segunda-feira, 9 de julho de 2018

“Eles, por uma coroa perecível...”

Mesmo com a recente derrota da Seleção na Copa do Mundo de Futebol, assiste-se ao entusiasmo, à paixão por parte dos torcedores e vê-se o esforço dos atletas, idolatrados e xingados, de acordo com o resultado que obtenham. Quanto dinheiro, quanto esforço, quanta paixão, quanto tempo dedicado... Como não recordar as palavras de São Paulo: “Não sabeis que aqueles que correm no estádio, correm todos, mas um só ganha o prêmio? Correi, portanto, de maneira a consegui-lo. Os atletas se abstêm de tudo; eles, para ganhar uma coroa perecível; nós, porém, para ganhar uma coroa imperecível” (1Cor 9,24s).

Se pensarmos bem, causa tristeza... Hoje, investe-se tanto em esporte, divulga-se o esporte como a coisa mais séria do mundo; os atletas são apresentados como modelos de vida a serem admirados e seguidos; a Seleção é elevada à categoria de símbolo nacional, os treinos, o esforço, a disciplina esportiva, tudo apresentado como virtude e altruísmo... Os slogans são grandiloquentes: “Esporte é vida”, “O esporte irmana os povos”, “Esporte é paz”... É verdade que há muito dinheiro em jogo e, por isso, toda essa promoção esportiva. Basta pensar no tênis, no futebol e na fórmula 1. Mas, é verdade também que se não houvesse quem assistisse, procurasse e muitas vezes idolatrasse a prática esportiva, todo esse aparato não existiria... É inquietante, é, sim, de fazer pensar...

Claro que, em si, o esporte é um bem: auxilia a saúde física e mental, é fator importante de socialização, pode desenvolver lideranças, incentivar o trabalho em equipe, etc. O problema não é o esporte, mas o modo como hoje ele é visto e valorizado, a mística que se criou em torno dele! Quando nossa sociedade era cristã, os heróis não eram os atletas, mas os santos: aqueles que empenharam a vida em Cristo e, por Ele, deram tudo a Deus e aos irmãos. Os heróis dos jovens cristãos eram um Francisco de Assis, um Camilo de Lélis, um Inácio de Loyola, um Francisco Xavier, um Luís Gonzaga, uma Clara de Assis, uma Teresa do Menino Jesus... Era o tempo em que Cristo era realmente a seiva vital de nossa cultura e o cristianismo inspirava valores, ideais, modelos de existência, tempo em que o Domingo (do latim dies Dominidominica= dia do Senhor) era dia, antes de tudo, de participar da Ceia do Senhor, celebrando a Eucaristia. 

Atualmente, se os heróis são os atletas, os jogadores de futebol, sobretudo; os domingos são dias de cerveja, estádio e praia... E nada mais. Escutam-se os slogans de efeitos, mas tão falsos, tão falsos: “Esporte é vida; esporte é paz”... Não! Cristo é Vida, porque somente Ele confere um sentido real e duradouro à existência; uma tal certeza, uma tal perspectiva, que nem a morte pode destruir! Cristo é Paz! Somente Ele! Porque somente Nele o coração descansa realmente, de um descanso não ilusório, verdadeiro, consistente! “O esporte irmana os povos!” Somente o Cristo nos irmana de verdade, porque nos faz filhos do mesmo Pai, ao qual nos dirigimos exclamando: “Pai nosso!”

É sintomático: sempre que uma pessoa ou uma sociedade exclui Deus, teórica ou praticamente, cria uma nova religião, secular, uma religião sem Deus. Pois bem: o esporte é, hoje, uma dessas religiões; os templos são os estádios, os encontros de oração, as academias... Que pena, porque por mais que seja interessante a prática esportiva, ela não é um valor dos mais importantes da existência: ela não garante o sentido da vida, ela não realiza em profundidade o coração, ela não pode dar o eixo e o rumo de nossos dias neste mundo. Que pena! Como temos caído, a ponto de nos satisfazermos com tão pouco, de colocar nossa alegria em um ideal tão óbvio, tão curto, tão baixo...

Realmente, são de cortar coração e atiçar a consciência, as palavras de São Paulo: “Não sabeis que aqueles que correm no estádio, correm todos, mas um só ganha o prêmio? Correi, portanto, de maneira a consegui-lo. Os atletas se abstêm de tudo; eles, para ganhar uma coroa perecível; nós, porém, para ganhar uma coroa imperecível” (1Cor 9,24s). Quem dera que nós, cristãos, nos entusiasmássemos tanto com o Cristo como os desportistas com seus esportes; que nos exercitássemos tanto na oração, na ascese (exercício espiritual, que tem a mesma raiz grega da palavra “atleta”) como os atletas fazem para suas competições; que nosso entusiasmo em testemunhar e o Evangelho fosse o mesmo dos locutores tresloucados de rádio e televisão; que “perdêssemos” com o Senhor o tempo que os comentadores dos programas esportivos perdem todos os dias, com tantas futilidades...

Ah! Que os católicos não façam do Domingo um dia mundano, dia simplesmente de ocupações lúdicas. Que o Domingo seja aquilo que é: Dia do Senhor Ressuscitado que nos reúne como Igreja, nos dirige Sua Palavra e conosco parte o Pão da Eucaristia... Mas, a grande maioria dos católicos nominais não terá entusiasmo algum por um Domingo assim, certamente. Estão muito ocupados com suas distrações e, além do mais, somente pode compreender essas coisas quem encontrou realmente o Cristo na sua vida, quem fez Dele sua corrida, a causa de sua existência, o motivo último de seu esforço e a certeza do seu troféu...  Quem dera que os católicos se exercitassem tanto na oração, treinassem tanto na vida cristã, fossem tão disciplinados e generosos no compromisso com Cristo e a Sua Igreja, corressem tanto na vida cristã, que fossem alcançados pelo Cristo Jesus e Dele recebessem a única coroa que é imperecível: aquela, da Vida eterna!


domingo, 8 de julho de 2018

Eta!

O Lucas tem somente um ano e cinco meses. Já caminha passos mais ou menos firmes, seguros e, assim, com a energia de criança, gira a casa toda. Também já ensaia algumas palavras: “papá”, “mamã”, etc... Mas, fascinante mesmo é vê-lo, diante de alguma coisa que o surpreende, espanta ou intriga dizer, com a carinha mais linda do mundo: “Eta!’ (o nosso popular “eita”!). Onde terá ele aprendido isso?
“Eta”, na nossa língua portuguesa, é uma interjeição que exprime admiração, surpresa, espanto, pasmo! Se pensarmos bem, toda a vida humana é um contínuo “eta”, do nascimento à morte: é nossa sina, nossa identidade: admirar-se com a vida que nos acontece, envolvendo-nos em alegrias e desventuras. A atitude do Lucas, tão pequenininho ainda, é a atitude de cada um de nós e da humanidade toda! Efetivamente, quem de nós pode controlar a vida, medi-la, calculá-la, dissecá-la, explicá-la, enfim? Não é ela uma surpresa, um mistério indevassável? Por que nascemos? E com que propósito? Por que somos como somos e não diferentes? Por que passamos por estas experiências e não por aquelas outras? Quantas vezes a existência nos surpreende de tantos modos e ficamos embasbacados, como que pegos de surpresa para o bem e para o mal! E, se fôssemos o pequeno Lucas, somente poderíamos exclamar: “Eta!” Nem sabe o Lucas que neste pequeno vocábulo de três míseras letras já está profetizado o que será sua vida: uma constante surpresa, um diuturno desafio, um perene mistério!
Isto é fascinante, pois o ser humano é o único ser capaz de admirar, de surpreender-se realmente! E a vida tem tanto a nos surpreender: as dores e gozos, tristezas e alegrias, sucessos e fracassos, nossas grandezas e baixezas, nossos alentos e desilusões... Sempre foi, sempre será assim! O homem sempre viveu entre estas realidades tão diversas e, aparentemente, tão contraditórias e surpreendentes e, bem ou mal, sempre soube se sair.
O que é preocupante é que em nossa época, com o avanço das comunicações, com o domínio da técnica que permite ao homem controlar e explorar como nunca antes a natureza, criando para si uma vida artificial e meio alienada, com a ruptura do diálogo entre gerações, estamos perdendo a capacidade de admirar, de nos surpreender de modo construtivo. A vida parece que vai passando sobre nós como um trator: amassando-nos, oprimindo-nos, machucando-nos com a ameaça da falta de sentido para as coisas e para a nossa própria existência. Não é novidade uma vida humana feita de altos e baixos; novidade é que o homem atualmente não saiba conviver com eles, encontrar para eles um sentido, não saiba mais exclamar “eta!” sem perder o rumo nem a paz! E tudo isto por um motivo só: diante da existência, com suas contradições, somente nos são dadas três alternativas: o cinismo de quem não vê sentido nenhum para a existência e não a leva a sério (e isto nos desumaniza e nos reduz a meros animais), o desespero amargo de quem tentou construir, ser feliz e, no entanto, se sente iludido pela vida, atropelado e enganado (e isto nos reduz a deprimidos impotentes, incapazes de lutar e ver a beleza da vida) e, finalmente, a esperança de quem sabe que é possível dar um sentido às lutas, às lágrimas, às renuncias que a existência nos impõe e, assim, saborear sabiamente as verdadeiras alegrias da vida (e isto nos faz maduros, humanos e realizados). Mas, esta última alternativa somente pode ser assumida em toda a sua profundidade à luz da fé, por aqueles que sabem que mesmo que tudo ou muito na vida pareça sem sentido, há Alguém que dá sentido aos nossos dias, que nos criou não para o caos absurdo, mas para caminhar e repousar no Seu amor.
Tomara que seja esta última a alternativa do Lucas, para que ele possa dizer “eta!” até o fim da vida com um coração de criança, que confia e sabe que, aconteça o que acontecer, haverá sempre um Pai nos Céus que segura o leme da sua vida!


sábado, 7 de julho de 2018

Homilia para o XIV Domingo Comum – Ano B

Ez 2,2-5
Sl 122
2Cor 12,7-10
Mc 6,1-6

O Evangelho deste Domingo apresenta-nos Jesus na Sua Nazaré. Ali mesmo, na Sua própria cidade, onde nascera e fora criado, os Seus o rejeitaram: “'Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?’ E ficaram escandalizados por causa Dele”. Assim, cumpre-se mais uma vez a Escritura: “Veio para o que era Seu e os Seus não O receberam” (Jo 1,11). E a falta de fé foi tão grande, a dureza de coração, tão intensa, a teimosia, tão pertinaz, que São Marcos afirma, de modo surpreendente: “Ali não pôde fazer milagre algum!”, tão grande era a falta de fé daquele povo.

Meus caros, pensemos bem na advertência que esta Palavra de Deus nos faz! O próprio Filho do Pai, em pessoa, esteve no meio do Seu povo, conviveu com ele, falou-lhe, sorriu-lhe, abraçou-lhe e, no entanto, não foi reconhecido pelos Seus! E por quê? Pela dureza de coração, pela insistência teimosa em esperar um messias de encomenda, sob medida, a seu bel-prazer... Valia bem para Israel a censura da primeira leitura de hoje, na qual o Senhor Deus Se dirige a Seu servo: “Filho do homem, Eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de Mim. A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra, vou-te enviar, e tu lhes dirás: ‘Assim fala o Senhor Deus’. Quer escutem, quer não, ficarão sabendo que houve entre eles um profeta!” Que coisa tremenda, meus caros: houve entre os israelitas um profeta, e mais que um profeta: o Filho de Deus, o Eterno, o Filho amado... E Israel O rejeitou! Eis: “Veio para o que era Seu e os Seus não O receberam”  (Jo 1,11)...

Mas, deixemos Israel. E nós? Acolhemos o Senhor que nos vem? Escutamos com fé Sua Palavra, quando Ele Se dirige a nós na Escritura, aquecendo nosso coração? Acolhemo-Lo na obediência da fé, quando Ele Se nos dirige pela boca da Sua Igreja católica, ensinando-nos o caminho da vida? Acolhemo-Lo, quando nos fala pela boca de Seus profetas, homens de fogo, que não procuram agradar ao mundo, mas a Deus?
Não tenhamos tanta certeza de que somos melhores que aqueles de Nazaré! Aliás, é bom que nos perguntemos: por que os nazarenos não foram capazes de reconhecer Jesus como Messias?
Já lhes disse: porque o Senhor não era um messias do jeito que eles esperavam: um simples fazedor de milagres, um resolvedor de problemas... Jesus, pobre, manso, humilde, era também exigente e pedia do povo a conversão de coração. Mas, há também uma outra razão para os nazarenos rejeitarem Jesus: eles foram incapazes de ver além das aparências. De fato, enxergaram em Jesus somente o carpinteiro, filho da Maria, ali tão conhecida, aquele que correra e brincara nas suas praças, aquele ao qual eles haviam visto crescer. Assim, sem conseguir olhar com mais profundidade, empacaram na descrença. Mas, nós, conseguimos olhar com profundidade? Somos capazes de escutar na voz dos ministros de Cristo a própria voz do Senhor? Somos sábios o bastante para ouvir na voz da Igreja a voz de Cristo?

É exatamente pela tendência nossa, tremenda, de sermos surdos ao Senhor, que Jesus tanto sofreu e que Paulo se queixava das dificuldades do seu ministério. O Apóstolo fala de um anjo de Satanás que o esbofeteava. Que anjo era esse? Ele mesmo explica: suas “fraquezas, injúrias, necessidades, perseguições e angústias sofridas por amor de Cristo”. O drama de Paulo é uma forte exortação aos pregadores do Evangelho e a todos os cristãos.
Aos pregadores do Evangelho essa palavra do Apóstolo recorda que o anúncio será sempre numa situação de fraqueza, de pobreza humana, de apertos e contradições. A evangelização, caríssimos, não é um trabalho de marketing televisivo como vemos algumas vezes nos “missionários” dos meios de comunicação. O Evangelho do Cristo crucificado e ressuscitado é proclamado não somente pela palavra do pregador, mas também pela carne de sua vida. Como proclamar a Palavra sem sofrer por ela? Como anunciar o Crucificado que ressuscitou sem participar da Sua Cruz na esperança firme da Sua Ressurreição? O Evangelho não é uma teoria, não é um sistema filosófico. O Evangelho é Cristo Jesus encarnado na nossa vida, de modo que possamos dizer como São Paulo: “Eu trago no meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6,17). Triste do pregador que pensar em anunciar Jesus conservando-se para si mesmo. Um diácono, um padre, um Bispo, que quisesse se poupar, que separasse a pregação do seu modo de viver, que fosse pregador de ocasião, tornar-se-ia um falso profeta, transformar-se-ia em marketeiro do Evangelho, portanto, inútil e estéril. É toda a vida do pregador que deve ser envolvida na pregação: seu modo de viver, de agir, de vestir, de relacionar-se com os bens materiais, sua vida afetiva, seu modo de divertir-se, seu tipo de amizade... Tudo nele dever ser comprometido com o Senhor e para o Senhor!

Mas, esta palavra de São Paulo na liturgia de hoje vale também para cada cristão. Nos tempos que correm, somos minoria. O mundo não-crente, secularizado, zomba de nós e já não crê no anúncio de Cristo que lhe fazemos. O Senhor e Seu Evangelho já não mais são levados a sério; na melhor das hipóteses, são tolerados! Sentimos isto na pele! Pois bem, quando experimentarmos a frieza e a dura rejeição, quando em casa, no trabalho, nos círculos de amizades, formos ignorados ou ridicularizados por sermos de Cristo, recordemos do Evangelho de hoje, recordemo-nos dos sofrimentos dos apóstolos e retomemos a esperança: o caminho de Cristo é também o nosso; se sofrermos com Ele, com Ele reinaremos; se morrermos com Ele, com Ele viveremos (cf. 2Tm 2,11-12). Não tenhamos medo: nós somos as testemunhas, os profetas, os sinais de luz que Deus envia ao mundo de hoje! Sejamos fieis: o Senhor está conosco, hoje e sempre. Amém.


quinta-feira, 5 de julho de 2018

A Igreja de Cristo subsiste na Igreja católica

Por que o Concílio Vaticano II utilizou “subsistit in” (subsiste na) e não simplesmente “é”? Por que não afirmou simplesmente “a Igreja de Cristo é a Igreja católica”?
Porque a inteira Tradição sempre reconheceu que os que são batizados validadamente, ainda que não estejam em comunhão visível com a Igreja católica, são membros dela e são verdadeiros cristãos.
Nas comunidades cristãs que estão fora da visível comunhão católica, há certamente elementos da Igreja, elementos de eclesialidade: as Escrituras, a fé em Jesus como Senhor e Cristo, o amor fraterno, dons e carismas e até mesmo o martírio por amor a Jesus nosso Senhor. No caso dos ortodoxos, o Episcopado plenamente válido e dentro da sucessão apostólica, os sacramentos validamente celebrados, o culto à Virgem Maria e aos santos...
A inteira Tradição sempre reconheceu que os que são batizados validadamente, ainda que não estejam em comunhão visível com a Igreja católica, são membros dela por laços diversos e são verdadeiros cristãos. Nas comunidades cristãs que estão fora da visível comunhão católica há, certamente, elementos da Igreja, elementos de eclesialidade.
Assim, se se afirmasse sem mais uma identidade pura e simples entre a Igreja de Cristo e a Igreja católica com um “é”, ficaria mais difícil exprimir como fora da unidade visível da Igreja há elementos de eclesialidade...
Mas, que fique claro: este “subsiste” tem o sentido do “é”, deixando, no entanto, aberta a explicação para os elementos de eclesialidade fora da comunhão visível da Igreja católica. Esta foi a ideia do Pe. Sebastiaan Tromp, jesuíta que fez esta formulação na Lumen Gentium.


quarta-feira, 4 de julho de 2018

A Igreja de Cristo e a Igreja católica

Na consciência de muita gente, católicos inclusive, alojou-se, nos últimos tempos, uma ideia errada sobre a Igreja. Pensa-se que a Igreja de Cristo não está mais em nenhuma das denominações cristãs atuais. O que existiria seria simplesmente uma Igreja cristã, presente em todas as denominações, numa espécie de confederação de igrejas, de modo que não existe mais a Igreja de Cristo, mas igrejas que têm algo da Igreja de Cristo.
Ora, isso foi, é e será sempre absolutamente inaceitável para a fé católica.

O Concílio Vaticano II, repetindo aquilo que sempre foi e será a nossa fé, afirma o seguinte: “... a única Igreja de Cristo, que no Credo professamos una, santa, católica e apostólica, e que nosso Salvador, depois de Sua Ressurreição, confiou a Pedro para que ele a apascentasse... Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste na Igreja católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele, ainda que fora do seu corpo se encontrem realmente vários elementos de santificação e de verdade que, na sua qualidade de dons próprios da Igreja de Cristo, conduzem para a unidade católica” (Lumen Gentium 8).

Qual o sentido deste ensinamento?
O Concílio quer dizer que a Igreja de Cristo não se perdeu nas estradas da história nem foi deteriorada pelo tempo, como se tívessemos somente vestígios dela, espalhados nas várias denominações cristãs... Ela, a Igreja de Cristo, existe na Igreja católica; mais: ela é a Igreja católica!
Em outras palavras, bem claras: a Igreja que Cristo fundou, ama, guia, vivifica e sustenta com a força do Seu Espírito Santo é a Igreja católica. Nem mais nem menos. A expressão “subsiste” deseja, sobretudo, reafirmar que a Igreja de Cristo, com a plenitude de todos os meios instituídos por Cristo, subsiste (= continua, permanece na sua essência) para sempre na Igreja católica (“católica” assim, com minúscula, pois não é um nome da Igreja, mas uma qualidade, um adjetivo: ela é “católica”, isto é, possui a totalidade dos elementos essenciais que Cristo pensou para Sua Igreja. “Católica” para distinguir das várias denominações cristãs que foram surgindo no tempo, fruto da ruptura com a Igreja de Cristo, e que não possuem a totalidade desses elementos que Cristo quis para a Sua Igreja).

É preciso que fique bem claro que o Vaticano II aqui nos quer dizer que a Igreja de Jesus Cristo como sujeito concreto neste mundo pode ser encontrada somente na Igreja católica; ela somente pode ocorrer com a Igreja católica! É totalmente errada e absolutamente contra a intenção do Concílio querer afirmar que a Igreja de Cristo pode subsistir também em outras comunidades cristãs. “Subsiste” quer exprimir exatamente o contrário: só pode haver uma única subsistência da verdadeira Igreja, enquanto que fora da estrutura visível da Igreja de Cristo existem apenas elementos da Igreja de Cristo. Por isso mesmo, essas outras comunidades, ainda que não sejam realmente Igreja, possuem, graças a Deus elementos eclesiais, elementos da única Igreja de Cristo, que é a Igreja católica, e somente a Igreja católica.

Sendo assim, é preciso afirmar sem medo nem reservas nenhumas que, do ponto de vista teológico, não é correto chamar as comunidades protestantes de “Igreja”. Elas são comunidades eclesiais, isto é, comunidades que, sem serem propriamente Igrejas, possuem vários elementos eclesiais. E quais seriam eles? A Palavra de Deus, a fé em Jesus Cristo como único Salvador e a confissão do Deus uno e trino, a vida de piedade, bem como a caridade fraterna, o sacramento do Batismo, vários dons e carismas que ajudam na vida cristã, o desejo sincero de testemunhar e anunciar Jesus Cristo, a esperança na Vida eterna... Todos estes dons, que pertencem à única Igreja de Cristo, graças a Deus, estão presentes nessas comunidades. As comunidades protestantes, do ponto de vista estritamente teológico, só podem ser chamadas “Igrejas” em sentido metafórico. São chamadas de “igrejas” por deferência e senso prático, ainda que, teologicamente, a Igreja católica as considere “comunidades eclesiais”. Já a situação das Igrejas ortodoxas é diferente. Elas são Igrejas como as dioceses católicas são Igrejas: Igrejas locais. Teologicamente, não existe uma Igreja Ortodoxa; existem Igrejas (dioceses) Ortodoxas: são aquelas que, separadas de Roma, guardaram, no entanto a verdadeira fé, a inteireza dos sacramentos, a Eucaristia plena e a legítima sucessão apostólica do Episcopado. Os Bispos ortodoxos são verdadeiros Bispos, sucessores dos Apóstolos por direito divino conferido no sacramento da Ordem, apesar de não estarem na plena comunhão com o Sucessor de Pedro.

Podemos, a partir do que foi exposto, colocar duas questões:

(1) Por que somente a Igreja católica é a Igreja de Cristo? Isso não é uma pretensão demasiada e exorbitante? Não. A Igreja não se faz a si própria, não é obra humana. Cristo fundou Sua Igreja, concedeu-lhe o dom de Sua presença e assistência com a ação do Seu Espírito, dotou-a de pastores legítimos, aos quais prometeu assistência, não pela força e fidelidade deles, mas pela Sua graça. Ora, esta Igreja é a Igreja católica, da qual todas as outras comunidades cristãs apartaram-se por algum motivo (muitas vezes também por culpa nossa). Então, o fato de nós católicos sermos a única Igreja de Cristo não é mérito nosso, mas fruto da fidelidade do Senhor, que jamais volta atrás nas Suas promessas e na Sua fidelidade. Se a Igreja de Cristo se tivesse perdido, então a Páscoa do Senhor não seria a palavra última e vitoriosa de Deus para a humanidade; as portas do Inferno seriam mais fortes que Cristo e Sua Igreja, aliás, a Igreja sequer seria Templo do Espírito Santo, Espírito de unidade e de paz, de vitória sobre o pecado e suas lacerações...

(2) Uma outra questão: esta visão do Concílio não atrapalha o ecumenismo? De modo algum! Não se faz ecumenismo na mentira, no escondimento da verdade, no engano e num irenismo frouxo. O Concílio Vaticano II soube maravilhosamente reafirmar a Tradição da Igreja e a fé verdadeira, buscando, no entanto, uma linguagem e um caminho que ajudem na compreensão recíproca. A novidade do Concílio no campo ecumênico foi reconhecer que fora da Igreja há elementos de verdade e de salvação. Não só os reconheceu como também os exemplificou, como listei acima. Isso faz com que cresça realmente um sincero respeito pelos nossos irmãos separados e se desenvolva nossa capacidade de apreciar retamente os tantos pontos em comum que temos, graças a Deus.

É importante e imprescindível que os cristãos, no âmbito ecumênico, trabalhem em três frentes: 
uma, na busca de uma verdadeira prática do amor recíproco, que deve sempre distinguir os discípulos do Senhor. Sem isso não há cristianismo.
A outra, a oração fraterna, suplicando a unidade de todos quantos professam a fé em Cristo: se todos abrirem o coração para o Senhor e por Ele deixarem-se guiar, ficará mais fácil que todos os cristãos se encontrem no Senhor.
Finalmente, a paciente e sincera procura da verdade, até que cheguemos todos, um dia, àquela unidade que o Senhor desejou para a Sua Igreja, quando todos os que são ornados com o precioso nome de cristão, comerão do mesmo Pão eucarístico e beberão do mesmo Cálice do Senhor.

Até lá, sejamos verdadeiros católicos, sendo gratos ao Senhor que, sem nenhum mérito nosso, nos deu a graça de perseverar na Sua santa Igreja, católica e apostólica.



terça-feira, 3 de julho de 2018

O poder do sangue de Jesus


Tantas vezes já escutamos falar do sangue de Jesus e do seu poder salvador! A Primeira Epístola de São João afirma claramente que “o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado” (1,7) e a Primeira Epístola de São Pedro ensina claramente que “fostes resgatados da vida fútil que herdastes dos vossos pais pelo sangue de Cristo, com de um Cordeiro sem defeitos” (1,19). Em suma, é doutrina do Novo Testamento todo, é fé da Igreja que pelo sangue de Cristo fomos salvos e libertos. Saudando o Cristo morto e ressuscitado, o Apocalipse assim se exprime: “Foste imolado e, por Teu sangue, resgataste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação” (5,9).
Mas, por que esta verdadeira fixação no sangue? Por que a sua importância? Não parece algo mágico, que um líquido biológico possa salvar, dando Vida divina à humanidade? Não estamos diante de algo repulsivo à razão humana, algo meio ridículo e primitivo, próprio de uma religião tribal, inaceitável e incompreensível para nós hoje? Não estaríamos ainda às voltas com a imagem de um deus sádico, mau, vingativo, que provoca o sofrimento e somente se compraz e se sacia com sangue, com vingança? São perguntas sérias, que podem colocar em xeque a seriedade do cristianismo...

Para compreendermos tudo isto, é necessário primeiro entender o que significa o sangue na Sagrada Escritura, de modo particular no Antigo Testamento. O Pentateuco explica: A vida da carne está no sangue. E este sangue Eu vo-lo tenho dado para fazer o rito de expiação sobre o altar, pelas vossas vidas; pois é o sangue que faz expiação pela vida” (Lv 17,11).
Compreendamos: Deus é Vida e a Vida do homem é estar em comunhão com Deus, aberto a Ele, amando-O e buscando na vida concreta a Sua santa vontade. Quando o homem peca, rebela-se contra Deus, fecha-se para Ele. Na raiz de todo pecado está a ilusão de que a vida é nossa e podemos fazer dela aquilo que queremos. Ora, quando o homem peca, afastando-se de Deus, ele perde o sentido da vida, perde a Vida, cai numa situação de morte. Claro que, aqui, não se trata de uma morte física, mas da morte da alma, morte porque a vida perde o sentido e, passando pela morte física, pode resultar na Morte eterna, que é a perda de Deus para sempre.
Por isso mesmo, nos ritos do antigo Israel, o pecado somente poderia ser remido com um sacrifício no qual o sangue (a vida) da vítima fosse derramado: “Segundo a Lei, quase todas as coisas se purificam com sangue; e sem efusão de sangue não há remissão” (Hb 9,22). E o autor sagrado afirma também: “Nem mesmo a primeira aliança foi inaugurada sem efusão de sangue” (Hb 9,18). 

Quando o pecador oferecia um animal como vítima pelo pecado, estava reconhecendo (1) o seu pecado, (2) o senhorio absoluto de Deus sobre toda a sua vida, (3) e que seu pecado leva a uma situação de Morte, representada na morte da vítima, que tinha seu sangue derramado. É como se a vítima substituísse o pecador que, pecando, se afastara do Deus Vivo e vivificante e aproximara-se da Morte. Podemos afirmar, então, que o sangue derramado significa a vida doada, a vida perdida, a vida tirada... Não esqueçamos: “A vida da carne (a vida de todo ser vivente) está no sangue” (Lv 17,11): perder este é perder aquela!
Mas, há um problema sério com esses sacrifícios: os animais oferecidos como vítimas não tinham nenhuma consciência do que estava acontecendo, não podiam oferecer sua própria vida como um ato de amor e louvor a Deus. Eles apenas representavam o pecador e eram oferecidos no lugar dele. Por isso, a Escritura constata que “é impossível que o sangue de touros e bodes elimine os pecados” (Hb 10,4).

Agora, vamos a Jesus. Toda a Sua vida entre nós, desde o momento da Encarnação, foi um ato de amor e obediência ao Pai em nosso favor: “Tu não quiseste sacrifício e oferenda. Tu, porém, formaste-Me um corpo. Holocausto e sacrifício pelo pecado não foram do Teu agrado. Por isso Eu digo: Eis-Me aqui! Eu vim, ó Deus, para fazer a Tua vontade!” (Hb 10,5-7). O Filho eterno fez-Se homem para gastar toda a Sua vida fazendo a vontade do Pai. E esta vontade é salvar a humanidade, dando-lhe a Vida eterna (cf. Jo 6,37-39). Assim, Jesus foi derramando Sua vida, num amor infinito ao Pai por nós: na pobreza de Belém, na existência miúda de Nazaré, nas andanças pelas estradas da Galileia, nas curas, ensinamentos, nas contradições, nas noites inteiras em oração ao Pai... Jesus foi Se dando, gastando-Se, como uma vida vivida para Deus em benefício da humanidade. Esta doação de toda uma existência, chegou ao máximo na Cruz. O sangue que Ele iria derramar até a morte nada mais é que o símbolo de uma vida – a vida do Filho de Deus feito homem – entregue em favor da humanidade!
O sangue derramado significa, então, a vida dada amorosamente em nosso favor, como vítima de reparação pelo nosso pecado. Porque o homem pecou e caiu numa triste situação de perdição, de desencontro, desaprumo e morte, o Filho de Deus deu Sua vida até a morte para da morte nos arrancar: Isto é o Meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado por muitos para a remissão dos pecados” (Mt 26,28). Cristo Jesus, dando Sua vida em total obediência amorosa ao Pai por nós, apaga o nosso pecado, restitui-nos a Vida como comunhão com Deus e faz de nós um povo nascido de uma Nova Aliança com Deus no Seu sangue. Dizer que o sangue de Cristo nos salva é dizer com Sua vida dada em obediência amorosa ao Pai nos alcançou a salvação: “Eis que Eu vim, ó Deus, para fazer a Tua vontade. – é graças a esta vontade que nós somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo” (Hb 10,8.10).

Olhar o sangue de Jesus, ser banhado no sangue de Jesus, beber o sangue de Jesus, significa unir-se a Jesus, à Sua vida dada, derramada, entregue, fazendo da nossa vida uma participação na Sua entrega de toda a existência ao Pai. Por isso mesmo são Pedro que nós participamos da “bênção da aspersão do Seu sangue” (1Pd 1,2).

Então, olhemos o Cristo que Se gastou, que Se derramou amorosamente a vida toda até a Cruz; sejamos-Lhe gratos porque Seu sangue, Sua vida derramado por amor nos salvou.
Como cristãos, somos unidos a Ele pelo Batismo e a Eucaristia, para fazer de nossa vida uma entrega com Ele, por Ele e como Ele. Assim, viveremos uma vida nova já agora, vida liberta da morte e que será ressurreição para a Vida eterna. “Àquele que nos ama, e que nos lavou de nossos pecados com o Seu sangue, e fez de nós uma Realeza e Sacerdotes para Deus, Seu Pai, a Ele pertencem a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém. (Ap 1,5s).


sábado, 30 de junho de 2018

Homilia para a Solenidade de São Pedro e São Paulo Apóstolos

Hoje, celebramos o glorioso martírio dos santos Apóstolos Pedro e Paulo, aqueles “santos que, vivendo neste mundo, plantaram a Igreja, regando-a com seu sangue. Beberam do cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus”.
Pedro, aquele a quem o Senhor constituiu como fundamento da unidade visível da Sua Igreja e a quem, misteriosamente, concedeu as chaves do Reino! Pensai: conceder as chaves do Reino! Palavras misteriosas...
Paulo, chamado para ser Apóstolo de um modo único e especial, por pura iniciativa surpreendente do Senhor Ressuscitado, que é único dono da Sua Igreja, e chama quem quer e como quer... Este Apóstolo tornou-se o Doutor das nações pagãs, levando o Evangelho aos povos que viviam nas trevas.
Um pela cruz e o outro pela espada, deram o testemunho perfeito de Cristo, derramando seu sangue e entregando a vida em Roma, Pedro, por volta do ano 64; Paulo, pelo ano  67 da nossa era.

Caríssimos, esta Solenidade hodierna dá-nos a oportunidade para algumas ponderações importantes.

Primeiro: A Igreja é apostólica. Esta é uma sua propriedade essencial. João, no Apocalipse, vê a Jerusalém celeste fundada sobre doze alicerces com os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro (cf. 21,14).
Eis: a Igreja não pode ser fundada por ninguém, a não ser pelo próprio Senhor, que a estabeleceu sobre o testemunho daqueles Doze primeiros que Ele mesmo escolheu. Seu alicerce, portanto, sua origem, seu fundamento são o ministério e a pregação apostólicas que, na força do Espírito Santo, deverão perdurar até o fim dos tempos graças à sucessão apostólica dos Bispos católicos, transmitida na Ordenação episcopal sob a potente atividade do Santo Espírito do Cristo ressuscitado, Senhor único da Igreja.
Dizer que nossa fé é apostólica significa crer firmemente que a fé não pode ser inventada, não pode ser mutilada nem adulterada, nem tampouco deixada ao bel-prazer das modas de cada época; crer que a Igreja tem como fundamento os Apóstolos significa afirmar que não somos nós, mas o Cristo no Espírito Santo, Quem pastoreia e santifica a Igreja pelo ministério dos legítimos sucessores dos Apóstolos.
O critério daquilo que cremos, a regra da nossa adesão ao Senhor Jesus, a norma da nossa fé e até mesmo a certeza sobre a relação dos autênticos livros da Bíblia, é aquilo que recebemos dos santos Apóstolos uma vez para sempre (cf. Jd 3). Só a eles e aos seus legítimos sucessores o Senhor confiou a Sua Igreja, concedendo-lhes a autoridade com a unção do Espírito para desempenharem o ofício de guiar o Seu rebanho pelos séculos afora.
Olhemos, irmãos amados, para Pedro e Paulo e renovemos nosso firme propósito de nos manter alicerçados na fé católica e apostólica que eles plantaram juntamente com os demais discípulos do Senhor. Hoje, quando surgem tantas comunidades cristãs que se auto-intitulam “igrejas” e se auto-denominam “apostólicas”, estejamos atentos para não perder a comunhão com a verdadeira fé, transmitida de modo ininterrupto e fiel na única Igreja de Cristo, santa, católica e apostólica.

Um segundo aspecto importante, caríssimos, é o significado de ser apóstolo: ele não é somente aquele que prega Jesus, mas, sobretudo, alguém que, escolhido pelo Senhor, com Ele conviveu, Nele viveu e, por Ele, entregou sua vida. Os apóstolos testemunharam Jesus não somente com a palavra, mas também com o modo de viver e com a própria morte. Por isso mesmo, a celebração anual do seu martírio é uma festa para a Igreja, pois é o selo de tudo quanto anunciaram. O próprio São Paulo reconhecia: “Não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor. Trazemos, porém, este tesouro em vasos de argila para que esse incomparável poder seja de Deus e não nosso. Incessantemente trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo. Assim, a morte trabalha em nós; a vida, porém, em vós” (2Cor 4,5.7.10.12).
Eis o sinal do verdadeiro Apóstolo: dar a vida pelo rebanho, com Jesus e como Jesus, gastando-se, morrendo, para que os irmãos vivam no Senhor! Por isso, caríssimos meus, a alegria da Igreja na Festa de hoje: Pedro e Paulo não só falaram, não só viveram, mas também morreram pelo seu Senhor; e já sabemos pelo próprio Cristo-Deus que não há maior prova de amor que dá a vida por quem amamos! Bem-aventurado é Pedro, bendito é Paulo, que amaram tanto o Senhor a ponto de darem a vida por Ele! Nisto, são um exemplo, um modelo, uma norma de vida para todos nós. Aprendamos com eles!

Um terceiro aspecto que hoje podemos considerar é a ação fecunda da graça de Cristo na vida dos Seus servos. O exemplo de Pedro, o exemplo de Paulo servem muito bem para nós. Vede: o Senhor chama quem Ele quer, de modo misterioso e soberano!
Quem era Simão, chamado Pedro? Um pescador sincero, mas rude, impulsivo e de temperamento movediço. No entanto, foi fiel à graça, e tornou-se Pedra sólida da Igreja, tão apegado ao seu Senhor, a ponto de exclamar, cheio de tímida humildade: “Senhor Tu sabes tudo; Tu sabes que Te amo” (Jo 21,17).
Quem era Saulo de Tarso, chamado Paulo? Um douto, mas teimoso e radical fariseu, inimigo de Cristo. Tendo sido fiel à graça, tornou-se o grande Apóstolo de Jesus Cristo, tão apaixonado pelo seu Senhor, a ponto de nos desafiar: “Sede meus imitadores como eu sou de Cristo!” (1Cor 11,1)
Eis, caros meus, abramo-nos também nós à graça que o Senhor nos concede para a edificação da Sua obra, para a construção do Seu Reino, e digamos como São Paulo: “Pela graça de Deus sou o que sou, e Sua graça em mim não foi em vão” (1Cor 15,10).

Ainda um derradeiro aspecto, amados no Senhor. Nesta hodierna Solenidade somos chamados a refletir sobre o ministério de Pedro na Igreja.
Simão por natureza, foi feito Pedro pela graça. Pedro quer dizer pedra. Eis, portanto, Simão Pedra: “Tu és Pedro e sobre esta Pedra Eu edificarei a minha Igreja. Eu te darei as chaves do Reino” (Mt 16,16ss).
Caríssimos, o ministério petrino é mais que a pessoa de Pedro ou deste outro aquele papa. Seu serviço será sempre o de confirmar os irmãos na fé da Igreja católica, que é a fé em Cristo, Filho do Deus vivo, mantendo, assim, a Igreja unida na verdadeira fé apostólica e na unidade católica. É este o ministério que até o fim dos tempos, por vontade do Senhor, estará presente na Igreja na pessoa do Sucessor de Pedro, o Bispo de Roma, a quem chamamos carinhosamente de Papa, pai.
compreendamos bem: o Papa não é dono da Igreja, não está acima da Igreja, não é um monarca e muito menos um monarca absoluto! Ele não pode fazer na Igreja aquilo que bem queira e entenda! Ele é o Pastor supremo da Igreja de Cristo porque somente a ele o Senhor entregou de modo supremo o Seu rebanho. Mas, atenção: o que o Senhor entregou de modo especial a Pedro (cf. Mt 16,18-20), entregou também aos demais Apóstolos (cf. Mt 18,18)! É totalmente errado pensar Pedro sem os demais apóstolos, pensar o Papa sem o Colégio dos Bispos! Pedro no meio dos Apóstolos e princípio da comunhão entre eles; o Papa no meio dos Bispos e princípio da comunhão entre eles, sempre a serviço da fé católica e apostólica; nunca acima dela!
No entanto, repitamos: aquilo que Cristo nosso Senhor entregou aos Doze e a seus sucessores, os Bispos, entregou de modo especial a Pedro e a seus sucessores, o Papa, Bispo de Roma, que é a Igreja diocesana de Pedro: “Tu Me amas mais que estes? Apascenta as Minhas ovelhas!” (Jo 21,15).
Estejamos atentos, caríssimos: nossa obediência, nossa adesão, nosso respeito, nossa veneração pelo Santo Padre não é por motivos humanos: porque o achamos simpático, sábio, ou de pensamento igual ao nosso; não é porque ele nunca erra ou se engana…
Nosso respeito ao Sucessor de Pedro é na fé, porque se trata daquele a quem o Senhor confiou a missão de confirmar os irmãos. O Papa deve ser o primeiro guardião da fé católica, o primeiro a fazer o possível para conservar os fieis de Cristo unidos na fé e nos vínculos da caridade!  Antes de ser pastor da Igreja, é filho da Igreja, membro da Igreja! Nossa certeza de que ele nos guia em nome de Cristo vem da promessa do próprio Senhor: “Simão, Simão, eis que Satanás pediu insistentemente para vos peneirar como trigo; Eu, porém, orei por ti, a fim de que a tua fé não desfaleça. Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos” (Lc 22,31-32). Somente deixando-se guiar pela oração de Cristo, sua fé não desfalecerá! Porque temos certeza da eficácia da oração de Jesus nosso Senhor por Pedro e seus sucessores, é que confiamos que, mesmo nas difiuldades e incertezas dos dias que correm, o Senhor não abandonará a Sua Igreja!

Assim, rezemos hoje pelo Papa, Sucessor de Pedro. E acompanhemos nossa oração com um gesto concreto: a esmola, o óbolo de São Pedro, aquela contribuição que no dia de hoje os católicos do mundo inteiro devem dar para as obras de caridade do Papa por todo o mundo. Assim, com as mãos e com o coração rezemos pelo Santo Padre: Que o Senhor nosso Deus que o escolheu para o Episcopado na Igreja de Roma, o ilumine à frente da Sua Igreja, governando o Povo de Deus, de modo que o povo cristão a ele confiado possa sempre mais crescer na fé e nos vínculos da comunhão na caridade de Cristo. Amém.