quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Retiro Quaresmal 2020/1 - Introdução

Quarta-feira de cinzas

“Felizes aqueles que se abrigam no Senhor!” (Sl 2,12)


Caro Amigo, Irmão no Senhor,

Já há alguns anos, tenho oferecido aos que frequentam minhas redes sociais – site, blog, twitter, instagram e facebook – um caminho quaresmal, sempre comentando algum livro das Escrituras Sagradas. Este ano não será diferente: a partir de amanhã, quinta-feira após as cinzas, iremos juntos percorrer os livros de Tobias, Judite e Ester. São narrativas edificantes, escritas sob a inspiração do Espírito de Cristo para alimentar a fé e a piedade do antigo Povo de Deus em momentos de aflição e grandes provações. Estes livros ainda hoje têm esta utilidade no coração da Igreja, novo Israel, novo Povo de Deus. São livros profundamente comoventes e edificantes, que nos incitam à confiança no Senhor e a uma vida de piedade.

Infelizmente, estes livros sagrados, utilizados pelos Santos Padres da Igreja Antiga, foram retirados das Escrituras pela tradição protestante, privando muitos cristãos não somente de uma parte da Palavra de Deus, mas também de narrativas verdadeiramente edificantes e salutares para nos motivar na entrega ao Senhor e na confiança absoluta na Sua fidelidade. Temas como a prática fiel da religião, a oração, a esmola, o jejum, a humildade, a confiança no Senhor são recorrentes nestes três escritos.

Sobre estas três obras discute-se muito: não se sabe quem as escreveu, não se tem certeza sobre o quando ou o onde foram escritas. Também é impossível determinar o núcleo histórico, isto é, os acontecimentos que possam ter originado essas narrativas. Mas, nada disto nos deve preocupar minimamente. Importa realmente que são textos inspirados, são Palavra de Deus e nos ensinam verdadeiramente o caminho da Vida. Para elas vale plenamente o ensinamento do Apóstolo: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra” (2Tm 3,16). Por isto mesmo, nunca devemos deixar de perscrutar com ouvidos e coração abertos, procurando nas Santas Letras a Vida que nos vem do Cristo Senhor na potência do Seu Espírito. É isto que desejamos ao comentar estas três narrativas sagradas. Lendo-as com profundo espírito de fé e reverência, deixando-nos guiar pelo Espírito do Senhor, que inspirou as Escrituras e inspira a Igreja na sua leitura e interpretação, podemos recordar as palavras belíssimas do Profeta Baruc: “Felizes somos nós, Israel, pois aquilo que agrada a Deus a nós foi revelado” (4,4).

Então, com sede de ouvir o Senhor, com piedade e unção, a partir de amanhã, começaremos nosso caminho quaresmal rumo à santa Páscoa, tendo nas mãos Tobias, Judite e Ester. Que nos ajude o Senhor, dando a mim a iluminação do Espírito para escrever e comentar com fé e desejo de descobrir para os irmãos as riquezas da Palavra de Deus, e a você, a luz do Espírito para compreender, acolher e viver, pois as palavras do Senhor são palavras para serem colocadas em prática, tornando-se Palavra de Vida eterna!


Homilia para a Quarta-feira de Cinzas

Jl 2,12-18
Sl 50
2Cor 5,20 – 6,2
Mt 6,1-6.16-18

Caríssimos Irmãos no Senhor, chegou, para nós, mais uma vez, o grave tempo da Quaresma, o período sagrado que nos prepara para a maior e mais solene de todas as festas dos cristãos: a santa Páscoa da Paixão, Morte e Ressurreição do nosso Deus e Salvador, Jesus Cristo!
Não nos esqueçamos: este período de quarenta dias de penitência e combate espiritual não tem um fim em si mesmo: ele corre para a Páscoa como um rio corre para o mar: vivemos o tempo quaresmal com os olhos, o coração e do desejo firmes na Páscoa!
Devemos entrar nesta Quarentena santa conscientes de que somos guiados por Deus, como os israelitas nos quarenta anos a caminho da Terra Prometida, com a perseverança de Moisés, nos seus quarenta dias de jejum e oração sobre o Monte Sinai, com a confiança no Senhor Deus de Elias, ao caminhar para o Horeb, alimentado pelo pão do Céu, e, sobretudo, com o ânimo do nosso Senhor Jesus no Seu combate com o Diabo, logo no início do Seu ministério.

Escutemos com toda piedade, com temor e tremor, o Senhor que nos exorta: “Agora, diz o Senhor: Voltai para Mim!” Que significa voltar para o Senhor? Significa converter-se, sair de si mesmo, do próprio modo de pensar, falar, viver, dos seus vícios e pecados, significa ultrapassar nossa lógica estreita e até mesmo mundana, para ir ao encalço do Deus vivo, vivendo a Sua Vida, sendo verdadeiramente Seus amigos!
Irmãos, por desgraça, temos a mísera tendência de viver centrados em nós mesmos, presos na nossa lógica, estreitados na nossa mesquinha medida! Acolhamos o apelo do Senhor: “Rasgai o coração, deixai-vos reconciliar com Deus!” O Deus vivo e santo nos ama, caríssimos; o Senhor importa-Se conosco, Irmãos; o Senhor nos quer com Ele, deseja-nos salvos Nele! De tal modo nos ama que nos deu o Seu Filho; entregou-O por nós! Como não nos comover, admirados, ante a afirmação do Apóstolo, na segunda leitura de hoje? “Aquele que não cometeu pecado, Deus O fez pecado – isto é, vítima pelo pecado – por nós!” É muito amor pela Sua criatura, é muito compromisso conosco, com a nossa salvação, é muito desejo de levar-nos à plenitude para a qual fomos criados, apesar dos nossos pecados! Como ser indiferentes ao Senhor? Como duvidar do Seu amor? Como pensar que Ele não insista em nos procurar, nos converter, nos salvar? Ele entregou por nós o Seu Filho único, santo e bendito como vítima pelos nossos pecados! Como seríamos miseráveis se recebêssemos em vão tamanha prova de amor! Pois bem, “como colaboradores de Cristo, nós vos exortamos a não receberdes em vão a graça de Deus!” 

Recebê-la-emos com proveito se procurarmos verdadeiramente corrigir nossos vícios e pecados, neste Tempo favorável que o Altíssimo nos concede.
A Mãe católica nos prepara para tanto com a justiça da Quaresma, isto é, a observância quaresmal, ou seja, as práticas características deste período sagrado: a penitência, a oração e a esmola. Delas, o Senhor Jesus nos falou no Evangelho que escutamos nesta Eucaristia sagrada:

A oração, que deve ser sincera, brotando de um coração sedento de encontrar o Senhor, um coração humilde, dócil, obediente, cheio de amor pelo nosso Deus. A verdadeira oração é persistente e paciente, perseverante e cheia de confiança de que o Senhor Deus deseja e realiza sempre o melhor para nós, mesmo quando não compreendemos. A oração é uma luta, um combate, um esforço, uma disciplina, uma teimosia santa! Nesta Quaresma, procuremos rezar mais, sobretudo com os textos das Santas Escrituras e, de modo especial, os salmos, fazendo nossos os sentimentos do Cristo Jesus, que estão presentes neles.

O jejum e a penitência, sobretudo a mortificação no comer. Assim, com a graça do Senhor, aprenderemos a disciplinar nosso corpo, nossos desejos, instintos e afetos, deixando-nos guiar pelo mesmo Espírito que guiou o Cristo Jesus e nos transfigurará à imagem bendita do nosso Salvador. Atenção, Irmãos, que sem mortificação, sobretudo na comida, sem disciplina interior, sem renúncia, não há a menor possibilidade de uma verdadeira vida com Deus!

Por fim, a esmola e a caridade fraterna, de modo geral. De nada nos serviria a oração sem a mortificação que nos disciplina; de nada nos valeriam oração e penitência sem um coração aberto aos irmãos, sobretudo àqueles que mais necessitam de nós! Seja a nossa Quaresma um tempo de abrir o coração aos irmãos: um conselho, um afeto, um gesto de amor, um perdão, uma ajuda aos mais necessitados, um cuidado com os menos favorecidos nesta vida, um acolhimento a quem se encontra sozinho e abatido. Eis o que faz fecunda a nossa oração e coroa a nossa penitência! Eis a justiça que o Senhor espera de nós, Seus filhos e servos!

Neste tempo sagrado, cuidemos também de lutar contra os nossos pecados e vícios, aquelas más tendências que nos prendem e impedem de subir livremente ao Senhor. Sim, Irmãos, é tempo de lutar contra o pecado. E isto vale para cada um de nós, individualmente, e para toda a Igreja. Digamos com o coração, exclamemos com os lábios, insistamos com o procedimento, dizendo: “Perdoa, Senhor, o Teu Povo, e não deixes que esta Tua herança sofra infâmia!” Que infâmia maior que sermos infiéis ao Senhor? Que desgraça maior que O trairmos com uma vida mundana, frouxa, desregrada, imoral? Que infidelidade mais infiel que buscar aplausos e elogios do mundo às custas de trair, deturpar e até mesmo esconder o santo Evangelho?

Vamos, meus caros! Procuremos viver santamente este tempo que hoje se inicia com um santo jejum e abstinência de carne! Não recebamos em vão a graça que o Senhor Deus nos oferece pelo Seu Filho Jesus, nosso Senhor! Que cada um prepare sua observância quaresmal decidindo no seu coração, com piedoso cuidado, o que fará neste Tempo favorável no tocante à oração, à penitência na comida, à esmola, ao combate aos vícios, às leituras santas das Escrituras sagradas. Assim, com toda a certeza, estaremos prontos para celebrar na liberdade interior e na alegria espiritual os santos mistérios pascais! Que no-lo conceda o Cristo nosso Deus, bendito com o Pai e o Santo Espírito, pelos séculos dos séculos. Amém.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A Quaresma: seu sentido, sua observância

Estamos para iniciar o sagrado tempo quaresmal. Explicarei alguns elementos deste tempo santo e farei algumas sugestões sobre o modo de bem vivê-la.
A Quaresma é um período de quarenta dias dedicados à abstinência de alimentos, visando fortalecer os cristãos para bem celebrarem a santa Páscoa. Inicia-se na Quarta-feira de Cinzas, prolongando-se até a Quinta-feira Santa, antes da Missa na Ceia do Senhor. Trata-se de um tempo privilegiado de conversão, combate espiritual, jejum e escuta da Palavra de Deus.

Na Igreja Antiga, este era o tempo no qual os catecúmenos (adultos que se preparavam para o Batismo) recebiam os últimos retoques em sua formação para a vida cristã: eles deveriam entregar-se a uma catequese mais intensa e aos exercícios de oração e penitência. Pouco a pouco, toda a comunidade cristã - isto é, os já batizados em Cristo -, começou a participar também deste caminho, tanto para unir-se aos catecúmenos, como para renovar em si a graça de seu próprio Batismo e o fervor da vida cristã, preparando-se, deste modo, para a santa Páscoa. Assim, surgiu a Quaresma: tempo no qual os cristãos, pela purificação e a oração, abstendo-se dos excessos na comida, buscam renovar sua conversão para celebrarem na alegria espiritual a santa Vigília de Páscoa, na madrugada do Domingo da Ressurreição, renovando suas promessas batismais.

As práticas da Quaresma

A oração: Neste tempo os cristãos se dedicam mais à oração. Uma boa prática é rezar diariamente um salmo ou, para os mais generosos, rezar todo o saltério no decorrer dos quarenta dias. Também seria muito bom rezar a Via Sacra às sextas-feiras!

A penitência: Todos os dias quaresmais (exceto os domingos!) são dias de penitência na alimentação. Cada um deve escolher uma pequena prática penitencial para este tempo. Por exemplo: renunciar a um lanche diariamente, ou a uma sobremesa, etc... Na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa os cristãos jejuam: o jejum nos faz recordar que somos frágeis e que a vida que temos é um dom de Deus, que deve ser vivida em união com Ele e para Ele. Os mais generosos podem jejuar todas as sextas-feiras da Quaresma. Farão muitíssimo bem! Recordemo-nos que às sextas-feiras os católicos não devem comer carne; e isto vale para o ano todo!

A esmola: Trata-se da caridade fraterna. Este tempo santo deve abrir nosso coração para os irmãos: esmola, capacidade de ajudar, visitar os doentes, aprender a escutar os outros, reconciliar-se com alguém de quem estamos afastados - eis algumas das coisas que se pode fazer neste sentido! É este cuidado, esta caridade para com os irmãos, sobretudo os necessitados, que dirá a verdade ou mentira da nossa procura de Deus e a autenticidade da nossa penitência!

A leitura da Palavra de Deus: Este é um tempo de escuta mais atenta da Palavra: o homem não vive somente de pão, mas de toda palavra saída da boca de Deus. Seria muitíssimo recomendável ler durante este tempo o Livro do Êxodo ou o Evangelho de São Mateus, que a Igreja está lendo nos domingos deste ano.

A conversão: “Eis o tempo da conversão!”, diz-nos São Paulo. Que cada um veja um vício, um ponto fraco, que o afasta de Cristo, e procure lutar, combatê-lo nesta Quaresma! É o que a Tradição ascética de Igreja chama de “combate espiritual” e “luta contra os demônios”. Nossos demônios são nossos vícios, nossas más tendências, que precisam ser combatidas. Os antigos davam o nome de sete demônios principais: a soberba, a avareza, a tristeza (hoje diz-se a inveja), a preguiça, a ira, a gula, a sensualidade. Estes demônios geram outros. Na Quaresma, é necessário identificar aqueles que são mais fortes em nós e combatê-los!

A liturgia da Quaresma

Este tempo sagrado é marcado por alguns sinais especiais nas celebrações da Igreja: A cor da liturgia é o roxo - sinal de sobriedade, penitência e conversão; não se canta o Glória nas missas (exceto nas solenidades e festas, quando houver); não se canta o aleluia que, sinal de alegria e júbilo, somente será cantado outra vez na Páscoa da Ressurreição; os cantos da Missa devem ter uma melodia simples; não é permitido que se toque nenhum instrumento musical, a não ser para sustentar o canto, em sinal de jejum dos nossos ouvidos, que devem ser mais atentos à Palavra de Deus; não é permitido usar flores nos altares, em sinal de despojamento e penitência (nos casamentos e outras festas as igrejas, devem ser enfeitadas com muita sobriedade!); a partir da quinta semana da Quaresma podem-se cobrir de roxo ou branco as imagens, em sinal de jejum dos sentido, sobretudo dos olhos.

O importante é que todas estas práticas nos levem a uma preparação séria e empenhada para o essencial: a Páscoa! As observâncias quaresmais não são atos folclóricos, mas instrumentos para nos fazer crescer no processo de conversão que nos leva ao conhecimento espiritual e ao amor de Cristo. Tenhamos em vista que o ponto alto do caminho quaresmal é a renovação das promessas batismais na Santa Vigília pascal e a celebração da Eucaristia de Páscoa nesta mesma Noite Santa, virada do sábado para o Domingo da Ressurreição.

Que todos possam ter uma intensa vivência quaresmal, para celebrarmos na alegria espiritual a santa Páscoa do Senhor!


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Fé e obras: somente no amor a Cristo

“Meus irmãos, se alguém disser que tem fé, mas não tem obras, que lhe aproveitará isso? Acaso a fé poderá salvá-lo? A fé, se não tiver obras, está completamente morta.Também os demônios creem, mas estremecem. Não foi pelas obras que nosso pai Abraão foi justificado ao oferecer o filho sobre o altar? A fé concorreu para suas obras e pelas obras é que a fé se realizou plenamente” (cf. Tg 2,14-23).

Muitas vezes, lemos estas afirmações de São Tiago pensando na controvérsia com os irmãos protestantes sobre a fé e as obras. Resultado: perdemos de vista o que o Apóstolo realmente nos quer ensinar.

De que fé nos fala São Tiago? De uma fé desprovida do amor ao Cristo Senhor, uma fé simplesmente teórica, fria, como a dos demônios, que sabem que Deus existe, sabem que Jesus Cristo feito homem é Senhor, mas não O aceitam nem O amam. Uma fé assim é morta, porque sem a sua alma, que é o amor, amor de Cristo em nós e amor feito nosso amor a Cristo. Este amor de que falo não é um sentimento, mas é o próprio Espírito Santo, Deus-Amor: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).
É o fogo do Espírito que afervora a fé como entrega a Deus pelo Cristo e se derrama em amor aos irmãos. Não é por acaso que São Tiago dá dois exemplos: o de Abraão, que sacrificou tudo quanto tinha de mais precioso sobre o altar por amor a Deus e o do cristão que, tendo fé, despreza os irmãos... Então, a fé amorosa tudo dá a Deus e, nesse amor, lava os pés dos irmãos em cuidado e ajuda.

Então, seja a fé quanto as obras somente servem para o Reino de Deus, somente salvam se forem fecundadas pelo amor a Cristo! Entre fé e obras não há oposição alguma, mas uma circularidade: a fé se mostra e aperfeiçoa nas obras e as obras somente são salvíficas se forem motivadas pela fé em Cristo e ambas, fé e obras, são fecundadas pelo amor, que é fruto do Espírito de Amor em nós (cf. Rm 5,5).

Toda esta temática apresentada por São Tiago nada tem a ver com a polêmica de São Paulo, que não pensa nas obras da fé em Cristo, obras fruto do Espírito de Cristo, mas nas obras, isto é, nas observâncias da Lei de Moisés! Estas sim, estão superadas pela fé em nosso Senhor Jesus Cristo, fé que age pela caridade (cf. Gl 5,6), isto é, fé ativa, fé que não se resume a teoria, a palavras ou a sentimentos. Em outras palavras: quem crê, entregue-se com o coração, proclame com a boca e demonstre com a vida concreta que acolheu Jesus como Senhor, que Nele caminha, Nele tem a esperança e Nele funda a sua vida; e quem trabalha pelos necessitados, que o faça pela fé amorosa em Jesus nosso Senhor e para proclamar o Seu Nome santo. Sem isto, a fé é morta, sem isto, as ações não servem para o Reino de Deus! E isto vale para todos!

Homilia para o VII Domingo Comum - ano a

Lv 19,1-2.17-18
Sl 102
1Cor 3,16-23
Mt 5,38-48

Caríssimos irmãos no Senhor, mais uma vez estamos reunidos para a santa Eucaristia dominical, na qual encontramos o Ressuscitado, alimentamo-nos da Sua palavra e nutrimo-nos do Seu Corpo sagrado. Com efeito, Ele está conosco, Ele nos fala, Ele Se nos dá, totalmente! Ouvir o Senhor, alimentar-se dele - pensai bem -, significa abrir-se para Ele porque Nele cremos. É isto crer, meus caros: viver abertos de verdade para o Senhor, deixando que Ele plasme a nossa vida, ilumine os nossos caminho, vá invadindo e transformando toda a nossa existência.

Se pensarmos bem, é a uma atitude assim que a Palavra de Deus hoje nos convida. O Senhor Deus nos diz: “Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”; depois, no Evangelho, insiste: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito!” Em outras palavras: sede como o vosso Deus, deixai-vos invadir por Ele, transformar por Ele! Deixai que Ele seja o lastro, o alicerce, o fundamento, o rumo da vossa vida! Crer Nele e deixar-se invadir por Ele, assumindo Seus sentimentos, Seus pensamentos, Seus desígnios: “Quem diz que permanece em Jesus Cristo, deve também caminhar como Ele caminhou” (1Jo 2,6).

Observai como, na primeira leitura, o Senhor Deus afirma: “Eu sou o Senhor!” Se Eu sou o Senhor para vós, sede santos como Eu, tende um coração como o Meu: não guardes ódio no coração, não te vingues, repreende o teu próximo com bom coração, ama de verdade o próximo como a ti mesmo!
Compreendeis, caríssimos? Não podemos dizer que Deus é o Senhor e, ao mesmo tempo, vivermos do nosso modo, como se nós próprios fôssemos o nosso Deus! Alguém que viva do seu modo,seguindo seus próprios critérios, alguém que se julgue o senhor do bem e do mal e veja, analise, julgue e aja de acordo com seus próprios pensamentos, gostos e prioridades, independente da vontade de Deus – e essa vontade de Deus não é teórica, distante, mas nos aparece nas Escrituras interpretadas pela Igreja com a autoridade de Cristo – alguém assim, mesmo que dissesse que acredita, não crê de verdade, não exprime na vida que Deus é seu Senhor! Ah, caríssimos, que há tantos crentes de nome e ateus de vida! Há tantos, como diz o Apóstolo, “que se comportam como inimigos da cruz de Cristo. O seu fim será a perdição; o seu deus, é o ventre; e sua glória, eles a põem na própria ignomínia, já que só levam a peito as coisas da terra” (Fl 3,18-19). Crer de verdade é viver na vontade do Senhor, abertos ao Senhor, àquele Deus Santo que Se manifestou como Poder, Santidade, Sabedoria e Salvação na fraqueza, na maldição, na loucura e na perdição da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo!

A mesma ideia aparece na segunda leitura de hoje: vede como São Paulo nos convida a ter plena consciência de que não nos pertencemos: “Irmãos, acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?” Somos santuário de Deus, isto é, somos templo, morada do Seu Santo Espírito, aquele Espírito que Jesus Cristo morto e ressuscitado derramou em nossos corações desde o nosso Batismo. Então, como poderíamos viver do nosso jeito? Como poderíamos seguir a lógica da moda, da maioria, do mundo atual, politicamente correto? Como poderíamos abraçar a louca e tola sabedoria do mundo atual? Que palavras claras e escandalosas as do Apóstolo: “Ninguém se iluda: se algum de vós pensa que é sábio nas coisas deste mundo, reconheça sua insensatez para se tornar sábio de verdade; pois a sabedoria deste mundo é insensatez diante de Deus!” O que significam tais palavras? É preciso deixar nossa lógica mundana para abraçar a lógica de Deus; e esta lógica – nunca esqueçamos, nunca deixemos de repetir - manifestar-se-á sempre e somente na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo! Era isto que o nosso bendito Salvador dizia no Domingo passado e continua a dizer neste hoje: a nossa religião tem que superar a dos escribas e fariseus! Lembrai-vos de oito dias atrás? “Se a vossa justiça, isto é, se o vosso modo de praticar a religião, de cumprir os preceitos, não for maior que a justiça dos escribas e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus!” Em que nossa prática deve ser maior? No modo de viver a religião: um modo interior, nascido do amor a Deus e aos irmãos; um amor que deixa de verdade Deus entrar, habitar em nós como num templo, nos questionar, nos transformar; uma prática da religião suscitada, sustentada, impulsionada, animada pelo Santo Espírito!
Observai, amados no Senhor, como o Cristo Jesus chama atenção não primeiramente para a letra do preceito, mas para o espírito, a intenção, a motivação com a qual se realiza o preceito: “Ouvistes o que foi dito: olho por olho, dente por dente” – tal preceito é justo, era a medida da justiça da Lei de Moisés e ainda hoje é a medida de todos os tribunais do mundo. Este preceito não é de vingança; é de justiça: um olho por um olho, um dente por um dente! “Eu, porém, vos digo: não só justiça, mas misericórdia, generosidade, porque vosso Deus é assim!” “Ouvistes o que foi dito: amarás a quem te ama, não tens obrigação para com teus inimigos. Eu, porém vos digo: amai a todos, amai sem esperar recompensa, porque o Coração do vosso Pai nos Céus é assim!” Abri-vos, pois, irmãos meus, abri-vos para Deus, aquele Deus que vos deu tudo quando vos deu o Filho Único, o Amado, até a morte e morte de Cr
uz!
Caríssimos, vivemos num mundo no qual o homem se colocou como o centro. Até mesmo na Igreja há tantas pessoas que pensam num cristianismo à medida do homem e do gosto das modas atuais. Há cristãos, há teólogos, há pastores que pensam assim: “Se fizermos como o mundo espera, vamos atrair o mundo para a Igreja; se fizermos adaptações no cristianismo e na Igreja ele se tornará atraente...” Não! É Cristo quem atrai, é Cristo crucificado e ressuscitado o critério! Não se trata de atrair para a Igreja, mas para o Jesus vivo e verdadeiro, com toda a Sua verdade, com todo o Seu amor, com toda a Sua exigência que nos liberta, nos tira de nós e nos dá a Vida em abundância! O resto é pensamento humano, vazio e estéril! Repito, caríssimos: o centro é Cristo Jesus que nos leva ao Pai: é Ele o critério, é Ele a medida, é Ele a única verdade! Quando nos deixamos transformar por Ele, somos livres de verdade e de verdade damos glória a Deus. Nunca esqueçais, amado meus: “Tudo vos pertence, tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus”. A Ele a glória pelos séculos. Amém.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O uso das sagradas imagens

Como ilustração, coloco, a seguir, algumas fotos para ilustrar o uso das imagens em todas as grandes comunidades cristãs da antiguidade.
Fiz questão de colocar comunidades que não estão em comunhão com a Igreja de Roma há cerca de 1000 anos - algumas há cerca de 1500 anos! Estas comunidades, como nós católicos, desde a antiguidade cristã utilizaram e utilizam imagens no seu culto. 
Esta é a verdadeira expressão da fé cristã, da qual não abriremos mão jamais, sob pena de falsear a autêntica Tradição da Igreja, recebida dos Apóstolos e mantida sob a guia do Santo Espírito do Ressuscitado! Ele inspira as Escrituras Santas e guia a Igreja na interpretação dessas mesmas Sagradas Escrituras!

Uma Missa na Igreja de Antioquia,
onde São Paulo viveu
e onde os discípulos de Cristo
foram chamados de "cristãos" pela primeira vez


Um ícone da Virgem Maria na Igreja Copta,
fundada por São Marcos Evangelista


As imagens sagradas na Igreja Armênia,
o primeiro povo a converter-se inteiro ao cristianismo


 A iconóstase numa igreja georgiana,
no coração da Ásia.





"Não farás para ti imagem esculpida..." (IV)

Depois de termos visto o Antigo e o Novo Testamento, vejamos agora a questão das imagens na Tradição da Igreja. 
Os cristãos, inspirados na Escritura, sobretudo no Novo Testamento, que é a plenitude a Revelação divina, sempre usaram pinturas e imagens.

Já nas antigas catacumbas cristãs da Roma antiga, no tempo dos mártires, podem ser encontradas imagens inspiradas em textos bíblicos: Noé salvo das águas do dilúvio, os três jovens cantando na fornalha, Daniel na cova dos leões, Susana, os pães e os peixes da multiplicação operada por Jesus, o peixe (= ICHTHYS), símbolo de Cristo. Na catacumba de Priscila, em Roma, pode-se ver ainda hoje uma pintura da Virgem com o Menino Jesus. Esta pintura é do início do século III, quando os cristãos ainda morriam torturados nos circos da Roma pagã para testemunharem sua fé no Senhor Jesus Cristo. Ainda dessa época é a pintura de um pastor tocando flauta, imagem de Cristo Pastor, Filho de Davi, e uma outra, do Bom Pastor, com a ovelhinha aos ombros.

As pinturas dos santos e das cenas bíblicas eram consideradas pelos cristãos não somente normal, como também educativa:

O desenho mudo sabe falar sobre as paredes das igrejas e ajuda grandemente (São Gregório de Nissa - séc. IV).
O que a Bíblia é para os que sabem ler, a imagem o é para os iletrados (São João Damasceno - séc. VIII).

Gregório Magno (séc. VII) repreendia o Bispo de Marselha:

Tu não devias quebrar o que foi colocado nas igrejas não para ser adorado, mas simplesmente para ser venerado. Uma coisa é adorar uma imagem, outra coisa é aprender, mediante essa imagem, a quem se dirigem as tuas preces. O que a Escritura é para aqueles que sabem ler, a imagem o é para os ignorantes; mediante essas imagens aprendem o caminho a seguir. A imagem é o livro daqueles que não sabem ler.

Entre os séculos VIII e IX surgiu, no entanto, a heresia iconoclasta. Influenciados pelo judaísmo, pelo islamismo e por seitas gnósticas cristãs, que negavam a verdade da Encarnação do Verbo divino e, portanto, que Cristo Se tivesse realmente feito homem de carne e osso, com um corpo material, os iconoclastas passaram a negar a legitimidade das imagens sagradas. Os Bispos da Igreja de Cristo, então, reuniram-se no II Concílio de Niceia, em 787, afirmando a legitimidade e validade do culto das imagens, condenando a heresia iconoclasta. O Concílio distinguia entre latréia (= adoração), devida somente a Deus e proskynesis (= veneração) tributável aos santos e suas imagens já que estas os recordam e representam. Na reta doutrina cristã, o culto às imagens é relativo: só se explica e é aceitável na medida em que é tributado indiretamente àqueles que as imagens representam. Note-se que nesta época do II Concílio de Niceia não havia outra Igreja cristã, a não ser a Igreja católica, com exceção de pequenas facções heréticas que não aceitavam a divindade ou a humanidade de Cristo na sua totalidade.

Eis o ensinamento desse Concílio, inspirado pelo Espírito Santo:

Definimos... que, como as representações da Cruz... assim também as veneráveis e santas imagens, em pintura, em mosaico ou de qualquer matéria adequada, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus, nas casas e nas estradas... Quanto mais os fieis contemplarem essas representações, mais serão levados a recordar-se dos modelos originais, a se voltar para eles, a lhes testemunhar... uma veneração respeitosa, sem que com isto seja adoração, pois esta só convém, segundo a nossa fé, a Deus.

Esta é a doutrina da Escritura e da Igreja de Cristo sobre as imagens! E tal doutrina vem das origens! A Igreja permite as imagens de Cristo porque o próprio Deus Se fez imagem, em Jesus nosso Senhor: Ele, como já vimos é a imagem do Deus invisível. São João Damasceno (séc VIII) explicava:

Como fazer a imagem do Invisível?... Na medida em que Deus é invisível, não O represento por imagens; mas desde que viste o Incorpóreo feito homem (Deus feito homem em Jesus), podes fazer a imagem da forma humana; já que o Invisível Se tornou visível na carne, podes pintar a semelhança do invisível.

A ideia é clara: Deus fez-Se imagem para Si mesmo em Cristo, portanto, pode-se fazer imagem de Cristo! E a dos santos? Os santos são cristãos como qualquer outro, mas que tiveram a coragem de não se fechar para a graça de Cristo, fazendo de suas vidas uma imagem da vida de Cristo. Como dizia São Paulo:

Os que de antemão Deus conheceu, esses também predestinou a serem conformes à imagem do Seu Filho, a fim de ser Ele o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8,29).
Assim como trouxemos a imagem do homem terrestre, assim também traremos a imagem do Homem celeste (1Cor 15,49).

A ideia de Paulo é belíssima, profunda e central no cristianismo: como o homem trouxe em si a imagem do homem pecador, do primeiro Adão, agora, convertido e batizado, traz em si a imagem do Homem celeste, o novo Adão, Cristo Jesus. E quanto mais se vive a Vida nova de Cristo, mas se é conforme à imagem de Cristo
:
E nós todos que, com a face descoberta, refletimos num espelho a Glória do Senhor, somos transfigurados nessa mesma Imagem, cada vez mais resplandecente, pela ação do Senhor, que é Espírito (2Cor 3,18),
Vós vos desvestistes do homem velho com as sua práticas e vos revestistes do novo, que se renova para o conhecimento segundo a Imagem do seu Criador. Aí não há mais grego e judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro, cita, escravo, livre, mas Cristo é tudo em todos (Cl 3,9-11).

Os cristãos fazem imagens dos santos - particularmente da Virgem Maria - porque eles, com a sua vida, foram de tal modo abertos à graça de Cristo que se tornaram imagens vivas Daquele que é a Imagem do Deus invisível. Os santos tiveram a coragem de levar até às últimas conseqüências o apelo de Paulo: Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Fl 2,5).

Vê-se, assim, que a Igreja tem motivos de sobra para venerar as sagradas imagens. Tanto que Martinho Lutero (séc. XVI) principal fundador dos protestantes, apesar de errar em muitas de suas doutrinas, escrevendo sobre as imagens, na obra “Sobre a Ceia de Cristo”, afirmava o seguinte:

Tenho como algo deixado à livre escolha as imagens, os sinos, as vestes litúrgicas... e coisas semelhantes. Quem não os quer, deixe-os de lado, embora as imagens inspiradas pela Escritura e por histórias edificantes me pareçam muito úteis... Nada tenho em comum com os iconoclastas!

Penso que estas informações sejam suficientes para explicar o uso das imagens e refutar decididamente a calúnia de quem afirma que os católicos adoram imagens. Certamente, contudo, é necessário reconhecer que há pessoas que abusam e exageram na sua prática. Tais pessoas, no entanto, e tais práticas abusivas não são de acordo com o sentimento nem com a fé da Igreja de Cristo. Elas, certamente, não adoram as imagens, mas podem, por ignorância e má formação, cometer excessos na veneração às sagradas imagens. Por isso, a necessidade de uma catequese paciente e constante, neste e em outros pontos da doutrina cristã.