segunda-feira, 15 de abril de 2019

Guia de leituras das Escrituras para a Semana Santa

Caro Irmão, ofereço-lhe aqui um esquema de leituras da Sagrada Escritura para os dias do Santo Tríduo Pascal, para que você possa estar unido ao Cristo na celebração solene dos mistérios de Sua Paixão, Morte e Ressurreição.

Os números dos salmos entre parênteses são da Vulgata (e da Ave Maria). Os números fora dos parênteses são da Bíblia hebraica (e da Bíblia da CNBB, de Jerusalém e da TEB).


Quinta-feira Santa

Neste dia toda a atenção da Igreja se volta para o Cristo que na Ceia celebrou ritualmente a Páscoa com Seus discípulos: “Desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de sofrer...” (Lc 22,15). Aquilo que o Senhor fizera nos gestos rituais (lavar os pés aos Seus, entregar-Se no pão e no vinho) na Quinta, Ele realizou realmente na Sexta-feira. Recordemos que o Senhor fez Sua despedida no contexto da ceia pascal judaica, na qual os judeus faziam memorial da saída do Egito, libertação do Povo de Israel. Jesus, agora, sairia do mundo, passando (= fazendo a Páscoa) para o Pai, após atravessar o profundo e tenebroso mar da morte. Por tudo isso, para a Quinta-feira são recomendáveis os seguintes textos:

Para serem lidos antes da Missa na Ceia do Senhor:

1. Jo 13,1 – 14,31
É a emocionante e solene narração da Ceia segundo João. Procure unir-se aos sentimentos de Cristo; procure entrar no clima de despedida e comoção daquela Ceia derradeira.

2. Sl 113(112) – Sl 118(117)
Estes seis salmos formam o Hallel (= Louvor: Hallelu-Iah: louvai o Senhor) que os judeus cantavam ao término da Ceia pascal judaica. Jesus cantou-os neste dia, recordando tudo quanto Deus fizera pelo Seu Povo ao tirá-lo do Egito: “Depois de terem cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras” (Mc 14,26). Se não for possível rezar estes salmos antes da Missa na Ceia do Senhor, que eles sejam rezados logo após.
  
Para serem lidos após a Missa na Ceia do Senhor:

3. Jo 15,1 – 17,26
Estes discursos de Jesus devem ser lidos após a Missa na Ceia do Senhor e dos Salmos do Hallel. Procure lê-los com o coração, devagar, curtindo cada palavra do Senhor que Se entregou. É um discurso de despedida que termina com a Oração Sacerdotal de Jesus. Antes de ser entregue, Ele Se ofereceu por nós e por nós reza ao Pai. Foi assim, entregue, oferecido, imolado, que Ele Se deu na Eucaristia e na Cruz.

4. Salmos 6, 32(31), 38(37), 51(50), 102(101), 130(129) e 143(142)
Após a Ceia, Jesus entrou numa profunda agonia no Horto das Oliveiras. Seria ótimo terminar o dia com estes sete salmos. São os salmos penitenciais da Igreja. Reze-os por você, pela Igreja e pelo mundo inteiro, pelos quais o Cristo sofreu e Se entregou à Morte. Reze-os como se fosse o próprio Cristo rezando pela sua voz. É verdade que Ele não teve nenhum pecado, mas nunca esqueça: Ele assumiu verdadeiramente os nossos: "Aquele que não cometeu pecado, Deus O fez pecado por nós, para que Nele nos tornemos justiça de Deus" (2Cor 5,21).

Sexta-feira da Paixão do Senhor
Neste santíssimo dia de jejum e abstinência de carne, devemos manter um respeitoso recolhimento, unindo-nos piedosamente Àquele que por nós Se entregou até a morte. Nada de atividades inúteis, nada de músicas profanas, nada de televisão ou internet dispersiva, nada de conversas inúteis!

Antes da Celebração da Paixão

Pela manhã, preparando-se para participar à tarde da solene Ação Litúrgica da Paixão do Senhor, reze o seguinte:

1. Is 42,1-9; 49,1-7; 50,4-10; 52,13 – 53,12
São os quatro cânticos do Servo Sofredor. Eles prenunciam a Paixão do Senhor e revelam os sentimentos do Seu Coração bendito. Esses cânticos devem ser rezados com o “coração na mão”, com toda unção e devoção!

2. Salmos 21(22), 31(30) e 69(68)
Destes três salmos, dois (o 21/22 e o 30/31) foram citados por Jesus na Cruz. Os três revelam os Seus sentimentos, Ele, que tomou sobre Si todos os nossos pecados! Estes salmos devem ser rezados como que emprestando nossa voz ao próprio Cristo, reproduzindo em nós os Seus sentimentos benditos!

Após a Celebração da Paixão do Senhor:

3. Salmos 3, 5, 7, 10, 13(12), 17(16), 25(24), 27(26), 28(27), 35(34), 38(37), 42(41), 43(42), 54(53), 55(54), 56(55), 57(56), 59(58), 61(60), 63(64), 70(69), 71(70), 86(85), 88(87), 120(119), 140(139), 141(140), 142(141), 143(142)
Após a celebração da Paixão, ainda na Sexta-feira, procure rezar todos estes salmos. São muitos, mas recorde que este é um dia de penitência e oração. Estes salmos devem ser rezados em união com o Cristo, que assumindo nossos pecados, tomou toda nossa dor, todo nosso medo, toda nossa infidelidade, toda nossa fraqueza. Se você rezar todos estes salmos, terá a graça imensa de compreender por dentro os sentimentos do Cristo na Sua Paixão e Morte e irá dormir em paz, como Ele: “Em paz me deito e logo adormeço, porque só Tu, Senhor, me fazes viver em segurança” (Sl 4,9).

Sábado Santo
Neste dia tremendo a Igreja permanece em profundo silêncio, unida a Maria no dia mais difícil de sua vida: dia de solidão imensa, de vazio sem fim.... Mas também dia de esperança. Os mais generosos devem jejuar. Deve-se manter um respeitoso recolhimento; nada de atividades mundanas e dispersivas! Hoje, é proibida a comunhão eucarística até mesmo aos doentes. Somente os doentes moribundos, às portas da morte, podem comungar. A Igreja une-se a Cristo na Sua Descida aos infernos: Ele entrou de verdade na situação de cadáver, de defunto, de nada... Durante todo o dia, vá distribuindo os seguintes textos:

1. Todo o Livro das Lamentações
Neste livro, o Autor sagrado canta a miséria e a esperança de Jerusalém e a sua própria. É Cristo e a Igreja, quem cantam sua miséria e esperança, bem como a dor e a esperança da humanidade toda e de cada um de nós! Reze as Lamentações durante todo o dia, repartindo-as em cinco partes, de acordo com os capítulos.

2. Salmos 4, 16(15) e 139(138)
Estes três salmos devem ser rezados no Sábado à tardinha ou no início da noite, mas antes da Santa Vigília Pascal. Os três já prenunciam a Ressurreição: “Em paz Me deito e logo adormeço, porque só Tu, Senhor, Me fazes viver em segurança” (Sl 4,9), “Bendigo ao Senhor que Me aconselha, e mesmo à noite, Meus rins Me instruem. Meu coração exulta e Minha carne repousa em segurança.. Ensinar-Me-ás o caminho da Vida” (Sl 16[15], 79) e “Senhor, Tu conheces quando Me deito (na morte) e Me levanto (na ressurreição)... sobre Mim Tu pões a tua mão!” (Sl 139[138],2.5).

Domingo de Páscoa
Neste Dia santíssimo – o mais sagrado de todos, prenúncio do Dia sem fim, do Dia final – pode-se retomar os salmos da Santa Vigília!
Durante o dia todo, vá saboreando os textos que narram as aparições do Ressuscitado. Não tente compará-los nem fazer uma sequência histórica dos fatos. É impossível! Aqui, cada texto tem sua mensagem, sua característica própria, sua vibração, seu encanto... São textos para serem curtidos com pura emoção e gratidão, com pura louvação ao Deus fiel, que ressuscitou o seu Filho dentre os mortos, como primícias da ressurreição nossa e do mundo! Leia-os na ordem que eu coloquei:

Mt 18,1-20 com o Salmo 147(146-147)
Lc 24,1-53 com o Salmo 148
Mc 16,1-20 com o Salmo 149
Jo 20,1 – 21,25 com o Salmo 150

Durante toda a Oitava de Páscoa devemos nos desejar ardentemente “Feliz Páscoa!” Nossos irmãos orientais saúdam-se assim: “O Irmão Jesus ressuscitou!” e o outro responde: “Ressuscitou verdadeiramente!”

A você, querido(a) Irmão(ã), uma santa e abençoada Páscoa! Se eu pudesse, dar-lhe-ia pessoalmente um abraço! Neste Dia, por amor do Ressuscitado, perdoemo-nos, amemo-nos, deixemos os nossos vícios e pecados, renovemos nossa vida e nossas atitudes, sejamos novas criaturas!
Deixo para você estas palavras de lirismo insuperável da Noite Santa de Páscoa da Liturgia bizantina:

Dia da Ressurreição -
resplandeçamos, ó povos!
Páscoa do Senhor! Páscoa!
Cristo Deus nos fez passar
da morte à Vida, da terra ao Céu,
entoando o hino de Sua vitória!
Purifiquemos os sentidos e veremos
a Luz inacessível da Ressurreição
a Cristo resplandecente
que diz: Alegrai-vos!

Exultem os Céus e a terra.
Exulte o universo inteiro, visível e invisível:
Cristo ressuscitou. Alegria eterna!
Exultem os Céus e exulte a terra,
faça festa todo o universo
visível e invisível.
Alegria eterna,
porque Cristo ressuscitou!

Dia da Ressurreição -
resplandeçamos, ó povos:
Cristo ressuscitou dentre os mortos,
ferindo com Sua Morte a própria morte
e dando a vida aos mortos em seus túmulos.
Ressurgindo do túmulo,
como havia predito
Jesus nos deu a Vida eterna e a grande misericórdia!

Este é o Dia que o Senhor fez:
seja ele nossa alegria e nosso gozo!
Páscoa dulcíssima,
Páscoa do Senhor, Páscoa!
Uma Páscoa santíssima nos amanheceu.
Páscoa! Plenos de gozo,
abracemo-nos todos!
Ó Páscoa, que dissipas toda tristeza!
É o Dia da Ressurreição!
Irradiemos alegria por tal Festa,
abracemo-nos mutuamente
e chamemos de irmãos até àqueles que nos odeiam;
perdoemos-lhes tudo
por causa da Ressurreição,
e gritemos sem cessar dizendo:

Cristo ressuscitou dentre os mortos,
ferindo a morte com a Sua Morte
e dando a Vida aos mortos em seus túmulos!

domingo, 14 de abril de 2019

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Lucas - XVIII

Já era mais ou menos meio-dia e uma escuridão cobriu toda a terra até as três horas da tarde, pois o sol parou de brilhar. A cortina do Santuário rasgou-se pelo meio, e Jesus deu um forte grito: “Pai, em Tuas mãos entrego o Meu espírito”. Dizendo isso, expirou. O oficial do exército romano viu o que acontecera e glorificou a Deus, dizendo: “De fato! Este homem era justo!” E as multidões, que tinham acorrido para assistir, viram o que havia acontecido e voltaram para casa, batendo no peito. Todos os conhecidos de Jesus, bem como as mulheres que O acompanhavam desde a Galileia, ficaram à distância, olhando essas coisas (Lc 44-49).

Ao meio-dia, ao sol a pino, tudo se fez escuro. Escuro de uma escuridão diferente, aquela do coração, aquela de uma história humana marcada pelo pecado a ponto de tornar-se absurda! Era meio-dia e tudo estava escuro, porque o Sol que não tem ocaso encontrava-Se envolto nas trevas da dor, da irrisão, da morte! “É a vossa hora e o poder das trevas!”–  Quão grandes, quão densas as nossas trevas!

O véu do Templo, aquele que separava o Santo dos Santos dos Santos, rasgou-se pelo meio! Fato cheio de significado! Uma vez por ano o Sumo Sacerdote entrava no Santo dos Santos, atravessando o véu. Entrava com o sangue de um cordeiro para implorar o perdão pelo Povo de Israel. Tudo aquilo era uma profecia, uma imagem! Agora o verdadeiro Sumo Sacerdote, o nosso Jesus, iria entrar no Santuário dos Céus e não com o sangue de cordeiros, mas com o Seu próprio sangue e uma vez por todas, por toda a eternidade, para apresentá-lo ao Pai como perdão pela humanidade toda! Nunca esqueçamos: o Sacrifício da Cruz é um ato religioso, é um ato de culto, é um sacrifício sagrado, é a imolação do Cordeiro puro e santo que tira o pecado do mundo! E este Sacrifício bendito, o Senhor deixou para sempre no coração de Sua Igreja: toda vez que celebramos a santa Eucaristia, torna-se presente sobre o Altar a imolação do Senhor, torna-Se presente o Cordeiro morto e ressuscitado, entregue ao Pai para a Vida do mundo, como Sacrifício vivo e santo, único e irrepetível, mas sempre presente no coração da Igreja como louvor, ação de graças, expiação e salvação! Que nunca duvidemos, como fazem alguns sem fé, mesmo dentro da Igreja – dentro ao menos teoricamente: a Eucaristia é o próprio Sacrifício de Cristo, único e irrepetível, oferecido continuamente pela salvação nossa e do mundo inteiro! A Eucaristia não é uma simples ceia, não é uma festa! É um Sacrifício incruento e santo no qual o Filho Eterno torna presente a Sua oferta ao Pai na força do Santo Espírito. Este Sacrifício é celebrado ritualmente na forma de uma Banquete sagrado, de modo que o Altar da oferta é também Mesa da comunhão! Esta é a nossa fé. Só esta!

E Jesus morreu! Saiu deste mundo rezando como neste mundo entrou! Ao entrar no mundo, ao vir ao seio da Virgem, Ele mesmo dissera: “Tu não quiseste sacrifício, Tu formaste-Me um corpo! Eu venho, ó Pai, para fazer a Tua vontade!” E agora, aquele sim é consumado: Seu corpo, formado pelo Pai no seio de Maria, é ofertado na Cruz: “Eu Me entrego totalmente nas Tuas mãos, ó Pai, entrego-Te o Espírito Santo no qual Tu Me geraste no ventre da Virgem e que sobre Mim derramaste no Jordão! Entrego-Me a Ti, espero em Ti! Sei que Tu não Me deixarás nas sombras da morte!” Afirmar que Jesus entrou e saiu do mundo rezando é dizer que toda a Sua existência foi uma oração, foi vida vivida diante do Pai e para o Pai. Ele nunca viveu para Si, nunca Se poupou: tudo quanto foi, fez e disse, fê-lo para o Pai! Este deve ser o nosso modo de viver: viver na presença de Deus, viver conscientes de que Dele viemos e para Ele vamos; nunca viver fechados em nós e para nós! Só isto é viver de verdade, é viver na forma de Cristo!

São Lucas, ao narrar a Morte de Jesus, faz um jogo de palavras e de ideias: tudo estava escuro. Era treva. A Luz morrera. E, no entanto, “o oficial do exército romano viu”... “as multidões, que tinham acorrido para assistir, viram”... “todos os conhecidos de Jesus, bem como as mulheres que O acompanhavam desde a Galileia, ficaram à distância, olhando”... É como se a Morte do Senhor dissipasse a trevas daqueles corações: o oficial pagão viu, mesmo na treva, as multidões de judeus também viram e bateram no peito, as mulheres discípulas conseguiram olhar, mesmo na treva... – Jesus, que Tua morte nos dê Vida, que Tua Paixão nos alivie, que a treva da Morte em que entraste nos dê luz, a luz da verdade que enche de sentido a existência! Queremos ficar Contigo, Senhor, e, tendo contemplado a Tua santíssima Paixão, ficaremos na vigilância, à espera da Tua bendita Ressurreição!

Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos, porque pela Vossa santa Cruz remistes o mundo!


A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Lucas - XVII

Um dos malfeitores crucificados O insultava, dizendo: “Tu não és o Cristo? Salva-Te a Ti mesmo e a nós!” Mas o outro o repreendeu, dizendo: “Nem sequer temes a Deus, Tu que sofres a mesma condenação? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas Ele não fez nada de mal”. E acrescentou: “Jesus, lembra-Te de mim, quando entrares no Teu Reinado”. Jesus lhe respondeu: “Em verdade Eu te digo: ainda hoje estarás Comigo no Paraíso” (Lc 23,39-43).

Ladrão esperto, que rouba até a última hora: rouba o Coração de Cristo, rouba o Reino dos Céus! Primeiro, reconhece-se pecador: não procura mascarar seu crime. Sabe que Jesus é inocente, reconhece que Jesus não fez nada de mal. Depois, confessa seu pecado: “Estamos recebendo o que merecemos!” E, exatamente da consciência do próprio pecado, nasce o bendito e humilde pedido de misericórdia: “Jesus, lembra-Te de mim, quando entrares no Teu Reinado”. Escuta, então, as palavras mais consoladoras que alguém poderia ouvir na hora da morte: “Ainda hoje estarás Comigo no Paraíso!” Hoje estarás Comigo e, onde Eu estiver, aí está o teu paraíso, a alegria sem fim! Estar com Jesus, Dele não se separar nem na vida nem na morte: eis a maior esperança e a maior honra para o cristão!

– Senhor, que na hora de minha morte, naquela hora tremenda, de solidão total, eu possa também ouvir estas palavras: “Ainda hoje, estarás Comigo, pois que nem a vida nem a morte podem separar-te do Meu amor!” Mas, para isso, eu Te peço humildemente: “Jesus, lembra-Te de mim quando vieres no Teu Reino!”

Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos, porque pela Vossa santa Cruz remistes o mundo!


A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Lucas - XVI

Quando chegaram ao lugar chamado “Calvário”, ali crucificaram Jesus e os malfeitores: um à Sua direita e outro à sua esquerda. Jesus dizia: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” Depois fizeram um sorteio, repartindo entre si as roupas de Jesus. O povo permanecia lá, olhando. E até os chefes zombavam, dizendo: “A outros Ele salvou. Salve-Se a Si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido!” Os soldados também caçoavam Dele; aproximavam-se, ofereciam-Lhe vinagre, e diziam: “Se és o rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo!” Acima Dele havia um letreiro: “Este é o Rei dos Judeus” (Lc 23,33-38).

Jesus entre os malfeitores, Jesus, homem entre os homens: Aquele que não tem pecado Deus O tratou como pecado, como vítima pelo pecado, por nossa causa, para que fôssemos tornados justiça de Deus! Quem é Este, entre dois ladrões pecadores? É o Inocente que tomou a forma de Servo, a forma humana, é o Puro que entrou na fila dos pecadores, às margens do Jordão, para ser batizado por João no batismo de pecadores... Este é Aquele que tomou sobre Si as nossas dores e carregou-Se com as nossas iniquidades, Aquele, cujo castigo nos dá a paz e cujas feridas nos curaram!

Agora, Seu trono é a Cruz (“O Senhor Deus Lhe dará o trono de Davi, Seu Pai...”), agora, Ele está às portas da morte (“... e o seu Reino não terá fim”), Sua coroa é de espinhos, Seu manto é uma púrpura ridícula, Seu cetro é uma cana... – Jesus, quanto somos capazes de Te desfigurar, ainda hoje! Quanto somos capazes de Te deformar e Te ridicularizar! Todos os anos, pelo Natal e a Páscoa, os meios de comunicação do Ocidente apresentam matérias para desacreditar o cristianismo, para jogar no ridículo e na ignomínia os que são Teus! Todos os anos! A fraqueza de vários dos Teus discípulos, as manchas e pecados dos filhos da Igreja, são divulgadas, metodicamente, para gritar que morreste, para desmoralizar o Teu Evangelho, para esvaziar a força da Tu graça. Não se fala do bem que é feito, de tantas vidas a Ti consagradas, dos pés de tantos pobres do mundo, que os Teus discípulos, em Teu nome, lavam... Não! É preciso desmoralizar, desacreditar, ridicularizar! Que presente de Semana Santa, que surpresa de Páscoa! Dá-nos força para estar Contigo, para nunca Te deixar! Obrigado, Jesus amado, pela graça de participar da Tua Cruz e experimentar o que Tu sofreste: mentira, irrisão, armadilhas maldosas, difamação, calúnia, ridicularização. Perdoa- Senhor, os pecados dos filhos da Tua amada Igreja! Perdoa os ministros da tua Igreja que vivem indignamente! Por nossa causa, tantas vezes, o Teu Nome santíssimo é blasfemado! Queremos estar Contigo, queremos escutar aquela palavra tão consoladora: “Fostes vós que permanecestes Comigo em todas as Minhas tribulações!”

E Jesus, mesmo num drama tão medonho, numa situação tão triste, vítima da maldade humana, vítima das piores escuridões de nosso coração, ainda assim, conserva Seu Coração puro, Seu Coração todo amor ao Pai e aos homens: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” – Coração do meu Salvador, fornalha ardente de amor divino, fonte inexaurível de ternura, de misericórdia, de piedade! Dá-nos, Senhor a força de amar sempre, a força de nunca opor mal ao mal, ódio ao ódio! Recorda-nos sempre que a única força que pode vencer o ódio, o pecado, a mentira e a morte é o amor, este amor que nos revelaste e que agora Te faz rezar pelos que Te odeiam e, hoje como ontem, Te crucificam!

“O povo permanecia lá, olhando”... O povo olha, indiferente, somente assistindo, como a um teatro, enquanto Tu és esmagado! E, no entanto, esse povo são os judeus amados por Ti, o Povo da Primeira Aliança, o Povo escolhido e tão insensível, de cerviz tão dura... E por este Povo Tu dás a vida... Esse Povo também somos nós, é toda humanidade, tantas vezes tão indiferente ao Teu amor, aos Teus apelos, à Tua misericórdia! Perdão, Senhor! Perdão! Tua Cruz revela todo amor que Tu és e toda miséria que nós somos! Perdão!

“A outros Ele salvou. Salve-Se a Si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido!” Os soldados também caçoavam Dele; aproximavam-se, ofereciam-Lhe vinagre, e diziam: “Se és o rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo!” – Eis a voz de Satanás: “Salva-Te a Ti mesmo! Desce da Cruz! Prova que és o Cristo!” É a lógica do mundo: impor-se escapando da cruz, convencer pela mídia, pelo show, pela força da propaganda, pela mentira mil vezes repetida com ares de verdade e convicção... Mas, este não é o Teu caminho, Senhor santíssimo! Tu mesmo disseste: “Quem quiser salvar a própria vida vai perdê-la; quem perdê-la por Mim, vai encontrá-la!” Que caminho tão difícil, Jesus, esse que nos propões! E, no entanto, é o único caminho! Tu não Te salvarás a Ti mesmo, Tu irás até o fim na Tua entrega de amor! Ajuda-nos a ir contigo e com todos aqueles que por Teu Nome são pisados, como agora aqueles que procuram ser fieis à fé católica e apostólica! Senhor, és amor! Senhor, és perdão! Senhor, és entrega da própria vida! Ajuda-nos a ficar Contigo e a Te seguir! Amém.

Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos, porque pela Vossa santa Cruz remistes o mundo!


A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Lucas - XV

Enquanto levavam Jesus, pegaram um certo Simão, de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para carregá-la atrás de Jesus. Seguia-O uma grande multidão do povo e de mulheres que batiam no peito e choravam por Ele. Jesus, porém, voltou-Se e disse: “Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos! Porque dias virão em que se dirá: ‘Felizes as mulheres que nunca tiveram filhos, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram’. Então começarão a pedir às montanhas: ‘Cai sobre nós! e às colinas: ‘Escondei-nos!’ Porque, se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?” Levavam também outros dois malfeitores para serem mortos junto com Jesus (Lc 23,23-32).

Três grupos de personagens aparecem aqui. Cada um com algo a nos dizer...

Primeiro, Simão de Cirene, obrigado pelos soldados romanos a carregar a Cruz. Um absurdo, um ato de truculência. Mas Roma permitia que se obrigasse, desde que não fosse a um cidadão romano... E aquele homem de Cirene, sem saber, completava em si as dores do Salvador; sem nem imaginar, tornou-se ícone do que deve ser cada um de nós: aquele que leva com Jesus a Cruz, aquele que vai com Jesus até o Calvário. Esse Cireneu não conhecia Jesus e, ao que parece, ali, converteu-se. Não, não é uma suposição piedosa, esta minha! Há um indício precioso, comovente. São Marcos quando fala do Cireneu, afirma que ele era o pai de Alexandre e Rufo. Observe, meu Irmão, que o evangelista supõe que esses dois irmãos eram conhecidos na Comunidade cristã, eram cristãos. Sim, os filhos do Cireneu tornaram-se discípulos do Condenado, do Homem de dores. Não terá o velho Simão abraçado a fé? Marcos escreveu pelo ano 63 da nossa era, cerca de 34 anos após estes acontecimentos... Eu fico pensando no orgulho de Alexandre e Rufo no meio da Comunidade cristã: “Olha lá aqueles dois! O pai deles ajudou o Senhor a levar a Cruz! O pai deles, o velho Simão tocou no sangue do Salvador, juntou seu suor ao suor do Filho de Deus, repartiu com Ele o peso da Cruz”. – Dá-nos, Jesus, a honra que deste ao Cireneu, de levar contigo a Cruz nas cruzes da vida e nas cruzes dos irmãos, nos quais estás presente!

O segundo grupo: as mulheres. Sempre elas: mais sensíveis, mais intuitivas, mais humanas... Quantas execuções os romanos faziam por dia em Jerusalém? Quantos condenados elas já tinham visto passar por aquele caminho? E, no entanto, ainda choram, ainda se comovem, ainda lamentam! Ah se lamentássemos, sem nos acostumar, pelos pecados do mundo, pela injustiça, pela violência, pelos nossos meninos de rua, pelo descaso para com os pobres, pela destruição metódica das famílias... Elas permanecem gente, elas continuam sensíveis! E Jesus, esquecendo-Se de Si, as consola com uma consolação tremenda: “Filhas de Jerusalém, chorai por vós, que dais à luz pecadores num mundo de pecado! Eis: se o mundo faz isto Comigo, que sou o lenho verde, cheio de vida, o que não fará com vossos filhos? Vai enchê-los de drogas, de uma vida fútil, de imoralidade, de mil artefatos eletrônicos que preenchem o tempo e esvaziam o coração... Não choreis por Mim, que sei de onde vim e para onde vou, que não estou só porque o Pai está Comigo! Chorai por vós, chorai por vossos filhos!”

Depois, um terceiro grupo, discretamente apresentado: os dois malfeitores. Lucas é claro: aqueles dois lá não eram inocentes nem boa gente: eram malfeitores! O nosso Jesus querido é igualado a eles, é nivelado com eles!
– Quão baixo descestes, ó meu Redentor, para nos salvar! Bem que esses dois malfeitores nos representam bem! Eles somos nós, que tantas vezes fazemos o mal aos Teus olhos! Jesus humilhado, Jesus rejeitado, Jesus ridicularizado, Jesus moralmente espezinhado, pelas Tuas dores físicas e morais, cura nossas feridas, tem piedade de nós!

Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos, porque pela Vossa santa Cruz remistes o mundo!

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Lucas - XIV

Então Pilatos convocou os sumos sacerdotes, os chefes e o povo, e lhes disse: “Vós me trouxestes este homem como se fosse um agitador do povo. Pois bem! Já O interroguei diante de vós e não encontrei Nele nenhum dos crimes de que O acusais; nem Herodes, pois O mandou de volta para nós. Como podeis ver, Ele nada fez para merecer a morte. Portanto, vou castigá-Lo e O soltarei”. Toda a multidão começou a gritar: “Fora com Ele! Solta-nos Barrabás!” Barrabás tinha sido preso por causa de uma revolta na cidade e por homicídio. Pilatos falou outra vez à multidão, pois queria libertar Jesus. Mas eles gritavam: “Crucifica-O! Crucifica-O!” E Pilatos falou pela terceira vez: “Que mal fez este homem? Não encontrei Nele nenhum crime que mereça a morte. Portanto, vou castigá-Lo e O soltarei”. Eles, porém, continuaram a gritar com toda a força, pedindo que fosse crucificado. E a gritaria deles aumentava sempre mais. Então Pilatos decidiu que fosse feito o que eles pediam. Soltou o homem que eles queriam — aquele que fora preso por revolta e homicídio — e entregou Jesus à vontade deles (Lc 23,13-25).

Pilatos tinha consciência de que Jesus era inocente daquelas acusações políticas que Lhe faziam. Pressentia claramente que a questão era religiosa, disputas teológicas entre judeus. Por isso desejava libertar Jesus. Lucas, aqui, na sua narrativa, é muito incompleto. É preciso recorrer aos outros evangelhos, sobretudo aquele de João. Não foi o povo quem propôs que se soltasse Barrabás. Foi uma estratégia de Pilatos: Barrabás era um bandido perigoso, provavelmente temido e odiado. Se fosse colocado ao lado de Jesus, certamente o povo escolheria que se soltasse Jesus. Pilatos estava enganado. O ódio contra Jesus tinha sido bem disseminado. É tão fácil manipular a opinião das massas, é tão fácil tornar um inocente em alguém execrável. Basta a técnica, bastam pessoas sujas de intenções e consciência e meios de comunicação bem conjugados e igualmente sujos... E, assim, a multidão preferiu Barrabás, um bandido perigoso, a Jesus, o Inocente, o manso Cordeiro!

Há ainda um detalhe que Lucas não apresenta. Não foi uma simples gritaria que fez Pilatos entregar Jesus. A gritaria poderia ser resolvida a golpes de cacetetes pelos guardas. Certamente, Pilatos não tinha medo de gritaria... A questão foi outra, a trama foi bem armada pelos homens do Sinédrio de Israel: “Se O soltas não és amigo de César! Todo o que se faz rei é inimigo de César!” Os judeus colocaram Pilatos numa armadilha! Aqui existe uma ameaça velada a Pilatos: “Se tu soltares este homem, te denunciaremos a César, acusar-te-emos de fraqueza, de não defenderes os interesses do Imperador, deixando solto um perigoso revoltoso...” E Pilatos, covardemente, entregou Aquele que ele sabia inocente, para ser crucificado!

Tocamos, meu caro Irmão, como que apalpando, o mal do mundo! Não, não! O mundo não é bonzinho e a existência humana não é um passeio! Há o mal, tremendo, há a mentira, há a treva, há o cego ódio do coração humano, há interesses porcos, inconfessáveis, inclusive em muitos corações de gente de Igreja! Não foi à toa que o Cristo precisou morrer! Não foi por nada que o nosso Salvado nos ensinou a pedir ao Pai que nos livrasse do Maligno! Não foi por acaso que a salvação do mundo teve que passar pelo drama tão tremendo da Cruz e Morte do Senhor da Vida! “Vigiai e orai para que não entreis em tentação! É a vossa hora e o poder das trevas! Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro Me odiou a Mim!”

Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos, porque pela Vossa santa Cruz remistes o mundo!


sábado, 13 de abril de 2019

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Lucas - XIII

Herodes ficou muito contente ao ver Jesus, pois havia muito tempo desejava vê-Lo. Já ouvira falar a Seu respeito e esperava vê-Lo fazer algum milagre. Ele interrogou-O com muitas perguntas. Jesus, porém, nada lhe respondeu. Os sumos sacerdotes e os escribas estavam presentes e O acusavam com insistência. Herodes, com seus soldados, tratou Jesus com desprezo, zombou Dele, vestiu-O com uma roupa vistosa e mandou-O de volta a Pilatos. Naquele dia Herodes e Pilatos ficaram amigos um do outro, pois antes eram inimigos (Lc 23,8-12).

Herodes desejava conhecer Jesus, ver um milagre Seu, presenciar um show, um espetáculo, talvez um show da fé... Trata-se de um conhecimento exterior, sem amor, sem adesão. Um conhecimento assim não tem serventia alguma para o Reino de Deus e para a salvação.
Conhece Jesus quem crê Nele, conhece Jesus quem a Ele adere com toda a vida, conhece Jesus quem O ama e se dispõe a segui-Lo! Qualquer outro conhecimento, o de Herodes, o do filósofo descrente, o do teólogo racionalista e soberbo, o do ministro sagrado sem devoção e relativista, à procura de aprovação e aplauso do mundo, o do estudante de teologia sem unção, o do cristão sem piedade, é um conhecimento exterior, insuficiente, distorcido, falso; não passa de despiste, de fraude, de embuste!

Por isso mesmo, para Herodes não haverá milagre algum – não se pode encomendar milagre, não se pode fazer do milagre um show ou um circo! O nosso Senhor não Se presta a isto! Herodes não terá milagre e nem mesmo uma única palavra de Cristo, uma única resposta! O Senhor não responde a quem o indaga de modo soberbo e ímpio: para esses, Deus Se cala, Deus a esses lhe esconde o Rosto...

Herodes dispensa Jesus com uma roupa lustrosa, ridícula, de rei-palhaço... O Senhor mantém-Se silencioso. Quanta dignidade ante a superficialidade e a vulgaridade de Herodes e do mundo atual, que brinca com Deus e ridiculariza a fé cristã.

E naquele dia, na maldade, Pilatos e Herodes tornam-se amigos... Mas, que amizade, essa, fundada na maldade, na injustiça, nos interesses escusos; maldade tão diversa daquela que Cristo nos propõe: “Já não vos chamo servos, mas amigos!” Amizade verdadeira é a de Cristo e em Cristo, que enche nosso coração, que dá alento e sentido à nossa vida. – Obrigado, Jesus, pela Tua amizade! Para que eu fosse Teu amigo, foste levado a Pilatos, foste conduzido a Herodes, foste ridicularizado e tratado como um louco! Obrigado, Jesus, pelo que sofreste por mim!

Nós Vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos, porque pela Vossa santa Cruz remistes o mundo!