quarta-feira, 6 de março de 2019

Quarta-feira de Cinzas: Início do retiro quaresmal

Hoje iniciamos o santo Tempo da Quaresma. Como faço já há alguns anos, também neste 2019 oferecerei a você, caro Amigo, um itinerário para estes dias sagrados: neles, com a Palavra de Deus em mãos e o coração aberto ao Cristo Jesus, vamos caminhar para a santa celebração da Páscoa do Senhor.

Neste ano, meditaremos na Epístola de São Paulo aos Gálatas. Amanhã iniciaremos a sua leitura orante.
Hoje, releia com atenção as leituras da Missa desta Quarta-feira de Cinzas. 

1. Deixe-se tocar com toda a sinceridade do coração pelo apelo vivo, atual, a você dirigido pelo Senhor Deus: “Voltai para Mim com todo o vosso coração!”
Não sei qual a sua situação neste início de Quaresma...
Não sei como está sua fé no Senhor, sua confiança na Sua santa presença na sua vida...
Não sei se você tem sido fiel ou infiel, generoso ou preguiçoso para com o Senhor...
Não sei se você tem vivido segundo o Cristo ou segundo o mundo...
Mas, agora, o importante é deixar-se tocar pelo apelo da Palavra do Senhor: “Voltai para o Senhor, vosso Deus! Ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia!”

2. Coloque-se sinceramente diante do Senhor. Acolha com todo o seu coração o dom que Ele lhe faz de um tempo de salvação.
Eis a Palavra do Senhor para você: “No momento favorável, Eu te ouvi e no dia da salvação, Eu te socorri!”
Procure levar muito a sério que este tempo quaresmal é um tempo favorável, um tempo de salvação! Que o seu olhar, nestes dias, dirija-se para Jesus nosso Senhor: “Aquele que não cometeu pecado, Deus O fez pecado por nós, para que Nele nós nos tornemos justiça de Deus!”
Eis: não receba em vão tão grande dom, tão grande graça! Nesta Quaresma, busque o Senhor Jesus Cristo com todo o seu coração, com todo o seu amor, com toda confiança! Ele Se fez homem por você, por você Se entregou! Ele não brincou conosco! Amou-nos de verdade!

3. Finalmente, planeje bem suas observâncias quaresmais, sobretudo a oração, o jejum e a esmola. Mas, faça tudo isto não por fazer, não por simples observância exterior, não por pura tradição, mas procurando colocar seu coração e seu amor ao Senhor naquilo que fará.

4. E, agora, com o coração coberto de cinzas, reze hoje os sete salmos penitencias como expressão de humilde arrependimento seu e da Igreja e de vontade de fazer o caminho quaresmal; reze-os com um coração generoso para com o Senhor; reze-os com a insistência humilde de um pobre diante do seu Deus. Salmos 6, 31/32, 37/38, 50/51, 101/102, 129/130, 142/143.


A Liturgia quaresmal

 Este tempo sagrado é marcado por alguns sinais especiais nas celebrações da Igreja:

A cor da liturgia é o roxo - sinal de sobriedade, penitência e conversão;

não se canta o Glória nas missas (exceto nas solenidades, quando houver);

não se canta o “aleluia” que, sinal de alegria e júbilo, somente será cantado outra vez na Páscoa da Ressurreição;

os cantos da Missa devem ter uma melodia simples;

não é permitido que se toque nenhum instrumento musical, a não ser para sustentar o canto, em sinal de jejum dos nossos ouvidos, que devem ser mais atentos à Palavra de Deus;

não é permitido usar flores nos altares, em sinal de despojamento e penitência (nos casamentos e outras festas as igrejas, devem ser enfeitadas com verdadeira sobriedade!);

a partir da quinta semana da Quaresma podem-se cobrir de roxo ou branco as imagens, em sinal de jejum dos sentidos, sobretudo dos olhos. Se o costume de cobrir-se as imagens se manteve desde a Quarta-feira de Cinzas, é bom que se mantenha.

O importante é que todas estas práticas nos levem a uma preparação séria e empenhada para o essencial: a Páscoa!

As observâncias quaresmais não são atos folclóricos, mas instrumentos para nos fazer crescer no processo de conversão que nos leva ao conhecimento espiritual e ao amor de Cristo. Tenhamos em vista que o ponto alto do caminho quaresmal é a renovação das promessas batismais na Santa Vigília pascal e a celebração da Eucaristia de Páscoa nesta mesma Noite Santa, virada do sábado para o Domingo da Ressurreição.



As práticas quaresmais


Eis as práticas, as armas espirituais, que a Igreja, desde suas origens, recomenda a cada ano para os seus filhos. Levemo-las muito a sério para viver de verdade este sagrado Tempo que a graça do Senhor Deus nos concede:

A oração: Neste tempo os cristãos se dedicam mais à oração. Uma boa prática é rezar diariamente um salmo ou, para os mais generosos, rezar todo o saltério no decorrer dos quarenta dias. Pode-se, também, rezar a Via Sacra às sextas-feiras!

A penitência: Todos os dias quaresmais (exceto os domingos!) são dias de penitência. Cada um deve escolher uma pequena prática penitencial para este tempo. Por exemplo: renunciar a um lanche diariamente, ou a uma sobremesa, etc... Na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa os cristãos jejuam: o jejum nos faz recordar que somos frágeis e que a vida que temos é um dom de Deus, que deve ser vivida em união com ele. Os mais generosos podem jejuar todas as sextas-feiras da Quaresma. Farão muitíssimo bem! Recordemo-nos que às sextas-feiras os católicos não devem comer carne; e isto vale para o ano todo!

A esmola: Trata-se da caridade fraterna. Este tempo santo deve abrir nosso coração para os irmãos: esmola, capacidade de ajudar, visitar os doentes, aprender a escutar os outros, reconciliar-se com alguém de quem estamos afastados - eis algumas das coisas que se pode fazer neste sentido! É nesta perspectiva que se deve compreender a Campanha da Fraternidade, um gesto de amor de toda a  comunidade cristã em relação aos mais necessitados.

A leitura da Palavra de Deus: Este é um tempo de escuta mais atenta da Palavra: o homem não vive somente de pão, mas de toda Palavra saída da boca de Deus. Seria muitíssimo recomendável ler durante este tempo o Livro do Êxodo ou o Evangelho de São Lucas ou as Cartas de São Paulo. Neste ano, eu mesmo proporei a leitura e meditação da Epístola de São Paulo aos Gálatas.

A conversão: “Eis o tempo da conversão!”, diz-nos São Paulo. Que cada um veja um vício, um ponto fraco, que o afasta de Cristo, e procure lutar, combatê-lo nesta Quaresma! É o que a Tradição ascética de Igreja chama de “combate espiritual” e “luta contra os demônios”. Nossos demônios são nossos vícios, nossas más tendências, que precisam ser combatidas. Os antigos davam o nome de sete demônios principais: a soberba, a avareza, a tristeza (hoje diz-se a inveja), a preguiça, a ira, a gula, a sensualidade. Estes demônios geram outros. Na Quaresma, é necessário identificar aqueles que são mais fortes em nós e combatê-los! 


terça-feira, 5 de março de 2019

O sentido da Quaresma

A Quaresma é um período de quarenta e quatro dias.
Desses quarenta e quatro dias, retiram-se os seis domingos quaresmais, nos quais não se deve fazer penitência e acrescentam-se mais dois dias, a Sexta-feira da Paixão e o Sábado Santo, que são dias de penitência, obtendo-se um total de exatos quarenta dias de penitência pela abstinência e o jejum.
Assim, o sagrado Tempo Quaresmal se inicia na Quarta-feira de Cinzas, prolongando-se até a Quinta-feira Santa, antes da Missa na Ceia do Senhor.
Trata-se de um tempo privilegiado de conversão, combate espiritual, jejum e escuta da Palavra de Deus.

Na Igreja Antiga, este era o tempo no qual os catecúmenos (adultos que se preparavam para o Batismo) recebiam os últimos retoques em sua formação para a vida cristã: eles deveriam entregar-se a uma catequese mais intensa e aos exercícios de oração e penitência. Pouco a pouco, toda a comunidade cristã - isto é, os já batizados em Cristo -, começou a participar também deste caminho, tanto para unir-se aos catecúmenos, como para renovar em si a graça de seu próprio Batismo e o fervor da vida cristã, preparando-se, deste modo, para a santa Páscoa.

Assim, surgiu a Quaresma: tempo no qual os cristãos, pela purificação e a oração, buscam renovar sua conversão para celebrarem na alegria espiritual a santa solenidade de Páscoa, na madrugada do Domingo da Ressurreição, renovando suas promessas batismais.
O santo tempo quaresmal tem, portanto, uma vertente ascética, de combate espiritual e caminho de conversão, e uma outra mística, centrada na contemplação e celebração litúrgica do Mistério Pascal de Cristo.


Chegou o tempo do combate

Eis o tempo da Quaresma!
Somos convidados nestes dias a retomar a consciência de ser o Povo santo do Senhor, o Israel de Deus, o Povo da nova e eterna Aliança. E como fazê-lo? Como o Senhor Jesus, o Santo de Deus, que passou quarenta dias no deserto em combate espiritual, sendo tentado por Satanás.

A Quaresma é um tempo de deserto, de provação, de combate espiritual contra Satanás, o Pai da mentira, o enganador da humanidade. Sem combate não há vitória e não há vida cristã de verdade! A Igreja, dá-nos as armas para o combate: a oração, a penitência e a esmola.
A Mãe católica nos pede neste tempo, que combatamos nossos vícios com mais atenção e empenho; recomenda-nos a leitura da Sagrada Escritura e de livros edificantes, que unjam o nosso coração.

Deixemos a preguiça, cuidemos do combate espiritual! Que cada um programemos o que fazer a mais de oração. Há tantas possibilidades: rezar um salmo todos os dias, rezar todo o saltério ao longo da Quaresma, rezar a via-sacra às quartas e sextas-feiras.

Quanto à penitência, não enganemos o Senhor! Que cada um tire generosamente algo da comida durante todos os dias da Quaresma (exceto aos domingos); que se abstenha da carne às sextas-feiras, como sempre pediu a tradição ascética da Igreja, que tire também algo das conversas inúteis, dos pensamentos levianos, dos programas disponíveis nos meios de comunicação tão nocivos à saúde da alma!

E a esmola, isto é, a caridade fraterna? Há tanto que se pode fazer: acolher melhor quem bate à nossa porta, aproximar-nos de quem necessita de nossa ajuda, reconciliarmo-nos com aqueles de quem nos afastamos, visitar os doentes e presos....

Quanto ao combate dos vícios, que cada um veja um vício, isto é, um mau hábito dominante e cuida de combatê-lo com afinco nesses dias! Escolha também uma leitura espiritual para o tempo quaresmal, leitura que alimente a mente e o coração. Esta leitura, mais que um estudo, deve ser uma oração, um refrigério para o coração, uma leitura edificante, que nos faça tomar mais gosto pelas coisas de Deus...

Deixemos a preguiça, combatamos o combate da nossa salvação! Finalmente, que ninguém esqueça a Confissão sacramental, para celebrar dignamente a Páscoa sagrada.
Se alguém não puder se confessar por se encontrar em situação irregular perante Cristo e a Igreja, que não se sinta excluído! Procure o sacerdote para uma direção espiritual, uma revisão de vida e peça uma bênção, que, certamente, não lhe será negada. Não é a confissão, não permite o acesso à comunhão sacramental, mas é também um modo medicinal de aliviar o coração e ajudar no caminho do Senhor!

O importante é que ninguém fique indiferente a mais essa oportunidade que a misericórdia do Senhor nos concede!
É digno de nota que somente depois do combate no deserto é que Jesus nosso Senhor saiu para anunciar a Boa Nova do Reino. Também cada um de nós e a Igreja como um todo, somente poderá testemunhar o Reino que Cristo nos trouxe se tiver a coragem de enfrentar o deserto interior e combater o combate da fé! Não recebamos em vão a graça de Deus!
Que ele, na sua imensa misericórdia, nos conceda uma santa Quaresma!


O jejum e a abstinência

Uma das características do tempo da Quaresma, é a penitência, sobretudo no comer e no beber.
Trata-se de uma observância tão marcante, que o tempo quaresmal, efetivamente, tem mais de quarenta dias para que, descontados os domingos, nos quais nunca se faz penitência, feche-se a conta exata de quarenta dias de penitência no alimento, contando-se deste a Quarta-feira de Cinzas até o Sábado Santo, encerrando-se a penitência quaresmal com a Vigília Pascal.
Esta penitência nos alimentos pode consistir numa simples abstinência, que é renúncia a algum alimento, ou pode chegar ao jejum, que consiste no privar-se das refeições de modo total ou parcial. É muito importante a prática de tal forma de penitência. Aliás, eram o jejum e a abstinência que, na Igreja Antiga, davam uma fisionomia própria ao tempo quaresmal.

Mas, por que jejuar? Por que se abster de alimentos?
É necessário compreender o sentido profundo que o cristianismo dá a essas práticas, para não ficarmos numa atitude superficial, às vezes até folclórica ou, por ignorância pura e simples, desprezarmos algo tão belo e precioso no caminho espiritual do cristão.

O jejum e a abstinência têm quatro sentidos muito específicos e claros:

(1) O jejum nos ensina que somos radicalmente dependentes de Deus.
Na Escritura, a palavra nepheshsignifica, ao mesmo tempo, “vida” e “garganta”. A ideia que isso exprime é que nossa vida não vem de nós mesmos, não a damos a nós próprios; nós a recebemos continuamente: ela entra pela nossa garganta, com o alimento que comemos, a água que bebemos, o ar que respiramos.
Jamais o homem pode pensar que se basta a si mesmo, que pode se fechar para Deus e, sem Ele, ser o gerador, o provedor e o dono da sua vida! Este é o grande pecado da cultura atual, do mundo em que vivemos: um homem que se julga um deus!
Quando jejuamos, sentimos uma certa fraqueza e lerdeza; às vezes, nos vem mesmo um pouco de tontura. Isso faz parte da “psicologia do jejum”: recorda-nos o que somos sem esta vida que vem de fora, que nos é dada por Deus continua e gratuitamente. A prática do jejum, impede-nos, então, da ilusão de pensar que a nossa existência, uma vez recebida, é autônoma, fechada, independente. Nunca poderemos dizer: “A vida é minha; faço como eu quero!” A vida será, sempre e em todas as suas etapas, um dom de Deus, um presente gratuito, e nós seremos sempre dependentes Dele.
Esta dependência nos amadurece, nos liberta de nossos estreitos e mesquinhos horizontes, nos livra da ilusão da autossuficiência e nos faz compreender “na carne” nossa própria verdade, recordando-nos que a vida é para ser vivida em diálogo de amor com Aquele que no-la deu. 

(2) O alimento é uma de nossas necessidades básicas, um de nossos instintos mais fundamentais, juntamente com a sexualidade. A abstenção do alimento nos exercita na disciplina, fortalecendo nossa força de vontade, aguçando nossa capacidade de vigilância e dando-nos a capacidade para uma verdadeira disciplina.
Nossa tendência é ir atrás de nossos instintos, de nossas tendências, de nossa vontade desequilibrada. Aliás, essa é a grande fraqueza e o grande engano do mundo atual. Dizemos: “não vou me reprimir; não vou me frustrar”, e vamos nos escravizando aos desejos mais banais e às paixões mais contrárias ao Evangelho e ao amor pelo próximo.
O próprio Jesus, de modo particular, e a Escritura, de modo geral, nos exortam à vigilância e à sobriedade. O jejum e a abstinência, portanto, são um treino para que sejamos senhores de nós mesmos, de nossas paixões, desejos e vontades. Assim, seremos realmente livres para Cristo, sendo livres para realizar aquilo que é reto e desejável aos olhos de Deus! O próprio Jesus afirmou que quem comete pecado é escravo do pecado! Não adianta: sem o exercício da abstinência, jamais seremos fortes. Não basta malhar o corpo; é preciso malhar o coração! Salta aos olhos o quanto vivemos num mundo de imaturos, de fracos, que pensam que o mundo tem que se dobrar aos seus caprichos, vícios e ilusões...

(3) O jejum tem também a função de nos unir a Cristo, no Seu período de quarenta dias no deserto: quaresma de Cristo, quaresma do cristão.
Faz-nos, assim, participantes da Paixão do Senhor, completando em nós o que faltou à Cruz de Jesus e completando o que faltou em nós da Cruz do Senhor. O cristão jejua por amor a Cristo e para unir-se a Ele, trazendo na sua carne as marcas da Cruz do Senhor.
Trata-se de uma união com o Senhor que não envolve somente a alma, com seus sentimentos e afetos, mas também o corpo. É o homem todo, a pessoa na sua totalidade que se une ao Cristo.
Nunca é demais recordar que o cristianismo não é uma religião espiritualista, religião simplesmente da alma, mas atinge o homem em sua totalidade. Pelo jejum, também o corpo reza, também o corpo luta para colocar-se no âmbito da Vida nova de Cristo Jesus. Também o corpo necessita, como o coração, ser esvaziado do vinagre dos vícios para ser preenchido pelo mel, que é o Espírito Santo de Jesus. Jejuar, praticar a abstinência de alimentos é trabalhar para colocar o corpo debaixo do senhorio do Cristo Jesus!

(4) Finalmente, o jejum e a abstinência, fazem-nos recordar aqueles que passam privação, sobretudo a fome, abrindo-nos solidariamente para os irmãos necessitados. Há tantos que, à força, pela gritante iniquidade e pelo egoísmo do coração humano, jejuam e se abstêm todos os dias, o ano todo! O jejum nos faz sentir um pouco a sua dor, tão concreta, tão real, tão dolorosa!
Por isso mesmo, na tradição mística e ascética da Igreja, o jejum e a abstinência devem ser acompanhados sempre pela esmola: aquele alimento do qual me privo, já não é mais meu, mas deve ser destinado ao pobre. É por isso que os pobres, ainda hoje, em algumas regiões, nos dias de jejum, pedem nas portas o “meu jejum”. Eis o jejum perfeito: ele me abre para Deus e para os irmãos. Neste ponto, é enorme a insistência seja da Sagrada Escritura, seja dos Padres da Igreja (os santos doutores dos primeiros séculos do cristianismo).
Assim, que nossa abstinência quaresmal, que nosso jejum, sejam regados com gestos concretos de solidariedade, de afeto, de preocupação, de ações concretas em relação aos pobres, aos necessitados deste mundo!

Resta-nos, agora, passar da teoria à prática!
Seja a nossa Quaresma rica do jejum e da abstinência, enriquecidos com o bem da caridade fraterna, da esmola, que se efetivam na atenção e preocupação ativa e concreta pelos pobres de todas as pobrezas.



sábado, 2 de março de 2019

Homilia para o VIII Domingo Comum - ano c

Eclo 27,5-8
Sl 91/92
1Cor 15,54-58
Lc 6,39-45

No Evangelho deste Domingo, estamos ainda escutando o Senhor Jesus falando aos Seus discípulos no Sermão da Planície, aquelas palavras que Ele pronunciou quando “desceu com eles da montanha e parou num lugar plano”; Ele, então, “ergueu os olhos para os Seus discípulos e disse-lhes”todas estas coisas...

Se prestarmos bem atenção, poderíamos resumir tudo quanto o Senhor nos disse hoje nesta afirmação tão atual, tão urgente, tão importante: “O discípulo não está acima do Mestre, mas todo discípulo bem formado será como seu Mestre!” O Mestre é Jesus nosso Senhor; o discípulo é cada um de nós! O próprio Senhor já nos havia prevenido em outro passo do Evangelho: “Um só é o vosso Mestre e todos sois irmãos; um só é vosso Guia, o Cristo” (Mt 23,8-10). Na Igreja, unicamente o Cristo é a Verdade absoluta, unicamente Ele é a referência última, o critério, o guia! Ser verdadeiramente discípulo é caminhar com Ele, caminhar atrás Dele, em Seu seguimento: “Vinde após Mim, atrás de Mim” (Mc, 1,17). Não caminhar atrás Dele, tomando-O por Mestre, seguir a quaisquer outros mestres que não seguem verdadeiramente ao Senhor, é como um cego que se deixa guiar por outro, caindo ambos no mesmo buraco, na mesma ilusão, na mesma mentira!
Mais ainda: quando nos deixamos guiar pelo Cristo vamos sendo transformados em novas criaturas (cf. 2Cor 5,17), vamos sendo renovados no nosso coração, vamos tendo os mesmos sentimentos do Cristo Jesus (cf. Fl 2,5), o nosso coração vai-se enchendo da sabedoria que é fruto da nossa união com Cristo, Ele mesmo Sabedoria do Pai (cf. 1Cor 1,24). Aí, então, pouco a pouco, nossas palavras e atos exprimirão aquilo que está no nosso coração: a própria sabedoria, fruto de uma vida de união com o Senhor.

Caríssimos, este é o trabalho de uma vida! Nunca esqueçamos que ser cristão é um caminho, um seguimento contínuo ao Senhor! Na vida cristã, parar ou desviar-se, seguindo seu próprio caminho ou, pior ainda, o caminho que o mundo propõe, é perder o rumo, perder o Senhor.
Na escuta fiel e ungida da Palavra do Senhor, na oração perseverante, na participação fiel na Eucaristia, na Confissão dos pecados, na vida fraterna, no combate aos próprios vícios e pecados, vamos crescendo no caminho de Cristo. Um dia, no Dia do Senhor, Dia final, aquilo que foi o nosso caminho nesta vida, explodirá em Glória. É o que diz São Paulo, na segunda leitura de hoje.

Já há alguns domingos escutamos o que o Apóstolo nos ensina sobre a ressurreição dos mortos. Resumindo, ele afirma que ressuscitaremos porque Cristo ressuscitou como primícias, garantia e penhor da nossa ressurreição. Disse também que ressuscitaremos como Jesus: receberemos a Vida divina no nosso corpo e na nossa alma e seremos revestidos da força e da glória que provêm do Espírito de Deus, o mesmo que ressuscitou Jesus dentre os mortos. No trecho que escutamos hoje, o Apóstolo afirma que este nosso ser corruptível, corpo e alma, com sua vida psicofísica, necessita receber a Vida divina, que o fará participar da Vida de glória e incorruptibilidade do próprio Deus. Trata-se de uma Vida totalmente diferente desta, que temos agora; Vida do próprio Deus eterno, Vida Eterna, Vida divina, Vida celeste. Isto vai se dar em todo o nosso ser: logo após a morte, na nossa alma e, no final dos tempos, no Dia de Cristo, também no nosso corpo! Então, o plano de Deus para nós se cumprirá: “A morte será tragada pela Vitória: onde está, ó Morte, a tua vitória? Onde está, ó Morte, o teu aguilhão?”
Caríssimos no Senhor, disto não tenhamos a menor dúvida: o nosso destino é participar de Glória de Deus em Cristo, no nosso corpo e na nossa alma! Nossa vida neste mundo somente alcança seu sentido se a vivermos e compreendermos à luz da Eternidade! Por que vivemos atolados aqui e esquecemos que o nosso destino é a Glória do Céu? Por que teimamos em esquecer que aqui estamos de passagem e somente lá viveremos para sempre? A Escritura diz que “não temos aqui na terra cidade permanente, mas estamos à procura daquela que está por vir” (Hb 13,14). São Bernardo de Claraval, no século XII, gostava de recordar que nosso caminho neste mundo é semente de Eternidade; e Santa Teresinha, no século XIX, exclamava: “A vida é tua embarcação, não a tua morada!” 
Infelizmente, nos tempos que correm, os próprios cristãos vivemos meio esquecidos do sentido, da finalidade, do definitivo do nosso caminho neste mundo! Enterramos o nariz nos acontecimentos, preocupações e afazeres deste mundo e esquecemos a Eternidade que da sentido e direção ao que vivemos aqui! Cuidado! Coloquemo-nos atrás do nosso único Mestre, Aquele que nos dará a vitória, e veremos, então que “nossas fadigas não são em vão no Senhor”!

Coragem, Irmãos! Que o nosso olhar se dirija a Jesus, que nossos passos coloquem-se nos Seus passos, que o Senhor seja, de fato o nosso Mestre, o nosso Caminho e a nossa Verdade! Que nos deixemos impregnar e guiar pelo Seu Espírito, de modo que nosso coração pulse no ritmo do Dele e, assim, tudo na nossa vida – pensamentos, palavras, atos e atitudes – seja reflexo Dele mesmo, até que, terminado o caminho deste mundo, sejamos totalmente, em corpo e alma, transfigurados Nele, que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.