quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Redes e pérolas, tesouros e sementes...

Já escrevi algumas vezes sobre o encantador capítulo treze do Evangelho segundo São Mateus. É o Discurso das parábolas do Reino dos Céus. Em sete encantadoras estórias, o Senhor Jesus fala sobre alguns aspectos do que seja esse Reino dos Céus ou Reino de Deus que Ele veio anunciar.!

O Reino de Deus foi o centro da missão e da pregação de Jesus. Ele veio para anunciar e instaurar esse Reino. A expressão correta, para dizer a verdade, não seria “Reino”, mas “Reinado”, Reinado de Deus.
Jesus veio anunciar que o Deus grande e santo de Israel é, na verdade, um Pai cheio de misericórdia e ternura, de amor e compaixão – é o Seu Pai, que Ele chamava Abbá, Papai! Ao enviar Seu Filho único, esse Pai do Céu abriu as mãos e o coração para a humanidade cansada e ferida, de modo que o Reinado de Deus acontece onde a Pessoa e a mensagem de Jesus forem acolhidos. Aí Deus reinará de verdade!
Cada um de nós é convidado a acolher em Jesus esse Reinado: o Reino está onde o homem permite que Deus reine na sua vida, nos seus amores, na sua sensibilidade, nos seus afetos, no seu dinheiro, nos seus bens materiais, na sua sexualidade, na sua vida profissional, nos seus projetos, enfim, em todos os âmbitos da sua existência! Assim, não somos nós que entraremos no Reino; é o Reino que entrará em nós, que permeará toda a nossa existência. Isso mesmo: entrará no Reino quem deixar o Reino entrar em seu coração e em sua vida, começando já neste mundo uma tal comunhão com Deus em Jesus Cristo, que nem a morte poderá interromper!

Mas, essa história de Reino de Deus presta-se a tantos mal-entendidos... Os judeus enganaram-se com o Reino. Pensavam que ele seria vistoso, glorioso; que aconteceria imediatamente, que seria imposto por Deus de maneira grandiosa. Enfim, um Reino em grande estilo... Muitos confundiam facilmente o Reino de Deus com o Reino do Povo de Deus, com o seu próprio Reino; confundiam a vontade de Deus com a própria vontade e a glória de Deus com a própria glória. São tão fáceis essas confusões...

Nessas parábolas, o Senhor quer ensinar que o Reino não nasce da nossa iniciativa: Deus é quem o semeia, é quem o planta. O Reino não pode ser confundido com um simples projeto humano... Ninguém pode chegar a Deus se Deus mesmo não se der a nós. O homem não pode, sozinho, com suas forças, construir esse Reino. Toda vez que tentou, fracassou: mentiu e matou por um reino que não aconteceu... Basta recordar as promessas humanas, os projetos políticos e econômicos humanos...
O Senhor ensina também que o Reino passa pela nossa decisão, pelo terreno do nosso coração: se meu coração for desatento, o Reino será devorado em mim, como as sementes pelos pássaros; se meu coração for envolvido por mil paixões e desejos, a semente do Reino será sufocada por esses espinhos; se meu coração for superficial e leviano, a semente morrerá seca por falta de profundidade humana...
Jesus nos ensina que Deus é assim: aceita e deseja que seu projeto passe pela nossa liberdade, corra o risco de ser colocado a perder pelo nosso “não” aos Seus apelos. Que coisa impressionante: eu posso colocar a perder o projeto de Deus; eu posso me fechar, eu posso dizer “não” – fazer da minha vida um grande “não” a Deus!

Nosso Senhor é tão realista. Ele disse também nessas parábolas que o Reino dos Céus é frágil, é pobre, é pequeno como um grãozinho de mostarda, como um pouquinho de fermento que uma mulher colocou na massa... Ele não se manifesta na grandeza, na riqueza, no luxo, no poder, mas nas coisas pequenas e simples, como o amor desinteressado, o tempo dado aos outros, o sofrimento suportado com paciência e dignidade...
Mas, esse Reino tão simples haverá de levedar o mundo todo como o fermento na massa e haverá de crescer como o grão da mostarda e a passarinhada do céu, ou seja, toda a humanidade, haverá de nele fazer seus ninhos. Jesus afirmou também que, apesar de tantas vezes ter um destino inglório, como aquelas sementes do semeador, ao fim das contas, haverá terrenos bons, nos quais as sementes do Reino cairão e darão fruto: uns cem, outros sessenta, outros trinta por um... Não importa quanto cada um dê, importa que dê tudo quanto poderia ter dado...
Ele disse ainda que esse Reino é o maior tesouro que alguém pode achar, que é como uma pérola de grande valor - a mais bela de todas - e quem a encontra está disposto da dar tudo por ela... Ele ensinou que o mundo no qual Ele veio semear o Reino é como um campo... Aí, Ele semeou o Reino que é vida e verdade, amor e paz, mas o Diabo semeou o joio. Nossa impaciência quer arrancar logo o joio e reclama de Deus pelo mal do mundo, como se Deus fosse o culpado. A nossa impaciência ameaça arrancar o trigo junto com o joio; mas a paciência de Deus sabe esperar e, um dia, trigo e joio serão separados, um dia o trigo será recolhido nos celeiros do coração do Pai do Céu e o joio será enfeixado e queimado!
Finalmente, Ele ensinou que o Reino do Céu é como uma rede jogada no mar, nesse mar que é o mundo... Essa rede recolhe todo tipo de peixe; vai recolhendo, vida após vida, geração após geração... Mas, um dia, a rede será puxada e os peixes serão separados: os bons serão recolhidos em cestos e os maus serão jogados para o fogo queimar...

Jesus termina Seu Discurso perguntando: “Entendestes todas essas coisas?” – Quem dera que tenhamos compreendido...


A ressurreição da carne

Que significam as palavras do Credo que dizem: “Creio na ressurreição da carne”?

Primeiramente é necessário compreender o significado da palavra “carne” no Antigo Testamento. Aí aparece o termo “basar” (= carne), que originalmente significa o corpo inteiro, bem como a pessoa toda. Para a Escritura, carne é o homem total e vivo, mas limitado, débil (cf. Gn 6,3) e, portanto, propenso ao pecado (cf. Sl 65,3s). O importante é deixar claro que, no pensamento bíblico, o homem não somente tem carne: ele é carne, isto é, limitado, frágil, não autossuficiente.
Sendo a carne uma dimensão do ser humano, pode designar o homem todo inteiro, de modo que minha carne significa não só meu corpo, meus músculos, mas também meu eu e não somente uma parte de mim. Fica, portanto, claro, que quando a Escritura fala em carne, não está falando somente de uma parte do homem, mas do homem todo, enquanto criatura débil e perecível.

Assim, por exemplo, quando a Escritura diz: “Chegou o fim de toda carne” (Gn 6,13), está querendo dizer que chegou o fim de todo homem, de toda a humanidade. O mesmo quando diz: “Toda carne bendiga o Seu santo Nome” (Sl 145,21), ou ainda: “A glória do Senhor há de revelar-se e toda carne, de uma vez, O verá”(Is 40,5). Em todas estas passagens “carne” é o homem todo e não uma parte do homem! Ainda um exemplo: “Toda carne é erva e toda a sua graça como a flor do campo” (Is 40,6). Esta afirmação quer dizer que todo homem é frágil, é como a erva.

Podemos, então compreender que quando o Credo diz “Creio na ressurreição da carne”, está dizendo “creio na ressurreição do corpo”, mas também e principalmente “creio na ressurreição do homem frágil”.
A Escritura ensina que o homem, por si mesmo não poderia ser imortal nem feliz eternamente. É Deus que, no Seu amor, vai nos ressuscitar, como ressuscitou o Seu Filho Jesus, feito homem como nós! O Senhor ressuscitar-nos-á com todo o nosso ser, corpo e alma. Notemos que o Credo não diz: “creio na ressurreição do corpo”, mas “creio na ressurreição da carne” ou - aquele Credo mais longo, o Niceno-constantinopolitano -“espero a ressurreição dos mortos”, sem distinguir corpo e alma. Portanto, tanto faz dizer: “creio na ressurreição da carne”, como “creio na ressurreição dos mortos”, ou “creio na ressurreição do homem”, do homem inteiro, corpo e alma.

A Sagrada Escritura imagina o homem como um todo; jamais pensa que o homem é formado por partes: uma espiritual e outra material. Este modo de pensar o homem em duas partes é grego e, de modo geral, da cultura indo-europeias, que é completamente pagã. No pensamento bíblico o homem é um todo com várias dimensões, vários aspectos, mas não partes. Assim, eu sou meu corpo, eu sou minha alma... E é todo o meu ser que ressuscitará e estará para sempre com o Senhor. Em outras palavras: ao pensar no ser humano, as Escrituras pensam-no como um todo, como uma unidade. Agora, certamente, uma unidade diferenciada, com dimensões, com “partes”, mas exprimindo fundamental e originariamente, um todo!

Daí a inaceitabilidade, segundo a concepção das Escrituras Santas, de quem crê na doutrina da reencarnação. Trata-se de uma doutrina presente em muitas culturas, mas alheia às Escrituras.
Quem abraça esta crença, pensa que o homem é somente espírito e esse espírito está preso num corpo. Assim, de acordo com esta doutrina errada, eu sou meu espírito, mas eu apenas tenho um corpo : não sou o meu corpo! Quando morremos, o espírito desencarna e o corpo vai para o lixo, como uma roupa velha! Tal doutrina é absolutamente incompatível com o ensinamento de Cristo! O Senhor Jesus prometeu que nos ressuscitará em todo o nosso ser - corpo e alma. Seremos completamente glorificados, como o foi o Senhor Jesus! Portanto, podemos afirmar que a esperança dos cristãos é a ressurreição da carne (= do homem todo, apesar de frágil)! Quem professa a reencarnação nega a ressurreição e já não tem como professar a fé católica nem ser realmente cristão!


sábado, 25 de agosto de 2018

Sobre a Igreja que chora...

"Ah! Senhor Deus, extinguirás todo o resto de Israel?" (Ez 11,13)
A devastação é tanta, o desamparo, a incerteza, os turbilhões externos e internos...

"É verdade, afastei-os para longe entre as nações, espalhei-os por terras estrangeiras...
mas, por esse pouco tempo, tenho sido para eles um Santuário, nas terras para as quais eles se mudaram" (Ez 11,16).
Estão desterrados, espalhados; nem parecem mais um povo... Mas, Eu mesmo sou sua casa, seu amparo, seu refúgio; mais ainda: seu Santuário! Eu Me exilo com eles; sou-lhes solidário!

"Eu vos ajuntarei de entre os povos, reunir-vos-ei das terras nas quais fostes espalhados e vos darei a terra de Israel. Chegando aí, removerão dela todos os objetos detestáveis do culto pagão e todas as abominações...
Eu lhes darei um coração UM, inteiro, íntegro, porei no seu íntimo um Espírito novo. Então, serão o Meu Povo, e Eu serei o seu Deus!" (Ez 11,17-20)

Há esperança!
No Senhor, há esperança!
Ele é fiel!
O Seu Nome é Fidelidade,
o Seu Nome é Amor!

Mas, a Fidelidade é exigente
e o Amor purifica, acrisola, queima!

Bendito seja o Senhor,
que não abandona o Povo que Ele conquistou com o sangue pascal do Seu Filho, nosso Salvador!
O Dragão persegue a Mulher...

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Homilia para o XXI Domingo Comum - ano B

Js 24,1-2a.15-17.18b
Sl 33
Ef 5,21-32
Jo 6,60-69

Nenhum cristão jamais poderá dizer que foi enganado pelo Senhor! Deus nunca Se mascarou para nós, nunca nos falou palavras agradáveis para nos seduzir, nunca agiu como os nossos políticos; Deus não usa maquiagem! Ele é um Deus verdadeiro, leal, honesto! Não esconde Suas exigências, não omite Suas condições para quem deseja segui-Lo e servi-Lo...

Escutamos na primeira leitura de hoje Josué mandando o povo escolher: seguir os ídolos, que são de fácil manejo, que não exigem nada ou, ao invés, seguir o Senhor, que é exigente, que é Santo e corrige os que Nele esperam? O próprio Josué dirá: “Não podeis servir ao Senhor, pois ele é um Deus santo, um Deus ciumento, que não tolerará as vossas transgressões, nem os vossos pecados!” (Js 24,19)
Vede, meus caros, que o nosso Deus não Se preocupa com popularidade, não faz conta do número de fieis, não abranda Suas exigências para ser aceito, mas sim, faz conta da fidelidade ao Seu amor e ao Seu chamado!

O que aparece na primeira leitura torna-se ainda mais claro e dramático no Evangelho. Após dizer claramente que Sua Carne é verdadeira comida e Seu Sangue é verdadeira bebida, muitos discípulos se escandalizaram com Jesus (há cristãos que ainda hoje se escandalizam e não creem nesta Palavra do Salvador...).
E Jesus, o que faz? Muda Sua Palavra? Volta atrás no ensinamento para ser popular, para ser compreendido e aceito, para encher as igrejas? Não! Popularidade, aceitação, bom-mocismo nunca foram Seus critérios! Ainda que Sua palavra escandalize, Ele nunca volta atrás. O Senhor nunca Se converte a nós; nós é que devemos nos converter a Ele! Pode-se manipular os ídolos; nunca o Deus verdadeiro!

É importante prestar atenção! Diante dos discípulos escandalizados e murmuradores, que faz Jesus? Apresenta o critério decisivo: a Cruz!
Escutai, irmãos, o que diz o Senhor: “Isto vos escandaliza? E quando virdes o Filho do Homem subindo para onde estava antes?” Lembremo-nos que, para o Evangelho de São João, a subida de Jesus para o Pai começa na Cruz: ali Ele será levantado!
Vede bem, meus irmãos, que não poderá seguir o Senhor, não poderá suportar as palavras do Senhor, aquele que não estiver disposta a contemplá-Lo na Cruz! E Jesus previne: “O Espírito é que dá Vida; a carne não adianta nada! As palavras que vos falei são Espírito e Vida!” Compreendei, caríssimos meus: somente se nos deixarmos educar pelo Santo Espírito, somente se deixarmos os pensamentos e a lógica à medida da carne, isto é, à medida da mera razão humana, é que poderemos compreender as coisas de Deus, coisas que passam pela Cruz de Cristo! Quando se trata do escândalo do Evangelho, “a carne não adianta nada”, a lógica humana não conta!
Não nos iludamos: entregues à nossa própria razão, pensaremos como o mundo e jamais acolheremos Jesus e Suas exigências! Como compreender um Amor – aquele do Verbo feito carne – que Se entrega eucaristicamente, que Se dá todo, que Se esconde em aparências tão triviais, tão humildes como o pão e o vinho porque Se escondeu na nossa pobre carne humana, nos insossos dias de uma vida como a nossa ao Se fazer homem?
E, no entanto, o Senhor continua: “É por isso que vos disse: ninguém pode vir a Mim, na existência e no Altar, a não ser que lhe seja concedido por Meu Pai!” Vede bem, meus caros: acolher Jesus, compreender Suas palavras e acolhê-las, por quanto sejam difíceis e duras, é graça de Deus e somente abertos para a graça poderemos realizá-lo!
Como acolher a linguagem da Cruz, sem mudar de vida? Como acolher as exigências do Senhor, sem a conversão do coração, sem nos deixarmos guiar pela imprevisível liberdade do Santo Espírito? Quando isso acontece, experimentamos como o Senhor é bom, o quanto é suave, o quando é doce segui-Lo! Assim, o mesmo Espírito de Cristo que transfigura o pão e o vinho na Carne e no Sangue do Senhor imolado e ressuscitado, nos transfigura, em cada comunhão, dando-nos os sentimentos de Cristo, as atitudes de Cristo, a vida de Cristo!

Um belíssimo exemplo disso, a Palavra de Deus nos dá hoje recordando a vida da família cristã. São Paulo pensa o lar cristão como uma pequena comunidade de discípulos de Cristo, plasmada no Espírito de Cristo, plasmada eucaristicamente, uma pequena Igreja e dá conselhos estupendos! O sentimento que deve nortear o comportamento familiar é o amor. Que amor? O das músicas e das novelas? Não! Aquele amor manifestado na Cruz, aquele entre Cristo e a Igreja! Que beleza, que desafio, que sonho: marido e mulher se amando como Cristo e a Igreja se amam, marido e mulher sendo felizes na felicidade um do outro: “Sede solícitos uns para com os outros!” Marido e mulher que se tornam uma só carne no amor, como Cristo e a Igreja em cada Eucaristia, quando o Esposo Cristo dá Sua Carne à Esposa Igreja, e os dois se tornam uma só carne!

Para o cristianismo, meus caros, a família cristã não é primeiramente uma instituição humana, mas uma instituição divina, um sacramento da Igreja. Mais ainda: a família é a primeira Igreja, a primeira comunidade de irmãos em Cristo. Ali, é Jesus Quem deve reinar, ali é o santo e doce temor de Deus quem deve regular a convivência. Que desgraça hoje em dia a paganização, a secularização, a banalização da família cristã!
Atentos, cristãos: a família é santa, a família é sagrada, a família não pode ser profanada pelo desamor, pela indiferença, pela imoralidade, pela violência, pelo consumismo, pela opressão, pela divisão, pela vulgarização! Que beleza, meus caros, um homem e uma mulher unidos no amor com a bênção do Senhor gerando filhos, gerando amor feito carne, feito gente, para o mundo, para a Igreja, para a vida! Este é o sonho do Senhor para a família! Este e só este! Aos olhos de Deus, não há outra forma legítima e aceitável de união familiar! Um homem, uma mulher; um esposo, uma esposa e os filhos, e outros ainda, que a Providência de Deus e o amor que acolhe for agregando a essa comunidade doméstica – eis o sonho, eis a bênção, eis a felicidade quando se vive isso de acordo com o amor de Deus em Cristo! Que bênção a convivência familiar! Que doçura poder partilhar as alegrias e tristezas, as lutas e dificuldades num lar cristão, onde juntos se reza, juntos partilham, juntos vencem-se as dificuldades! São Paulo, encantado com essa realidade, exclama: “É grande este mistério!” Que mistério? O mistério do amor entre marido e mulher, da sua união que gera vida, que é doçura e complementaridade. E o Apóstolo continua: “E eu o interpreto em relação a Cristo e à Igreja!” Atenção! São Paulo está dizendo que a comunhão familiar é imagem da comunhão entre Cristo e a Igreja!

É fácil, caríssimos, viver a família assim? Não! Como não é fácil levar a sério a Palavra do Senhor! E Jesus, mais uma vez, nos pergunta: “Isto vos escandaliza?” Escandaliza-vos o matrimônio ser indissolúvel? Escandaliza-vos a fidelidade conjugal? Assusta-vos o dever de gerar filhos com generosidade e educá-los com amor e firmeza? “Quereis também ir embora?” 

Caríssimos, que nossa resposta seja a de Pedro, dada em nome dos Doze e de todos os discípulos: “A quem iremos, Senhor? Caminhar contigo não é fácil; acolher Tuas exigências nos custa; compreender Teus motivos às vezes é-nos pesado; comungar, na Tua Eucaristia, Contigo imolado, dado, e, assim, dar, entregarmos nós mesmos a própria vida... Mas, a quem iremos? Só Tu tens palavras de Vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que Tu és o Santo de Deus!”. Que as palavras de Pedro sejam as nossas e, como Josué, possamos dizer: “Eu e minha família serviremos o Senhor!” Amém.
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domingo, 19 de agosto de 2018

A Arca, a Mulher e a Virgem Maria

Na Assunção de Nossa Senhora, celebrada neste hoje, a Igreja nos faz contemplar aquela estupenda visão do Apocalipse: “O Templo de Deus que está no céu se abriu, e apareceu no templo a Arca da Sua aliança”.

Eis aqui uma primeira imagem da Virgem Maria: Arca da Aliança. Não é invenção da Igreja não! O próprio Evangelho de Lucas faz esta leitura da Virgem como nova Arca da Aliança.
É só comparar 2Sm 6,1-15 com Lc 1,39-45:
(1) a Arca vai para Jerusalém, na região montanhosa de Judá; a Virgem vai à região montanhosa de Judá;
(2) Davi diz: “Como virá a Arca do meu Senhor para ficar na minha casa?”; Isabel diz: “Donde me vem que a Mãe do meu Senhor venha à minha casa?”;
(3) A Arca fica três meses na casa de Obed-Edom; Maria fica três meses na casa de Isabel.
Como a Arca trazia em si as tábuas da Antiga Aliança, a Virgem traz em si Aquele que é a Nova Aliança de Deus com o Seu Povo.
Neste sentido, a Arca era um sinal do amor perene do Senhor pelo Seu Povo, pela Sua Igreja. É isto também que é a Virgem Maria, enquanto Mãe Daquele que é a nossa Aliança.

A Mulher grávida, vestida de sol, pisando a lua e coroada com doze estrelas é, ao mesmo tempo, a Igreja e a Virgem Maria, Mãe do Messias: Maria é personificação e imagem da própria Igreja.
A Liturgia da Assunção contempla nesta Mulher (cf. Gn 3,15; Jo 2,4; 19,26) a própria Virgem Maria:
(1) vestida de Cristo, Sol de justiça, Nele glorificada;
(2) ela entra naquilo que é definitivo: pisa a lua, sinal da inconstância e mutabilidade da vida;
(3) coroada com doze estrelas, número do antigo e do novo Israel, que é a Igreja.
(4) Mas, sempre grávida, sempre exercendo sua função materna de gerar Cristo em nós pela sua oração maternal, como nova Arca da Aliança de Deus com o Seu Povo, que é a Igreja.
Na luta que atravessa a história, luta entre o Reino de Deus e o reino de Satanás, a Virgem Maria estará sempre presente, como consolo, força e intercessão materna!

Num mundo tão desafiador, nos embates da vida por vezes tão dramática, nas tantas marcas de escuridão e falta de esperança que nos rodeiam e ameaçam, olhemos para o Céu, onde está em corpo e alma a Virgem Santíssima: o que ela foi nós somos: peregrinos neste mundo; o que ela é nós seremos: totalmente glorificados na Glória de Cristo! 

Que a Virgem Maria assunta ao Céu seja para cada um de nós e para a inteira Igreja de Cristo, vivo e forte sinal de esperança, animando-nos e sustentando-nos no seguimento e no testemunho do Senhor nosso Jesus Cristo!

Assunta ao Céu, rogai por todos nós, que recorremos a vós!


sábado, 18 de agosto de 2018

Viver de fé

Crer,
empregar toda uma existência,
empenhar projetos, sonhos, ideais,
queimar, como holocausto, amores e afetos,
viver a vida em êxodo, saindo de si,
em direção ao Eterno,
em cujos braços se jogou...

Crer...
em Jesus, o Cristo de Deus,
o Enviado do Pai...

E em troca, o quê?
Como?
Quando?

Em troca,
a Vida, plena, de encher coração e ultrapassar todo desejo!

Deixando-se com Cristo, deixando-se em Cristo,
com Ele morrendo e com Ele e Nele vivendo,

já agora, na penumbra da fé,
e no Dia de Cristo, na Plenitude da Eternidade,
no Face a face da Glória!
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sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Homilia para a Solenidade da Assunção da Virgem Maria

Hoje celebramos a maior de todas as solenidades da Mãe de Deus: a sua Assunção gloriosa ao Céu.

A oração inicial da Missa hodierna pediu: “Deus eterno e todo-poderoso, que elevastes à glória do Céu em corpo e alma a imaculada Virgem Maria, Mãe do Vosso Filho, dai-nos viver atentos às coisas do Alto, a fim de participarmos da sua glória”.A Liturgia da Igreja, sempre tão sábia e tão sóbria, resumiu aqui o essencial desta solenidade santíssima.
Com efeito, Deus elevou à glória do Céu em corpo e alma a imaculada Virgem Maria! Ela, uma simples criatura, ela, tão pequena, tão humilde, foi eleva a Deus, ao Céu, à plenitude em todo o seu ser, corpo e alma!
Como isso é possível? Não é a morte o destino comum e final de tudo quanto vive? Isso dizem os pagãos, isso dizem os descrentes, os sábios segundo o mundo, aqueles que não têm esperança em Cristo Jesus, os que se conformam com a morte...
Mas, nós, nós sabemos que não é assim! Nosso destino é a Vida, nosso ponto final é a Glória no Coração de Deus: glória no corpo, glória na alma, glória em tudo que somos! Foi isso que Deus nos preparou por meio de Cristo Jesus, nosso Senhor – bendito seja Ele para sempre!

Mas, repetimos, insistimos: como isso é possível?
A Palavra de Deus deste hoje no-lo afirma, de modo admirável. Escutai, irmãos, escutai, irmãs, consolai-vos todos vós: “Cristo ressuscitou dos mortos, primícia dos que morreram. Em Cristo todos reviverão, cada qual segundo uma ordem determinada; em primeiro lugar Cristo, como primícia!”
Eis por que ressuscitaremos: porque Cristo ressuscitou! Eis como ressuscitaremos: como Cristo ressuscitou!
Jesus de Nazaré, feito humano como nós, caríssimos, imolado por nós e, por nossa causa, ressuscitado, agora é o Senhor!
O nosso Jesus é Deus bendito e foi ressuscitado pela Glória do Pai!
O nosso Senhor Jesus venceu e nos faz participantes da Sua vitória, dando-nos o Seu Espírito Santo!

Credes nisto, meus caros? Neste mundo que só crê no que vê, que só leva a sério o que toca, que só dá valor ao que cai no âmbito dos sentidos, credes que Cristo está vivo e é Senhor, primícia, princípio de todos os que morrem unidos a Ele?
Pois bem, escutai: o Cristo que ressuscitou, que venceu, concedeu plenamente a Sua vitória à Sua Mãe, à Santíssima Virgem Maria, que esteve sempre unida a Ele.
Ela, totalmente imaculada, nunca afastou-se do filho: nem na longa espera do parto, nem na pobreza de Belém, nem na fuga para o Egito, nem no período de exílio, nem na angústia de procurá-Lo no Templo, nem nos anos obscuros de Nazaré, nem nos tempos dolorosos da pregação do Reino, nem no desastre da Cruz, nem na solidão do sepulcro no Sábado Santo... Nem mesmo após, nos dias da Igreja, quando discretamente, ela permanecia em oração com os irmãos do Senhor... Sempre imaculada, sempre discípula perfeita, sempre perfeitamente unida ao Senhor! Assim, após a sua preciosa morte, ela foi elevada à glória do Céu, isto é, à glória de Cristo que ressuscitou e é primícia da nossa ressurreição!

A presente solenidade é, então, primeiramente, exaltação da glória do Cristo: Nele está a Vida e a ressurreição; Nele, a esperança de libertação definitiva! Por isso, todo aquele que crê em Jesus e é batizado no Seu Espírito Santo no sacramento do Batismo, morrerá com Cristo e com Cristo ressuscitará. Imediatamente após a morte, nossa alma será glorificada e estaremos para sempre com o Senhor. Quanto ao nosso corpo, será destruído e, no final dos tempos, quando Cristo nossa vida aparecer, será também ressuscitado em glória e unido à nossa alma. Será assim com todos nós.
Mas, não foi assim com a Virgem Maria! Aquela que não teve pecado também não foi tocada pela corrupção da morte! Imediatamente após a sua passagem para Deus, ela foi ressuscitada, glorificada em corpo e alma, foi elevada ao Céu! Podemos, portanto, exclamar como Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres! Bendito é o Fruto do teu ventre! Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu!” Inundada da Glória do Cristo Jesus, cumpre-se em Maria Virgem, de modo admirável, a palavra da Escritura Santa: “Fiel é esta palavra: se com Ele morremos, com Ele viveremos; se com Ele sofremos, com Ele reinaremos!” (2Tm 2,11)Quem mais plenamente morreu com Cristo naquela Cruz? Que mais perfeitamente sofreu com o Senhor naquela Paixão? Pedro, crucificado de cabeça para baixo? Paulo, decapitado? Lourenço, queimado vivo? Inácio de Antioquia, devorado pelas feras? Benditos todos esses e todos quantos morreram pelo Senhor! Mas, somente a Virgem sofreu com Ele como mãe: Mãe do Condenado, Mãe do Crucificado, Mãe do Homem de Dores, Mãe Daquele que pendeu na dura Cruz! A Ele perfeitamente unida na dor – Virgem das Dores na Paixão, Virgem da Piedade com o filho morto nos braços, Virgem da Soledade no tremendo Sábado Santo -, ela é, agora, Virgem da Glória, totalmente transfigurada na Glória do seu filho glorificado! A Palavra do Senhor não engana, não mente: “Se com Ele sofrermos, com Ele reinaremos; se com Ele morrermos, com Ele viveremos!”Reina com Ele a Virgem que com Ele sofreu! Vive com Ele a Mãe santíssima que com Ele morreu na sua maternidade naquele Calvário tremendo!

Esta é, portanto, a festa de plenitude de Nossa Senhora, a sua chegada a Glória, no seu destino pleno de criatura. Nela aparece claro a obra da salvação que Cristo realizou! Ela é aquela Mulher vestida do sol, que é Cristo, pisando a instabilidade deste mundo, representada pela lua inconstante, toda coroada de doze estrelas, número da Israel e da Igreja! A leitura do Apocalipse mostra-nos tudo isso; mas, termina afirmando: “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus e o poder do Seu Cristo!”Eis: a plenitude da Virgem é realização da obra de Cristo, da vitória de Cristo nela!

Caríssimos, quanto nos diz esta solenidade! A oração inicial, citada no início desta homilia, pedia a Deus: “Dai-nos viver atentos às coisas do Alto, a fim de participarmos da sua glória”.Eis aqui qual deve ser o nosso modo de viver: atentos às coisas do Alto, onde está Cristo, onde contemplamos a Virgem já totalmente glorificada em Cristo.
Caminhar neste mundo sem no prendermos a ele... Aqui somos estrangeiros, aqui estamos de passagem, aqui somos peregrinos; lá é que permaneceremos para sempre: nossa pátria é o Céu, onde está Cristo, nossa Vida!
O grande mal do mundo atual é entreter-se com suas malditas ideologias, com seu consumismo, com sua tecnologia, com seu bem-estar, com seu divertimento excessivo e esquecer de viver atento às coisas do Alto. Mas, pior ainda, os cristãos também muitas vezes são infectados por essa doença! Nós, que deveríamos ser as testemunhas do Mundo que há de vir, quantas vezes vivemos imersos, metidos somente nas ocupações deste mundo – muitos até com o pretexto de que estão trabalhando pelos irmãos e por uma sociedade melhor. Nada disso! Os pés devem estar na terra, mas o coração deve estar sempre voltado para o Alto! Não esqueçamos: nosso destino é o Céu, participando da Glória de Cristo, da qual a Virgem Maria já participa plenamente! Aí, sim, poderemos cantar com ela e como ela: “A minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito exulta em Deus meu Salvador: o poderoso fez em mim maravilhas!”Ele, que glorificou a Virgem Imaculada e haverá de nos glorificar, seja bendito agora e para sempre. Amém.