quinta-feira, 14 de junho de 2018

Diante de Ti, derramo o meu coração...

Senhor meu Deus!
Tu és grande, Tua sabedoria é infinita!

Tua Palavra santa diz que não deves satisfação de Tuas ações a ninguém:
“Pois não há, além de Ti, outro Deus que cuide de todas as coisas, e a quem devas mostrar que Teu julgamento não foi injusto.
Porque és justo, tudo dispões com justiça; e consideras incompatível com o Teu poder condenar a quem não mereça castigo” (Sb 12,13.15).

E, no entanto, Senhor, como nos são difíceis Teus caminhos,
Como nos são incompreensíveis os modos que tens de dirigir nossa vida - minha vida -, e a vida do mundo!
“Para mim, Tua sabedoria é grandiosa, alta demais, eu não a entendo.
Para onde irei, longe do Teu Espírito? Para onde fugirei da Tua presença?” (Sl 139/138,7)

Sei que és amor,
olho o Teu céu estrelado e ele me diz ao coração que és Beleza;
Sinto a brisa que toca minha face, e ela sussurra aos meus ouvidos que és Ternura;
Contemplo a majestosa altura das montanhas
e meu coração intui a Tua doce e serena majestade;
Ouço o rumor das ondas buliçosas do mar
e sinto algo da potência do Teu Espírito sempre presente e atuante!

E, então, o mundo todo, a vida toda, a criação toda, tornam-se uma canção
ao Teu amor criador e cheio de ternura,
à Tua providência sempre presente e cheia de cuidado por todos os seres!
Tudo canta Tua sabedoria imensa!

Senhor, por que Tua criação não é somente assim, não é somente isto:
beleza, providência, sentido luminoso, canto de louvor?
Por que olho, e vejo
também a dor, a solidão, a catástrofe, a injustiça, a frustração,
a inexprimível amargura de quem procura sentido e não o encontra, caça uma explicação e não a vê?

Como pode ser um Deus tão bom, tão grande, tão providente, tão amor
e, ao mesmo tempo, a existência de tantos escuros, tantos ais, tantas realidades que nos parecem absurdas e sombrias?
“Acaso não és o Senhor desde o princípio, o meu Deus, o meu Santo, que não morre?
Teus olhos são tão puros que não podem ver o mal;
Tu nem consegues olhar para a injustiça!
Por que, então, ficas olhando os velhacos e Te calas quando um patife engole alguém mais correto do que ele?
Por que nos tratas como peixes do mar ou bichos que não têm quem os governe?” (Hab 1,12a.13-14).

Senhor, plantador do bom trigo no mundo e no coração humano, por que o joio?
Por que tanto joio de dor, de sofrimento, de maldade, de solidão, de tristeza, de fracasso e de absurdo?

Pergunto, e não encontro as respostas, além da única que Tu me dás:
o Teu Santo, o Teu Predileto, o Filho amado, o Teu Único, tão Bom, tão Justo, Aquele em Quem colocas todo o Teu Bem-querer:
vejo-O silencioso, cabisbaixo, na cruz...
Contemplo-O de braços abertos para me acolher,
de coração trespassado e aberto para me abrigar e matar minha sede...

Tu és o Santo!
Tu é o Separado, o Outro,
Aquele a Quem o homem não pode compreender, abarcar, controlar, enquadrar na sua pobre e pequena lógica!
Teu Nome é impronunciável,
Tua Face não pode ser vista por nós,
a não ser na Face sofrida do Filho amado que, sem explicação e sem pedir minha permissão, toma silenciosamente sobre Si a dor minha e do mundo inteiro:
daquela criança órfã, daquele menino prostrado no leito, daquela jovem mãe agonizante, daquele pobre machucado pela vida e pisado pelos homens, daquele velhinho alquebrado pelos tantos anos e abandonado pelos filhos, daquele jovem envelhecido pela falta de sentido e pelo vício, daquela esposa deixada só com os filhos pelo marido egoísta e irresponsável...

Olho Tua Cruz,
a Cruz do Teu Filho amado e, então, sem compreender, compreendo; sem ver, enxergo...

E ainda assim, quantas vezes penso, sobretudo na situação da dor e da escuridão da alma, com o coração apertado:
Será mesmo que há um Sentido?
Será mesmo que existe um Amor eterno, um Sentido que a tudo reveste de sentido?
E minha mente não alcança, meu coração já não sente...

E se eu não mais acreditar?
E se eu viver como se Ele, Deus, não existisse?
E se eu, ainda que Ele exista, viver por minha conta, do meu modo, deixando pra lá, no canto, esse Deus que é rebelde demais, livre demais, imprevisível demais, exigente demais para a minha lógica e o meu gosto?

Aí, então, Tu me atormentas com o Vazio,
Tu me fazes sentir que sem Ti não há beleza nem alegria nem sentido nem razão alguma para viver!
Tu me fazes sentir na carne e na alma – e como dói! – que de nada vale
o rosário de anos, de dias,
de sonhos, de projetos, de amores,
se tudo acaba no nada da morte,
se tudo é somente viver e morrer,
se a existência humana é um caminhar somente diante de si própria,
sem um céu infinito e estrelado de amor benevolente acima de nós:
um céu para o qual olhar, pelo qual suspirar, no qual esperar, com o qual sonhar!

Senhor, não se pode fugir de Ti!
Não posso!
Sem Ti eu não sou!

Se não existes, eu sou nada
e o mundo inteiro não passa de um teatro sem graça pronto para uma tragicomédia!
Se minha vida não corre pra Ti e não é vida diante de Ti, não é vida de modo algum:
é morte o que eu vivo sem Ti, Vida minha!

Senhor Deus do pensamento impenetrável,
de luz tão intensa que me cega,
de altura tão infinita que me provoca vertigem,
de desígnio grande demais para mim,
de lógica que ultrapassa a minha lógica e a inunda como a onda bravia destrói o castelozinho que o menino peralta construiu na praia do mar...

Senhor, somente em Ti – Deus tão difícil! – repousa o meu coração,
pois somente a certeza da Tua Presença,
de que vivo sob o Teu olhar infinito e misterioso,
pode fazer que meus dias valham a pena!

Viver só quero, viver somente posso,
caminhar somente consigo
com esta certeza que levo no peito:
minha dor e minha exultação,
minha tristeza e minha alegria,
minha vitória e meu fracasso,
meu pecado e minha virtude,
meu deitar e meu levantar,
minha vida e minha morte,
tudo isto, aos Teus olhos tem sentido
e será a pobre matéria com a qual, no momento bendito e sagrado da minha partida deste mundo de peregrinos,
Tu plasmarás
a minha existência plena e feliz Contigo, por toda a Eternidade!
Eu sei - como o sabia o Teu Salmista:
"Contaste os passos da minha caminhada errante,
minhas lágrimas recolheste no Teu odre
e escreveste tudo isto no Teu livro!" (Sl 56,9).

Bendito sejas, Deus grande, Deus santo, Deus eterno!
Bendito sejas, pelo Teu Filho, no Santo Espírito, de Eternidade em Eternidade. Amém!






quarta-feira, 13 de junho de 2018

Séria advertência

Meu querido Leitor,
Os tempos, as épocas, o coração dos filhos de Adão e das filhas de Eva têm lá suas modas, suas ilusões, suas manias de momento...
Já há tempos os homens de nossa civilização têm tirado Deus do centro, têm fugido espertamente de se deixar medir por Deus. Ao invés, temos medido o Senhor Deus pelo nosso metro, temos dado um jeitinho de acomodar Deus à nossa conveniência... Fazemos o Santo aprovar nossas malandragens, fechar os olhos para nossas situações tortas e pecaminosas...

Mas, quem engana a Deus? Quem dobra o Senhor à sua própria conveniência? Quem pode torcer impunemente os preceitos do Altíssimo?
Só um tolo, pensaria isto!
Só um néscio se iludiria assim...

Eis a Palavra viva de Deus, eis Sua advertência, eis o Seu veredicto, eis a medida pela qual seremos medidos e julgados, em Cristo, nosso Senhor:

“Não digas: 'Pequei: o que me aconteceu?’
porque o Senhor é paciente.
Não sejas tão seguro do perdão
para acumular pecado sobre pecado.
Não digas: ‘Sua misericórdia é grande
para perdoar meus inúmeros pecados’,
porque há Nele misericórdia e cólera
e Sua ira pousará sobre os pecadores.
Não demores a voltar para o Senhor
e não adies de um dia para o outro,
porque, de repente, a cólera do Senhor virá
e, no dia do castigo, perecerás!” (Eclo 5,4-9)

São palavras politicamente incorretas;
é Palavra do Senhor Deus, existencialmente corretíssimas!
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

Quem for tolo se iluda com o palavreado enganoso dos filhos de Adão...




Meu inimigo íntimo

Meu maior inimigo sou eu mesmo, que me busco a mim, a mim do meu jeito, que desejo ser feliz de uma felicidade feita à minha medida! Meu inimigo, que me prejudica, deforma, aliena: eu dono de mim, eu referência de mim, verdade de mim, fechado em mim…

Senhor, por compaixão, livra-me de mim do meu modo para que eu, inebriado pelo Teu Espírito, me encontre a mim do modo como Tu me pensaste! 

Senhor, eu sou caçador de mim: eu alienado procuro a mim na minha inteireza, na minha verdade, procuro a mim como Tu me pensaste, me amaste e me criaste!

Tira-me de mim segundo minha medida e joga-me em mim na Tua medida!
E a Tua medida para mim, eu sei qual é: é o Cristo Jesus, o Novo Adão, o Homem Perfeito, que me revela quem eu sou e o que devo me tornar!


Assim, Senhor, na potência vitoriosa do Teu Espírito - no Qual ressuscitaste Teu Filho Jesus, Homem Novo, verdadeiro Adão - dá-me os sentimentos de Cristo, o pensamento de Cristo, as atitudes de Cristo, a vida de Cristo, para que eu seja, enfim, eu mesmo, eu na minha inteira verdade, na minha plenitude, eu reconciliado Contigo e comigo mesmo, eu como Tu sonhaste comigo!



segunda-feira, 11 de junho de 2018

Assim abençoarás...


O Senhor te abençoe e te guarde!
Dele vem toda bênção; é por Ele que tudo existe:
o Santo disse, bem-disse,
e tudo existiu;
e eu existi. Existo!
O Senhor continue a bem-dizer, para que tudo permaneça na existência;
o Senhor me abençoe, te abençoe 
e nos guarde na Sua bênção.
E, então, nossa existência será real
e nossos dias terão consistência...

O Senhor te mostre a Sua Face e Se compadeça de ti!
Vivemos da compaixão do Eterno: graça, misericórdia, compaixão 
por toda a criação; por toda a criatura.
Sem tal compaixão, quem pode se salvar?
Onde o importante?
Onde o autossuficiente?
Onde o dono do seu próprio ser?
E a compaixão expande-se, revela-se, da Face bendita Daquele que É!
Quando Sua beleza se nos revela,
quando Seu Rosto se nos descortina,
tudo resplandece de ser, de vida, de paz, de reconciliação!
Sua Face é brilho esplendoroso, é luz
e sentido que aponta o Sentido!
E a treva é dissipada, e a névoa se desfaz,
deixando-nos ver o ser das coisas...
Face do Invisível, compaixão benigna, infinita, por toda criatura!
Face amável, Rosto adorável, Semblante que é a alegria do que existe!

O Senhor volte para ti o Seu olhar e te dê a paz!
Voltar-se, dirigir-se com atenção, com intenção para...
O Senhor volte amorosamente para ti o Seu olhar!
Para velar por ti,
cuidar de ti,
sondar teu coração,
acalentar teus sonhos, enxugar tuas lágrimas,
dirigir teus passos
e, ao fim do caminho, recolher tua vida.
Que o Seu olhar sobre ti seja benigno 
e que, em ti, Ele Se alegre com a obra de Suas próprias mãos 
e complete o que em ti começou.
Que Ele te olhe como olhou,
com amor,
o homem rico do caminho...
E nunca deixe de te importunar,
de tirar-te de ti mesmo,
de te chamar sempre de novo
e, assim, te dê a paz...
Paz sem sossego,
paz sem comodismo,
paz que faz desejar mais
e chorar e caminhar e ir sempre mais adiante,
peregrino, ansiando,
rico e pobre de uma vez,
em direção à Plenitude infinita...
O Senhor - bendito seja! - te dê esta paz,
o Senhor faça em ti habitar a Sua paz! Amém.




domingo, 10 de junho de 2018

O Reino que chega e o pecado contra o Espírito Santo

Caro Internauta, meu Leitor, proponho-lhe uma meditação a partir do evangelho de hoje, X Domingo Comum, deste ano B. O texto é Mc 3,20-35.

Jesus, nosso Senhor, voltou para Sua casa em Cafarnaum. Era o início do Seu ministério; as multidões, numerosas, procuravam o novo Pregador, que tantos milagres realizava e tanto ensinava sobre o Reino de Deus e as perguntas sobre Ele eram muitas (cf. 1,21-37.45b; 2,1-12; 3,1-12)...

Seus familiares não viam com bons olhos Sua missão. Não acreditavam Nele; “diziam que estava fora de Si”... Se pensarmos um pouco, é compreensível: Jesus nosso Senhor saiu de casa, deixando sozinha a mãe viúva e sem outros filhos... A mãe ficara, agora, aos cuidados da família, tanto que aparecia sempre sob a tutela dos parentes, os chamados “irmãos de Jesus”...Certamente, não faltavam críticas ao Senhor no seio de Sua família...
As notícias chegavam: as multidões, os milagres, as disputas com os escribas e fariseus... Sequer tinham tempo para comer... Os familiares temiam por Sua saúde física e mental... Foram buscá-Lo para trazê-Lo para casa... A Virgem também foi: era mãe e, como toda mãe, era cuidadosa pelo filho, e mesmo superprotetora, como toda boa mãe humana...
Chegando onde Jesus nosso Senhor Se encontrava, ficaram de fora e mandaram chamá-Lo . Apresentaram-se: “Tua Mãe e Teus irmãos...” Mas, no Reino de Deus, os laços biológicos não contam: “O que nasce da carne é carne; o que nasce do Espírito é espírito” (Jo 3,6); é o que nasce do Espírito derramado na Páscoa do Senhor que dura para a Vida eterna, é isto que serve para o Reino...
Por isso, a resposta clara do Senhor nosso: “Quem é Minha mãe, e quem são Meus irmãos? Quem faz a vontade de Deus, esse é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe”. Em outras palavras: Seus parentes deveriam passar de uma relação simplesmente segundo a carne para uma nova relação: deveriam crer que Ele é o Messias, deveriam tornar-se discípulos. Também a Virgem: deveria ela passar de uma maternidade simplesmente biológica para uma maternidade segundo o Espírito. Efetivamente, isto aconteceu: vemos, depois, a Virgem santa como perfeita discípula, de pé junto à Cruz, pronta para ser Mãe segundo o Espírito, Mãe dos discípulos amados do Senhor, Mãe da Igreja (cf. Jo 19,25ss; At 1,14); vemos Tiago, Irmão do Senhor, agora discípulo, receber uma aparição especial do Cristo ressuscitado e ser o líder da comunidade cristã de Jerusalém (cf. 1Cor 15,7; Gl 2,9). Mas, tudo isto exigiria um longo caminho interior; exigiria, que peregrinassem na fé... Todos, sem exceção, devem peregrinar na fé, caminhar, saindo do seu modo de ver e sentir para o modo de ver e sentir de Deus! Quem não faz isto, não serve para o Reino de Deus...

Depois, aparece a atitude dos escribas e fariseus... Jesus curava enfermos, expulsava demônios, mostrando, assim, a chegada do Reino de Deus. As doenças eram vistas pelos antigos como fruto da ação de Satanás... O Senhor nosso Jesus Cristo, trazendo o Reino de Deus, expulsava o reinado de Satanás. Mas, o que diziam os escribas e fariseus? Ao invés de reconhecerem em Jesus o Enviado de Deus, o Messias que trazia o Reino, de má vontade, deram o veredito, tentando inclusive convencer o povo: “Ele estava possuído por Beelzebu!”Assim, procuravam desmoralizar Jesus e Sua obra – a obra de Deus, o cumprimento das promessas feitas pelo Eterno ao Seu povo de Israel!

O Senhor Jesus reagiu de modo claro: demonstrou a incoerência desses adversários: Satanás não pode expulsar Satanás; Satanás não destrói a obra de Satanás! Se Jesus estava destruindo o poder de Satanás, é porque Ele viera de Deus! O mundo e a inteira humanidade estavam misteriosamente sob o poder de Satanás, o “Príncipe deste mundo” (Jo 16,11; 2Cor 4,4); ele, aqui, era o forte, que possuía a “sua” casa, enraizada no fraco coração humano, escravizado pelo pecado, desde o Gênesis... Mas, agora, chegara o Senhor, o homem “mais forte” que “o forte”, que tomaria os seus bens! Sim: o Salvador nosso destroçou e destroça o poderio do Diabo sobre este mundo, sobre a humanidade, sobre a nossa vida e o nosso coração! Ele nos dá a liberdade dos filhos de Deus! Esta é a obra de Deus!

Por isso mesmo, a dura advertência do Senhor àqueles lá: eles cuidassem de não pecar contra o Senhor Deus, contra a ação do Seu Espírito que agia em Jesus: é pelo Espírito de Deus que Jesus realizava o que fazia (cf. Mt 12,28). Todo aquele que, vendo a ação do Espírito em Jesus nosso Senhor, para Ele se fecha por dureza, por maldade, por mesquinhez e comodismo, bloqueia a ação do Espírito de Deus em si, peca contra o Espírito Santo e, assim, exclui-se da salvação... E esta dureza pode tornar-se tal que seja definitiva e já não mais aquele lá se converta e receba a salvação, perdendo a Vida, a amizade com Deus neste mundo e no outro! É um aviso que serve para todos nós: não receber em vão a graça de Deus, não resistir ao Espírito do Senhor (cf. At 7,51; 2Cor 6,1).

Aparece também, neste texto, a atitude que o Senhor espera de todos nós: é a daqueles que, sentados ao redor Dele, O escutavam! Esses são Sua mãe e Seus irmãos, são os membros da Sua nova família, nascida do Espírito e não da carne; a família chamada Igreja!

Pois bem, olhemos bem para estas três atitudes e pensemos na nossa situação... Poderíamos até recordar daqueles três tipos de homens de que fala São Paulo: os carnais, que são os que se fecham para o Senhor; os psíquicos, que são os que ficam somente numa lógica à medida humana e, por fim, os espirituais, que se deixam transfigurar e guiar pelo Espírito do Cristo Senhor ressuscitado. Estes vivem segundo Cristo e têm em si os mesmos sentimentos do Cristo Jesus (cf. Fl 2,5; 1Cor 2,12-16; Rm 8,5s).


sábado, 9 de junho de 2018

Procurando o Sentido

Por falar em ateísmo, leia estes versos do escritor sueco Pär Lagerkvist, que bem coloca a angústia do homem à procura de um Absoluto no qual ancorar a existência, no qual garimpar o sentido de tudo:

É meu Amigo um desconhecido, alguém que não conheço.
Um Desconhecido distante, distante.
Por Ele o meu coração está cheio de saudades.
Por que Ele não está junto a mim?
Talvez porque não exista de verdade?

Quem és Tu, que preenches o meu coração com Tua ausência?
Que preenches toda a terra com a Tua ausência?


Homilia para o X Domingo Comum - Ano B

Gn 3,9-15
Sl 129
2Cor 4,13-18 – 5,1
Mc 3,20-35

Caríssimos, iniciemos a nossa meditação da Palavra que o Senhor nos dirige neste X Domingo Comum partindo da tremenda pergunta que o Senhor Deus fez aos nossos primeiros pais e nos faz a nós, filhos de Adão de todos os tempos: “Onde estás?” Onde te encontras, ó homem, com tua ânsia de ser como Deus, de ser dono da tua vida, de viver fechado em ti mesmo, no teu comodismo, na tua frieza, na tua autossuficiência, como se te bastasses? Onde estás, ó homem, bicho tirado do pó da terra, no qual soprei, com Meu Espírito, o desejo do Infinito?

E quão triste a situação do homem, a nossa situação: ei-lo envergonhado, ei-lo escondido! Envergonhado porque nu, escondido porque não se aceita na sua condição de pobre criatura e dela sente vergonha!
Somente quem é inocente como as crianças não sentiria vergonha da própria nudez!
Mas, o homem - eu você - esse bicho que deseja ser autônomo e se pensa Deus, como não se sentir envergonhado?
Então se esconde de Deus, atrás das tantas moitas que a vida lhe oferece: diversões, dispersão, poder, posses, dominação, prestígio, satisfação desmesurada dos instintos descontrolados! Quantas moitas para se esconder de Deus, para esconder, disfarçando a própria nudez!
E lá vai o homem, quebrado, jogando a culpa nos outros, no mundo, em Deus, no Diabo, contanto que se justifique e se desculpe a si próprio, sempre fugindo de si e da sua triste realidade, sempre se protegendo ilusoriamente com frágeis folhinhas de parreira!

Ao invés de fugir, desse esconder, Irmãos, seria mais útil, maduro e coerente abrir o coração ao Senhor, como o Salmista: “Das profundezas eu clamo a Vós, Senhor! Escutai a minha voz! Se levardes em conta as nossas faltas, quem poderá subsistir? Mas, em Vós se encontra o perdão: eu Vos temo e em Vós espero!” Eis aqui a atitude correta diante do Senhor, atitude que nós devemos cultivar, caros Irmãos, mas que, infelizmente, não é a nossa tendência! Naturalmente, diante do Senhor, nossa tendência ainda é aquela dos primeiros pais: a autonomia blasfema de nos fazer deuses de nós mesmos!
E isto aparece também no Evangelho de hoje: primeiro, nos adversários de Jesus, os escribas de Jerusalém que, afirmam logo, para desmoralizá-Lo, que Ele age pelos demônios! É um modo fácil, covarde de não escutar o Senhor, de não se dar ao trabalho de se deixar converter! Não temos nós a tendência de fazer o mesmo com aqueles que nos convidam à conversão, aqueles que com sua palavra ou seu modo de viver nos incomodam, sendo um sinal de Deus? Vemos tantas vezes isto, mesmo na Igreja: a tendência de fazer pouco caso e até criticar e combater verdadeiros sinais que o Senhor nos envia através da vida de pessoas santas, capazes de loucuras e radicalidades pelo Senhor! A sentença do Senhor é dura: isto é pecado contra aquilo que o Espírito de Deus suscita! Que coisa: sufocar o Espírito, contristá-Lo porque não cabe na nossa lógica tacanha, na nossa medida mesquinha! Cuidado, Irmãos! Cuidado para não pecarmos contra o Espírito! Não aconteça combatermos contra Deus!

Mas, há também aquele outro perigo: o dos parentes do Senhor: não reconhecê-Lo como presença de Deus, ficando num nível meramente humano! Quantas vezes nós, cristãos, somos incapazes de perceber a presença do Senhor nas pessoas, nos acontecimentos e até na Sua própria Palavra? Quantas vezes nossa fé é tão morna e somos tão cegos para enxergar! Ainda que não sejamos adversários como os escribas, somos realmente desconfiados como os parentes do Senhor, que chegam a levar a própria Virgem Santíssima com eles para trazerem Jesus para casa, querendo aprisiona-Lo numa simples relação humana, deste mundo! Irmãos no Senhor, tenhamos fé! Irmãos no Senhor, aprendamos a ver com o olhar de Deus, a medir com a medida do Coração de Deus! Não é possível que sejamos cristãos sendo tão terrenos e até mundanos no nosso modo de sentir e de ver!

Mas, estejamos certos, caríssimos: Jesus é o mais forte que derrota o forte, Jesus é o Vencedor da Morte que, vencendo o Príncipe deste mundo e o amarrando, nos dá a possibilidade de vencer o pecado em nós e no mundo. Por isso mesmo, por esta certeza, o ânimo contagioso de São Paulo, na segunda leitura de hoje: “Sustentado pelo mesmo espírito de fé, nós também cremos e, por isso, falamos,  certos de que Aquele Deus que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus!”
Ainda cremos realmente nisto, caríssimos: que nossa vida neste mundo caminha para a plenitude eterna, participando da Ressurreição de Jesus, nosso Senhor na glória do Céu?
Cremos que “mesmo que o nosso homem exterior – nossa humanidade nesta situação mortal – se vai arruinando, o nosso homem interior – com a Vida de Cristo, recebida no Batismo – vai se renovando, dia a dia”?
Levamos a sério que nos espera “uma Glória eterna e incomensurável?”
Temos realmente como certo que, em Cristo, o Vencedor do Pecado e da Morte, quando “a tenda em que moramos neste mundo for destruída, Deus nos dará uma outra morada no Céu, que não é obra de mãos humanas, mas que é eterna”, isto é, morada viva da Vida do Eterno?

Irmãos, não será que nossa frieza, o pouco vigor de muitos para ser generoso com o que é do Senhor não decorreria da falta  de fé verdadeira na Vida eterna, na recompensa que o Senhor nos prepara? – Falamos tanto da terra e tão pouco do céu!
Não será que estamos numa situação de marasmo, com uma visão meramente humana das coisas de Deus, como os parentes de Jesus?
Será que, às vezes, pior ainda, não estamos sendo adversários do Espírito de Deus, que Se manifesta em tantos que são entusiasmado radicalmente pelas coisas do Senhor, são, para nós e para o mundo, sinais do céu, e nós os criticamos?

Caríssimos, reconheçamo-nos pequenos, reconheçamo-nos deficientes diante do Senhor! Abramo-nos ao Seu Espírito: acreditemos, confiemos, deixemo-nos ser instrumentos generosos do Senhor na obra da salvação do mundo, vivendo o Cristo, testemunhando o Cristo, pregando o Cristo, para, vencido o Pecado e a Morte, participarmos “da Glória eterna e incomensurável que o Senhor nos prepara”. Amém.