domingo, 24 de maio de 2015

Solenidade de Pentecostes: a Igreja imersa no Espírito do Ressuscitado

At 2,1-11
Sl 103
1Cor 12,3b-7.12-13
Jo 20,19-23

A Igreja conclui hoje o Tempo Pascal com a Solenidade de Pentecostes. Não poderia ser diferente, pois o Espírito Santo é o fruto da paixão morte e ressurreição do Senhor Jesus.

Ele morreu entregando na cruz o Espírito e, no mesmo Espírito, foi ressuscitado pelo Pai. Agora, plenificado por esse Espírito, derramou-O e derrama-O sobre a Igreja e sobre toda a criação.

Vejamos alguns aspectos da ação do Espírito.

(1) Primeiramente, por ser Espírito do Cristo, Ele nos une ao Senhor Jesus, dando-nos a Sua própria Vida, como a cabeça dá vida ao corpo e o tronco dá vida aos ramos. É no Espírito que Cristo habita realmente em nós desde o nosso batismo, e faz crescer Sua presença em nós em cada Eucaristia, quando comungamos o Corpo e o Sangue daquele Senhor, que é pleno do Espírito.

Só no Espírito podemos dizer que Cristo permanece em nós e nós permanecemos Nele; só no Espírito podemos dizer que já não somos nós que vivemos, mas Cristo vive em nós, com Seus sentimentos, Suas atitudes e sua entrega ao Pai. Por isso, somente no Santo Espírito nossa vida pode ser vida em Cristo, vida de santidade.

(2) Mas, o Espírito, além de agir em cada cristão, age na Comunidade como um todo, edificando a Igreja, fazendo-a sempre Corpo de Cristo. Antes de tudo, Ele vivifica a Igreja com a Vida do Ressuscitado, incorporando sempre nela novos membros, fazendo-a crescer mais na plenitude de Cristo. Depois, Ele suscita incontáveis ministérios, carismas e dons, desde os mais simples, como até aqueles mais vistosos ou mais estáveis, como os ministérios ordenados: os Bispos, padres e diáconos. É o Espírito que mantém esta variedade em harmonia e unidade, para que tudo e todos contribuam para a edificação do Corpo de Cristo, que é a Igreja.

Assim, é no Espírito que surge e ressurge sempre a vida religiosa, com tantos carismas diferentes, é no Espírito que os mártires testemunham Cristo até a morte, é no Espírito que se exerce a caridade, se visita os enfermos, se consola os sofredores, se aconselha, se socorre os pobres, se prega o Evangelho... Enfim, é no Espírito que a Igreja vive, cresce e respira!

(3) É no Espírito que os santos sacramentos são celebrados com eficácia, pois que o Espírito é a própria energia, a própria graça, a própria força de vida e ressurreição que o Cristo recebe do Pai e derrama sobre a Igreja. Sendo assim, é no Espírito que a Igreja é continuamente edificada e renovada, até a Vida eterna.

(4) É no Espírito que os cristãos podem rezar, proclamando do fundo do coração que Jesus é Senhor e que Deus é nosso Pai de verdade. Somente porque temos o Espírito recebido no Batismo é que somos realmente filhos de Deus, já que recebemos o Espírito do Filho que clama em nós “Abbá” – Pai. O Espírito une a nossa oração à oração de Jesus, dando-lhe valor e eficácia e colocando-nos na Vida da própria Trindade Santa. Sem o Espírito, não poderíamos chamar a Deus de Pai, sem o Espírito nossa oração não seria a de Jesus e nosso louvor, nossa adoração e nossa intercessão não estariam unidas e inseridas na própria união de Jesus com o Pai.

(5) É o Espírito quem recorda sempre à Igreja a verdade do Evangelho, conduzindo-a sempre mais adiante no conhecimento de Cristo. Por isso, assistida pelo Espírito da Verdade, a Igreja jamais pode errar na sua profissão de fé; jamais pode afastar-se da verdade católica que recebeu dos apóstolos. Assim, somente no Espírito é que cremos com fé certa na fé da Igreja!

(6) É ainda no Espírito que a Igreja, ansiosa, olha para a frente, para o futuro e, inquieta, clama que o Esposo venha logo para consumar todas as coisas. Por isso, na força do Espírito, a Igreja deverá ser sempre fiel a cada época, sem saudosismos nem medos, construindo com humildade o Reino de Deus, até que venha o seu Esposo e leve tudo à consumação. É no Espírito que os cristãos devem viver como profetas do Reino que está por vir, denunciando com doçura e vigor tudo quanto se oponha à manifestação desse Reino. No Espírito, a Igreja anunciará sempre o Evangelho, superando todo medo de falar de modo novo a constante e imutável verdade do Evangelho, que interpela, transforma e converte o coração.

(7) Mas, o Espírito não está restrito à Igreja. Ele enche, impregna e renova o universo e toda a humanidade. Onde menos esperamos, onde ainda não chegamos, lá já podemos encontrar a ação do Espírito do Senhor, que cai cristificando toda a humanidade e todas as coisas.

(8) É o Espírito que vai, com força e discrição, guiando a história humana para a plenitude de Cristo, e isto por mais que, tantas vezes, o mundo pareça perdido e sem rumo, em meio a guerras, injustiças, hipocrisias, violências, tristezas e mortes. Cabe aos cristãos, saberem discernir e interpretar os sinais dos tempos, que o Santo Espírito faz brotar por toda parte, tendo ouvidos para ouvir o que o Ele diz à Igreja.

(9) Finalmente, é no Espírito, que um dia, no Dia de Cristo, quando Ele, nossa vida, aparecer em Glória, tudo será glorificado, a história será passada a limpo, a criação inteira será transfigurada, o pecado será destruído para sempre, a Morte será vencida e nossos corpos mortais ressuscitarão, transfigurados como o corpo do Cristo Jesus ressuscitado. Então, plena do Espírito, toda criação será plenamente corpo de Cristo. O Ressuscitado será Cabeça dessa nova criação e entregará tudo ao Pai, para que o Pai, pelo Filho, no Espírito, seja tudo em todas as coisas.

É esta a nossa esperança, a nossa certeza e a plenitude da nossa salvação. É esta realidade estupenda que se iniciou com o dom do Espírito, celebrado na festa de hoje.

Só nos resta implorar novamente o que cantamos antes do “aleluia”:


“Espírito de Deus,/ enviai dos céus/ um raio de luz!
Vinde, Pai dos pobres,/ dai aos corações/ Vossos sete dons.
Consolo que acalma,/ Hóspede da alma,/ doce Alívio, vinde!
No labor, Descanso,/ na aflição, Remanso, / no calor, Aragem.

Enchei, Luz bendita,/ Chama que crepita,/ o íntimo de nós.
Sem a Luz que acode,/ nada o homem pode,/ nenhum bem há nele.
Ao sujo lavai,/ ao seco regai,/ curai o doente.
Dobrai o que é duro,/ guiai-nos no escuro, o frio aquecei.

Daí à vossa Igreja,/ que espera e deseja,/ vossos sete dons.
Dai em prêmio ao forte/ uma santa morte,/ alegria eterna./ Amém.

domingo, 10 de maio de 2015

VI Domingo da Páscoa: O Amor que é Espírito

At 10,25-26.34-35.44-48
Sl 97
1Jo 4,7-10
Jo 15,9-17

Para bem compreender esta Palavra de Deus que nos é dada neste Domingo VI da Páscoa, é necessário recordar o Evangelho do Domingo passado.

Encontramo-nos ainda no capítulo 15 de São João: aí Jesus revelou-Se como a Videira verdadeira, cujo agricultor é o Pai e cujos ramos somos nós.

Eis, caríssimos: estamos enxertados no Cristo morto e ressuscitados; somos ramos Seus, vivendo da Sua seiva que é o Espírito Santo, “Senhor que dá a Vida”, Espírito de amor derramado em nossos corações. Porque temos o Espírito do Cristo, vivemos do Cristo e, no Espírito, o próprio Cristo Jesus habita em nós e nos vivifica. Recordando essas coisas, podemos compreender o que o Senhor nos fala neste hoje. Vejamos, então!

“Como o Pai Me amou, assim também Eu vos amei. Permanecei no Meu amor”.

De que amor o Senhor nos fala aqui? De um sentimento, de um afeto, de uma simpatia, de uma amizade? Não!

De que amor? Escutemos São Paulo: “O amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito que nos foi dado” (Rm 5,5). O amor de que fala Jesus é o amor-caridade, o amor de Deus, o amor que é fruto da presença do Espírito de Amor, o Espírito Santo!

Colocai isso na cabeça e no coração: na Escritura, falar de Amor, de Glória, de Presença e de Poder de Deus é falar do Espírito Santo!

Pois, podemos agora compreender a profunda afirmação de Jesus: “Como o Pai Me amou, assim também Eu vos amei”.

Como o Pai amou o Filho? No Espírito de amor! Desde a eternidade, o Santo Espírito é o laço, o vínculo de amor que une o Pai e o Filho numa única e indissolúvel Divindade.

Na Sua vida humana, Jesus foi sempre amado pelo Pai no Santo Espírito. Basta recordar quando o Pai derrama sobre Ele o Espírito, o Jordão, exclamando: “Este é o Meu Filho amado, em Quem Eu Me comprazo” (Mt 3,17). Eis: o Pai declara o Seu infinito amor pelo Filho, derramando sobre Ele, feito homem, Seu Espírito de amor! Jesus é o Filho amado porque Nele repousa o Amor-Deus Espírito Santo!

Pois bem, escutemos: “Como o Pai Me amou no Espírito, Eu também vos amei! Dei-vos o Meu Espírito de Amor, que agora habita em vós! Permanecei no Meu Amor, isto é, deixai-vos guiar pelo Meu Espírito, vivei no Meu Espírito!” Vede, irmãos, como agora tudo tem sentido, como as palavras de Jesus são profundas! Vede como tudo isso é verdadeiro! Escutai ainda uma palavra da Escritura: “Nisto reconhecemos que permanecemos Nele e Ele em nós: Ele nos deu o Seu Espírito!” (1Jo 4,13).

E qual é o sinal que temos e vivemos no Espírito? Que frutos esse Espírito de Amor, permanecendo em nós, nos dá?

O primeiro é cumprir os mandamentos: “Se guardardes os Meus mandamentos, é porque permanecereis no Meu amor”. É experimentando o amor de Jesus, vivendo na doçura do Seu Espírito, que podemos compreender a sabedoria dos preceitos do Evangelho e teremos a força e a doçura para cumpri-los. Como o mundo não conhece nem tem o Espírito Santo de amor, não pode compreender nem gostar dos preceitos do Senhor! Por isso esse tão grande choque entre o que a Igreja propõe em nome de Cristo para a nossa vida moral e aquilo que o mundo propõe! Aborto, eutanásia, uso de preservativos, divórcio, relações pré-matrimoniais, relações homossexuais, riqueza, prazer, etc...

Caríssimos, há um abismo entre o sentir do mundo e o sentir do cristão. Somente o cristão, sustentado pelo Santo Espírito de Amor, pode compreender que os mandamentos do Senhor não são pesados, mesmo quando nos parecem difíceis! É o Espírito de Jesus que, habitando em nós, faz-nos permanecer em Jesus e ter prazer e força no cumprimento da Sua santa vontade.

Mas, há ainda outro fruto, outro sinal da presença do Espírito em nós: a alegria interior, mesmo em meio a dificuldades, lutas e provações da vida. Escutai: “Eu vos disse isso, para que a Minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”. Onde o Espírito de Jesus ressuscitado está presente, a alegria triunfa, porque a morte, a treva, o pecado foram vencidos. Por isso mesmo, o cristão, ainda que entre provações e dificuldades, poderá sempre manter uma profunda alegria interior – a alegria pascal, fruto da presença do Santo Espírito!

Ainda um último sinal dessa doce presença do Espírito do Ressuscitado em nós: o amor fraterno. “Este é o Meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei!” Jesus nos amou até entregar toda a Sua vida por nós, como remissão pelos nossos pecados. Pois bem, ao nos dar o Seu Espírito de amor, Ele nos dá as condições e a graça para amar assim, como Ele. Isso é tão forte, que a segunda leitura de hoje nos desafia: “Quem não ama, não chegou a conhecer a Deus, porque Deus é amor. Todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus”.

Ainda uma vez mais, meus caros, é no Espírito de Amor que podemos nascer de Deus no Batismo, é no Espírito de Amor que podemos conhecer a Deus como Pai e a Jesus como o Filho amado!

É o Espírito de Amor que nos reúne, apesar de sermos tão diferentes! Recordai-vos, caríssimos, da primeira leitura: como o Espírito, descendo sobre a família de Cornélio, que era toda pagã, fez com que Pedro, o Chefe da Igreja, aceitasse os primeiros pagãos na Comunidade cristã!

Caríssimos, a Palavra de Deus hoje escutada já nos aponta para Pentecostes, daqui a quinze dias... Prestai atenção como o fruto da morte e ressurreição de Jesus é o Dom do Seu Espírito, que permanece conosco e torna Jesus presente a nós, vivo e vivificante!

Estejamos atentos, meus caros: todos temos o mesmo Espírito de amor e no amor que é esse Espírito devemos viver. A Igreja não é uma comunidade de amiguinhos simpáticos entre si; não é a reunião de pessoas interessantes e bem relacionadas! Nada disso! Somos a Comunidade reunida em Nome de Cristo morto e ressuscitado, nascidos no Batismo no Seu Espírito Santo, Espírito que nos faz amar a Jesus e, por Jesus, amarmo-nos uns aos outros. Assim sendo, sejamos dóceis ao Espírito, permaneçamos em Cristo e arrisquemos viver de amor. Que no-lo conceda Aquele que, à Direita do Pai, deu-nos o Espírito e intercede por nós. Amém.

domingo, 3 de maio de 2015

V Domingo da Páscoa: ramos de uma Videira

At 9,26-31
Sl 21
1Jo 3,18-24
Jo 15,1-8

No passado Domingo escutamos o Senhor Jesus, Vencedor da morte, Autor da Vida, que nos revelava com doçura e profundidade: “Eu sou o Bom Pastor” (Jo 10,11).

Hoje, novamente, voltamos nosso olhar para o Senhor, imolado por nós e, por nós, ressuscitado; escutemo-Lo mais uma vez; de novo Ele nos diz, como o Deus Santo no Antigo Testamento, “Eu Sou”!

Eis a Sua palavra hoje: “Eu sou a videira verdadeira e Meu Pai é o agricultor!”

Caríssimos, para compreender esta palavra de Jesus é necessário recordar o povo de Israel, a vinha eleita de Deus, vinha que o Senhor arrancou do Egito e plantou na terra santa; vinha que o Senhor cercou de cuidados e de carinho; vinha que, no entanto, não deu os frutos esperados! 

Escutemos as queixas do Senhor pela boca do Profeta Isaías: “Que Me restava fazer à Minha vinha que Eu não tenha feito? Por que, quando Eu esperava que ela desse uvas boas, deu apenas uvas azedas? Agora vos farei saber o que vou fazer da Minha vinha! Arrancarei a sua cerca para que sirva de pasto, derrubarei seu muro para que seja pisada... A vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel; e os homens de Judá são a sua plantação preciosa. Deles esperava o direito, mas o que produziram foi transgressão; esperava a justiça, mas o que apareceu foram gritos de desespero” (Is 5,4-5.7).

Israel foi a vinha infiel. Pois bem, agora surge Aquele que é o Israel verdadeiro, a verdadeira videira que dá o bom fruto, o fruto doce da obediência ao Pai até a morte e morte de cruz! Eis, meus caros: Jesus é o Israel fidelíssimo, a verdadeira vinha plantada pelo Pai. Na obediência e na fidelidade, Ele deu fruto de Vida eterna. O salmo de meditação da Missa de hoje, um trecho do Salmo 21, aquele mesmo que Jesus rezou na cruz e que começa com a súplica “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” – este Salmo recorda bem o preço da obediência do nosso Senhor...

- Jesus amado, Tu és a Vinha verdadeira! Na obediência ao Teu Pai, divino Agricultor, deste para nós fruto de Vida eterna. Morreste, mas estás vivo para sempre! Bendito sejas Tu! A Ti a glória!

Caríssimos, essa Videira viva e verdadeira, plena do Santo Espírito, que é a Vida do Pai, nos vivifica. Foi por nós que Jesus, a Videira, morreu; foi por nossa causa que Ele ressuscitou! Escutemo-Lo ainda: Todo ramo que em Mim não dá fruto o Pai o corta; e todo ramo que dá fruto, Ele o limpa, para que dê mais fruto ainda. Permaneci em Mim e Eu permanecerei em vós. Como não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira e vós sois os ramos”.

Eis, amados irmãos, fomos enxertados na videira verdadeira: em Jesus, somos a Igreja, o novo Israel, a vinha eleita do Senhor. Somo-lo, porque, pelo Batismo, fomos enxertados em Cristo e, agora, vivemos da Sua seiva bendita, que é o Santo Espírito.

São João nos disse na segunda leitura, que sabemos que Deus permanece conosco e nós Nele porque temos o Seu Espírito... Que realidade bela e misteriosa: estamos unidos a Cristo de verdade, de verdade vivemos a Sua Vida nova, Vida que Ele adquiriu na ressurreição. O que o Senhor espera de nós? Que não sejamos como o povo da Antiga Aliança, que produziu uvas azedas! O Senhor espera de nós frutos doces; doces da doçura do Cristo que, por nosso amor, fez-Se obediente até a morte e morte de cruz!

Que devemos fazer para produzir frutos no Senhor?

São João nos diz na segunda leitura que o fruto que podemos produzir é crer no Filho amado e nos amar uns aos outros, como Ele nos mandou.

Caríssimos, compreendamos que ser cristão é viver enxertados em Cristo e nos tornarmos ramos da mesma Videira.

Podemos dizer a mesma coisa de outro modo, usando as palavras de São Paulo: Cristo é a Cabeça, nós somos os membros do Corpo que é a Igreja. Os membros vivem da vida da Cabeça como os ramos vivem da seiva que brota do tronco.

Compreendeis, irmãos? A Igreja não é simplesmente a soma dos crentes... Não somos nós que fazemos a Igreja... Ela nasce de Cristo, ela nos é anterior; e nós, pela graça de Deus, somos nela enxertados pelo Batismo e a Eucaristia.

Ser cristão é ser Igreja; e ser Igreja é estar profundamente unido a Cristo e, em Cristo, unidos uns aos outros.

Nunca esqueçamos: vivemos a mesma Vida, nutrimo-nos da mesma seiva: esta Vida, esta Seiva é o Santo Espírito do Ressuscitado!

Fora de Cristo, que fruto daríamos?

Separados do tronco, fora da videira, como permaneceríamos vivos da vida divina? Como poderíamos produzir frutos de Vida eterna?

É permanecendo em Cristo, cabeça e tronco da Igreja, que viveremos da Sua Energia, da Sua Seiva, isto é, do Seu Espírito Santo.

Mas, isso não nos livra das dificuldades. Desde os inícios, a vida dos cristãos é marcada por provações interiores e exteriores; desde as origens há dificuldades mesmo entre os irmãos na fé. Recordai, caríssimos, a situação da primeira leitura de hoje: a desconfiança da comunidade em relação a São Paulo... Então: tribulações exteriores, tribulações interiores; momentos de dor, momentos de escuridão...

Onde está Cristo? Não é ele a videira? Nele não estamos seguros?

Sim! Mas, não seguros de seguranças humanas! Jesus nos previne no Evangelho de hoje para as podas da vida, podas que o Pai consente, para que demos fruto de Vida eterna, fruto de uma Vida totalmente enxertada em Cristo e, com Cristo, em Deus: “Todo ramo que em Mim não dá fruto o Pai o corta; e todo ramo que dá fruto, Ele o limpa, para que dê mais fruto ainda”. Eis, caros: batizados em Cristo, Nele permaneçamos enxertados; alimentemo-nos da Sua seiva na Eucaristia; suportemos com absoluta confiança Nele as podas e purificações da vida... Se o fizermos, produziremos verdadeiro fruto, fruto de Vida eterna. Amém.

domingo, 26 de abril de 2015

IV Domingo da Páscoa: O Bom Pastor

At 4,8-12
Sl 117
1Jo 3,1-2
Jo 10,11-18

Este Quarto Domingo da Páscoa é conhecido como Domingo do Bom Pastor, pois nele se lê sempre um trecho do capítulo 10 de São João, onde Jesus Se revela como o Bom Pastor.

Mas, o que isso tem a ver com o tempo litúrgico que ora estamos vivendo? A resposta, curta e graciosa, encontra-se na antífona de comunhão que o Missal Romano traz: “Ressuscitou o Bom Pastor, que deu a vida pelas ovelhas e quis morrer pelo rebanho!” Aqui está tudo!

“Eu sou o bom pastor” – disse Jesus. O adjetivo grego usado para “bom” significa mais que bom: é belo, perfeito, pleno, bom. Jesus é, portanto, o Pastor por excelência, aquele pastor que o próprio Deus sempre foi. Pela boca de Ezequiel profeta, Deus tinha prometido que Ele próprio apascentaria o Seu rebanho: “Eu mesmo cuidarei do Meu rebanho e o procurarei. Eu mesmo apascentarei o Meu rebanho, Eu mesmo lhe darei repouso” (34,11.15).

Pois bem: Jesus apresenta-Se como o próprio Deus pastor do Seu povo!

Mas, por que Ele é o Belo, o Perfeito, o Pleno Pastor?

Escutemo-Lo, caríssimos: O Bom pastor dá a vida por Suas ovelhas. É por isso que o Pai Me ama: porque dou a Minha vida, para depois recebê-la novamente. Ninguém tira a Minha vida; Eu a dou por Mim mesmo! Tenho o poder de entregá-la e o poder de retomá-la novamente; esse é o preceito que recebi do Meu Pai”.

Amados irmãos, são palavras de intensidade inexaurível, essas!

Jesus é o pastor perfeito porque é capaz de dar a vida pelas ovelhas: Ele as conhece, ou seja, é íntimo delas, as ama, e está disposto a dar-Se totalmente pelo rebanho, por nós! E, mesmo na dor, faz isso livremente, em obediência amorosa à vontade do Pai por nós!

Por amor, morre pelo rebanho; por amor ressuscita para nos ressuscitar!

Nós jamais poderemos compreender totalmente este mistério! Jesus diz que conhece Suas ovelhas como o Pai O conhece e Ele conhece o Pai!

É impossível penetrar em tão grande mistério! Conhecer, na Bíblia, quer dizer, ter uma intimidade profunda, uma total comunhão de vida. A comunhão de vida entre o Pai e o Filho é total, é plena. Pois bem, Jesus diz que essa mesma comunhão Ele tem com Suas ovelhas. E é verdade!

No Batismo, deu-nos o Seu Espírito Santo, que é Sua própria Vida de ressurreição;

na Eucaristia, dá-Se totalmente a nós, morto e ressuscitado, pleno desse mesmo Espírito, como Vida da nossa vida!

De tal modo é a união, de tal grandeza é a comunhão, de tal profundidade é a intimidade, que Ele está em nós e nós estamos mergulhados, enxertados e incorporados Nele!

De tal modo, que somos uma só coisa com Ele, seja na vida seja na morte!

De tal sorte Ele nos deu o Seu Espírito de Filho, que São João afirma na segunda leitura de hoje: “Somos chamados filhos de Deus. E nós o somos!”

Compreendamos, irmãos: somos filhos de verdade, não só figurativamente!

Somos filhos porque temos em nós a mesma Vida, o mesmo Espírito Santo que agora plenifica o Filho ressuscitado!

E São João continua, provocante: “Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai!” Ou seja: se, para o mundo, nós somos apenas uns tolos, uns nada, se o mundo não consegue compreender essa maravilhosa realidade – que somos filhos de Deus – é porque também não experimentou, não conheceu que Deus é o Pai de Jesus, o Filho eterno, o Bom Pastor, que nos faz filhos como Ele é o Filho único, agora tornado primogênito de muitos irmãos!

Mas, a Palavra de Deus nos consola e anima: “Quando Jesus Se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como Ele é!” Este é o destino da humanidade, este é o nosso destino: ser como Jesus ressuscitado, trazer Sua Imagem bendita, participar eternamente da Sua Glória! Para isso Deus nos criou desde o princípio! Não chegar a ser como Jesus ressuscitado, não ressuscitar com Ele – nesta vida já pelos sacramentos, e na outra, na plenitude da Glória – é frustrar-se. E isso vale para todo ser humano, pois “em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos!” Por isso mesmo, Jesus afirma hoje, pensando nos não-cristãos: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil. Também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor!”

Caríssimos, voltemos o nosso olhar para Aquele que foi entregue por nós e por nós ressuscitou. Olhemos seu lado aberto, suas mãos chagadas. Quanto nos ama, quanto se deu a nós! Agora, escutemo-lo dizer: “”Eu sou o bom pastor! Eu conheço as minhas ovelhas! Eu dou a minha vida pelas ovelhas!” Num mundo de tantas vozes, sigamos a voz de Jesus! Num mundo de tantas pastagens venenosas, deixemo-nos que o Senhor nos conduza às pastagens verdadeiras, que nos dão vida plena e sacia nosso coração! Num mundo que nos tenta seduzir com tantos amores, amemos de todo coração Aquele que nos amou e por nós se entregou ao Pai!

Hoje é também jornada mundial de oração pelas vocações sacerdotais. Peçamos ao Senhor, Bom Pastor, que dê à Igreja e ao mundo pastores segundo o Seu Coração, pastores que, Nele e com Ele, estejam dispostos a fazer da vida uma total entrega pelo rebanho! Pastores que tenham sempre presente qual a única e imprescindível condição para pastorear o rebanho do Bom Pastor: “Simão, tu Me amas? Apascenta as Minhas ovelhas!” (Jo 21,15s). Eis a condição: amar o Pastor! Quem não é apaixonado por Jesus não pode ser pastor do Seu rebanho!

Não se trata de competência, de eficiência, de vedetismo ou brilhantismo; trata-se de amor! Se tu amas, então apascenta! Como dizia Santo Agostinho, “apascentar é ofício de quem ama”.

Que o Senhor nos dê os pastores que sejam viva imagem Dele; que Cristo nos faça verdadeiras ovelhas do Seu rebanho. Amém.

sábado, 11 de abril de 2015

Domingo da Oitava da Páscoa - In albis

At 4,32-35
Sl 117
1Jo 5,1-6
Jo 20,19-31

Há oito dias atrás, no primeiro dia após o Sábado dos judeus, ao anoitecer, Jesus ressuscitado entrou onde estavam os discípulos e lhes disse: “A paz esteja convosco!”

Há oito dias, no Dia da Ressurreição, o nosso Jesus, Vencedor da morte, enviado pelo Pai no Espírito Santo, soprou esse mesmo Espírito sobre Seus discípulos, Sua Igreja, e disse: “Como o Pai Me enviou, também Eu vos envio. Recebei o Espírito Santo!”

Há oito dias atrás, Tomé, teimoso e incrédulo, afirmou peremptoriamente: “Se eu não vir as marcas dos pregos e não puser a mão no Seu lado, não acreditarei!”

Todas essas coisas que ouvimos no Evangelho deste hoje, ocorreram no Domingo de Páscoa, no Dia da Ressurreição, há precisamente uma semana.

Hoje é a Oitava da Festa pascal, o Domingo seguinte.

E como no Domingo passado, também hoje, neste Domingo, o Senhor vem ao encontro dos Seus discípulos e coloca-Se no meio deles.

Será sempre assim: a cada oito dias os cristãos reunidos experimentarão na Palavra proclamada e no Sacrifício eucarístico celebrado, a presença real, viva e atuante Daquele que ressuscitou e caminha conosco, ou melhor, caminha à nossa frente.

E como Tomé, nós, a cada Domingo, admirados, exclamamos: “Meu Senhor e meu Deus!” E queremos, emocionados, ouvi-Lo novamente dizer a nossa respeito: “Acreditaste porque Me viste, Tomé. Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” Bem-aventurados nós, caríssimos meus em Cristo, nós de 21 séculos depois! Bem-aventurados nós que firmemente cremos no Senhor e participamos do Seu Sacrifício eucarístico, ainda que não tenhamos visto o Senhor com os olhos da carne!

São Pedro, quase que fazendo eco às palavras do nosso Salvador, exclama, a nosso respeito também: “A Ele, embora não O tenhais visto, amais; Nele, apesar de não O terdes visto, mas crendo, vos rejubilais com alegria inefável e gloriosa, pois que alcançais o fim da vossa fé, a saber, a salvação das vossas almas!” (1Pd 1,8s)

Eis precisamente aqui a mensagem deste Domingo da Oitava: fazer-nos conscientes do nosso encontro, da nossa comunhão real, íntima, transformante, com o Senhor ressuscitado!

Este encontro que ocorre de modo mais intenso a cada Domingo na Eucaristia – e, por isso mesmo, faltar à Missa dominical é excluir-se da Comunidade dos discípulos, é “ex-comungar-se”, é colocar-se fora da Comunhão com o Ressuscitado e com aqueles aos quais Ele chama de “Meus irmãos”...

Este encontro, que ocorre de modo mais intenso a cada Domingo na Eucaristia, não começou aqui no Sacrifício da Missa; iniciou-se no nosso Batismo, quando recebemos, no símbolo da água, o Espírito Santo do Ressuscitado, passando a viver Nele que, no Seu Espírito, veio realmente viver em nós!

Três misteriosas palavras da Missa de hoje exprimem este mistério. Ei-los:

(1) A palavra da segunda leitura: o Autor sagrado afirma que quem crê em Jesus nasceu de Deus e vive uma vida de amor aos irmãos.

Quem crê em Jesus, diz ele, vence o mundo, vence o pecado, vence a tragédia de uma vida sem sentido, distraída apenas com eventos, futilidades e distraçõezinhas do mundo.

Eis as suas palavras: “Quem é o vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” E, então, acrescenta de modo belo, forte, surpreendente e misterioso: “Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo. Não veio somente com a água, mas com a água e o sangue. E o Espírito é que dá testemunho, porque o Espírito é a Verdade”.

Caríssimos, que palavras impressionantes! Se nossos irmãos protestantes as compreendessem pediam imediatamente a comunhão com a Igreja de Cristo, nossa Mãe católica e apostólica!

Aqui o Autor sagrado está falando do Batismo e da Eucaristia. Vence o mundo quem crê em Jesus; não num Jesus do passado, mas num Jesus que está vivo e na força do Espírito Santo, o Espírito da Verdade, que Ele derramou sobre nós, vem ao nosso encontro, habita em nosso íntimo.

Como? Pelos sacramentos! É nos sacramentos que recebemos o Espírito Santo, é nos sacramentos que o Senhor entra em comunhão conosco e nós com Ele. Ele vem continuamente, vivo e vivificador pela água do Batismo e o Sangue da Eucaristia!

Nos santos sacramentos, nós experimentamos Jesus, recebemos a Vida de Jesus e podemos testemunhar ao mundo que Jesus está vivo e atuante!

Que realidade tão misteriosa; que graça tão grande: Jesus é o que vem sempre à sua Igreja na água e no sangue; e ambos nos dão o Espírito Santo de Jesus!


(2) A segunda palavra desta liturgia é da oração inicial da Missa deste Domingo.

Aí, a Igreja nos ensinou a pedir ao Pai que compreendêssemos melhor

“o Batismo que nos lavou,
o Espírito que nos deu nova vida
e o sangue que nos redimiu”.


Mais uma vez o Batismo e a Eucaristia que, dando-nos o Espírito de Jesus, nos colocam em comunhão íntima com Ele.

Compreendei: o que a Palavra anuncia e promete, os sacramentos realizam e cumprem! Nos sacramentos – sobretudo nos dois principais: Batismo e Eucaristia – é-nos dada a Vida que Jesus nos adquiriu com Sua morte e ressurreição; e esta Vida divina, eterna, transformadora, divinizante, é o próprio Espírito Santo que nos configura a Cristo, Cordeiro imolado e ressuscitado!


(3) Finalmente, as palavras da Entrada da Missa de hoje, como aparecem no Missal, a chamada Antífona de Entrada” tirada da Primeira Epístola de são Pedro: “Como crianças recém-nascidas, desejai o puro leite espiritual para crescerdes na salvação! (2,2).

A Igreja pensa nos que foram batizados na Vigília Pascal, nossos irmãozinhos em Cristo, criancinhas no Senhor. Que recebendo a cada Domingo a Eucaristia, puro alimento espiritual, possam – eles e nós – crescer na salvação.

Aliás, nestes dias da Oitava, a Igreja, nas suas orações litúrgicas, sempre tinha o pensamento voltado para esses recém-nascidos, esses “neófitos”, que foram gerados na pia batismal, útero bendito da Mãe católica, na santa Vigília Pascal. Nos primórdios da nossa fé, os renascidos em Cristo passavam estes oito dias vestidos de branco e hoje, precisamente, após a Missa, depunham a veste alva, a veste batismal! Daí chamar-se este Domingo da Oitava de “in albis”: o Domingo nas vestes brancas, o Domingo dos que foram alvejados nas águas batismais!

Rezemos hoje para que todos os neófitos sejam fieis ao Cristo que os chamou, guardem fielmente a santíssima fé católica e apostólica, sem esmorecerem, sem se acovardarem, sem fazer concessões ao mundo e ao Diabo!

Rezemos também por nós mesmos, já há tempos batizados: que tomemos consciência renovada da graça de ser cristãos e, com o puro leite espiritual da Palavra e da Eucaristia, cresçamos sempre mais na salvação que o Senhor Jesus nos conquistou e nos ofereceu!

Portanto, caríssimos, se vivemos mergulhados nesse mistério tão grande, que é a real e íntima comunhão com o Senhor ressuscitado, se experimentamos Sua força e Sua graça nos sacramentos, se Nele, Vencedor da morte, somos criaturas nova, então vivamos de modo novo! E não somente de modo individual, mas como Comunidade dos salvos e redimidos por Cristo.

Vede, irmãos meus, o exemplo descrito na Primeira leitura, a Igreja católica de Jerusalém, logo após a Ressurreição e o Dom do Espírito: nós éramos “um só coração e uma só alma”, sabíamos repartir amor e bens, colocando a vida em comum, e toda a nossa vida comunitária era uma clara proclamação da novidade, da alegria e da esperança de quem sabia e vivia a Ressurreição do Senhor.

Dois mil anos após, não damos mais a impressão de um bando de discípulos sonolentos e cansados? Não parecemos mais uns conformados e desanimados, mornos pelo peso do tempo? Nossa vida, será que não exprime mais comodismo e falta de fé, que aquela feliz exultação de quem tem sempre Jesus diante dos olhos?

Sabeis o motivo disso, meus caros? Falta de comunhão viva com o Senhor na Sua Palavra, na oração e, sobretudo, nos sacramentos!

Muitos de nós temos uma fé fria, formal, burocrática, teórica. Não é a ideia, mas o amor que dá sentido e gosto à vida!

Caros meus, aprendamos a nos reaproximar de Jesus! Ele está vivo aqui, na Palavra, na Eucaristia, nos irmãos, na vida! Se aprendermos a vê-Lo, mais uma vez, cheios de pasmos, exclamaremos como o duro Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!”

Que Ele, Cordeiro imolado, Redivivo para sempre, no-lo conceda por Sua graça. Amém.

sábado, 4 de abril de 2015

O Grande Sábado do Grande Silêncio

Este, Sábado Santo, é um dia de silêncio.

A Igreja recorda, de modo reverente e adorante, a Descida do Salvador à Mansão dos Mortos, ao Sheol, como o chamavam os judeus.

Jesus não somente inclinou a cabeça e entregou o Espírito. Ele realmente morreu, isto é, entrou no estado de morte, de total passividade, de dissolução do seu ser: corpo e alma separaram-se:

o corpo, num estado de cadáver,
a Sua alma humana, na situação de todos os que morriam antes do Salvador nos abrir o Céu: alma presa na morte, separada misteriosamente do corpo, sem participar da plena comunhão com Deus, que é o nosso desejo e plenitude últimas.

O Sábado Santo deve ser feito de silêncio, de séria meditação.
Como pode a Vida morrer? Como pode o Senhor ser tragado pela morte?
Ele morreu realmente, como nós: morte que amedronta, que maltrata, que tem sempre gosto amargo...
Na morte, Ele foi nada, fez-Se solidário com nossa derrota, com nossa situação de exilados da Face de Deus! O Filho hoje desceu ao exílio do Sheol por solidariedade para conosco, exilados...

Por isso mesmo, o cristão sabe que não morre sozinho: morre com Cristo, morre da morte que Cristo morreu!

Mas, atenção: a morte de que estou falando não é simples morte física: é morte como distanciamento do Deus vivo e, por isso mesmo, ameaça do Nada, do Vazio, do Absurdo, do Inferno!

O Filho do Deus vivo experimentou isto por amor de nós!

O Sábado Santo nos aponta para o mistério da capacidade do homem de "matar Deus"!
Não é esta a tremenda realidade da nossa cultura atual? O homem está sistematicamente eliminando Deus do seu horizonte: dos seus amores, dos seus negócios, das suas instituições, das suas escolhas, da sua vida...
Como as tremendas e blasfemas palavras de Nietzsche: "Deus morreu; nós O matamos!" São tão reais nestes tempos sem Deus! Mas, quando o homem mata Deus, ele próprio morre, atolado numa existência besta, vazio, sem lá grande sentido!

Sábado Santo, de silêncio, pudor diante da Morte...

Sábado Santo da ameaça do escândalo! Como pode Deus, o Vivente, o Fiel, o Poderoso, deixar que o Seu Filho e Servo caísse assim nas garras da Morte? Por que não O socorreu? Por que não O defendeu? Por que calou-Se, de braços cruzados? Por acaso Ele é o Inexistente, o Impotente? Será Ele - o Santo, o que É - como os ídolos, que têm boca, mas não falam, têm olhos, mas não vêm, têm braços, mas não agem para salvar?

Por que Se cala quando mais Dele precisamos?
Por que não salva quando Lhe gritamos?
Por que permite que o mal triunfe,
que os tiranos e ímpios levem a melhor?
Silêncio! Nada de resposta!
Deus, o que Se cala quase sempre!
Calou-Se hoje: no Sábado, no túmulo, na Morte!

Sábado Santo, de esperança de Domingo, de certeza de que não permanecerá na Morte Quem Se confiou ao Deus Vivente!
Fica, neste Sábado, a promessa, o sussurro, a ameaça, a garantia: "Ó Morte, Eu serei a Tua morte! Ó Inferno, Eu serei o teu aguilhão!" (Liturgia do Sábado Santo, citando Os 13,14 na tradução da Vulgata)

Retiro Quaresmal: Do Sábado Santo para o Domingo da Ressurreição