sábado, 15 de dezembro de 2018

Homilia para o Terceiro Domingo do Advento - ano c

Sf 3,14-18a
Is 12
Fl 4,4-7
Lc 3,10-18


“Gaudete in Domino semper: iterum dico vobis, gaudete. Dominus enim prope est”. O tom da liturgia deste terceiro Domingo do Advento é a alegria. A cor rosácea, mistura do roxo do Advento com o branco do Natal, usada como opção ao roxo, sinaliza para esta exultação que perpassa toda a liturgia hodierna. “Alegrai-vos!”– diz São Paulo na segunda leitura; “Canta de alegria, rejubila, alegra-te e exulta de todo o coração” - convida o Profeta Sofonias na primeira; “Exultai cantando alegres” – exorta o Salmo de meditação. 

Mas, qual o motivo de tamanha alegria?
Para um cristão, para alguém responsável, e realmente consciente, é possível alegrar-se, quando há tanta dor no mundo, tanto fracasso, tristeza, solidão e morte?
Alegrar-se num mundo assim, confuso, lânguido, demente de fé, de valores, de esperança, não seria uma insuportável falta de solidariedade, uma falta de compaixão para com quem sofre e geme?
E, no entanto, a Palavra santa insiste: Alegrai-vos! Mas, “alegrai-vos sempre no Senhor!” Eis o modo de alegrar-se, no Senhor, porque Ele pode sustentar nossa existência, Ele pode dar sentido às nossas dores e nos consolar depois da pena! E a Palavra santa prossegue: “Alegrai-vos: o Senhor está perto”. O motivo da nossa alegria é a certeza que Deus não nos abandonou, a convicção que Ele é um Deus presente e que no Seu Filho Jesus, Ele veio pessoalmente ao nosso encontro.
Então, irmãos, alegrai-vos, pois ainda que haja tantas realidades dolorosas e sombrias, o Senhor está perto com Seu amor, perto com Sua misericórdia, perto com Sua salvação. E o nome dessa salvação é Jesus! 

Já no Antigo Testamento, Deus consolava o Seu Povo, sustentava-lhe a esperança, prometia-lhe uma bênção no futuro. Ele mesmo haveria de ser essa bênção, um Deus no meio de Sua gente, um Deus próximo: “O rei de Israel é o Senhor, Ele está no meio de ti, nunca mais temerás o mal. O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva!” Israel nunca poderia imaginar que essas palavras haveriam de cumprir-se ao pé da letra. Como Deus poderia vir habitar pessoalmente no meio do Seu Povo, se Ele é o Infinito, Santo e abarca tudo quanto existe no céu e na terra? Para nós, cristãos, no entanto, de modo maravilhoso, esta promessa cumpriu-se em Jesus: Ele é o Deus-conosco, Deus entre nós, Deus para nós, Deus como nós: com nosso semblante e com nossos gestos! Ninguém poderia imaginar algo assim! A surpresa foi tanta, é tanta, que Santo Irineu exclamava, a respeito de Cristo: “Ele trouxe toda a novidade quando Se trouxe a Si mesmo!” Por isso São Paulo nos convida a que nos alegremos no Senhor; não em qualquer alegria! Somente no Senhor que Se dá a nós, a nossa alegria pode ser autêntica, porque brota da certeza que não estamos sós, que o pecado e a morte foram vencidos! 

Alegrai-vos, pois, mas na alegria de saber que, mesmo com tanta dor e sofrimento no mundo, o amor e a graça de Deus triunfam em Jesus Cristo. Alegremo-nos porque o Senhor está próximo: Ele está próximo o Seu Natal, Ele está próximo no nosso cotidiano, Ele está próximo na Sua Vinda final, próximo, porque é urgente que nos decidamos por Ele, que O acolhamos, que Lhe abramos as portas do coração! 

Por isso, ao lado da alegria, o Evangelho de hoje, ao apresentar-nos o ministério de João Batista, coloca-nos uma questão fundamental: “Que devemos fazer?” – é a questão de levar a sério o Cristo que vem; a questão de abrir espaço para Ele na nossa vida, a questão de decidir-se realmente por Ele! Como devemos viver para acolher Sua vinda no dia-a-dia, para bem celebrar o Seu Natal, para estar diante Dele quando vier na Sua Glória? Que devemos fazer? A resposta somente pode ser uma: convertei-vos, abri vosso coração para que o Rei da Glória possa entrar! Entrar no vosso modo de viver, entrar nas vossas opções, entrar no vosso coração, entrar em todas as dimensões da vossa existência! Não recebais em vão a graça de Deus, o dom do Cristo que nos vem sempre! Não torneis inútil a salvação que Cristo vos concedeu. 

É importante observar o apelo de João, o Batista, precursor do Messias. A cada grupo de pessoas que perguntavam o que fazer, o Batista responde de modo muito concreto, indicando uma direção a partir do modo de vida e da atividade de quem perguntava e sempre relacionando com o respeito e o amor aos outros: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; quem tiver comida, faça o mesmo; não cobreis mais que o estabelecido; não tomeis à força dinheiro de ninguém; não façais falsa acusação”.

Ainda hoje este é o critério para acolher Jesus: um coração em disposto à conversão. e uma conversão que passe pelo relacionamento com os irmãos, sobretudo os mais necessitados.

Pois bem: “Alegrai-vos no Senhor!” Que vossa alegria no Senhor que vem, vos faça bondosos para com todos, sem excluir ninguém, pois o Senhor a todos nos acolheu! Que vossa alegria no Senhor vos faça serenos ante os problemas e desafios do mundo e da vida! Que vossa alegria no Senhor guarde vossos corações e pensamentos em Cristo Jesus! 

É isto que nos é pedido neste santo Advento! É esta a condição para um Natal verdadeiramente cristão, verdadeiramente no Senhor! 

Ó Santo Emanuel, Tu que assumiste nossa humana condição, Tu que não Te envergonhaste de ser um de nós, um como nós, um conosco, acolhe nossa súplica, alegra o nosso coração com a alegria da tua chegada, a mesma que alegrou a Virgem, a José, a João no ventre materno, a mesma que fez Isabel exultar e Zacarias cantar, a mesma que alegrou os pastores e o magos...
Santo Emanuel, que nossa alegria esteja numa vida vivida na Tua presença, fazendo a Tua vontade, cumprindo o Teu mandamento!
Vem, Senhor Jesus, que precisamos de Ti! Vem e renova o nosso coração e o coração do mundo, até a Tua Vinda definitiva e final na Glória. Amém.


sábado, 8 de dezembro de 2018

Homilia para o II Domingo do Advento - ano c

Br 5,1-9
Sl 125
Fl 1,4-6.8-11


Estamos no Domingo II do Advento. Este é um tempo de espera. Um tempo a nos recordar que a humanidade toda espera, mesmo sem saber: neste mudo cansado e ferido, o coração humano espera um sentido pra vida, espera a paz, espera o amor, espera a plenitude... Para usar a linguagem da Bíblia: espera a salvação! A humanidade esperou e espera...
Também o povo de Israel esperou. Nos momentos de escuridão da sua história, Israel levantou-se e continuou o caminho, porque alicerçado na promessa do seu Deus. A primeira leitura da Missa de hoje apresenta-nos esta realidade de modo comovente: quando o Povo estava na maior escuridão do exílio de Babilônia, Deus lhe falou de esperança. Estas palavras ainda hoje nos tocam e comovem, ainda hoje são para nós: “Depõe a veste de luto, e reveste, para sempre, os adornos da glória vinda de Deus! Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e põe na cabeça o diadema da glória do Eterno!” Deus promete ao Seu Povo a felicidade, a bênção, a glória – não quaisquer umas, mas aquelas que vêm de Deus! Nosso Deus foi e sempre será o Deus da promessa, o Deus que nos aponta para um futuro de bênção, que nos enche de esperança, que faz nosso coração palpitar, sonhando com a paz que ele dará!

Ora, esta esperança, esta bênção, esta paz, esta plenitude, este futuro, têm e terá sempre um nome: Jesus Cristo! Tudo se cumpre Nele, tudo se resume Nele; Nele, tudo é pleno e duradouro: Ele é o Sim de Deus para Israel e para toda a humanidade!

A salvação que a humanidade esperou e os profetas prometeram a Israel, no Evangelho deste Domingo aparece tão próxima: ela entra na história humana; não fica lá em cima, no céu; entra nas coordenadas dos nossos pobres dias: “No décimo quinto ano do império de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes administrava a Galileia, seu irmão Filipe, as regiões da Itureia e Traconítide, e Lisânias a Abilene; quando Anás e Caifás eram sumos sacerdotes...” Nossa fé não é um mito, nossa esperança não é uma quimera: ela veio, entrou no nosso mundo, no nosso tempo, no nosso espaço, na nossa pobre vida, nos nossos dias tão pequenos: “... foi então que a Palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto”. Como é belo o Advento! João anuncia que chegou o tempo, que com Aquele que vem, o próprio Deus, em pessoa, faz-Se presente: tempo de salvação, tempo decisão, tempo de acolher o convite para o Reino! Deus cumpriu e cumprirá Sua promessa, ao enviar Jesus; Deus satisfez o sonho que Ele mesmo colocara no coração humano, no nosso coração, ao nos dar Jesus. Deus é fiel!

Nunca esqueçamos: este Jesus que veio – e estamos nos preparando para celebrar o Seu santo Natal -, é o mesmo que ainda esperamos para consumar a Sua obra no Dia final. Na Epístola aos Filipenses, segunda leitura da Missa de hoje, São Paulo nos fala do Dia de Cristo – aquele Dia que começou em Belém, brilhou na Ressurreição e será pleno na Vinda final do Senhor. Deus nos prometeu este Dia bendito, no qual todas as esperanças humanas serão realizadas! O cristão vive os dias deste mundo na esperança deste bendito e eterno Dia. Por isso, o Apóstolo deseja que permaneçamos puros e sem defeito “para o Dia de Cristo, cheios do fruto da justiça que nos vem por Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus”. Ele confia que, no que depender do Pai celeste, nós cresceremos na obra de Deus até“à perfeição até ao Dia do Cristo Jesus”.
O Advento, portanto, é tempo de esperança, de espera, de sonho... Mas é também tempo de compromisso em nos preparar para o Senhor que vem e vem vindo sempre. É tempo de preparar os caminhos do Senhor, endireitar Suas veredas! Que todo vale de nossos pecados e baixezas seja aterrado; que as colinas do nosso orgulho, da nossa autossuficiência e prepotência sejam aplainados. Que, numa vida de conversão, vejamos a salvação de Deus... E os outros, os de fora, vejam em nós a obra desta salvação!

Não percamos tempo! A oração da Missa pedia a Deus que nenhuma atividade terrena nos impedisse de correr ao encontro do Filho que vem. Por favor, em Nome de Cristo: levantemos os olhos de nossa mediocridade, de nossas preocupações pequenas e mesquinhas! Levantai a cabeça: a vossa Salvação se aproxima! Não sejamos desatentos, a ponto de não perceber e não acolher Aquele que veio, vem vindo e virá na Glória!

Terminemos esta meditação com as palavras de um poeta pagão, mas que exprimem bem o que a Palavra de Deus, que ouvimos hoje, nos quer dizer. É um poema de Tagore:

Não ouvistes os passos silenciosos?
Ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre!

A cada momento e a cada estação,
a cada dia e a cada noite,
Ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre!

Várias cantigas cantei,
em vários disposições de espírito,
mas as suas notas sempre proclamaram:
Ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre!

Nos dias perfumados de abril luminoso,
pelo caminho do bosque
Ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre!

Na sombra chuvosa das noites de junho,
na carruagem trovejante das nuvens,
Ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre!

De tristeza em tristeza,
são os Seus passos que pisam o meu coração!
E é o contato de ouro de Seus pés
que faz brilhar minha alegria!


Pois bem! Vem, Senhor Jesus, vem sempre!
Vem nas alegrias, mas vem também nas tristezas da vida!
Que saibamos discernir as Tuas vindas e os rastros de ouro que Teus pés benditos deixam na nossa vida!

Vem, Senhor, porque somos frágeis!
Vem, Senhor, porque somos pobres!
Vem, Senhor, porque muitas vezes o peso da vida é grande demais!
Vem, Senhor, porque temos medo da noite!
Vem, vem com Tua luz, ó Senhor Jesus!


Homilia para a Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria

A Imaculada Conceição da Virgem Maria – é este o mistério que neste dia celebramos. Hoje, a Virgem foi concebida no ventre de Ana, sua mãe.
Mas, que tem isso de mistério? É verdade que toda vida que brota é um mistério; é verdade que todo feto, desde o primeiro momento de sua existência, seja são ou defeituoso, é já uma vida humana e, portanto, um milagre de Deus, um sorriso de Deus, um presente de Deus – apesar dos monstros de hoje, dessa humanidade desalmada e sem Deus, desejarem tanto negar a dignidade da vida humana desde o seu primeiro momento...
Se é assim, se cada concepção neste mundo é um mistério, o que tem de extraordinário a concepção daquela que será a Mãe do Cristo-Deus?
Eis o mistério, eis a novidade, eis o extraordinário: no momento mesmo em que Ana, idosa e estéril, concebeu a Virgem Santa, ela, por ser destinada a ser a Mãe do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, foi preservada da mancha do pecado original. Em outras palavras: a Virgem Maria, desde o primeiro momento de sua existência no ventre materno, foi preservada daquela marca negativa, de fechamento e desarmonia, que mancha e fere a nossa natureza humana. Portanto, a ela, e só a ela, o Senhor pode exclamar, com as palavras do Cântico dos Cânticos:“Como és bela, Minha amada, como és bela! És toda bela, Minha amada, e não tens um só defeito!” (4,1.7).
Que o Senhor Deus exclame assim! Que a Mãe Igreja cante assim! Que a humanidade exulte assim!

A Igreja desde muito cedo foi compreendendo sempre mais este mistério da Imaculada Concepção de Nossa Senhora: ela, a Virgem, fora preservada do pecado graças aos méritos do Cristo, que com Sua Paixão, Morte e Ressurreição nos libertou do pecado.
Como diz São Paulo aos Romanos: “Todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus e são justificados gratuitamente por Sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus” (3,23s).Com efeito, sem Jesus, sem a Cruz que Deus já sabia que aconteceria, a Virgem seria tão pecadora quanto todo o resto da humanidade! Mas, a mesma Cruz de Cristo que nos arrancou da lama, sequer permitiu que a Mãe do Cordeiro Imaculado pela lama fosse tocada! Que grande providência de Deus! Que amorosa sabedoria! Nossa Senhora, mais que todos nós, pode e deve cantar as palavras do Profeta: “Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas jóias!” (Is 61,10). Nossa Senhora, de sorriso escancarado, pode erguer o olhar para o Senhor e exclamar: “Eu Vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes, e não deixastes rir de mim meus inimigos!” (Sl 29,2)Em Maria começou a manifestar-se a vitória de Cristo contra o Inimigo da nossa raça humana...

Se pensarmos bem, veremos que este mistério deita suas raízes na antiguidade, nos primórdios do sonho de Deus. A primeira leitura, do Livro do Gênesis, nos diz que, quando toda a humanidade foi marcada pelo pecado, pelo “não” a Deus – esse “não” no qual todos nós já nascemos e que tantas e tantas vezes vamos dizendo e aprofundando -, o Senhor prometeu uma inimizade entre Satanás e a Mulher, entre a descendência de Satanás e a da Mulher: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. Eis, que mistério tão grande: uma queda, uma miséria, uma misericórdia, uma inimizade, uma promessa! E, desde então, toda a história da humanidade, todo o caminho de Israel, todo o Antigo Testamento, foram um correr para essa promessa, um esperar por esse cumprimento tão santo! Porque, desde o início, Deus tem um plano, e Seu plano é nos enviar o Salvador, de modo que tudo quanto o Pai bendito pensa e sonha para nós, é pensando em Cristo e em função de Cristo. Escutemos o Apóstolo: “Em Cristo, Deus nos escolheu antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o Seu olhar, no amor. Ele nos predestinou para sermos Seus filhos adotivos por intermédio de Jesus Cristo, conforme a decisão de Sua vontade!”Se Deus tudo pensou para nós em Cristo, se em Cristo nos predestinou, a Igreja crê firmemente que, desde o princípio, aquela Mulher anunciada no paraíso, fora predestinada para ser a Mãe do que esmaga a Serpente, a inimiga de Satanás, aquela que não tem nenhuma amizade com o pecado, nenhuma convivência descendência da Serpente! E tudo isso, por graça de Deus em Cristo!
Podemos, então, compreender o modo como Gabriel, no Evangelho, saúda Maria. Como a chama? Não diz o seu nome “Maria”, mas chama-a com um nome novo, aquele que somente Deus, que sonda os corações, poderia conhecer. Escutemos o Anjo, admiremos: “Alegra-te, ó Toda Agraciada! O Senhor é contigo!” Toda Agraciada, isto é, toda invadida, inundada pela graça, pelo favor de Deus! Na Virgem Maria não há lugar algum para a “des-graça” do pecado. Nela, em quem o Santo de Deus, o Cristo, o Santo Messias, deveria habitar, não pode, não pôde, não poderá nunca haver lugar para o pecado! Desde o primeiro momento de sua existência, a Virgem foi escolhida e predestinada para a Mãe do Salvador. Não esqueçamos a palavra da Escritura: “Em Cristo, Ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o Seu olhar, no amor.”É este mistério que celebramos!
Se Cristo é o Dia, a Virgem é a Aurora;
se Ele é o Sol, ela é a Estrela d’Alva;
se Ele é o Fruto, ela é a Flor bendita!
Como é bela a solenidade deste hoje: é aurora do santo Natal! Aquele que ilumina a noite de Belém e do mundo é prenunciado pela luminosidade da Virgem Imaculada!

Caríssimos, vivemos num mundo cada vez mais sem graça, um mundo literalmente “des-graçado”, isso, é fechado para a graça. Pois bem: neste mundo sem graça, celebrar a Imaculada Conceição da Mãe de Deus é proclamar a vitória da graça sobre o pecado, é renovar nossa certeza na força que vem da Cruz e Ressurreição do Senhor, que dissipa as trevas e vence o mal.

Ó Maria Santíssima, Virgem imaculada desde a Conceição, intercede por nós, intercede por toda a Igreja, intercede pela humanidade: que lutemos contra o pecado, do qual tu foste preservada desde o primeiro momento de tua existência!
Que a força do Cristo Salvador, que não deixou o pecado te atingir, não deixe que o pecado nos vença!
Ó Alegria do mundo, Estrela d’Alva,
nenhuma outra como tu nos guias!
És o braço do Deus Forte que nos salva,
Virgem Maria!

És um Raio de luz lançado à treva,
para aquecer a terra fria!
Imensa Aurora, a Vida em vós se encerra,
Virgem Maria!

Só o trono de Deus é mais sublime,
que o teu trono, à luz do eterno Dia!
Ó Santa Mãe da Paz que nos redime,
Virgem Maria!

Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!

Aurora que prenuncia o Dia

Encantadoramente Imaculada

Dentro do sagrado Advento, no 8 de dezembro, celebra-se a Concepção Imaculada de Maria, a Virgem.

Trata-se de uma solenidade que calha bem neste tempo de preparação para o Natal do Senhor.
Imaculada Concepção de Maria!
O Povo de Deus crê com todas as suas fibras que a Santa Virgem Maria, por ter sido escolhida por Deus para Mãe do Cordeiro Imaculado que tira o pecado do mundo, fora, por força da Paixão, Morte e Ressurreição do seu Filho, preservada desde o primeiro momento de sua existência humana, daquela solidariedade no pecado que envolve a nossa raça humana e a que chamamos “pecado original”.

Em Maria, a Virgem, não há aquela quebradura interior que todos nós experimentamos: aquele fechamento tão profundo para Deus, fechamento que aparece como desconfiança, às vezes como teimosia em fazer do nosso jeito, em descaso, falta de piedade, soberba, orgulho, e tantos outros vícios que sufocam a nossa liberdade e ferem o nosso coração.
Nela não há aquele fechamento para os outros, que se manifesta em tantas e tão diversificadas formas de egoísmo: falta de compaixão, orgulho, sensualidade, frieza, ganância, maledicência, ira, ciúme, inveja - a lista é deveras extensa...
Não! Na Mãe do Senhor não há sombra disso: Deus, o Pai, pelos méritos do Filho bendito, preservou-a de toda lama, de toda mácula! Da lama, Deus em Cristo nos arranca; pela lama, Deus em Cristo, sequer permitiu que a Virgem fosse tocada! Ela é aquela inimiga visceral da serpente: sem acordo, sem pacto sem trégua: ela é a Mulher do Gênesis, do Evangelho, do Apocalipse, em guerra de morte contra a antiga Serpente (cf. Gn 3,15; Jo 2,4; 19, 26; Ap 12,1.3s). Ela é aquela a quem Gabriel, chama com que com um nome novo, ao saudá-la:
“Alegra-te, Cheia de Graça!” ou
“Alegra-te, ó tu que tens o favor de Deus!”, ou
“Alegra-te, Muito Favorecida, Agraciada!” ou
“Alegra-te, tu que Foste e Permaneces Repleta da Graça Divina!”
– as palavras de Gabriel podem ser traduzidas com toda esta riqueza de expressões e sentidos, afirmando sempre a mesma realidade espantosa: na Virgem de Nazaré a graça de Deus, o favor de Deus, o amor de Deus habitou como em nenhuma criatura!
– Em ti, Virgem Maria, não há o menor espaço para a “des-graça” do pecado! Deus, o Pai, pode dizer de ti: “Como és bela, Minha amada, como és bela! És toda bela, Minha amada, e não tens um só defeito!” (Ct 4,1.7).

Desde a antiguidade, os Santos Padres e Doutores da Igreja, contemplando este mistério tão grande, chamam a Virgem de “Toda Santa” - Panaghia! Toda Santa, toda inundada da graça que Deus nos dá em Cristo, toda santificada pela santidade de Cristo Jesus!
Por isso, a Missa da Imaculada começa com as palavras de Isaías, colocadas pela Virgem Igreja na boca da Virgem Maria: “Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas jóias!” (Is 61,10).

A Imaculada! Que sonho! A Virgem Santíssima é imagem viva, sonho vivo, testemunho fiel daquilo que Cristo realiza em nós, pobre e frágil humanidade: Aquele que preservou Sua Mãe do pecado, do pecado miserável nos arranca; Aquele que fez de Sua Mãe a Primeira Redimida, primeira a ser salva (só Jesus salva, e salvou Sua Mãe de modo admirável!), salva toda a humanidade e tira o pecado do mundo!

Maria, a Virgem! Maria, a Imaculada!
Sonho lindo de Deus, sonho lindo do que deve ser a humanidade!
A Imaculada!
Quando a gente vê o mundo ferido, a humanidade angustiada, meio perdida...
quando ligamos a televisão e acessamos a internet e vemos a violência dos traficantes, os descaminhos de tantos jovens, a terrível solidão no seio das famílias...
quando vemos tanta feiúra: a guerra, a fome, a injustiça, as crises, a solidão, a morte...
quando a gente vê tudo isso... e pensa na Imaculada (beleza, candura, pureza, paz, ternura, sorriso e encanto de Deus), então tem a certeza que esse mundo tem jeito, que Deus não esquece de nós e, de tal modo nos purifica pelo Seu Filho, que seremos todos imaculados (cf. Ef 1,4).

Maria, a Virgem, a Imaculada desde a concepção!
Pensar em ti é tomar novo respiro e crer que Deus pode fazer em nós maravilhas:
pode nos renovar, pode revigorar este mundo cansado e purificar sempre de novo nosso coração manchado... 

Imaculada:
beleza de Deus,
ternura de Deus,
maravilha de Deus,
sorriso de Deus,
sonho lindo de Deus!

Imaculada desde a conceição,
doce aurora que anuncia o Dia – Jesus Cristo, nosso Deus, Aquele que celebraremos no Natal e acolheremos na Glória!

Imaculada!
Hoje e sempre, Imaculada!
Encantadoramente, Imaculada!



terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Meditação de Advento - Terça-feira da I Semana

Is 11,1-10

Texto conhecido, este do Profeta Isaías: fala do Ramo, do Rebento que viria da Casa de Davi.
Um brotinho pequeno, humilde, nascido do velho tronco da casa real de Judá.

Esse Rebento, seria o Ungido, o Meshia, o Cristo: Ele estaria cheio, repleno do Espírito do Senhor Deus, ungido com a Unção, que é o próprio Espírito que repousaria perenemente sobre Ele.

Porque pleno do Espírito e pelo Espírito conduzido, esse santo Messias tudo faria na temor do Senhor, isto é, na profunda obediência e reverência ao Deus de Israel, a Quem Ele mesmo chamaria de "Pai", "Meu Pai"!

Messias obediente, pobre, humilde... E, por isso, mesmo, portador de incontrastável poder: Sua palavra feriria, sacudiria, corrigiria; Seu sopro - Sopro que é o Espírito que O habita - mataria, eliminaria o ímpio e a impiedade!
Até que surgisse a paz, o shalom que o Senhor Deus nos promete, que o pecado afasta e que o Messias haverá de estabelecer na terra!

Lobo e cordeiro, leopardo e cabrito, novilho e leão, menino e víbora, vaca e urso serão amigos, reconciliados... No nosso coração e no coração do mundo!
Com o Reino do Messias não mais haveria o mal, não mais a destruição, porque a terra inteira e cada coração estariam cheios do conhecimento, do temor, do respeito do Senhor Deus, como as águas enchem o mar.
Mas, quando isto acontecerá?

O Messias veio, é Jesus!
Sim! E com Ele chegou o Reino, brilhou a salvação: Ele é a nossa paz, o nosso Shalom!
O coração, a comunidade, o povo que para Ele abre a existência encontram Nele o Shalom!
Mas, a bênção que Ele já trouxe, somente alcançará a plenitude no Fim, na Sua Manifestação final, no Dia da Sua Aparição: "Naquele Dia, a Raiz de Jessé, que Se ergue como um sinal para os povos, será procurada pelas nações, e a Sua morada se cobrirá de Glória".

Eis o Advento:
Alegra-se pela salvação prometida no Antigo Testamento e iniciada com a Vinda do Salvador na nossa carne.
Sim, Ele está conosco, na Sua Palavra, nos Seus sacramentos, na Sua Eucaristia.

Mas, atiça ainda mais no nosso coração a saudade, o desejo de que passe logo este mundo e venha a plenitude da salvação e da graça do Santo Messias: "Vinde, Senhor Jesus!"- a Igreja exclama em cada Eucaristia, logo após a consagração, quando, debaixo dos humildes sinais, encontra-Se escondido o Emanuel. Sim, ante da consagração, exclama: "Bendito o que vem em Nome do Senhor", em Nome do Pai. Depois da consagração, insiste: "Vinde, Senhor Jesus!" E, assim, deve a Igreja, devemos nós pedir, implorar constantemente, até o Dia Final: "Naquele Dia, o Senhor tornará a estender a Sua mão para resgatar o Resto do Seu Povo!" (Is 11,11).

Eis aí, Irmão!
Por Ele espere! o Seu Dia vem!
Tenha coragem, apesar de tudo!
Tenha coragem: Jesus, o Messias, já vem! Vem logo!
Viva neste certeza; viva por esta certeza!
Quem nos chamou é fiel! Quem prometeu é fidelíssimo!
Coragem: Jesus já vem!


sábado, 1 de dezembro de 2018

Homilia para o I Domingo do Advento - ano c

Jr 33,14-16
Sl 24
1Ts 3,12 – 4,2
Lc 21,25-28.34-36


“A Vós, meu Deus, elevo a minha alma. Confio em Vós, que eu não seja envergonhado!” Com a Eucaristia deste hoje estamos iniciando um novo Ano Litúrgico e também o Tempo do Advento, que nos coloca no estado de vigilância para o Senhor que, já presente neste mundo, vem a cada dia e virá como Juiz e Salvador no final dos tempos e nos prepara também para o Natal do Senhor. 
Durante este novo ano, aos domingos, escutaremos sempre trechos do Evangelho segundo Lucas. E nesta primeira Missa deste novo tempo, a Igreja, no missal, coloca as palavras do salmo 24, que foram lidas há pouco: “A Vós, meu Deus, elevo a minha alma”... A Igreja, nos seus verdadeiros filhos, naqueles que realmente creem e esperam, ergue os olhos, o coração, a alma para o Senhor, reconhecendo-se pobre, pequena e necessitada. “Confio em Vós, que eu não seja envergonhado!” Estas palavras, exprimem qual deva ser nossa atitude neste santo Advento: atitude de quem se reconhece necessitado de um Salvador; de quem se sabe pequeno e incapaz de caminhar sozinho! A humanidade, sozinha, não chega à plenitude, não encontra a felicidade: precisamos que Deus venha e nos estenda a mão, que Ele nos eleve e nos salve!

O Advento celebra primeiramente a Vinda do Senhor, aquela Sua vinda tremenda como Juiz Salvador, para colocar termo à história, para levar à plenitude a criação e introduzir toda a Sua obra na plenitude do Reino, na Glória sem fim. É impressionante: na Liturgia, o Futuro já nos é dado, já podemos verdadeiramente experimentar, como certeza e graça, os seus efeitos! Vigiai, o Senhor está às portas! Vigiai, Aquele que vem, virá sem falta! Vigiai, recobrai as forças e a esperança! Ponde somente no Senhor a vossa esperança! Levantai a cabeça! Ânimo! – Eis os sentimentos, eis o mistério do Advento!
Este tempo sagrado nos prepara também para o Natal, pois Aquele que vem é o que veio! Como foi fiel e salvador na Sua primeira Vinda, será também fiel e salvador na Sua Manifestação final.

Este é, portanto, um tempo de vigilância, de súplica, de alegre esperança no Senhor que vem: veio em Belém, vem no mistério celebrado no Natal, virá no final dos tempos e vem a cada dia, nos grandes e pequenos momentos, nos sorrisos e nas lágrimas. A liturgia nos ajuda a viver bem este tempo com símbolos próprios desta época: a cor roxa, que significa sobriedade e vigilância; o “Glória”, que não será rezado na Missa, para recordar que estamos em estado de espera e nos preparando para cantá-lo a plenos pulmões no Natal; a ornamentação sóbria da igreja; as leituras e cânticos tão comoventes, sempre pedindo a graça da Vinda do Senhor; a memória dos personagens que nos ensinam a esperar o Messias: Isaías, João Batista, Isabel e Zacarias, José e, sobretudo, a Virgem Maria.

Neste tempo, cuidemos de meditar mais na Palavra de Deus, tanto nas leituras da Missa diária quanto no livro do Profeta Isaías. Procuremos também o sacramento da confissão. Abramos nosso coração Àquele que vem!


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No Evangelho deste Domingo, o Senhor nos recorda a necessidade da vigilância: “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse Dia não caia de repente sobre vós; pois esse Dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes da terra. Portanto, ficai atentos!” Aquele cuja Vinda celebraremos no Natal, cuja Vinda esperamos no final dos tempos, Ele mesmo vem a nós constantemente! Somente numa atitude de oração e vigilância, de sobriedade e de expectativa amorosa, é que poderemos reconhecê-Lo e acolhê-Lo. É nossa atitude agora que determinará nossa sorte quando Ele vier no final dos tempos.

Com uma linguagem impressionante e simbólica, Jesus quer nos dizer hoje que Sua Manifestação final vai co-envolver todas as coisas: a criação toda, a história humana toda e cada um de nós. Nada nem ninguém escapará do Dia do Cristo; tudo será passado a limpo pelo Filho do Homem glorioso: “Verão o Filho do Homem vindo numa nuvem com grande poder e glória”.
Esta Vinda será discriminatória, será de separação, pois discriminará bons e maus: será manifestação da salvação para quem O acolheu e será perdição para quem O rejeitou! Daí, a advertência séria, o apelo quase que dramático que Jesus nos faz: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai a cabeça, porque a vossa libertação se aproxima”; “ficai atentos para terdes força de escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes de pé diante do Filho do Homem!”
Atenção, que os sinais que o Senhor nos dá, acontecem sempre, em cada geração, como um convite insistente à vigilância.

É preciso que compreendamos que este Dia final que o Senhor nos prepara – Dia da Sua Vinda, da Sua Manifestação, da Sua Aparição – será Dia de salvação: “Eis que virão dias em que farei cumprir as promessas de bens futuros... Naqueles dias, farei brotar de Davi a Semente de justiça... e Judá será salvo e Jerusalém terá uma população confiante”. Deus nunca pensou o mal para nós! Mas é necessário que nos abramos para o Bem que o Senhor nos prepara; este Bem é Aquele que veio em Belém, que nos vem em cada Eucaristia e que nos virá no Final de tudo: “este é o Nome com que será chamado: Senhor-Nossa-Justiça”. Este Bem é Jesus-Salvador! Por isso mesmo, na segunda leitura desta Missa, o Apóstolo nos convida a buscar a santidade aos olhos de Deus, nosso Pai, preparando-nos para “o Dia da Vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, com todos os Seus santos”e nos pede insistentemente que façamos “progressos ainda maiores”.

Tomemos consciência de que nosso caminho neste mundo passa, é apenas um caminho! Por que temos tanto medo de recordar que aqui estamos de passagem e que somente lá permaneceremos para sempre?
Pois bem: vivamos com intensidade o nosso Advento, vivamos bem os dias de nossa vida, à luz do Dia do Cristo que vem! Que caminhemos com os pés bem firmes neste mundo e os olhos voltados para o Alto. Que nossos sentimentos sejam os do salmo da Missa de hoje: “Mostrai-me, ó Senhor, Vossos caminhos, e fazei-me conhecer a Vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação!” Que nós, “acorrendo com nossas boas obras ao encontro do Cristo que vem, sejamos reunidos à Sua Direita na comunidade dos justos” no Dia da Sua Vinda! Vem, Senhor Jesus! Amém!


A Ti elevo os meus olhos


A Vós, meu Deus, elevo a minha alma.
Confio em Vós, que eu não seja envergonhado!
Não se riam de mim meus inimigos,
Pois não será desiludido quem em Vós espera! (Sl 24)

Caro Irmão, estas palavras do Sl 24 são a antífona de entrada da Missa do Primeiro Domingo do Advento. Ela revela bem o sentimento da humanidade e da Igreja neste tempo sagrado de expectativa pela Vinda do Senhor.

Primeiramente, o texto inicia com um “A Vós, meu Deus...” É toda a tensão, todo o desejo de uma humanidade que sai de si, que tem a coragem de ver sua radical insuficiência, sua visceral impotência de ser feliz sozinha, de providenciar por si mesma a vida plena que tanto deseja. “A vós, meu Deus, elevo a minha alma!” Enquanto o mundo atual dobra-se para o próprio umbigo, quase até quebrar o pescoço, o verdadeiro crente eleva o olhar ao Senhor. Dele vem a plenitude, Dele vem a vida, Dele vem a salvação, Nele o coração humano sossega e encontra a paz ante as tantíssimas incertezas da existência e as tristezas que ele encontra fora e dentro da Igreja! “Eu levanto os meus olhos para Vós, que habitais nos Céus! Eu levanto os meus olhos para os montes: De onde pode vir o meu socorro? Do Senhor é me vem o meu socorro, do Senhor que fez o céu e fez a terra!”

Ante as contradições da vida, ante os medos da existência, ante as inseguranças do caminho nesta terra, a antífona afirma, suplicante: “Confio em Vós, que eu não seja envergonhado!” Como não ouvir nestas palavras a voz da Igreja, dos verdadeiros filhos da Mãe católica, e a voz inconsciente e rouca da humanidade? “Senhor, confiamos em Ti e não em nós mesmos! Nas agruras da vida, em Ti colocamos a esperança, mantendo em Ti nossos olhos para que nossos passos não se desencaminhem. Em Ti confiamos, a Ti olhamos, a Ti nos voltamos, para que a vida não nos atropele e as trevas não nos engulam! Confiamos em Ti, nas Tuas mãos nos abandonamos! Não nos deixes envergonhados!”

E a afirmação final, ainda em prece: “Não se riam de mim meus inimigos, pois não será desiludido quem em Vós espera!” Estas palavras exprimem admiravelmente a certeza da Igreja, do crente, do cristão para o Advento: esperar no Senhor, esperar pelo Senhor, mesmo contra toda a humana esperança, com os olhos fixos Nele, porque Ele vem! Sua Vinda no santo Natal – tornada mistério presente na liturgia sagrada – é pregustação daquela outra, futura, final, definitiva, quando passará o aperto desta vida e louvaremos, e cantaremos, e gozaremos, e repousaremos, e estaremos para sempre com Aquele que é o anelo de nossa vida, a beleza de nossa alma, o sonho mais bonito do nosso coração... Quem eleva os olhos ao Senhor, quem Nele espera, não erra o caminho, não é confundido nem fica envergonhado na tortuosa estrada da vida!

Ao final, como versículo: o solista pede, como todo cristão: “Senhor, mostra-me os Teus caminhos; ensina-me as Tuas veredas!” Ah, liberdade de quem se deixa conduzir pelo Senhor! Ah, santa paz, santa leveza de existência, leve respirar de quem não se mete a autossuficiente diante do Senhor!