sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Oração à Padroeira

Do nosso rio nas águas,
por pescadores pescada,
tu apareces, ó Virgem,
“Aparecida” chamada.

Mui justo é, Mãe, celebrar
os benefícios que há tanto
pelo Brasil desdobrado
vai espalhando o teu manto.

Por isso de áurea coroa 
a tua fronte cingimos:
concede, Virgem sagrada,
as graças que hoje pedimos!

A ti mãos postas erguemos;
estende mais o teu véu,
preserva a todos da mácula,
conduze todos ao céu.

Ao que no trono Se assenta,
louvor e glória convém,
pois Uno e Trino governa
a terá e o céu também.


sábado, 6 de outubro de 2018

Homilia para o XXVII Domingo Comum - ano b

Gn 2,18-24

Sl 127
Hb 2,9-11
Mc 10,2-16

Neste domingo, a Palavra de Deus trata do matrimônio e de sua indissolubilidade. Eis aqui um tema que se tornou tabu nos tempos atuais e, por isso mesmo, precisa ser tratado com toda clareza pelos cristãos... Afinal, se o Evangelho não for sal e luz, para que serve?

Comecemos com o plano de Deus, descrito no Gênesis de modo figurado, como as parábolas que Jesus contava. São textos que não devem ser tomados ao pé da letra! Se lermos com atenção, perceberemos algo muito belo: Deus, à medida que vai criando, vê que tudo é bom... Ao criar o ser humano, vê que “era muito bom” (Gn 1,31).
Mas, há algo na criação que o Senhor Deus viu que não era bom: “Não é bom que o homem esteja só”. Se o ser humano é imagem do Deus-Trindade, ele não foi criado para a solidão, mas deve viver em relação com outros: “Vou dar-lhe uma auxiliar que lhe seja semelhante”. Notemos os detalhes tão belos da criação da mulher:

(1) “O Senhor Deus fez cair um sono profundo sobre Adão”. Por quê? Para ficar claro que o homem não participou da criação da mulher; esta é tão obra de Deus quanto aquele.

(2) “Tirou-lhe uma das costelas e fechou o lugar com carne. Da costela tirada de Adão, o Senhor Deus formou a mulher”. A imagem é bela:tirada do lado do homem, como companheira e igual!

(3) “E Adão exclamou: ‘Desta  vez sim, é osso de meus ossos e carne da minha carne!’”É a primeira vez que o homem falou, na Bíblia! E sua palavra foi uma declaração de amor; não a Deus, mas à mulher que o Senhor Deus lhe dera de presente: osso de meus ossos, carne de minha carne, parte de mim, cara metade, outro lado do meu coração!

(4) E, finalmente, o preceito de Deus, inscrito no íntimo do coração humano pelo próprio Criador: “O homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne”.
Pronto! Esta é o sonho de Deus para o amor humano!

Já aqui há três observações a serem feitas:

(a) O laço de amor entre o homem e a mulher é superior a qualquer outro laço, inclusive aquele que liga pais e filhos: o homem e a mulher deixarão pai e mãe para ir ao encontro de sua esposa, de seu esposo.

(b) Esta união, no sonho original de Deus, envolve a pessoa toda, corpo e alma: “serão uma só carne”. É uma união completa, abrangente, total: serão um só coração, um só sonho, uma só conta bancária, uma só casa, um só futuro, um só destino!

(c) A relação matrimonial, no sonho de Deus, é uma relação entre um homem e uma mulher. Por isso mesmo, jamais os cristãos poderão equiparar a união entre homossexuais ao matrimônio! O respeito às pessoas homossexuais é dever de todos nós; o respeito pela consciência dessas pessoas, que têm o direito de dar o rumo que acharem justo às suas vidas, é obrigação nossa, é gesto de amor que Jesus espera de seus discípulos. Mas, equiparar a relação matrimonial a qualquer outra relação afetiva, sobretudo homossexual, nunca!

Por fidelidade a Cristo, nunca! Por respeito ao plano de Deus, jamais! Hoje, no Direito, há uma forte corrente aqui no Brasil, que considera como sendo família qualquer união simplesmente afetiva: não importa se a união é entre marido e mulher, entre amigos ou entre duas pessoas do mesmo sexo. Para nós cristãos, tal concepção é inaceitável! A família, para nós, não é uma realidade simplesmente natural, mas tem sua raiz no próprio plano de Deus. A família é uma realidade também teológica! É preciso escutar o que Deus tem a dizer sobre a família! O problema é que nossa sociedade já não é cristã; é pagã e pensa e age como pagã; é atéia e age como se Deus não existisse... Nossa sociedade acha que o homem é a medida de todas as coisas, o senhor do bem e do mal, do certo e do errado. Isso é absolutamente inaceitável para o cristão!
Agora podemos compreender a palavra de Jesus no Evangelho! Naquele tempo havia o divórcio... E Jesus, que é tão misericordioso, condena sua prática: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés”permitiu o divórcio! “No entanto, no princípio da criação Deus os fez homem e mulher... Já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!”
É uma palavra que parece dura, e os próprios discípulos tiveram dificuldades em compreender, como muitíssimos a têm hoje em dia.

Compreendamos! Jesus veio para reconduzir este mundo ferido pelo pecado ao plano original de Deus. Ora, o sonho de Deus para o amor conjugal é que ele seja uma entrega total e plena, no amor indissolúvel, fiel e fecundo. Este é o ideal que Jesus aponta aos Seus discípulos, é o ideal para o qual os discípulos deverão caminhar sempre! Na perspectiva de Jesus, o divórcio é contrário ao plano de Deus para o amor humano! Por isso mesmo, o matrimônio abraçado por um cristão e uma cristã, no Senhor Jesus, é indissolúvel! Aqui é preciso deixar claro que a Igreja não tem autoridade para ensinar ou fazer diferente! Seria trair o Senhor! Surgem, no entanto, algumas questões sérias e graves:

(1) Como prometer amor por toda a vida, se nosso coração é inconstante? Primeiramente, é necessário recordar que o matrimônio cristão somente pode ser abraçado na fé, sabendo os esposos que jamais a graça de Cristo lhes faltará. Com toda certeza, o Senhor haverá de conduzir os esposos no caminho do amor. Isto, no entanto, de modo algum, dispensa os esposos de cultivarem esse amor, com o diálogo, os gestos de carinho e de perdão, de compreensão e de atenção. Amor não é só sentimento: o amor não nasce de repente, não é fatal, não é cego, nem morre de repente. O amor pode e deve ser cultivado, cuidado. Como dizia São João da Cruz: “Onde não há amor, semeia amor e colherás amor”. A grande ilusão do mundo atual é pensar que o amor se reduz a sentimento, que não precisa ser cuidado nem cultivado! Confunde-se amor com paixão!

(2) Como fazer uma aliança para sempre, se esta depende não só de mim, mas também da outra pessoa? A questão é séria e, para nós, cristãos, deve ser pensada na fé. O matrimônio entre cristãos é sinal, é sacramento, do amor entre Cristo e a Igreja. São Paulo explica este mistério de modo belíssimo no capítulo quinto da Carta aos Efésios: marido e mulher devem se amar como Cristo e a Igreja (cf. Ef 5,21-32). Ora, este amor foi selado na Cruz e na Ressurreição; é amor pascal, amor que envolve morte e vida! A indissolubilidade não deveria ser vista como um fardo, mas como uma proposta de um Deus que crê no homem que criou; um Deus que nunca brinca com o amor, um Deus que aposta na nossa capacidade, quando aberta à Sua graça! Ora, este amor-doação matrimonial, imagem daquele outro, entre Cristo e a Igreja, certamente terá a marca da Cruz. As dificuldades conjugais, para o cristão, têm o nome de cruz, cruz que, assumida com amor e por amor, é transformada em alegria e plenitude de ressurreição. Aqui não se trata somente de palavras bonitas, mas de uma realidade impressionante: quem capitula, quem desiste ante as dificuldades, nunca plantará um amor no sentido cristão! A presença de Cristo na união conjugal não exclui as crises, as dificuldades, a incompatibilidade de temperamentos e até mesmo os erros na escolha do cônjuge! Mas tudo isso, por quanto doloroso possa ser, pode se tornar, em Cristo, um modo libertador e eficaz de participar com generosidade e desapego da cruz do Senhor e caminho de felicidade! “Loucura! Insanidade! Demência!” – dirá o mundo! Mas, a linguagem da cruz é loucura para o mundo! A sabedoria da Cruz é tolice para o mundo! Nunca esqueçamos isso! Mas, para quem crê, é poder de Deus e sabedoria de Deus! (cf. 1Cor 1,18; 3,18-20). O problema é que as pessoas casam como os cristãos, mas não creem nem vivem como os cristãos! Que fique bem assentado: o sonho de Deus em Cristo para o matrimônio é a indissolubilidade!

(3) E os nossos irmãos e irmãs que fracassaram na aliança conjugal e estão numa nova união? É uma situação dolorosa. Se são cristãos de verdade, esta realidade é primeiramente difícil para eles. Não nos compete julgar suas intenções e sua história! Compete-nos respeitá-los e acolhê-los com espírito fraterno, ajudando-os a viver esta nova união do melhor modo possível, caminhando sempre mais para uma mais completa doação ao Senhor. Isto, no entanto, não significa aprovação da separação nem da nova união. Mas, simplesmente, respeito pela história, pela consciência e pelo mistério da vida e das opções de cada irmão e de cada irmã. Estejamos atentos que tantos irmãos que vivem esta dolorosa situação têm um sincero amor ao Senhor e verdadeira doação à Igreja! Aqui, vale muito recordar a palavra do Senhor: “Quem estiver sem pecado, que atire a primeira pedra!” (Jo 8,7). Cuidado, irmãos: não coloquemos fardos na vida dos outros: “Carregai o fardo uns dos outros e assim cumprireis a Lei de Cristo!” (Gl 6,2)

Que o Senhor socorra as famílias e fortaleça no amor os esposos cristãos, fazendo-os simples como as crianças, capazes de acolher a proposta do Cristo para o matrimônio e que, nas dificuldades, recordem-se que Cristo, Autor da nossa salvação, também foi levado à consumação passando pelos sofrimentos. Que nossos sofrimentos, unidos aos Dele, sejam semente e penhor de Vida eterna. Amém.

"Vem, amada Minha!"

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Ruminando a Palavra de Deus do XXVI Domingo Comum.b (parte II)

Nm 11,25.
O Senhor Deus tomou do Espírito que repousava sobre Moisés e colocou nos setenta anciãos.
Que Espírito é este? É o Espírito Santo de Deus! É o Espírito do próprio Cristo!
Como é possível ser Espírito de Cristo, se Moisés viveu antes de Cristo?
Mistério: na história de Israel, na Antiga Aliança, tudo caminha para o Cristo, tudo é guiado para Cristo: Ele é o “Cordeiro sem defeito e sem mácula, conhecido antes da fundação do mundo” (1Pd 1,20). Como a Igreja canta no Credo: o Espírito de Cristo falou pelos profetas!

1Pd 1,10-11.
Impressionante! A Escritura afirma que os profetas anunciaram a salvação e testemunharam os sofrimentos de Cristo porque o Espírito do Cristo Jesus falava neles!
Sim! Nos planos de Deus, o Cristo está presente desde o início, desde o princípio, quando Deus criou o céu e a terra, e o Santo Espírito do Cristo imolado e ressuscitado, o Cordeiro vitorioso, que já Se encontra fora dos tempos e acima de todos os tempos,
esse Espírito Santo preenche todos os tempos
e para Cristo direciona todas as épocas e todos os acontecimentos da Antiga Aliança!

Nm 11,25.
O Senhor Deus tomou do Espírito que repousava em Moisés e derramou-O sobre os setenta anciãos.
O Espírito que repousava em Moisés e foi repartido sobre os setenta anciãos sem se dividir! Dado aos setenta sem diminuir em Moisés!
Espírito repartido, mas não dividido,
Espírito multiplicado, mas não diminuído!
O mesmo Espírito, o único Espírito, esparramado, participado por muitos!
Espírito de unidade! Espírito de diversidade!
Espírito único e múltiplo!
Um só Espírito, pousando sobre muitos:
unidade firme, indestrutível!
Diversidade rica, maravilhosa! (cf. At 2,3-4; 1Cor 12,4-7)

At 2,33.
Ainda hoje é assim, na Igreja, no Povo conquistado por Cristo: o mesmo Espírito que ungiu o Senhor Jesus na Ressurreição esparrama-Se,
generoso,
pleno,
abundante,
superabundante,
Dom de Deus,
sem medida,
da Cabeça por sobre todos os membros do Corpo, sobre todos os membros da Igreja!

Nm 11,25.
O Espírito pousou sobre cada um deles e, então profetizaram!
Profetizaram: falaram em nome de Deus, cantaram os louvores de Deus, disseram palavras da parte de Deus, proclamaram a ação de Deus, embriagados pelo Espírito de Deus, mais do que por vinho: “Não vos embriagueis com vinho, mas buscai a plenitude do Espírito!” (Ef 5,18)
Espírito de profecia!
Espírito que proclama continuamente, por tantas bocas, em tantas línguas, em linguagens diversas, as maravilhas de Deus, a vontade de Deus, o desígnio de Deus
e tudo renova na vida do Povo Santo, no caminho da Igreja!
Por isso a Igreja de Cristo é dos apóstolos, mas é também dos profetas: “Aqueles que Deus estabeleceu na Igreja são, em primeiro lugar, apóstolos; em segundo lugar, profetas!” (1Cor 12,28).
Quem são os profetas?
Aqueles que, embriagados pelo Espírito que procede do Cristo, falam, sonham, inventam, guiados pela Força de Deus!
Aqueles que com a boca, com os gestos, com o modo de viver, meio doidos, meio embriagados, proclamam por todos os poros da existência que o Senhor Jesus é o Cristo, o Senhor, Vivo, Vivificante, Ressuscitado, Ressuscitante, único Salvador da humanidade: “Todo Espírito que não confessa Jesus, não é de Deus!” (1Jo 4,3).
Profeta, na Igreja, é quem proclama Jesus, o Senhor do Cristo de Deus!
Profeta é quem, acalentado pelo Espírito, sonha Jesus, o Senhor,
Profeta é quem, inebriado pelo Espírito, faz loucuras por amor do Senhor,
Profeta é quem, inspirado pelo Espírito, inventa, cria, embriagado no amor do Senhor,
Profeta é quem, elevado pelo Espírito, já vê na terra, o Céu,
Quem fala, ainda na terra, as coisas do Céu, para a glorificação do Cristo de Deus, o Senhor Jesus!
Triste da Igreja se tivesse a prudência e discernimento dos sucessores dos Apóstolos e padecesse da falta da loucura  criativa e meio indisciplinada dos profetas;
Pobre da Igreja na qual os sucessores dos Apóstolos tivessem medo e desconfiança das surpresas vindas dos profetas;
Triste daqueles que pensassem em proclamar a perenidade do Cristo sem a novidade dinâmica e criativa do Espírito que age nos profetas do Ungido de Deus, Jesus, nosso Senhor!

Toda esta riqueza, evocada nos dois primeiros versículos da primeira leitura da Missa...
Bendita seja a Palavra do Senhor!


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Ruminando a Palavra do XXVI Domingo Comum.b

Nm 11,24.
Moisés colocou os anciãos ao redor da Tenda de Reunião. A Tenda: ela era o lugar de encontro do Deus vivo com o Seu Povo eleito, Israel.

Sobre a Tenda descia a Nuvem, a Shekinah, a santa Presença de Deus. Essa Presença é o próprio Espírito de Deus, Sua Santidade, Sua Glória, Seu Poder, Sua Força, Sua Energia, Sua Vitalidade.

A Tenda e a Nuvem. O lugar do encontro e a Força, a Vida divina.

Jo 1,14.
O Verbo, a Palavra de Deus, Seu Pensamento, fez-Se carne, fez-se matéria, entrou no mundo e habitou entre nós, armou a Sua tenda entre nós. Jesus nosso Senhor é o local de encontro entre Deus e o homem, entre o Divino e o “mundano”, entre a Eternidade e o tempo, entre a Glória e a história: “O Verbo Se fez carne e armou Sua tenda entre nós!”

Nm 11,25.
O Senhor desceu na Nuvem! A Nuvem, imagem do Santo Espírito, Presença, Shekinah potente e exuberante de Deus, o Santo! O Espírito de Deus desceu sobre a Tenda, pairou na Tenda, habitou na Tenda!
Depois, invadiu, preencheu o Templo, pairou no Templo, habitou no Templo: 1Rs 8,10-13.
O Templo, como a Tenda de Reunião tornou-se lugar do encontro com Deus, habitação do Espírito de Deus.

Mas, tudo isto, a Tenda e o Templo, eram figuras, preparação, profecia, mistério!

Jo 2,19.
O verdadeiro Templo é o Verbo encarnado. Ele é o lugar em que habita o Espírito do Deus de Israel. Ele, ressuscitado, com Sua humanidade glorificada, é a Tenda eterna, o Templo indestrutível, a habitação perene da Glória de Deus. A Tenda de Reunião do deserto passou, o Templo de Jerusalém foi destruído e não mais será reerguido.
Eram sagrados porque eram figura do Santo, profecia do Santo, antecipação do Santo!

Cl 2,9.
Sim! Nele, no Ressuscitado, Naquele cuja humanidade é, agora, plena, replena, repleta de Espírito, “Nele habita, corporalmente toda a Plenitude da Divindade”: a infinita superabundância do Espírito: Santidade de Deus, Poder de Deus, Presença de Deus, Glória de Deus, Força de Deus, Vida de Deus!

Tudo já está misteriosamente, prefigurado, presente naquela Tenda, naquela Nuvem, da primeira leitura da Missa deste Domingo...

Bendito sejas Tu, Senhor, nosso Deus,
Que tudo foste preparando para que,
na plenitude dos tempos,
o Teu bendito Filho Jesus, nosso Senhor,
nos desse todo bem e toda graça!

A Ti a glória para sempre!


Para pensar... E seu voto está implicado nesta realidade!


Em essência, o grande desafio do mundo ocidental - e também do Brasil, que faz parte deste mundo -, se não quiser se perder de vez, perdendo o rumo de sua consciência e de seu coração, é reconhecer novamente o ser humano como estruturalmente aberto para Deus.

Não basta pensar nos problemas econômicos e sociais! Há mais, muito mais em jogo: o que é o ser humano, qual o sentido da sua existência, qual o seu caminho neste mundo e o seu destino no tempo e na eternidade!
Sem atenção a estas questões, todas as outras - inclusive as questões sociais, econômicas, políticas... - ficarão distorcidas e deformadas, podendo mesmo matar o ser humano pessoal e socialmente! Em outras palavras: uma sociedade que caminha sem Deus ou contra Deus caminha para a destruição, para a necrose de todos os seus tecidos! O homem sem Deus perece! Uma sociedade sem Deus definha! Uma cultura sem Deus ou contra Deus se estiola!

Portanto, a racionalidade ocidental tem que reconhecer que não pode abarcar o sentido último e global da realidade toda nem reduzir o todo a questões sociais, econômicas ou de bem-estar; não pode abarcar o sentido último e global da realidade toda nem com as ciências da natureza, nem com a filosofia, nem com as ciências sociais. Nem todas estas instâncias poderão jamais chegar ao cerne da questão do sentido mesmo da existência! Também a incrível habilidade científica e tecnológica não deveria engabelar o Ocidente, dando-lhe a ilusão de tudo poder e de satisfazer o coração humano empanturrando-se de bem-estar. Tudo que conseguiremos assim é a destruição do coração e do planeta!

O homo sapiens (homem que pensa) e o homo faber (homem que produz ciência e tecnologia) têm que ser também homo fidelis (homem que crê, que é fiel a Deus e constrói uma sociedade e uma cultura abertas ao Infinito). Não esqueçamos as dramáticas palavras de Miguel de Unamuno, ateu que procurava Deus:
“Sofro eu a Tua custa, Deus não existente,
pois se Tu existisses, eu existiria também de verdade”.

Ou Deus e o homem, ou nem Deus nem o homem!

Que Brasil queremos? Que sociedade desejamos? Que tipo de escola, de formação, de humanismo? Perguntas tremendas... Respostas concretas no voto!


domingo, 30 de setembro de 2018

Para recordar, em tempos de escolher candidatos

A primeira dentre todas as liberdades é a liberdade religiosa;
o ato mais fundamental do ser humano é a fé em Deus e a liberdade de professar essa fé publicamente, sem ser ridicularizado, coibido ou perseguido moral ou fisicamente.

É necessário que se compreenda que o valor incomensurável que é a liberdade religiosa não deve ser confundido com a privatização da fé e da religião; em outras palavras: a verdadeira liberdade religiosa se dá quando as pessoas têm direito de externar sua fé e trazer seus valores religiosos para, com eles, participar na edificação de uma sociedade plural e aberta para a Transcendência. 


A experiência religiosa é um valor imprescindível para a humanidade e a religião, como tal, pode e deve influenciar a consciência e o comportamento social, deve forjar um modo de ver o mundo e a vida, deve plasmar um jeito de encarar os problemas, realizar as escolhas e afrontar os desafios.

É verdade que a religião não pode nem deve impor, mas pode e deve propor, insistir, recordar valores, exigências éticas, critérios morais. Sem isso, é a barbárie! Sem Deus, o humanismo é capenga, falso, simples e pura ideologia! Não resiste muito uma afirmação da dignidade do homem que não se funde na consciência do seu ser-amado-por-Deus.

Temos, atualmente, no Brasil, uma tremenda batalha cultural. Ela é urgente, próxima de nós, às portas de nossas casas e extremamente violenta: deseja arrancar os pilares cristãos de nossa sociedade, deseja negar e reinterpretar de modo falso e parcial a nossa história. Este tema não pode ficar de fora destas eleições. Agora, é uma dos mais urgentes!

Família, vida, aborto, sexualidade,
liberdade de expressar sua fé versus agressão à fé e aos símbolos e valores dos demais,
escola como espaço de liberdade versus escola como lugar de lavagem cerebral ideologicamente direcionada,
verdadeira liberdade versus ditadura do politicamente correto...

Eis alguns dos verdadeiros temas desta eleição.
Estejamos atentos! Não sejamos inocentes úteis! Não sejamos tolos!
Atentos à agenda dos candidatos seja a que cargo for! Não dá mais para se fazer de inocente útil! A verdade é que, pouco a pouco, estão desconstruindo a nossa cultura cristã! Basta!


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Homilia para o XXVI Domingo Comum - ano b

Nm 11,25-29
Sl 18
Tg 5,1-6
Mc 9,38-43.45.47-48

Tomemos o Evangelho deste hoje. Três coisas nos diz, três exortações nos faz.

A primeira delas é uma exortação à tolerância, a não querermos manipular Deus ou cair na ilusão de que O temos como uma propriedade, um monopólio. Eis: “João disse a Jesus: ‘Mestre, vimos um homem expulsar demônios em Teu Nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue’. Jesus disse: ‘Não o proibais. Quem não é contra nós é a nosso favor’”.
Vede, caríssimos, o Senhor nos convida a uma atitude de abertura, nos exorta a reconhecer o bem naqueles que não são dos nossos, que não estão na plena comunhão com a Sua Igreja católica. Não se trata de relativismo, não se trata de afirmar que todas as religiões são iguais nem que todas as denominações cristãs são legítimas. Nada disso! Trata-se de reconhecer o que de bom, pela graça de Deus, há nos outros.
Por exemplo: como não reconhecer que nossos irmãos protestantes, ainda que não estejam na plena comunhão com a Igreja de Cristo e tenham erros sérios de doutrina, amam sinceramente a Jesus? Como não nos alegrar pelo bem que vários deles fazem, pela proclamação de Jesus que testemunham, pelos dons e carismas que há entre eles? Ainda que fora da comunhão plena com a Igreja que o Senhor Jesus fundou e entregou a Pedro e aos Doze, eles são nossos irmãos verdadeiramente pela fé e o Batismo.
Outro exemplo: Como não nos alegrar porque tantos judeus procuram ser sinceramente fiéis ao Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó e, de todo o coração, procuram viver os preceitos da Lei e esperam o Messias? Ou ainda, como não reconhecer que é um bem que os muçulmanos adorem um só Deus e respeitem o Nome santíssimo de Jesus como de um profeta? Ou então, como não admirar sinceramente a idéia de compaixão que existe entre os budistas? E assim por diante... 
Também aí, em todas essas religiões, há elementos de verdade, mesmo que misturados a tantos erros de doutrina ou de prática... Mas, pelos acertos, pelo bem, pelos elementos de verdade, bendito seja Deus!
E, precisamente aqui, o Senhor nos convida ao respeito pelos outros, pelos que pensam e vivem e creem de maneira diferente da nossa... Também entre esses há bons sentimentos, há retidão de consciência, há bondade. Não reconhecer isso seria pecado de nossa parte! “E quem vos der a beber um copo de água porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa”. Vede, também o bem que fizerem, ainda que não sejam dos nossos, será recompensado pelo Senhor!

Meus caros, nossa primeira tendência é refutar quem não pensa como nós, é rechaçar o diferente, procurar logo os defeitos e condenar; nossa tentação é a dureza, a intransigência, a rejeição. Recordai a mesma atitude fechada de Josué, na primeira leitura. É zelo, mas zelo desorientado; é amor, mas amor que precisa ser evangelizado! Vede que o Senhor claramente nos convida a uma outra atitude. Repito: nada de relativismo, nada de nivelar as religiões com a fé católica, recebida dos apóstolos. Mas também nada de prepotência, orgulho ou intransigência mesquinha. Acolhamos a todos, a todos respeitemos, com todos procuremos a paz na verdade, sobretudo com aqueles que, sem ser dos nossos, adoram conosco o nosso Cristo Jesus como Deus e Salvador.

Uma segunda exortação do Senhor: o cuidado com os pequenos, os fracos na fé, os imaturos que estão na nossa comunidade: “Se alguém escandalizar um desses pequeninos que creem , melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada  ao pescoço”.
Não basta ser tolerante com os de fora; é necessário mais ainda ser cuidadoso com os de nossa comunidade, de nossa paróquia, os nossos irmãos, filhos da mesma Mãe católica. Quantas vezes uma palavra dura, um mau exemplo, uma atitude de fechamento, podem fazer esfriar a fé do irmão que é fraco. Eis: é o escândalo, isto é, é se tornar causa de tropeço e de queda para os outros. Deus nos livre, caríssimos, de servir a Deus passando por cima dos outros! Deus nos defenda de uma santidade que não cuide do bem e da fé dos irmãos! Deus nos guarde de um cristianismo sem amor! Eis aqui: com os de fora, tolerância e respeito; com os de dentro, amor e cuidado fraterno! Quanta vezes somos tolerantes com os de fora e fustigamos com uma tremenda falta de caridade os de dentro!

É impressionante o quanto Jesus nos faz responsáveis uns pelos outros, o quanto pedirá contas da fé e da perseverança do nosso irmão! Ai de nós se escandalizarmos, ai de nós se desprezarmos, ai de nós se formos motivo de queda para os outros! – Senhor, tem piedade de nós, que somos fracos! Tem compaixão de nós, pois tantas vezes, sem querer, escandalizamos, sem perceber, fazemos os outros sofrerem!
Recordai, caríssimos da súplica do Salmo de hoje: “Quem pode perceber suas faltas? Perdoai as que não vejo! E preservai o Vosso servo do orgulho: não domine sobre mim!” Não aconteça que fiquemos sem ter o que responder quando o Senhor, no Dia final, nos perguntar como a Caim: “Onde está o teu irmão?”Cuidemos, caríssimos, uns dos outros e, na medida de nossa humana limitação, sejamos solícitos pelo bem de nossos irmãos!

Por último, uma gravíssima exortação do nosso Salvador: tudo quanto nos escandalizar, isto é, tudo quanto nos atrapalhar na vida cristã, tudo quanto nos fizer tropeçar, devemos ter a coragem de arrancar de nossa vida: “Corta-o! Arranca-o!”
Caro meu, o que te faz tropeçar no caminho do Senhor? Tens combatido, tens afastado, tens lutado contra esses empecilhos? Se combatermos nossos pedaços ruins, nossas más tendências, nossos vícios, saibamos que o Senhor não nos abandonará e estaremos caminhando para Ele. Mas, ao contrário, se descansarmos preguiçosamente no mal, então nosso coração irá sendo endurecido e afastado do Senhor, iremos nos enchendo de nós mesmos e nos esvaziando de Deus, ao ponto de termos de escutar a reprimenda duríssima de São Tiago, na segunda leitura: “Agora, ricos, chorai e gemei, por causa das desgraças que estão para cair sobre vós!” O Apóstolo convida-nos à retidão, à justiça, à uma vida segundo a verdade de Cristo! Ricos de pecados, ricos de uma vida soberba, ricos para si mesmos e não para Deus – se assim formos, morreremos para Cristo!

Eis, pois! Guardemos no coração estas advertências do nosso Salvador e vivamos uma vida nova, segunda a Sua santa vontade. Amém!


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A propósito das eleições

Estamos novamente em período eleitoral. Elegeremos deputados estaduais, governadores, deputados federais, senadores e presidente da República.

Voltam os ingredientes de sempre para este tempo:
as promessas dos candidatos, as esperanças de mudança, as acusações, as compras de votos, os pactos eleitorais muitas vezes incompreensíveis, a demagogia, a mentira, o terrorismo eleitoral, o clima meio policial criado por uma lei eleitoral que trata o povo como bando de tolos com necessidade de tutela: "não pode isso, não pode aquilo"...

Mas, o que importa mesmo, o que deveria estar presente na consciência dos eleitores são algumas poucas e simples ideias. Ei-las, algumas, a seguir.

1. As eleições são parte importante da formação da nossa jovem democracia. Votando, aprende-se a participar, toma-se consciência de que o poder pertence originariamente ao povo e é este quem escolhe a quem confiá-lo. Os governantes são representantes da vontade do povo e a ele devem servir.

2. O período eleitoral deve ser ocasião para examinar com seriedade o caminho político dos candidatos. Distinguindo-se cuidadosamente os verdadeiros dos falsos argumentos da campanha, é necessário analisar atentamente a personalidade e o histórico de cada um dos que pleiteiam ser eleitos. Atenção que é importante para a democracia não somente votar, mas avaliar o que foi feito com o voto que se deu: foi ele honrado ou não no exercício do mandato anterior que tal político exerceu? Qual o histórico político do seu candidato: cesteiro que faz um cesto, faz um cento!

3. O eleitor deve votar pensando no bem comum, ou seja, nos grandes projetos para o bem da maioria. Seria imoral um voto dado pensando somente no próprio benefício! É preciso saber conjugar os legítimos interesses de cada um com o bem da sociedade em geral. No caso de um cristão, este nunca deve votar em quem defende valores contrários à fé: aborto, sexo "livre", dissolução da família, ideologia de gênero, artistas com shows imorais e que denigrem a fé, educação sexual aberrante nas escolas, laicismo, etc. A guerra contra o cristianismo é clara, pesada e metódica. Não dá para brincar com isto! Não vote em quem aprovou e defendeu leis contrárias aos valores cristãos! Não deixe que o cristianismo seja destruído em nosso País! Não vote, de modo algum, em quem é favorável ao aborto!

4. Os candidatos dignos do nosso voto devem ter preocupações com políticas públicas: saúde, educação, segurança pública e infraestrutura para o País. As promessas feitas pelos candidatos devem passar pelo crivo do realismo: donde virão os recursos para se cumprir o que se está prometendo? É uma promessas factível ou demagógica?

5. Deve-se prestar muita atenção no quesito corrupção, que tem causado enormes danos econômicos, morais e institucionais ao Brasil. Hoje, nosso País é uma nação desmoralizada pela praga da corrupção. A Lava Jato foi e é um bem enorme para o País; no entanto, muitos nela implicados são candidatos e muitos serão eleitos, constituindo uma tremenda desmoralização do próprio povo e para o próprio povo! Que vergonha para os brasileiros! Qual o futuro de um povo que escolhe ser governado e representado por ladrões? Que honra tem um povo assim? Merece ser roubado e espoliado, merece descambar para o atraso, o clientelismo e, por fim, para um regime ditatorial!

6. Nunca se deve trocar voto por benefícios particulares. Isto seria uma indigna compra de votos! Para o cidadão é imoral, para o eleitor é crime, para o cristão é pecado.

7. Nunca se deveria pensar que político algum presta. Há políticos melhores e piores. Nenhum político e perfeito; nenhum candidato é isento de defeitos; nenhum programa de governo é ideal! Mas, há melhores e piores! Devemos escolher os melhores com consciência, responsabilidade, reflexão e liberdade! No limite, escolhamos os menos ruins!

8. Finalmente: a democracia deve ser construída passo a passo pela sociedade toda, de modo que os melhores sejam eleitos, as instituições sejam fortalecidas, todos tenham oportunidades na vida, os culpados sejam punidos, o cidadão tenha seus direitos respeitados, a corrupção seja coibida e o País seja a pátria de todos.

Uma coisa é certa: será o povo a decidir quem o governará. O povo quer dizer nós, eu e você. Mais que Lei da Ficha Limpa, mais que a dureza quase ditatorial da lei eleitoral e os mil modos de se tentar proteger e tutelar os eleitores, é o povo quem decidirá, quem aprovará ou reprovará os pleiteantes, de modo que teremos os governantes que escolhermos e, portanto, que merecermos.
Eis a dura realidade da grande responsabilidade que nos será confiada no pleito que se aproxima!
Pense bem: na próxima eleição daremos mais um passo na construção ou destruição da nossa Pátria!
Seja cidadão, seja responsável, vote de modo decente!



Observação:
Se alguém desejar transcrever este texto, transcreva-o todo, sem instrumentalizá-lo, recortando-o. E cite a fonte, para que os leitores possam verificar a fidelidade ao que escrevi.

sábado, 22 de setembro de 2018

Homilia para o XXV Domingo Comum - ano b

Sb 2,2.17-20
Sl 53
Tg 3,16 - 4,3
Mc 9,30-37

No domingo passado – deveis recordar - Jesus anunciou aos Seus discípulos que Ele era um Messias não de glória, mas de humildade e serviço até à morte de Cruz. Ao final, triunfaria pela Ressurreição. Pedro havia se escandalizado com tais palavras. Hoje, Jesus continua Sua pregação.
Ele ensinava a sós a Seus discípulos: “’O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens e eles O matarão. Mas, três dias após, Ele ressuscitará’. Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar”.

Vede, caríssimos, é a mesma atitude da semana passada.
O ensinamento do Senhor tem como seu centro o Reino de Deus que viria pela Sua Cruz e Ressurreição.
Entrar no Reino é tomar com Jesus a Cruz e com Ele chegar à Glória!
Estejamos atentos: este não é apenas mais um dos muitos ensinamentos de Cristo; este é o ensinamento por excelência, a mensagem central que o Senhor veio nos revelar e mostrar com Sua palavra, Suas atitudes e Sua própria vida, Sua existência entre nós.
Repito: eis o que Jesus ensina: que o caminho do Reino passa pela Cruz, passa pela Morte e chega à plenitude da Vida na Ressurreição.
Observai que Ele ensina isso de modo insistente e prepara particularmente os discípulos para esse caminho... E, no entanto, os discípulos não compreendem a linguagem de Jesus, não compreendem Sua missão, Seu caminho! Esperavam um messias glorioso, cheio de poder, que resolvesse todos os problemas e reafirmasse orgulhosamente a glória terrena de Israel... Um messias na linha da teologia da prosperidade de tantos pregadores de televisão. Nada mais distante de Cristo que esse tipo de coisa!
Observai que, enquanto Jesus caminha adiante ensinando isso, os discípulos, seguindo-o com os pés, próximos fisicamente, estão com o coração muito longe do Senhor. No caminho, vão discutindo sobre quem deles era o maior! Jesus fala da humilhação e do serviço até à Cruz; Seus discípulos, nós, falamos de quem é o primeiro, o maior... Que perigo, caríssimos, pensarmos que somos cristãos, que seguimos Jesus, e estarmos com o coração bem longe do Mestre amado!

Temos nós essa tentação também? Certamente! A linguagem da Cruz continua difícil, dura, inaceitável para nós. É claro que não teoricamente: persignamos-nos com a cruz, beijamos a cruz, trazemo-la pendurada ao pescoço, veneramos a cruz... Mas, o caminho da Cruz se faz na vida, não na teoria!
Essa bendita Cruz de Cristo está presente nas dificuldades, no convite à renúncia de nossa vontade para fazer a vontade do Senhor, na aceitação dos caminhos de Deus, na doença e na morte, nas perdas que a vida nos apresenta, nos momentos de escuridão, de silêncio do coração e de aparente ausência de Deus... Todas essas coisas nos põem à prova, como o justo provado da primeira leitura deste hoje. É a vida, são os acontecimentos, são os outros que nos provam: “Armemos ciladas aos justos... Vamos pô-lo à prova para ver sua serenidade e provar a sua paciência; vamos condená-lo à morte vergonhosa, porque, de acordo com suas palavras, virá alguém em seu socorro”. Jesus é o Justo, o Santo, perseguido: passou por esse caminho, fez essa experiência em total obediência à vontade do Pai. E nos convida a segui-Lo no hoje, no aqui da nossa vida. Nossa tentação é a dos primeiros discípulos: um cristianismo fácil, de acordo com a mentalidade do mundo atual; um cristianismo a baixo preço – isso: que não custe o preço da Cruz! Se assim for, como estaremos longe de Jesus, como não O conheceremos! Ele nos dirá: “Apartai-vos de Mim! Não vos conheço!” (Mt 7,23).

Caros irmãos, ouvindo isso, talvez digamos: mas, como suportar a dureza da Cruz? Como amá-la? Não é possível! É que ninguém pode amar a Cruz pela própria cruz, caríssimos. Cristo amou Sua Cruz e a abraçou por amor total e absoluto ao Pai, por fidelidade ao Pai. Nós, também, somente poderemos compreender a linguagem da Cruz e somente não nos escandalizaremos com ela se for por um amor apaixonado pelo Senhor Jesus, para segui-Lo em Seu caminho, para estarmos em união com Ele. Eis, portanto: é o amor ao Senhor que torna a Cruz aceitável e até desejável! Sem o amor ao Senhor, a Cruz é destrutiva, é louca, e desumana! Com Jesus e por causa de Jesus, a Cruz é árvore bendita de libertação e de Vida eterna. É o amor a Jesus que torna doce o que é amargo neste vida!

O problema é que precisamos redescobrir a experiência tão bela e doce de amar Jesus. Não se pode ser cristão sem paixão pelo Senhor, sem um amor sincero entranhado para com Ele!
Como se consegue isso? Estando com Ele na oração, aprendendo a contemplá-Lo no Evangelho, alimentando durante o dia, dia todo, Sua lembrança bendita, procurando a Sua graça nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia, lutando pacientemente para vencer os vícios e colocar a vida, os sentimentos, os instintos e a vontade em sintonia com a vontade do Senhor Jesus... Sem esses exercícios não há amor, sem amor não há como compreender a linguagem da Cruz e sem tomar a Cruz com e por Jesus não há a mínima possibilidade de ser cristão! Quando vier a crise, largaremos tudo, trairemos o Senhor e terminaremos por fazer do nosso jeito, salvando a pele e fugiremos covardemente da Cruz...

Então - pode ser que perguntemos – por que o Senhor quer nos fazer passar pela Cruz?
Por que escolheu e determinou um caminho tão difícil?
Eis a resposta: porque somos egoístas, imaturos, quebrados interiormente! O pecado nos desfigurou profundamente! São Tiago traça um perfil muito realista e muito feio da nossa realidade: guerras interiores, paixões, disputas, autoafirmação doentia, desordens e toda espécie de obras más... Quem tiver a coragem de entrar em si mesmo, quem for maduro para se olhar de frente verá em si todas essas tendências. Quantas vontades, quantas guerras interiores! Ora, isso tudo nos fecha para Deus, nos joga na idolatria do ter, do poder, do prazer, da autossuficiência de pensar que somos deuses...
É a Cruz do Senhor quem nos purifica, nos corrige e nos liberta de verdade. Não há outro modo, não há outro caminho. Somente sentimentos, risos, cantorias e boa vontade não nos construiriam, não nos colocariam de verdade em comunhão com o Senhor no Seu caminho. O mistério do pecado é sério demais, profundo demais para ser tratado com leviandade... “Quem quiser seu Meu discípulo tome a Sua Cruz e siga-Me” – diz o Senhor!

Caríssimos, tenhamos coragem! Na docilidade ao Espírito Santo que o Senhor nos concedeu, teremos tal união com o Senhor Jesus, que tudo poderemos e suportaremos. Foi esse o caminho dos santos de Deus de todos os tempos; é esse o caminho que agora nos cabe caminhar... Que o Senhor no-lo conceda por Sua graça, Ele que é Deus com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Continuando o XXIV Domingo:

Para não ser proibido,
severamente,
de falar do Messias
é preciso aprender,
severamente!

"E começou a ensinar-lhes".
Para poderem falar Dele.

O quê?
Qual o ensino?
"O Filho do Homem deve sofrer muito,
ser rejeitado,
ser morto
e ressuscitar".

Eis o ensino!
Impressionante.
Desconcertante,
"Severamente".

"O Senhor abriu-Me os ouvidos,
Eu não fui rebelde,
não recuei:
não ocultei o rosto às injúrias e aos escarros.
O Senhor Deus virá em Meu socorro!"

Só depois de aprender isto,
de colocar isto no coração,
de aceitar isto,
de vê-Lo na Cruz,
na Paixão,
na Morte,
Ressuscitado,
de corpo glorioso
e chagas abertas para sempre,
poderão falar Dele,
do Messias,
o Verdadeiro!

Não o curandeiro,
não o milagreiro,
o que, simplesmente, resolve
nossos mil problemas.

Ele, o Messias,
o do Pai,
o que pelo Amor e no Amor
entrega toda a vida!

"E vós, perguntou Ele, quem dizeis que Eu sou?"