sábado, 9 de agosto de 2014

XIX Domingo Comum: Tão misterioso, tão próximo, tão Salvador...

1Rs 19,9.11-13
Sl 85
Rm 9,1-5
Mt 14,22-23

A Escritura deste Domingo fala-nos de um Deus que é grande demais, misterioso demais, inesperado e surpreendente demais para que possamos enquadrá-Lo na nossa lógica e no nosso modo de pensar.
Eis, caríssimos! Uma grande tentação para o homem é achar que pode compreender o Senhor, enquadrar Seu modo de agir e dirigir o mundo com a nossa pobre e limitada lógica... Mas, o Deus verdadeiro, o Deus que Se revelou a Israel e mostrou plenamente o Seu Rosto em Jesus Cristo, não é assim! Ele é Misterioso, é Santo, é livre como o vento do deserto!

Pensemos nesta misteriosa e encantadora primeira leitura, do Livro dos Reis.
Elias, em crise, fugindo de Jezabel, caminha para o Horeb; ele quer encontrar suas origens, as fontes da fé de Israel, aquele mesmo Israel que já não sabia direito distinguir o Senhor, Deus verdadeiro, de um Baal qualquer (cf. 1Rs 18,21). Recordem que o Horeb é o mesmo monte Sinai, a Montanha de Deus.
Elias tem razão: nos momentos de dúvida, de crise, de escuridão, é indispensável voltar às origens, às raízes de nossa fé; é indispensável recordar o momento e a ocasião do nosso primeiro encontro com o Senhor e Nele reencontrar as forças, a inspiração e a coragem para continuar.

Pois bem, Elias volta ao Horeb, o Monte sagrado no qual o Senhor Deus veio ao encontro do Seu povo e com ele fez aliança; o Profeta aí volta procurando Deus. Lembrem que no caminho ele chegou a desanimar e pedir a morte: "Agora basta, Senhor! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais!" (1Rs 19,4). No entanto, o Senhor o forçou a continuar o caminho: "Levanta-te e come, pois tens ainda um longo caminho" (1Rs 19,7). Pois bem, Elias caminhou, teimou em procurar o seu Deus, mesmo com o coração cansado e em trevas; assim, chegou ao Monte de Deus!

Mas, também aí, no Seu Monte, Deus surpreende Elias – Deus sempre nos surpreende! O Profeta espera o Senhor e o Senhor Se revela, vai passar... Mas, não como Elias o esperava: não no vento impetuoso que força tudo e destrói tudo quanto encontra pela frente, não no terremoto que coloca tudo abaixo, não no fogo que tudo devora... Eis: três fenômenos que significam força, que causam temor, que fazem o homem abater-se... E o Senhor não estava aí. Muito tempo antes, quando foi entregar a Moisés as tábuas da Lei, Deus Se manifestara no fogo, no vento e no terremoto: "Houve trovões, relâmpagos e uma espessa nuvem sobre a montanha... E o povo estava com medo e pô-se a tremer... Toda a montanha do Sinai fumegava, porque o Senhor desceu sobre ela no fogo... e toda a montanha tremia violentamente" (Ex 19,16.18). Mas, agora, o Senhor não está no vento impetuoso nem no terremoto nem no fogo... Elias teve de reconhecê-Lo, de descobrir Sua misteriosa Presença no murmúrio da brisa suave, tão suave quanto a vida miúda do dia a dia...

– Ah, Senhor! Como Teus caminhos são imprevisíveis!
Quem pode Te reconhecer senão quem a Ti se converte?
Quem pode continuar Contigo se pensar em dobrar-Te à própria lógica e à própria medida?
Tu és livre demais, grande demais, surpreendente demais! Não há Deus além de Ti; Tu, que convertes e educas o nosso coração!
Elias Te reconheceu e cobriu o rosto com o manto, saiu ao Teu encontro e Te viu pelas costas... Pobres dos homens deste século XXI, que tão cheios de si mesmos, querem Te enquadrar à própria medida e, por isso, não Te veem, não Te reconhecem, não experimentam a alegria e a doçura da Tua Presença!

E, no entanto, meus irmãos, as surpresas de Deus não param por aí! O mais surpreendente ainda estava por vir. Não havia chegado ainda a plenitude do tempo! Pois bem! Na plenitude do tempo, veio a plenitude da graça: Deus, o Eterno, o Misterioso, o Santo, enviou o Seu Filho ao mundo; Ele veio pessoalmente! Não mais no vento, não mais no fogo, não mais no terremoto, não mais pelos profetas! Ele veio pessoalmente, Ele, em Jesus: "Quem Me vê, vê o Pai. Eu e o Pai somos uma coisa só" (Jo 14,9; 12,45). Por isso mesmo, São Paulo afirma hoje claramente que "Cristo, o qual está acima de todos, é Deus bendito para sempre!" É por essa fé que somos cristãos, meus irmãos! Jesus é Deus, o Deus Santo, o Deus Forte, o Deus Imortal, o Deus de nossos Pais! Nele o Pai criou todas as coisas, por Ele o Pai tirou Abraão de Ur dos Caldeus, por Ele o Pai abriu o Mar Vermelho, por Ele, deu o Maná ao Seu povo, sobre Ele fez os profetas falarem e, na plenitude dos tempos no-Lo enviou a nós! Surpreendente, o nosso Deus; surpreendente como vem a nós!

Lá vamos nós, lá vai a Igreja, barca dos Apóstolos, no meio da noite deste mundo, navegando com dificuldade porque a barca da vida é agitada pelos ventos... E Jesus vem ao nosso encontro, caminhando sobre as águas!
Em Jesus, Deus vem vindo ao nosso encontro, em Jesus, vem em nosso socorro... E, infelizmente, confundimo-Lo com um fantasma, etéreo, irreal. E Ele no diz mais uma vez: “Coragem! Sou eu! Não tenhais medo!” Atenção para esta frase do Senhor: “Coragem, EU SOU! Não tenhais medo!” EU SOU! É o nome do próprio Deus como Se revelou no deserto! Deus de Moisés, de Elias, Deus feito pessoalmente presente para nós em Jesus Cristo!

Então, caríssimos, digamos como Pedro: “Senhor, manda-me ir ao Teu encontro, caminhando sobre á água!” Ir ao encontro de Jesus, caminhando sobre as águas do mar da vida! Todos temos de pedir isso, de fazer isso!
Peçamos sim, como Pedro, mas não façamos como Pedro que, desviando o olhar de Jesus, colocando a atenção mais na profundeza do mar e na força do vento, no escuro da noite, que no poder amoroso e fiel do Senhor, começou a afundar! Assim acontecerá conosco, acontecerá com a Igreja, se medrosos, olharmos mais para o mar e a noite que para o Senhor que vem a nós com amor onipotente!

E Deus é tão bom que, ainda que às vezes, façamos a tolice de Pedro, podemos assim mesmo, como Pedro, gritar de todo o coração: “Senhor, salva-me!”

- Salva-nos, Senhor, porque somos de pouca fé!
Salva a Tua Igreja, salva cada um de nós das imensas águas do mar da vida, do sombrio e escuro mar encrespado na noite opaca de nossa existência!
Tu, que durante a noite oravas e vias o barco navegando com dificuldade, do Teu Céu, do Trono de Glória em que Te assentas, olha para nós e vem ao nosso encontro! E tu vens!
Sabemos que vens na graça da Palavra, no dom da Eucaristia e de tantos outros modos discretos...
Cristo-Deus, Amigo dos homens, benfeitor da humanidade, salvador do mundo, ajuda-nos a reconhecer-Te, a caminhar ao Teu encontro, vencendo as águas do mar da vida! Amém.

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