos os seus atos se interessa.

Após a Segunda Leitura: A teofania do Sinai

Cântico de Daniel 3,52ss


RefrãoA vós, louvor, honra e glória eternamente!

Sede bendito, Senhor Deus de nossos pais!*
A vós louvor, honra e glória eternamente!
Sede bendito, nome santo e glorioso!*
A vós louvor, honra e glória eternamente!

No templo santo onde refulge a vossa glória!*
A vós louvor, honra e glória eternamente!

E em vosso trono de poder vitorioso!*
A vós louvor, honra e glória eternamente!

Sede bendito, que sondais as profundezas!*
A vós louvor, honra e glória eternamente!
E superior aos querubins vos assentais!*
A vós louvor, honra e glória eternamente!

Sede bendito no celeste firmamento!*
A vós louvor, honra e glória eternamente!
Obras todas do Senhor, glorificai-o!*
A Ele louvor, honra e glória eternamente!

Após a Terceira Leitura: Os ossos secos

Salmo 106


RefrãoDai graças ao Senhor, porque eterna é a sua misericórdia!

Que o digam os libertos do Senhor,*
que da mão dos opressores os salvou
e de todas as nações os reuniu,*
do Oriente, Ocidente, Norte e Sul.

Uns vagavam, no deserto, extraviados,*
sem acharem o caminho da cidade.
Sofriam fome e também sofriam sede,*
e sua vida ia aos poucos definhando.

Mas gritaram ao Senhor na aflição,*
e Ele os libertou daquela angústia.
Pelo caminho bem seguro os conduziu*
para chegarem à cidade onde morar.



Agradeçam ao Senhor por seu amor*
e por suas maravilhas entre os homens!
Deu de beber aos que sofriam tanta sede*
e os famintos saciou com muitos bens!

Depois da Quarta Leitura: A promessa do Espírito

Sl 103


RefrãoEnviai, Senhor, o vosso Espírito, e renovai a face da terra!

Bendize, ó minha alma, ao Senhor!+
Ó meu Deus e meu Senhor, como sois grande!*
De majestade e esplendor vos revestis.
Quão numerosas, ó Senhor, são vossas obras,+
e que sabedoria em todas elas!*
Encheu-se a terra com as vossas criaturas!

Todos eles, ó Senhor, em vós esperam*
que a seu tempo vós lhes deis o alimento;
vós lhes dais o que comer e eles recolhem,*
vós abris a vossa mão e eles se fartam.

Se tirais o seu respiro, eles perecem*
e voltam para o pó de onde vieram;
enviais o vosso espírito e renascem*
e da terra toda a face renovais.



Comentário para os textos bíblicos da Vigília de Pentecostes

Não deve haver comentários às leituras da Missa durante a Celebração: é um erro, uma inutilidade e uma prova à nossa paciência! Comentário às leituras é a homilia, feita pelo ministro sagrado; o restante é invenção inútil!
Apesar de consciente disto e nisto insistindo, apresento aqui, a quem interessar comentários para a Missa da Vigília de Pentecostes, para as comunidades que desejarem fazer uma solene celebração desta Vigília com todas as leituras , salmos e orações propostos no Missal. Faço estes comentários como uma mistagogia, para que a Assembleia possa ter a graça de uma catequese verdadeiramente mistagógica sobre a Pessoa, a missão e presença do Santo Espírito na vida da Igreja, de cada fiel e do mundo inteiro. Por ser abundante o número das leituras e salmos, pela riqueza de detalhes e matizes, pela dinâmica de vigília, é que, excepcionalmente, uma celebração assim, pode comportar comentários verdadeiramente mistagógicos...

Irmãos caríssimos, nesta noite santa estamos reunidos em santa vigília. É a vigília de preparação para a solenidade de Pentecostes, que encerra o tempo da Páscoa. Cristo ressuscitado deu à Sua Igreja o grande Dom, o grande Penhor da Sua presença: o Seu Espírito Santo.Para ressuscitar o Filho dentre os mortos, o Pai derramou sobre Ele, morto na Sua natureza humana, o Espírito, que é Senhor que dá a Vida divina. Este Espírito transformou, transfigurou o homem Jesus, ressuscitando-O para a Vida plena de Deus. Assim, morto na carne, Jesus foi vivificado no Espírito Santo! Este mesmo Espírito, Ele derramou sobre toda a Igreja e sobre toda a criação. No Dia mesmo da Ressurreição, o Senhor Jesus soprou sobre os Onze, representantes da Igreja: “Recebei o Espírito Santo!” Este Dom, o Cristo ressuscitado manifestou publicamente na festa judaica de Pentecostes e, fiel à Sua promessa, continua a derramá-Lo constantemente sobre a Igreja. Para cada um de nós, este Espírito do Cristo ressuscitado foi derramado no momento do nosso Batismo: aquela água é símbolo e instrumento do Espírito!Alegremo-nos, portanto! No Espírito do Ressuscitado, já participamos da Vida de Cristo glorioso, já temos o penhor da nossa ressurreição, já vivemos uma Vida nova! Este Espírito do Cristo enche o universo, vivifica a Igreja e nos sustenta no caminho.

Por tudo isto, estamos em vigília! Uma vigília é celebração de espera e de esperança; é uma celebração longa, porque é uma escuta amorosa e perseverante da Palavra de Deus, que dá a Vida.

Na primeira parte da celebração, teremos várias leituras que nos levarão a contemplar a Pessoa e missão do Santo Espírito. Na segunda parte, celebraremos a Santa Eucaristia, na qual o Pai, derramando o Santo Espírito sobre os dons do pão e do vinho com água, vai transformá-los no Corpo e no Sangue do Ressuscitado.

Assim, partiremos hoje daqui alimentados pela Palavra que o Espírito diz à Igreja e pela Eucaristia, Vida do Ressuscitado para que nós tenhamos a Vida.

De pé, entoemos o cântico de entrada, louvando o nosso Deus!

I Leitura: A torre de Babel


O texto que ouviremos é profundamente simbólico: ter uma só língua significa uma humanidade unida e livre de qualquer divisão. Mas a humanidade quer conquistar a harmonia e a paz sem Deus, sendo ela mesma seu deus, sendo orgulhosa até tocar o céu (como a torre) e sendo ela mesma o critério do bem e do mal. Resultado: Babel, que significa confusão!

A lição é clara: o homem sozinho tropeça, só gera confusão e divisão; o homem sozinho não alcança Deus! O contrário de Babel é Pentecostes: ali Deus Espírito Santo desce, vem humildemente ao homem para elevá-lo. Resultado: a harmonia, a compreensão na diversidade e a paz! Escutemos a Palavra!

Salmo 32


O Salmo que cantaremos vai prevenir: o Senhor desfaz os planos loucos, presunçosos do homem. Somente os Seus planos triunfam! Os sonhos da humanidade, o mundo feliz que todos desejam, somente realizar-se-ão quando o homem aceitar caminhar com Deus, abrindo-se à ação do Santo Espírito. Cantemos o Salmo!

II Leitura: A teofania do Sinai


A leitura que nos será proclamada narra a aliança de Deus com Seu povo no Monte Sinai e o dom da Lei que Deus deu a Israel. Esta aliança e o dom da Lei eram comemorados pelo judeus todos os anos na Festa judaica de Pentecostes. Foi na celebração desta Festa, no ano 30 da nossa era, que o Espírito caiu solenemente sobre os Apóstolos no Cenáculo de Jerusalém e, a partir daí, nunca mais deixou de doar-Se à Igreja.

A mensagem é clara: a nova Aliança é selada no Santo Espírito do Cristo ressuscitado; a nova Lei não é mais inscrita em tábuas, mas no nosso coração pelo Espírito do Senhor ressuscitado – eis o nosso Pentecostes! Ouçamos e admiremos como as maravilhas do Antigo Testamento já preparam as maravilhas ainda maiores do Novo Testamento!

Salmo: Cântico de Daniel


Vamos agora cantar um salmo tirado do Livro de Daniel. Louvaremos a Deus, que é grande, que é tão majestoso, tão infinito, tão glorioso, mas, ao mesmo tempo, tão próximo de nós... Tanto que derramou no nosso íntimo o Espírito do Seu Filho. Este Espírito, habitando em nós, traz consigo o Pai e o Filho, que em nós fazem morada! Cantemos no Senhor!

III Leitura: Os ossos secos


Estupenda, maravilhosa, a leitura que escutaremos! O povo de Israel havia pecado; estava longe de Deus e, por isso, estava morto, seco, sem vida, como uma planície coberta de ossos ressequidos. Mas Deus, pelo Seu Santo Espírito, pode ressuscitar, como ressuscitou o Senhor Jesus; pode fazer a vida brotar onde não havia vida. Foi assim que, na força do Espírito,
Deus, no princípio, tirou do nada todas as coisas,
Deus fez brotar do ventre virgem de Maria o Cristo, novo Adão,
fez brotar do sepulcro de morte o Senhor ressuscitado,
faz brotar de nós, pecadores, homens novos, à imagem do Filho Jesus
e, finalmente, fará surgir, deste mundo sofrido e marcado pela morte, um mundo novo, novo céu e nova terra.
Por isso, nós dizemos no Credo que o Santo Espírito é “Senhor que dá a Vida”!

Salmo 106


O salmo que agora cantaremos mostra o quanto Deus socorre nas situações de desespero. Podemos estar como ossos secos, mas Ele é capaz de nos ressuscitar, de nos erguer! Ele sacia com a Água viva aqueles que padecem de sede: sede de vida, de felicidade, de segurança, de esperança, de paz. Esta Água que sacia nossas sedes é o Espírito Santo, Água viva que jorra para a Vida eterna!

IV Leitura: A promessa do Espírito


A leitura que agora ouviremos é importantíssima: trata-se da promessa do dom do Espírito. O profeta Joel avisa que quando o Messias vier, Deus vai derramar o Seu Espírito sobre Israel. Será uma beleza, um sonho:
os jovens vão ter esperança no futuro,
os velhos sonharão, cheios de vida,
o céu e a terra serão renovados por sinais maravilhosos
e o mundo todo será julgado para a salvação final!
Esta promessa começou a cumprir-se com a Ressurreição do Filho e o Dom do Espírito, e vai realizar-se plenamente no final dos tempos, no Dia do Senhor. Escutemos, cheios de esperança!

Salmo 103


Vamos cantar agora: “Vós enviais o Vosso Espírito e tudo é criado, é novamente, recriado no Cristo ressuscitado e, assim, renovais a face da terra!” Isto mesmo: nova criação, nova humanidade, novo céu e nova terra! Tudo isto no Espírito Criador, derramado, esparramado, pelo Cristo ressuscitado! Este Espírito, já dado à Igreja, será plenamente manifestado na glorificação final, no Dia do Senhor, Dia da Ressurreição! Com devoção cantemos ao Senhor!

Após o Salmo: Canto do Glória


Terminamos de escutar as leituras do Antigo Testamento. Daqui a pouco ouviremos a palavra de Deus anunciada no Novo Testamento pelo Apóstolo Paulo. Antes disso e com o coração repleto de alegria e gratidão, glorifiquemos a Trindade Santa:
o Pai, que ressuscitando o Filho Jesus, derramou sobre Ele o Santo Espírito;
o Filho, que ressuscitado pela Glória do Pai, e nos dando o Espírito Santo, tornou-Se nosso Salvador;
o Santo Espírito, que derramado em nossos corações no Batismo, nos faz semelhantes ao Cristo ressuscitado para a glória de Deus Pai!
Deus Santo, Uno e Trino, nem todos os nossos hinos poderiam Vos louvar o bastante, Vos agradecer o suficiente, pelas maravilhas que Vosso amor realizou por nós!

Após o Oremos: V Leitura: O Espírito intercede por nós


O Espírito do Ressuscitado habita em nós e enche a face da terra. O Apóstolo, neste texto estupendo, mostra como age este Santo Espírito:
em nós, Ele geme, sustentando nossa fraqueza, intercedendo por nós e nos configurando a Cristo até a Vida eterna;
mas o Espírito age também no mundo: na criação Ele leva todas as coisas para a glorificação plena, no final dos tempos.
Aí, nós e toda a criação seremos plenamente e para sempre plenos do Espírito e, assim, participantes da glória do Cristo ressuscitado, onde Deus, o Pai será tudo em todos.

Evangelho: Jesus falava do Espírito


Jesus afirma: “Quem crê em Mim, do seu seio jorrarão rios de Água viva!” – esta água é o Espírito, que o Cristo ressuscitado derramará sobre nós.
De pé! Aclamemos o Cristo, doador do Espírito, que nos dirigirá Sua palavra!


Homilia para a Solenidade de Pentecostes

At 2,1-11
Sl 103
1Cor 12,3b-7.12-13
Jo 20,19-23

A Igreja conclui hoje o Tempo Pascal com a Solenidade de Pentecostes. Não poderia ser diferente, pois o Espírito Santo é o fruto maduro da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus.
Ele morreu entregando na Cruz, amorosamente, o Espírito ao Pai e, no mesmo Espírito, foi ressuscitado pelo Pai. Agora, plenificado por esse Espírito, derramou-O e derrama-O sobre a Igreja e sobre toda a criação (cf. At 2,33). Sim: derramou-O e derrama-O porque o Espírito é como um rio de água viva (cf. Jo 4,13s), brotado do Coração aberto do Cordeiro de pé como que imolado (cf. Jo 7,37ss; Ap 5,6), que corre continuamente, sempre o mesmo e sempre novo, tudo renovando, tudo vitalizando, tudo sustentando. Por isso, a Igreja suplica e suplicará sempre de novo: “Vinde, ó Santo Espírito!” 

Vejamos alguns aspectos da ação do Espírito:

(1) Primeiramente, por ser Espírito do Cristo, Ele nos une ao Senhor Jesus, dando-nos a Sua própria Vida, como a cabeça dá vida ao corpo e o tronco dá vida aos ramos.
É no Espírito que Cristo habita realmente em nós desde o nosso Batismo, e faz crescer Sua presença em nós em cada Eucaristia, quando comungamos o Corpo e o Sangue Daquele Senhor, que é pleno do Espírito, tão pleno que a Escritura chega a exclamar, sobre o Ressuscitado: “O Senhor é o Espírito” (2Cor 3,17).
Só no Espírito podemos dizer que Cristo permanece em nós e nós permanecemos Nele; só no Espírito podemos dizer que já não somos nós que vivemos, mas Cristo vive em nós, com Seus sentimentos, Suas atitudes e Sua entrega ao Pai. Por isso, somente no Santo Espírito nossa vida pode ser vida em Cristo, vida de santidade.

(2) Mas, o Espírito, além de agir em cada cristão, age na Comunidade como um todo, edificando a Igreja, fazendo-a sempre Corpo de Cristo.
Antes de tudo, Ele vivifica a Igreja com a Vida do Ressuscitado, incorporando sempre nela novos membros, fazendo-a crescer mais na plenitude de Cristo. Depois, Ele suscita incontáveis ministérios, carismas e dons, desde os mais simples até aqueles mais vistosos ou mais estáveis, como os ministérios ordenados: os Bispos, padres e diáconos.
É o Espírito que mantém esta variedade em harmonia e unidade, para que tudo e todos contribuam para a edificação do Corpo de Cristo, que é a Igreja, em liberdade interior, a liberdade dos filhos de Deus, pois “onde Se acha o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2Cor 3,17).
Assim, é no Espírito que surge e ressurge sempre a vida consagrada, com tantas expressões, tantos modelos e tantos carismas diferentes,
é no Espírito que os mártires testemunham Cristo até a morte,
é no Espírito que se exerce a caridade, se visitam os enfermos, se consolam os sofredores, se aconselha, se socorrem os pobres, se prega o Evangelho...
Enfim, é no Espírito que a Igreja vive, cresce e respira!

(3) É no Espírito que os santos sacramentos são celebrados com eficácia, pois que o Espírito é a própria Energia, a própria Graça, a própria Força de Vida e Ressurreição que o Cristo recebe do Pai e derrama sobre a Igreja. Sendo assim, é no Espírito que a Igreja é continuamente edificada e renovada, num Pentecostes constante, continuado, no todo do Corpo e em cada um dos membros que a ele está unido, até a Vida eterna.

(4) É no Espírito que os cristãos podem rezar, proclamando do fundo do coração que Jesus é Senhor e que Deus é nosso Pai de verdade.
Somente porque temos o Espírito recebido no Batismo é que somos realmente filhos de Deus, já que recebemos o Espírito do Filho que clama em nós “Abbá” – Pai.
O Espírito une a nossa oração à oração de Jesus, dando-lhe valor e eficácia e colocando-nos na Vida da própria Trindade Santa. Sem o Espírito, não poderíamos chamar a Deus de Pai, sem o Espírito nossa oração não seria a de Jesus e nosso louvor, nossa adoração e nossa intercessão não estariam unidas e inseridas na própria união de Jesus com o Pai. Sem o Espírito, a Igreja não estaria inserida em Cristo e jamais seria povo sacerdotal!

(5) É o Espírito Quem recorda sempre à Igreja a verdade do Evangelho, conduzindo-a sempre mais adiante no conhecimento de Cristo. Por isso, assistida pelo Espírito da Verdade, a Igreja jamais poderá separar-se da memória do seu Senhor, jamais poderá contradizer sua herança, a fé católica e apostólica, jamais poderá adulterar ou ceder na sua firme profissão de fé com o intuito maléfico e enganador de agradar ao mundo, e jamais poderá errar na sua profissão de fé; enfim, jamais poderá afastar-se da verdade católica que recebeu dos Apóstolos.
Assim, somente no Espírito é que cremos com fé certa na fé da Igreja e sabemos com certeza que a fé da Igreja é a fé católica e apostólica!

(6) É ainda Quem fala ao coração da Igreja das coisas futuras, isto é, do Mundo que há de vir, daquilo que o Senhor nos preparou e para que nós fomos criados; por isso, é no Espírito que a Igreja, ansiosa, olha para a frente, para o futuro e, inquieta, clama que o Esposo venha logo para consumar todas as coisas. Por isso, na força do Espírito, a Igreja deverá ser sempre fiel a cada época, sem saudosismos nem medos, acolhendo, vivendo e testemunhando e difundindo com humildade o Reino de Deus, até que venha o seu Esposo e leve tudo à consumação.
É no Espírito que os cristãos devem viver como profetas do Reino que está por vir, denunciando com doçura e vigor tudo quanto se oponha à manifestação desse Reino, a começar por seus próprios pecados e infidelidades, presentes em cada coração.
No Espírito, a Igreja anunciará sempre o Evangelho, superando todo medo de falar de modo novo a constante e imutável verdade do Evangelho, que interpela, transforma e converte o coração.

(7) Mas, o Espírito não está restrito à Igreja. Dado à Igreja, Ele, que a habita e a impregna, a partir do Corpo da Igreja, que é Corpo de Cristo, enche também, impregna e renova o universo inteiro e toda a humanidade. Onde menos esperamos, onde ainda não chegamos, lá já podemos encontrar a ação do Espírito do Senhor, que cai, que age, suave e fortemente, cristificando toda a humanidade e todas as coisas.

(8) É o Espírito que vai, com força e discrição, guiando a história humana para a plenitude de Cristo, e isto por mais que, tantas vezes, o mundo pareça perdido e sem rumo, em meio a guerras, injustiças, hipocrisias, violências, tristezas e mortes. Cabe aos cristãos, saber discernir e interpretar os sinais dos tempos, que o Santo Espírito faz brotar por toda parte, tendo ouvidos para ouvir o que o Ele diz à Igreja.

(9) Finalmente, é no Espírito, que um dia, no Dia de Cristo, quando Ele, nossa Vida, aparecer em Glória, tudo será glorificado, a história será passada a limpo, a criação inteira será transfigurada, o pecado será destruído para sempre, a Morte será vencida e nossos corpos mortais ressuscitarão, transfigurados como o corpo do Cristo Jesus ressuscitado.
Então, plena do Espírito, toda criação será plenamente corpo de Cristo. O Ressuscitado será Cabeça dessa nova criação e entregará tudo ao Pai, para que o Pai, pelo Filho, no Espírito, seja tudo em todas as coisas.

É esta a nossa esperança, a nossa certeza e a plenitude da nossa salvação. É esta realidade estupenda que se iniciou com o dom do Espírito e continuará sempre e permanecerá sempre, celebrado na Festa de hoje.
Só nos resta implorar novamente o que cantamos antes do “aleluia” da Missa hodierna:

“Espírito de Deus,/ enviai dos Céus/ um raio de luz!
Vinde, Pai dos pobres,/ dai aos corações/ Vossos sete dons.
Consolo que acalma,/ Hóspede da alma,/ doce Alívio, vinde!
No labor, Descanso,/ na aflição, Remanso, / no calor, Aragem.
Enchei, Luz bendita,/ Chama que crepita,/ o íntimo de nós.
Sem a Luz que acode,/ nada o homem pode,/ nenhum bem há nele.
Ao sujo lavai,/ ao seco regai,/ curai o doente.
Dobrai o que é duro,/ guiai-nos no escuro,/ o frio aquecei.
Dai à Vossa Igreja,/ que espera e deseja,/ Vossos sete dons.
Dai em prêmio ao forte/ uma santa morte,/ alegria eterna./ Amém.


segunda-feira, 3 de junho de 2019

Ainda sobre o Mistério da Ascensão do Senhor

Ainda estamos envolvidos pelo mistério da Ascensão do Senhor. E precisamos meditar muto nele, porque é tão desconhecido e subestimado pelos cristãos!

Mistério da Ascensão! É mistério porque brota do Coração de Deus, o Santo, o Infinito, o Inabarcável, o Incompreensível, o Eterno, o Inefável, o Sábio, Aquele cujas profundezas jamais poderão ser sondadas pela mente e pelo coração humanos; é mistério porque ultrapassa tudo quanto possamos imaginar ou compreender, é mistério porque nos dá a Vida eterna, Vida divina, Vida que “os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu” (1Cor 2,9), é mistério porque se trata de uma realidade que somente pode ser compreendia no Espírito Santo de Cristo (cf. 1Cor 2,10) e jamais nos simples limites da humana razão.

A hodierna Solenidade, caríssimos, é uma só com a do Dia de Páscoa:

Aquele, feito homem igual a nós, morto como nós, que admiramos levantado dentre os mortos e constituído em Glória na Ressurreição, hoje, contemplamo-Lo à Direita de Deus, com a mesma autoridade do Pai, e O proclamamos Cabeça da Igreja, nosso verdadeiro e eterno Sacerdote e Mediador, Senhor sobre toda a criação, sobre toda a humanidade, Princípio e Fim da história humana e Juiz dos vivos e dos mortos.
No Dia da Páscoa contemplamos o Cristo resplandecente de Glória; na Solenidade de hoje, contemplamos o que essa Glória significa para nós todos, isto é, o que o Cristo, glorificado em Si mesmo, tornou-Se para nós e para toda a criação!

Eis, caríssimos Irmãos:

Primeiramente, a Ascensão do Senhor nos faz compreender, com o Coração guiado pelo Espírito Santo, que o Cristo que por nós Se fez homem, como um de nós viveu e por nós morreu, Ele mesmo, agora, com a Sua humanidade glorificada, está à Direita do Pai, isto é, compartilha plenamente todo o Poder que o Pai possui em plenitude.
Pensai bem, que isto é admirável: um da nossa raça, o homem Jesus, Criador feito criatura, participa agora do mesmo Poder divino, acima de todas as criaturas! Que mistério: Nele, a nossa humanidade está totalmente glorificada, encontra-se, para sempre, no seio da própria Trindade Santa!

Como dizia a oração inicial desta Santa Missa, “a Ascensão do Filho já é a nossa vitória” porque um homem, o homem Jesus, imolado e ressuscitado, entrou nos Céus – e “Céus” no plural, ali, onde somente Deus É, isto é, no interior da própria Vida do seio da Trindade Santa! O homem Jesus entrou no seio da Trindade e nós, enxertados Nele, a Ele unidos no Batismo e na Eucaristia, como membros do Seu Corpo, que é a Igreja, de modo misterioso, mas real, com Ele entramos no seio de Deus, com Ele nos sentamos nos Céus! Eis: nós sabemos: onde já está a nossa Cabeça, estaremos também nós um dia! Como diz o santo Apóstolo, na sua Carta aos Efésios, chegaremos “todos juntos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado do Homem perfeito e à estatura de Cristo em Sua plenitude” (cf. Ef 4,13).
Vede, portanto, caríssimos, que destino a Festa deste hoje nos revela: chegar à estatura do Cristo em Sua plenitude! Nada menos que isso pode saciar o coração humano; nada menos que isso pode nos contentar, pode nos dar paz! Olhai para o Cristo glorioso à Direita do Pai e vereis a que sois chamados… Contemplai, pois, o nosso destino!

Pensai que miséria, a do nosso mundo, que vive de bagatelas, empenha todo o seu afeto com futilidades e procura alegria e plenitude no que é efêmero! Tanto maior a grandeza que contemplamos em Cristo, mais deveria nos espantar a ilusão e alienação do mundo atual! Recordai, caros, a exortação do Apóstolo: “Esforçai-vos por alcançar as coisas do Alto, onde está Cristo, sentado à Direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. Quando Cristo, vossa Vida, aparecer em Seu triunfo, então vós aparecereis também com Ele, revestidos de Glória” (Cl 3,1-4).

Em segundo lugar, sentado como Senhor à Direita do Pai, Jesus é o Senhor do universo e de toda a história.

Vede a criação, caríssimos! Pensai nas galáxias, recordai as estrelas, imaginai a riqueza de vida nas profundezas do mar, pensai ainda na sede de Infinito do coração humano…

De tudo isso Cristo é Senhor; tudo caminha para Ele, Ele é a Finalidade de tudo, também da história humana.

Por mais que o homem pecador trame contra Cristo, por mais que o mundo hodierno volte suas costas ao Senhorio do Ressuscitado, tudo caminha para Ele e Ele triunfará ao fim de tudo – Ele é o Alfa e o Ômega, o A e o Z, o Princípio e o Fim de todas as coisas! Hoje, mais que nunca, as palavras do Salmo 2 se mostram verdadeiras:

“Por que as nações se amotinam,
e os povos meditam em vão?
Os reis da terra se insurgem,
e, unidos, os príncipes conspiram
contra o Senhor e contra o Seu Messias!

O que habita nos Céus ri,
o Senhor Se diverte à custa deles.
E depois lhes fala com ira,
confundindo-os com Seu furor:

‘Fui Eu que consagrei o Meu Rei
sobre Sião, Minha montanha sagrada!’
Vou proclamar o decreto do Senhor:
Ele Me disse: ‘Tu és Meu Filho,
Eu hoje Te gerei.
Pede, e Eu Te darei as nações como herança
 e os confins da terra como propriedade!”

Por tudo isso, Ele é o Juiz de tudo quanto existe. Valerá a pena e durará para a Eternidade, terá sentido, tudo o que estiver sob o Seu Senhorio de paz, de amor, de vida, de justiça e de santidade. Tudo quanto não condisser com o Seu Reinado perecerá, passará, pois não servirá para mais nada a não ser para ser jogado fora e pisado pelos homens.

Mais ainda: o Senhor Jesus, hoje no mais alto dos Céus, é Cabeça da Igreja.

Aquele que é o Unigênito de Deus, pela Sua Ressurreição e pelo dom do Seu Espírito, tornou-Se o Primogênito de muitos irmãos, Cabeça do Seu Corpo, que é a Igreja.

Eis, meus irmãos: o Cristo pleno de Glória que está nos Céus, é nossa Cabeça e Dele continuamos recebendo a Vida, que é o próprio Espírito Santo. Esta Vida vem-nos, sobretudo, nos sacramentos, especialmente na Eucaristia, na qual recebemos o Cristo morto e ressuscitado, pleno do Santo Espírito, Senhor que dá a Vida divina.

Olhando para Aquele que está à Direita do Pai e é nossa Cabeça e Princípio, como não nos alegrar? Como não nos encher de esperança? Como não ter a certeza que nossa vida caminha para a Plenitude?
Não estamos sozinhos, irmãos! A Igreja jamais estará sozinha – seu Senhor é o mesmo que está à Direita do Pai; seu Esposo e Cabeça é o Rei da Glória!

Há ainda, no tremendo mistério da Ascensão um aspecto que, frequentemente, passa despercebido aos cristãos: a Ascensão é a Festa da efetivação do sacerdócio de Cristo! Com a Sua gloriosa Ascensão Cristo Jesus torna-Se, efetivamente, nosso sumo e Eterno Sacerdote! O que diz a Escritura? “Levado à perfeição, Se tornou para todos os que Lhe obedecem princípio de salvação eterna, tendo recebido de Deus o título de Sumo Sacerdote, segundo a ordem de Melquisedec” (Hb 5,9s). O Cristo Jesus nosso Senhor foi levado à perfeição na Sua Ressurreição e glorificação à Direita do Pai. Então, Ele entrou no Santuário verdadeiro, que são os Céus, “a fim de comparecer, agora, diante da Face de Deus a nosso favor” (Hb 9,24)! Que mistério tão profundo, tão belo, tão consolador: pela Sua Encarnação, pela Sua Cruz e Ressurreição, agora, “depois de ter oferecido um sacrifício único pelos pecados, sentou-Se para sempre à Direita de Deus. De fato, com esta única oferenda, levou à perfeição, e para sempre, os que Ele santifica” (Hb 10,14). Assim, “Nele temos um caminho novo e vivo, que Ele mesmo inaugurou através do véu, quer dizer através da Sua humanidade. Temos um Sumo Sacerdote eminente constituído sobre a Casa de Deus” (Hb 10,20s).

Irmãos, queridos, percebeis isto? Compreendeis o mistério maravilhoso? Cristo, o Cordeiro imolado por nós, entrou na Glória de Deus, e, diante do Trono, como “Cordeiro de pé como que imolado” (Ap 5,6), apresenta, agora, de modo real e glorioso, o Sacrifício santíssimo que ofereceu por nós na Sua humanidade por nosso amor assumida! É no Santuário dos Céus, à Direita do Pai, diante do Trono, que Ele exercerá para sempre o Seu sacerdócio! E em cada celebração do Sacrifício eucarístico, Ele estará no Altar, “de pé, como que imolado” (Ap 5,6), tornando presente, atual e atuante o Seu Sacrifício por nós, por toda a Igreja e pelo mundo inteiro!
Irmãos, como não admirar? Como não adorar? Como não agradecer? Como não nos. rejubilar?

Por fim, caríssimos, a Festa de hoje – que, de certo modo já nos prepara para o encerramento do Tempo da Páscoa, com o Santo Pentecostes, no próximo Domingo -, a Festa de hoje nos convida a colocar os pés nas estradas do mundo – na nossa família, no nosso trabalho, entre os nossos amigos, na vida social -, pés nas estradas do mundo para proclamar o Senhorio de Cristo.
Lembrai-vos hoje da Sua promessa, lembrai-vos da Sua missão:“Recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes Minhas testemunhas até os confins da terra!” (At 1,8)
Coragem, pois, caríssimos! Se conhecermos Jesus de verdade, se O experimentarmos realmente na nossa vida, se crermos na Sua Glória e esperarmos com todo nosso coração participar dela, seremos, então, Suas testemunhas e nossa convicção, nosso amor e nossa esperança invencível contagiarão a muitos.

Portanto, “homens da Galileia, por que estais admirados, olhando para o céu? Este Jesus há de voltar, do mesmo modo que o vistes subir!” (At 1,11) Façamos, pois, como nossos irmãos das origens, que saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e confirmava Sua Palavra por meio dos sinais que a acompanhavam. Que assim seja! Amém.