segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Pensando em tempo de Advento...

Na Antiguidade, quando nasceu o cristianismo, vivíamos num mundo hostil:
Por um lado, os judeus, que nos tinham como hereges, perseguiam-nos e, nas suas dezoito bênçãos, nos amaldiçoavam: "Que não haja esperança para os apóstatas e que o reino do orgulho seja prontamente erradicado em nossos dias; os Nazarenos e os hereges morram subitamente, e sejam cancelados do livro dos vivos e não sejam contados no número dos justos. Bendito sejas Tu, ó Senhor, que abaixas os orgulhosos!"
Por outro lado, os pagãos, que nos acusavam de ateus, inimigos do Estado e da sociedade, depravados e molestadores de crianças...
Éramos minoria e tínhamos forte convicção de sermos estrangeiros e peregrinos neste mundo.
Não nos lamentávamos por isso, pois tínhamos firme a esperança e o desejo da Parusia do Senhor, da Sua Manifestação gloriosa que traria o Juízo e plenitude da salvação para os eleitos de Deus em Cristo. Seria, pois, a plenitude da obra salvífica iniciada com a Sua piedosa Vinda em nossa carne mortal...
Era comum, na Liturgia, ouvir-se a exclamação: Maran atha! Vem, Senhor! Ou Maranatha! O Senhor vem!
O tempo passou...
Constantino deu liberdade de culto aos cristãos....
Teodósio fez do cristianismo a religião oficial do Império Romano e ser cristão tornou- se moda...
Clóvis, Rei dos francos, recebeu o Batismo, abrindo as portas para a conversão em massa dos bárbaros ocidentais...
Carlos Magno tornou seu Império cristão: o Sacro Império Romano Germânico...
Nascia a cristandade: ser europeu, ser ocidental e ser cristão foram-se tornando sinônimos, algo natural, dado por descontado...
Os cristãos foram se sentindo sempre mais à vontade neste mundo, foram perdendo a expectativa, a ânsia pela Vinda gloriosa do Senhor... Fomos nos tornando protagonistas, sedentos sempre de dar a palavra final sobre os grandes temas... Sentíamo-nos - e nos sentimos ainda em grande parte - responsáveis pelos destinos do Ocidente! no fundo no fundo, como os romanos chamavam o Mar Mediterrâneo de "Mare Nostrum" (Nosso Mar), um pouquinho nós pensávamos - e muitos ainda pensam - no "Nosso Ocidente" e até o confundimos com o "Nosso Mundo"...
Numa situação assim, em que todos parecem cristãos, mas sem real conversão pesssoal, é tão perigoso achar que o pensamento e todos, canonizado pela sociedade, ou mesmo da maioria, é o pensamento do cristão... E não é!
Entre nós e Cristo haverá sempre o mistério da pobreza da Sua Encarnação, o doloroso escândalo da Sua Cruz, o Seu incômodo e antipático e exigente convite à conversão!
Somente aí, neste ponto de crise do nosso coração teimoso que encontra o Coração de Cristo, começa o verdadeiro cristianismo. Somente aí a Igreja pode se colocar e viver... É preciso recordar que, enquanto a história fluir como um rio, rumo ao mar da Eternidade, a Igreja será sempre neste mundo, mas nunca poderá ser deste mundo!
Hoje, o Senhor da História, o Alfa e Ômega da nossa vida e da vida do mundo, dá-nos novamente a graça de sermos minoria - e minoria perseguida ou, ao menos, ignorada ou antipatizada...
Hoje, mais uma vez, ser cristão exige conversão contínua, exige romper com o mundo, exige uma adesão clara ao Senhor! Não dá mais para se dizer cristão, para se pensar realmente católico pensando, falando, vivendo e agindo segundo os cânones imperantes na sociedade atual!
Ainda há muitos de nós que vivem a ilusão de um mundo todo cristão ou que o mundo nos vê com simpatia....
Esquecem-se esses da exigência da conversão, fazem de conta de que no meio do caminho não há a pobreza de Belém e o escândalo da Cruz, que o homem não é quebrado pelo pecado...
Na verdade, têm uma saudade louca de uma cristandade que nunca mais voltará, graças a Deus! Seremos sempre mais minoria: pobre, sem poder político, sem grandes influências no mundo... Mas com profunda identidade radicalmente firmada em Cristo Jesus e com serena e doce capacidade de diálogo, mas sem em nada ceder na Verdade de Cristo e no Seu amor exigente...
Eis o nosso futuro: seremos a Igreja das pequenas comunidades espalhadas por toda a terra "estrangeiros da Diáspora" (cf. 1Pd 1,1); mas Igreja convicta, serena e profundamente ciosa da sua identidade radicada em Cristo: Igreja dos diferentes na diferença de Cristo, que nos separou do mundo. Por outro lado, deveremos sempre ser a Igreja do diálogo com todo aquele que conosco desejar dialogar: sem impor a ninguém que não seja dos nossos, mas com a coragem de serenamente, com um tranquilo e convicto sorriso, propor, sem descontos, ocultamentos ou falsificações a inteira verdade de Cristo e Suas exigências, que prometem o Céu, a Vida Eterna!
Seremos cada vez mais uma Igreja com a consciência de peregrinos, de estrangeiros... Uma Igreja que novamente não terá vergonha de sentir saudade do Céu e de exclamar, sendenta, ansiosa, amorosa, pressurosa: Vem, vem com Tua luz, ó Senhor Jesus! Maran atua!

Amigo, que este tempo santo do Advento nos faça recordar estas coisas e desperte em nós esta saudade!

II Domingo do Advento: Ele vem para nós, os pobres

Is 40,1-5.9-11
Sl 84
2Pd 3,8-14
Mc 1,1-8

O tempo do Advento coloca-nos diante da miséria da humanidade, da pobreza e aperto da Igreja, da nossa própria miséria.
Pobre humanidade: por mais que se julgue autossuficiente, é tão insuficiente, por mais que deseje ser seu próprio deus, não passa de pó que o vento leva!
Pobre Igreja, tão santa pela santidade de Cristo, o Santo de Deus, mas tão envergonhada pelos pecados de seus filhos e até de seus pastores, que deveriam ser exemplo e orgulho do rebanho; tão difamada, tão vilipendiada, tão humilhada nos dias atuais!
Pobres de nós, que vivemos uma vida tão cheia de percalços e angústias, de lutas e lágrimas, de desafios que, às vezes, pararem mais fortes que nós!
Eis a humanidade! Como no passado, ainda hoje precisamos de um Salvador, como Israel que esperou, nós, Igreja de Cristo, suplicamos: Vem, Senhor! Manifesta o Teu poder! Que passe logo este mundo de tanta ambiguidade e provação; que venha a plenitude do Teu Reino, que venha o Teu Dia, que venha logo a plenitude da Tua graça!
É este o horizonte para contemplarmos a Palavra de Deus deste II Domingo do Advento.

No Missal romano, as palavras de entrada da Missa, tiradas do Profeta Isaías, já nos são de tanto consolo: “Povo de Sião – somos nós, meus irmãos, somos nós! – o Senhor vem para salvar as nações! E, na alegria do vosso coração, soará majestosa a Sua voz!” (Is 30,19.30).
Sim! O Senhor vem!
Aquele que nunca nos deixou e vem sempre nas pequenas coisas e ocasiões da vida, Ele mesmo virá, um dia, naquele Dia, no fulgor da Sua Glória: Ele, nossa justiça, Ele, nossa esperança, Ele, nosso Salvador!

Escutemos o Profeta, falando em nome de Deus! Escutemos as palavras que Ele manda dizer à Sua Igreja sofredora e humilhada, tentada pelo desânimo: “Consolai, consolai o Meu povo! Falai ao coração de Jerusalém e dizei em alta voz que a sua servidão acabou!”
O Senhor vem, cheio de mansidão e misericórdia, de bondade e compaixão!

No Natal nós veremos que Deus é amor, veremos do que Ele é capaz por nós: capaz de fazer-Se pequeno, capaz de fazer-Se criança, capaz de fazer-Se pobre entre os pobres do mundo! “Sobe a um alto monte, tu que trazes a boa-nova a Sião, levanta com força a tua voz; dize às cidades de Judá: ‘Eis o vosso Deus! Como um pastor, Ele apascenta o rebanho, reúne com a força dos braços os cordeiros e carrega-os ao colo; Ele mesmo tange as ovelhas que amamentam”.

Caríssimos, não desanimemos, não temamos, não percamos o rumo da nossa vida, não esfriemos na nossa fé e na nossa esperança: tudo caminha para esse encontro com Aquele que vem!
O Senhor não Se esqueceu de nós, não virou as costas para o mundo, não abandonou a Sua Igreja! Recobremos o ânimo, renovemos as nossas forças, colocando no nosso Deus a nossa esperança e a nossa certeza!

Mas, a Vinda do Senhor, vinda salvadora, será também uma Vinda de julgamento: na Sua luz, bem e mal, santidade e pecado, retidão e maldade, fidelidade e infidelidade aparecerão.
Na Sua Vinda, tudo será queimado, purificado no fogo devorador do Seu Espírito Santo, Aquele que arguirá o mundo quanto à justiça, quanto ao julgamento e quanto ao pecado (cf. Jo 16,8-11).

A Palavra de Deus hoje nos adverte severa e insistentemente sobre isso: “Eis o vosso Deus, eis que o Senhor Deus vem com poder, Seu braço tudo domina: eis, com Ele, Sua conquista, eis à Sua frente a vitória! O Dia do Senhor chegará como um ladrão, e então os elementos, devorados pelas chamas, se dissolverão, e a terra será consumida com tudo o que nela se fez. O que nós esperamos são novos céus e nova terra, onde habitará a justiça!”
O Senhor, portanto, julgará tudo: na luz, do Seu Espírito Santo, tudo será colocado às claras; no fogo do Seu Espírito Santo, tudo será purificado, e aquilo que não foi de acordo com o Seu Evangelho, com a Sua Verdade, com a Sua Cruz, será consumido no nada, no pó, no choro e ranger de dentes.

Por isso mesmo, a insistente exortação que a Palavra nos faz hoje à vigilância.
São Pedro, na segunda leitura, recorda-nos que este tempo de nossa vida é tempo da paciência de Deus, tempo de aproveitar para trabalhar para a nossa conversão: “O Senhor está usando de paciência para convosco. Pois não deseja que alguém se perca. Ao contrário, quer que todos venham a converter-se!’

Bispos e padres, convertamo-nos! Mudemos nossa vida, abramos nosso coração!
Não vos iludamos, pensando que podemos nos acostumar com o Senhor: pregamos a Palavra Dele e seremos julgados pela Palavra que pregamos!

Religiosos e religiosas, convertei-vos ou morrereis eternamente no fogo que não acaba! Não podeis fingir, não podeis enganar o Senhor!

Povo todo de Deus: jovens e adultos, idosos e crianças, solteiros e pais e mães de família, convertei-vos, mudai vosso procedimento! Vivei de acordo com o que sois: sois a Igreja santa, sois o Povo santo de Deus, sois a herança de Cristo! Convertei-vos todos, pois o Senhor a todos examinará!

Com a nossa  vida e o nosso procedimento, preparemos no deserto de nossa vida o caminho do Senhor!
Nivelem-se todos os vales de nossas baixezas e pecados, rebaixem-se todos os montes e colinas do nosso orgulho, soberba e prepotência; endireite-se o que é torto no nosso pensamento e no nosso procedimento e alisem-se as asperezas de nosso modo de tratar os irmãos. Então, a Glória do Senhor se manifestará na nossa vida e nós seremos luz para a humanidade em trevas!
Irmãos, não somos da noite, não somos das trevas! Somos filhos da Luz de Cristo, somos filhos do Dia do Senhor!

A figura de João Batista, com toda a sua austeridade e com suas palavras de advertência são um sério convite a que revisemos nosso modo de viver.
Hoje, caríssimos, o mundo é todo paganizado, nosso país está se tornando cada vez mais pagão. Mas, isso não é o mais triste!
O mais triste, o que nos corta o coração, é ver os cristãos vivendo como os pagãos, pensando como os pagãos, falando como os pagãos, agindo como os pagãos, gostando das coisas que agradam os pagãos!
Nós, que vimos a luz; nós, que temos a consolação de Cristo; nós que temos o Seu Espírito; nós, que nos alimentamos com o pão da Sua Palavra e do Seu Corpo e Sangue! Não fugiremos à ira, caríssimos! Não escaparemos do tremendo tribunal de Cristo! João Batista é claro: “Depois de mim virá Alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar Suas sandálias. Eu vos batizei com água, mas Ele vos batizará com o Espírito Santo!”
Não se brinca com Cristo, não se domestica o Evangelho, não se falsifica o Salvador: se João - austero, piedoso e coerente - não se sentia digno de desamarrar Suas sandálias, que será de nós? Ele nos batizará, nos mergulhará no fogo do Seu Espírito... E, então, ai do infiel, ai do que fez pouco caso da Sua Palavra, das Suas exigências, do Seu amor!

Caríssimos, o Senhor está próximo: convertamo-nos! Amém. 

domingo, 30 de novembro de 2014

Um profeta falou...

Palavras de quem vê na perspectiva do Eterno, com a serenidade de quem crê no Cristo, Senhor da História:

“Da crise atual surgirá uma Igreja que terá perdido muito. Tornar-se-á pequena e deverá recomeçar mais ou menos dos inícios.

Não será mais capaz de ocupar os edifícios que construiu nos tempos de prosperidade.
Com a diminuição dos seus fieis, perderá também grande parte dos privilégios sociais.
Recomeçará de pequenos grupos, de movimentos e de uma minoria que recolocará a fé no centro da experiência.
Será uma Igreja mais espiritual, que não se arrogará uma função política, flertando ora com a direita ora com a esquerda. Será pobre e tornar-se-á a Igreja dos indigentes. 

Então, as pessoas verão aquele pequeno rebanho de crentes como algo de totalmente novo: descobri-lo-ão como uma esperança para si mesmas, como a resposta que tinham sempre procurado em segredo...” (Joseph Ratzinger, em 1969)

Pensamentos sobre a antífona de Missa que abre o Advento

“A Vós, meu Deus, elevo a minha alma. Confio em Vós, que eu não seja envergonhado! Não se riam de mim meus inimigos, pois não será desiludido quem em Vós espera” (Sl 24,1-3). 

Ah, a Liturgia!
Que lições, que intuições, que sentimentos inexprimíveis de tão ricos, ela nos faz experimentar!

As palavras acima, do Salmo 24, são a antífona de entrada (o Intróito) da Missa do primeiro Domingo do Advento.

Pare e pense um pouco, antes de continuar a leitura... Tente descobrir sozinho: o que estas palavras têm a ver com o Advento e com o Natal? Por que a Igreja as colocou aí? Pense um pouco...
A Liturgia só pode ser saboreada se a gente aprender a pensar com o coração...

Observe bem: o Advento é tempo de preparar a celebração da Vinda do Senhor em Belém e de preparar-se para a Vinda Dele na Parusia, na Glória final. Por isso, mesmo a primeira palavra da antífona é fortíssima: “A vós, Senhor, elevo a minha alma!”
É o fiel, é a humanidade, que tira o olhar do próprio umbigo, da própria auto-suficiência, e, reconhecendo-se pobre, eleva a alma, a vida ao Senhor, esperando Dele a salvação! Já aqui, se coloca a atitude fundamental com a qual devemos viver o Advento: a espera vigilante, como a amada que espera o amado, como a terra que espera o sol, como o vigia que espera a aurora...

Depois a antífona nos joga em cheio no drama da vida: quantos inimigos exteriores e interiores temos, quantas contradições, quantos perigos de cair, de perder o rumo, de fracassar na existência! Somo tão pobres, tão quebrados, tão frágeis... Tão incerto é nosso caminho sobre esta terra de exílio... “Confio em Vós, que eu não seja envergonhado! Não se riam de mim meus inimigos!”

Esta consciência da nossa miséria, esta percepção de que temos um coração de água, olhos de águia, mas umas asinhas curtas apenas como as de pardal é a condição essencial para nos descobrirmos pobres diante de Deus e, então, gritar: Senhor, vem salvar-nos! Senhor, precisamos de um Salvador! Vem! Sem Tua presença, a humanidade se perde, o homem se destrói, seremos sempre frustrados, seres fracassados no mais profundo de sua existência!
É isto que esta antífona comovente nos quer fazer compreender e experimentar.

Mas, observe como ela termina com a proclamação de uma certeza certa: “Não será desiludido quem em Vós espera”. Não será desiludido quem coloca sua esperança no Senhor, quem vigia esperando o Cristo que vem! Deus é fiel: mandou-nos o Seu Cristo e Ele estará para sempre em nosso meio!

Aquele que sabe reconhecer Sua presença e vive na Sua verdade, de esperança em esperança, não ficará envergonhado no Dia da Sua Manifestação gloriosa.

Lições assim, tão profundas, tão saborosas, tão verdadeiras, somente a Liturgia pode nos dar... Mas só para quem a respeita, deixa-se tomar por ela nos seus gestos, símbolos, palavras, expressões...
Quem dera que soubéssemos percebê-las e saboreá-las... Feliz Advento a todos!

I Domingo do Advento: Ah, se rasgasses os céus e descesses!

Is 63,16b-17.19b; 64,2b-7
Sl 79
1Cor 1,3-9
Mc 13,33-37

Iniciamos, hoje, com a graça do Cristo Jesus, Senhor do tempo e da eternidade, um novo ano litúrgico.
Contemporaneamente, começamos nosso caminho de Tempo do Advento, que nos ensina a preparar e desejar a Vinda do Senhor no Final dos Tempos e nos prepara para o santo Natal. O roxo, cor litúrgico destas quatro semanas, fala-nos de vigilância e de espera, espera que é esperança, pois Quem prometeu vir é fiel: não falhará. Na espera e na alegre vigilância, não cantaremos o “Glória” e enfeitaremos nossas igrejas com muita simplicidade: estamos de sobreaviso, estamos esperando: o Senhor Se aproxima!

As leituras deste primeiro Domingo são de uma intensidade enorme e nos jogam de cheio no clima próprio deste tempo: enquanto nos preparamos para o Natal, celebração da primeira vinda do Senhor, feito pobre na nossa humanidade, preparamo-nos também para a Sua Vinda gloriosa no final dos tempos. Três ideias nos chamam atenção na Palavra que ouvimos; três ideias que sintetizam maravilhosamente os sentimentos que devemos alimentar neste santo Advento.

Primeiro. Somos pobres; a humanidade toda, por mais soberba e autossuficiente que seja, é pobre, é pó! Violência, solidão, tantas feridas no coração, tanta falta de sentido para a existência, tanta descrença e superficialidade, tantas famílias destruídas, tantos corações vazios, tanta falta de paz... E o homem não se dá conta de que é pó, de que é insuficiente, de que sozinho não consegue se realizar, porque foi criado para uma Plenitude que somente um Outro, o Deus Santo, Bom, Imenso e Eterno, nos pode conceder.
Mas, nós cremos, caríssimos; nós devemos ser conscientes da nossa pobreza e da pobreza da humanidade. Calha bem para nós o intenso lamento do Profeta Isaías: “Senhor, Tu és o nosso pai, nosso redentor! Como nos deixaste andar longe de Teus caminhos? Todos nós nos tornamos imundície, e todas as nossas boas obras são como um pano sujo; murchamos como folhas e nossas maldades empurram-nos como o vento. Não há quem invoque o Teu Nome, quem se levante para encontrar-se Contigo. Assim mesmo, Senhor, Tu és nosso pai, nós somos barro; Tu, nosso oleiro, e nós todos, obra de Tuas mãos”.
Tão atual, caríssimos, essa palavra da Escritura! Exprimem bem esta humanidade perdida, sem graça, que busca plenitude onde não há plenitude: na tecnologia, na ciência, no consumo, na droga, na satisfação dos próprios instintos e vontades...

Nós, cristãos, sabemos que nada neste mundo nos pode saciar. Também sentimos sede, também sentimos tantas vezes a dor de viver, mas nós sabemos de onde vem a paz, onde se encontra a verdade da vida, de onde vem a esperança.
Por isso pedimos, pensando no que veio no Natal e virá no Fim dos tempos: “Ah! Se rasgásseis os céus e descesses! As montanhas se desmanchariam diante de Ti! Nunca se ouviu dizer nem chegou aos ouvidos de ninguém, jamais olhos viram que um Deus, exceto Tu, tenha feito tanto pelos que Nele esperam!” Eis nosso brado de Advento: Somos pobres, somos insuficientes, não nos bastamos, não temos as condições de ser felizes com nossas próprias forças: Vem, Senhor Jesus! “A Vós, Senhor, elevo a minha alma! Confio em Vós, que eu não seja envergonhado! Não se riam de mim meus inimigos, pois não será desiludido quem em Vós espera” (Sl 24,1-3).

E aqui temos a segunda ideia desta Liturgia santa: diante de nossa pobreza, colocamos nossa esperança no Cristo Jesus; esperamos a Sua Vinda.
O cristão vive no mundo, mas sabe que caminha para a Pátria, para Casa, para Cristo! Na segunda leitura deste hoje, São Paulo nos recorda que não nos falta coisa alguma, não nos falta esperança, não nos falta o sentido da vida, não nos falta a consolação, porque aguardamos “a Revelação do Senhor nossos, Jesus Cristo. É Ele também que vos dará a perseverança em vosso procedimento irrepreensível, até ao fim, até ao Dia de nosso Senhor, Jesus Cristo”.
Caríssimos, a grande tentação para os cristãos de hoje é esquecer que estamos a caminho, que nossa pátria é o Céu. Num mundo da abundância de bens materiais, de comodismo, de consumismo, de busca das próprias vontades e dos prazeres, o perigo imenso é esquecer o Senhor que vem e que sacia o nosso coração.
Quantos de nós se distraem com o mundo, quantos que têm o nome de cristãos estão tão satisfeitos com os prazeres e curtições da vida!
Cristãos infiéis num mundo infiel; cristãos cansados num mundo cansado, cristãos superficiais e vazios num mundo superficial e vazio! E deveríamos ser luz, deveríamos ser sal, deveríamos ser profetas!

Finalmente, o terceiro ponto.
Conscientes da nossa insuficiência para sermos felizes sozinhos, com nossas próprias forças; conscientes de que somente no Cristo está nossa plenitude; certos de que Ele virá ao nosso encontro, devemos estar vigilantes, devemos viver vigilantes. Nesta casa chamada mundo, nós somos os porteiros, aqueles que esperam o Senhor chegar.
Escutai, irmãos, a advertência do nosso Senhor e Deus: “Cuidado! Ficai tentos, porque não sabeis quando chegará o momento. É como um homem que partiu e mandou o porteiro ficar vigiando. Vigiai, portanto, para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: Vigiai!”

Amados em Cristo, o Senhor nos manda vigiar!
Vigiemos pela oração,
vigiemos pela prática dos sacramentos,
vigiemos pelas boas obras,
vigiemos pela vida fraterna,
vigiemos pelo combate aos vícios,
vigiemos pelo cuidado para com os pobres.
Vigia à espera de Cristo quem rejeita as obras das trevas!
“O que vos digo, digo a todos: Vigiai!”

Mais uma vez, a misericórdia de Deus nos dá um tempo tão belo e santo quanto o Advento para pensarmos na vida, para levantar os olhos ao Céu e suspirar pela plenitude para a qual o Senhor nos criou.

Não vivamos desatentamente este tempo santo Irmãos, irmãs, o Senhor vem: preparemo-nos para Ele! Amém.

domingo, 23 de novembro de 2014

XXXIV Domingo Comum: o Cristo Rei

Ez 34,1-12.15-17
Sl 22
1Cor 15,20-16.28
Mt 25,31-46

Neste último Domingo do Ano Litúrgico, a Igreja nos apresenta Jesus Cristo como Rei do universo. O Evangelho no-Lo mostra cercado de anjos, sentado num trono de glória para o julgamento final da história e da humanidade toda. Ele é Rei-Juiz, é o critério da verdade e da mentira, do bem e do mal, da vida e da morte.
Por mais que a humanidade queira fazer a verdade do seu modo, distorça o bem em mal e o mal em bem e procure a vida onde não há vida verdadeira, vida plena, somente em Jesus Cristo tudo aparecerá, um Dia - no Seu Dia - na sua justa realidade. Nós cremos com toda firmeza que a criação toda, a história toda e a vida de cada um de nós caminham para o Cristo e por Ele serão passadas a limpo, nele serão julgada! Ele é Rei-Juiz: ao final “todas as coisas estarão submetidas a Ele”. Fora Dele não haverá salvação, nem esperança nem vida.

Mas, se Cristo Jesus é nosso Rei-juiz, isto se deve ao fato de primeiramente ser nosso rei-Pastor, Aquele que dá a vida pelas ovelhas.
Ele é “o que foi imolado”, o mesmo que, com ânsia e cuidado procura Suas ovelhas dispersas, toma conta do rebanho, cuida da ovelha doente e vigia e vela em favor da ovelha gorda e forte.

Eis o nosso Juiz, eis o juiz da humanidade: Aquele ferido de amor por nós, Aquele que por nós deu a vida, Aquele que se fez um de nós, colocando-Se no nosso meio!

Atualmente, a nossa civilização ocidental perdeu quase que de modo total a consciência da realeza de Cristo. Dizem hoje, cheios de orgulho: o homem é rei. Gritam: “Não queremos que este Jesus reine sobre nós! Não queremos que nos diga o que fazer, como viver; não aceitamos limites do certo e do errado, do bem e do mal, do moral e do moral... A não ser os nossos próprios limites. E, para nós, não há limites!”

Eis o pecado original, a arrogância fundamental da humanidade atual. Nunca fomos tão prepotentes quanto agora; nunca tão iludidos e enganados como atualmente! E, mais impressionante ainda: muitos cristãos, sutilmente, vão trocando a realeza de Cristo, a medida de Cristo, pela realeza do mundo, a medida do mundo! Como é tão grande, como é tão atual, como é tão séria a tentação de fazer das demandas do mundo e não das exigências de Cristo-Rei o critério da nossa fé e da nossa vida!

E, no entanto, Cristo é Rei, o único Rei verdadeiro, cujo Reino jamais passará.
Mas esse Rei nos escandaliza também a nós, cristãos. É que Ele não é um rei mundano, estribado na vã demonstração de poder, de glória, de imposição. Não! Ele é o Rei-Pastor que se fez Rei-Cordeiro manso e humilde imolado por nós. Por isso “é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A Ele o poder pelos séculos”.

A grandeza e o poder do Senhor neste mundo não se manifestarão na grandeza, mas nas coisas pequenas, na fragilidade do amor, daquele amor que na cruz apareceu como capaz de entregar a vida pelos irmãos.

Gostaríamos de um Cristo-Rei na medida das nossas vãs grandezas...
Gostaríamos de uma Igreja forte, aplaudida, elogiada, reverenciada, de bem com o mundo, nas boas graças da mídia, por ela compreendida, aprovada, aplaudida...

Mas, não! A Igreja, continuadora na história do mistério salvífico de Cristo, se for realmente fiel, tem de participar do escândalo do Seu Senhor. As ovelhas ouvem a voz do Rei-Pastor; os cabritos não a escutarão jamais: são rebeldes, inquietos, desobedientes, autossuficientes! Entre as ovelhas e os cabritos, entre os discípulos e os incrédulos, há o juízo de Cristo! A incompreensão que o mundo tem em relação ao Cristo Senhor e Seu Reino, transforma-se em incompreensão para com o que a Igreja anuncia e defende e procura viver! Isto faz parte das dores do Reino do Senhor – Ele mesmo nos avisou tantas vezes!

Faz parte do mistério do Reino a pobreza de Cristo, a mansidão de Cristo, a derrota de Cristo na cruz, o silêncio de Cristo, a morte de Cristo.
E tudo isso tem que está presente também a vida da Igreja e na nossa vida! Como nos exorta São Paulo: “Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado dentre os mortos. Fiel é esta palavra: Se com Ele morremos, com Ele viveremos. Se com Ele sofremos, com Ele reinaremos” (2Tm 2,8.11).

Eis, pois, caríssimos no Senhor! Celebremos hoje a realeza de Cristo, dispondo-nos a participar da Sua cruz.
Na Igreja, no Reino de Deus, reinar é servir. Sirvamos, com Cristo, como Cristo e por amor de Cristo! No Evangelho desta Solenidade, o critério para participar do Reinado do Senhor Jesus é tê-Lo servido nos irmãos: no pobre, no despido, no doente, no prisioneiro, no fraco. Que Reino, o de Cristo! Manifesta-se nas coisas pequenas, nas pequenas sementes, nos pequenos gestos, no amor dado e recebido com pureza cada dia.

Na verdade, segundo os Santos Padres da Igreja, o Reino de Cristo, o Reino que Ele entregará ao Pai, somos nós; nós, que fizemos como Ele fez, lavando os pés do mundo e servindo ao mundo a única coisa que realmente compensa: a amor de Cristo, a verdade de Cristo, o Evangelho de Cristo, o exemplo de Cristo, a salvação de Cristo, a vida de Cristo, para que o mundo participe eternamente do Reino de Cristo!

Caríssimos no Senhor, despojemo-nos de todo pensamento mundano sobre reis, reinos e coroas. Fixemos nosso olhar no trono da cruz, Naquele que ali se encontra despido e coroado de espinhos. Aprendamos com admiração, estupor e gratidão que nossa mais gloriosa herança neste mundo é participar do Seu reinado, levando a humanidade a descobrir quão diferentes dos seus são os critérios de Deus. Quando aprendermos isso, quando a humanidade aprender isso, o Reino entrará no mundo e o mundo entrará no Reino, Reino de Cristo, Reino de verdade e de vida, Reino de santidade e de graça, Reino da justiça, do amor e da paz.

Domine, adveniat Regnum tuum! – Senhor, venha o Teu Reino! Amém. 

sábado, 15 de novembro de 2014

XXXIII Domingo Comum: a vida, um talento que nos foi dado

Pr 31,10-13.19-20.30-31
Sl 127
1Ts 5,1-5
Mt 25,14-30

De um modo ou de outro, a Palavra do Senhor sempre nos fala da vida, nos revela o sentido, nos mostra o caminho. Hoje, o Cristo Senhor nos apresenta a existência como um punhado de talentos, de dons, de oportunidades que a providência gratuita e misteriosa de Deus colocou em nossas mãos para que façamos frutificar.

Certamente, jamais compreenderemos por que nascemos desse modo ou somos daquele outro. A vida é um mistério tremendo, Irmãos; tão tremendo, que o Salmista geme, entre admirado e oprimido: “Ainda embrião Teus olhos me viram e tudo estava escrito no Teu livro; meus dias estava marcados antes que chegasse o primeiro. Como são profundos para mim Teus pensamentos, como são grandes seu número, ó Deus!” (Sl 139/138,16s) Podemos, no entanto, ter a certeza de que o Senhor nos deu uma vida, "a cada um de acordo com a sua capacidade".

Ora, é esta vida, dom de Deus, fruto de um desígnio de amor sem fim, que cada um de nós deve responsavelmente cultivar e fazer frutificar em benefício nosso de dos irmãos. Na mulher forte e industriosa da primeira leitura, aparece um exemplo de alguém que não se contenta simplesmente em passar pela vida, mas vai tecendo o fio da existência com as pequenas fidelidades de cada dia: como essa mulher da leitura, devemos nós, tornar nossa vida fecunda de bem, fecunda de serviço a Deus e aos irmãos. Do mesmo modo, a segunda leitura chama-nos atenção para o fato que nos serão pedidas contas da vida, dom recebido de Deus. Daí, o conselho: "Não durmamos, como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios".

Caríssimos, uma das grandes tentações do mundo atual é pensar que a existência é nossa de modo absoluto, como se cada um de nós se tivesse criado a si próprio, dado a si próprio a existência. Fechados em si próprios, os homens pensam que podem ser felizes construindo a vida de seu próprio modo, à medida de suas próprias ideias, medidas e objetivos. Ilusão! A vida é dom de Deus e somente nos faz felizes se dela fizermos um diálogo amoroso com o Senhor, Autor e Doador de nosso ser. Mais que talentos na vida, o Senhor nos concedeu a própria vida como um precioso talento! Desenvolvê-lo e ser feliz e buscar não a nossa própria satisfação, não nossa própria medida, não nosso próprio caminho, mas fazer da existência uma busca amorosa e cheia de generosidade da vontade de Deus.
Eis! Somente seremos felizes e maduros quando tivermos a capacidade de arriscar verdadeiramente nos perder, nos deixar para nos encontrar no Senhor, alicerce e fonte de nossa vida. Eis o verdadeiro investimento!

Infelizmente, a dinâmica do mundo hodierno, pagão e ateu, não no ajuda nessa direção. Há distração demais, novidade demais, produto demais a ser consumido; há preocupação demais com uma felicidade compreendida como satisfação de nossos desejos, carências e vontades. Há consciência de menos de que a vida é dom e serviço, doação e abertura para o Infinito; há percepção de menos de que aqui estamos de passagem e de que lá, junto ao Senhor, é que permaneceremos para sempre. Atolamo-nos de tal modo nos afazeres da vida, no corre-corre de nossas atividades, no esforço por satisfazer nossas vontades, na busca de nossa autoafirmação, que perdemos a capacidade de compreender realmente que somos passageiros e viandantes numa existência breve e fugaz que somente valerá a pena será vivida na verdade se for compreendida como abertura para o Senhor e, por amor a ele, abertura generosa e servidora para os outros.

Amados, estejamos atentos à advertência do Apóstolo: "Vós, meus irmãos, não estais nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão. Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia" O Dia é Cristo, a Luz é Cristo. Viver na luz, viver no dia é viver na perspectiva de Cristo Jesus, é valorizar o que Ele valoriza e desprezar o que Ele despreza. Filhos da Luz, filhos do Dia, do Dia eterno – eis o que deveríamos ser! Deveríamos viver os dias da nossa vida iluminando-os com a esperança do Dia eterno, que levará à consumação e à plenitude os dias fugazes de nossa existência! Mas, com tanta frequência nossa mente e nosso coração, nossos pensamentos e nossos afetos encontram-se entenebrecidos como o dos pagãos... Quão grave para nós, porque conhecemos a Luz, que cremos no Dia que é o Cristo-Deus!

Não nos iludamos, não façamos de conta que não sabemos: todos haveremos de dar contas a Deus de nossa existência, do sentido que lhe demos, daquilo que nela construímos. Queira Deus que nossa vida seja como a do Cristo Jesus: uma verdadeira e amorosa abertura para Deus e uma abertura para os outros! Queira Deus que consigamos, iluminados pela Sua Palavra, nutridos pela Sua Eucaristia e animados pela oração diária, viver nossa existência na perspectiva de Deus, de tal modo que vivamos, vivamos de verdade, vivamos em abundância, vivamos uma vida que valha a pena!


Que o Senhor no-lo conceda pela Sua graça. Amém.