sábado, 2 de agosto de 2014

XVIII Domingo Comum: Vinde! Comei a Vida!

Is 55,1-3
Sl 144
Rm 8,35.37-39
Mt 14,13-21

Hoje o Evangelho nos apresenta Jesus como a plenitude da compaixão de Deus no nosso meio. Multiplicando os pães, Ele realiza de modo pleno aquilo que Moisés e Elias, os mesmos personagens da Transfiguração, representantes da Lei e dos Profetas, já haviam realizado: Moisés deu de comer ao povo no deserto; Elias sustentou com alimento a viúva de Sarepta durante todo o tempo da seca em Israel.
Ora, Jesus é aquele que nos alimenta em plenitude, é o Messias prometido a Israel e à humanidade. Como o Bom Pastor, de que fala o Salmo, Ele faz Seu rebanho descansar na relva mais fresca e lhe prepara uma mesa.
Seu alimento não se reduz ao pão. Primeiro nos alimenta porque sente compaixão de nós, de nossa pobreza e indigência: “Viu uma grande multidão. Encheu-Se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes”. Mais do que de pão, é de amor, de ternura e compaixão que o Senhor nos alimenta! Alimenta-nos também com Sua Palavra de Vida eterna: vê a multidão cansada e abatida como ovelhas sem pastor e ensina-lhe, fala do Reino até o entardecer...
Olhando o nosso Salvador, vemos cumprir-se Nele o convite tão terno, tão comovente do Deus de Israel: “Ó vós todos que estais com sede, vinda às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, cinde comprar sem dinheiro, e alimentai-vos bem, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga!

Que belo convite! Num mundo no qual tudo é pago, tudo gira em torno do lucro, tudo tem a preocupação do retorno econômico e do interesse (até em algumas seitas por aí a fora, o dízimo é a chave de entrada no céu), o Senhor se revela graciosamente!
Quem dera, o mundo compreendesse esse amor apaixonado de Deus que se manifesta em Jesus! Quem dera o homem se reconhecesse faminto e sedento! Quem dera se deixasse interpelar: “Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-Me com atenção e alimentai-vos bem! Inclinai vosso ouvido e vinde a Mim, ouvi e tereis vida!”
Infelizmente, o nosso é um mundo cansado, mas também autossuficiente, prepotente, que pensa poder sozinho, do seu modo se saciar e viver de verdade! Também nós, nas nossas pobrezas, tanta vez fugimos do Senhor, ao invés de correr para Ele, nosso Poço, nossa Água, nosso Pão, nosso Refrigério!

Mas, nós, cristãos, sabemos que em Cristo Jesus encontra-se a Vida, encontra-se o verdadeiro Caminho, a verdadeira saciedade do mundo!
É isso que São Paulo exprime com palavras comoventes: “Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? Em tudo isso somos mais que vencedores, graças Àquele que nos amou!”
É por essa experiência do amor tão terno e presente de Jesus na nossa vida que somos cristãos! Deixemo-nos saciar pelo Senhor e experimentaremos que “nem a morte, nem a vida, nem o presente nem o futuro, nem outra criatura qualquer, será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor!”

Caríssimos, a verdadeira Boa-Nova para o mundo atual é e será sempre esta: o amor terno e próximo de Deus, manifestado em Jesus Cristo!
Mas, atenção: somente poderemos ser testemunhas de tal amor se nós mesmos nos deixarmos tocar e envolver pela ternura do Cristo!
Atendamos, portanto, ao Seu convite de ir gratuitamente a Ele, apesar de nossas pobrezas! Deixemos que Ele nos alimente e sacie de vida e de paz!

Não esqueçamos também que, sobretudo na Eucaristia essa Vida, esse Alimento eterno, essa Paz vêm a nós! Sintamo-nos sempre convidados pela Igreja a recobrar nossa devoção e piedade eucarísticas!
Primeiro pela participação consciente e piedosa da Santa Missa todos os domingos. Mas, também pela adoração ao Santíssimo Sacramento. Aí o Senhor Jesus nos espera para nos falar ao coração e encher-nos da Sua paz.

Estejamos atentos a alguns aspectos desse carinho pela presença eucarística de Cristo. Eis alguns pontos para nossa meditação:
(1) Como está minha participação na Missa?
(2) Tenho consciência do que é a Missa? Compreendo que ela é o sacrifício de Cristo tornado presente no Altar para Vida nossa e do mundo inteiro?
(3) Tenho respeito pela presença de Cristo na Eucaristia? Quando entro na Igreja, dobro meu joelho ante o Santíssimo? Detenho-me em adoração ou fico conversando e disperso?
(4) Tenho reservado alguns minutos durante a semana para uma visita ao Santíssimo Sacramento, para falar-lhe em espírito e verdade, como um amigo ao outro amigo?

Eis, meus caros! Procuramos vida e realização em tantas bobagens! A Vida, a Realização, é Jesus que Se dá a nós no Altar e por nós espera no sacrário!

Saibamos valorizar esse Dom tão grande: “Ó vós todos que estais com sede, vinda às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, cinde comprar sem dinheiro, e alimentai-vos bem, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga!’ Que o Senhor nos dê a graça de aceitar Seu convite! Amém.

domingo, 27 de julho de 2014

XVII Domingo Comum: Por causa do Reino dos Céus...

1Rs 3,5.7-12
Sl 118
Rm 8,28-30
Mt 13,44-52

Continuamos, neste hoje, a escutar Jesus falando-nos do Reino dos Céus. Saído do barco à beira-mar, chegado em casa, Ele nos conta ainda três parábolas: o Reino dos Céus é como um tesouro escondido num campo; um homem o encontra e, cheio de alegria, vende tudo e o adquire! O Reino dos Céus é como uma pérola de grande valor; o homem vende tudo e, fascinado por sua beleza, vende tudo e a adquire... Observem, irmãos, que Jesus nos quer fazer compreender que todo aquele encontra o Reino, sai de si, fascinado pelo Reino encontrado! Achar o Reino é achar o sentido da vida, é encontrar aquilo por que vale a pena viver. Quem de verdade encontra o Reino, quem o experimenta, muda para sempre sua existência: vai ligeiro, vende tudo, fica cheio de alegria! Encontrar o Reino é encontrar Jesus, e encontrar Jesus de verdade é encontrar a razão de viver, o sentido da existência, é encontrar-se consigo mesmo! Quem encontra o Reino assim, se encontra, parte de si mesmo e vai viver de verdade! Quantos cristãos experimentaram isso, quantos fizeram-se loucos, pareceram loucos, por amor de Cristo! Quantos jogaram fora amores, família, projetos, bens materiais... O que os levou a isso? O que aconteceu com Santo Antão, que vendeu todos os bens e deu aos pobres e foi viver no deserto, sozinho? O que aconteceu com Francisco de Assis? O que aconteceu com a Beata Madre Teresa de Calcutá ou com a Ir. Dulce? O que aconteceu com aquele moço que largou tudo e foi ser religioso, com aquela moça sem juízo que entrou numa comunidade de vida? O que aconteceu com aquele casal, que mudou seu modo de viver, seu círculo de amizade, que deixou suas badalações? O que aconteceu com São Maximiliano Kolbe, que entregou a vida no lugar de um pai de família? Com São José de Anchieta, que deixou sua pátria e se embrenhou no Brasil selvagem para anunciar Cristo aos índios? O que aconteceu com todos esses? O que aconteceu? O que acontece ainda hoje e continuará acontecendo ainda aminhã e depois com tantos? Eles descobriram o tesouro, eles encontraram uma pérola de valor imensurável, eles experimentaram a paz, a doçura, a verdade do Reino dos Céus!

Meus caros, estejamos atentos! Quem é mole nas coisas de Deus, quem é pouco generoso no seguimento de Cristo, quem sente como um fardo os apelos do Senhor, não experimentou ainda, não encontrou o tesouro, não viu a pérola de grande valor, não descobriu de verdade o Reino dos Céus! Cristãos cansados, cristãos sem entusiasmo, cristãos pouco generosos, cristãos de cálculos humanos, cristãos de racioínios pagãos, cristãos com uma lógica igual à do mundo são cristãos que nunca – nunca! – experimentaram a paz do Reino, a beleza do Reino, a doçura do Reino, a plenitude do Reino que Jesus nos mostra e nos dá! Atentos, irmãos: pode-se ser cristão e nunca ter-se experimentado o Reino! Pode-se ser padre ou religioso sem nunca ter descoberto o Reino... Aí, já não há alegria, já não há entusiasmo, já não se corre, se arrasta, se rasteja! O Reino tem pressa, o Reino faz vibrar, o Reino nosdeixa bêbados de sonhos por Cristo, o Reino nos faz generosos para com o Senhor, o Reino nos impele porque descobrir o Reino e experimentar o amor de Deus em Jesus Cristo! Quantos de nós se entusiasmam com tantas coisas e são tão lerdos quando se trata do Senhor e do seu Reino... Não seríamos nós um desses?

E, no entanto, o sonho de Deus é que todos possam encontrar o Seu Reino; para isso Ele nos criou, para isso nos destinou. Escutemos o Apóstolo: "Pois aqueles que Deus contemplou com Seu amor desde toda eternidade, a esses Ele predestinou a serem conformes à imagem do Seu Filho... E aqueles que Deus predestinou, também os chamou. E aos que chamou também os tornou justos, e aos que tornou justos também os glorificou". Isso nos coloca diante de duas realidades, caríssimos. Primeiro: o dever que temos de anunciar o Reino a toda a humanidade! A Igreja é missionária, anunciadora do Reino dos Céus! Uma Igreja que não tenha o desejo, que não sinta a necessidade de levar Jesus aos que ainda não o conhecem, é uma Igreja morta, sem o calor do Reino, sem o entusiasmo do Reio, sem a embriaguez do Reino, uma Igreja que já não experimenta a alegria de crer! Estejamos atentos: há tantos em terras distantes e tantos bem próximos de nós que não tiveram ainda a alegria do Reino dos Céus, pois que não encontraram o tesouro, na viram a pérola de grande valor! Ai de nós se não anunciarmos a esses a Boa Nova do Reino dos Céus! Nunca esqueçamos: quem encontra algo de muito bom, sente o desejo de comunicar, de partilhar, de tornar conhecido aos demais. Se em nós não há ímpeto missionário, é porque não encontramos, de verdade, a o Reino e sua alegria! Pensemos bem!

Mas, há uma segunda realidade, que precisamos levar em conta. Descobrir o Reino exige um olhar iluminado pela graça de Deus. Sozinhos, com nossas próprias forças, somos incapazes de discernir essa presença do Reino! Por isso é necessário suplicar, como Salomão, um coração para compreender: "Dá ao Teu servo um coração compreensivo – um coração que escute!" No Evangelho de hoje, Jesus termina perguntando: "Compreendeste essas coisas?" – Senhor, pedimos nós, dá-nos um coração capaz de compreender! Sem Teu auxílio ninguém é forte, ninguém é santo! Mostra-nos o tesouro, que é o Teu Reino! Faz-nos encontrar a pérola de grande valor, pela qual vale a pena perder tudo e todo nela encontrar! Faz-nos sentir que, pelo Reino, vale a pena deixar redes, barcos, a vida perder; deixar a família e dinheiro não ter!

Concluamos, agora, com a última, das sete parábolas: O Reino dos Céus é como uma rede jogada no mar deste mundo... Ela apanha todo tipo de peixe – apanhou a mim, a você... Olhem a Igreja, olhem a nossa comunidade: há de tudo! Todo tipo de gente, todo tipo de cristão! Mas, um dia – no Dia de Cristo! -, a rede será puxada para a margem e os peixes bons serão recolhidos nos cestos do Senhor e os peixes ruins serão lançados fora, para o fogo queimar... Eis como Jesus termina! Prevenindo-nos que é necessário decidir-se pelo Reino, que nossa vida valerá ou não a pena, terá ou não sentido dependendo de nossa atitude em relação ao Reino que Ele veio anunciar... Acolher o Reino aqui far-nos-á entrar no Reino pela Eternidade; regeitar o Reino agora, excluir-nos-á dele para sempre! Que palavra, que mistério, que medo, que esperança!


Irmãos, irmãs! "Compreendestes tudo isso?" Que o Senhor no-lo conceda, Ele que Reina para sempre. Amém.

sábado, 19 de julho de 2014

XVI Domingo Comum - A: Os justos brilharão no Reino do Pai

Sb 12,13.16-19

Sl 85

Rm 8,26-27
Mt 13,24-43

Continuamos a escutar o Senhor que, sentado na barca, imagem da Igreja, nos fala do Reino dos Céus... Permanecemos atentos, como aquela multidão em pé, à beira-mar, embevecida: "Nunca nenhum homem falou assim..."

Hoje, Ele nos apresenta três parábolas: a do trigo e do joio semeados no campo do mundo e do nosso coração, a do grão de mostarda que cresce a abriga as aves dos céus e, finalmente, a do tiquinho de fermento que leveda toda a massa... É assim o Reino dos Céus!

As três parábolas mostram a fraqueza do Reino, sua fragilidade escandalosa, mas também sua força invencível, seu poder, sua capacidade de tudo impregnar e transformar, até chegar à vitória final. Só que para compreender isso – os mistérios do Reino -, é necessário ter a paciência, a sabedoria que nos dá a capacidade de acolher os tempos e os modos de Deus! Mas, vamos às parábolas. Nunca esqueçamos, Irmãos: o Reino de Deus não é óbvio! A lógica do Reino não é a nossa, pois esse Reino é de Deus e Deus é Santo: ultrapassa-nos, é Mistério! Ele é o Papai de Jesus, o Abbá, mas é também o Santo de Israel, o Deus misterioso e livre, cujo modo de agir tantas vezes nos desconcerta!

Primeiro, a parábola do trigo e do joio. Que nos ensina aqui o Senhor? Que lições nos quer dar? Em primeiro lugar: Deus não é inativo, indiferente ao mundo, à nossa vida de cada dia. No Seu Filho, semeou o trigo do Reino no campo deste mundo e no campo do nosso coração. Como diz o Livro da Sabedoria, na primeira leitura de hoje: "Não há, além de Ti, outro Deus que cuide de todas as coisas!" Sim: nosso Deus é um Deus presente, um Deus atuante, um Deus que cuida de nós com amor e, com amor, vela por Suas criaturas! Não duvidemos, não percamos de vista esta realidade: num mundo de cimento armado e violência, fome, mortes e corrupções de todos os modos, Deus está presente, Deus cuida de nós!

Uma segunda lição desta parábola: no mundo e no coração de cada um de nós infelizmente há o mal, o pecado, a treva. Por favor, não mascaremos o mal do mundo nem o mal do nosso interior! É preciso desmascará-lo, é preciso chamá-lo pelo nome! Não mascare, Irmão, Irmã, o mal da sua vida, do seu coração, da sua consciência! Esse mal não vem de Deus; vem do Antigo Inimigo, do Diabo que, mais esperto que nós, tantas vezes faz o mal nos parecer bem e até achar que nós mesmos estamos acima do bem e do mal! O Diabo é assim: semeia o mal e faz com que ele se confunda com o bem, como o trigo e o joio, quese assemelham. E nós, tolos, confundimos tudo e pensamos ser bem o que é mal – mal semeado pelo Maligno! Por favor, olhe o seu coração: não se engane, não finja, não mascare, não minta pra você mesmo! Chame o mal de mal e o bem de bem!

Numa terceira lição, a parábola de Jesus nos ensina a paciência, sobretudo com o mal que vemos no mundo e nos outros! Somos impacientes, caríssimos, e até julgamos Deus e o seu modo de agir no mundo. Recordemos a paciência de Deus, que salva, e fujamos da impaciência nossa, que coloca a perder... Jesus nos pede que confiemos em Deus, que acreditemos na Sua ação e nos Seus desígnios, tempos e modos: Não há, além de Ti, outro Deus que cuide de todas as coisas e a quem devas mostrar que Teu julgamento não foi injusto. A Tua força é princípio da Tua justiça e o Teu domínio sobre todos Te faz para com todos indulgente. Dominando Tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande moderação; e a Teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores".

Escutemos ainda um pouco o Senhor; aprendamos com as parábolas do grão de mostarda e do fermento que leveda a massa. Precisamente porque o modo de pensar e agir de Deus não é como o nosso, o Reino dos Céus aparece tão frágil, tão inseguro, tão precário... pequenino como um grão de mostarda, pouquinho como uma pitada de fermento! E, no entanto, será grande, será forte, será vitorioso e abrigará as aves dos céus! Será eficaz, forte, e penetrará toda a massa deste mundo! - Mas, quando, Senhor? Por que demoras? Por que parece que estás longe? Por que pareces dormir? Observem, Irmãos, que em todas as parábolas do Reino, Jesus deixa claro que, ao fim, haverá um julgamento de cada um de nós e o Reino triunfará!

Mas, para não descrer, para não desesperar, para não ver e sentir simplesmente na nossa medida e com nossas forças, supliquemos que o Espírito do Ressuscitado venha nos socorrer, "pois não sabemos o que pedir, nem como pedir!" Só o Espírito do Cristo, o Semeador do Reino, pode nos fazer perceber os sinais desse Reino bendito, os sinais de Deus no mundo e na vida. Só o Espírito nos sustenta, fazendo-nos caminhar sem desfalecer, de esperança em esperança... Só o Espírito nos ensina as coisas do Reino: Ele torna o Reino presente porque torna Jesus presente. Por isso mesmo, em vários antigos manuscritos do Evangelho de São Lucas, na oração do Pai-nosso, onde geralmente tem "Venha o Teu Reino" aparece "Venha o Teu Espírito"! É o Espírito de Cristo que torna o Reino presente em nós e no mundo. Deixemo-nos, portanto, guiar por Ele, pois "o Reino de Deus é paz e alegria no Espírito Santo!"


Eis, caríssimos! Aprendamos do Senhor, vigiemos e acolhamos Sua palavra. Se formos fiéis e perseverarmos até o fim, cheios de júbilo, veremos a realização da Sua promessa, que encerra o Evangelho de hoje: "... então, os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai!" Que assim seja! Amém!


sábado, 12 de julho de 2014

XV Domingo Comum: O Semeador do Reino

Is 55,10-11
Sl 64
Rm 8,18-23
Mt 13,1-23

Amados Irmãos no Senhor, neste Domingo começamos a escutar, na proclamação do Evangelho da Missa, o capítulo 13 de São Mateus, que ouviremos ainda pelos próximos dois domingos. Do que trata? Prestai bem atenção: trata do Reino de Deus, que Mateus gosta de chamar de Reino dos Céus.
Vede, caríssimos! Jesus, nosso Senhor, veio anunciar e implantar o Reino de Deus – esta foi a Sua missão; assim Ele nos salvou! Tudo quanto fez, tudo quanto disse, os milagres que realizou, os exorcismos que praticou, Sua própria Morte e Ressurreição – tudo foi para implantar no coração de cada um de nós e do mundo o Reino do Pai do Céu. Mas, curiosamente, o Senhor nunca definiu esse Reino! Pois bem, neste capítulo 13 do seu Evangelho, São Mateus, reúne sete parábolas de Jesus (sete: número perfeito, completo; sete: revelação perfeita), nas quais Ele, como um Mestre, sentado numa barca, imagem da Igreja, nos desvenda o mistério do Reino!
Atenção, portanto: nestes três domingos, o Senhor no dirá coisas estupendas sobre esse misterioso Reino! – Fala-nos, pois, Senhor! Abre o Teu Coração e desvela-nos os mistérios do Reinado do Deus a Quem Tu chamas de Pai, Reino que trouxeste, Reino para o qual nos convidas! Fala Senhor, fala sentado na barca da Tua Igreja, nossa Mãe católica, e Te escutaremos atentos, com o coração na mão, pois Tu tens palavras de Vida eterna!
A primeira parábola é-nos contada hoje: um semeador – que é Jesus mesmo e todos aqueles que em Seu Nome semearão enquanto o mundo for mundo –, um semeador saiu a semear a Palavra do Reino! Atenção, irmãos: a Palavra semeada por Jesus, Senhor nosso, é o anúncio do Reino ou, melhor dizendo, o semeador saiu a semear o Reino de Deus feito Palavra! Assim, acolher a Palavra de Jesus é acolher o Reino, refutar a Palavra, refutar Jesus é refutar o Reino! Gravai bem isto na mente e no coração: a parábola do semeador é uma parábola do Reino dos Céus, é a parábola do semeador do Reino dos Céus!
Esta é a primeira lição sobre o Reinado de Deus: ele é semeado humildemente por Jesus e Seus ministros; e pode ser refutado!
Vede só que coisa: a palavra de anúncio do Reino pode ser recebida sem compreensão. Que significa isto? Ela pode ser escutada com desprezo, sem que o ouvinte aceite compreender que se trata não de uma simples palavra humana, mas da própria Palavra que, acolhida com fé, faz Deus reinar no nosso coração, na nossa vida! O ouvinte assim, duro, descrente, que não compreende a Palavra como Palavra de Deus, mas a reduz ao nível de simples palavra humana, é presa fácil do Maligno, que vem de mil modos e leva embora essa Palavra santa, como os pássaros devoram as sementes caídas à margem do caminho...
Há ainda tantos que acolhem com alegria e generosidade o Reinado de Deus anunciado na Palavra, mas infelizmente, são superficiais! Querem o Reino de Deus, mas não querem o Rei! Desejam o Reinado de Deus, mas não aceitam o trabalho de deixar realmente que Deus reine em suas vidas! Eita! que há tantos assim hoje em dia; tantos, tantos! Desejam um reinozinho à medida do homem, um reinozinho de si próprio! Ora, acolher o Reino de Deus exige deixar que  Senhor reine em minha vida com a Sua santa vontade, exige, pois, que eu me converta! Mas, esses são duros de coração: querem continuar no seu pecado, no seu comodismo, na sua vida pouco generosa e nada disposta à conversão; pensam que se pode acolher o Reino mantendo um coração cheio das pedras do mundo: “não tem raiz em si mesmo; é de momento: quando chega o sofrimento ou a perseguição, desiste logo!” Não esqueçais, Irmãos, a ilusão desses: querem o Reinado de Deus, mas sem Deus reinando na vida deles! Querem o Reino, mas não o Rei!
Depois, aqueles cujo coração é um amontoado de espinhos de preocupações, de paixões, de apegos, de amores, de interesses... Num coração assim, o Reinado de Deus é sufocado! Reinam as paixões, reina a minha vontade, reinam os meus interesses, reina a minha imaturidade, reina o meu apego, reina o meu pecado... Deus fica em último lugar! A Palavra que anuncia o bendito Reinado do Senhor é, nesse espinheiro miserável, sufocada, o Reino murcha, mingua até desaparecer desse coração!
Por fim, um coração pobre e humilde, disposto como um campo fecundo e pronto! É aquele que, diante da Palavra que convida a deixar que Deus reine na nossa vida, diz: Podes reinar, Senhor! Sou Teu, para Ti nasci: que queres de mim! – Alguém assim é pobre, alguém assim é humilde, alguém assim dá espaço para que Deus reine na sua vida! De alguém assim é o Reino dos Céus! E nesse o Reino frutifica, dá fruto, se expande como uma semente fecunda e viçosa que dá trinta, sessenta, até cem por um!
Ah, quantas lições, Irmãos meus! Vede só, resumindo tudo, três delas:
(1) O Reino é semeado generosamente, à mancheias pelo Senhor! Tão generoso é Aquele que deseja que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade, que nem olha em que tipo de coração joga a semente! É para todos!
(2) O Reino de Deus é humilde, pede passagem, depende da nossa liberdade para acontecer em nós: pode ser acolhido ou refutado, como a semente! Assim, pode acontecer que, em mim, o Reino de Deus morra ou mesmo, sequer chegue a nascer! Vede, Irmãos, tremamos, Irmãos: não é garantido que o Reino entrará e crescerá e frutificará em mim! Que poder, o meu: eu posso matar o Reinado de Deus em mim! Mas, atenção, porque se o Reino não entrar em mim, eu não entrarei no Reino!
(3) O Reino, mesmo para aqueles que o acolhem, terá fecundidades diferentes, dependendo do modo, da generosidade, com que ele é acolhido: pode dar muito fruto ou pouco fruto... Que fruto está dando na tua vida, Irmão amado em Cristo, o divino Semeador?
Por fim, como é misteriosa a justificativa de Jesus para falar em parábolas: é para que falando de modo poético e figurado, fique sempre o espaço para que os de boa vontade se encantem e acolham e compreendam, e os de má vontade, de vez, virem o rosto, e se fechem e se afastem! Que mistério, que encontro: a graça do Deus que semeia largamente e a liberdade do homem em acolher ou refutar!
Uma coisa é certa, amados: esse Reino, semeado agora humildemente, entre as dores e tribulações de uma humanidade e de uma criação em dores de parto, como diz a segunda leitura, um dia desabrochará na plenitude de sua potência e de sua glória, de modo que toda a criação e nós mesmos no nosso corpo, seremos totalmente transfigurados pelo Espírito Santo de Cristo, que é a Força mesma da semente do Reino, a Energia mesma que faz a semente brotar, crescer e frutificar em fruto de Vida eterna!
Assim, caríssimos, não duvidemos da força do Reino: tão humilde agora, um dia, no Dia de Cristo, ele desabrochará com toda a força da Glória de Deus! Não nos esqueçamos: a Palavra do nosso Deus é viva e eficaz, como a chuva que, descendo do céu, irriga a terra e faz brotar a semente!

Que nos resta dizer? Venha, Senhor Deus, o Teu Reino! Dá-nos um coração pobre, humilde, disponível para acolher a boa semente da Palavra do Teu Cristo, de modo que, escutando a Sua santa Palavra, Tu possas reinar em nós e demos frutos de Vida eterna, pois Teu é o Reino, o Poder e a Glória para sempre. Amém!