sexta-feira, 22 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação XIV - sexta-feira da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,105-112
Leia, agora, Gl 3,15-18

1. São Paulo continua insistindo sobre seu argumento: a fé, que acolhe a promessa de Deus, é que nos dá a graça da justificação, não as obras de Lei de Moisés. Tome o v. 15: agora, nesta perícope, o Apóstolo usa a ideia do “testamento”. Em grego, diathéke significa ao mesmo tempo aliança e testamento. Partindo deste duplo significado, ele desenvolve o seu raciocínio: Deus fez a Abraão uma promessa, um testamento em forma de aliança. Leia novamente Gn 15,1-18a. Aí aparecem realmente a promessa de Deus de dar a Abraão um descendente, o Isaac-Cristo, aparece a fé de Abraão na promessa divina, fazendo-o justo diante de Deus e, finalmente, a conclusão do encontro entre o Senhor Deus e Abraão com a aliança selada nos animais mortos e no braseiro fumegante. Resumindo: Deus selou uma aliança com Abraão, garantindo a veracidade e validade da promessa que lhe havia feito.
Reflita um momento: o Senhor Deus é bom, o Senhor Deus é generoso, o Senhor Deus é fiel, é veraz: quando promete não engana nunca! Reze o Sl 32/33

2. Vamos, agora, ao v. 16. Utilizando um raciocínio bem próprio da exegese antiga, o Apóstolo recorda que Deus fez a promessa “a Abraão e à sua Descendência”. Aqui, ele aproveita o fato de “descendência” está no singular e concentra toda a descendência de Abraão, isto é, todo o Povo de Israel, em Cristo! Esta é uma ideia preciosa, muitas vezes presente nas Escrituras: um que representa e concentra em si os muitos. Por exemplo: Adão, que concentra em si toda a humanidade; Jacó, que concentra em si todo o Israel; o Servo Sofredor, que concentra em si todo o Israel e toda a humanidade pecadora; Cristo, que concentra em Si toda a Igreja.
Ora, Cristo é a razão de ser de Israel, o Povo nascido de Abraão, o Povo prometido ao nosso pai na fé. Esta ideia aparece também no Evangelho de São João: no Antigo Testamento, Israel é a vinha de Deus, é Sua videira (cf. Is 5,7; Sl 79/80), videira provisória, figura da verdadeira e definitiva vinha, que deveria vir. Em Jo 15,1, Jesus nosso Senhor Se revela como a “Videira verdadeira” isto é, definitiva, da qual a primeira videira, Israel, era somente imagem, profecia, figura e preparação! Assim, coincidindo com a visão de São Paulo, o Quarto Evangelho afirma que Jesus é realmente o verdadeiro Israel, a verdadeira videira e, portanto, verdadeira Descendência de Abraão, que traz em Si e plenifica o Israel segundo a carne!
Portanto, as promessas do Senhor Deus a Abraão e à sua descendência concretizam-se em Cristo, “personalidade corporativa” (pessoa única que concentra em si a multidão) de Israel e, principalmente, da Igreja: o Senhor Jesus Cristo não só é ponto de chegada, realização e plenitude do Antigo Israel, como é também princípio, origem e realidade na qual subsiste e encontra o ser e o sentido o Novo Israel, que é a Igreja, Corpo do qual Cristo é Cabeça (cf. Cl 1,18).

3. Todo este belo raciocínio de São Paulo e do Quarto Evangelho nos convidam a nunca esquecer que somente em Cristo a Escritura encontra seu sentido último, definitivo, verdadeiro e pleno! Como vimos na meditação passada, até os judeus afirmam isto sobre o Messias: somente ele desvelaria o sentido último da Lei de Moisés! Pois bem, o é nosso Senhor Jesus Cristo! Nele a Escritura e o desígnio do Senhor Deus para a humanidade e a criação inteira encontra seu foco, seu sentido e sua realização!
Medite na profunda afirmação de Hb 1,1-4! Cristo é a Plenitude de tudo porque vem de Deus, sendo Ele mesmo divino, superior a toda criatura!

4. Finalmente, os vv. 16s tratam da relação entre a Lei de Moisés e a promessa feita a Abraão: a promessa como dom gratuito acolhido pela fé em Isaac-Cristo e a Lei como cumprimento de preceitos, de obras. Primeiro fora feita a promessa, no tempo dos Patriarcas, quando ainda não existia o Povo de Israel. Somente depois, quando de Abraão veio Isaac, de Isaac veio Jacó, apelidado de Israel e, deste último, os doze filhos que originaram as doze tribos do Povo de Israel, é que a Lei fora dada no Sinai. Baseando-se em Ex 12,40s, Paulo faz um cálculo aproximado de quatrocentos e trinta anos de diferença entre a promessa a Abraão e o dom da Lei no Sinai por meio de Moisés. Ele, então, raciocina: uma Lei vinda quatro séculos depois, não pode invalidar a promessa de Deus! Além do mais, a Lei fora dada a Israel pelo ministério dos anjos (cf. Gl 3,19), enquanto a promessa fora feita pelo próprio Deus (cf. Gl 3,17). Resultado: a graça de Deus, Seu dom prometido a Abraão, é Cristo-Isaac, fruto e cumprimento da promessa e não depende de modo algum das obras de uma Lei dada posteriormente, “porque se a herança vem pela Lei, já não é pela promessa. Ora, é pela promessa que Deus agraciou a Abraão” (v. 18) e, através dele a toda a humanidade na sua Descendência que é Cristo (cf. Gn 12,3)! Portanto, os gálatas não deviam dar ouvidos aos cristãos judaizantes, que, a ferro e fogo, queriam fazer os cristãos gentios cumprirem a Lei de Moisés, pois as promessas da Aliança não dependem do cumprimento das obras da Lei. Estas obras poderiam valer para a Aliança do Sinai, para o Povo de Israel, como preparação para Cristo, cumprimento das promessas e plenitude da Lei, mas não para os cristãos fossem vindos da gentilidade ou do judaísmo! A realidade agora é a fé em Cristo, o verdadeiro Isaac, cumprimento pleno de todas as promessas do Pai!

5. Leia e medite o texto de Mt 2,1-12. Veja:
a) os pagãos vêm de longe, como Abraão que partiu de sua terra, do Oriente, procurando o Rei dos Judeus.
b) o Israel segundo a carne, representado por Jerusalém e seus doutores, não crê e não vai à procura do Menino.
c) os Magos seguem a estrela do Menino, iluminados pela fé.
d) Jerusalém não crê e não encontra o Menino; os Magos pagãos creem e O encontram e O adoram.
e) Depois, voltam por outro caminho e não mais entram em Jerusalém, no judaísmo...

Agora reze o Sl 116/117, que convida todos os povos a louvar a Deus! Reze também o Sl 97/98.


quinta-feira, 21 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação XIII - quinta-feira da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,97-104
Leia, agora, Gl 3,8-14

1. Vimos, na meditação passada (cf. Gl 3,8s), que o Apóstolo ensinou que aqueles que vivem pela fé, como Abraão, recebem a bênção de Abraão e vivem na bênção. Talvez seja bom reler os tópicos 2 e 3 da meditação anterior.
Agora, no v. 10, São Paulo faz uma afirmação surpreendente: “Os que são pelas obras da Lei, esses estão debaixo da maldição!” Que significam estas palavras? A Lei de Deus, Lei santa, dada a Moisés no Sinai, seria fonte de maldição? Certamente, não! Aqui, Paulo se refere aos judeus que, apegados às obras da Lei, obras milimetricamente codificadas pela tradição oral, julgavam-se justos e autossuficientes diante de Deus e esperavam dessas práticas merecer como pagamento a salvação. Atenção para o que diz o Apóstolo: não diz “os que são pela Lei”, mas “os que são pelas obras da Lei”, isto é, os que colocam a confiança nessas obras!
Mas, com base em que o Apóstolo afirma tal coisa? Com base na própria Lei, pois está escrito na Lei: “Maldito todo aquele que não se atém a todas as prescrições que estão no livro da Lei para serem praticadas” (v. 10b; cf. Dt 27,26). Portanto, a própria Lei afirma ser maldito quem não cumpre toda a Lei! Assim, com tantas prescrições e quase reduzida pelos rabinos a prescrições minunciosas - as obras da Lei -, a Torá, a Lei de Moisés, tornou-se um jugo pesado demais, um jugo insuportável! Como ninguém conseguiria cumprir sempre e totalmente tantos preceitos, os que colocam sua esperança de salvação, de justificação, no cumprimento das obras da Lei estão debaixo da maldição.

2. Pareceria que o raciocínio de Paulo é meio forçado e sua visão sobre as obras da Lei seria demasiada negativa e exagerada. Não é assim! Primeiro: o Apóstolo faz exegese, isto é, interpretação das Escrituras como os rabinos daquele tempo faziam, usa o mesmo método de estudo das Escrituras que eles usavam. Depois, somente para que você, caro Irmão, possa compreender o que se tornou a Lei no judaísmo, leve em consideração estes pontos:

a) A palavra Torá (Lei, na tradução da Bíblia grega usada por judeus e cristãos) significa “ensinamento” e, para os judeus, pode referir-se ao Pentateuco, a todo o Antigo Testamento ou, ainda, a toda a tradição judaica! Imagine, pois, o volume de preceitos, de minúncias, de obrigações! Os rabinos judeus contam na Torá 613 mandamentos! Assim, quem procura a justificação, a salvação pela Torá, deve cumprir todos estes preceitos sob pena de maldição!

b) Os judeus chegam a afirmar que Deus estuda a Torá no céu; ela existe antes do mundo existir e foi usada por Deus como planta para a obra da criação! Observe, caro Irmão, como foi dando uma importância à Lei, foi absolutizando-a de um modo que a salvação estaria nela e no cumprimento dos seus preceitos! Jesus nunca aceitou isto: acusava os rabinos de invalidarem a Palavra de Deus, o espírito mesmo da Lei com essas extrapolações. Leia Mt 15,1-14; Mc 7,1-13. A esta Lei reinterpretada como uma infinitude de preceitos detalhistas, o Senhor Jesus chama de modo pejorativo de “vossa lei” (Jo 8,17; 10,34), bem diferente dos “mandamentos”do Pai: “Eu sei que o Seu mandamento é Vida eterna!” (Jo 12,50). Aí sim! E os mandamentos caminham e se resumem num só foco, numa só realidade: “Este é o Seu mandamento: crer no Nome do Seu Filho Jesus Cristo e amar-nos uns aos outros, conforme o mandamento que Ele nos deu!” (1Jo 3,23) Pois bem, tampouco São Paulo aceitava esta absolutização da Lei e dos preceitos! A Lei compreendida como prática de preceitos termina em legalismo e soberba autossuficiência que fecha para Deus; bem diferente da Lei de Deus compreendida e vivida como participação na sabedoria providente de Deus: esta leva à confiança humilde no Senhor e à disposição de acolher na fé o Cristo Jesus! Portanto, todas estas extrapolações, todas estas tradições e práticas que terminaram por sobrecarregar e obscurecer o sentido genuíno da Lei foram plantadas pelos homens, pelos rabinos. A sentença do Senhor é clara: “Toda planta que não foi plantada por Meu Pai celeste será arrancada! Deixai-os! São cegos conduzindo cegos!” (Mt 15,13s)

c) Para os judeus, somente o Messias poderia revelar totalmente o sentido interior da Torá, isto é, da Lei de Moisés. Os cristãos concordam plenamente com isto! Somente o Cristo Jesus, que é o Messias, é a plenitude da Lei, pois “a Lei foi dada por meio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17). Efetivamente, as Escrituras de Israel dão testemunho Dele, do Senhor Jesus Cristo, santo Messias, e para Ele preparou Israel (cf. Lc 24,27; Jo 5,39; Gl 3,25).

3. Para arrematar e fundamentar o seu raciocínio, Paulo cita as Escrituras, e as cita com o Antigo Testamento grego (chamado de LXX ou septuaginta), que é o mais longo, como o dos católicos, ainda hoje usado na Igreja de Cristo: “O justo viverá pela fé” (Gl 3,11; Rm 1,17; cf. Hab 2,4). Ou seja, aquele que é agradável a Deus, aquele que é justificado, o é pela fé, fé no Deus que deu a Abraão e a nós o verdadeiro Isaac, Jesus Cristo, nosso Senhor!
Então, enquanto quem coloca sua confiança na Lei espera a Vida e a salvação do cumprimento de preceitos, aquele que coloca a sua confiança no Deus de Abraão, Nele crendo, coloca sua esperança em Jesus o Salvador, imolado por nós como Isaac (cf. Gn 22,9-18; Rm 8,32).

4. No v. 13, o Apóstolo faz a proclamação triunfante: “Cristo nos resgatou da maldição da Lei tornando-Se maldição por nós!” Outra afirmação impressionante! O que quer dizer? Cristo nos resgatou a todos, judeus e gentios, dos preceitos da Lei de Moisés. Aos gentios também, porque sem Cristo, o único modo de entrar para a Aliança seria tornar-se judeu, subjugando-se aos preceitos, às obras da Lei. Não entrando para o Povo de Israel segundo a carne, viviam sob a lei do pecado provocado por uma consciência obscurecida e pelas paixões que os escravizavam. Vale muito a pena ler Rm 1,18-32. Aí se encontra a situação deplorável dos gentios de toda a humanidade de ontem e de hoje sem Cristo – e até de certos cristãos de nome, que defendem de modo cego, pagão e sacrílego todo tipo de pecado e torpeza, colocando tudo na conta da misericórdia, aviltando e fazendo pouco do amor de Deus revelado na Cruz do Senhor!

5. Demos ainda um passo adiante: Como Cristo nos resgatou da Lei? Ele assumiu o nosso débito, a nossa incapacidade de suportar o fardo dos preceitos: morrendo pendurado na Cruz por nós todos, como se fosse um maldito – a própria Lei afirma ser maldito o que morre pendurado num madeiro (cf. v. 13; Dt 21,23). Certamente, esta realidade material – a morte pendurado no madeiro – exprime uma profunda realidade espiritual: fazendo-Se realmente homem, plenamente um de nós, foi solidário conosco e “tomou sobre Si as nossas dores, carregou-Se com os nosso pecados, de modo que o castigo que nos dá a paz caiu sobre Ele e por Suas chagas fomos curados” (cf. Is 53). Assim, assumindo a nossa maldição, Ele, o Bendito do Pai, o Filho Amado, o Eleito (cf. Mt 3,17; 17,5; Jo 3,35; 5,20), apagou na Cruz todas as nossas transgressões em relação à Lei e seus preceitos e a todos os nossos pecados (cf. Cl 2,14; Ef 2,1-5), para que a bênção de Abraão, através do Cristo, novo Isaac, se estenda aos gentios, como fora prometido a Abraão, o crente, pai de todos os que creem (cf. vv. 13s)! Sim, verdadeiramente o Senhor nosso pode ter compaixão de nós, filhos de Adão, judeus ou gentios, que gememos debaixo do fardo da Lei de Moisés e da lei do pecado. Ele pode realmente nos dizer as comoventes palavras de Mt 11,28-30.

6. Finalmente, São Paulo apresenta a finalidade última de fé em Jesus Cristo: crendo, “pela fé, recebamos o Espírito prometido”... Explicando: crendo em Jesus nosso Senhor, judeu ou gentio é Nele batizado e, no Batismo, recebe o Seu Espírito Santo, que impregna interiormente o crente da Vida divina do próprio Cristo imolado e ressuscitado, dá ao crente os próprios sentimentos do Cristo Jesus, transfigurando mais e mais o crente, sobretudo pela participação na Eucaristia, até a plena configuração ao Senhor, ao verdadeiro Filho-Isaac, na Glória eterna (cf. Rm 8,11)! Tudo isto é realizado pelo Espírito Santo recebido no Batismo, sacramento da fé! E este Espírito, como já disse anteriormente, é a Lei verdadeira (cf. Rm 8,2), a Lei dinâmica (cf. Rm 8,14-17), a Lei interior (cf. Rm 8,9), a Lei do amor (cf. Rm 5,5; 13,8-10), não mais de preceitos pesados e exteriores!

7. Reze o Sl 18/19,8-15. Medite rezando na promessa do Espírito já feita no tempo da Antiga Lei. Leia Ez 36,26; 37,14; 39,29; Jl 3,1-5. Pense um pouco: sua vida religiosa é centrada em preceitos exteriores ou na experiência profunda da intimidade exigente, amorosa e criativa de se deixar impregnar e guiar pelo Espírito do Cristo? Só quem se deixa guiar pelo Espírito pertence a Cristo...


quarta-feira, 20 de março de 2019

Retiro Quaresmal: A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação XII - quarta-feira da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,89-96
Leia, agora, Gl 3,8-9

1. Observando bem vários dos textos importantes de São Paulo, sobretudo na Epístola aos Romanos e aos Gálatas, o Apóstolo fala em dois modos de fundamentar e viver a relação com o Senhor Deus, dois amplos horizontes: a fé e o cumprimento dos preceitos a Lei de Moisés, isto é, as famosas obras da Lei.

2. Ora, nestes dois versículos que estamos meditando, Paulo afirma que Deus justificaria, isto é, tornaria seus amigos os gentios pela fé. Interessante que, de modo surpreendente, aparentemente, não diz em quem seria essa fé... “Deus justificaria os gentios pela fé...” (v. 8a) Mas, se formos atentos ao contexto, aparece claríssimo que se trata de mesma fé que Abraão teve: fé na promessa de um Descendente, de um Isaac, que é o próprio Cristo, como eu mostrei na meditação passada. É esta fé que os gálatas devem sustentar agora, ao invés de se apegaram às obras da Lei de Moisés, à circuncisão que os cristãos judaizantes desejavam convencê-los a praticar (cf. Gl 1,6).
Por isso mesmo, o Apóstolo cita a promessa feita a Abraão, em Gn 12,3: “Em ti serão abençoadas todas as nações” (v. 8b). Eis o sentido: na fé de Abraão, que creu na promessa de Deus de que lhe nasceria um filho, Isaac, seu descendente, estava já presente verdadeiramente, segundo o desígnio de Deus, a fé que teriam os gentios, acreditando no verdadeiro Isaac que Deus mandaria: o Filho, Jesus nosso Senhor, Descendente de Abraão por excelência, como veremos claramente mais adiante (cf. Gl 3,16).

3. Assim, os que são pela fé, sejam gentios ou judeus, são abençoados juntamente com Abraão, o Crente, o Amigo de Deus (cf. Gn 15,6; 1Mc 2,52; 2Mc 1,2; Eclo 44,19.21), são verdadeiramente filhos de Abraão segundo a fé!
Aqui, atenção: O judeu, por ser judeu simplesmente, recebe a “bênção” da Lei, cumprindo os preceitos da Lei. Somente crendo no enviado de Deus, Jesus Cristo, o novo Isaac, o Descendente de Abraão, o judeu receberá o que a própria Lei prometeu em Gn 12,3: a bênção de Abraão! A bênção da Lei prepara o judeu para receber em Cristo, novo Isaac, a bênção definitiva, que é a bênção de Abraão, prometida antes da bênção da Lei! Deste modo, para São Paulo, seja o judeu que o gentio é justificado somente pela fé em Cristo, o descendente prometido a Abraão, que creu na promessa e foi justificado (cf. Gn 15,6)! Isto sim, é uma novidade, uma percepção do mistério de Deus revelada a Paulo, é como que o “Evangelho de Paulo”. Leia com atenção Ef 3,1-7. Enquanto Paulo tem este pensamento largo a respeito da bênção que Deus preparou desde sempre para os gentios, os judeus, debaixo da Lei, de modo geral pensavam que os gentios poderiam receber as bênçãos prometidas a Abraão, desde que adorassem ao Deus de Israel e se submetessem à circuncisão, porta de todas as observâncias da Lei de Moisés. Paulo, indignado, pergunta: Então, para que Cristo? Se é pela Lei, não é pela fé, pela adesão ao Senhor Jesus Cristo que vem a salvação! Cristo seria inútil, seria apenas mais um profeta judeu (cf. Gl 2,21).

4. Agora, façamos uma pausa em acompanhar o raciocínio do santo Apóstolo. Vamos nos deter nesta realidade de que ele fala com tanta paixão, a realidade da fé! O que significa esta fé que justifica? Sgnifica

=> acolhimento do dom de Deus, isto é, acolhimento Daquele que Ele enviou: Jesus Cristo (cf. Jo 6,28s).

=> a partir do acolhimento deste dom tão grande e inesperado, Jesus crucificado delineado diante de nós (cf. Gl 3,1), o reconhecimento de que somos todos insuficientes, somos pecadores: os judeus diante da Lei; gentios diante da consciência: todos vemos no Crucificado o quanto somos incapazes sozinhos de nos salvar, já que somos deficientes diante da Lei da consciência e diante da Lei de Moisés! Somos necessitados de salvação, de um Salvador! Leia, novamente, com toda atenção Rm 3,21-31.

=> o reconhecimento de que em Cristo, o Senhor nos deu gratuitamente o perdão, pregando na Cruz os nossos pecados (cf. Rm 3,30; Cl 11,14).

=> o acolhimento da salvação trazida por Jesus, Nele crendo, recebendo o Batismo no Seu Espírito e vivendo em comunhão com Ele na vida e no Sacramento, Nele colocando toda a nossa vida e toda a nossa esperança.

5. Assim, pois, que fique bem claro: o centro da vida cristã é a própria Pessoa de Jesus Cristo: Nele está a salvação; mais ainda: Ele mesmo é a Salvação! No Seu corpo de carne crucificado e ressuscitado fomos salvos pela fé Nele (cf. Rm 8,1-4)! Cristo, Ele mesmo é a salvação, é a nossa paz, o nosso shalom com Deus, o Pai: Nele, judeus e gentios recebem a bênção e formam um só povo, o Novo Povo de Deus, a Igreja.
Leia e reze o estupendo texto de Ef 2,13-22!

6. Ante tudo quanto estamos meditando, procure responder com sinceridade no coração:
Qual o papel do Cristo Jesus na sua vida?
Como é, realmente, a sua relação com Ele?
Leia e medite rezando 1Pd 2,21-25.
Reze Ap 5,9s, louvando o Cristo, nossa fé, razão da nossa esperança.


terça-feira, 19 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação XI - terça-feira da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,81-88
Leia, agora, Gl 3,5-6

1. Em 3,2 São Paulo refere-se ao dom do Espírito que os gálatas receberam. Não se trata de um dom qualquer, uma experiência qualquer, mas é a grande característica do ser cristão: viver no Espírito do Cristo imolado e ressuscitado. Esta é a grande distinção do cristão: ele vive no Espírito de Cristo (cf. Rm 8,1s.9.14). Aquele que creu em Cristo e por Ele foi resgatado,

=> apesar de ter uma vida biológica, não vive simplesmente neste nível físico, somático e muito menos vive na carne (carne, aqui no sentido de pecado, de fechamento em si mesmo, sem relação com Deus, dizendo “a vida é minha, eu faço como eu quero”);

=> apesar de ter uma vida psíquica, racional, consciente, inteligente, não vive simplesmente no nível da razão e seu critério último não é mais a razão humana;

=> o cristão vive do Espírito e no Espírito: seu critério, sua vida é o Espírito do Cristo! Este Santo Espírito divino não somente é o princípio da Vida nova do cristão como também é Ele mesmo, a Lei na Nova Aliança, Lei dada, derramada no Pentecostes (cf. Rm 8,1s). Explicando melhor: Pentecostes, para os judeus era a festa das primícias da colheita e também a festa do dom da Lei a Moisés no Sinai. Pois bem, foi exatamente nesta festa que o Espírito foi dado, foi derramado sobre a Igreja, pois Ele é as verdadeiras primícias da Vida nova em Cristo, Ele a verdadeira e definitiva Lei da Nova Aliança. Mas, agora trata-se não de uma lei de preceitos, como a Lei de Moisés, escrita em tábuas, mas de uma Lei interior, que convence amorosamente, interiormente, a partir de dentro, do mais íntimo de nós, onde Deus habita (cf. 1Cor 2,10ss)! Desde o Batismo, o Espírito de amor habita o íntimo de cada cristão e o une a Cristo e lhe concede a Vida de Cristo, os sentimentos de Cristo, as atitudes de Cristo, a participação na Cruz e na Ressurreição de Cristo: “O amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito anto que nos foi dado” (Rm 5,5).
Leia, novamente, com toda atenção 1Cor 2,1-16! Medite, rumine, interiorize, reze!

2. Como foi dito, esta Lei bendita, própria da Nova Aliança, é uma lei interior. Não mais se trata de preceitos, mas sim de uma relação viva e amorosa com Cristo, uma Lei de amor forte, a ponto de São Paulo exclamar: “O Amor de Cristo os impele!” (2Cor 5,14)
Os profetas já haviam anunciado uma Nova Aliança escrita não em tábuas de pedra, feita não de preceitos exteriores, mas uma Aliança feita de amor, de intimidade com o Senhor, uma Aliança inscrita no íntimo, no coração do homem, de tal modo que aquele que entrasse nessa Aliança bendita teria uma conaturalidade com o Senhor, conheceria e reconheceria o Senhor. 
Leia com atenção Jr 31,34; Hb 8,6-13 e 1Jo 2,27. São textos importantíssimos para a nossa compreensão do mistério da vida em Cristo! A Unção do Santo é o Espírito de Cristo, Óleo bendito, Crisma de salvação, que, nos ungindo, habita em nós, dá-nos a Vida nova, esta conaturalidade com o Senhor Jesus Cristo morto e ressuscitado, a ponto de São Pedro afirmar que nós realmente participamos da natureza divina (cf 2Pd 1,4), pois, tendo ouvido o Evangelho do Cristo morto e ressuscitado e nele crido, fomos pelo Batismo, sacramento da fé, gerados de novo, nascidos de novo, agora no Espírito de Cristo (cf. 1Pd 1,23).
Estas são ideias centrais na nossa fé cristã, são o miolo da nossa vida em Cristo e, no entanto, quase não temos consciência desta realidade impressionante! É nestas coisas que São Paulo está pensando, são estas realidades que o Apóstolo está defendendo com unhas e dentes quando se dirige aos gálatas, agora fascinados pela Lei de Moisés!
O judeu vive na Torá, vive toda a sua vida na Lei de Moisés, feita de preceitos e interpretada e esmiunçada por normas e prescrições desenvolvidas geração após geração pelos rabinos de Israel; Lei feita de preceitos (cf. Mc 7,1-13). Certamente a Lei em si é santa e não é má, mas é totalmente insuficiente: ela é uma regra exterior, ela consiste em normas; ela não é interior, não dá por si mesma o Espírito de Deus, não é um princípio de transformação interior. A Lei de Moisés é somente um pedagogo, uma preparação para o Cristo, o Ungido, Aquele que é pleno do Espírito e que, com Sua Morte e Ressurreição, unge com o Espírito do Pai (cf. At 2,32s; Gl 3,24)! Nunca esqueça: sem o inestimável Dom do Espírito, sem o Espírito que é o Dom do Senhor, não é possível uma Nova Aliança, não existe Vida em Cristo! Sem o Espírito, a Lei de Cristo seria tão exterior quanto a Lei de Moisés. Somente o Cristo, exultando no Espírito (cf. Mt 11,25) pode dizer: “Vinde a Mim; tomai o Meu jugo; Meu jugo é suave!” (Mt 11,28-30). Trata-se, aqui do jugo da Lei de Cristo, na suavidade do Espírito! Leia o texto todo: Mt 11,25-30! Vale a pena!

3. É necessário ainda recordar sempre o que já expliquei numa anterior meditação: recebe-se o Espírito crendo em Jesus como o Enviado, o Cristo, o Messias, o Ungido de Deus e Nele sendo batizado, isto é, mergulhado num só Espírito para formar um só Corpo na Igreja pelo sacramento da Eucaristia (cf. 1Cor 12,13). É, pois, pela fé que se entra na amizade com Deus, que se é justificado, isto é, tornado justo, amigo de Deus, participante da própria Vida divina (cf. 2Pd 1,4)!

4. Vamos adiante na nossa meditação! Em Gl 3,6, o Apóstolo coloca diante dos seus leitores o exemplo de Abraão, pai do Povo de Israel! Vejamos o que ele quer dizer:

a) Tomando Gn 15,6, Paulo explica que Abraão foi tornado justo, amigo de Deus, agradável a Deus, pela fé no Senhor. Em outras palavras: Abraão foi justificado pela fé!

b) Mais ainda: Abraão não poderia de modo algum ser justo diante de Deus pelas obras de Lei porque nem sequer existia ainda o dom da Lei, que somente seria revelada a Israel através de Moisés séculos depois! Sem a Lei, Abraão não poderia ser justo em virtude dos preceitos da Lei!

c) Então, os verdadeiros filhos de Abraão, os verdadeiros amigos de Deus como Abraão são os que creem em Deus como Abraão creu (sem a Lei de Moisés!) e não os que cumprem os preceitos de uma Lei que foi dada muito tempo depois de Abraão! Os que creem no Deus que enviou Jesus como Salvador, estes é que são tidos em conta de justos pelo Senhor Deus, pois estes creem como Abraão! Assim, a justiça do cristão, o seu ser justo diante de Deus não vem pela prática das obras da Lei de Moisés, mas pela fé no Deus que entregou o Seu Filho Jesus e derramou em nossos corações o Espírito do Cristo!

5. Aprofundemos ainda um pouco mais este tema tão importante e surpreendente. Agora leia com atenção Gn 15,1-6! É preciso ler cuidadosamente este texto! Vamos lá! Siga o raciocínio seguinte:

a) Aqui, neste texto, a crise de Abraão dizia respeito a uma descendência, a um filho: nosso Pai na fé havia recebido a promessa de uma descendência e, passados quase vinte e cinco anos,  Deus não lhe dera ainda o filho prometido (cf. vv. 2s)!

b) Deus, então, renovou a promessa que fizera: aqui também a promessa de Deus diz respeito a uma descendência, a uma posteridade: “Conta as estelas, se as pode contar! Assim será a tua posteridade!” (v. 5).

c) Aqui ainda, fé de Abraão em Deus, fé que o justifica, que o faz amigo de Deus (cf. v.6), diz respeito à fé na promessa de um filho: Abraão creu que Deus poderia lhe dar esse filho, embora ele já fosse tão idoso e Sara fosse estéril. Abraão creu em Deus e foi considerado justo (cf. v. 6)!

d) Agora, reflita comigo: quem é este filho? É Isaac! Ora, Isaac é imagem de Cristo, o Filho desejado e bendito, a verdadeira e definitiva descendência de Abraão por excelência! Leia com toda atenção Gn 21,1-7 e 22,1-18. Agora, veja a surpreendente afirmação de Jesus nosso Senhor em Jo 8,56: Ele Se considera o verdadeiro Isaac! O primeiro Isaac era figura de Cristo (cf. Hb 11,17-19)! O Isaac segundo a carne, o Isaac que alegrou Abraão era apenas figura do verdadeiro Isaac, Aquele enviado por Deus, o Seu próprio Filho! Ele sim, é a verdadeira descendência de Abraão, aquele Cordeiro que Deus providenciou no lugar do Isaac segundo a carne. Leia com atenção Mt 1,1; Gn 22,8; Gl 3,16 e Hb 11,17-19!

e) Que mistério tremendo e sublime! Deus promete a Abraão um descendente, o Isaac, o que faz rir! Esse Isaac é imagem de Cristo, o Descendente de Abraão por excelência; Ele é o Isaac-Cristo! Abraão, crendo em Deus, como que vendo o invisível (cf. Hb 11,27), creu em Cristo, o Cordeiro que Deus providenciaria! Abraão creu em Deus, que lhe prometera o Cristo! Assim, a verdadeira descendência de Abraão são os que creem no Cristo, o verdadeiro Isaac de Deus! Conclusão surpreendente, mistério admirável da providência divina que tudo predispõe, dispõe e dirige para Cristo!

6. Ainda uma coisa muito importante: Nas Escrituras, crer é uma atitude, uma dinâmica que envolve a pessoa toda: é abrir-se para Deus, a Ele aderir totalmente simplesmente porque Ele é Deus! Esta fé envolve sentimento, inteligência, vontade... Crer supõe e exige uma relação viva, dinâmica, livre, consciente, total... A fé nos joga totalmente em Deus, faz-nos viver Dele, viver Nele e viver para Ele!
Ora, para um cristão, crer não significa simplesmente afirmar que Deus existe, mas proclamar plenamente que o Deus de Abraão é fidelíssimo: Ele enviou o Isaac verdadeiro, Jesus Cristo que, pela humanidade toda morrendo e ressuscitando, fez dela descendência de Abraão, participante da sua bênção, isto é, da sua salvação, cumprindo-se, deste modo, a promessa que Deus fez ao velho Patriarca: “Por ti serão benditos todos os clãs da terra” (Gn 12,3).
Para um cristão, crer é crer na fidelidade amorosa do Deus de Abraão, que não só enviou o Seu Isaac-Cristo, mas O entregou até a morte e morte amorosa de cruz, não poupando o Seu Filho para dar o perdão dos pecados e a salvação não somente aos filhos de Abraão segundo a carne, mas também a todos os que cressem como Abraão (cf. Rm 8,32)!

7. Agora, com sinceridade, com humildade e gratidão a Deus, pergunte-se:
Sua relação com Deus é viva, é totalizante? Em outras palavras: sua fé no Deus que nos salvou em Cristo é viva, é total, abrange toda a sua existência em todos os âmbitos?
Recorde fatos que ilustrem isto no seu caminho...
Em que se fundamenta a sua fé: em Cristo, que por nós morreu e ressuscitou ou em outros motivos?
Lembre:“sem a fé é impossível agradar a Deus!” (Hb 11,6) E aqui se trata da fé no Deus que nos deu Jesus Cristo! É crendo de verdade no Cristo que o cristão realiza a obra de Deus (cf. Jo 6,29), é tornado justo, amigo de Deus porque renascido do Espírito de Cristo e, assim, recebe a salvação!
Pense nestas coisas! Releia toda esta meditação! Interiorize esta realidade!

8. Agora louve e agradeça ao Senhor; reze o Sl 137/138 e o Sl 145/146.


segunda-feira, 18 de março de 2019

Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação X - Segunda-feira da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,73-80
Releia a exortação queixosa de São Paulo em Gl 3,1
Releia novamente!

1. O santo Apóstolo repreende duramente os gálatas: “Ó gálatas insensatos, quem vos fascinou, a vós, ante cujos olhos foram delineados os traços de Jesus Cristo Crucificado?” É preciso voltar sempre a escutar esta dura e indignada censura de São Paulo, hoje mais que nunca! Infelizmente, é tentação contínua nossa e é demoníaca insensatez tirar do centro da nossa fé os escandalosos traços do Cristo crucificado! Não é por acaso que junto ao Altar de cada Eucaristia, ao centro, não ao lado, deve estar fincado o crucifixo com o Crucificado nele pendurado. O próprio Apóstolo recordava aos coríntios tentados ao mundanismo, a concessões ao espírito do mundo, tentados a uma doutrina e a uma salvação de bem com o pensamento mundano e com as modas de momento: “Não quis saber de outra coisa entre vós a não ser de Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” (1Cor 2,2).
Cristo! Cristo! Cristo! O único Nome no qual a humanidade encontra o caminho, a verdade e a Vida (cf. Jo 14,6)!
Cristo, o único Nome no qual está a Luz que dissipa a humana treva (cf. Jo 8,12)!
Cristo, o único Nome no qual podemos ser salvos (cf. At 4,12)!
Cristo, o Salvador do mundo inteiro (cf. Jo 12,32; 1Jo 2,2; Ap 5,9)! O Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim de tudo quanto existe (cf. Ap 3,14; 22,13)!
E Cristo Jesus não é outro que Aquele que foi rejeitado pelo mundo, pois “veio para o que era Seu e os Seus não O receberam” (Jo 1,11); Aquele que o mundo não aceita que reine sobre ele (cf. Jo 19,15; Sl 2,1-3), pois esse mundo já tem o seu príncipe e seu deus (cf. Jo 16,11; 8,44; 1Jo 3,8-10; 2Cor 4,4). Não deixe de ler estas últimas citações; elas mostram quem é o deus, quem é o príncipe deste mundo mundano!

2. Mas, podemos perguntar: Por que esta centralidade de Cristo crucificado?
Por que o Seus traços benditos têm que ser continuamente delineados ante nós, recordados perenemente ao nosso coração, gravados no nosso afeto?
Por que todos nós devemos gloriar-nos na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Gl 6,14)?
Eis, de modo simples e direto a resposta: porque Nele, Homem de dores, esmagado pelo sofrimento (cf. Is 53,3), o pecado é revelado, é desmascarado e aparece com toda a sua maldita força e toda a sua horrenda feiura; e, ao mesmo tempo, e de modo ainda mais forte, neste Homem de dores, consumado pelo sofrimento, o amor e a graça de Deus nosso Senhor se manifestam com toda a sua potência!

a) Primeiro se manifesta o pecado. Aquele Crucificado, Homem de dores, deformado, é ícone claro do que o pecado faz: é capaz de matar Deus no coração do homem, de querer eliminar Deus no coração do mundo e, eliminando Deus, destrói, deforma o homem, desumanizando-o. Aquele Homem de dores é isto tudo: mostra o perigo, a força, a feiura do pecado, a sua ameaça letal para o homem! Por isso, a Cruz do Senhor é dolorosa, é “feia”, fá-Lo “apavorar-Se e angustiar-Se” (Mc 14,33). O pecado é destrutivo, provoca dor, dilaceração, morte! O pecado é capaz de matar Deus! Certamente, não O mata em Si mesmo, pois Ele é a Vida, o Vivente e Vivificante, a perene Fonte da Vida! Mas, mata Deus em nós, no nosso coração, na nossa sociedade, no nosso mundo, nas nossas instituições... E, assim, nos mata, faz de nós mortos-vivos, ossos ressequidos, vida inumana. Leia e medite atentamente em Ez 37,11-14 e Br 3,1-8!

b) Mas, nos traços de Jesus Cristo crucificado delineia-se sobretudo o amor misericordioso e invencível do Senhor Deus: “Deus amou tanto o mundo que entregou o Seu Filho para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a Vida eterna. Pois Deus não enviou o Seu Filho para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 16s). A Cruz do Senhor, Sua ignominiosa Paixão, Sua Morte e Sepultura revelam até onde Deus está disposto a ir para nos salvar, para procurar o homem que se perdera e se perde como o filho mais novo da parábola, como a ovelha perdida (cf. Lc 15).

c) Por tudo isto, os traços feridos de Cristo crucificado nos impedem de tomar o pecado com leviandade, nos proíbem de pensar num perdãozinho a preço baixo, numa misericordiazinha festiva e pueril: “Não foi com coisas perecíveis , isto é, com prata ou com ouro, que fostes resgatados da vida fútil que herdastes de vossos pais, mas pelo sangue precioso, como de Cordeiro sem defeito e sem mácula, Cristo” (1Pd 1,19). Cravar os olhos nos traços do Cristo crucificado nos impede de falar de uma falsa misericórdia sem conversão, de uma falsa esperança de perdão sem arrependimento, de um falso amor sem a entrega da vida nas mãos Daquele que Se entregou por nós.
Leia Hb 5,7-10 e Rm 12,1-2.

3. No entanto, nunca nos esqueçamos, não sejamos ingênuos: a Cruz de Cristo será sempre escândalo – também para muitos cristãos, que se portam “como inimigos da Cruz de Cristo” (cf. Fl 3,18s)! O mistério da Cruz, de um caminho de salvação que passe pelo concreto da vida, que exija conversão concreta, trabalhosa, que exija sair de si mesmo, deixar seus vícios e suas próprias medidas, jamais poderá ser compreendido pelo mundo e pelos cristãos mundanos! Estes querem dobrar o Evangelho à sua medida mundana, querem reduzir Cristo ao mundo: um Cristo para cada época, um Cristo para cada gosto, um Cristo para cada freguês, simpático, palatável, aceitável ao mundo, indolor e inofensivo!
A verdade é que nem o homem carnal nem o homem psíquico podem guardar no coração “os traços de Jesus crucificado”. Estes desejam um Cristo sem Cruz, um Cristo deformado, mundano, falseado, inexistente. Leia Mt 16,24ss.

a) Aqui, é preciso ter sempre presente que o homem carnal, isto é, o homem mundano, fechado para Deus, não poderá nunca compreender a linguagem da Cruz.

b) Mas, atenção: também o homem psíquico, isto é, o homem bom de uma bondadezinha natural, o homem somente no nível da sua racionalidade, o homem do politicamente correto e do sorrisinho simpático para o mundo, esse também é incapaz de acolher a loucura da Cruz! 

c) Somente o homem “espirituado”, isto é, o homem impregnado do Espírito do Cristo imolado e ressuscitado, pode acolher a linguagem da Cruz e sua loucura! E isto exige contínuo esforço de conversão! Conversão, é a primeira exigência do Evangelho, conversão é a atitude fundamental de quem deseja seguir o Cristo de Deus (cf. Mc 1,14s)!

4. Leia com toda atenção 1Cor 2,11-16; 15,45-49.
O homem somente no nível da natureza, da razão deste mundo, da filosofia, não é nem será nunca capaz de chegar às alturas do Cristo Jesus e da loucura da Sua Cruz. Leigos, religiosos, ministros ordenados, todos precisamos de contínua conversão à lógica da Cruz do Senhor! O resto é disfarce e falseamento do Evangelho de Cristo, é insensatez, como a dos gálatas!

5. É preciso repetir sempre, insistir: somente o homem espiritual, o homem “espirituado”, isto é, impregnado pelo Espírito de Cristo e por Ele guiado e iluminado, pode compreender o mistério da Cruz, pode guardar no coração “os traços de Jesus Cristo crucificado” (Gl 3,1), pode realmente considerar “atentamente Jesus, o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa profissão de fé” (Hb 3,1), “que nos dias de Sua vida terrestre, apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, Àquele que O podia salvar da morte... E, embora fosse o Filho, aprendeu, contudo, a obediência pelo sofrimento” (Hb 5,7s)!

6. Leia atentamente Rm 8,12-15.
Somente o homem aberto constantemente à conversão, somente o homem que se deixa iluminar e conduzir pelo Espírito do Cristo imolado e ressuscitado, pode compreender e saborear a lógica da Cruz do Senhor.
Leia Ef 4,17-24 e se deixe realmente interpelar por estas palavras da boca de Deus!

7. Concluindo: atenção para o contínuo perigo do “fascínio” sedutor do mundo e suas ideologias, suas modas, seus raciocínios, suas justificativas, que deixam de lado “os traços de Jesus Cristo crucificado”...
Cuidado você, Irmão, para não estar infectado!
O antídoto é e sempre foi o mesmo: as Escrituras Sagradas como foram sempre, nestes dois mil anos, lidas, ouvidas, interpretadas, vividas e ensinadas pela Igreja inteira, Corpo de Cristo e Templo do Espírito! Este ensinamento está contido nos textos do Magistério perene da Igreja, sobretudo dos concílios no decorrer dos séculos. Ninguém é dono da fé do Povo de Deus, ninguém pode adulterar o Evangelho, isto é, a doutrina e a moral católicas que brotam dos “traços de Jesus Cristo crucificado”! E, como diz o Apóstolo, quem pregar diferente “seja anátema” (Gl 1,8s)!

8. Conclua esta meditação rezando pela Igreja o comovente texto de Is 63,7 – 64,11. Recorde sempre: no Senhor está a nossa esperança!


sábado, 16 de março de 2019

Homilia para o II Domingo da Quaresma - ano c

Gn 15,5-12.17-18
Sl 26
Fl 3,17 – 4,1
Lc 9,28b-36

Antes de tudo, duas observações:

(1) A Palavra de Deus, neste Domingo, apresenta-nos um contraste muito forte entre escuridão e luz: escuridão da noite do Pai Abraão e luz do Cristo transfigurado;

(2) Chama atenção, num tempo tão austero como a Quaresma um evangelho tão esfuziante como o da Transfiguração.
Não cairia melhor na Páscoa, este texto? Por que a Igreja o coloca aqui, no início do tempo quaresmal?

Comecemos pela primeira leitura. Aí, Abraão nos é apresentado numa profunda crise; Deus tinha lhe prometido uma descendência e uma terra e, quase vinte e cinco anos após sua saída de sua pátria e de sua família, o Senhor ainda não lhe dera nada, absolutamente nada! Numa noite escura, noite da alma, Abraão, não mais se conteve e perguntou: “Meu Senhor Deus, que me darás?” (Gn 15,2) Deus, então, “conduziu Abrão para fora e disse-lhe: ‘Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! Assim será a tua descendência!”
Deus tira Abraão do seu mundozinho, de seu modo de ver estreito, da sua angústia, e convida-o a ver e sentir com os olhos e o coração do próprio Deus. “Abrão teve fé no Senhor”. Abraão esperou contra toda esperança, creu contra toda probabilidade, apostando tudo no Senhor, apoiando Nele todo seu futuro, todo o sentido de sua existência! Abraão creu! Por isso Deus o considerou Seu amigo, “considerou isso como justiça!” E, como recompensa Deus selou uma aliança com nosso Pai na fé: “'Traze-Me uma novilha, uma cabra, um carneiro, além de uma rola e uma pombinha’. Abrão trouxe tudo e dividiu os animais ao meio. Aves de rapina se precipitaram sobre os cadáveres, mas Abrão as enxotou. Quando o sol ia se pondo, caiu um sono profundo sobre Abrão e ele foi tomado de grande e misterioso terror”.
Abrão entra em crise: no meio da noite – noite cronológica, atmosférica; noite no coração de Abrão – no meio da noite, as aves de rapina ameaçam, e o sono provocado pelo desânimo e a tristeza, rondam nosso Pai na fé... Deus demora, Deus parece ausente, Deus parece brincar com Abraão! Tudo é noite, como muitas vezes na nossa vida e na vida do mundo! Mas, ele persevera, vigia, luta contra as aves rapineiras e o torpor... E, no meio da noite e da desolação, Deus passa, como uma tocha luminosa:“quando o sol se pôs e escureceu, apareceu um braseiro fumegante e uma tocha de fogo... Naquele dia, o Senhor fez aliança com Abrão”.
Observemos o mistério: Deus passou, iluminou a noite; a noite fez-se dia: “Naquele dia, Deus fez aliança com Abrão!” Abraão, nosso Pai, esperou, creu, combateu, vigiou e a escuridão fez-se luz, profecia da luz que é Cristo, cumprimento da aliança prometido pelo Senhor! “O Senhor é minha luz e salvação; de quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida; perante quem tremerei?” Eis o cumprimento da Aliança com Abraão: Cristo, que é luz, Cristo que hoje aparece transfigurado sobre o Tabor!

Fixemos a atenção no Evangelho, sejamos atentos aos detalhes: Jesus estava rezando – “subiu à montanha para rezar” - e, portanto, aberto para o Pai, disponível, todo orientado para o Senhor Deus: Cristo subiu para encontrar Seu Deus e Pai! E o Pai O transfigura. Sim, o Pai! Recordemos que é a voz do Pai que sai da Nuvem e apresenta Aquele que brilha em luz puríssima: “Este é o meu Filho, o Escolhido!” E a Nuvem que O envolve é sinal do Espírito de Deus, aquela mesma glória de Deus que desceu sobre a Montanha do Sinai (cf. Ex Ex 19,16), sobre a Tenda de Reunião no deserto (cf. Ex 40,34-38), sobre o Templo, quando foi consagrado (cf. 1Rs 8,10-13) e sobre Maria, a Virgem (cf. Lc 1,35). É no Espírito Santo que o Pai transfigura o Filho! Na voz, temos o Pai; no Transfigurado, o Filho; na Nuvem luminosa, o Espírito! E aparecem Moisés e Elias, simbolizando a Lei e os Profetas.
Aqui, não nos percamos em loucas divagações e ignóbeis conclusões, como os espiritualistas e esotéricos, que de modo louco, querem provar com este texto que os mortos se comunicam com os vivos!
Trata-se, aqui, de uma visão sobrenatural, não de uma aparição fantasmagórica e natural! Moisés e Elias, que “estavam conversando com Jesus... sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém”. Aqui é preciso compreender! Um pouco antes – Lucas diz que oito dias antes (cf. 9,28) – Jesus tinha avisado que iria sofrer muito e morrer; os discípulos não compreendiam tal linguagem! Agora, sobre o monte, eles veem que a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) davam testemunho da Morte de Jesus, de Sua Páscoa! Sua Paixão e Morte vão conduzi-Lo à glória da Ressurreição, glória que Jesus revela agora, de modo maravilhoso! Assim, a fé dos discípulos, que dormiam como Abraão, é fortalecida, como o foi a de Abraão, ao passar a glória do Senhor na tocha de fogo! A verdadeira tocha, a verdadeira luz que ilumina nossas noites sombrias e nossas dúvidas tão persistentes é Jesus!

Mas, por que este Evangelho logo no início da Quaresma? Precisamente porque estamos caminhando para a Páscoa: a deste ano e a da Eternidade. Atravessando a noite desta vida e o combate quaresmal, estamos em tempo de oração, vigilância e penitência! A Igreja, como Mãe, carinhosa e sábia, nos anima, revelando-nos qual o nosso objetivo, qual a nossa meta, o nosso destino: trazer em nós a imagem viva do Cristo ressuscitado, transfigurado pelo Espírito Santo do Pai. Escutemos São Paulo: “Nós somos cidadãos do céu. De lá esperamos o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao Seu corpo glorioso. Assim, meus irmãos, continuai firmes no Senhor!”
Compreendem? Se mantivermos o olhar firme naquilo que nos aguarda – a Glória de Cristo –, teremos força para atravessar a noite desta vida e o combate da Quaresma. Somos convidados à perseverança de Abraão, ao seu combate na noite, à vigilância e à esperança, somos convidados a não sermos “inimigos da Cruz de Cristo, que só pensam nas coisas terrenas”, somos convidados a viver de fé, a combater na fé! Este é o combate da Quaresma, este é o combate da vida: passar da imagem do homem velho, com seus velhos raciocínios e sentimentos, ao homem novo, imagem do Cristo glorioso! Se formos fieis, poderemos celebrar a Páscoa deste ano mais assemelhados ao Cristo transfigurado pela Glória da Ressurreição e, um dia, seremos totalmente transfigurados à imagem bendita do Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina na Glória imperecível. Amém!


Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou

Meditação IX - Sábado da I semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,65-72
Agora leia Gl 3,1-5

1. Impressiona o modo como Paulo reprova os gálatas: “Insensatos!” Por que insensatos? Porque se deixaram fascinar, seduzir por pessoas que, chegando com novidades doutrinais, com doutrinas estranhas, facilmente afastaram os cristãos da Galácia da verdade do Evangelho. Ainda hoje vemos isto de modo tão repetido: qualquer um que passe pelas portas alheias, ensinando doutrinas exóticas, falsas, novidadeiras, fundamentalistas ou prometendo milagres, benefícios materiais e curas em programas pagos de televisão, arrasta um sem número de insensatos!
Sim, merecem bem este adjetivo “insensatos” porque são daqueles que “não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, segundo seus próprios desejos, como que sentindo comichão nos ouvidos, se rodearão de mestres. Desviarão os ouvidos da verdade, orientando-os para as fábulas” (2Tm 4,3-4).
E você, procura realmente aprofundar seu conhecimento da fé católica e apostólica? Sabe fundamentar com firmeza a fé católica nas Escrituras Santas, nos Santos Padres da Igreja antiga e no Catecismo da Igreja? Sabe se manter firme na doutrina perene da Igreja ou corre atrás de teólogos e mestres novidadeiros, que se afastam e afastam outros da perene e exigente verdade de Cristo com a desculpa de diálogo com o mundo, compreensão e caridade e outras armadilhas vazias? Cuidado: “Vede cuidadosamente como andais: não como tolos, mas como sábios, tirando bom proveito do período presente, porque os dias são maus. Por isso, não sejais insensatos, mas procurai conhecer a vontade do Senhor!” (Ef 5,15-17).

2. São Paulo, com zelo, delineou aos gálatas os traços de Jesus Cristo crucificado: Sua Morte e Ressurreição pelos judeus e pelos gentios, incluindo os gálatas, é o centro da fé e da esperança dos cristãos: Ele, livre e amorosamente, se entregou pela humanidade, se entregou por nós até a morte e morte de Cruz (cf. Fl 2,8).
Leia com calma e piedade estes textos: 1Cor 15,1-8; 2Cor 5,14-21; Ef 2,11-22
Jesus nosso Senhor, com Sua Paixão, Morte e Ressurreição salvou a humanidade inteira! Ele é o sim de Deus ao homem (cf. 2Cor 1,19-20; Ap 3,14) e, feito homem, tornou-Se o sim do homem a Deus; verdadeiro (cf. 2Cor 1,20), suficiente e único instrumento da nossa salvação!
Leia ainda: 2Tm 2,8-13. Como puderam os gálatas esquecer toda esta grandeza de amor, de misericórdia, de doação gratuita e salvífica do Senhor para, deixando de lado a obra salvadora de Cristo irem se apegar à Lei de Moisés? Por isso a indignação de Paulo; a mesma que ele sentiria vendo cristãos de Bíblia debaixo do braço, apegados de modo fundamentalístico ao Antigo Testamento, deturpar a verdade de Cristo, cujos traços foram-nos delineados pela Igreja nestes dois mil anos de história e evangelização!

3. Para chamar os gálatas à razão, o Apóstolo recorda a experiência do Espírito que eles fizeram logo quando abraçaram o Evangelho, resultado da pregação de Paulo. Fruto imediato da fé em Cristo Jesus é o dom do Espírito, que pode ocorrer de dois modos: o primeiro é a recepção do próprio Espírito de Cristo que passa a habitar no discípulo como Vida do próprio Senhor Jesus Cristo, unindo o cristão ao seu Senhor. Isto se dá ordinariamente com todos os cristãos, sem exceção, nos sacramentos, na água do Batismo e no Sangue da Eucaristia (cf. Jo 3,6s; 6,56-68.63; 19,19,33ss; 1Jo 5,5-13; 1Cor 12,13; 2Cor 1,21s), de modo que o cristão fica enxertado em Cristo como a os ramos à Videira e os membros ao Corpo, numa união vital, dinâmica, real, transformadora com o Senhor (cf. Jo 15,1-8; 1Cor 12,12-13). Mas, pode acontecer também de modo livre, extraordinário, inesperado e carismático em várias experiências visíveis e extáticas provocadas pela presença do Espírito (cf. 1Cor 12-13) com o objetivo de convencer interiormente os discípulos de que Jesus Cristo é o Senhor e proclamá-Lo diante do mundo no Seu senhorio de Ressuscitado e glorificado pelo Pai no Espírito.
Uma pergunta: Você e sua comunidade são abertos à surpreendente ação do Espírito, que suscita continuamente na Igreja dons e carismas, ministérios e talentos para a edificação do Corpo de Cristo que é a Igreja e a glorificação do Senhor? Pense bem: é um pecado grave querer uma Igreja do nosso tamanho, da qual sejamos os donos! Há tantos que caem neste erro, sobretudo pastores da Igreja...

4. Paulo acusa os gálatas de tendo começado com a experiência do Espírito terminarem apegados à carne, isto é, aos preceitos legais do Antigo Testamento... Há muitos que fazem isto: apegam-se ao Antigo Testamento ou de modo fundamentalístico, para ficar falando em imagens, dietas de alimentos impuros, proibição de transfusão de sangue e outras insensatezes... Mas, há também aqueles que ficam presos a uma leitura sócio-política do Antigo Testamento para defender no cristianismo luta política e social e movimentos revolucionários. No fundo, sonham com uma teocracia, só que sem Deus, meramente humana e ideologizada! Tudo isto é volta à carne, é deturpação da Palavra de Deus! No primeiro caso, por ignorância e ingenuidade; no segundo caso por esperteza e desonestidade intelectual e teológica. Mas, há ainda um terceiro modo de começar no Espírito e terminar na carne: é começar a vida cristã inebriados na alegria e na generosidade pelo fervor do Espírito, procurando uma vida santa, de amor ao Senhor e perseverança na oração, nas virtudes, nas boas obras, no amor fraterno, na prática dos sacramentos e, aos poucos, ir se tornando um cristão morno, simplesmente de cumprir o mínimo de suas obrigações, sem entusiasmo nem amor, muitas vezes até sem romper com os pecados e vícios...
Façamos um exame de consciência: vivemos realmente na alegria e doçura e simplicidade do Espírito do Cristo que foi delineado diante de nós com Seus traços de amor imolado e ressuscitado?

5. Nunca esqueçamos que poderemos tornar vã a obra de Deus, inutilizando-a com nosso pecado e infidelidade (cf. v. 4; Ef 4,30). Há pessoas que fazem tão bela e profunda experiência do Espírito, experimentam a presença e ação do Senhor de modo tão intenso em suas vidas e, depois, por falta de generosidade, por preguiça, por condescendência para com os antigos vícios e pecados, terminam por perder tudo isto (cf. Mt 13,18-23). A Escritura tem palavras duras para estes, comparando-os a cães que voltam ao vômito (cf. 2Pd 2,20-22). Não esqueçamos: nenhum de nós tem a salvação e a perseverança assegurada! O Reino de Deus sofre violência em nós (cf. Mt 11,12); é necessário vigiar e lutar pela oração (cf. Mt 26,41), pois somente será salvo quem perseverar até o fim (cf. Mt 24,13)!

6. Finalmente, o Apóstolo desafia os gálatas com uma questão: o Espírito é dado pela Lei de Moisés ou pela fé em Cristo Jesus, como já expliquei logo acima? A Lei previu o tempo da efusão do Espírito (cf. Jr 31,31ss; Ez 37; Jl 3), mas ela mesma não dá o Espírito! Somente o Ungido com o Espírito, o Cristo, pode dar o Espírito em abundância, pois “Aquele que Deus enviou... dá o Espírito sem medida” (Jo 3,34).

7. Medite e reze Jl 3. Reze também o Sl 103/104