segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Neste último Domingo, o que nos falou o Senhor... (II)

Ao pequenino rebanho, o Senhor Jesus promete o Reino! Mas, o que significa tal promessa? O Senhor Deus somente reina em nós quando nos esvaziamos de nós mesmos e dos nossos apegos. Deus não pode reinar num coração cheio de si. Não pode porque respeita totalmente a nossa liberdade! Alguns versículos depois, o nosso Salvador exorta: “Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não fiquem velhas, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Pois onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lc 12,33s). Em resumo: esvaziai-vos de vós mesmos, deixai de endeusar coisas, pessoas, situações... Tudo passa, tudo é fugaz, tudo se consome...

Como poderemos, verdadeiramente, esvaziarmo-nos de nós mesmos? O Senhor indica um caminho: ter diante dos olhos, ter no coração que nossa vida aqui é passageira, que o definitivo é somente o Reino e no Reino: “Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede semelhantes a homens que esperam seu senhor voltar das núpcias, a fim de lhe abrir, logo que ele vier e bater” (Lc 12,35s). Rins cingidos, lâmpadas acesas: vigilância no meio da noite deste mundo; o coração fixo na bendita e fiel memória do Senhor que virá! É isto que dá ânimo, é isto que nos faz relativizar as coisas e situações deste mundo, mantendo-nos na viva consciência de que o Senhor vem ao nosso encontro!
É disto que trata a comovente primeira leitura deste Domingo, quando recorda os nossos pais quando da escravidão no Egito: “Aquela noite fora de antemão conhecida por nossos pais, para que tivessem ânimo, sabendo com certeza em que promessa haviam crido. Teu povo esperava já a salvação dos justos e a ruína dos inimigos... De comum acordo, estabeleceram esta lei divina: que os santos compartilhassem igualmente bens e perigos, e começaram a entoar os hinos dos Pais” (Sb 18,6s.9b). A firme certeza de que o Senhor viria e libertaria os justos, isto é, os Seus fieis, e puniria os ímpios, já fazia Israel cantar os louvores de Deus e caminhar unido, numa comunidade de irmãos, no caminho da vida!

Não esqueçamos: aqui estamos de passagem; lá, na plenitude do Reino, permaneceremos para sempre! Aqui semeamos, lá colheremos; aqui, as sementes, lá, os frutos; aqui, a penumbra da fé, lá a claridade da visão, aqui, os primeiros tímidos raios da aurora, lá o dia pleno... E, no entanto, ainda vivendo aqui, na penumbra, na aurora de luz ainda indecisa, nunca esqueçamos: “Vós, meus irmãos, não andais em trevas, de modo que esse Dia vos surpreenda como um ladrão; pois todos vós sois filhos da luz, filhos do Dia. Não somos da noite nem das trevas” (1Ts 5,4s).


Neste último Domingo, o que nos falou o Senhor... (I)

Ontem, no Evangelho, o Senhor nosso, Jesus Cristo, ao mesmo tempo nos consolava e nos exortava: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino” (Lc 12,32).

Primeiramente, o Senhor nos chama a nós, “Seus discípulos” (Lc 12,22) de “pequenino rebanho”.

Por que, “pequenino rebanho”?

Primeiro, porque sempre seremos poucos, uma minoria, dispersa por toda a terra, “estrangeiros da Dispersão”, como disse o Apóstolo São Pedro, na sua Primeira Carta (1,1). Nós não temos aqui na terra Cidade permanente: estamos a caminho, à procura daquela definitiva, que está para vir (cf. Hb 13,14). Somos como os nossos pais, tão belamente evocados na primeira leitura (cf. Hb 11,1-2.8-19): viveram de fé, viveram tendo o Senhor como sua única certeza, como sua riqueza e esperança; viveram sem construir casas, vivendo debaixo de tendas provisórias! Isto nós somos também: estrangeiros neste mundo, pois nossa pátria é o Céu, pobres, pois nossa riqueza definitiva é o Senhor. Ele mesmo nos exorta a isto: “Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não fiquem velhas, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Pois onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lc 12,33s). Eis o pequenino rebanho: uns poucos, que têm em Deus sua certeza, sua segurança, sua esperança; uns poucos cuja existência não é alicerçada em seguranças da terra, mas no Céu de onde esperam sempre a salvação!

Também somos “pequenino rebanho” porque é como dizia o Apóstolo São Paulo: “Vede quem sois, irmãos, que recebestes o chamado de Deus; não há entre. Vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família prestigiosa” (1Cor 1,26). A verdade é que não existe nem deve existir uma Igreja de Cristo poderosa, forte grupo de pressão, que grita e impõe! Pode até aparecer, na casca, como fenômeno, como aparência tristemente visível uma Igreja assim – e já apareceu tantas vezes na história; e ainda hoje tantos e tantos, à direita e à esquerda, têm saudades disto! Mas, a Igreja, verdadeiramente, no seu núcleo mais puro e verdadeiro, será sempre aquele rebanho pequeno, que encontra no Senhor a sua força, a sua riqueza, o seu alicerce, a sua razão de ser, o seu tesouro: “Deixarei em teu seio um povo humilde e pobre, e procurará refúgio no Nome do Senhor, o Resto de Israel” (Sf 3,12s). É este Resto, inquieto, esperançoso no Senhor, saudoso do Senhor, teimoso, fiel, que se alimenta da Palavra do Senhor e dos Seus santos Mistérios sacramentais; é este Resto, que não confunde o Evangelho com faniquitos ideológicos de momento, que não procura glória mundana, triunfos mundanos nem aplausos dos bem pensantes de ocasião, que não coloca esperança ou salvação em modas ideológicas pomposas, sedutoras, ilusórias e fugazes, mas somente no Senhor, no Eterno, no Vencedor da Morte; é este o “pequenino rebanho” que receberá o Reino!

“Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino” (Lc 12,32).
Por que este pequenino rebanho, núcleo duro da Igreja de Cristo, é que receberá o Reino?
Simplesmente porque não se distraindo do essencial, não desviando os olhos do Cristo Jesus, mas “com os olhos fixos Naquele que é o Iniciador e Consumador da fé, Jesus” (Hb 12,2), não se deixa seduzir pelo mundo e o mundano,
não tira os olhos do único necessário,
não desvia o olhar e o coração do Cristo Jesus,
não se distrai da meta,
não se fecha em si mesmo e nas suas ideias, mas permanece ouvindo como um discípulo,
persiste em crer no Senhor, em procurá-Lo na oração, em esperar Nele, mesmo que tudo pareça perdido,
conserva fielmente no coração a fé católica e apostólica, sem paganizá-la ou fazer concessões mundanas,
teima em avaliar o mundo segundo Cristo e não mundanizar o santo Evangelho do Senhor, deturpando-o,
suporta as tremendas demoras de Deus, correndo com perseverança humilde a corrida que o Senhor nos faz correr (cf. Hb 12,1).

Este é o rebanho pobre, humilde, que não conta para o mundo, que não é querido pelos grandes e sábios do mundo; estes são os que muitas vezes não têm vez sequer no meio de muitos irmãos... Sendo nada, esvaziando de si próprios, eles vão abrindo-se para o Senhor Deus e deixando que Ele reine verdadeiramente nas suas vidas. E, então, o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo reina no coração deles e entre eles! “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino” (Lc 12,32).



sábado, 10 de agosto de 2019

Homilia para o XIX Domingo Comum - ano c

Sb 18,6-9
Sl 32
Hb 11,1-2.8-19
Lc 12,32-48

Quando o Evangelho não nos é exigente?
Quando a Palavra de Deus não nos questiona?
A Escritura diz que “a Palavra de Deus é viva e eficaz, mais penetrante do qualquer espada de dois gumes; penetra até dividir alma e espírito, junturas e medulas. Ele julga as disposições e intenções do coração” (Hb 4,12).
A cada Domingo, fazemos experiência dessa exigência viva e eficaz da Palavra do Senhor em nossa vida. É o caso também deste hoje.

Comecemos com a advertência consoladora e carinhosa do Senhor Jesus: Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino”. Tão atual e necessária esta palavra! A fé cristã e a Igreja são tão combatidas atualmente, tão incompreendidas! Ataques externos; incertezas internas; calúnias externas, relativismos e radicalismos internos; ideologias externas, minando a fé internamente!
Cada vez mais, nossa sociedade se paganiza, cada vez mais rejeita o cristianismo, cada vez mais fortemente apostata da fé na qual foi plasmada e cada vez menos compreende o Evangelho e suas exigências. Com quanta força se contesta a moral cristã; com quanta ênfase se ressalta e propaga a fraqueza desse ou daquele membro da Igreja, sobretudo do clero... O interesse é um só: desmoralizar a Igreja como porta-voz do Evangelho. Desmoraliza-se a Igreja para calar-se e desmoralizar-se a moral cristã e suas exigências. E tudo isto tem reflexos internamente! Quantos filhos da Igreja, até mesmo pastores, pensam de modo mundano e falam pensamentos mundanos!
Olhemos o Crucificado, pensemos nas Suas exigências e recordemos o que o mundo pensa e diz: “Não queremos que Ele reine sobre nós!” (Lc 19,14) Pois, bem: a nós, pequeno rebanho - rebanho cada vez menor -, o Senhor exorta: “Não tenhais medo, pequenino rebanho!” Não temais o mundo pagão, não temais os escândalos, não temais vossas próprias infidelidades e fraquezas, não temais os sábios da sabedoria deste mundo, que não podem compreender as coisas de Deus (cf. 1Cor 1,21) e crucificaram e crucificam ainda o Senhor da Glória (cf. 1Cor 2,8). Não temais ante as dificuldades da vida e as incertezas na vida da Igreja!

Mas, como é possível resistir? É tão grande o combate; é tão dramática a batalha! As leituras da Missa de hoje dão-nos uma resposta emocionante. O Livro da Sabedoria nos recorda a noite da saída do Egito. Israel era um povinho, um bando de escravos, menos que nada, menos que ninguém... Como suportou o sofrimento? Como se conservou fiel a Deus? Como resistiu? Como não se dispersou? Resistiu porque colocou somente em Deu sua esperança: “A noite da libertação fora predita a nossos pais, para que, sabendo a que juramento tinham dado crédito, se conservassem intrépidos”. O povo de Deus, escravo no Egito, não duvidou da promessa que Deus fizera a Abraão; o povo esperou contra toda esperança e esperou no julgamento de Deus: “Os piedosos filhos dos bons fizeram este pacto divino: que os santos participariam solidariamente dos mesmos bens e dos mesmos perigos”. Um povo unido pela esperança em Deus e pela fé na Sua Palavra. 

A segunda leitura, da Carta aos Hebreus, também nos responde: a fé, mãe da esperança, foi a força dos amigos de Deus. “A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem”. Na fé, já possuímos, na fé, já tocamos com as mãos aquilo que o Senhor nos prometeu e nos preparou. Foi pela fé que nossos antepassados partiram, deixaram tudo; pela fé tiveram a coragem de viver errantes, morando em tendas, daqui para ali... Pela fé, viveram como estrangeiros nesse mundo, colocando toda esperança em Deus, que nos prepara uma Pátria melhor, no Céu; pela fé, Abraão, nosso pai, foi capaz de sacrificar seu filho único... Pela fé deles Deus não se envergonha deles, ao ser chamado o seu Deus”.

Vede, pois, Irmãos: o caminho que o Senhor nos propõe nunca foi fácil... Somente aqueles que tiveram a coragem de se deixar, de se abandonar, de se entregar, perseveraram até o fim. É o que o Senhor nosso, Jesus Cristo, nos propõe hoje: “Vendei vossos bens e dai esmola... Fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no Céu... Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas, como homens esperando seu senhor voltar. Ficai preparados!” Todas essas palavras nos convidam ao desapego, à vigilância, à atitude de disponibilidade, de entrega e esperança diante de Deus. E como tudo isso é difícil, num mundo que propõe como ideal de vida o conforto, a fartura de bens, o individualismo, a confiança somente no que se vê, a dispersão interior e exterior!
Dizei: como as crianças podem ter amor a Deus passando horas e horas diante dos filmes e desenhos animados pagãos? Como os adultos podem prender o coração às coisas de Deus, empanturrando-se de dispersão, de novelas e de futilidades mundanas? Como rezar bem se nos apegamos ao conforto desmesurado? Como manteremos nosso fervor dispersos em mil bobagens? Como permanecer atentos ao essencial se vivemos presos às distrações e escravidão das redes sociais? Como seremos realmente fortes na fé sem combater nossos vícios? Como estaremos prontos para levar a cruz na doença, nas dificuldades da vida conjugal, no desafio da educação dos filhos, na luta do combate aos vícios, na busca sincera de sermos retos, decentes e honestos por amor de Cristo? Como viver tudo isso sem a vigilância? Como permanecer firmes na fé católica sem a oração e a procura das coisas de Deus? O Senhor virá na noite desse mundo: “E caso chegue à meia-noite ou às três da madrugada, felizes serão” se nos encontrar vigilantes! Vigiemos, portanto!

Caríssimos, esta advertência é para todos, e de modo especial, para nós, pastores do rebanho, a quem o Senhor constituiu “administrador fiel e prudente”. Que não caiamos na ilusão de pensar: “Meu patrão está demorando” e nos entreguemos à infidelidade! Não temamos; vigiemos, sejamos fiéis até o fim! Não reneguemos o Evangelho! Permaneçamos fieis! – Eis o apelo do Senhor hoje!

Esta palavra vale também para os pais, servos que o Senhor colocou à frente de sua família. Que sejam conscientes da missão que receberam e transmitam aos seus filhos o testemunho de uma fé robusta e dos verdadeiros valores humanos e cristãos. E possam receber a recompensa dos servos bons e fiéis, aqui e por toda a Eternidade. Amém.



quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Alicerçados numa certeza (II)

Deixei, no precedente escrito meu, algumas indagações:

Não seria o cristianismo, não seria a nossa fé católica simplesmente mais uma possibilidade entre tantas, mais uma tentativa ilusória de explicar e enfrentar a existência?
Não seria mais lógico, mais tolerante afirmar, como o fazem as religiões do Extremo Oriente, que o Mistério, o Divino, não pode ser capturado, compreendido e, assim, toda religião é apenas um balbucio humano, tímido, provisório, imperfeito e incompleto sobre este Mistério que é a saudade visceral do coração humano?
Esta visão não seria mais madura, mais tolerante, mais de acordo com o multiculturalismo do mundo globalizado atual?
Uma religião como o cristianismo não seria uma pretensão intolerante de se julgar "dona da verdade"?

A Igreja, o cristianismo, não nasceu de uma procura filosófica, de uma teoria religiosa humana, de uma especulação para matar a saudade do coração e, muito, menos da intenção filantrópica de resolver os problemas da humanidade! Nada disto!

Tudo começou com um fato bem concreto, histórico, desconcertante, envolvendo gente concreta, gente simples, de pouca filosofia... Um fato, concreto como uma rocha, que mudou radicalmente a vida de alguns poucos e, depois, de tantos... Mudou a minha vida e, talvez, também a sua, meu leitor...
Pedro e João dele falaram, bem no iniciozinho do nosso caminho de Igreja neste mundo; falaram diante do Sinédrio de Israel. Eis o fato, eis o desconcerto: “O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, a Quem vós matastes suspendendo-O no Madeiro. Deus, porém, O exaltou com a Sua Direita, fazendo-O Chefe e Salvador. Nós somos testemunhas destas coisas, nós e o Espírito Santo!” (At 5,30ss).
Eis aqui o princípio de tudo: homens ignorantes, rudes, sem grande instrução religiosa nem posição social (cf. At 4,13) testemunharam corajosamente um fato, uma experiência objetiva que modificou para sempre a vida deles!

Pois bem: quando, na corrida da vida, o turbilhão de ideias e ideologias nos apoquentarem e ameaçarem nos desviar do essencial, recordemos a simplicidade do princípio, a concretude contundente das nossas origens:
Jesus de Nazaré pregador e taumaturgo, crucificado e morto em Jerusalém, numa sexta-feira, 7 de abril do ano 30, fez-Se ver, deixou-Se encontrar, veio ao encontro dos Seus, ressuscitado com Poder pelo Deus de Israel, a Quem chamava de Pai!
Ele mesmo, vivo, vitorioso, soberano, constituiu com autoridade, coragem e sabedoria os Doze primeiros, a ponto de todos eles viverem uma vida errante, despojada, anunciando feito loucos esta notícia incrível, até derramarem o sangue para testemunhar o que viram, ouviram, tocaram!

Cristão, sejas lá quem fores, tu não vieste de uma ideia, tua origem não se funda numa lenda ou numa qualquer ideologia mais ou menos esotérica, com a pretensão de salvar o mundo ou o planeta! Tu vens de Alguém concreto, tua fé se funda num anúncio e num testemunho selado com o próprio sangue! A tua esperança, a tua certeza, o critério das tuas escolhas, a razão do teu viver e do teu agir fundam-se na Pessoa adorável de Jesus nosso Senhor, morto pelos nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação (cf. Rm 4,25).
Atenção, cristão, para não confundires nunca a verdade do Evangelho que te foi anunciado com as fantasias e opiniões tão provisórias deste mundo! Nunca permitas que mudem, adulterem ou escanteiem o sentido primitivo e definitivo da nossa fé e da nossa esperança: o amor a Jesus nosso Senhor como nosso Senhor e Deus, nossa certeza nesta vida e nossa eterna Vida de ressurreição no mundo que há de vir! Recorda-te: os céus e a terra passarão, mas o que te foi anunciado - concreto, verdadeiro, desconcertante! - jamais passará!


"Eu irei ao Altar de Deus, ao Deus que alegra a minha juventude".

Um sacerdote africano enfrentando obstáculos para celebrar o Sacrifício eucarístico com a Igreja e pela Igreja e o mundo inteiro...


Isto não aparece nos meios de comunicação,
isto não faz sucesso...
Isto fica guardado para a Eternidade no Coração de Deus!
Feliz a comunidade que tem um padre assim!

Alicerçados numa certeza (I)

Vivemos num mundo de tantas ideias, diversas, desencontradas e contraditórias... Mil visões sobre a realidade que nos envolve: tem-se opiniões e teorias sobre o universo, sobre a natureza, sobre a história e suas leis, sobre a biologia e ecologia, sobre o psiquismo humano, o sentido da sexualidade, da cultura... No entanto, nenhuma dessas ideias explica e engloba o todo da realidade, nenhuma satisfaz realmente o nosso coração, com suas perguntas infindáveis...

Que fique claro: as ciências não poderão jamais desvendar o sentido da realidade e da vida! Poderão oferecer alguns modelos de interpretação; modelos parciais, provisórios, bem setoriais! Mas, o Sentido mesmo, envolto em Mistério, jamais ciência alguma poderá desvendar! Mais ainda: se tiver tal pretensão, descambará no puro e simples charlatanismo!

Também as religiões: tantas! E agora, com a globalização dos meios de comunicação, das redes sociais e a inédita intensidade de deslocamentos humanos, vamos nos dando conta da diversidade impressionante do modo como a humanidade concebe o Divino, o sagrado e suas relações com Ele...

Até mesmo no interior do próprio cristianismo: nunca se viu tantas denominações, tantas seitas, tantas “igrejas” pegue-e-pague como agora! Ao lado de denominações sérias, há tantas "igrejas" de araque, pastores de araque, missionários de araque com milagres de araque e promessas de araque... Triste vulgarização de coisas tão sérias!
Religião é algo muito sério, pois envolve a busca do Sentido que ilumina de modo global a realidade, a vida e a morte! Religião, no seu sentido mais nobre, não é para solucionar problemas, mas para nortear a existência!

Ante tal realidade tão complexa e inusitada, não são poucos os que se sentem perplexos e se questionando se existe mesmo a "Verdade" e a "religião verdadeira". Não seria o cristianismo, não seria a nossa fé católica simplesmente mais uma possibilidade entre tantas, apenas mais uma tentativa ilusória de explicar e enfrentar a existência?
Não seria mais lógico, mais tolerante afirmar, como o fazem as religiões do Extremo Oriente, que o Mistério, o Divino não pode ser capturado, compreendido e, assim, toda religião é apenas um balbucio humano, tímido, provisório, imperfeito e incompleto sobre este Mistério que é a saudade visceral do coração humano? Esta visão não seria mais madura, mais tolerante, mais de acordo com a multiculturalidade do mundo globalizado atual?
Uma religião como o cristianismo não seria uma pretensão intolerante de se julgar "dona da verdade"?

Deixo estas perguntas... Num texto seguinte, neste mesmo espaço, concluirei estes pensamentos...



terça-feira, 6 de agosto de 2019

Homilia para a Festa da Transfiguração do Senhor

Na liturgia católica, este 6 de agosto é Festa da Transfiguração do Senhor. 

Eis-nos, portanto, caríssimos, com Pedro, Tiago e João, ante o Senhor nosso Jesus Cristo, envolvido pela Nuvem luminosa (cf. Lc 9,31), que cobre os discípulos com Sua sombra, como cobriu a Virgem Maria na Anunciação; eis o Senhor Jesus totalmente transfigurado, com vestes brilhantes e alvas “como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar” (Mc 9,3); eis Jesus ladeado por Moisés e Elias, totalmente glorificados na Glória do Senhor nosso Salvador...
Que significa, caríssimos, este belíssimo Mistério?

Como o Deus Santo de Israel, sobre o Monte Sinai, que revelou Sua Glória a Moisés e depois a Elias, assim também hoje, no Monte Tabor, Jesus revela a Sua Glória, a Glória de Filho de Deus, a Glória divina que é Sua, mas que se escondia na Sua pobre condição humana de Servo, por Ele assumida para nos salvar: “O Verbo Se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a Sua Glória, Glória que Ele tem junto ao Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14).

Hoje, caríssimos, o Pai, envolvendo o Filho Amado com a Nuvem, símbolo do Santo Espírito, nos revela antecipadamente a Glória que Jesus nosso Senhor, na Sua natureza humana igual à nossa, teria depois da Ressurreição: “Efetivamente, Ele recebeu honra e glória da parte de Deus Pai, quando do seio da esplêndida Glória se fez ouvir aquela voz que dizia: ‘Este é o Meu Filho bem-amado, no qual ponho o Meu bem-querer’” (2Pd 1,17).

Olhemos para Jesus: Ele é divino, Ele é o Filho amado, igual ao Pai em glória; Ele é o nosso Deus Salvador!
Se Moisés e Elias, sobre o Monte Horeb, não puderam ver o Rosto de Deus, agora, no Tabor, eles contemplam, com o rosto descoberto, a Glória fulgurante de Deus que se manifesta na Face de Cristo! Realiza-se de modo admirável nestes dois amigos de Deus da Antiga Aliança, o que nos é prometido a todos, na Nova e Eterna Aliança: “Todos nós, que com a face descoberta, contemplamos como num espelho a Glória do Senhor, somos transfigurados nesta mesma imagem, cada vez mais resplandecente, pela ação do Senhor, que é Espírito” (2Cor 3,18).

Eis, meus caros irmãos: em Cristo, Deus Se revelou a nós, que Nele cremos e Nele fomos batizados, recebendo o Seu Espírito; em Cristo, Deus veio ao nosso encontro! Ele Se fez um de nós, assumiu nossa pobreza humana para nos enriquecer com a Glória da Sua divindade. E essa Glória, Ele no-la mostra hoje sobre o Tabor; essa Glória é o nosso destino, é a nossa herança! Na Ceia derradeira, pensando no Espírito de Glória que derramaria sobre Seus discípulos de todos os tempos nos sacramentos da Igreja, o Senhor nosso diria: “Eu lhes dei a Glória que Tu me deste” (Jo,17,21). Esta Glória, nós já a possuímos realmente, mesmo que, neste mundo, ainda vejamos o Senhor de modo imperfeito, como num espelho, pois ainda “caminhamos pela fé e não pela visão (2Cor 5,7).

Mas, atenção! Nos três evangelhos que narram a Transfiguração, está dito que esta manifestação gloriosa do Senhor aconteceu pouco depois do primeiro anúncio da Sua Paixão. O que isso quer dizer? Duas coisas importantíssimas:

Primeiro, que a Paixão não é um fim, a Paixão não é derrota, mas o modo que Deus tem de vencer; a Paixão é caminho para a Glória.
E aqui, precisamente, a segunda lição: não se pode entrar na Glória de Cristo sem passar pela Cruz do Senhor; como dizia São João da Cruz: “Quem não ama a Cruz de Cristo, não verá a Glória de Cristo!”
Glória de Cristo sem cruz, sem conversão, sem combate, sem sair de nós e de nossas medidas, simplesmente não é possível; seria uma ilusão, uma mentira! Anunciar uma salvação em Cristo, uma participação na Glória de Cristo, sem conversão, sem abraçar a Cruz de Cristo, seria uma falsa propaganda, um falso evangelho! Não é por acaso que Jesus proíbe os discípulos de contar o que eles viram sobre o Monte “até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos”. É que jamais se poderá compreender a Glória de Cristo sem antes se ter participado do mistério de Sua Cruz.
Uma glória sem a experiência da cruz seria triunfalista, antievangélica, idolátrica, mundana. Somente a Glória que brota do amor da Cruz é divina, verdadeira, libertadora, humanizadora, reveladora do Coração do Pai! Do mesmo modo, não é por acaso que Pedro, Tiago e João, que estiveram com Jesus no Tabor, deveriam também estar com Ele no Monte das Oliveiras, convidados a fazer-Lhe companhia no momento em que Ele “começou a apavorar-Se e a angustiar-Se” (Mc 14,33). Infelizmente, aqueles lá - como nós tantas vezes -, no Tabor queriam armar tendas e ficar ali; nas Oliveiras, dormiram e deixaram Jesus sozinho...

Eis, caríssimos, o sentido do Mistério de hoje! Cristo feito homem é Deus verdadeiro, vivo e perfeito, é o Deus de Israel com rosto e coração humanos. Cristo, como aparece hoje no Tabor, já nos mostra a Glória que o transfiguraria para sempre. Cristo, envolvendo Moisés e Elias com a Sua Glória, revela que é Nele que a Lei e os profetas encontram a luz e chegam à plenitude. Cristo, inundando de luz a Seus discípulos, envolve-os na Sua Glória, revelando qual o nosso destino: participar da luz da Sua Glória por toda a eternidade! Mas, tudo isso, passando pelo mistério da cruz!

Hoje, estamos nós aqui, celebrando a Santa Eucaristia, sacrifício do Cordeiro morto e glorificado... Hoje, o Tabor é aqui; hoje, é aqui, nos sinais eucarísticos, que se manifesta a Glória do Senhor Jesus porque nos é dado o Espírito do Senhor, que eucaristiza, que transfigura, que transubstancia o pão e o vinho, elementos deste mundo, como a natureza humana de Jesus, em Corpo e Sangue do Cristo Senhor imolado e ressuscitado, pleno de Espírito de Glória! Comungando no Seu Corpo e no Seu Sangue é Sua Glória que nos inunda, é Sua graça que nos fortalece, é Sua Vida eterna e divina que nos revigora.
Mas, nunca esqueçamos: como o Cristo do Tabor era Aquele que haveria de morrer e ressuscitar, o Cristo da Eucaristia é o Cordeiro vivo mas quebrado, partido em Eucaristia, a nós dado na Sua amorosa imolação! É este mistério, irmãos amados, que devemos viver na nossa vida: trazer em nós continuamente a participação na paixão e morte do Senhor para que a Sua Glória e a Sua Vida vão nos inundando, vão transfigurando a nossa existência, as nossas experiências, até o Dia eterno, no Tabor eterno da Glória sem fim! Este é o caminho de Cristo, o único que é segundo o Evangelho! Por isso mesmo, o Pai nos adverte: “Este é o Meu Filho amado. Escutai o que Ele diz!” (Mc 9,7) Diz com a palavra, diz com os gestos, diz com a vida, diz com Sua Morte e Ressurreição. Então, escutar Jesus é predispor-se a participar do Seu caminho, do Seu destino de cruz e de glória, de morte e ressurreição.
Não sejamos amigos do Tabor e inimigos do Horto das Oliveiras! Não seríamos discípulos, não seríamos cristãos! Sustentemos os combates da vida com os olhos fixos em Cristo e, nas escuridões desta nossa humana peregrinação, tenhamos diante dos olhos a esperança da Glória de Cristo, “como lâmpada que brilha em lugar escuro, até clarear o Dia e levantar-se a Estrela da manhã”. Mas, que Estrela é essa, de que fala a Palavra de Deus? O Apocalipse responde, com as palavras do próprio Cristo glorioso: “Eu Sou o Rebento da estirpe de Davi, a brilhante Estrela da manhã” (Ap 22,16).
Eis, portanto: os tempos são maus, a confusão é grande, os inimigos da fé de dentro, solapando a verdade do Evangelho! Suportemos, unidos a Cristo, o combate, sabendo que “quando Cristo nossa Vida aparecer, seremos semelhantes a Ele, pois o veremos como Ele é” (1Jo 3,2). A Ele a glória, pelos séculos dos séculos. Amém.