quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Homilia para a Comemoração dos Fieis Defuntos

Hoje, a Igreja recolhe-se em oração pelos seus filhos que já partiram desta vida. Para os cristãos, não se trata de um simples dia de saudade, mas de oração pelos fiéis de Cristo que já partiram para a Casa do Pai na firme esperança da ressurreição.
Vêm à nossa mente e ao nosso coração tantas perguntas: Que é a morte? Que é a vida que termina com a morte? O que há após a morte? São interrogações que devemos responder à luz da fé.

Num mundo que já não crê e não tem quase nada a dizer sobre a vida e sobre a morte, a Palavra de Deus nos ilumina: “Irmãos, não queremos que ignoreis o que se refere aos mortos, para não ficardes tristes como os outros, que não têm esperança” (1Ts 4,13).O cristão não pode encarar a morte como os pagãos; nós temos uma esperança, e ela se chama Jesus Cristo, Aquele que disse “Eu sou a Ressurreição, Eu sou a Vida” (Jo 11,25)!

Recordemos algumas certezas fundamentais da nossa fé:

(1) Deus é a Vida, é fonte de Vida, é o Vivificante; criou tudo para a Vida. Ele não é o autor da morte, não entende nada de morte, não tem parte com a morte (cf. Sb 1,13-15). Pelo contrário, a morte é a separação do Deus vivo, como as trevas são a separação da luz do sol. “Deus criou o homem para a incorruptibilidade e o fez imagem de Sua própria natureza; foi por inveja do Diabo que a morte entrou no mundo: experimentam-na aqueles que lhe pertencem” (Sb 2,23s). Deus pensou para nós somente o bem e a felicidade com Ele! Isto é a Vida! O homem, ao fechar-se desde o princípio, para o Deus da Vida, desarrumou-se, desaprumou-se e passou a experimentar sua vida como uma morte: desequilíbrio, dor, egoísmo, solidão, medo, doença, falta de sentido e, finalmente, a morte física... O salário do nosso pecado foi uma situação de morte, de infelicidade, de incoerência e tristeza, que culmina com a morte física. Basta olhar o mundo ao nosso redor!

(2) Isto não significa que, se não tivéssemos pecado, viveríamos aqui para sempre. Deus não nos criou para vivermos aqui indeterminadamente: “O Senhor tirou o homem da terra e a ela faz voltar novamente. Deu aos homens número preciso de dias e tempo determinado” (Eclo 17,1s). Deus nos deu um número preciso de dias, um tempo de vida neste mundo. Mas, uma coisa é certa: sem o pecado, vivendo na amizade com Deus e na harmonia com os outros e o mundo, nossa morte não teria o gosto amargo de Morte. Se hoje a morte tem um aspecto trágico, é porque está ligada ao pecado, ao nosso afastamento de Deus. Por isso a morte nos mete medo e, muitas vezes, é sentida como uma ameaça de cair no nada.

(3) Mas, Deus não nos abandonou à morte: Ele nos enviou o Seu Filho, em tudo igual a nós, menos no pecado. Ele tomou sobre Si as nossas dores, viveu nossa vida mortal, de incertezas, de tristezas, de angústias, de morte. Morrendo de nossa morte, Ele foi ressuscitado pelo Pai na força do Espírito Santo. Morrendo da nossa morte, Ele nos deu a possibilidade e a graça de morrer como Ele e com Ele ressuscitar da morte: “Eu sou a ressurreição! Quem crê em Mim, ainda que esteja morto viverá!” (Jo 11,25). Desde o Batismo, unidos a Cristo morto e ressuscitado, alimentados pelo Seu corpo e sangue na Eucaristia, sabemos que “nem a morte nem a vida nem criatura alguma nos poderá separar do amor de Cristo” (Rm 8,38s).

Esta é a nossa esperança: vivermos unidos a Cristo já agora e, após a nossa morte, ressuscitar Nele e com Ele, nele e como Ele! Como o Senhor foi glorificado no Seu corpo e na Sua alma pela potência do Espírito Santo, assim também nós seremos glorificados: logo após a nossa morte, na nossa alma, nunca mais sentiremos o medo, a tristeza, a dor, o pranto e, no fim dos tempos, também no nosso corpo mortal seremos glorificados: “semeado corruptível, ressuscitará corpo incorruptível; semeado desprezível, ressuscitará reluzente de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado psíquico, ressuscita corpo espiritual” (1Cor 15,42-44). Sermos glorificados significa entrar na plenitude de Cristo, na alegria de Cristo, na eternidade de Cristo! Isto, para nós, é o Paraíso: estar para sempre com o Senhor!

Irmãos, Irmãs, rezemos hoje pelos nossos queridos que já morreram; rezemos por todos os fieis que já partiram para o Cristo: que recebam o perdão de seus pecados e entrem na plenitude de Deus. A Sagrada Escritura diz que “é um santo e piedoso pensamento rezar pelos mortos, para que sejam livres de seus pecados” (2Mc 12,46). Que nosso carinho e nossa saudade sejam acompanhados pela nossa piedosa oração, cheia de esperança na ressurreição.

Mas, pensemos também na nossa vida, no destino que estamos dando à nossa existência, pois nosso encontro com o Senhor é preparado no dia-a-dia, nos pequenos momentos de nosso caminho neste mundo. São Bernardo de Claraval afirmava que nossa vida neste mundo é semente de eternidade. Pois bem! Estejamos atentos para viver de tal modo, que nossa vida seja uma amizade com Deus que começa aqui e se consumará na Glória!

Voltemos nosso olhar e nosso pensamento para Cristo, Vencedor da nossa morte. As palavras do Prefácio da missa de hoje são tão consoladoras: Em Cristo“brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. E, aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola. Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado nos Céus, um corpo imperecível”. Que o Senhor realize a nossa esperança e que nós vivamos de tal modo, que sejamos dignos dela!

            Descanso eterno dai-lhes, Senhor!
            Da Luz perpétua, o resplendor!
            Que suas almas descansem em paz.
            Assim seja!


A morte: de destino a caminho

Amanhã, nós cristãos, faremos uma pausa nas nossas atividades para reverenciar nossos irmãos falecidos. A Igreja denomina este dia de “Comemoração de todos os fiéis defuntos”.
É um dia no qual nós rezamos principalmente pelos nossos irmãos na fé, os batizados em Cristo que já morreram. Claro que toda a humanidade, não só os cristãos, são objeto da oração e solicitude da Igreja, que é Corpo de Cristo, o Salvador de todos! A Igreja é o Povo sacerdotal e, diariamente, na Santa Missa, recorda não somente os “nossos irmãos que partiram desta vida”, mas também “todos aqueles cuja fé só Vós conheceis”!

O Dia de Finados coloca-nos diante de uma questão fundamental: a questão da morte. Nosso modo de enfrentar a vida depende muito do modo como encaramos a morte, e vice-versa! Atualmente, há quatro modos possíveis de encará-la:

Há aqueles que cinicamente a ignoram. Vivem como se um dia não tivessem que morrer: preocupam-se só com esta vida: comamos e bebamos! Quando vão a um sepultamento, conversam o tempo todo assuntos banais e rasteiros. São pessoas rasas, que nunca pararam de verdade para se perguntar sobre o sentido da vida e, por isso mesmo, não vivem; sobrevivem, apenas! Essas, quando tiverem que enfrentar a própria morte, que vazio, que absurdo encontrarão! É o preço a pagar pelo modo leviano com que viveram a vida! Isto é triste porque quando o homem não pensa na morte, esquece que é finito, passageiro, e, assim, começa a julgar-se deus de si mesmo e tudo que consegue é infernizar sua vida e a dos outros...

Há ainda aqueles que diante da morte se angustiam, apavoram-se até ao desespero. A morte os amedronta: parece-lhes uma insensatez sem fim, pois é a negação de todo desejo de vida, de felicidade e eternidade que cresce no coração do homem. Estes se sentem esmagados pela certeza de um dia ter que encarar, frente a frente, tão fria, tirana e poderosa adversária. Assim, querendo ou não, podem afirmar como Sartre, o filósofo francês: “A vida é uma paixão inútil!”

Há também um terceiro grupo: o dos otimistas ingênuos. Vemo-los nessas seitas esotéricas de inspiração oriental e em todas as doutrinas reencarnacionistas. Afirmam que o mal, a doença, a morte, são apenas ilusão: a meditação, o autocontrole, a purificação contínua, podem libertar o homem de tais ilusões. “A morte não existe. Não há mortos!” – É esta a afirmação existente num monumento ao nascimento do espiritismo moderno. Não há morte para nos agredir; há somente uma desencarnação!

Mas, há o modo tipicamente cristão de encarar a morte. Ela existe sim! E dói, machuca; é uma ameaça real! Não somente existe, como também marca toda a nossa existência: vivemos feridos por ela, em cada dor, em cada doença, em cada derrota, em cada medo, em cada tristeza, até a morte final! Não se pode fazer pouco caso dela: ela nos magoa e nos ameaça; desrespeita-nos e entristece-nos, frustra nossas expectativas sem pedir permissão!
O cristão é realista diante da morte; recorda-se da palavra de Gn 2,17: “De morte morrerás!”Então, os discípulos de Cristo somos pessimistas? Não! Nós simplesmente não nos iludimos: sabemos que a morte é uma realidade e uma realidade que não estava no plano de Deus para nós: não fomos criados para a ela, mas para a vida! Deus não é o autor da morte, não a quer nem se conforma com ela! Por isso mesmo enviou-nos o Seu Filho, Aquele mesmo que disse: “Eu sou a Vida; Eu sou a Ressurreição!”Ele morreu da nossa morte para que nós não morramos sozinhos, mas morramos com Ele e como Ele, que venceu a morte! Para nós, cristãos, a morte, que era como uma caverna escura, sem saída, tornou-se um túnel, cujo final é luminoso. Isto mesmo: Cristo arrombou as portas da morte! Ela tornou-se apenas uma passagem, um caminho para a nossa Páscoa, nossa passagem deste mundo para o Pai: “Ainda que eu passe pelo vale da morte, nenhum mal temerei, porque estás comigo!” Em Cristo a morte pode ser enfrentada e vencida!
Certamente, ela continua dolorosa, ela nos desrespeita; mas se no dia a dia aprendermos a viver unidos a Cristo e a vivenciar as pequenas mortes de cada momento em comunhão com Senhor que venceu a morte, a morte final será um “adormecer em Cristo” que é caminho para o despertar da Glória eterna, da eterna Visão.


sábado, 27 de outubro de 2018

Homilia para o XXX Domingo Comum - ano b

Jr 31,7-9
Sl 125
Hb 5,1-6
Mc 10,46-52

Comecemos nossa meditação da Palavra de Deus com a primeira leitura. Muitas vezes, na sua história, o Povo de Deus experimentou a escravidão, o exílio e a opressão. Muitas vezes, Israel experimentou-se como um nada e viu-se numa escuridão tremenda. Parecia que o povo iria acabar-se! Assim, por exemplo, em 721 aC, quando os assírios varreram do mapa o Reino do Norte, o Reino de Israel e, em 597 e 586 aC, quando os israelitas do Reino de Judá foram levados para o exílio em Babilônia. É quase um escândalo, mas é verdade: a história do Povo de Deus é uma história de dor e de angústia!
Pois bem, é no meio de tal angústia e escuridão que o Profeta fala hoje e diz palavras de esperança, de ânimo e de alegria: “Exultai de alegria, aclamai a primeira entre as nações! Eis que os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra”. No meio da desgraça, Deus consola o Seu Povo: irá salvá-lo, reuni-lo, fazê-lo reviver.
Mas, quem é esse Povo? No que se tornou? Quem somos nós, Povo de Deus? “Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes. Eles chegarão entre lágrimas e Eu os receberei entre preces, Eu os conduzirei por torrentes d’água por um caminho reto onde não tropeçarão... Tornei-Me um pai para Israel e Efraim é o Meu primogênito”.
O Israel que vai experimentar a salvação de Deus é um povo pobre, capenga, humilde, um povo que não conta nada aos olhos do mundo! Como não recordar as palavras de São Paulo aos coríntios? “Vede quem sois, irmãos, vós que recebestes o chamado de Deus; não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família prestigiosa. Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e, o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e o que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é” (1Cor 1,26-28).

Quando pensamos na nossa civilização atual, nos nossos valores, exaltando a eficiência, a riqueza, o conforto, o bem-estar, o vigor e forma física, a saúde, o que é grande e faz sucesso... Como os critérios de Deus são diferentes! Israel é imagem da Igreja e é imagem de cada um de nós, membro do Povo de Deus da nova Aliança. À medida que descobrirmos nossas pobrezas pessoais e eclesiais, podemos também ter certeza que o Senhor não nos abandona: Ele nos chama, Ele nos reúne, Ele nos salva: “Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes”, gente fraca, gente sem força, gente incapaz de se defender, gente tida como nada, como tola, como fraca... Mas, Deus é nossa defesa: defesa da Igreja, defesa de cada um de nós! Se caminharmos, muitas vezes, chorando, semeando com lágrimas o caminho de nosso seguimento de Cristo, haveremos de voltar cantando, na força e na graça do Senhor: “Mudai a nossa sorte, ó Senhor, como torrentes no deserto. Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria. Chorando de tristeza sairão, espalhando suas sementes; cantando de alegria voltarão, carregando os seus feixes”. Somente pode experimentar isso aqueles que sabem e experimentam que são pobres diante de Deus, aqueles que sentem sua própria fraqueza! Esta é a experiência que o cristão deve fazer sempre na sua vida, seja pessoalmente, seja como Igreja! Somos pobres, mas Deus é nossa riqueza; somos fracos, mas Deus é nossa força!

Agora podemos deter-nos no Evangelho de hoje, que mostra de modo maravilhoso essa experiência cristã de ser salvo por Deus em Jesus Cristo. Jesus está saindo de Jericó, já está perto de Jerusalém, onde morrerá. Uma multidão o acompanha: barulho, empurra-empurra, aglomeração, aperreio... À beira do caminho, havia um cego mendigo... Ele era ninguém, nem nome tinha... Marcos só diz que era o “bar-Timeu”, o filho de Timeu... Cego, incapaz de caminhar sozinho, esmolando, sentado à margem do caminho de Jericó e da vida. Este cego é a humanidade; este cego é cada um de nós! Mas, ele ouve o rumor, a confusão no caminho e quando ouviu dizer que Jesus estava passando, não perde tempo; é a chance de sua vida! Ele grita alto: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” Repreendem o cego, mas ele grita com voz mais forte! Ele sabe que é a chance da sua vida. Santo Agostinho dizia: “Eu temo o Cristo que passa”... É preciso não perder a chance, é preciso gritar... não deixar o Cristo passar em vão no caminho da nossa existência!

O grito do cego é já um grito de fé. Chamando Jesus “filho de Davi”, o Bartimeu está dizendo que crê que Jesus é o messias: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Repreendem o cego, como o mundo quer nos repreender, quer nos impedir e ridicularizar quando nos reconhecemos cegos, pobres e coxos e gritamos por Jesus: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Mas o cego insiste; grita mais alto ainda! Então, apesar da distância, apesar da multidão, apesar do empurra-empurra, Jesus escuta o clamor do cego! Como não recordar, comovidos, as palavras do salmo 129? “Das profundezas eu clamo a Vós, Senhor; escutai a minha súplica!” Ninguém grita pelo Senhor do fundo da sua miséria e fica sem ser ouvido! “Então, Jesus parou e disse: ‘Chamai-o’. O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus”.Cego esperto, esse: não perde tempo, dá um pulo, deixa tudo, desembaraça-se do manto e corre para Jesus! Ele segue o conselho do Autor da Carta aos Hebreus: “Também nós, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança para a corrida que nos é proposta, com os olhos fixos Naquele que é o Autor e Realizador da fé, Jesus” (12,1s). Quem dera, fizéssemos assim também: largássemos tudo, deixássemos nossas tralhas e bagulhos, nossos apegos e quinquilharias e corrêssemos para Jesus!

E Jesus? Que delicadeza! Não vai logo curando, como esses curadores de televisão, os falsos profetas dos meios de comunicação! O Senhor deseja encontrar as pessoas, ouvi-las, com todo respeito: “O que queres que Eu te faça?”O pedido do cego é comovente; é o nosso pedido: “’Mestre, que eu veja!’ Jesus disse: ‘Vai, a tua fé te curou’”. Este deve ser o nosso pedido, mas, para isso é necessário ter a humildade de se reconhecer cego, pobre, necessitado! “Senhor, eu sou o cego do caminho! Cura-me, eu Te quero ver!”

O cego foi curado “e seguia Jesus pelo caminho”. Curado, iluminado por Jesus, agora seguia Jesus como discípulo, caminhando com Ele para Jerusalém, para com Ele morrer e com Ele ressuscitar. Esta é a nossa vocação, este deve ser o nosso itinerário, a nossa experiência de fé!

“Senhor, Tua Igreja, peregrina no mundo, é um povo de pobres, de frágeis seres humanos. Mas confiamos em Ti! Não queremos colocar nossas força ou esperança no nosso prestígio, ou nas riquezas ou nos amigos poderosos o nos elogios e aplausos do mundo. Não!
Tu somente és nossa força! Salva-nos, Senhor! Reúne-nos, Senhor! Ilumina-nos, Senhor! Dá-nos a graça de reconhecer que somente na Tua Luz poderemos ver a luz! O mundo chama luz, sabedoria e esperteza a coisas que são inaceitáveis aos Teus olhos! Senhor, abre nossos olhos para caminharmos na Tua Luz até a Cruz, até a Ressurreição, até a Vida. Senhor, arranca-nos da nossa cegueira; as trevas, atualmente, são tão densas. Amém”.


sábado, 20 de outubro de 2018

Homilia para o XXIX Domingo Comum - ano b

Is 53,10-11
Sl 32
Hb 4,14-16
Mc 10,35-45

Comecemos observando o Evangelho.
Notemos como os dois irmãos, Tiago e João, se dirigem a Jesus: “Queremos que faças o que vamos pedir”.I sto não é modo de pedir nada ao Senhor, isto não é modo de rezar! Aqui não há humildade, não há abertura para procurar a vontade do Senhor a nosso respeito, mas somente o interesse cego de realizar nossa vontade! Quanta loucura e presunção! Muitas vezes, é assim também que rezamos, com esse tom, com essa atitude!

Recordemos a palavra do Apóstolo: “Não sabemos o que pedir como convém” (Rm 8,26). Somos tão frágeis, tão incapazes de compreender os desígnios de Deus, que nossos pedidos muitas e muitas vezes não são segundo o coração do Senhor e, portanto, não são para o nosso bem! 
Como, então, pedir de acordo com a vontade do Senhor? Escutemos ainda São Paulo: “O Espírito socorre a nossa fraqueza. O próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26). Eis! É somente quando nos deixamos guiar pelo Santo Espírito do Cristo, que compreendemos as coisas de Deus e pediremos segundo Deus! Nunca compreenderá o desígnio de Deus, quem não pede segundo Deus e nunca pedirá segundo Deus, quem não se deixa guiar pelo Espírito de Deus! Aqueles dois não pediam segundo Deus, não suplicavam segundo o Reino, mas segundo seus interesses: queriam glória, queriam honra, queriam os primeiros lugares, queriam seus interesses, de acordo com sua lógica e modo de pensar!

A resposta de Jesus demonstra o Seu desgosto: “Vós não sabeis o que pedis!” E o Senhor completa com um desafio – que é para os dois irmãos e para todos nós, caros irmãos e irmãs: “Podeis beber o cálice que Eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?”
De que cálice, de que batismoJesus está falando? Do Seu sofrimento, do Seu caminho de dor e humilhação, pelo qual Ele entrará no Reino e o Reino virá a nós: “O Senhor quis macerá-Lo com sofrimentos. Oferecendo Sua vida em expiação, Ele terá descendência duradoura e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor. Por esta vida de sofrimento, alcançará a luz e uma ciência perfeita. Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros homens, carregando sobre si suas culpas”.
Este é o caminho de Jesus: fazer-Se servo humilde e causa de nossa salvação. Isso os discípulos não compreendiam nem nós compreendemos! Também a nós o Senhor convida a participar do Seu batismo e do Seu cálice.

Escutemos mais uma vez, são Paulo: “Não sabeis que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, é na Sua morte que fomos batizados? Pelo batismo nós fomos sepultados com Ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela Glória do Pai, assim também nós vivamos Vida nova. Porque se nos tornamos uma só coisa com Ele por uma morte semelhante à Sua, seremos uma coisa só com Ele também por uma ressurreição semelhante à Sua” (Rm 6,3-5).
Podeis ser batizados no Meu batismo? Estais dispostos a mergulhar vossa vida no Meu caminho de morte e ressurreição, morrendo para vós mesmos e buscando a vontade do Pai de todo o coração? Eis o que é ser batizado em Cristo! E nós o fomos! O desafio agora é viver o Batismo no qual fomos batizados, tornando-nos, em Cristo, criaturas novas, abertas para a vontade do Pai, como Jesus. E, não somente ser batizado no batismo de Jesus, mas também beber o cálice de Jesus: “Todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que Ele venha” (1Cor 11,26); “O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o Sangue de Cristo?” (1Cor 10,16).
Vejam só: comungar na Eucaristia é aprofundar aquilo que já começamos a viver no Batismo: fazer da vida uma vida em comunhão com o Senhor na Sua Morte e Ressurreição! Não se pode nem sonhar em ser cristão pensando num caminho diferente, num modo diverso de viver! Tiago e João não tinham compreendido isso; os Doze também não compreenderam; nós, tampouco, compreendemos!

Observem ainda como os dois irmãos são presunçosos: quando Jesus pergunta: “Podeis beber o cálice? Podeis ser batizados?” Eles respondem: “Podemos!” Na ânsia pelos primeiros lugares, no desejo de obterem o que pedem, prometem aquilo que somente com a graça de Deus seriam capazes de prometer! A mesma lógica nossa, nosso mesmo procedimento, tantas vezes! Como Pedro, que, mais tarde dirá: “Darei a minha vida por Ti” (Jo 13,37); e de modo tão presunçoso quanto o dos dois irmãos, exclamará: “Ainda que todos se escandalizem, eu não o farei!” (Mc 14,29). Pobre Pedro, pobres Tiago e João, pobres de nós! Sem a graça de Deus em Cristo, que poderemos? Vamos nos escandalizar, vamos fugir da Cruz, vamos descrer no Senhor, vamos abandonar o caminho! Como não compreendemos a estrada de Jesus! Tudo é graça! Por isso Jesus diz que, ainda que eles bebam o Seu cálice e sejam mergulhados no Seu Batismo, ainda assim, será graça de Deus conceder os primeiros lugares... Não podemos cobrar nada de Deus: “É para aqueles a quem foi reservado!”

Finalmente, a atitude dos outros Doze, que também buscavam o primeiro lugar e se revoltam contra os dois irmãos! E Jesus chama os Doze e nos chama também a nós, e fala-nos do mundo, com seus jogos de poder, sua ganância, sua hipocrisia e sua mentira e nos diz: “Entre vós, não deverá ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida como resgate para muitos”.
Aqui está o modelo do caminho cristão: o Cristo, totalmente abandonado à vontade do Pai, totalmente disponível, totalmente pobre... Ele é o modelo de como devemos viver entre nós e em relação ao Pai: no serviço mútuo, na disponibilidade, na confiança no Pai, no abandono ao Seu desígnio a nosso respeito. Somente Jesus poderia rezar com toda a liberdade: “Pai, não o que Eu quero, mas o que Tu queres!” (Mc 14,36).

Olhando nossa fraqueza, nossa pouca disponibilidade, olhando quanto na vida buscamos nossos interesses e nossas vantagens, não desanimemos! Sigamos o conselho do Autor da Carta aos Hebreus: “Temos um Sumo-sacerdote eminente, que entrou no Céu, Jesus, o Filho de Deus. Por isso, permaneçamos firmes na fé que professamos! Temos um Sumo-sacerdote capaz de Se compadecer de nossas fraquezas, pois Ele mesmo foi provado em tudo como nós!”
Confiemos no Senhor e supliquemos que Ele converta o nosso coração, dando-nos Seus sentimentos, Suas atitudes de doação, serviço e humildade, Sua confiança no Pai e, finalmente, a graça de participar daquela Glória que, no Céu, Ele tem com o Pai e o Espírito Santo. Amém.


sábado, 13 de outubro de 2018

Homilia para o XXVIII Domingo Comum - ano b

Sb 7,7-11
Sl 89
Hb 4,12-13
Mc 10,17-30

Caríssimos, antes de mais nada, fixemos nosso olhar em Jesus nosso Senhor: Ele é a Sabedoria de Deus, como diz São Paulo (cf. 1Cor 1,24.30). Ele é aquela Sabedoria bendita e preciosa de que fala a primeira leitura de hoje. Sim, caríssimos no Senhor: encontrar Jesus, nosso Senhor, vale mais que os cetros e tronos; em comparação com essa bendita Sabedoria, saída do Pai no ventre da Virgem, as riquezas são sem valor porque Ela é a grande riqueza de nossa existência. Por isso, vale a pena amar nosso Jesus, Sabedoria de Deus, mais que a saúde e a beleza; vale a pena possuí-Lo mais que a luz, pois o esplendor que Ele irradia não se apaga.
– Sim, Senhor bendito, os que Te amam brilham como o sol, como o sol ao amanhecer!
Tu és a luz do mundo, o esplendor do Pai, a claridade de nossos olhos, a Sabedoria que dá sentido à nossa vida! Contigo todos os bens desta vida nos são dados; sem Ti nada é verdadeiramente bom, nada durável, nada encherá verdadeiramente o nosso coração!
Bendito seja Tu, Senhor Jesus, Sabedoria eterna, saída da boca do Pai para dar luz e sentido ao universo!

Jesus é também a Palavra do Pai, Palavra viva, definitiva, eterna. A Palavra de Deus, caríssimos, não é primeiramente a Bíblia. A Palavra de Deus por excelência não é um livro, mas uma Pessoa: é Jesus: “No princípio era a Palavra e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus. Tudo foi feito por Ela e sem Ela nada foi feito de tudo quanto existe. E a Palavra Se fez carne e habitou entre nós!” (Jo 1,1-2.14)
Eis, portanto: a Bíblia é a Palavra de Deussomente porque dá testemunho de Jesus, o Verbo do Pai – e não de qualquer Jesus, mas do Jesus crido, adorado, testemunhado e anunciado pela Igreja católica, fundada pelo próprio Cristo e por Ele sustentada na Sua Palavra pela força do Espírito Santo da Verdade, que conduz sempre a Igreja à verdade plena! Fora disso, a Bíblia já não é Palavra de Deus, mas confusão e caminho para o erro! Voltemos, pois, o olhar para Cristo: Ele é “a Palavra de Deus, viva e eficaz e mais cortante que qualquer espada de dois gumes. Ela julga os pensamentos e as intenções do coração”. Isso nós sabemos, irmãos; isso experimentamos quando tantas vezes somos questionados pelo Senhor Jesus, que penetra até o íntimo de nós, com Sua verdade, com Sua exigência, com os projetos que tem a nosso respeito. Cristo é esta Palavra viva e definitiva de Deus: “E não há criatura que possa ocultar-se diante Dela. Tudo está nu e descoberto aos Seus olhos, e é a Ela que devemos prestar contas”.Por isso mesmo, o Senhor é o critério de nossa existência: quem Nele crê tem a Vida; quem não crê não conhecerá nunca o verdadeiro e pleno sentido da vida!
– Bendito sejas Tu, Senhor Jesus, Palavra e Verdade do Pai!
Dá-nos a graça de vivermos em Ti, de compreendermos que Tu és a nossa Vida e que somente em Ti nossa existência será realmente plena de sentido e atingirá o fim para que fomos criados.
A Ti a glória, ó Cristo, Sabedoria e Palavra do Pai!
A Ti o nosso amor, nossa adoração, nossa ilimitada entrega e confiança,
a Ti a nossa vida toda inteira, ó Cristo nosso Deus!

Agora, amados em Cristo, podemos compreender o Evangelho deste hoje. Pensemos bem: A pergunta que este alguém faz a Jesus, não é aquela mesma que nós tantas vezes fazemos? Não é a pergunta definitiva da nossa existência? “Bom Mestre, que devo fazer de bom para ganhar a Vida eterna?”- Eis Senhor, qual dos caminhos da vida seguir? Qual me levará para mais longe ou para mais perto de Ti? Dize-me, Mestre Bom!

A resposta de Jesus surpreende: “Por que Me chamas de bom? Só Deus é o Bom!”É verdade: só o Pai é o Bom, é a fonte eterna de toda bondade, como só o Pai é o Santo, e a fonte de toda Santidade. E, no entanto, o próprio Senhor afirma: “Tudo que o Pai tem é Meu. Eu e o Pai somos um. Quem Me vê, vê o Pai!”Por isso mesmo, sem medo, podemos dizer todos os domingos: “Só Vós sois o Santo, só Vós o Senhor, só Vós o Altíssimo, Jesus Cristo, com o Espírito Santo na glória de Deus Pai!” Sim, meus caros, Jesus é Bom porque vem do Pai, porque tudo recebeu do Pai e participa plenamente da plenitude de plena bondade que é o Pai!

Mas, “tu conheces os mandamentos!”– Jesus é prático, meus caros: indica ao alguém que vem a Ele os mandamentos; e notem bem: os mandamentos da segunda tábua, aqueles que falam do amor e do respeito pelo próximo!
Vede, amados no Senhor, como o seguimento a Jesus exige atitudes muito concretas na nossa vida! Aquele lá, que buscava a vida respondeu feliz: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude!”Meus irmãos, nesta resposta há uma coisa boa e outra ruim. A coisa boa é que esse homem é realmente observante da Lei de Deus; a coisa ruim é que ele parece satisfeito consigo mesmo; prece que, para ele, a religião consiste em fazer, em observar normas. Pronto. Fazendo isso, tudo bem! Notai, caríssimos, que também aquele fariseu que rezava no Templo estava satisfeito porque cumpria todos os preceitos; e os cumpria mais da conta! Ah, meus irmãos, que para o Senhor isso não basta!
O Senhor é exigente, o Senhor olha o coração, o Senhor, Palavra “tão penetrante como espada de dois gumes”, quer saber de nossas intenções, de nosso amor, e não Se contenta com nada menos que nosso coração e nossa vida! “Jesus olhou para ele com amor, e disse: ‘Só uma coisa te falta: vai, vende tudo que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois vem e segue-Me!”Meus irmãos, como Jesus é bonito, como é sábio, como é exigente, como vai direto ao ponto! 
Primeiro, vede como olha aquele lá: com amor, com aquele amor eterno com que nos amou e reservou para nós o Seu amor! Nunca esqueçamos: Suas exigências são exigências de amor! Na verdade, o Senhor deseja fazer aquele homem passar de uma religião de simples fazer coisas e cumprir preceitos para uma religião de amar de verdade: “Vai, vende tudo que és, moço! Vai, deixa-te a ti mesmo, rapaz; larga essa preocupação contigo! Deixa-te vendendo tudo; abre-te para os outros, repartindo teus bens e teu amor e, depois, estarás pronto de verdade para experimentar o quanto Eu sou o Bom: “Vem e segue-Me!”Tu Me chamaste de Bom sem saber o que isso queria dizer... Vem comigo, deixa tudo por Mim e verás de verdade que Eu sou o Bom, o teu Bem, todo Bem, o sumo Bem! Serás livre, mocinho; encontrarás a Vida em abundância! Deixa-te por Mim e tu me encontrarás e, encontrando-Me, encontrarás a própria Vida!

Mas, não! Esse risco aquele lá não queria correr. Queria uma religião arrumadinha, que lhe oferecesse garantias; uma religiãozinha burguesa, na qual se serve a Deus para servir-se de Deus... Arriscar tudo por esse Mestre de Nazaré? Deixar e deixar-se? Era demais! “Quando ele ouviu isso, ficou abatido, foi embora cheio de tristeza porque era muito rico”.
Vede, meus irmãos, como nós somos! Vede qual a nossa tentação! Esse homem era rico de bens materiais, rico de apego a si próprio, rico de se buscar a si mesmo, mas pobre de amor a Deus e pobre de generosidade para com os outros; pobre de sonhos, pobre de ideal, pobre de generosidade, pobre de grandeza interior... Ele queria ser aquilo que Cristo abomina: um cristão burguês, acomodado na vidinha medíocre, de fácil moral e fáceis compromissos, cristãos que rastejam como vermes quando deveriam voar alto como as águias... Eis o resultado: “foi embora cheio de tristeza porque era muito rico”.

Daí a dura constatação de Jesus: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!’ A palavra é clara: é mais fácil um camelo passar pela agulha fininha, que um rico entrar no Reino! E por quê? Porque a riqueza – seja qual for ela – tende a nos apegar, a nos fechar, a nos fazer pensar que nos bastamos! Somente quem for pobre de coração pode entrar no Reino, pois só quem é pobre deixa que Deus reine de verdade na sua vida! E como é difícil para nós, tão fáceis de sermos iludidos, compreender isso! Desapeguemo-nos, caríssimos, de nós mesmos; deixemo-nos para poder encontrar a vida verdadeira. Nunca será digno de Jesus quem não tiver a coragem de tudo deixar por Jesus: “Quem tiver deixado tudo por causa de Mim e do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida, com perseguições e, no futuro, a Vida eterna”.

Os apóstolos não compreenderam isso – como também muitas vezes nós não compreendemos e não compreendem de modo algum aqueles que falam em seguir Jesus só para ter lucro. Basta ver na televisão os falsos pregadores, de falsos evangelhos, que não passam da velhice pecaminosa disfarçada. Basta pensar na maldita teologia da prosperidade: “serve a Deus e ficarás rico!”
Caros, quem deixa para receber, nada deixou; quem deixa esperando recompensas, nunca amou; quem segue o Senhor pensando em pagamentos, nunca compreendeu a Palavra!
– Senhor, Sabedoria e Palavra do Pai, nosso Tudo e nossa Vida,
só Tu és nosso caminho,
só Tu, nosso destino,
só Tu nossa eterna recompensa.
Nada nos falta se temos a Ti!
Ensina-nos a nos deixar e a deixar tudo para só a Ti possuir, pois tendo a Ti, teremos tudo, mas para chegar a ter tudo é preciso que de tudo nos desapeguemos...
Cristo Santo, nosso Bem, a Ti a glória para sempre. Amém.


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Oração à Padroeira

Do nosso rio nas águas,
por pescadores pescada,
tu apareces, ó Virgem,
“Aparecida” chamada.

Mui justo é, Mãe, celebrar
os benefícios que há tanto
pelo Brasil desdobrado
vai espalhando o teu manto.

Por isso de áurea coroa 
a tua fronte cingimos:
concede, Virgem sagrada,
as graças que hoje pedimos!

A ti mãos postas erguemos;
estende mais o teu véu,
preserva a todos da mácula,
conduze todos ao céu.

Ao que no trono Se assenta,
louvor e glória convém,
pois Uno e Trino governa
a terá e o céu também.


sábado, 6 de outubro de 2018

Homilia para o XXVII Domingo Comum - ano b

Gn 2,18-24

Sl 127
Hb 2,9-11
Mc 10,2-16

Neste domingo, a Palavra de Deus trata do matrimônio e de sua indissolubilidade. Eis aqui um tema que se tornou tabu nos tempos atuais e, por isso mesmo, precisa ser tratado com toda clareza pelos cristãos... Afinal, se o Evangelho não for sal e luz, para que serve?

Comecemos com o plano de Deus, descrito no Gênesis de modo figurado, como as parábolas que Jesus contava. São textos que não devem ser tomados ao pé da letra! Se lermos com atenção, perceberemos algo muito belo: Deus, à medida que vai criando, vê que tudo é bom... Ao criar o ser humano, vê que “era muito bom” (Gn 1,31).
Mas, há algo na criação que o Senhor Deus viu que não era bom: “Não é bom que o homem esteja só”. Se o ser humano é imagem do Deus-Trindade, ele não foi criado para a solidão, mas deve viver em relação com outros: “Vou dar-lhe uma auxiliar que lhe seja semelhante”. Notemos os detalhes tão belos da criação da mulher:

(1) “O Senhor Deus fez cair um sono profundo sobre Adão”. Por quê? Para ficar claro que o homem não participou da criação da mulher; esta é tão obra de Deus quanto aquele.

(2) “Tirou-lhe uma das costelas e fechou o lugar com carne. Da costela tirada de Adão, o Senhor Deus formou a mulher”. A imagem é bela:tirada do lado do homem, como companheira e igual!

(3) “E Adão exclamou: ‘Desta  vez sim, é osso de meus ossos e carne da minha carne!’”É a primeira vez que o homem falou, na Bíblia! E sua palavra foi uma declaração de amor; não a Deus, mas à mulher que o Senhor Deus lhe dera de presente: osso de meus ossos, carne de minha carne, parte de mim, cara metade, outro lado do meu coração!

(4) E, finalmente, o preceito de Deus, inscrito no íntimo do coração humano pelo próprio Criador: “O homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne”.
Pronto! Esta é o sonho de Deus para o amor humano!

Já aqui há três observações a serem feitas:

(a) O laço de amor entre o homem e a mulher é superior a qualquer outro laço, inclusive aquele que liga pais e filhos: o homem e a mulher deixarão pai e mãe para ir ao encontro de sua esposa, de seu esposo.

(b) Esta união, no sonho original de Deus, envolve a pessoa toda, corpo e alma: “serão uma só carne”. É uma união completa, abrangente, total: serão um só coração, um só sonho, uma só conta bancária, uma só casa, um só futuro, um só destino!

(c) A relação matrimonial, no sonho de Deus, é uma relação entre um homem e uma mulher. Por isso mesmo, jamais os cristãos poderão equiparar a união entre homossexuais ao matrimônio! O respeito às pessoas homossexuais é dever de todos nós; o respeito pela consciência dessas pessoas, que têm o direito de dar o rumo que acharem justo às suas vidas, é obrigação nossa, é gesto de amor que Jesus espera de seus discípulos. Mas, equiparar a relação matrimonial a qualquer outra relação afetiva, sobretudo homossexual, nunca!

Por fidelidade a Cristo, nunca! Por respeito ao plano de Deus, jamais! Hoje, no Direito, há uma forte corrente aqui no Brasil, que considera como sendo família qualquer união simplesmente afetiva: não importa se a união é entre marido e mulher, entre amigos ou entre duas pessoas do mesmo sexo. Para nós cristãos, tal concepção é inaceitável! A família, para nós, não é uma realidade simplesmente natural, mas tem sua raiz no próprio plano de Deus. A família é uma realidade também teológica! É preciso escutar o que Deus tem a dizer sobre a família! O problema é que nossa sociedade já não é cristã; é pagã e pensa e age como pagã; é atéia e age como se Deus não existisse... Nossa sociedade acha que o homem é a medida de todas as coisas, o senhor do bem e do mal, do certo e do errado. Isso é absolutamente inaceitável para o cristão!
Agora podemos compreender a palavra de Jesus no Evangelho! Naquele tempo havia o divórcio... E Jesus, que é tão misericordioso, condena sua prática: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés”permitiu o divórcio! “No entanto, no princípio da criação Deus os fez homem e mulher... Já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!”
É uma palavra que parece dura, e os próprios discípulos tiveram dificuldades em compreender, como muitíssimos a têm hoje em dia.

Compreendamos! Jesus veio para reconduzir este mundo ferido pelo pecado ao plano original de Deus. Ora, o sonho de Deus para o amor conjugal é que ele seja uma entrega total e plena, no amor indissolúvel, fiel e fecundo. Este é o ideal que Jesus aponta aos Seus discípulos, é o ideal para o qual os discípulos deverão caminhar sempre! Na perspectiva de Jesus, o divórcio é contrário ao plano de Deus para o amor humano! Por isso mesmo, o matrimônio abraçado por um cristão e uma cristã, no Senhor Jesus, é indissolúvel! Aqui é preciso deixar claro que a Igreja não tem autoridade para ensinar ou fazer diferente! Seria trair o Senhor! Surgem, no entanto, algumas questões sérias e graves:

(1) Como prometer amor por toda a vida, se nosso coração é inconstante? Primeiramente, é necessário recordar que o matrimônio cristão somente pode ser abraçado na fé, sabendo os esposos que jamais a graça de Cristo lhes faltará. Com toda certeza, o Senhor haverá de conduzir os esposos no caminho do amor. Isto, no entanto, de modo algum, dispensa os esposos de cultivarem esse amor, com o diálogo, os gestos de carinho e de perdão, de compreensão e de atenção. Amor não é só sentimento: o amor não nasce de repente, não é fatal, não é cego, nem morre de repente. O amor pode e deve ser cultivado, cuidado. Como dizia São João da Cruz: “Onde não há amor, semeia amor e colherás amor”. A grande ilusão do mundo atual é pensar que o amor se reduz a sentimento, que não precisa ser cuidado nem cultivado! Confunde-se amor com paixão!

(2) Como fazer uma aliança para sempre, se esta depende não só de mim, mas também da outra pessoa? A questão é séria e, para nós, cristãos, deve ser pensada na fé. O matrimônio entre cristãos é sinal, é sacramento, do amor entre Cristo e a Igreja. São Paulo explica este mistério de modo belíssimo no capítulo quinto da Carta aos Efésios: marido e mulher devem se amar como Cristo e a Igreja (cf. Ef 5,21-32). Ora, este amor foi selado na Cruz e na Ressurreição; é amor pascal, amor que envolve morte e vida! A indissolubilidade não deveria ser vista como um fardo, mas como uma proposta de um Deus que crê no homem que criou; um Deus que nunca brinca com o amor, um Deus que aposta na nossa capacidade, quando aberta à Sua graça! Ora, este amor-doação matrimonial, imagem daquele outro, entre Cristo e a Igreja, certamente terá a marca da Cruz. As dificuldades conjugais, para o cristão, têm o nome de cruz, cruz que, assumida com amor e por amor, é transformada em alegria e plenitude de ressurreição. Aqui não se trata somente de palavras bonitas, mas de uma realidade impressionante: quem capitula, quem desiste ante as dificuldades, nunca plantará um amor no sentido cristão! A presença de Cristo na união conjugal não exclui as crises, as dificuldades, a incompatibilidade de temperamentos e até mesmo os erros na escolha do cônjuge! Mas tudo isso, por quanto doloroso possa ser, pode se tornar, em Cristo, um modo libertador e eficaz de participar com generosidade e desapego da cruz do Senhor e caminho de felicidade! “Loucura! Insanidade! Demência!” – dirá o mundo! Mas, a linguagem da cruz é loucura para o mundo! A sabedoria da Cruz é tolice para o mundo! Nunca esqueçamos isso! Mas, para quem crê, é poder de Deus e sabedoria de Deus! (cf. 1Cor 1,18; 3,18-20). O problema é que as pessoas casam como os cristãos, mas não creem nem vivem como os cristãos! Que fique bem assentado: o sonho de Deus em Cristo para o matrimônio é a indissolubilidade!

(3) E os nossos irmãos e irmãs que fracassaram na aliança conjugal e estão numa nova união? É uma situação dolorosa. Se são cristãos de verdade, esta realidade é primeiramente difícil para eles. Não nos compete julgar suas intenções e sua história! Compete-nos respeitá-los e acolhê-los com espírito fraterno, ajudando-os a viver esta nova união do melhor modo possível, caminhando sempre mais para uma mais completa doação ao Senhor. Isto, no entanto, não significa aprovação da separação nem da nova união. Mas, simplesmente, respeito pela história, pela consciência e pelo mistério da vida e das opções de cada irmão e de cada irmã. Estejamos atentos que tantos irmãos que vivem esta dolorosa situação têm um sincero amor ao Senhor e verdadeira doação à Igreja! Aqui, vale muito recordar a palavra do Senhor: “Quem estiver sem pecado, que atire a primeira pedra!” (Jo 8,7). Cuidado, irmãos: não coloquemos fardos na vida dos outros: “Carregai o fardo uns dos outros e assim cumprireis a Lei de Cristo!” (Gl 6,2)

Que o Senhor socorra as famílias e fortaleça no amor os esposos cristãos, fazendo-os simples como as crianças, capazes de acolher a proposta do Cristo para o matrimônio e que, nas dificuldades, recordem-se que Cristo, Autor da nossa salvação, também foi levado à consumação passando pelos sofrimentos. Que nossos sofrimentos, unidos aos Dele, sejam semente e penhor de Vida eterna. Amém.

"Vem, amada Minha!"