Temas relacionados à fé católica. Opiniões e análises sempre a partir de uma perspectiva de visão cristã.
segunda-feira, 16 de março de 2015
Retiro quaresmal - terça-feira da IV semana
Hoje, é um Padre do Deserto, daqueles primeiros ascetas cristãos, quem orientará o nosso caminho quaresmal. Trata-se de São Doroteu de Gaza, na Palestina do séc. IV, sempre muito atento em observar e descrever os movimentos interiores do coração humano. Eis suas palavras:
"Pensai num círculo traçado no chão, isto é, numa linha feita com um compasso, a partir de um centro; ao meio do círculo chama-se justamente centro. Aplicai o vosso espírito ao que vos digo.
Imaginai que este círculo é o mundo, que o centro é Deus, e os raios são as diferentes vias ou maneiras de viver dos homens.
Quando os santos, desejando aproximar-se de Deus, se dirigem para o meio do círculo, na medida em que penetram no seu interior, aproximam-se uns dos outros ao mesmo tempo que se aproximam de Deus. Quanto mais se aproximam de Deus, mais se aproximam uns dos outros; e, quanto mais se aproximam uns dos outros, mais se aproximam de Deus.
E compreendeis que o mesmo acontece em sentido inverso, quando as pessoas se afastam de Deus para se retirar para o exterior; é então evidente que, quanto mais se afastam de Deus, mais se afastam uns dos outros, e, quanto mais se afastam uns dos outros, mais se afastam também de Deus.
Tal é a natureza da caridade. Na medida em que estamos no exterior e não amamos a Deus, nessa medida, distanciamo-nos do próximo. Mas, se amamos a Deus, quanto mais nos aproximamos Dele pela caridade, tanto mais comunicamos a caridade ao próximo; e, quanto mais unidos estamos ao próximo, mais unidos estamos a Deus".
Palavras simples, diretas e práticas. Aliás, todos os santos doutores cristãos ensinam isto: a união com o Senhor Deus e a comunhão com os irmãos caminham sempre juntas; são diretamente proporcionais.
Um amor ao próximo simplesmente pelo próximo tem pernas curtas e não vai à fonte do amor nem dela brota, permanecendo sempre um amor de meio de caminho.
Pergunte-se hoje pela qualidade de sua relação com os demais:
Brota da raiz do amor a Deus?
Dá-se no interior do amor a Deus?
É motivada pelo amor de Deus?
Seu amor a Deus impulsiona-o em direção aos irmãos?
O fato de ser amigo de Deus faz de você alguém aberto e benigno, generoso e solícito em relação aos demais?
Pense nestas coisas...
Leia e medite 1Cor 13. É a oração que eu proponho para hoje...
E recorde: esse amor-caridade é o próprio Espírito do Senhor imolado e ressuscitado em nós, pois "o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito que nos foi dado" (Rm 5,5).
Retiro quaresmal - segunda-feira da IV semana
Meditemos hoje sobre a oração.
O Senhor no-lá indica: “rezar sempre, e nunca desistir”, rezar perseverantemente, sem jamais desfalecer, diz o Evangelho! E aqui se trata, de modo especial, do mais escandaloso de todos os tipos de oração para o mundo atual, tão autossuficiente: a oração de súplica; aquela que somente tem coragem de fazer quem é pobre e sabe que depende de Deus em tudo; somente tem coragem de fazê-la quem crê realmente que Deus Se preocupa é Se ocupa com Suas criaturas e, de verdade, age neste mundo, age, presente na nossa vida tão pequena...
Eis: a oração de súplica é coisa de gente simples, de gente que tem coração de criança, que tem fé humilde e atitude de pobre diante de Deus; é coisa de quem não tem vergonha de pedir, de teimar, de insistir! Bem que Jesus disse que somente os simples, somente os que têm um coração de criança podem compreende os segredos do Reino!
Eu lhe digo: a oração de súplica é tropeço para os sábios segundo a carne, para os inteligentes do mundo, para os não abrem sua razão ao infinito de Deus!
Talvez você já tenha ouvido aqueles que, cheios de si, dizem assim: “Na minha oração, eu nunca peço, só agradeço!"
Pois é! São soberbos, são autossuficientes, não se conhecem, não percebem a miséria, a limitação, a debilidade da humana natureza, que necessita continuamente do socorro do Senhor, Daquele que nos ordenou expressamente: “Pedi e vos será dado! Procurai e encontrareis! Batei e a porta vos será aberta! Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que Lhe pedirem!” (Mt 7,7.11)
Sim, caro! É necessário pedir ao Senhor, e pedir com a insistência da viúva pobre e necessitada do Evangelho, com a persistência de Moisés, que passou todo o dia com as mãos erguidas, como Cristo na cruz, suplicando a vitória para Israel!
Mas, talvez, você pergunte, curioso: “Por que pedir, se o Senhor já sabe do que temos necessidade? E por que ainda pedir com insistência se já suplicando uma vez, Ele decide o que fazer, Ele que tudo sabe eternamente, Ele que não muda? Pode o homem mudar a vontade de Deus, alterar o desígnio do Altíssimo?”
Obedeçamos, irmãos caríssimos! O Senhor, no Seu insondável mistério, sabe por que nos manda pedir e insistir no pedido!
No entanto, mesmo nós, na nossa pouca sabedoria, podemos perceber um pouco a necessidade absoluta de suplicar. Penei um momento:
Suplicando, reconhecemos que somos totalmente dependentes e tudo nos vem do Senhor, Daquele que dá a vitória e a derrota, que faz o rico e faz o pobre, que fere e cura a ferida, que faz morrer e faz viver!
Suplicando, vamos aprendendo a confiar Nele, a Nele esperar e, assim, vamos experimentando a Sua presença real na nossa vida e vamos crescendo no nosso amor para com Ele.
Suplicando com insistência, vamos desenvolvendo a certeza de que Ele nos escuta, de que nos envolve com Sua presença e nos socorrerá na nossa necessidade.
Ainda mais: de tanto suplicar e teimar na súplica, nos vamos abandonando aos Seus tempos misteriosos, à Sua vontade que nos ultrapassa, aos Seus modos que nos desconcertam e, então, vamos interiormente nos dispondo a acolher o que Ele quer, a aceitar a Sua santa vontade, ainda que não seja a nossa nem na medida das nossas expectativas humanas.
Sim! Bom amigo de Deus não é o que só aceita o que pediu, mas aquele que, pedindo com perseverança e amor confiante, acolhe o que o Senhor concede, tendo a firme convicção – nascida da oração teimosa – de que o Senhor nos dá o que é melhor para nós, ainda que muitas vezes não o compreendamos bem!
Por isso a misteriosa palavra do nosso Salvador no Evangelho: “Deus não fará justiça aos Seus escolhidos, que dia e noite gritam por Ele? Será que vai fazê-los esperar? Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa!”
Palavra espantosa! Jesus não somente afirma que Deus nos escuta e vem em nosso socorro, mas também que vem bem depressa!
E nós pensamos: “Mas isto não acontece assim! Quanta oração fiz que não foi ouvida! Quanta oração demorada na resposta! Não é a própria Escritura Santa que nos diz: “Suporta as demoras de Deus, agarra-te a Ele e não O largues”? (Eclo 2,3)
O Senhor nos ouve sim, o Senhor vem logo em nosso socorro sim, o Senhor Se compadece do que a Ele suplica! Mas, os tempos de Deus não são os nossos, a pedagogia do Senhor nos ultrapassa, a ação do Senhor não pode ser totalmente alcançada por nós: Ele é Deus; nós, pó que o vento leva! Por isso mesmo, a misteriosíssima pergunta de Jesus: “Quando o Filho do Homem vier, encontrará fé sobre a terra?” Eis: O Senhor nos ouve, o Senhor Se compadece de nós – Ele nos deu tudo no Seu Filho por nós morto e ressuscitado! Como ainda nos seria possível duvidar Dele?
Ele vem em nosso socorro, mas no Seu tempo, do Seu modo, segundo o Seu sábio e misterioso desígnio! Mas, encontrará fé em nós? Saberemos reconhecê-Lo? Sei eu, sabeis vós, sabemos nós reconhecer o Senhor nas Suas vindas? Ele vem na alegria e vem também na tristeza; no sorriso, ei-Lo aqui, mas também é Ele ainda no pranto; é Ele na vitória e ainda é Ele na derrota; é Ele presente no nosso nascer e no nosso morrer! E isto nos escapa, como o Salmista exclama, admirado e perplexo: “Como são profundos para mim Teus pensamentos, como é grande seu número, ó Deus! Se os conto, são mais que a areia, se acho que terminei, ainda estou Contigo!” (Sl 138/139,17s).
Sejamos pobres diante do Senhor Deus! Sejamos humildes! Oremos sempre, oremos suplicando, oremos com um coração confiante, oremos sem desfalecer, oremos esperando contra toda esperança, oremos na certeza de que o Senhor nos ouve e no acode, do Seu modo, no Seu tempo, para o nosso bem, segundo o Seu misterioso desígnio!
Para o homem soberbo tudo isto é tolice; para o autossuficiente e o racionalista, tudo isto é loucura sem sentido!
Cuidado! Tomemos seriamente o conselho do santo Apóstolo a Timóteo: “Permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como verdade! Conheces as Sagradas Escrituras: elas têm o poder de te comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus!”
Eis aqui! Esta é a diferença entre crer e não crer: o verdadeiro crente tem a coragem ousada de abrir-se à lógica de Deus, de por Ele deixar-se conduzir; o descrente, ao invés, deseja medir a ação de Deus e compreendê-la e abarcá-la na medida da sua lógica, na estreiteza de sua própria racionalidade!
Creiamos, irmão; rezemos, irmão; com perseverança supliquemos, irmão, com inteira confiança esperemos, elevando as mãos como Moisés e os olhos como o Salmista, certos de que “do Senhor é que nos vem o socorro, do Senhor que fez o céu e fez a terra, pois não dorme nem cochila o Guarda de Israel!” Seja Ele sempre bendito na Igreja e no nosso coração!
Reze o Salmo 4
Brasil! 15 de março de 2015
Hoje tivemos um dia histórico para o Brasil. Os brasileiros foram às ruas simplesmente para demonstrar sua insatisfação com a onda de corrupção que envolve figuras ligadas ao atual grupo que governa o País.
Quem diz que isto é golpe, não sabe o que é uma democracia! Os cidadãos têm sim o pleno direito e o dever de manifestar sua opinião, de cobrar dos governantes honestidade, eficiência e compromisso ético.
Quanto ao impedimento da Presidente da República, qualquer cidadão tem o direito de exprimir sua opinião. É possível o impedimento de algum presidente? Claro que sim, desde que seja no marco constitucional. Falar em impedimento não é golpe, é discussão democrática. Não é terceiro turno, é manifestação de que algo de importante não está bem! Quem pode negar isto no Brasil atual? As dezenas de bilhões roubados ao povo brasileiro só na Petrobras gritam isto!
Também é preciso cuidado com aqueles que, de má fé, querem fazer contraposição entre ricos e pobres, negros e brancos! Não se trata disso e todos sabem - mesmo se alguns, por má fé ideológica, não admitem! Trata-se simplesmente de indignação contra o verdadeiro assalto aos cofres públicos, ao conjunto de medidas erradas que levou a economia brasileira à situação de crise em que nos encontramos.
Numa verdadeira democracia, o poder pertence ao povo. Contudo, não deve ser exercido diretamente, pois seria esta a arma para os populismos e demagogias totalitárias de tipo bolivariano, mas deve ser exercido através dos representantes legitimamente eleitos. Todos esses eleitos podem ser retirados do poder, se não honrarem seus mandatos, desde que pelas vias constitucionais. Em outras palavras: sim à democracia representativa; não à democracia direta!
O que mais? Ainda que alguns peçam a intervenção militar, esta solução é totalmente equivocada, porque fora do marco constitucional. Seria uma armadilha, que terminaria numa ditadura... Cabe aos civis governar, como cabe a eles, dentro do preceito constitucional, resolver os impasses que surjam na vida política do País! Penso ser mais que claro que a totalidade dos manifestantes não defende esta solução militar - nem mesmo os militares, se forem espertos! Aliás, em qualquer tempo em que um presidente seja afastado ou se afaste do seu cargo, cabe unicamente ao vice-presidente assumir. É só.
Uma última coisa: a presidência da CNBB não se colocou contra as manifestações. Avalia-as legítimas. Somente chamou atenção para que não se vá logo falando em impedimento da Presidente, pois isto poderia destruir a segurança legal e constitucional, bem como a estabilidade política do País. Cabe ao Congresso analisar esta situação das condições para um impedimento, de acordo com a força dos apelos da sociedade. Em todo caso, cada um, inclusive os católicos, tem direito de pensar como julgar melhor...
É só. O resto é apelo ideológico, alguns deles realmente deploráveis pela pouca seriedade e profundidade... Vê-se que a mentalidade realmente democrática ainda está longe das sociedades latino-americanas, incluindo o Brasil!
No mais, parabéns aos brasileiros pelo dia de hoje! A sociedade como um todo se manifestou! Cabe ao Governo ouvir, fazer um seríssimo exame de consciência e mudar o que ainda dá para ser mudado. Cabe também à Oposição ser verdadeiramente oposição. Numa eleição, elege-se o governo e a oposição. Que o governo governe e a oposição critique, fiscalize, proponha alternativas e denuncie! Quanto ao mais, é esperar que a Polícia Federal e o Poder Judiciário façam a parte que lhes cabe na investigação e punição dos culpados...
Deus proteja o Brasil! Deus abençoe os brasileiros todos!
sexta-feira, 13 de março de 2015
Retiro quaresmal - sábado da III semana
"Assim fala o Senhor: “Dei esta ordem ao povo dizendo: Ouvi a Minha voz, assim serei o vosso Deus, e vós sereis o Meu povo; e segui adiante por todo o caminho que Eu vos indicar para serdes felizes.
Mas eles não ouviram e não prestaram atenção; ao contrário, seguindo as más inclinações do coração, andaram para trás e não para a frente, desde o dia em que seus pais saíram do Egito até o dia de hoje. A todos enviei Meus servos, os profetas, e enviei-os cada dia, começando bem cedo; mas não ouviram e não prestaram atenção; ao contrário, obstinaram-se no erro, procedendo ainda pior que seus pais. Se falares todas essas coisas, eles não te escutarão, e, se os chamares, não te darão resposta. Dirás, então: Esta é a nação que não escutou a voz do Senhor, seu Deus, e não aceitou correção. Sua fé morreu, foi arrancada de sua boca” (Jr 7,23-28).
Continuemos hoje a meditação de ontem.
Vimos como o Senhor continuamente se dirigiu a Israel e dirige-Se a nós, Sua Igreja, seu novo Israel... Dirige-Se a cada um de nós, membros dessa Igreja...
Ainda hoje Ele nos envia profetas: aqueles que, destintos modos e em tantas ocasiões nos falam, nos apelam em Nome do Senhor.
É o caso de pensar neste sábado: o que o Senhor me tem dito por estes tempos? Que profeta ou quais profetas me tem enviado? Que mensagem me tem dirigido por palavras ou acontecimentos na minha vida? Tenho sabido discernir a voz do Senhor Deus? Tenho escutado? Tenho sido dócil? Pense com cuidado e espírito de fé! Ah, se crêssemos de verdade! Ah, se tivéssemos um coração capaz de escutar, de perceber! Não escutarão, não darão resposta... Eis o comportamento de Israel, eis a queixa do Eterno! Isto, será que não vale também para nós, para mim, para você?
Particularmente triste, nesta passagem, é a conclusão dessa atitude de fechamento: "Sua fé morreu, foi arrancada de sua boca!"
A fé, se não é alimentada, esfria, definha e morre de inanição... Atenção, Irmão, que a fé deve ser sempre alimentada
com a escuta da Palavra de Deus nas Escrituras,
com a escuta da Palavra de Deus na exposição com autoridade que a Igreja faz da divina Revelação através do seu ensinamento dogmático,
com o esforço sincero, fadigoso, humilde e constante de viver verdadeiramente os preceitos do Senhor tais quais a santa Igreja ensinou no seu constante e perene magistério,
com a frequente e piedosa e humilde participação na celebração dos santos mistérios, isto é, dos sacramentos, que são potentes e definitivos gestos salvíficos de Cristo,
com a oração constante, humilde, perseverante e piedosa, mesmo nos momentos de secura, dispersão, escuridão ou confusão interior, suportando pacientemente os tremendos silêncios de Deus,
com a procura de servir o Senhor no serviço multiforme aos irmãos.
"Sua fé morreu" e, porque a fé morreu, "foi arrancada deverá boca", isto é, ainda que professe a fé, ainda que a proclame, que a pregue, é uma palavra vazia, morta, que não mais é cheia do Espírito vivificante.
Pergunte-se:
Sou realmente uma pessoa de fé? Atenção: fé no Senhor e na Sua Palavra, total confiança e entrega a Ele e Nele!
Procuro alimentar e robustecer minha fé? Que recursos utilizo para fortalecê-la?
Tenho colocado minha fé em risco com conversas, leituras pensamentos ou vídeos inconvenientes?
Reze o Salmo 115/116
Retiro quaresmal - sexta-feira da III semana
Retiro quaresmal - sexta-feira da III semana
"Assim fala o Senhor: “Dei esta ordem ao povo dizendo: Ouvi a Minha voz, assim serei o vosso Deus, e vós sereis o Meu povo; e segui adiante por todo o caminho que Eu vos indicar para serdes felizes.
Mas eles não ouviram e não prestaram atenção; ao contrário, seguindo as más inclinações do coração, andaram para trás e não para a frente, desde o dia em que seus pais saíram do Egito até o dia de hoje. A todos enviei Meus servos, os profetas, e enviei-os cada dia, começando bem cedo; mas não ouviram e não prestaram atenção; ao contrário, obstinaram-se no erro, procedendo ainda pior que seus pais. Se falares todas essas coisas, eles não te escutarão, e, se os chamares, não te darão resposta. Dirás, então: Esta é a nação que não escutou a voz do Senhor, seu Deus, e não aceitou correção. Sua fé morreu, foi arrancada de sua boca” (Jr 7,23-28).
Quão tristes, estas palavras do Profeta!
Meditemos hoje a partir delas, nesta sexta-feira de penitência.
1. Primeiramente, a atitude do Senhor: um Deus que Se preocupa com o Seu povo, que vem ao seu encontro e lhe dirige a Sua palavra, indica-lhe um caminho, um rumo na estrada da vida; um Deus que deseja caminhar com o Seu povo: Ouvi-Me, obedecei-Me e sereis felizes! Tereis verdadeiramente a vida!
Pense: o Senhor Deus continua a dirigir Sua palavra à Igreja e a você... Ele é um Deus vivo e vivificante, presente no mundo, atuante na nossa vida... Caminhar diante Dele, viver a vida em diálogo com Ele é viver de verdade.
2. Que resposta Israel dá ao Senhor? Que resposta eu e você damos? "Eles não ouviram e não prestaram atenção; ao contrário, seguindo as más inclinações do coração, andaram para trás e não para a frente!" Não ouvir: viver fechado em si, em seus pensamentos, em seu modo de ver, julgar, compreender... Viver como se Deus não existisse... Não prestar atenção: ter uma fé fria, sem real compromisso com o Senhor é Sua santa vontade, uma fé inútil, que não plasma realmente a vida. Seguir as más inclinações: o coração humano é quebrado, fragmentado em mil pensamentos e vontades contraditórias. Seguir um coração assim é viver à deriva, indo para trás, não para frente, pois quem caminha sem Deus ou contra Deus caminha para trás, afastando-se do sentido da vida.
3. Interessante que o Senhor sabe que Seu povo é duro, teimoso de coração e, mesmo assim, insiste em falar-lhe pelo Seu Profeta. O senhor ainda crê em nós, ainda espera pela sua e a minha conversão! Quem dera, nesta Quaresma iniciássemos realmente a mudança é o conserto de algum aspecto mais sério da nossa vida, algum aspecto em que estejamos sendo infiéis ao Senhor!
4. Finalmente, a trágica consequência do pecado, do fechamento teimoso ao Senhor: Ele Se cala, oculta-Se da nossa vida: já não é para nós e nós não somos para Ele. É o fim da aliança, da vida espiritual; é a Morte, aqui numa vida sem sentido nem rumo e, depois, num Inferno sem fim...
Reze o Salmo 1
quinta-feira, 12 de março de 2015
Retiro quaresmal - quinta-feira da III semana
“Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-O,
enquanto Ele está perto. Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas
maquinações; volte para o Senhor, que terá piedade dele, volte para nosso Deus,
que é generoso no perdão” (Is 55,6-7).
“Buscai o Senhor, invocai-O” – é o convite, a
exortação, o preceito da Escritura.
Trata-se, esta busca do Senhor, de uma atitude de vida, uma atitude que
empenha toda a existência humana, porque se busca o Senhor com o pensamento, se
busca com o afeto, se busca com as escolhas feitas no dia a dia, se busca com
as ações concretas. Busca-se o Senhor procurando a Sua santa vontade, busca-se
o Senhor quando se procura em tudo discernir Seus desígnios a nosso respeito.
Em outras palavras: busca-se o Senhor pela constante conversão a Ele.
E atenção, Amigo, para o sentido de conversão:
trata-se de viver a vida voltando-se, direcionando-se, dirigindo-se para Ele,
como seu foco, seu sentido, seu objetivo, sua plenitude.
Busca-se o Senhor procurando-O, invocando-O, pois Ele
não é óbvio! O nosso Deus não é uma realidade que seja palpável, que esteja ao
alcance das minhas mãos quando bem quero e entendo! Ele precisa ser procurado
com a vontade, com o amor, com o afeto, com a inteligência, com as obras, com
todo o nosso ser. Mas, atento: se temos o desejo de procurá-Lo é porque Ele já
colocou no nosso coração a sede de Si, o desejo profundo e irreprimível de
encontrá-Lo!
Pense um pouco: Como você vive a sua vida? Qual o foco
que a unifica? Para que ponto você se volta nas suas escolhas, no seu modo de
viver? “Buscai o Senhor!”
“Ele pode ser
achado, Ele está perto!” Esse Deus bendito, sede de nossa vida, que deve ser
procurado, invocado, está já perto, é Deus próximo de nós, até mesmo mais
íntimo de nós que nós mesmos! Ele pode ser achado!
As Escrituras Santas nos revelam um Deus sempre à
procura do homem, vindo a Ele para com eles conviver, um Deus benigno e bom,
que nos deseja como a amigos! No entanto, Ele não é manipulável, não é um Deus
que aceite suborno, não Se dá, não Se revela a quem não Lhe tem um coração reto
e não o busca com todo o ser. Deus é assim; dá-Se realmente a todo aquele que o
procura sinceramente e a Ele deseja se dar de todo o coração.
Portanto, atenção para a qualidade da sua relação com
o Senhor: uma vida de oração, um caminho religioso que não procura realmente e
em todos os aspectos converter-se ao Senhor, termina sendo falso e fictício.
Procurar o Senhor e encontrá-Lo exige que, decididamente, eliminemos tudo
quanto é contrário à Sua santa vontade. E atenção: não adianta dizer: “Estou
resolvido com minhas fraquezas e pecados: a partir de hoje declaro que não são
mais pecados! Pronto: estou em paz!” Não é verdade! Sua paz é a paz dos mortos,
a paz de uma consciência entorpecida! A paz nascida do sossego no pecado é paz
de morte! A paz que o Senhor concede, a paz de encontrá-Lo de verdade numa
relação viva com Ele é somente a paz da vitória sobre nós mesmos e nossos
vícios!
Pergunte-se pela qualidade de sua relação com o
Senhor: funda-se na verdade ou numa ficção arrumadinha de quem ajeitou seus
pecados na gaveta da própria consciência, chamando de bem e de normal ao que o
Senhor chama de mal e pecaminoso? Este é o mal de tantos e tantos e tantos no cristianismo
atual! Não será também o seu e o meu? Ai de nós!
Agora aparece claríssimo o apelo final do Profeta:
“Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações; volte para
o Senhor, que terá piedade dele, volte para nosso Deus, que é generoso no
perdão”. É para nós – para mim e para você – esta palavra: ímpio (sem piedade
para com o Senhor, frio, pouco generoso), injusto (não reto em relação ao
Senhor e sua vontade e em relação aos irmãos, sobretudo os que necessitam de
nós).
Quais os seus caminhos? Quais as maquinações, os
pensamentos, os raciocínios do seu coração: são realmente segundo o Senhor ou,
ao invés, segundo o mundo e segundo as próprias paixões do seu coração?
Reze os Salmos 35/36 e 36/37
quarta-feira, 11 de março de 2015
Retiro quaresmal - Quarta-feira da III semana
Hoje, gostaria de fazer com você uma meditação sobre o jejum, de modo especial, e a a abstinência dos alimentos, de modo geral.
Recorde que uma das características do tempo da Quaresma, é a penitência, sobretudo no comer e no beber. Tal penitência pode consistir numa simples abstinência, que é renúncia a algum alimento, ou pode chegar ao jejum, que consiste no privar-se das refeições de modo total ou parcial.
É muito importante a prática de tal forma de penitência. Aliás, eram o jejum e a abstinência que, na Igreja Antiga, davam uma fisionomia própria ao tempo quaresmal.
Mas, por que jejuar? Por que se abster de alimentos?
É necessário compreender o sentido profundo que o cristianismo dá a essas práticas, para não ficarmos numa atitude superficial, às vezes até folclórica ou, por ignorância pura e simples, desprezarmos algo tão belo e precioso no caminho espiritual do cristão.
O jejum e a abstinência têm quatro sentidos muito específicos e claros:
(1) O jejum nos ensina que somos radicalmente dependentes de Deus.
Na Escritura, a palavra nephesh significa, ao mesmo tempo, vida e garganta. A idéia que isso exprime é que nossa vida não vem de nós mesmos, não a damos a nós próprios; nós a recebemos continuamente: ela entra pela nossa garganta com o alimento que comemos, a água que bebemos, o ar que respiramos. Jamais o homem pode pensar que se basta a si mesmo, que pode se fechar para Deus. Quando jejuamos, sentimos uma certa fraqueza e lerdeza, às vezes, nos vem mesmo um pouco de tontura.
Isso faz parte da “psicologia do jejum”: recorda-nos o que somos sem esta vida que vem de fora, que nos é dada por Deus continuamente. A prática do jejum, impede-nos, então, da ilusão de pensar que a nossa existência, uma vez recebida, é autônoma, fechada, independente. Nunca poderemos dizer: “A vida é minha; faço como eu quero!” A vida será, sempre e em todas as suas etapas, um dom de Deus, um presente gratuito, e nós seremos sempre dependentes dele.
Esta dependência nos amadurece, nos liberta de nossos estreitos e mesquinhos horizontes, nos livra da auto-suficiência e nos faz compreender “na carne” nossa própria verdade, recordando-nos que a vida é para ser vivida em diálogo de amor com Aquele que no-la deu.
Pergunte-se:
Vivo minha existência diante de Deus, sempre consciente de que Ele é meu rochedo, minha fonte, meu destino, meu fim, o sentido da minha existência?
Sentir-me e saber-me dependente de Deus é, para mim, humilhação ou paz, revolta soberba ou obediência amorosa?
Poderia eu repetir com toda a verdade as palavras de Santa Teresa de Jesus: "Vossa sou, para Vós nasci; que quereis fazer de mim?(2) O alimento é uma de nossas necessidades básicas, um de nossos instintos mais fundamentais, juntamente com a sexualidade.
A abstenção do alimento nos exercita na disciplina, fortalecendo nossa força de vontade, aguçando nossa capacidade de vigilância, dando-nos a capacidade para uma verdadeira disciplina. Nossa tendência é ir atrás de nossos instintos, de nossas tendências, de nossa vontade desequilibrada. Aliás, essa é a grande fraqueza e o grande engano do mundo atual. Dizemos: “não vou me reprimir; não vou me frustrar”, e vamos nos escravizando aos desejos mais banais e às paixões mais contrárias ao Evangelho e ao amor pelo próximo.
O próprio Jesus, de modo particular, e a Escritura, de modo geral, nos exortam à vigilância e à sobriedade. O jejum e a abstinência, portanto, são um treino para que sejamos senhores de nós mesmos, de nossas paixões, desejos e vontades. Assim, seremos realmente livres para Cristo, sendo livres para realizar aquilo que é reto e desejável aos olhos de Deus! O próprio Jesus afirmou que quem comete pecado é escravo do pecado! Não adianta: sem o exercício da abstinência, jamais seremos fortes. Não basta malhar o corpo; é preciso malhar o coração!
Reflita:
Como vai sua vida ascética, de disciplina espiritual? Você tem um tempo para rezar, para meditar nas Escrituras?
Você organiza seu tempo: divertimento, sono, internet, etc...
Você leva a vida ou a vida leva você?
Você procura se conhecer? Quais são seus principais vícios (maus hábitos)? Combate-os?
(3) O jejum tem também a função de nos unir a Cristo, no Seu período de quarenta dias no deserto.
Quaresma de Cristo, quaresma do cristão.
Faz-nos, assim, participantes da paixão do Senhor, completando em nós o que faltou à cruz de Jesus.
O cristão jejua por amor a Cristo e para unir-se a Ele, trazendo na sua carne as marcas da cruz do Senhor.
É uma união com o Senhor que não envolve somente a alma, com seus sentimentos e afetos, mas também o corpo. É o homem todo, a pessoa na sua totalidade que se une ao Cristo.
Nunca é demais recordar que o cristianismo não é uma religião simplesmente da alma, mas atinge o homem em sua totalidade. Pelo jejum, também o corpo reza, também o corpo luta para colocar-se no âmbito da vida nova de Cristo Jesus. Também o corpo necessita, como o coração, ser esvaziado do vinagre dos vícios para ser preenchido pelo mel, que é o Espírito Santo de Jesus.
Pergunte-se:
Quem é o Senhor do seu corpo, dos seus instintos, da sua afetividade, da sua vida sexual?
Quem inspira os eu alimentar-se e o seu modo de vestir?
(4) Finalmente, o jejum e a abstinência, fazem-nos recordar aqueles que passam privação, sobretudo a fome, abrindo-nos para os irmãos necessitados.
Há tantos que, à força, pela gritante injustiça social em nosso País, jejuam e se abstêm todos os dias, o ano todo!
O jejum nos faz sentir um pouco a sua dor, tão concreta, tão real, tão dolorosa!
Por isso mesmo, na tradição mística e ascética da Igreja, o jejum e a abstinência devem ser acompanhados sempre pela esmola: aquele alimento do qual me privo, já não é mais meu, mas deve ser destinado ao pobre. É por isso que os pobres, ainda hoje, nos dias de jejum, pedem nas portas o “meu jejum”.
Eis o jejum perfeito: ele me abre para Deus e para os irmãos. Neste ponto, é enorme a insistência seja da Sagrada Escritura, seja dos Padres da Igreja (os santos doutores dos primeiros séculos do cristianismo).
Resta-nos, agora, passar da teoria à prática. Seja esta nossa quaresma rica do jejum e da abstinência, enriquecidos com o bem da caridade fraterna, da esmola, que se efetiva na atenção e preocupação ativa e concreta pelos pobres de todas as pobretas.
Pergunte-se:
Como é minha relação com os pobres das várias pobrezas do mundo?
Sei ir ao encontro dos necessitados? Partilho o que tenho em abundância, seja material seja espiritualmente?
Vejo nos irmãos, sobretudo nos pobres e necessitados, a presença de Cristo? Honro-os, ajudo-os, amo-os por amor a Cristo?
Reze o Salmo 49/50
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