quarta-feira, 13 de junho de 2018

Meu inimigo íntimo

Meu maior inimigo sou eu mesmo, que me busco a mim, a mim do meu jeito, que desejo ser feliz de uma felicidade feita à minha medida! Meu inimigo, que me prejudica, deforma, aliena: eu dono de mim, eu referência de mim, verdade de mim, fechado em mim…

Senhor, por compaixão, livra-me de mim do meu modo para que eu, inebriado pelo Teu Espírito, me encontre a mim do modo como Tu me pensaste! 

Senhor, eu sou caçador de mim: eu alienado procuro a mim na minha inteireza, na minha verdade, procuro a mim como Tu me pensaste, me amaste e me criaste!

Tira-me de mim segundo minha medida e joga-me em mim na Tua medida!
E a Tua medida para mim, eu sei qual é: é o Cristo Jesus, o Novo Adão, o Homem Perfeito, que me revela quem eu sou e o que devo me tornar!


Assim, Senhor, na potência vitoriosa do Teu Espírito - no Qual ressuscitaste Teu Filho Jesus, Homem Novo, verdadeiro Adão - dá-me os sentimentos de Cristo, o pensamento de Cristo, as atitudes de Cristo, a vida de Cristo, para que eu seja, enfim, eu mesmo, eu na minha inteira verdade, na minha plenitude, eu reconciliado Contigo e comigo mesmo, eu como Tu sonhaste comigo!



segunda-feira, 11 de junho de 2018

Assim abençoarás...


O Senhor te abençoe e te guarde!
Dele vem toda bênção; é por Ele que tudo existe:
o Santo disse, bem-disse,
e tudo existiu;
e eu existi. Existo!
O Senhor continue a bem-dizer, para que tudo permaneça na existência;
o Senhor me abençoe, te abençoe 
e nos guarde na Sua bênção.
E, então, nossa existência será real
e nossos dias terão consistência...

O Senhor te mostre a Sua Face e Se compadeça de ti!
Vivemos da compaixão do Eterno: graça, misericórdia, compaixão 
por toda a criação; por toda a criatura.
Sem tal compaixão, quem pode se salvar?
Onde o importante?
Onde o autossuficiente?
Onde o dono do seu próprio ser?
E a compaixão expande-se, revela-se, da Face bendita Daquele que É!
Quando Sua beleza se nos revela,
quando Seu Rosto se nos descortina,
tudo resplandece de ser, de vida, de paz, de reconciliação!
Sua Face é brilho esplendoroso, é luz
e sentido que aponta o Sentido!
E a treva é dissipada, e a névoa se desfaz,
deixando-nos ver o ser das coisas...
Face do Invisível, compaixão benigna, infinita, por toda criatura!
Face amável, Rosto adorável, Semblante que é a alegria do que existe!

O Senhor volte para ti o Seu olhar e te dê a paz!
Voltar-se, dirigir-se com atenção, com intenção para...
O Senhor volte amorosamente para ti o Seu olhar!
Para velar por ti,
cuidar de ti,
sondar teu coração,
acalentar teus sonhos, enxugar tuas lágrimas,
dirigir teus passos
e, ao fim do caminho, recolher tua vida.
Que o Seu olhar sobre ti seja benigno 
e que, em ti, Ele Se alegre com a obra de Suas próprias mãos 
e complete o que em ti começou.
Que Ele te olhe como olhou,
com amor,
o homem rico do caminho...
E nunca deixe de te importunar,
de tirar-te de ti mesmo,
de te chamar sempre de novo
e, assim, te dê a paz...
Paz sem sossego,
paz sem comodismo,
paz que faz desejar mais
e chorar e caminhar e ir sempre mais adiante,
peregrino, ansiando,
rico e pobre de uma vez,
em direção à Plenitude infinita...
O Senhor - bendito seja! - te dê esta paz,
o Senhor faça em ti habitar a Sua paz! Amém.




domingo, 10 de junho de 2018

O Reino que chega e o pecado contra o Espírito Santo

Caro Internauta, meu Leitor, proponho-lhe uma meditação a partir do evangelho de hoje, X Domingo Comum, deste ano B. O texto é Mc 3,20-35.

Jesus, nosso Senhor, voltou para Sua casa em Cafarnaum. Era o início do Seu ministério; as multidões, numerosas, procuravam o novo Pregador, que tantos milagres realizava e tanto ensinava sobre o Reino de Deus e as perguntas sobre Ele eram muitas (cf. 1,21-37.45b; 2,1-12; 3,1-12)...

Seus familiares não viam com bons olhos Sua missão. Não acreditavam Nele; “diziam que estava fora de Si”... Se pensarmos um pouco, é compreensível: Jesus nosso Senhor saiu de casa, deixando sozinha a mãe viúva e sem outros filhos... A mãe ficara, agora, aos cuidados da família, tanto que aparecia sempre sob a tutela dos parentes, os chamados “irmãos de Jesus”...Certamente, não faltavam críticas ao Senhor no seio de Sua família...
As notícias chegavam: as multidões, os milagres, as disputas com os escribas e fariseus... Sequer tinham tempo para comer... Os familiares temiam por Sua saúde física e mental... Foram buscá-Lo para trazê-Lo para casa... A Virgem também foi: era mãe e, como toda mãe, era cuidadosa pelo filho, e mesmo superprotetora, como toda boa mãe humana...
Chegando onde Jesus nosso Senhor Se encontrava, ficaram de fora e mandaram chamá-Lo . Apresentaram-se: “Tua Mãe e Teus irmãos...” Mas, no Reino de Deus, os laços biológicos não contam: “O que nasce da carne é carne; o que nasce do Espírito é espírito” (Jo 3,6); é o que nasce do Espírito derramado na Páscoa do Senhor que dura para a Vida eterna, é isto que serve para o Reino...
Por isso, a resposta clara do Senhor nosso: “Quem é Minha mãe, e quem são Meus irmãos? Quem faz a vontade de Deus, esse é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe”. Em outras palavras: Seus parentes deveriam passar de uma relação simplesmente segundo a carne para uma nova relação: deveriam crer que Ele é o Messias, deveriam tornar-se discípulos. Também a Virgem: deveria ela passar de uma maternidade simplesmente biológica para uma maternidade segundo o Espírito. Efetivamente, isto aconteceu: vemos, depois, a Virgem santa como perfeita discípula, de pé junto à Cruz, pronta para ser Mãe segundo o Espírito, Mãe dos discípulos amados do Senhor, Mãe da Igreja (cf. Jo 19,25ss; At 1,14); vemos Tiago, Irmão do Senhor, agora discípulo, receber uma aparição especial do Cristo ressuscitado e ser o líder da comunidade cristã de Jerusalém (cf. 1Cor 15,7; Gl 2,9). Mas, tudo isto exigiria um longo caminho interior; exigiria, que peregrinassem na fé... Todos, sem exceção, devem peregrinar na fé, caminhar, saindo do seu modo de ver e sentir para o modo de ver e sentir de Deus! Quem não faz isto, não serve para o Reino de Deus...

Depois, aparece a atitude dos escribas e fariseus... Jesus curava enfermos, expulsava demônios, mostrando, assim, a chegada do Reino de Deus. As doenças eram vistas pelos antigos como fruto da ação de Satanás... O Senhor nosso Jesus Cristo, trazendo o Reino de Deus, expulsava o reinado de Satanás. Mas, o que diziam os escribas e fariseus? Ao invés de reconhecerem em Jesus o Enviado de Deus, o Messias que trazia o Reino, de má vontade, deram o veredito, tentando inclusive convencer o povo: “Ele estava possuído por Beelzebu!”Assim, procuravam desmoralizar Jesus e Sua obra – a obra de Deus, o cumprimento das promessas feitas pelo Eterno ao Seu povo de Israel!

O Senhor Jesus reagiu de modo claro: demonstrou a incoerência desses adversários: Satanás não pode expulsar Satanás; Satanás não destrói a obra de Satanás! Se Jesus estava destruindo o poder de Satanás, é porque Ele viera de Deus! O mundo e a inteira humanidade estavam misteriosamente sob o poder de Satanás, o “Príncipe deste mundo” (Jo 16,11; 2Cor 4,4); ele, aqui, era o forte, que possuía a “sua” casa, enraizada no fraco coração humano, escravizado pelo pecado, desde o Gênesis... Mas, agora, chegara o Senhor, o homem “mais forte” que “o forte”, que tomaria os seus bens! Sim: o Salvador nosso destroçou e destroça o poderio do Diabo sobre este mundo, sobre a humanidade, sobre a nossa vida e o nosso coração! Ele nos dá a liberdade dos filhos de Deus! Esta é a obra de Deus!

Por isso mesmo, a dura advertência do Senhor àqueles lá: eles cuidassem de não pecar contra o Senhor Deus, contra a ação do Seu Espírito que agia em Jesus: é pelo Espírito de Deus que Jesus realizava o que fazia (cf. Mt 12,28). Todo aquele que, vendo a ação do Espírito em Jesus nosso Senhor, para Ele se fecha por dureza, por maldade, por mesquinhez e comodismo, bloqueia a ação do Espírito de Deus em si, peca contra o Espírito Santo e, assim, exclui-se da salvação... E esta dureza pode tornar-se tal que seja definitiva e já não mais aquele lá se converta e receba a salvação, perdendo a Vida, a amizade com Deus neste mundo e no outro! É um aviso que serve para todos nós: não receber em vão a graça de Deus, não resistir ao Espírito do Senhor (cf. At 7,51; 2Cor 6,1).

Aparece também, neste texto, a atitude que o Senhor espera de todos nós: é a daqueles que, sentados ao redor Dele, O escutavam! Esses são Sua mãe e Seus irmãos, são os membros da Sua nova família, nascida do Espírito e não da carne; a família chamada Igreja!

Pois bem, olhemos bem para estas três atitudes e pensemos na nossa situação... Poderíamos até recordar daqueles três tipos de homens de que fala São Paulo: os carnais, que são os que se fecham para o Senhor; os psíquicos, que são os que ficam somente numa lógica à medida humana e, por fim, os espirituais, que se deixam transfigurar e guiar pelo Espírito do Cristo Senhor ressuscitado. Estes vivem segundo Cristo e têm em si os mesmos sentimentos do Cristo Jesus (cf. Fl 2,5; 1Cor 2,12-16; Rm 8,5s).


sábado, 9 de junho de 2018

Procurando o Sentido

Por falar em ateísmo, leia estes versos do escritor sueco Pär Lagerkvist, que bem coloca a angústia do homem à procura de um Absoluto no qual ancorar a existência, no qual garimpar o sentido de tudo:

É meu Amigo um desconhecido, alguém que não conheço.
Um Desconhecido distante, distante.
Por Ele o meu coração está cheio de saudades.
Por que Ele não está junto a mim?
Talvez porque não exista de verdade?

Quem és Tu, que preenches o meu coração com Tua ausência?
Que preenches toda a terra com a Tua ausência?


Homilia para o X Domingo Comum - Ano B

Gn 3,9-15
Sl 129
2Cor 4,13-18 – 5,1
Mc 3,20-35

Caríssimos, iniciemos a nossa meditação da Palavra que o Senhor nos dirige neste X Domingo Comum partindo da tremenda pergunta que o Senhor Deus fez aos nossos primeiros pais e nos faz a nós, filhos de Adão de todos os tempos: “Onde estás?” Onde te encontras, ó homem, com tua ânsia de ser como Deus, de ser dono da tua vida, de viver fechado em ti mesmo, no teu comodismo, na tua frieza, na tua autossuficiência, como se te bastasses? Onde estás, ó homem, bicho tirado do pó da terra, no qual soprei, com Meu Espírito, o desejo do Infinito?

E quão triste a situação do homem, a nossa situação: ei-lo envergonhado, ei-lo escondido! Envergonhado porque nu, escondido porque não se aceita na sua condição de pobre criatura e dela sente vergonha!
Somente quem é inocente como as crianças não sentiria vergonha da própria nudez!
Mas, o homem - eu você - esse bicho que deseja ser autônomo e se pensa Deus, como não se sentir envergonhado?
Então se esconde de Deus, atrás das tantas moitas que a vida lhe oferece: diversões, dispersão, poder, posses, dominação, prestígio, satisfação desmesurada dos instintos descontrolados! Quantas moitas para se esconder de Deus, para esconder, disfarçando a própria nudez!
E lá vai o homem, quebrado, jogando a culpa nos outros, no mundo, em Deus, no Diabo, contanto que se justifique e se desculpe a si próprio, sempre fugindo de si e da sua triste realidade, sempre se protegendo ilusoriamente com frágeis folhinhas de parreira!

Ao invés de fugir, desse esconder, Irmãos, seria mais útil, maduro e coerente abrir o coração ao Senhor, como o Salmista: “Das profundezas eu clamo a Vós, Senhor! Escutai a minha voz! Se levardes em conta as nossas faltas, quem poderá subsistir? Mas, em Vós se encontra o perdão: eu Vos temo e em Vós espero!” Eis aqui a atitude correta diante do Senhor, atitude que nós devemos cultivar, caros Irmãos, mas que, infelizmente, não é a nossa tendência! Naturalmente, diante do Senhor, nossa tendência ainda é aquela dos primeiros pais: a autonomia blasfema de nos fazer deuses de nós mesmos!
E isto aparece também no Evangelho de hoje: primeiro, nos adversários de Jesus, os escribas de Jerusalém que, afirmam logo, para desmoralizá-Lo, que Ele age pelos demônios! É um modo fácil, covarde de não escutar o Senhor, de não se dar ao trabalho de se deixar converter! Não temos nós a tendência de fazer o mesmo com aqueles que nos convidam à conversão, aqueles que com sua palavra ou seu modo de viver nos incomodam, sendo um sinal de Deus? Vemos tantas vezes isto, mesmo na Igreja: a tendência de fazer pouco caso e até criticar e combater verdadeiros sinais que o Senhor nos envia através da vida de pessoas santas, capazes de loucuras e radicalidades pelo Senhor! A sentença do Senhor é dura: isto é pecado contra aquilo que o Espírito de Deus suscita! Que coisa: sufocar o Espírito, contristá-Lo porque não cabe na nossa lógica tacanha, na nossa medida mesquinha! Cuidado, Irmãos! Cuidado para não pecarmos contra o Espírito! Não aconteça combatermos contra Deus!

Mas, há também aquele outro perigo: o dos parentes do Senhor: não reconhecê-Lo como presença de Deus, ficando num nível meramente humano! Quantas vezes nós, cristãos, somos incapazes de perceber a presença do Senhor nas pessoas, nos acontecimentos e até na Sua própria Palavra? Quantas vezes nossa fé é tão morna e somos tão cegos para enxergar! Ainda que não sejamos adversários como os escribas, somos realmente desconfiados como os parentes do Senhor, que chegam a levar a própria Virgem Santíssima com eles para trazerem Jesus para casa, querendo aprisiona-Lo numa simples relação humana, deste mundo! Irmãos no Senhor, tenhamos fé! Irmãos no Senhor, aprendamos a ver com o olhar de Deus, a medir com a medida do Coração de Deus! Não é possível que sejamos cristãos sendo tão terrenos e até mundanos no nosso modo de sentir e de ver!

Mas, estejamos certos, caríssimos: Jesus é o mais forte que derrota o forte, Jesus é o Vencedor da Morte que, vencendo o Príncipe deste mundo e o amarrando, nos dá a possibilidade de vencer o pecado em nós e no mundo. Por isso mesmo, por esta certeza, o ânimo contagioso de São Paulo, na segunda leitura de hoje: “Sustentado pelo mesmo espírito de fé, nós também cremos e, por isso, falamos,  certos de que Aquele Deus que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus!”
Ainda cremos realmente nisto, caríssimos: que nossa vida neste mundo caminha para a plenitude eterna, participando da Ressurreição de Jesus, nosso Senhor na glória do Céu?
Cremos que “mesmo que o nosso homem exterior – nossa humanidade nesta situação mortal – se vai arruinando, o nosso homem interior – com a Vida de Cristo, recebida no Batismo – vai se renovando, dia a dia”?
Levamos a sério que nos espera “uma Glória eterna e incomensurável?”
Temos realmente como certo que, em Cristo, o Vencedor do Pecado e da Morte, quando “a tenda em que moramos neste mundo for destruída, Deus nos dará uma outra morada no Céu, que não é obra de mãos humanas, mas que é eterna”, isto é, morada viva da Vida do Eterno?

Irmãos, não será que nossa frieza, o pouco vigor de muitos para ser generoso com o que é do Senhor não decorreria da falta  de fé verdadeira na Vida eterna, na recompensa que o Senhor nos prepara? – Falamos tanto da terra e tão pouco do céu!
Não será que estamos numa situação de marasmo, com uma visão meramente humana das coisas de Deus, como os parentes de Jesus?
Será que, às vezes, pior ainda, não estamos sendo adversários do Espírito de Deus, que Se manifesta em tantos que são entusiasmado radicalmente pelas coisas do Senhor, são, para nós e para o mundo, sinais do céu, e nós os criticamos?

Caríssimos, reconheçamo-nos pequenos, reconheçamo-nos deficientes diante do Senhor! Abramo-nos ao Seu Espírito: acreditemos, confiemos, deixemo-nos ser instrumentos generosos do Senhor na obra da salvação do mundo, vivendo o Cristo, testemunhando o Cristo, pregando o Cristo, para, vencido o Pecado e a Morte, participarmos “da Glória eterna e incomensurável que o Senhor nos prepara”. Amém.


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Coração de homem, Coração de Deus!

Hoje, a Igreja celebrou o Coração de Jesus. É uma festa de sentido belo e profundo.

Na Sagrada Escritura, a palavra coração (leb ou lebab), indica o íntimo do homem, o núcleo mais profundo de sua consciência.
Dizer coração é dizer a personalidade, os sonhos, os sentimentos, os pensamentos de alguém. Coração, no sentido bíblico, é muito mais do que coração no nosso português corrente, que indica somente sentimento, afeto.

Coração de Jesus significa, então, a personalidade humana do Salvador: Seus pensamentos, Seus sonhos, Seus projetos, Seu amor, Seus sentimentos, Suas solidões e lutas – tudo quanto o Filho de Deus feito homem viveu humanamente por nós e como nós. No Coração de Cristo, Deus Se revela de modo humano, Deus Se mostra humanamente!

Assim, olhando o caminho humano de Cristo, Sua aventura entre nós, iniciada no ventre da Virgem e terminada na Cruz, nós podemos descobrir de modo humano o Coração do próprio Deus.
Isto mesmo: o Coração de Cristo é Coração de homem e, ao mesmo tempo, revela o Coração do Pai!

O que descobrimos nesse Coração?
Doçura, amor, compaixão, misericórdia, capacidade de se comover, abertura para as misérias e dores alheias. Portanto, contemplar o Coração de Jesus é descobrir o quanto o nosso Deus é amor, ternura e piedade. Daí o convite do próprio Jesus: “Vinde a Mim; aprendei de Mim: Eu sou manso e humilde de coração! Achareis descanso para vossas vidas!”

A melhor imagem para compreendermos o mistério do Coração de Jesus é a do Cristo crucificado, morto, com Seu lado traspassado, do qual vertem a água do Batismo e o sangue da Eucaristia.
A imagem é forte: uma vida entregue totalmente por amor, que abre o coração para nos agasalhar e nos saciar com a graça dos sacramentos, dando-nos Vida divina sempre nova. Eis, no Coração de Jesus: um Deus que Se esgota por amor, sem jamais desistir de amar e dar a Vida! Deus surpreendente, Esse que Se manifesta no Coração do Salvador!

Num mundo estressado, que nos faz tantas vezes experimentar o desamparo, o desânimo, o medo e a incapacidade ante os desafios da existência, aprendamos a nos refugiar naquele Coração, lado aberto, traspassado por nosso amor!
Basta de prepotência! Basta de autossuficiência! Basta de pensarmos que nos bastamos a nós mesmos e podemos ser felizes sozinhos, prescindindo do amor de Deus!

Seja o Coração de Cristo o nosso modelo de verdadeira humanidade; seja o nosso refúgio, seja o nosso amparo, seja o início da nossa alegria de ter um Deus-amor na terra que será nosso Deus-descanso no Céu!

Jesus, manso e humilde de Coração, fazei o nosso coração semelhante ao Vosso!


quinta-feira, 7 de junho de 2018

Ao Deus que não existe!


Só para recordar, o poema de Miguel de Unamuno, o ateu inquieto: "Ó Deus que não existes! Que pena que Tu não existas, pois se existisses, eu também existiria de verdade!" 
Eis aqui um ateu que tem muito a nos dizer e a nos fazer pensar! Eis um pérola sua: “Aqueles que acreditam que creem em Deus, mas sem paixão em seu coração, sem angústia mental, sem incertezas, sem dúvidas, e às vezes até mesmo sem desespero, creem apenas na ideia de Deus, mas não no próprio Deus”.

E, no entanto, sem Deus - ao menos sem a sincera procura por Deus! -, a existência é sem sentido! Ponto e basta: não há onde ancorá-la, não há um sentido mais profundo que ela possa ter!

Com a palavra, do fundo do coração, Miguel de Unamuno:

Ouve meus rogos Tu, Deus que não existes,
e em Teu nada recolhe estes meus lamentos!

Tu, que aos pobres homens nunca deixas
sem consolo de engano. Não resistes
ao nosso rogo, e o nosso anelo viste.

Quando mais Te afastas de minha mente,
mais recordo os doces conselhos
com que minh’alma acalentou certa vez noites tão tristes.

Quão grande és, meu Deus! Tu és tão grande,
que não és mais senão Ideia; é muito estreita
a realidade por muito que se expande
para abarcar-Te.

Sofro eu por Tua causa,
Deus não existente, pois se Tu fosses de fato realidade,
também eu existiria de verdade.