sábado, 23 de junho de 2018

Filhos de Deus, herdeiros da ressurreição


Um texto de Orígenes (185-243), sacerdote e um dos maiores teólogos do cristianismo dos inícios. Os espíritas e outros espiritualistas juram que Orígenes ensinava a reencarnação. Por este pequeno texto já dá para ver o engano... Pode ter certeza: Orígenes e a Igreja nunca, jamais, em tempo algum ensinaram esta doutrina, que é totalmente alheia ao cristianismo. Com a palavra, Orígenes de Alexandria

No Último Dia, a morte será vencida. A Ressurreição de Cristo, após o suplício da Cruz, contém misteriosamente a ressurreição de todo o corpo de Cristo. 

+++++
Observação minha:
Aqui há duas coisas importantes:
(1) O corpo com o qual Cristo ressuscita é aquele mesmo que sofreu, no dizer de Orígenes, o “suplício da Cruz”. Ou seja, não se trata de uma “ressurreição” fantasmagórica ou simplesmente “espiritual”! Se se perguntasse aos judeus do tempo de Cristo e do início do cristianismo o que era a ressurreição, eles diriam com clareza e simplicidade: após a morte, a alma fica num estado de bem-aventurança ou de tormento e, no Dia do Senhor, os corpos ressuscitarão e participarão do mesmo destino das almas: glória ou condenação. Para judeus e cristãos, o corpo dorme, a alma não! O corpo não será para sempre destruído, mas será ressuscitado no final dos tempos.
(2) Orígenes era cristão e, para um cristão, a ressurreição que os judeus esperavam é o próprio Cristo: na Ressurreição de Cristo nós ressuscitaremos! Porque Ele ressuscitou, nós venceremos a morte! Nossa ressurreição é participação na Ressurreição Dele, dar-se-á na força da Sua Ressurreição! Por isso, o Autor afirma que a Ressurreição de Cristo “contém misteriosamente a ressurreição de todo o corpo de Cristo”,  isto é, da Igreja, dos seus membros. Por isso mesmo, a Páscoa de Cristo é nossa salvação, é nossa festa, é nossa esperança!
+++++

Tal como o corpo visível de Cristo é crucificado, amortalhado e depois ressuscitado, assim o Corpo inteiro dos santos de Cristo é com Ele crucificado e já não vive em si mesmo.

+++++
Observação minha:
Veja, que esta é a fé católica e apostólica desde as origens: vivemos em Cristo já agora, vamos, no nosso dia-a-dia, morrendo e vivendo com Cristo nos apertos, alegrias, provas, vitórias, derrotas, tenteções e superações desta vida, até quando morreremos em Cristo um dia e, com Ele, ressuscitaremos no Último Dia!
+++++

Mas, quando chegar a hora da ressurreição do verdadeiro corpo de Cristo, do seu corpo total, então os membros de Cristo, hoje semelhantes a ossos secos, juntar-se-ão, articulação com articulação (Ez 37,1s), cada um encontrando o seu lugar e “todos juntos constituirão um homem perfeito à medida da plenitude do corpo de Cristo” (Ef 4,13).
Então a multidão de membros será um corpo, pois todos pertencem ao mesmo corpo (Rm 12,4).

+++++
Observação minha:
Quando chegará a “hora” da ressurreição do verdadeiro corpo de Cristo? No Dia de Cristo, no final de tudo!
Agora, cada ser humano que morre no Senhor, tem sua alma transfigurada na Glória de Cristo imediatamente depois da morte, passando pela purgação de suas faltas,  se disso tiver necessidade. A não ser que, tendo vivido fechado para Cristo, O perca por toda a eternidade...
Mas, no Dia do Senhor, todos ressuscitarão em seus corpos, para a Vida plena de Cristo ou para a perdição eterna. Aí, então, todo o corpo de Cristo, que é a Igreja, estará pleno, porque plenamente glorificado no Espírito de Glória do próprio Cristo glorioso.
Esta é a nossa fé, a fé católica e apostólica, sem tirar nem pôr!


sexta-feira, 22 de junho de 2018

Homilia para a Solenidade da Natividade de São João Batista

Is 49,1-6
Sl 138
At 13,22-26
Lc 1,57-66.80

Além da Virgem Maria Mãe de Deus, Nossa Senhora, de nenhum outro santo a Igreja celebra o nascimento, a não ser São João, chamado Batista, Batizador. Dele, Jesus fez o maior elogio jamais feito pelo Salvador a alguém: “Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior que João, o Batista” (Mt 11,11).Por isso, caríssimos, a hodierna solenidade!

Que lições, que meditações, que exemplos poderíamos colher nesta Festa, tendo escutado a Palavra que nos foi anunciada? Sugiro-vos três, que alimentem o coração, afervorem o desejo de colocar-se ao serviço do Senhor e nos conduzam à herança eterna.

Primeiro. A primeira leitura da Liturgia nos fez escutar a profecia de Isaías, colocando as palavras do profeta na boca de João Batista: “O Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe Ele tinha na mente o meu nome... fez de mim uma flecha aguçada e disse-me ‘Tu és Meu servo, em quem serei glorificado’”E o salmo responsorial fez ecoa tão bela ideia: “Senhor, Vós me sondais e conheceis. Fostes Vós que me formastes as entranhas/ e no seio de minha mãe Vós me tecestes./ Até o mais íntimo me conheceis;/ nenhuma sequer de minhas fibras ignoráveis,/ quando eu era modelado ocultamente,/ era formado nas entranhas subterrâneas!”O que aparece aqui, caríssimos em Cristo, é que viemos a este mundo não por acaso, não sem um propósito. Somos todos fruto de um sonho de Deus, fomos todos misteriosamente chamados à vida: o Senhor pensou em nós, nos chamou, nos plasmou – e aqui estamos! O nascimento que hoje celebramos, do filho de Zacarias e Isabel, foi fruto do desígnio amoroso do Pai, que pelo Filho Jesus e para o Filho Jesus, na força do Espírito Santo, plasmou João. Por isso seu nome é tão verdadeiro: “Iohanah”, em hebraico: Deus dá a graça! Ele mesmo, João, já é uma graça de Deus para seus pais e para todos os que esperavam a salvação de Israel.

Hoje, quando um mundo insensível e descrente já não reconhece que a vida é um mistério de amor, é um chamado de Deus, quantos são abortados, quantos deixados de modo indigno e imoral no frio congelamento dos laboratórios de procriação artificial: lá esquecidos, lá manipulados em inaceitáveis experiências pseudocientíficas! Nós, caríssimos, que ouvimos a Palavra santa de Deus; nós, que nos alegramos com este nascimento, nunca esqueçamos: toda vida humana é sagrada do primeiro ao último instante do nosso caminho terreno. É imoral, perverso e desumano um governo que reduz a questão do aborto a problema de “política pública”. Um dia esses senhores irão prestar contas a Deus. Será mesmo que Deus aceitará este argumento, que não passa de disfarce para matar? É imoral, em nome do lucro, aviltar seres humanos, jogando-os na pobreza, é imoral lucrar com a guerra, com o tráfico de drogas, com a prostituição, com a imoralidade, é imoral tudo quanto fere a dignidade da vida humana! Que o Senhor nos ajude a defender a vida, a gritar por ela! Que o Senhor também nos dê a sabedoria para descobrir e experimentar que a nossa vida – por quanto pobre e pequena – também e preciosa! Que hoje eu me pergunte: Qual o propósito da minha existência? Já o descobri? Já me conformei a ele? Vosso sou, Senhor, de Vós nasci e para Vós nasci! Que quereis fazer de mim?

Segundo. Ainda que a vida nossa seja fruto do amor do Senhor, isso não significa facilidades. João deveria preparar o caminho do Messias, do Cristo de Deus. E isto iria custar-lhe: “Eu disse: ‘Trabalhei em vão, gastei minhas forças sem fruto, inutilmente; entretanto o Senhor me fará justiça e o meu Deus me dará recompensa’”O grande desafio da nossa vida de crentes é viver na presença de Deus, é ser fiel à Sua santa vontade e à missão que Ele nos confiou. Ser fiel à missão custou a João: a dureza do deserto, as incompreensões dos inimigos, a trama de Herodíades, a dificuldade de perceber a vontade Deus (basta recordar João perguntando a Jesus: “És Tu aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?”- Mt 11,3) e, finalmente, o aparente abandono, o aparente absurdo do silêncio de Deus, na solidão e na morte naquele cárcere. O que manteve João fiel até o fim? A confiança no Senhor, a capacidade de deixar-se guiar por Deus, sem querer ele mesmo controlar sua vida! Grande João! Fiel João! Pobre de Deus, João! Que exemplo para nós, tanta vez tentados a fazer da vida o que bem queremos, como se nascêssemos de nós mesmos e vivêssemos para nós mesmos! “Quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor! (Rm 14,8)”

Terceiro. Certa vez São Paulo escreveu: “Nenhum de nós vive para si...” (Rm 14,7)Desde o ventre materno, o Senhor chamou João para ser o que prepara o caminho, o que vem antes, o “pré-cursor” Toda a sua existência foi “precursar”! No terceiro evangelho isso aparece de modo comovente: anuncia-se o nascimento de João e depois o de Jesus; narra-se a natividade de João e a seguir a do Messias; apresenta-se o ministério de João e, após sua prisão, o do Salvador; finalmente, narra-se a morte de João, prenúncio da morte do nosso Senhor! Eis! Não é fácil não viver para si, não é fácil deixar que Outro seja o centro! E, no entanto, como diz a segunda leitura, “João declarou: ‘Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Depois de mim vem Aquele, do qual nem mereço desamarrar as sandálias’”; “É necessário que Ele cresça e eu diminua!”Santo profeta João Batista: sendo humilde, foi o maior dos nascidos de mulher; sendo totalmente preso à sua missão de modo fiel e constante, foi livre de verdade; sendo todo esquecido de si e lembrado de Deus, foi maduro e feliz! Por isso mesmo, seu nome foi verdadeiro e traduziu perfeitamente seu ser e sua missão: João, Iohanah: Deus dá a graça. E a graça que, para seus pais, foi João no seu nascimento, na verdade era outra graça: a graça que Deus dá é Jesus, o Messias; graça que João anunciou com seu nascimento, com sua vida, com sua pregação e com sua morte!

Que este grande profeta, o maior do Antigo Testamento, do Céu interceda por nós, nascidos do Novo Testamento e, por isso, maiores que João, o Grande Precursor! Amém.

Na tradição oriental,
João é o anjo da aliança (cf. Ml 3,1)

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Esclarecimentos sobre o Sacrifício eucarístico

Algumas vezes, na internet, tenho encontrado figurações da Santa Missa nas quais o sacerdote segura a hóstia e, do outro lado, o próprio Cristo também a segura. A intenção é exprimir a fé católica, segundo a qual a Celebração eucarística é memorial do mesmíssimo sacrifício de Cristo.

Esta imagem não exprime a fé católica
sobre a Eucaristia.

Mas, aí há um problema gravíssimo: o Cristo apresentado nessas montagens aparece flagelado, como esteve nas dores do Calvário. Ora, isto de modo algum exprime a fé católica; antes, é um grave erro, que contraria a reta doutrina da Igreja sobre o Sacrifício da Missa! Explicarei isto em algumas proposições:

1. Cristo, nosso Salvador e Senhor, ofereceu-Se ao Pai “num Espírito eterno” (Hb 9,14)como sacrifício único, irrepetível e perfeito na cruz uma vez por todas. Seu sacrifício é totalmente suficiente para a salvação do mundo.

2. Este sacrifício, o Pai o acolheu no Espírito Santo (cf. Hb 9,14). Que significa isto? Toda a obra salvífica de Cristo Jesus, que culminou com Sua santa Paixão, Sua piedosa Morte e Sepultura e Sua gloriosa Ressurreição, agora encontra-se na Glória do Pai: Jesus está e estará para sempre ao mesmo tempo imolado e glorificado pela ação do Espírito Santo do Pai intercedendo por nós. Isto aparece no Novo Testamento ao menos em três imagens:

(a) Todas as vezes que os evangelhos narram os encontros do Ressuscitado com os discípulos, evitam descrever o corpo glorioso do Senhor, que já não pode ser descrito. No entanto, há um sinal que O identifica: as chagas, agora gloriosas! Tais chagas que não saram, que não se fecharão jamais, indicam que o Cristo vivo e glorioso continuará para sempre Vítima pascal, eternizado na Sua imolação pelo mundo inteiro. Agora na Eternidade de Deus, onde não há tempo, onde todo o tempo tem sua origem, no Eterno, Ele será para sempre o Imolado que é Ressuscitado e o Ressuscitado em estado de gloriosa imolação!

(b) A Epístola aos Hebreus afirma claramente que o Ressuscitado “entrou uma vez por todas no Santuário... com o próprio sangue, obtendo uma redenção eterna” (Hb 9,12). Eis a ideia: Cristo, na Sua humanidade imolada e gloriosa, eternamente nos Céus, na Eternidade, no próprio seio bendito e inefável da Trindade, oferece ao Pai o Seu sangue, isto é, o Seu sacrifício, a Sua vida, só que agora num estado glorioso; trata-se de uma imolação gloriosa!

(c) O Apocalipse apresenta a sugestiva e profunda imagem do Cordeiro de pé como que imolado diante do Trono do Pai (cf. 5,6): trata-se do Cristo ressuscitado, vencedor, mas eternamente num estado daquela imolação ocorrida no Calvário, mas, agora, de modo absolutamente glorioso!

Conclusão impressionante e maravilhosa: o sacrifício de Cristo não está no passado, congelado no tempo; o sacrifício de Cristo, por obra do Espírito Santo, está eternamente novo, presente a todos os tempos e lugares, perene e salvífico, na Glória do Pai: no Eterno de Deus, ele atinge todos os tempos em todos os altares onde é liturgicamente celebrado!

É o Cristo vivo, na Sua imolação gloriosa,
Quem Se oferece continuamente na Eucaristia.

3. O sacrifício glorioso de Cristo, tal como agora se encontra na Glória, torna-se realmente presente sobre nossos altares em cada Eucaristia, único, eterno, eficaz, irrepetível, santo. Em outras palavras: o Cristo eucarístico não é o Cristo no estado cruento e doloroso em que Se encontrava no Calvário, mas o Cristo vítima gloriosa como Se encontra nos Céus, com Sua humanidade que foi sacrificada totalmente gloriosa por obra do Espírito com o qual o Pai o plenificou na Sua Ressurreição!

O Sacrifício da missa não é simples e direta atualização do doloroso Sacrifício do Senhor ocorrido há séculos atrás, mas a real “presentificação”, e o verdadeiro tornar-se ato entre nós (= atualização) do sacrifício ocorrido há séculos atrás e agora, atualmente e para sempre, Sacrifício glorioso nos Céus. Assim, que deve ficar claro o seguinte: no sacrifício da Missa, não é propriamente o passado que se faz presente, mas os Céus que descem à terra sobre o altar!
É verdade que é o mesmíssimo Sacrifício ocorrido há vinte e um séculos que é celebrado, mas não nas condições cruentas daquela época: é celebrado agora no estado glorioso e perpétuo (incruento) em que se encontra nos Céus. Daí a liturgia exclamar: “Imolado, já não morre; morto, vive eternamente!” Daí também o costume antigo de se usar na liturgia da Missa símbolos e gestos do Apocalipse, onde se descreve de modo cheio de figuras belíssimas e sugestivas a adoração ao Cristo que Se oferta gloriosamente ao Pai como Cordeiro de pé e imolado!

Se prestarmos bem atenção nestas explicações fica claro o erro de se representar o Cristo flagelado e em dores como se a Missa fosse Seu sacrifício cruento! O Concílio de Trento é claro a este respeito: “Neste divino Sacrifício, que se consuma na Missa, está presente e Se imola de modo incruento Aquele mesmo Cristo que Se imolou uma só vez e de modo cruento no altar da Cruz... Uma só e mesma é a Vítima: e Aquele que agora Se imola pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que um dia Se imolou na Cruz, sendo diferente só o modo de oferecer”.

Fica patente também como é possível que o Sacrifício de Cristo seja oferecido uma vez por todas, sem repetição e, ao mesmo tempo, a Missa seja real e verdadeiro Sacrifício de Cristo: é o Sacrifício em estado glorioso que se torna presente no altar para que nós, na terra, participemos já das coisas dos Céus e entremos em comunhão com o santo Sacrifício único, perfeito, suficiente e eterno, que é propiciação pelos nossos pecados e salvação para o mundo inteiro.

Fica claro também o quanto erram e se enganam nossos irmãos protestantes quando negam que a Missa seja real e verdadeiramente o mesmíssimo Sacrifício do Senhor nosso Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote e Vítima perfeita pelos nossos pecados. Para eles, afirmar que a Missa é o Sacrifício de Cristo seria negar o valor suficiente do único Sacrifício da Cruz. Ora, os católicos nunca negaram esse valor suficiente e eterno! Apenas, afirmam, seguindo a Escritura e a constante Tradição apostólica, que este Sacrifício não passou, não caducou no passado, mas eficaz encontra-se no Eterno de Deus e, atuante na Glória, torna-se realmente presente em todos os nossos altares para que todas as gerações de cristãos possam participar realmente, nos ritos litúrgicos, da Páscoa salvadora do Senhor nosso que prometeu que estaria conosco para sempre!

"Sacrifício do Vosso agrado
e salvação do mundo inteiro".


quarta-feira, 20 de junho de 2018

São Luís Gonzaga: mesmo morto, ainda fala pelo exemplo

Neste dia 21, a Igreja celebra a memória litúrgica de São Luís Gonzaga, padroeiro dos seminaristas.

Sua biografia é conhecida: de família nobre, dos duques de Mântua, ainda jovem, deixou tudo por amor de Cristo e ingressou na Companhia de Jesus. Destacou-se pela profunda pureza de coração e de corpo, sendo exemplo de castidade. Enquanto estudava em Roma, compadecido dos que sofriam com o epidemia de tifo, de tal modo dedicou-se a socorrê-los que veio a contrair a doença, falecendo aos 23 anos de idade, sem ter chegado ao sacerdócio.

Pensando no belo exemplo deste santo, gostaria de chamar atenção de três realidades, sobretudo aos seminaristas que me leem:

1. Luís Gonzaga foi um apaixonado por Cristo Jesus. Seu amor ao Senhor não foi teórico ou sentimental. Nada disso! Amor puramente sentimental não é amor, é egoísmo meloso, é ilusão flor-de-laranja e pronto! Luís amou ao Senhor de verdade e, porque amou, soube renunciar, soube dar, soube perder. Sendo nobre, rico, poderoso, de prestígio, desde jovenzinho tudo considerou perda, tudo reputou lixo para ganhar a Cristo! Seu pai tentou seduzi-lo com o mundo, com as curtições e coisas boas da vida... Nada! Para Luís, viver era Cristo e, por Cristo, tudo deixou!

Você, seminarista, que deseja ser padre, nunca esqueça: não poderá ser padre de verdade sem um profundo amor pelo Senhor, um amor concreto, no concreto da vida, capaz de renunciar por Ele, de por Ele deixar o que atrapalha a ser Dele! Nunca esqueça, meu irmão mais novo: é impossível amar sem renunciar pelo Amado, sem por Ele perder, sem a Ele se amoldar! Renunciar e perder pequenas e grandes realidades, coisas em si mesmas boas e bonitas, que fazem o coração feliz, mas que, diante do chamado do Senhor, diante da pérola de grande valor, perdem o brilho e devem ser deixadas para trás...

2. Luís cultivou ardentemente a pureza. Ser puro não é somente ser casto corporalmente. A pureza é, primeira e fundamentalmente, retidão de consciência. O puro é aquele que nunca usa ninguém de modo algum, nunca faz joguinhos, nunca se aproxima dos outros por interesse. O puro é simples, reto, límpido na sua consciência, no seu falar e no seu agir. Essa pureza quando toca a sexualidade chama-se castidade. Luís foi modelo límpido de jovem casto. A virtude cristã da castidade é a vivência do sexo segundo os preceitos do Senhor. Pode-se ser casto sendo casado ou sendo solteiro. Aquele que deseja viver solteiro, no celibato, pelo amor do Senhor Jesus, para ser a Ele configurado na ordenação sacerdotal, cuide de alimentar e preservar lealmente sua castidade. Fuja lealmente de situações, conversas, diversões, companhias e pensamentos que coloquem em perigo sua intenção de ser casto e sua vida de castidade. A castidade é virtude cristã e o pecado contra a castidade, quando não combatido, é grave, pois cria uma espessa nuvem no coração, de modo a tirar a limpidez do nosso olhar e afeto em relação a Cristo e ao próximo.

Seminarista, seja lealmente casto, cultive valorosamente sua castidade, afaste-se daqueles e daquilo que possam enfraquecer ou macular sua reta intenção de uma vida realmente casta!

3. Luís Gonzaga, porque enamorado do Cristo, descobriu Cristo nos outros: fez-se tudo para todos, procurou socorrer os doentes de tifo, esteve junto deles, amou-os em Cristo, a ponto de contrair o tifo também ele. Que força, o amor a Cristo e a pureza deram a esse jovem santo!

Seminarista, que seu amor a Jesus frutifique no amor aos outros, sobretudo aos pobres de todas as pobrezas, aos necessitados de todas as necessidades! Nunca esqueça: o ministério sacerdotal é serviço aos irmãos por amor de Cristo. Não se é padre para si, para sua glória, por sua própria vontade, prestígio ou autoafirmação, mas para a glória de Cristo e a salvação do mundo.

Por tudo isto, sirva-nos o exemplo de São Luís Gonzaga. Sua intercessão faça nossos seminaristas homens de verdade, cristãos fervorosos e missionários incansáveis! Amém.


Deus: uma Luz tão intensa que nos cega

Na Escritura Santa, o Eclesiástico, falando da relação do Senhor Deus com Moisés, diz assim:

“Na fidelidade e doçura Ele o santificou,
Escolheu-o entre todos os viventes;
Fê-lo ouvir a Sua voz
E o introduziu nas trevas” (Eclo 45,4-5).

Estranhas e belas, estas palavras... Elas exprimem muito bem o modo de agir de Deus com os Seus amigos, com os místicos de todos os tempos...
Por um lado, o Senhor educa Seus amigos; vai, pouco a pouco, conduzindo-os com fidelidade e doçura, atraindo-os a Si, santificando-os, isto é, fazendo-os entrar na Sua Vida bendita, na Sua insondável intimidade, que mais parece um imenso mar sem confins, na Sua santidade bem-aventurada.
Interiormente, de modos inexplicáveis, o Senhor vai falando aos Seus, vai educando-os, vai entabulando com eles um verdadeiro diálogo de amizade e amor, numa doçura que parece aquela de uma suave e reconfortante brisa...
Mas, por outro lado, vai introduzindo-os nas trevas. Isto mesmo! Quanto mais Deus Se aproxima de alguém, mas faz o fiel perceber o quanto Ele, o Eterno, está para além de tudo, o quanto não pode ser abarcado, compreendido, domesticado! O pobre peregrino na fé, enamorado do Deus tremendo, do Santo, faz, então, a terrível experiência de um Deus que de todos os modos e por todos os lados nos ultrapassa, transbordando em plenitude infinita de Ser, de Sabedoria, de Eternidade... O crente vai experimentando sem experimentar e sabendo sem nada saber que o Deus que o atraiu, que o chamou a Si é inatingível e incompreensível, é de uma distância tão íntima e, ao mesmo tempo, de uma intimidade tão distante, tão inalcançável... Ele ouve a voz do Senhor no silêncio tremendo que povoa sua alma, sua sensibilidade, seu entendimento e tudo quanto ele possa imaginar... É tremendo cair nas mãos do Deus vivo!
E, então, cresce a saudade medonha naquele que foi conquistado pelos carinhos do Senhor e, por outro lado, aumenta mais e mais a consciência da distância: Deus é Grande demais, Santo demais, Incompreensível demais, Luminoso demais para caber nas nossas pobres medidas!
Que resta ao fiel? Abandonar-se, entregar-se, com total pobreza interior, com doce confiança naquele misterioso Amigo que Se revela escondendo-Se. Ele é uma Luz tão intensa que nos cega! Por isso dizia São João da Cruz: “Deus, para nós, nesta vida, é nem mais nem menos que noite escura!”
De noite, mesmo de noite, não nos cansemos de buscar a Fonte! Deixemo-nos guiar por nossa sede, sede inscrita, cravada em cada fibra do nosso ser de criaturas... Sede como a da corça que procura o riacho... Que assim nossa alma procure o Senhor!
Ó Senhor, Luz tenebrosa e Escuridão luminosa, preenche meu desejo com Tua luz, Tua doçura e Tua paz! Recolhe em Ti todos os meus desejos e sacia de Ti todas as minhas sedes!


Uma guerra surda: cristianismo x iluminismo ateu

Há uma guerra surda sendo travada, no Brasil e no mundo ocidental, entre os crentes e os herdeiros do iluminismo ateu e anticristão, nascido a partir do século XVIII.
A sociedade ocidental, século após século, foi sendo plasmada em grande parte pelo cristianismo: suas leis, suas expressões culturais, sua sensibilidade, tudo tem a marca dos discípulos de Cristo... O Ocidente foi parido pelo cristianismo. Agora, com a descristianização generalizada, os bem-pensantes iluministas querem criar um novo ordenamento, totalmente alheio e até contrário à cultura cristã. Querem também que os cristãos aceitem isto sem reagir... Se o Internauta quiser um exemplo, basta ler as revistas semanais brasileiras e os jornais de maior circulação no País, basta ver o que circula na internet... O argumento deles é o seguinte: a sociedade hoje é pluralista, o estado é laico, sem vínculo com qualquer religião; logo, a Igreja e os cristãos, de modo geral, não têm nada a dizer sobre as questões da atualidade: aborto, manipulação genética, uso de embriões humanos em experiências para adquirir células-tronco, união civil dos homossexuais, eutanásia, legalização da maconha... Nada disto compete aos cristãos. Aqui, cada um deve seguir sua consciência, sem querer impor ao conjunto da sociedade sua visão. Religião é questão privada, é questão de opinião e não deve ter nenhum influxo na construção do ordenamento social.

Aparentemente, o raciocínio dessa gente parece certo: cada um siga a sua consciência e pronto! Mas, aqui, há alguns pontos que precisam ser esclarecidos:

(1) É verdade que o estado é laico e, enquanto tal, não deve professar ou favorecer religião alguma. Mas também é verdade que o estado está a serviço do povo, deve respeitar e tutelar os valores do povo e o povo brasileiro é cristão, na sua grande maioria e na sua matriz cultural. O estado brasileiro não pode ser anticristão, não pode ignorar o cristianismo, não pode tratá-lo com desdém. Se o fizer, deve ser desautorizado e reformado pelo povo! O estado não é Deus e não está acima do bem e do mal! Então, quando se propõe arrancar o crucifixo do Supremo Tribunal Federal, se está agredindo a grande maioria do povo brasileiro: hoje arranca-se o crucifixo para amanhã se arrancar os valores cristãos que guiam nossa sociedade.

(2) É bobagem pensar que existam valores soltos, neutros e imparciais. Na verdade, o que os neoiluministas desejam é impor seus valores: valores laicistas, que apregoam a destruição da família e a adoção de uma ética ateia para decidir sobre o conceito de família, aborto, pesquisa genética, eutanásia, assassinato de embriões anencéfalos, etc. Note-se bem: não há uma ética neutra! Querem fazer o povo brasileiro engolir uma ética pagã, fundamentada numa razão meramente utilitarista e individualista.

(3) Os cristãos têm todo direito de gritar e defender seus valores. Se a sociedade é democrática e pluralista e a Igreja e outras denominações cristãs são membros dessa sociedade, têm direito sim de fazer pressão. É interessante: quando as minorias fazem barulho, todos elogiam; quando os cristãos o fazem, a turma iluminista reclama e mete o pau na Igreja católica (que é a bruxa velha) e nos outros cristãos! A Igreja deve gritar, deve organizar os que creem, deve se articular com as demais denominações cristãs e com as pessoas de boa vontade para defender que nossas leis exprimam valores cristãos. Todos devem ser respeitados, mas temos o direito de lutar por nossas ideias. 

(4) Isso não significa querer impor aos outros nosso modo de pensar. A questão é que uma sociedade permissiva, com leis em contradição com uma cultura cristã, marca toda a sociedade, marca as famílias, marca as escolas, marca nossos jovens e crianças. Temos o direito de lutar para defendê-los! Basta pensar no que uma ideia pagã de matrimônio e família, veiculada pelos meios de comunicação, tem gerado no Brasil: o conceito de família tem sido totalmente destruído na nossa cultura brasileira. Como seria interessante escutar os filhos de descasados e recasados, os filhos de mães solteiras e adolescentes, para vermos de perto o resultado desastroso de tudo isso! O que será dos jovens daqui a cinquenta anos, formados em famílias totalmente alheia a valores sólidos?

As coisas, como estão, encaminham-se para uma contraposição forte. Estamos chegando num ponto de fusão, no qual os cristãos terão de dizer claramente “basta”! É preciso perguntar se é correto promover a desconstrução do Ocidente como se está fazendo... O estado laico é uma conquista que deve ser mantida; a separação entre religião e governo é uma realidade sadia. O problema é quando grupos poderosos – os senhores dos meios de comunicação, por exemplo – fazem uma campanha bem orquestrada para arrancar as marcas cristãs de nossa cultura, transformando o estado laico em estado laicista, que desconsidera e despreza a dimensão religiosa do homem, reduzindo-a, quando muito, a experiência subjetiva e privada. Aí é necessário dizer “basta”, é necessário gritar, pressionar e mostrar que os cristãos não estão dormindo.

Devemos caminhar para a elaboração de uma ética civil, isto é, critérios éticos, fundamentados no princípio de respeito profundo pelos valores humanos mais nobres, que possam, de modo geral, ser por todos compartilhados. Todos – crentes ou não, cristãos ou não-cristãos – têm algo a dizer e têm em que colaborar. Sem diálogo cidadão, sem escuta recíproca, desarmada, leal, não se pode construir um país no qual todos sejam efetivamente cidadãos... Mas, não se pode esquecer que este país chamado Brasil ainda é majoritariamente cristão e católico e pelo cristianismo foi forjado. Não se pode esquecer de nossas raízes culturais e dos valores que plasmaram nossa sociedade. Não se pode aceitar a ditadura intelectual de uma prepotente minoria “iluminada” por uma razão ateia querendo simplesmente impor seus contra-valores disfarçados de tolerância... Uma guerra ideológica não faria bem a ninguém, pois provocaria somente exacerbações, extremismos e exageros... E isto é o que menos precisamos para o Brasil do nosso tempo...


segunda-feira, 18 de junho de 2018

O que move?!

Fizeram-me, hoje, esta pergunta:
"O que move a humanidade: Deus ou o homem?
A Igreja fala algo sobre isso?"

Dei esta resposta:
A Providência amorosa do Senhor Deus e, ao mesmo tempo, a liberdade humana.
Ao mesmo tempo, em sinergia, Providência e liberdade,
Deus e o homem; ao mesmo tempo,
mas não no mesmo nível...

A humanidade e cada ser humano são realmente livres:
suas escolhas, decisões e ações são reais, têm consistência e consequências;
mas, por trás de tudo, por trás das escolhas dos homens,
dos caminhos dos filhos de Adão,
misteriosamente,
está o Misterioso,
cheio de amor providente,
cheio de zelo amoroso...

E, discretamente, vai guiando tudo segundo o Seu desígnio,
fazendo escrita certa,
que leva direto ao Seu plano de nos salvar,
apesar das linhas tortas da nossa vida.

Quem crê percebe isto:
essa Mão, essa Providência, essa Presença misteriosa,
por trás de tudo,
mesmo quando dói,
quando machuca,
quando não compreendemos
e julgamos absurdo.

Quem não crê
vê somente à medida da própria razão humana:
vê a casca,
enxerga a superfície,
só divisa um monte de coincidências,
um acaso onipotente e onipresente,
nada mais que isso...
E a vida, então, para esse, torna-se fruto de um joguete de mau gosto,
que zomba da nossa liberdade,
humilha nossos projetos,
frustra nossos esforços,
ridiculariza nossa vida
e nos massacra na hora da morte...
Tudo sem sentido, tudo vazio, tudo mortal...

Com Deus, ao invés, tudo ganha sentido!
Sem Ele tudo termina sendo, no fundo, um triste absurdo,
um não-sentido, um correr atrás de nada,
uma paixão inútil...