quarta-feira, 20 de junho de 2018

São Luís Gonzaga: mesmo morto, ainda fala pelo exemplo

Neste dia 21, a Igreja celebra a memória litúrgica de São Luís Gonzaga, padroeiro dos seminaristas.

Sua biografia é conhecida: de família nobre, dos duques de Mântua, ainda jovem, deixou tudo por amor de Cristo e ingressou na Companhia de Jesus. Destacou-se pela profunda pureza de coração e de corpo, sendo exemplo de castidade. Enquanto estudava em Roma, compadecido dos que sofriam com o epidemia de tifo, de tal modo dedicou-se a socorrê-los que veio a contrair a doença, falecendo aos 23 anos de idade, sem ter chegado ao sacerdócio.

Pensando no belo exemplo deste santo, gostaria de chamar atenção de três realidades, sobretudo aos seminaristas que me leem:

1. Luís Gonzaga foi um apaixonado por Cristo Jesus. Seu amor ao Senhor não foi teórico ou sentimental. Nada disso! Amor puramente sentimental não é amor, é egoísmo meloso, é ilusão flor-de-laranja e pronto! Luís amou ao Senhor de verdade e, porque amou, soube renunciar, soube dar, soube perder. Sendo nobre, rico, poderoso, de prestígio, desde jovenzinho tudo considerou perda, tudo reputou lixo para ganhar a Cristo! Seu pai tentou seduzi-lo com o mundo, com as curtições e coisas boas da vida... Nada! Para Luís, viver era Cristo e, por Cristo, tudo deixou!

Você, seminarista, que deseja ser padre, nunca esqueça: não poderá ser padre de verdade sem um profundo amor pelo Senhor, um amor concreto, no concreto da vida, capaz de renunciar por Ele, de por Ele deixar o que atrapalha a ser Dele! Nunca esqueça, meu irmão mais novo: é impossível amar sem renunciar pelo Amado, sem por Ele perder, sem a Ele se amoldar! Renunciar e perder pequenas e grandes realidades, coisas em si mesmas boas e bonitas, que fazem o coração feliz, mas que, diante do chamado do Senhor, diante da pérola de grande valor, perdem o brilho e devem ser deixadas para trás...

2. Luís cultivou ardentemente a pureza. Ser puro não é somente ser casto corporalmente. A pureza é, primeira e fundamentalmente, retidão de consciência. O puro é aquele que nunca usa ninguém de modo algum, nunca faz joguinhos, nunca se aproxima dos outros por interesse. O puro é simples, reto, límpido na sua consciência, no seu falar e no seu agir. Essa pureza quando toca a sexualidade chama-se castidade. Luís foi modelo límpido de jovem casto. A virtude cristã da castidade é a vivência do sexo segundo os preceitos do Senhor. Pode-se ser casto sendo casado ou sendo solteiro. Aquele que deseja viver solteiro, no celibato, pelo amor do Senhor Jesus, para ser a Ele configurado na ordenação sacerdotal, cuide de alimentar e preservar lealmente sua castidade. Fuja lealmente de situações, conversas, diversões, companhias e pensamentos que coloquem em perigo sua intenção de ser casto e sua vida de castidade. A castidade é virtude cristã e o pecado contra a castidade, quando não combatido, é grave, pois cria uma espessa nuvem no coração, de modo a tirar a limpidez do nosso olhar e afeto em relação a Cristo e ao próximo.

Seminarista, seja lealmente casto, cultive valorosamente sua castidade, afaste-se daqueles e daquilo que possam enfraquecer ou macular sua reta intenção de uma vida realmente casta!

3. Luís Gonzaga, porque enamorado do Cristo, descobriu Cristo nos outros: fez-se tudo para todos, procurou socorrer os doentes de tifo, esteve junto deles, amou-os em Cristo, a ponto de contrair o tifo também ele. Que força, o amor a Cristo e a pureza deram a esse jovem santo!

Seminarista, que seu amor a Jesus frutifique no amor aos outros, sobretudo aos pobres de todas as pobrezas, aos necessitados de todas as necessidades! Nunca esqueça: o ministério sacerdotal é serviço aos irmãos por amor de Cristo. Não se é padre para si, para sua glória, por sua própria vontade, prestígio ou autoafirmação, mas para a glória de Cristo e a salvação do mundo.

Por tudo isto, sirva-nos o exemplo de São Luís Gonzaga. Sua intercessão faça nossos seminaristas homens de verdade, cristãos fervorosos e missionários incansáveis! Amém.


Deus: uma Luz tão intensa que nos cega

Na Escritura Santa, o Eclesiástico, falando da relação do Senhor Deus com Moisés, diz assim:

“Na fidelidade e doçura Ele o santificou,
Escolheu-o entre todos os viventes;
Fê-lo ouvir a Sua voz
E o introduziu nas trevas” (Eclo 45,4-5).

Estranhas e belas, estas palavras... Elas exprimem muito bem o modo de agir de Deus com os Seus amigos, com os místicos de todos os tempos...
Por um lado, o Senhor educa Seus amigos; vai, pouco a pouco, conduzindo-os com fidelidade e doçura, atraindo-os a Si, santificando-os, isto é, fazendo-os entrar na Sua Vida bendita, na Sua insondável intimidade, que mais parece um imenso mar sem confins, na Sua santidade bem-aventurada.
Interiormente, de modos inexplicáveis, o Senhor vai falando aos Seus, vai educando-os, vai entabulando com eles um verdadeiro diálogo de amizade e amor, numa doçura que parece aquela de uma suave e reconfortante brisa...
Mas, por outro lado, vai introduzindo-os nas trevas. Isto mesmo! Quanto mais Deus Se aproxima de alguém, mas faz o fiel perceber o quanto Ele, o Eterno, está para além de tudo, o quanto não pode ser abarcado, compreendido, domesticado! O pobre peregrino na fé, enamorado do Deus tremendo, do Santo, faz, então, a terrível experiência de um Deus que de todos os modos e por todos os lados nos ultrapassa, transbordando em plenitude infinita de Ser, de Sabedoria, de Eternidade... O crente vai experimentando sem experimentar e sabendo sem nada saber que o Deus que o atraiu, que o chamou a Si é inatingível e incompreensível, é de uma distância tão íntima e, ao mesmo tempo, de uma intimidade tão distante, tão inalcançável... Ele ouve a voz do Senhor no silêncio tremendo que povoa sua alma, sua sensibilidade, seu entendimento e tudo quanto ele possa imaginar... É tremendo cair nas mãos do Deus vivo!
E, então, cresce a saudade medonha naquele que foi conquistado pelos carinhos do Senhor e, por outro lado, aumenta mais e mais a consciência da distância: Deus é Grande demais, Santo demais, Incompreensível demais, Luminoso demais para caber nas nossas pobres medidas!
Que resta ao fiel? Abandonar-se, entregar-se, com total pobreza interior, com doce confiança naquele misterioso Amigo que Se revela escondendo-Se. Ele é uma Luz tão intensa que nos cega! Por isso dizia São João da Cruz: “Deus, para nós, nesta vida, é nem mais nem menos que noite escura!”
De noite, mesmo de noite, não nos cansemos de buscar a Fonte! Deixemo-nos guiar por nossa sede, sede inscrita, cravada em cada fibra do nosso ser de criaturas... Sede como a da corça que procura o riacho... Que assim nossa alma procure o Senhor!
Ó Senhor, Luz tenebrosa e Escuridão luminosa, preenche meu desejo com Tua luz, Tua doçura e Tua paz! Recolhe em Ti todos os meus desejos e sacia de Ti todas as minhas sedes!


Uma guerra surda: cristianismo x iluminismo ateu

Há uma guerra surda sendo travada, no Brasil e no mundo ocidental, entre os crentes e os herdeiros do iluminismo ateu e anticristão, nascido a partir do século XVIII.
A sociedade ocidental, século após século, foi sendo plasmada em grande parte pelo cristianismo: suas leis, suas expressões culturais, sua sensibilidade, tudo tem a marca dos discípulos de Cristo... O Ocidente foi parido pelo cristianismo. Agora, com a descristianização generalizada, os bem-pensantes iluministas querem criar um novo ordenamento, totalmente alheio e até contrário à cultura cristã. Querem também que os cristãos aceitem isto sem reagir... Se o Internauta quiser um exemplo, basta ler as revistas semanais brasileiras e os jornais de maior circulação no País, basta ver o que circula na internet... O argumento deles é o seguinte: a sociedade hoje é pluralista, o estado é laico, sem vínculo com qualquer religião; logo, a Igreja e os cristãos, de modo geral, não têm nada a dizer sobre as questões da atualidade: aborto, manipulação genética, uso de embriões humanos em experiências para adquirir células-tronco, união civil dos homossexuais, eutanásia, legalização da maconha... Nada disto compete aos cristãos. Aqui, cada um deve seguir sua consciência, sem querer impor ao conjunto da sociedade sua visão. Religião é questão privada, é questão de opinião e não deve ter nenhum influxo na construção do ordenamento social.

Aparentemente, o raciocínio dessa gente parece certo: cada um siga a sua consciência e pronto! Mas, aqui, há alguns pontos que precisam ser esclarecidos:

(1) É verdade que o estado é laico e, enquanto tal, não deve professar ou favorecer religião alguma. Mas também é verdade que o estado está a serviço do povo, deve respeitar e tutelar os valores do povo e o povo brasileiro é cristão, na sua grande maioria e na sua matriz cultural. O estado brasileiro não pode ser anticristão, não pode ignorar o cristianismo, não pode tratá-lo com desdém. Se o fizer, deve ser desautorizado e reformado pelo povo! O estado não é Deus e não está acima do bem e do mal! Então, quando se propõe arrancar o crucifixo do Supremo Tribunal Federal, se está agredindo a grande maioria do povo brasileiro: hoje arranca-se o crucifixo para amanhã se arrancar os valores cristãos que guiam nossa sociedade.

(2) É bobagem pensar que existam valores soltos, neutros e imparciais. Na verdade, o que os neoiluministas desejam é impor seus valores: valores laicistas, que apregoam a destruição da família e a adoção de uma ética ateia para decidir sobre o conceito de família, aborto, pesquisa genética, eutanásia, assassinato de embriões anencéfalos, etc. Note-se bem: não há uma ética neutra! Querem fazer o povo brasileiro engolir uma ética pagã, fundamentada numa razão meramente utilitarista e individualista.

(3) Os cristãos têm todo direito de gritar e defender seus valores. Se a sociedade é democrática e pluralista e a Igreja e outras denominações cristãs são membros dessa sociedade, têm direito sim de fazer pressão. É interessante: quando as minorias fazem barulho, todos elogiam; quando os cristãos o fazem, a turma iluminista reclama e mete o pau na Igreja católica (que é a bruxa velha) e nos outros cristãos! A Igreja deve gritar, deve organizar os que creem, deve se articular com as demais denominações cristãs e com as pessoas de boa vontade para defender que nossas leis exprimam valores cristãos. Todos devem ser respeitados, mas temos o direito de lutar por nossas ideias. 

(4) Isso não significa querer impor aos outros nosso modo de pensar. A questão é que uma sociedade permissiva, com leis em contradição com uma cultura cristã, marca toda a sociedade, marca as famílias, marca as escolas, marca nossos jovens e crianças. Temos o direito de lutar para defendê-los! Basta pensar no que uma ideia pagã de matrimônio e família, veiculada pelos meios de comunicação, tem gerado no Brasil: o conceito de família tem sido totalmente destruído na nossa cultura brasileira. Como seria interessante escutar os filhos de descasados e recasados, os filhos de mães solteiras e adolescentes, para vermos de perto o resultado desastroso de tudo isso! O que será dos jovens daqui a cinquenta anos, formados em famílias totalmente alheia a valores sólidos?

As coisas, como estão, encaminham-se para uma contraposição forte. Estamos chegando num ponto de fusão, no qual os cristãos terão de dizer claramente “basta”! É preciso perguntar se é correto promover a desconstrução do Ocidente como se está fazendo... O estado laico é uma conquista que deve ser mantida; a separação entre religião e governo é uma realidade sadia. O problema é quando grupos poderosos – os senhores dos meios de comunicação, por exemplo – fazem uma campanha bem orquestrada para arrancar as marcas cristãs de nossa cultura, transformando o estado laico em estado laicista, que desconsidera e despreza a dimensão religiosa do homem, reduzindo-a, quando muito, a experiência subjetiva e privada. Aí é necessário dizer “basta”, é necessário gritar, pressionar e mostrar que os cristãos não estão dormindo.

Devemos caminhar para a elaboração de uma ética civil, isto é, critérios éticos, fundamentados no princípio de respeito profundo pelos valores humanos mais nobres, que possam, de modo geral, ser por todos compartilhados. Todos – crentes ou não, cristãos ou não-cristãos – têm algo a dizer e têm em que colaborar. Sem diálogo cidadão, sem escuta recíproca, desarmada, leal, não se pode construir um país no qual todos sejam efetivamente cidadãos... Mas, não se pode esquecer que este país chamado Brasil ainda é majoritariamente cristão e católico e pelo cristianismo foi forjado. Não se pode esquecer de nossas raízes culturais e dos valores que plasmaram nossa sociedade. Não se pode aceitar a ditadura intelectual de uma prepotente minoria “iluminada” por uma razão ateia querendo simplesmente impor seus contra-valores disfarçados de tolerância... Uma guerra ideológica não faria bem a ninguém, pois provocaria somente exacerbações, extremismos e exageros... E isto é o que menos precisamos para o Brasil do nosso tempo...


segunda-feira, 18 de junho de 2018

O que move?!

Fizeram-me, hoje, esta pergunta:
"O que move a humanidade: Deus ou o homem?
A Igreja fala algo sobre isso?"

Dei esta resposta:
A Providência amorosa do Senhor Deus e, ao mesmo tempo, a liberdade humana.
Ao mesmo tempo, em sinergia, Providência e liberdade,
Deus e o homem; ao mesmo tempo,
mas não no mesmo nível...

A humanidade e cada ser humano são realmente livres:
suas escolhas, decisões e ações são reais, têm consistência e consequências;
mas, por trás de tudo, por trás das escolhas dos homens,
dos caminhos dos filhos de Adão,
misteriosamente,
está o Misterioso,
cheio de amor providente,
cheio de zelo amoroso...

E, discretamente, vai guiando tudo segundo o Seu desígnio,
fazendo escrita certa,
que leva direto ao Seu plano de nos salvar,
apesar das linhas tortas da nossa vida.

Quem crê percebe isto:
essa Mão, essa Providência, essa Presença misteriosa,
por trás de tudo,
mesmo quando dói,
quando machuca,
quando não compreendemos
e julgamos absurdo.

Quem não crê
vê somente à medida da própria razão humana:
vê a casca,
enxerga a superfície,
só divisa um monte de coincidências,
um acaso onipotente e onipresente,
nada mais que isso...
E a vida, então, para esse, torna-se fruto de um joguete de mau gosto,
que zomba da nossa liberdade,
humilha nossos projetos,
frustra nossos esforços,
ridiculariza nossa vida
e nos massacra na hora da morte...
Tudo sem sentido, tudo vazio, tudo mortal...

Com Deus, ao invés, tudo ganha sentido!
Sem Ele tudo termina sendo, no fundo, um triste absurdo,
um não-sentido, um correr atrás de nada,
uma paixão inútil...



A partícula de Deus e o Deus das partículas

Para recordar: em julho de 2012, o mundo da ciência exultou com a provável confirmação da existência do bóson de Higgs, a partícula subatômica que explicaria a formação da matéria no universo. Além do mais, a constatação da existência dessa partícula, confirmaria o chamado Modelo Padrão, um esquema lógico que procura explicar todos os fenômenos subatômicos até agora conhecidos pela ciência.

Do modo metafórico e grandiloquente, chamam a este bóson de Higgs de “partícula de Deus”, expressão forjada pelo cientista Leon Lederman, quase como uma brincadeira...
Não é bom fazer este tipo de mistura! De Deus são todas as partículas, de Deus é todo o universo com suas leis, interações e dinâmicas, de Deus é a maravilhosa inteligência humana, capaz de decifrar a incrível linguagem escrita no cosmos!

É necessário que se compreenda e se tenha sempre presente que a ciência jamais terá algo de novo a dizer sobre Deus, jamais poderá afirmar que Ele existe ou não existe. Esperar tal veredicto das ciências seria desconhecer a natureza do que chamamos “Deus” e a especificidade mesma do que chamamos ciência em sentido estrito. Deus – o Deus verdadeiro já vislumbrado pela teodiceia – é o Ser do qual tudo provém, que a tudo ultrapassa e a tudo perpassa, Nele tudo se sustenta e tudo para Ele se dirige. Deus É, não simplesmente existe! Ora, a ciência cuida de descrever e explicar as leis que regem o universo, este universo. Fora disso, que poderia ela dizer, se lhe escapa o “Objeto” de estudo?

Isto não quer dizer que o discurso sobre Deus não tenha lugar a partir das descobertas científicas ou da razão humana. Quanto mais se penetra no intricado maravilhoso que constitui a natureza, tanto mais somos forçados a perguntar: De onde provém tudo isto? Se o universo revela uma lógica (tão lógica a ponto de se antever fenômenos e elementos ainda desconhecidos empiricamente), não haveria um “Lógos”, uma Inteligência, um Pensamento que a tudo deu origem? Qual a finalidade de tudo quanto existe? Seria tudo somente fruto do acaso? E o homem, esta partícula ínfima da natureza, com uma subjetividade, uma sede, uma saudade de Infinito mais vasta que o próprio universo, a ponto de não sossegar na procura da resposta ao “por quê” e ao “para quê” de tudo? A natureza é somente natureza ou é também criação, obra de um Criador?

Lendo sobre a descoberta do bóson de Higgs, veio-me um pensamento engraçado: o tal bóson não pode ser detectado diretamente, mas apenas pelos sinais que deixa... E o bóson é algo deste mundo... Quanto mais Deus, o Outro, o Santo, o Eterno, o Insondável! Poderia Ele ser capturado pura e simplesmente pelos nossos sentidos? Não! Também Ele, pode ser vislumbrado apenas pelos sinais que deixa... E a Escritura diz isto o tempo todo: Ele é o Santo, o Outro, o Diferente, que habita em luz inacessível. Mas, como o famoso bóson e mais que ele, o Eterno deixa sinais na natureza e no coração humano, deixou sinais na história da salvação e deixa ainda nas nossas histórias. Por que seríamos tão animados a afirmar o bóson de Higgs, partícula deste mundo, que não pode ser detectada diretamente, e tão refratários a acolher aquela Realidade sem a qual nada teria sentido, explicação ou sustento?

Hoje a ciência acolhe a teoria do Big Bang, proposta primeiramente por um cientista belga, sacerdote católico, o Padre Georges Lamaitre, em 1927. Algo explodiu, algo tornou-se energia e depois massa... Mas, de onde vem esse algo? O que provocou sua explosão? Donde brota a misteriosa e poderosíssima gravidade que, no pensar teórico do genial Stephen Hawking, faz o universo contrair-se e expandir-se continuamente? Eis o que a ciência jamais responderá. Eis a misteriosa Realidade primeira a que o crente chama de Deus, que agiu no princípio e continua agindo discretamente em cada lei da natureza, em cada ser que vem a este mundo, em cada flor que brota, em cada criança que ri, em cada esperança que teima em povoar e animar os nossos sonhos.

Estejamos atentos: de afirmar ou não a existência de Deus dependerá radicalmente o nosso modo de interpretar o sentido do universo e, mais ainda, a história e, fundamentalmente, a nossa própria vida. Não é uma questão periférica nem descartável. Querendo ou não, Deus continuará a ser sempre a questão central do coração e da inteligência humana, será sempre espinho ou favo de mel no coração do homem e do mundo. Da afirmação ou não da Sua existência dependerá totalmente o modo de nos compreendermos e compreender a vida, muito mais ainda que o modo de compreendermos o universo como um todo. Deus – eis a aposta fundamental da qual é impossível fugir, mesmo quando se faz de conta que não se quer apostar!

"Deus disse: 'Haja luz!'
- E houve luz!" (Gn 1,3) 

sábado, 16 de junho de 2018

O Rei de um certo Reino...

Sobre o Reino de Cristo...
Seu Reino é o mesmo Reino do Pai. É no Filho amado que o Reino se manifesta, porque no Filho, no Seu modo de ser e viver o Pai Se manifestou plenamente! Quem vê Jesus, vê o Pai reinando. Assim, dizer Reino de Deus e Reino de Cristo é quase a mesma coisa.
Com uma diferença, apenas: o Reino de Deus inaugurado nos dias da carne do Senhor, manifesta-se plenamente em Cristo quando da Sua ressurreição e será consumado no final dos tempos, quando Cristo cristificar em Glória todas as coisas e tudo entregar ao Pai, para que Deus, o Pai, seja tudo em todos.

Quanto ao Reino de Cristo, ele é como a semente semeada no chão do mundo, mais precisamente, no chão do seu coração:
Pode cair na beira do caminho e ser levado pelos pássaros da sua distração, do seu pouco caso... E aí, então, esse Reino bendito será levado da sua vida... Você perderá o Reino...
Pode também cair num coração superficial, como a semente caída na terra rasa: neste caso, cresce logo, em tantos entusiasmos de doação, amém e aleluia... Mas, é um reinozinho de momento: logo cresce, logo seca...
Também, esse Reino, pode cair num coração preocupado com mil coisas, sobretudo consigo mesmo. Pobre Reino: crescerá e logo será sufocado! Pobre você, que matou o Reino...
Finalmente – tomara! –, pode num terreno fecundo de um coração bom! Aí vem o fruto: trinta, sessenta, cem por um! O Reino frutificou porque entrou em você! Feliz de você: se o Reino de Cristo entrou em você, você entrou no Reino de Cristo aqui e por toda a Eternidade!

O Reino de Cristo parece tão fraco, tão sufocado como o trigo plantado por Ele, perdido no meio do joio deste mundo...
Desanime não! Descreia não! Duvide não! Um dia – naquele Dia – esse joio vai ser juntado e jogado fora, queimado, eliminado para sempre! Só o trigo, fruto da boa semente caída e frutifica no bom coração, permanecerá por toda a Eternidade! Espere, confie! Você vai ver! É assim o Reino do Cristo: presente, potente, mas só no fim aparecerá sem ambiguidade alguma!
– Que venha o Teu Reino, Senhor Jesus!
Que se manifeste logo com toda a clareza!
Passe este mundo e venha a Tua graça!

O Reino de Cristo? Parece de nada, parece insignificante, parece tão pequenininho como um grão de mostarda! Mas, não se iluda: ele está presente no mundo: foi plantado naquela Cruz, naquele Sepulcro e começou a brotar naquela madrugada de Domingo.
Esse Reino vai crescendo, crescendo, não por minha força, não por sua força, pela força do próprio Espírito do Senhor... Crescendo, crescendo... E um dia será como uma ramagem tão frondosa que as aves todas, a humanidade inteira poderá abrigar-se nos seus ramos! Nós todos haveremos de ver! É esperar, é desejar, é caminhar para este Dia bendito!
Mas, tenha paciência, que a mostarda não cresce de vez, não se desenvolve de um dia para a noite! Paciência e certeza! O nome disto é esperança! Afinal, Quem prometeu é fiel!

Já viu alguém colocando um tiquinho de fermento na massa? Pois assim é o Reinado de Cristo! Pouquinho... Mas, penetra, impregna esse mundo massificado, este mundo cão! Ninguém pode contar, ninguém pode calcular, ninguém pode dizer “ei-lo aqui, ei-lo ali!”... Mas, está presente, atuante, potente, levedando a massa deste mundo! Preste atenção! Tenha cuidado: O Reino de Deus trazido por Cristo já está no meio de nós e age na potência do Espírito! É o Espírito a presença, é o Espírito a energia, é o Espírito a potência, é o Espírito o fermento! Dizer: Reino de Cristo presente é o mesmo que dizer Espírito de Cristo atuando! Dizer “venha o Teu Reino” é dizer “venha o Teu Espírito”!

Cristo reinando no seu coração é o tesouro da sua vida, é o tesouro escondido até que você tome consciência Dele e para Ele se abra sem medo nem reservas.
Até quando você demorará a descobrir, a experimentar que Ele é a pérola de grande valor, a mais bela de todas, daquelas de encher a vista e encantar o coração? Quem deixa o Senhor Jesus reinar na sua vida, encontra o tesouro escondido, compra a pérola mais valiosa de todas! Não tenha dúvida!

Ah, mas que demora, demora! Há dois mil anos esperamos!
E o mundo vai de mal a pior, vai se paganizando; parece até uma nau sem rumo, um mundo sem Deus, casa sem dono, reino sem rei!
E a Igreja? É cada tipo de cristão, é cada figura, cada escândalo! Não se iluda não! O Reino de Cristo é como rede jogada no mar: pega todo tipo de peixe: vem de tudo! Mas, a rede está sendo puxada! Pouco a pouco Alguém vai puxando a rede do mundo, da Igreja. Um Dia – Dia bendito, Dia santo, Dia sem fim! – essa rede chegará à praia do mar da vida. E então, os peixes bons serão recolhidos nos cestos do Coração do Rei... E – você verá! – o peixe ruim será jogado fora... Se você compreender esta coisas, será feliz! Cristo, o Rei, garante!


Homilia para o XI Domingo Comum - Ano B

Ez 17,22-24
Sl 91
2Cor 5,6-10
Mc 4,26-34

No Evangelho deste Domingo, o Senhor nosso Jesus Cristo fala-nos sobre o Reino de Deus que Ele mesmo veio inaugurar com Sua santa Encarnação, com Seu ministério público, com Sua Paixão, Morte e Ressurreição; Reino que Ele, efetivamente, nos deu com o dom do Seu Espírito Santo!

Observai, Irmãos, que sempre que fala do Reino, Jesus nosso Senhor usa imagens, fala-nos em parábolas. É que o Reino não pode ser descrito, não pode ser resumido num conceito; sequer esse Reino bendito pode ser totalmente compreendido por nós. Por isso o Evangelho fala em “mistério do Reino de Deus” (Mc 4,11)!
Esse Reino bendito de Deus Pai é o próprio Senhor Deus de Israel reinando no nosso coração, na nossa vida e, através de nós, na vida do mundo. Esse Reino foi trazido pelo Senhor Jesus porque Nele, o Filho feito obediente por nós até a morte e morte de cruz, o Pai reinou totalmente, até ressuscitá-Lo na potência do Santo Espírito. Assim, em Jesus, o Reinado do Pai manifesta-se de modo pleno, em Jesus, Deus reinou totalmente; em Jesus, aparece as dores do Reino, dores de cruz; em Jesus, aparece a glória do Reino, glória de ressurreição; em Jesus, aparece a fraqueza do Reino e a força do Reino! E tudo isto se dá na força, na energia, na ação potente do Santo Espírito que, dando-nos os sentimentos de Cristo, dá-nos a graça de deixar que o Reinado de Deus entre em nós nesta vida e nos faça dele herdeiros na Vida que há de vir, na plenitude do Reino, na Glória do Céu!

Caríssimos, o que diz o Senhor? Que parábolas nos conta para fazer-nos entrever algo do Seu Reino bendito?
Primeiro nos ensina que o “Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece... Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou!”

Que significa isto, Irmãos? O Reino é semeado por Jesus e por todos aqueles que em Seu Nome pregam o Reinado de Deus. A nós compete pregar, como Jesus pregou; mas, atenção: a Palavra do Reino tem sua força própria! Não depende de nós! Como a semente, uma vez lançada à terra, cresce com seu próprio vigor, assim o Reino! Confiemos: ele tem a força vinda do próprio Espírito do Senhor Deus! Como nos ensina o Senhor na primeira leitura de hoje, Ele mesmo sabe levar adiante o Seu plano a partir de instrumentos tão fracos, tão frágeis, tão pequenos... A lógica e a medida do Senhor não são as nossas...
Vede bem: às vezes, esse Reino parece tão frágil e nossa pregação e nosso esforço tão inúteis... Não, meus caros: o Reino tem seu próprio tempo, sua própria força, sua própria dinâmica! No tempo de Deus e no modo de Deus chegará o momento da colheita; então, todos e tudo seremos colocados diante do tremendo tribunal de Cristo, como nos diz o santo Apóstolo na segunda leitura de hoje! Aliás, é por esta certeza, por este inabalável esperança, que o Apóstolo não perde o ânimo: “Estamos sempre cheios de confiança e bem lembrados de que, enquanto moramos nos corpo, somos peregrinos longe do Senhor!”Sim, agora é o tempo do caminho, do trabalho, da semeadura. E devemos fazê-los com ânimo, com os olhos fixos no Senhor! Muitas vezes, semeando entre lágrimas (cf. Sl 126/125,5s); mas, certos de que haverá o tempo da colheita e, até lá, o Reino crescerá na força do Senhor, do modo do Senhor, nos tempos do Senhor, na lógica do Senhor! O Reino é Dele, não nosso!
A nós cabe acolher o Reino, a nós cabe testemunhá-lo, a nós cabe anunciá-lo onde quer que vivamos! Ao Senhor cabe o restante, Ele que é fiel, atuante e tudo pode... Somente recordemos: os tempos e modos do Senhor Deus não são os nossos! Ele é capaz de abater o soberbo e elevar os humildes e insignificantes, como faz com os cedros do Líbano na profecia de Ezequiel, que ouvimos hoje!

Depois, a outra parábola: “O Reino de Deus é como um grão de mostarda, menor de todas as sementes. Cresce e se torna maior que todas as hortaliças e os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra”.Compreendeis? O Reino parece tão pequeno, tão insignificante, tão frágil... No entanto, anunciado, semeado, ele crescerá e a humanidade toda, as nações, representadas pelos pássaros dos céus, poderão abrigar-se nele! 
Eis quão pequeno e quão grande é o Reino! Ei-lo, tão frágil e tão forte, tão dom de Deus e tão responsabilidade nossa como testemunhas, como anunciadores!

Um dia, meus caros, esse Reinado de Deus que deve por nós ser acolhido, acolhido na nossa existência, recebido em todos os aspectos da nossa vida, esse Reino será pleno em nós, no Dia de Cristo. Nossa vida neste mundo é caminho para a plenitude do Reino na Glória celeste.

Na segunda leitura desta Eucaristia sagrada, São Paulo recorda que “enquanto moramos no corpo, somos peregrinos, longe do Senhor”, caminhando na sombra do fé, não ainda na visão clara. Gostaríamos de ir morar logo com o Senhor, deixando a moradia deste corpo. A questão é que desejamos receber um corpo glorioso sem ter que passar pela desnudez da morte, quando este nosso corpo, separado da nossa alma, será destruído. Mas, não será assim: vamos ser desvestidos deste corpo e, no final dos tempos, receberemos um vestido de glória, este nosso corpo ressuscitado e glorioso! No Dia de Cristo, na plenitude do Reino, quer estejamos nus – isto é, já no Céu somente com nossa alma – ou vestidos – quer dizer, ainda aqui neste mundo, com este corpo -, todos nós seremos transfigurados, recebendo um corpo de Glória, um corpo para o Reino, um corpo pleno do mesmo Espírito Santo que ressuscitou Jesus dentre os mortos!

Então, caríssimos meus no Senhor, nosso compromisso neste mundo com o Reino do Pai, que o Senhor veio nos trazer no Espírito Santo, nosso empenho em acolhê-lo, em testemunhá-lo, em difundi-lo, será o critério para o nosso destino quando estivermos no tremendo tribunal de Cristo, no limiar da plenitude do Reino, na Glória imperecível!

Levemos a sério a advertência do Senhor! Não sejamos cristãos frios, descomprometidos, preguiçosos em relação ao que é do Senhor! Que lástima: quando se trata do trabalho do Reino tudo para nós é difícil, tudo é custoso! Que raça de cristãos somos nós, que deixamos Deus e o Seu Reino no último lugar! Atentos ao Juízo do Senhor! Convertamo-nos! Na família, no trabalho, na vida social, na vida paroquial, no nosso grupo, em tudo quanto fizermos e onde estivermos, sejamos testemunhas e semeadores do Reino! E que o Senhor, por compaixão nos conceda dele participar em plenitude na Glória eterna. Amém.