sábado, 9 de junho de 2018

Homilia para o X Domingo Comum - Ano B

Gn 3,9-15
Sl 129
2Cor 4,13-18 – 5,1
Mc 3,20-35

Caríssimos, iniciemos a nossa meditação da Palavra que o Senhor nos dirige neste X Domingo Comum partindo da tremenda pergunta que o Senhor Deus fez aos nossos primeiros pais e nos faz a nós, filhos de Adão de todos os tempos: “Onde estás?” Onde te encontras, ó homem, com tua ânsia de ser como Deus, de ser dono da tua vida, de viver fechado em ti mesmo, no teu comodismo, na tua frieza, na tua autossuficiência, como se te bastasses? Onde estás, ó homem, bicho tirado do pó da terra, no qual soprei, com Meu Espírito, o desejo do Infinito?

E quão triste a situação do homem, a nossa situação: ei-lo envergonhado, ei-lo escondido! Envergonhado porque nu, escondido porque não se aceita na sua condição de pobre criatura e dela sente vergonha!
Somente quem é inocente como as crianças não sentiria vergonha da própria nudez!
Mas, o homem - eu você - esse bicho que deseja ser autônomo e se pensa Deus, como não se sentir envergonhado?
Então se esconde de Deus, atrás das tantas moitas que a vida lhe oferece: diversões, dispersão, poder, posses, dominação, prestígio, satisfação desmesurada dos instintos descontrolados! Quantas moitas para se esconder de Deus, para esconder, disfarçando a própria nudez!
E lá vai o homem, quebrado, jogando a culpa nos outros, no mundo, em Deus, no Diabo, contanto que se justifique e se desculpe a si próprio, sempre fugindo de si e da sua triste realidade, sempre se protegendo ilusoriamente com frágeis folhinhas de parreira!

Ao invés de fugir, desse esconder, Irmãos, seria mais útil, maduro e coerente abrir o coração ao Senhor, como o Salmista: “Das profundezas eu clamo a Vós, Senhor! Escutai a minha voz! Se levardes em conta as nossas faltas, quem poderá subsistir? Mas, em Vós se encontra o perdão: eu Vos temo e em Vós espero!” Eis aqui a atitude correta diante do Senhor, atitude que nós devemos cultivar, caros Irmãos, mas que, infelizmente, não é a nossa tendência! Naturalmente, diante do Senhor, nossa tendência ainda é aquela dos primeiros pais: a autonomia blasfema de nos fazer deuses de nós mesmos!
E isto aparece também no Evangelho de hoje: primeiro, nos adversários de Jesus, os escribas de Jerusalém que, afirmam logo, para desmoralizá-Lo, que Ele age pelos demônios! É um modo fácil, covarde de não escutar o Senhor, de não se dar ao trabalho de se deixar converter! Não temos nós a tendência de fazer o mesmo com aqueles que nos convidam à conversão, aqueles que com sua palavra ou seu modo de viver nos incomodam, sendo um sinal de Deus? Vemos tantas vezes isto, mesmo na Igreja: a tendência de fazer pouco caso e até criticar e combater verdadeiros sinais que o Senhor nos envia através da vida de pessoas santas, capazes de loucuras e radicalidades pelo Senhor! A sentença do Senhor é dura: isto é pecado contra aquilo que o Espírito de Deus suscita! Que coisa: sufocar o Espírito, contristá-Lo porque não cabe na nossa lógica tacanha, na nossa medida mesquinha! Cuidado, Irmãos! Cuidado para não pecarmos contra o Espírito! Não aconteça combatermos contra Deus!

Mas, há também aquele outro perigo: o dos parentes do Senhor: não reconhecê-Lo como presença de Deus, ficando num nível meramente humano! Quantas vezes nós, cristãos, somos incapazes de perceber a presença do Senhor nas pessoas, nos acontecimentos e até na Sua própria Palavra? Quantas vezes nossa fé é tão morna e somos tão cegos para enxergar! Ainda que não sejamos adversários como os escribas, somos realmente desconfiados como os parentes do Senhor, que chegam a levar a própria Virgem Santíssima com eles para trazerem Jesus para casa, querendo aprisiona-Lo numa simples relação humana, deste mundo! Irmãos no Senhor, tenhamos fé! Irmãos no Senhor, aprendamos a ver com o olhar de Deus, a medir com a medida do Coração de Deus! Não é possível que sejamos cristãos sendo tão terrenos e até mundanos no nosso modo de sentir e de ver!

Mas, estejamos certos, caríssimos: Jesus é o mais forte que derrota o forte, Jesus é o Vencedor da Morte que, vencendo o Príncipe deste mundo e o amarrando, nos dá a possibilidade de vencer o pecado em nós e no mundo. Por isso mesmo, por esta certeza, o ânimo contagioso de São Paulo, na segunda leitura de hoje: “Sustentado pelo mesmo espírito de fé, nós também cremos e, por isso, falamos,  certos de que Aquele Deus que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus!”
Ainda cremos realmente nisto, caríssimos: que nossa vida neste mundo caminha para a plenitude eterna, participando da Ressurreição de Jesus, nosso Senhor na glória do Céu?
Cremos que “mesmo que o nosso homem exterior – nossa humanidade nesta situação mortal – se vai arruinando, o nosso homem interior – com a Vida de Cristo, recebida no Batismo – vai se renovando, dia a dia”?
Levamos a sério que nos espera “uma Glória eterna e incomensurável?”
Temos realmente como certo que, em Cristo, o Vencedor do Pecado e da Morte, quando “a tenda em que moramos neste mundo for destruída, Deus nos dará uma outra morada no Céu, que não é obra de mãos humanas, mas que é eterna”, isto é, morada viva da Vida do Eterno?

Irmãos, não será que nossa frieza, o pouco vigor de muitos para ser generoso com o que é do Senhor não decorreria da falta  de fé verdadeira na Vida eterna, na recompensa que o Senhor nos prepara? – Falamos tanto da terra e tão pouco do céu!
Não será que estamos numa situação de marasmo, com uma visão meramente humana das coisas de Deus, como os parentes de Jesus?
Será que, às vezes, pior ainda, não estamos sendo adversários do Espírito de Deus, que Se manifesta em tantos que são entusiasmado radicalmente pelas coisas do Senhor, são, para nós e para o mundo, sinais do céu, e nós os criticamos?

Caríssimos, reconheçamo-nos pequenos, reconheçamo-nos deficientes diante do Senhor! Abramo-nos ao Seu Espírito: acreditemos, confiemos, deixemo-nos ser instrumentos generosos do Senhor na obra da salvação do mundo, vivendo o Cristo, testemunhando o Cristo, pregando o Cristo, para, vencido o Pecado e a Morte, participarmos “da Glória eterna e incomensurável que o Senhor nos prepara”. Amém.


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Coração de homem, Coração de Deus!

Hoje, a Igreja celebrou o Coração de Jesus. É uma festa de sentido belo e profundo.

Na Sagrada Escritura, a palavra coração (leb ou lebab), indica o íntimo do homem, o núcleo mais profundo de sua consciência.
Dizer coração é dizer a personalidade, os sonhos, os sentimentos, os pensamentos de alguém. Coração, no sentido bíblico, é muito mais do que coração no nosso português corrente, que indica somente sentimento, afeto.

Coração de Jesus significa, então, a personalidade humana do Salvador: Seus pensamentos, Seus sonhos, Seus projetos, Seu amor, Seus sentimentos, Suas solidões e lutas – tudo quanto o Filho de Deus feito homem viveu humanamente por nós e como nós. No Coração de Cristo, Deus Se revela de modo humano, Deus Se mostra humanamente!

Assim, olhando o caminho humano de Cristo, Sua aventura entre nós, iniciada no ventre da Virgem e terminada na Cruz, nós podemos descobrir de modo humano o Coração do próprio Deus.
Isto mesmo: o Coração de Cristo é Coração de homem e, ao mesmo tempo, revela o Coração do Pai!

O que descobrimos nesse Coração?
Doçura, amor, compaixão, misericórdia, capacidade de se comover, abertura para as misérias e dores alheias. Portanto, contemplar o Coração de Jesus é descobrir o quanto o nosso Deus é amor, ternura e piedade. Daí o convite do próprio Jesus: “Vinde a Mim; aprendei de Mim: Eu sou manso e humilde de coração! Achareis descanso para vossas vidas!”

A melhor imagem para compreendermos o mistério do Coração de Jesus é a do Cristo crucificado, morto, com Seu lado traspassado, do qual vertem a água do Batismo e o sangue da Eucaristia.
A imagem é forte: uma vida entregue totalmente por amor, que abre o coração para nos agasalhar e nos saciar com a graça dos sacramentos, dando-nos Vida divina sempre nova. Eis, no Coração de Jesus: um Deus que Se esgota por amor, sem jamais desistir de amar e dar a Vida! Deus surpreendente, Esse que Se manifesta no Coração do Salvador!

Num mundo estressado, que nos faz tantas vezes experimentar o desamparo, o desânimo, o medo e a incapacidade ante os desafios da existência, aprendamos a nos refugiar naquele Coração, lado aberto, traspassado por nosso amor!
Basta de prepotência! Basta de autossuficiência! Basta de pensarmos que nos bastamos a nós mesmos e podemos ser felizes sozinhos, prescindindo do amor de Deus!

Seja o Coração de Cristo o nosso modelo de verdadeira humanidade; seja o nosso refúgio, seja o nosso amparo, seja o início da nossa alegria de ter um Deus-amor na terra que será nosso Deus-descanso no Céu!

Jesus, manso e humilde de Coração, fazei o nosso coração semelhante ao Vosso!


quinta-feira, 7 de junho de 2018

Ao Deus que não existe!


Só para recordar, o poema de Miguel de Unamuno, o ateu inquieto: "Ó Deus que não existes! Que pena que Tu não existas, pois se existisses, eu também existiria de verdade!" 
Eis aqui um ateu que tem muito a nos dizer e a nos fazer pensar! Eis um pérola sua: “Aqueles que acreditam que creem em Deus, mas sem paixão em seu coração, sem angústia mental, sem incertezas, sem dúvidas, e às vezes até mesmo sem desespero, creem apenas na ideia de Deus, mas não no próprio Deus”.

E, no entanto, sem Deus - ao menos sem a sincera procura por Deus! -, a existência é sem sentido! Ponto e basta: não há onde ancorá-la, não há um sentido mais profundo que ela possa ter!

Com a palavra, do fundo do coração, Miguel de Unamuno:

Ouve meus rogos Tu, Deus que não existes,
e em Teu nada recolhe estes meus lamentos!

Tu, que aos pobres homens nunca deixas
sem consolo de engano. Não resistes
ao nosso rogo, e o nosso anelo viste.

Quando mais Te afastas de minha mente,
mais recordo os doces conselhos
com que minh’alma acalentou certa vez noites tão tristes.

Quão grande és, meu Deus! Tu és tão grande,
que não és mais senão Ideia; é muito estreita
a realidade por muito que se expande
para abarcar-Te.

Sofro eu por Tua causa,
Deus não existente, pois se Tu fosses de fato realidade,
também eu existiria de verdade.


quarta-feira, 6 de junho de 2018

Jesus, doce Jesus!

Jesus, amado Jesus!

Luz no meio da noite,

Consolo na tribulação,

Certeza nas dúvidas,

Única resposta às infinitas perguntas,

Doçura do coração que procura,

Repouso do que caminha,

Paraíso dos exilados!



Jesus,

minha pátria,

minha família,

minha herança,

meu amigo,

minha riqueza,

Amor do qual tenho sede,

Vida pela qual anseio,

Sentido dos meus dias,

Rumo da minha existência,

Certeza dos meus passos,

Céu de minha eternidade!


Jesus! Único, Eterno, Amável,

o mais belo dos filhos de Adão!



Jesus!

Salvador e Senhor meu e do mundo inteiro!


terça-feira, 5 de junho de 2018

Ó Beleza tão antiga e tão nova!

Recordei, hoje, de uma ocasião em que apreciava algumas obras de arte. Alguém me perguntou, diante de algumas pinturas de várias escolas, estilos e épocas, de qual eu mais gostava. Apontei uma, que decepcionou meu interlocutor: “O senhor, tão jovem, com um gosto tão acadêmico?!”
Não! Não é gosto acadêmico! É sede do simplesmente belo, sereno reflexo da beleza que Deus escondeu em todas as coisas!

Segundo Joseph Ratzinger, a arte cristã, hoje, encontra-se num dilema: por um lado, deve opor-se ao culto da feiura, que diz que tudo o que é belo é uma ilusão e que só a representação do cruel, baixo e vulgar é a verdade, a verdadeira luz do conhecimento, que exprime a crua e verdadeira realidade. Nesta linha, pense-se na grosseria das novelas e filmes, pense-se em certa arte que se compraz no bizarro, no exótico e hermético e até mesmo, em nome de certo tipo de denúncia, no simplesmente grotesco... No fundo, tal arte exprime o não-sentido, o absurdo de uma realidade que não é fruto de um Logos, de um Amor eterno e, portanto, de um Sentido que preenche toda a realidade. No fundo, trata-se de uma arte ateia...

Por outro, deve a sensibilidade artística cristã contrapor-se à beleza fraudulenta, que faz com que o ser humano se rebaixe ao invés de fazê-lo grande, e que, por essa razão, é falsa. Aqui, nesta falsa beleza, temos a arte do culto da forma sem conteúdo, como, por exemplo, a exposição do corpo humano, reduzido a objeto de sedução e incitação ao erotismo claro ou implícito... Nesta linha, a realidade aparece desprovida de consistência: tudo é reduzido a consumo e satisfação dos próprios sentidos: fica-se na casca, na aparência das coisas, sem a capacidade de contemplar realmente o ser em toda a sua beleza e em todo o seu mistério! Nunca deveríamos esquecer que o ser, pelo simples fato de ser, de ter escapado do nada, é digno de admiração e profundo respeito, afinal ele, por ser, torna-se gramática de um Criador, do Criador, Daquele que, sendo o próprio Ser, fonte de todo ser, chamou tudo do nada e conferiu-lhe um sentido!

Ratzinger invoca a famosa a frase do grande escritor russo, Dostoievsky: “A beleza salvará o mundo”. A que beleza alude o ilustre pensador? Refere-se ele àquela Beleza de que fala Santa Teresa d’Ávila: “Formosura que excedeis a toda formosura, sem ferir dor fazeis e sem dor desfazeis o amor da criatura!” Sim, a Beleza suprema que nos é dada a contemplar neste mundo, a Beleza, critério de toda outra beleza, a norma de toda estética realmente libertadora, é a Beleza redentora de Cristo, o Crucificado e Ressuscitado!

Precisamos aprender a contemplá-Lo, contemplar a beleza do Cristo – insiste Ratzinger. Contemplar significa entrar em simpatia, em sintonia com a estupenda realidade que Ele representa e produz no mundo: um Amor que Se doa totalmente para nos redimir, para nos divinizar! Um Amor que revela o sentido último de toda a realidade, mesmo a mais dolorosa e aparentemente absurda! Sem este Amor, o mundo morre sufocado pela banalidade e a feiura! Se nós O conhecermos, não apenas nas palavras, mas se formos trespassados pela flecha da Sua beleza paradoxal,  - e só então O conheceremos verdadeiramente -, e não apenas porque ouvimos outras pessoas falando a Seu respeito, então teremos encontrado a beleza da Verdade, da Verdade que redime e seremos Suas felizes e entusiasmadas testemunhas!

Mas, precisamente aqui encontramo-nos na profunda crise do cristianismo atual, da Igreja dos nossos dias: perdemos o sentido da Beleza, do gozo de contemplar desinteressadamente! Nossa fé, nossa liturgia, nossa teologia tornaram-se demasiadamente conceituais, cartesianas!
Há quem possa realmente alimentar sua fé, sua paixão por Cristo com a enorme maioria de nossas missas barulhentas, cheias de comentários, entupidas de paramentos de mal gosto, artificialmente criados por modas discutíveis? Há devoção que suporte uma missa na qual o padre inventa os gestos como um animador de auditório ou não exprime os gestos indicados no missal – gestos que não são seus, mas de Cristo e da Igreja? E os comentários dos nossos folhetos e livretos litúrgicos? E o “reino”(= sociedade socialista), que substituiu Jesus? E a cruz retirada de nossos presbitérios? E a teologia escrita por gente sem fé e sem espírito contemplativo: teologia racionalista e rasteira, que eleva tanto quanto um voo de galinha?

Nada pode pôr-nos em contato tão próximo com a beleza do próprio Cristo como o mundo de beleza criado ao longo dos séculos pela fé e a luz que brilha na face dos santos, através dos quais a própria luz do Senhor se torna visível.
É pela falta dessa realidade que sentimos o peso de um cristianismo sem graça, de uma Igreja muitas vezes burocrática, seca, de uma falta de espiritualidade sólida e profunda... É preciso urgentemente uma Igreja que volte ao silêncio, que volte ao belo, que volte ao rito litúrgico, que volte ao Cristo, que seja Seu sacramento, espaço palpável de Sua presença neste mundo ferido e cansado! 


segunda-feira, 4 de junho de 2018

Arraigados na fé apostólica


Para você, caro Leitor, este importante texto do famoso teólogo africano do século II, Tertuliano:

Cada coisa deve ser caracterizada segundo a sua origem. Por essa razão, todas as Igrejas, por mais que sejam numerosas e grandes, procedem todas de uma única primitiva Igreja apostólica.

+++++
Observações minhas:
Primeiramente, é importante compreender que na grande Tradição da Igreja, herdada do Novo Testamento, todas as vezes que se utiliza “Igrejas” no plural está-se referindo ou às Igrejas locais, isto é, às dioceses, ou às comunidades concretas reunidas para a Eucaristia. Aqui, neste texto, Tertuliano refere-se ao que hoje chamamos dioceses.
Observe-se como não se pensa nem se prega nem se ensina que a Igreja vem da Bíblia! As Igrejas de Deus nascem da Tradição Apostólica, que é a pregação, a vida e as Escrituras canônicas da própria Igreja. Nenhuma Igreja é Apostólica se não está na comunhão de fé e de origem com a Igreja apostólica!
+++++

Essa unidade é atestada pelo fato de que elas se comunicam reciprocamente na paz, chamam-se pelo nome de irmãs e se acolhem com hospitalidade.
Esse estilo de vida não é regido por outra lei a não ser a única Tradição do mesmo sacramento.

+++++
Observações minhas:
No cristianismo antigo, as Igrejas exprimiam a sua comunhão umas com as outras pelas cartas de comunhão, pelos símbolos de fé e, sobretudo, pela hospitalidade eucarística. As cartas de comunhão eram escritos de uma Igreja para as outras, seja para comunicar o nome do novo Bispo que tomara posse, seja para apresentar cristãos de uma Igreja que viajavam e deveriam hospedar-se entre os cristãos de outra Igreja. Uma Igreja aceitar a carta de comunhão de outra era expressão de estar em comunhão de fé e de caridade com aquela que enviara a carta. Os símbolos de fé, ainda como hoje, eram resumos dos principais artigos da fé. Serviam como uma carteira de identidade para averiguar se determinado cristão era ou não de uma Igreja ortodoxa, não herética. Finalmente, o mais importante: a hospitalidade eucarística: as Igrejas apostólicas pronunciavam os nomes dos principais Bispos das Igrejas irmãs, os metropolitas, durante a Eucaristia, sacramento da unidade, e acolhiam fieis dessas outras Igrejas nas suas celebrações eucarísticas.
+++++

De tudo isso, então, eis a lição que devemos conhecer: visto que o Senhor Jesus Cristo enviou os Apóstolos para pregar, não se deve dar ouvidos a outros pregadores a não ser àqueles instituídos por Ele, uma vez que o Filho Se manifestou somente aos Apóstolos, os quais enviou para pregar o que havia revelado.
Mas qual era o tema de Sua pregação? Em outras palavras, o que Cristo lhes revelou?
Eu afirmo que não podemos conhecê-lo de outra forma a não ser por meio dessas mesmas Igrejas que os Apóstolos fundaram pessoalmente e que eles mesmos instruíram, seja por viva voz, seja por meio de cartas.

+++++
Observações minhas:
É importante notar como nunca se pensou em alguém simplesmente sair “pregando a Bíblia” ao seu bel-prazer! Nem mesmo existia um volume chamado Bíblia! A imprensa somente surgiu no século XV... Os pregadores verdadeiramente eclesiais, portadores da fé apostólica, recebiam sua fé da Igreja e pregavam a fé da Igreja, que é a fé apostólica. A Bíblia pela Bíblia, interpretada “livremente”, não transmite a fé apostólica e, muitas vezes, foi usada para sustentar o erro e a heresia! Como em tantas ocasiões tenho repetido: as Escrituras somente transmitem a verdadeira fé quando interpretadas na Igreja, no seio da Comunidade eclesial, que tem a garantia de ser sustentada pelo Espírito do Cristo ressuscitado.
É interessante a questão colocada por Tertuliano: O que Cristo pregou? O que ensinou aos Apóstolos? A resposta dele é simples, correta e surpreendente: pregou e ensinou aquilo que as Igrejas apostólicas vivem e ensinam. É preciso olhar o ensinamento delas, as Escrituras que elas usam e os costumes que elas aprovam. É o todo da vida dessas Igrejas, guiadas pelos legítimos pastores que sucedem aos Apóstolos, que revela a Tradição Apostólica, a fé viva e dinâmica “uma vez por todas confiada aos santos” (Jd 3).
+++++

Nessas condições, é claro que toda doutrina que esteja em acordo com a dessas Igrejas, matrizes e fontes originárias da fé, deve ser considerada autêntica, pois contém, evidentemente, aquilo que receberam dos Apóstolos, e que os Apóstolos receberam de Cristo, e Cristo, de Deus. 
Por outro lado, cada doutrina que esteja em contradição com a verdade da Igreja dos Apóstolos de Cristo e de Deus, deve ser, a priori, considerada proveniente da mentira.

+++++
Observações minhas:
Não há como fugir: ainda hoje este critério é sem apelo! É certo que não se pode desrespeitar a consciência ou as convicções de ninguém; mas, a verdade é objetiva e a regra da verdadeira fé encontra-se somente nas Igrejas de Deus que provêm dos Apóstolos sem alterações ou adulterações ou mutilações na sua profissão de fé! Esta verificação é sincrônica (com quem estamos em comunhão atualmente: com os Bispos legítimos, em comunhão entre si e com a Sé de Pedro?) e diacrônica (geração após geração, Domingo após Domingo, a verdadeira Igreja de Cristo, presidida pelos legítimos sucessores dos Apóstolos, celebrou e celebra a Eucaristia na potência do Espírito da Verdade e professou a sua fé apostólica)...
+++++

Resta, portanto, demonstrar que a nossa doutrina, da qual acima formulamos a regra, procede da Tradição apostólica e que, pela mesma razão, as outras provêm da mentira. 

Estamos em comunhão com as Igrejas apostólicas, porque a nossa doutrina não difere em nada delas: este é o sinal da verdade. A prova é tão simples que, uma vez exposta, se torna incontestável. 

Suponhamos que não a expusemos e permitamos que os nossos adversários produzam argumentos para a invalidar. Eles costumavam dizer que os Apóstolos não sabiam tudo; em seguida, inspirados pelo espírito de loucura, contradizem-se, declarando que os Apóstolos sabiam, sim, tudo, mas não o transmitiram. Em ambos os casos está implícita uma crítica a Cristo, por ter enviado Apóstolos ou mal instruídos, ou muito astutos. 

+++++
Observações minhas:
Os hereges sempre mudavam e adulteravam a reta fé apostólica argumentando (1) que os Apóstolos não tinham ensinado tudo e eles estariam agora completando esse ensinamento inspirados por Deus ou, então, (2) argumentavam que os Apóstolos não tinham ensinado tudo aos fiéis comuns, mas somente a um grupo restrito de perfeitos e esses perfeitos teriam transmitido aos que agora estavam ensinando essas novidades condenadas pela Igreja e seus Bispos... É a estas loucuras que Tertuliano responde a seguir...
+++++

Que homem sensato pode acreditar que ignoraram algo aqueles que Cristo nos deu como mestres, e que foram Seus companheiros, Seus discípulos, Seus amigos mais próximos?
Jesus, em privado, clareava-lhes toda a escuridão, dizendo que a eles era dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas ao povo não (cf. Mt 13,11).
Poderia ignorar algo Pedro, a pedra sobre a qual deveria ser edificada a Igreja, ele que recebeu as chaves do Reino do Céus, com o poder de ligar e desligar no céu e na terra? 
Poderia ignorar algo João, ele, o amado pelo Senhor, que repousava em Seu peito, o único a quem o Senhor indicou Judas como o futuro traidor, e que entregou a Maria como filho em Seu lugar?
Também ignoraram algo aqueles a quem, depois da Ressurreição, Ele Se dignou explicar, ao longo do caminho, todas as Escrituras? 

É verdade que um dia Ele disse: Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Mas acrescentou também: Quando vier o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade (Jo 16,12-13). Demonstra, assim, que nada ignoraram aqueles a quem prometia a posse de toda a verdade, por meio do Espírito da Verdade. Promessa mantida, conforme os Atos dos Apóstolos, que atestam a descida do Espírito Santo. 

+++++
Observações minhas:

O raciocínio do nosso Autor está correto: o Senhor nosso Jesus Cristo revelou o essencial da fé e da doutrina aos Doze primeiros. Ali estava o essencial, depois desenvolvido pela ação do Espírito Santo, derramado sobre a Igreja no Pentecostes. E aqui cumpre uma distinção muito importante: pela ação do Espírito de Cristo ressuscitado, tudo quanto os Doze e a geração apostólica ensinaram sob a ação do Espírito é fundante para a Igreja e não pode ser alterado! A partir de então, o Espírito continua agindo na Igreja, sob o pastoreio dos legítimos sucessores dos Apóstolos, fazendo-a compreender e aprofundar sempre mais aquilo que recebeu do Senhor através dos Apóstolos e da geração apostólica, falando sempre a mesma fé apostólica de modo sempre fiel e sempre novo a cada geração e a cada situação onde o Evangelho é anunciado e a Igreja se encontra!



domingo, 3 de junho de 2018

O Reino de Deus em nós

Deus, que disse: “Do meio das trevas brilhe a luz”, é o mesmo que fez brilhar a Sua luz em nossos corações, para tornar claro o conhecimento da Sua Glória na Face de Cristo. Ora, trazemos esse tesouro em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós.
Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia;
postos entre os maiores apuros, mas sem perder a esperança;
perseguidos, mas não desamparados;
derrubados, mas não aniquilados;
por toda parte e sempre levamos em nós mesmos os sofrimentos mortais de Jesus, para que também a Vida de Jesus seja manifestada em nossos corpos.
De fato, nós, os vivos, somos continuamente entregues à morte, por causa de Jesus, para que também a Vida de Jesus seja manifestada em nossa natureza mortal (2Cor 4,6-11).

Comentando:

Texto estupendo! Serviu de segunda leitura para a Missa deste IX Domingo Comum...
Primeiramente, São Paulo compara a conversão a Cristo com a criação: como o Senhor Deus dissera “Faça-se a luz...”e criou tudo, dissipando as trevas, assim também, no coração daquele que se converte a Cristo, tudo é recriado: “Se alguém  está em Cristo é criatura nova. Passaram as coisas antigas; eis que se fez realidade nova!” (2Cor 5,17)A conversão ao Cristo Jesus – que certamente exige a fé e o Batismo, sacramento da fé – não somente nos torna justos diante de Deus de modo nominal, exterior, como também nos recria, nos renova realmente: somos novas criaturas!

Mas, como se dá tal renovação?
O Espírito de Cristo, recebido no Batismo, de tal modo habita em nós, que nos tornamos um reflexo da Glória que rebrilha na Face do próprio Cristo ressuscitado! Esta Glória é o próprio Espírito Santo. São Paulo o afirma um pouco antes, em 4,17-18: “O Senhor é o Espírito... E nós todos, que, com a face descoberta, contemplamos como num espelho a Glória do Senhor, somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente, pela ação do Senhor, que é Espírito”. Texto impressionante! O Senhor ressuscitado é pleno do Espírito Santo; Ele é como um sol reluzente de Espírito Santo e Seus raios, Seu calor, Seu resplendor, nos vai cada vez mais impregnando, incandescendo, transfigurando, nos espirituando! É esta a nova criação de que fala São Paulo no texto mais acima! A luz da Face do Cristo, o fulgor do Espírito vai nos impregnando, de modo que conhecemos, isto é, experimentamos intimamente, saboreamos, a verdadeira Vida divina, que resplandece no Cristo ressuscitado!

Assim, cheio da Vida de Cristo, cheio de Sua Glória, da Sua Força, que é o Santo Espírito – e Ele é consolo, vigor, ânimo, coragem, alegria, conhecimento, entendimento –, o cristão, sobretudo o ministro do Evangelho, tem forças para suportar tudo: “Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos entre os maiores apuros, mas sem perder a esperança; perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados”...E por quê? Porque, no Espírito de Cristo, tudo se torna morte com Cristo e vida com Cristo, tudo se torna participação na Páscoa de Cristo; tudo se torna pascal: “por toda parte e sempre levamos em nós mesmos os sofrimentos mortais de Jesus, para que também a Vida de Jesus seja manifestada em nossos corpos. De fato, nós, os vivos, somos continuamente entregues à morte, por causa de Jesus, para que também a Vida de Jesus seja manifestada em nossa natureza mortal”.

Esta é a dinâmica da vida de todo cristão; é o centro mesmo da experiência cristã neste mundo; em outras palavras: para isto somos cristãos! Tudo nele, no cristão,  é transfigurado, tudo nele é cristificado, tudo nele tem o sabor e o sentido do Cristo em Seu mistério de Morte e Ressurreição, até que, no momento de sua saída deste mundo, o discípulo, depois de morrer na Morte de Cristo, possa ser totalmente configurado ao Cristo no Seu mistério de Glória, na Ressurreição do Cristo.

Certamente, o mundo jamais poderá experimentar ou compreender esta tremenda realidade! Somente o cristão – e cristão que verdadeiramente procura viver unido ao Senhor por uma vida santa e sacramental – poderá experimentar concretamente este tremendo mistério de cristificação, mistério de participação íntima e intensa da Páscoa do Senhor em si!

Esta é nossa herança! Esta é nossa certeza! Esta é nossa alegria! Este é o sentido da nossa vida! Esta é a bendita presença do Reino de Deus em nós!